Introdução às Relações Internacionais: temas, atores e visões

RESENHA

PECEQUILO, Cristina Soreanu. Introdução às Relações Internacionais: temas, atores e visões. Petrópolis: Vozes, 2004, 248 p. ISBN: 85-3262-958-X

O número de cursos de Relações Internacionais no Brasil, tanto de graduação quanto de pós-graduação, cresceu rapidamente nos últimos anos. A ampliação da área acadêmica das Relações Internacionais do Brasil reflete a necessidade de formar profissionais habilitados a lidar com questões internacionais, uma demanda tanto da iniciativa privada quanto de órgãos públicos nas mais diversas esferas. Entretanto, como em qualquer área que cresce rapidamente, existem muitos desequilíbrios e carências, verificados principalmente no ensino de graduação em Relações Internacionais.

O livro da Profª Cristina Pecequilo dedica-se a fazer uma introdução às Relações Internacionais, partindo de experiências concretas de ensino e pesquisa na área, durante as quais a autora se deparou, por parte de alunos e professores, com um grande conjunto de dúvidas e dificuldades. Tal conjunto era composto de indagações que englobavam temas como o ponto de partida do estudo das Relações Internacionais, as questões sobre o exercício da profissão e a bibliografia adequada para o ensino. Do ponto de vista teórico, a autora busca mapear os principais conceitos, fundamentos e teorias das Relações Internacionais, indicando as várias possibilidades analíticas de interpretação.

O livro está dividido em cinco capítulos. No primeiro, a autora procura definir o campo de estudos e de atuação profissional, construindo o objeto, a disciplina e o mercado de trabalho. A autora define como objeto de estudo das Relações Internacionais os atores, acontecimentos e fenômenos que existem e interagem no sistema internacional. Para ela, foi o crescimento e expansão do seu objeto de estudo, o internacional, que gerou a própria necessidade da disciplina Relações Internacionais. Entretanto, as Relações Internacionais são uma "disciplina multidisciplinar", formada por conceitos provenientes de outras áreas e orientada em torno de diversos eixos temáticos das Ciências Sociais. Para finalizar o capítulo, a autora realiza um balanço do ensino e do mercado de trabalho no Brasil, constatando seus principais impasses e desafios.

No segundo capítulo, a autora trata da Sociologia das Relações Internacionais, definindo o sistema, os atores e o meio internacional. O sistema internacional é compreendido como o meio no qual se processam as relações entre os diferentes atores que compõem o conjunto das interações sociais que se processam na esfera do internacional. Os atores são divididos entre estatais e não-estatais. A autora descreve a formação histórica do Estado, principal ator das Relações Internacionais, discutindo a emergência de novos atores não-estatais, como as Organizações Internacionais Governamentais e Intergovernamentais, e as diversas forças transnacionais, como as empresas multinacionais e organizações não-governamentais. Já o meio internacional aponta quais são os fatores que regem o sistema global. Para evitar determinismos explicativos, afirma que os fatores que influenciam o sistema internacional são diversos, podem se combinar e dependem de conjunturas específicas e da atuação dos atores. Cita, ainda, cinco fatores que podem ser destacados como importantes no quadro das Relações Internacionais: natural, demográfico, econômico, tecnológico e ideológico.

O terceiro capítulo é dedicado à análise das teorias das Relações Internacionais. Em linhas gerais, a autora trabalha com a idéia de que essa área do conhecimento se orienta segundo dois eixos básicos: o da cooperação e o do conflito. Em termos teóricos, esses eixos se dividem em três principais correntes o realismo, o liberalismo e o marxismo , e cada uma delas, com base em suas concepções, definirá seu foco e suas principais variáveis. As Relações Internacionais, como um campo multidisciplinar, não tem um corpo teórico-metodológico claro. Entretanto, o reconhecimento dessa dificuldade também demonstra seu dinamismo, pois a existência de diversas teorias gerais e também parciais contribui para enriquecer as análises dos fenômenos internacionais.

No quarto capítulo, Cristina Pecequilo trabalha com o debate atual e os novos temas nas Relações Internacionais, marcados pela atualização constante da agenda e também por transformações importantes no sistema internacional. Nesse sentido, as alterações provocadas pelo fim da Guerra Fria, pelos efeitos da Revolução Científico-Tecnológica e da globalização têm alterado também o debate teórico das Relações Internacionais e recomposto os temas de investigação. Nesse sentido, a autora discorre sobre alguns temas centrais no mundo pós-Guerra Fria, como o debate sobre o fim da História e o choque de civilizações. A autora também trabalha com as alternativas da esquerda após o fim da União Soviética, como a discussão em torno da economia socialista de mercado e a idéia de um paradigma de desenvolvimento asiático. Nas alternativas do lado ocidental, a autora analisa a Terceira Via como uma visão intermediária entre o neoliberalismo e as práticas de esquerda. Por outro lado, a autora trabalha com os movimentos anti-globalização e com o Fórum Social Mundial, como um movimento novo de repensar o marxismo e procurar alternativas à hegemonia neoliberal. Também fazem parte da agenda internacional as conferências internacionais da ONU discutindo temas globais como Direitos Humanos, meio ambiente e desenvolvimento social e as questões relativas à segurança internacional.

No quinto e último capítulo, a autora elenca como desafios teóricos e práticos das Relações Internacionais os impasses e constrangimentos internos para a formação da agenda internacional brasileira. Sobre a política externa brasileira, a autora analisa alguns de seus traços gerais e esboça alguns dos desafios da inserção internacional do Brasil no século XXI. Assim, a autora oferece, sobretudo, uma leitura brasileira acerca das Relações Internacionais, em um livro acessível e de fácil compreensão para iniciantes e iniciados. Os profissionais experientes também poderão utilizar o livro como uma sistematização útil, que fará repensar algumas classificações e conclusões sobre o tema. Dessa forma, certamente esse livro será rapidamente incorporado aos programas de disciplinas de Relações Internacionais nas universidades.

O livro constitui o primeiro título da Coleção Relações Internacionais, coordenada pelo Prof. Paulo Fagundes Vizentini e editada pela Editora Vozes. Além de cobrir os grandes temas curriculares dos cursos de Relações Internacionais, a coleção pretende colaborar para a redução da lacuna bibliográfica, com uma linguagem acessível e instrumentos de apoio para estudantes e professores da disciplina, como mapas e glossários. Nessa mesma coleção, já foi lançado também o livro Relações Exteriores do Brasil (1945-1964) de Paulo Vizentini. Estão previstos os lançamentos de História das Relações Internacionais, século XIX de Antônio Carlos Lessa; História das Relações Internacionais II, século XX de Christian Lohbauer; Política Internacional Contemporânea de José Augusto Guilhon Albulquerque; Relações Exteriores do Brasil (1964-1985) de Paulo Vizentini; eRelações Exteriores do Brasil (de 1985 aos dias atuais) de Rubens Ricúpero; entre outras obras que completarão a Coleção, tratando das Relações Internacionais da Ásia, África e América Latina.

André Luiz Reis da Silva

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    08 Ago 2008
  • Data do Fascículo
    Jun 2004
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