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Brazil's Second Chance: En Route toward the First World

INFORMAÇÃO

RESENHAS

Paulo Roberto de Almeida

GORDON, Lincoln. Brazil's Second Chance: En Route toward the First World. Washington: Brookings Institution Press, 2001, xviii+243 p.

Mr. Gordon, um americano conhecido direta ou indiretamente de todos os brasileiros que estudaram nossa route para a ditadura militar, é um simpático e atento espectador de todos os encontros sobre o Brasil realizados na capital do império americano. Com mais de 45 anos dedicados aos estudos sobre o Brasil, ele deve ser considerado um intérprete realista do itinerário econômico e político brasileiro das últimas décadas, e, a julgar pelo livro aqui resenhado, um crítico sincero de questões sociais tão velhas quanto a República.

A Segunda Chance do Brasil estava no forno há pelo menos uma década e meia. Como confessa o próprio Mr. Gordon, as chances desse livro ser concluído tinham simplesmente desaparecido do cenário durante a década perdida de desarticulação macroeconômica dos anos oitenta e começo dos noventa. Ele foi salvo pelo rum creosotado do Plano Real, que devolveu ao país a esperança de sonhar com a retomada do crescimento e de aspirar ao eventual salto para o Primeiro Mundo, na interpretação do antigo embaixador americano nos governos João Goulart e Castelo Branco. Para aqueles que esperam ver no livro novas revelações sobre o envolvimento americano no golpe militar de 1964, a impressão é de um déjà vu again, pois o texto, a despeito de um relato circunstanciado dos eventos que levaram ao golpe, contempla, como documentos novos, tão somente uma troca de telegramas, nos dias 30 e 31 de março daquele ano, sobre as expectativas de Washington e a disposição da Embaixada no Rio de Janeiro em garantir um mínimo de legitimidade política aos conspiradores brasileiros contra Goulart, o que habilita Gordon a reafirmar sua convicção de que o golpe foi "100% brasileiro".

A obra não trata, contudo, dessa conjuntura ou das peripécias políticas e militares das últimas décadas, mas sim do processo estrutural de desenvolvimento brasileiro na era republicana, com ênfase nos aspectos econômicos e políticos (inclusive no que se refere à política externa) e nas dimensões sociais que permearam a experiência histórica do Brasil desde a época da "primeira chance" – grosso modo a era Kubitschek – até a atual, e ainda aberta, janela da "segunda chance" das administrações Fernando Henrique Cardoso. O livro é uma discussão exaustiva das razões que impediram o Brasil de atingir o status de nação desenvolvida naquela primeira fase e dos requerimentos colocados à sua sociedade e elites políticas para que ele possa fazê-lo na atual. O julgamento de Mr. Gordon não faz concessões às aparências: enganam-se aqueles que julgam que seu livro poderia mostrar complacência com os militares que derrubaram o populista Goulart e que pretendiam, justamente, alçar o Brasil à condição de grande potência, mediante doses maciças de investimento pesado e de boa receptividade ao capital estrangeiro. Faltou ao Brasil militar um dos ingredientes que Mr. Gordon julga indispensáveis ao status de nação do Primeiro Mundo: a democracia política.

O fracasso da era militar foi de natureza política e o da Nova República, de Sarney a Collor, foi de caráter econômico, pois que o populismo social da Constituição de 1988 e o quadro de inflação crônica vivido até 1994 impediram o Brasil de realizar sua segunda chance de desenvolvimento. Os resultados das eleições de 2002 podem determinar, segundo Mr. Gordon, se o Brasil conseguirá alcançar o que ele chama de "full first world status", ou se o país continuará patinando na trajetória errática dos "trancos e barrancos". O livro de Mr. Gordon apresenta uma rigorosa análise econômica e um sensato diagnóstico político sobre os quatro grandes desafios estruturais enfrentados pelo Brasil na presente conjuntura: consolidar a estabilidade macroeconômica, reduzir o grau anormalmente elevado de desigualdade social e de pobreza, continuar o ativo processo de inserção internacional e de engajamento na globalização e persistir na reforma das instituições políticas, pouco funcionais para os requisitos do desenvolvimento integrado de um país tão complexo e diversificado como o Brasil.

Mr. Gordon tem um grande respeito pela racionalidade intrínseca dos dados numéricos – ele já era professor de relações econômicas internacionais em Harvard desde os anos 30, quando metade da atual população brasileira ainda não tinha nascido – e tampouco acredita que fórmulas políticas bem sucedidas num determinado contexto social (como o dos EUA) sejam transplantáveis a um outro cenário institucional. Ele conhece bem o Brasil, os brasileiros e os diferentes autores que ao longo dos anos foram acumulando "explicações" sobre as razões de nosso fracasso ou da não repetição do bem sucedido experimento americano de desenvolvimento econômico e tecnológico e de relativa inclusão social. Leitor de Viana Moog, ele conhece a diversidade de raízes culturais e pode, por isso mesmo, reconhecer no Brasil e nos brasileiros a capacidade de realizar nossa própria modalidade de ascensão ao Primeiro Mundo. Seu livro é verdadeiramente equilibrado e completo e, se lido com a isenção que a distância de 1964 nos recomenda, pode ser uma excelente fonte de reflexões para todos nós, de gerações pré-golpe e pós-golpe militar, que pensamos em colocar o Brasil, não no primeiro, mas num mundo mais desenvolvido e humano como gostariam todos os brasileiros.

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    01 Set 2008
  • Data do Fascículo
    Jun 2001
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