O destino de Jerusalém nas negociações israelo-palestinas

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O destino de Jerusalém nas negociações israelo-palestinas

Carmen Lícia Palazzo de Almeida

Cidade sagrada para os três grandes grupos religiosos monoteístas – cristão, muçulmano e judeu – Jerusalém carrega o peso das lutas registradas na memória de uma boa parte da humanidade há quase três mil anos. Saques, destruição, cobiça e intransigência têm marcado a história desta pequena área de deserto, semeada de pedras, inóspita e no entanto disputada com ardor por civilizações que, em algum momento, ambicionaram a hegemonia regional ou ali buscaram refúgio contra as perseguições e os massacres.

Atualmente Jerusalém constitui um dos problemas mais sérios a serem resolvidos quando o processo de paz no Oriente Médio já estiver mais adiantado. Reivindicada como capital histórica por judeus e palestinos, concentra em seu pequeno espaço uma população dividida e ciosa de suas raízes na região.

Os hebreus, originariamente tribos nômades que, por motivos historicamente não conhecidos, engajaram-se a serviço dos faraós, deixaram definitivamente o Egito entre 1279 e 1209 antes de Cristo, retornando então em diversas levas e épocas diferentes ao deserto. Este retorno passou a ser transmitido pela memória judaica como a história de um êxodo único, organizado por Moisés. Em torno de 1030 a.C., as diversas tribos de hebreus já se encontravam sedentarizadas na "Terra de Israel" e até 931 a.C., os reis Saul, depois Davi e Salomão, governaram um reino unificado, dividido após a morte de Salomão em reino de Judá e de Israel. Com a tomada de Samaria pelos assírios, em 722 a.C. e de Jerusalém, em 587 a.C., chegava ao final o primeiro Estado hebreu, que viria a ser constantemente resgatado na evocação da Terra Prometida.

Seguiram-se o exílio dos judeus na Babilônia, a expansão persa, o novo retorno dos hebreus e o estabelecimento de uma nação na Judéia, tendo como centro principal justamente a cidade de Jerusalém. Ocorreram outros domínios, invasões, destruições, numa região onde o solo pedregoso, o tamanho do deserto e sobretudo a exigüidade das terras aptas à sobrevivência serão parte importante num estado de luta quase permanente. De 63 a.C. até o ano 313 da era cristã a hegemonia foi romana. De 313 a 636 o Império Bizantino expandiu-se até as terras que os romanos haviam denominado Palestina e, cinco anos após a morte de Maomé, os muçulmanos conquistaram Jerusalém, no início de 637. Os Cruzados, cristãos latinos, invadiram-na em 1099, massacrando muçulmanos e judeus e, em 1187, Saladino a recupera. A dinastia otomana, iniciada em 1517, construiu as muralhas que permanecem até hoje. Em 11 de dezembro de 1917, os turcos entregaram Jerusalém ao general inglês Edmund Allenby. Seguiu-se, após a Segunda Guerra, a criação do Estado de Israel e o início do conflito de partilha do território que, após muitos percalços, chegou a um ponto no qual existe ao menos a possibilidade de se encontrar uma solução negociada.

O enfoque cronológico é importante para situar o impressionante cruzamento de culturas em tão exíguo território, levando a um estado de conflitos latentes que datam não de séculos, mas de milênios.

Embora a atual disputa pela hegemonia regional seja entre judeus e palestinos, a cidade de Jerusalém é geograficamente dividida em pelo menos quatro comunidades principais, possuindo bairros muçulmano, armênio, judaico e cristão de predominância latina. A exclusão não é, portanto, apenas religiosa, mas se reveste de caráter nacionalista, com raízes em inúmeros contenciosos não resolvidos no passado. Constantes rixas e afrontamentos mais sérios já envolveram os distintos grupos cristãos que compartilham o Santo Sepulcro, especialmente os coptas, sírios, armênios, gregos e latinos.

O peso da intolerância é muito claro neste pedaço de terra onde os particularismos se afrontam a cada momento e onde o dia-a-dia gira em torno de duas forças dificilmente redutíveis a comportamentos racionais: a fé e o nacionalismo.

Neste quadro explosivo coloca-se um problema político a ser resolvido em breve: o destino de Jerusalém quando a paz no Oriente Médio já estiver em vias de ser estabelecida. O grupo cristão politicamente ativo tem procurado evitar a conotação religiosa em sua militância pelos direitos palestinos e atua vinculado à OLP, que assume uma posição bastante pragmática. Entre os judeus há os que preferem descartar o caráter místico e mítico de Jerusalém em função de uma negociação viável a curto prazo. Mas há também os que passaram à ofensiva, como é o caso do atual governo, que incentiva as novas construções de modo que, no momento de uma decisão sobre a eventual partilha territorial, não haja dúvidas quanto ao maior peso numérico dos judeus.

Alguns projetos específicos, no entanto, já demonstraram que o pragmatismo pode render bons frutos para o conjunto da população. Recentemente foi levantada a possibilidade de investimentos na área de turismo, com uma colaboração tripartite de Israel, dos palestinos e da Jordânia, visando o desenvolvimento da região do Mar Morto.

Jerusalém permanece, porém, como um enigma cuja solução ainda não foi encontrada. A internacionalização da cidade, proposta pela ONU em 1947 e endossada pelo próprio Ben Gurion, não chegou a se concretizar em virtude do estado de guerra quase permanente após a independência de Israel. Atualmente é pouco provável que seja efetivamente adotada, pois implicaria no engajamento de outros países em um momento difícil para as relações internacionais. No entanto, a partilha pura e simples está longe de ser aceita por ambas as partes.

O caminho mais razoável parece ser o que conduz a uma laicização do problema. Enquanto a discussão sobre o destino de Jerusalém se revestir de um caráter religioso, buscando raízes históricas para justificar comportamentos fundamentalistas tanto do lado palestino quanto do judeu, certamente não se encontrará uma solução definitiva.

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    06 Out 2008
  • Data do Fascículo
    Dez 1997
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