A saúde mental das mulheres em tempos da COVID-19

Alex Sandro Rolland Souza Gustavo Fonseca de Albuquerque Souza Gabriella de Almeida Figueredo Praciano Sobre os autores

Há aproximadamente nove meses, a população mundial começou a ter experiências negativas quanto à disseminação de um vírus respiratório, denominado síndrome respiratória aguda grave coronavírus 2 (SARS-CoV-2). Esse vírus é o agente etiológico da COVID-19, doença considerada responsável por um dos piores surtos vivenciados pela humanidade. 11 Senicato C, Azevedo RCS, Barros MBA. Transtorno mental comum em mulheres adultas: identificando os segmentos mais vulneráveis. CiêncSaúdeColetiva. 2018; 23: 2543-54. Não tardiamente, a pandemia da COVID-19 acometeu as mais diversas camadas sociais do Brasil, o qual foi o primeiro país da América Latina com caso relatado. 11 Senicato C, Azevedo RCS, Barros MBA. Transtorno mental comum em mulheres adultas: identificando os segmentos mais vulneráveis. CiêncSaúdeColetiva. 2018; 23: 2543-54.

Devido à acentuada transmissibilidade, morbidade e mortalidade associadas à escassez de conhecimento sobre a patogênese do vírus e de tratamentos eficazes, medidas e recomendações preventivas foram instaladas para conter a disseminação da doença. 22 Pessa VE, Cruz Vaz CDL, Luz LS, Silva Pereira MF, Lazzerini M. COVID-19 among health workers in Brazil: the silent wave. J Glob Health. 2020; 10: 010379. A restrição do convívio social, representada pelo distanciamento social, o uso obrigatório de máscaras e a higienização frequente das mãos, foram algumas das ferramentas utilizadas, variando de intensidade de acordo com as políticas de saúde de cada governo. 11 Senicato C, Azevedo RCS, Barros MBA. Transtorno mental comum em mulheres adultas: identificando os segmentos mais vulneráveis. CiêncSaúdeColetiva. 2018; 23: 2543-54.

Acerca desse contexto de mitigação social, sentimentos de medo e angústia decorrentes da pandemia são aflorados e, interligados ao anseio de uma possível infecção, tornam-se gatilhos para manifestações clínicas de psicopatologias. 33 Thapa SB, Mainali A, Schwank SE, Acharya G. Maternal mental health in the time of the COVID-19 pandemic. Acta ObstetGynecol Scand. 2020; 99: 817-8. Por outro lado, dentre os impactos da presença de distúrbios psíquicos, encontra-se o comprometimento da qualidade de vida, resultante da redução ou perda completa da produtividade nas atividades diárias e/ou na manutenção das relações sociais. 33 Thapa SB, Mainali A, Schwank SE, Acharya G. Maternal mental health in the time of the COVID-19 pandemic. Acta ObstetGynecol Scand. 2020; 99: 817-8. Dessa forma, pode-se considerar que transtornos mentais e distanciamento social possuem uma relação de causa e efeito de forma bidirecional.

Pesquisas recentes têm evidenciado maior prevalência de sintomatologia para estresse, ansiedade e depressão na população feminina durante a pandemia da COVID-19. Antes da variável distanciamento social, a vulnerabilidade emocional feminina estava tanto vinculada com as alterações hormonais durante o período pré-menstrual, pré e pós parto e menopausa, quanto com as desigualdades de gênero, as quais fortalecem sobrecargas trabalhistas e a violência contra a mulher. 33 Thapa SB, Mainali A, Schwank SE, Acharya G. Maternal mental health in the time of the COVID-19 pandemic. Acta ObstetGynecol Scand. 2020; 99: 817-8. Paralelamente à consolidação das restrições sociais, os índices de violência doméstica, sexual e de gravidez indesejada cresciam1 em decorrência da maior permanência do homem no lar, o que contribui para a significativa prevalência de quadros clínicos psíquicos nas mulheres durante esse período.

Ademais, destacam-se como variáveis possivelmente de risco para o comprometimento da saúde-mental da população feminina durante o distanciamento social: ser adulta jovem, residir em regiões com elevados índices de casos e mortalidade da COVID-19, possuir antecedentes de ansiedade e depressão, fazer uso de medicamentos, atividade física e lazer reduzidos ou ausentes e encontrar-se desempregada.

Diante do significativo impacto da COVID-19, governos mundiais estão priorizando a consolidação de medidas de controle e combate dessa nova doença e, apesar da efetividade desses recursos, efeitos advindos indiretamente da pandemia estão sendo ofuscados, como o comprometimento da saúde-mental no público feminino. Portanto, salienta-se quanto a necessidade da criação de estratégias proativas de caráter multiprofissional, a fim de abranger e individualizar os múltiplos fatores que exercem influência sobre a saúde mental das mulheres.

Em razão da acentuada ausência ou falha no diagnóstico e tratamento das mulheres acometidas por transtornos mentais e da elevada recorrência desses distúrbios em portadoras prévias, destaca-se a necessidade de serviços especializados e que ofereçam cuidados de fácil acesso. 33 Thapa SB, Mainali A, Schwank SE, Acharya G. Maternal mental health in the time of the COVID-19 pandemic. Acta ObstetGynecol Scand. 2020; 99: 817-8. Sugere-se ampliação de teleconsultas com psicólogos e psiquiatras, porém, medidas alternativas devem ser oferecidas às pacientes que não possuem aces

so aos meios digitais. Dessa forma, frisamos a necessidade de investimentos também no gerenciamento psíquico desse público alvo.

A crise advinda da pandemia do novo coronavírus repercutiu, além de déficitsno sistema de saúde, em aumento do desemprego e cortes salariais. Sabe-se que instabilidades econômicas são situações que predispõem o surgimento de transtornos mentais, 44 Mattos D. O impacto do desemprego e a saúde psicossocial. Psicologia.pt. 2018: 1-14. Disponível: https://www.psicologia.pt/arti-gos/textos/A1165.pdf
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o que torna relevante a implementação de estratégias que amenizem esses impactos, através de cursos onlinede capacitação para pequenas empreendedoras, estratégias de auxílios as já existentes, além de medidas trabalhistas que assegurem o emprego das mulheres.

Atrelado a isso, atividades que melhoram a qualidade de vida e previnam transtornos mentais, como exercícios físicos e atividades de lazer, são menos prevalentes entre as mulheres, em decorrência, especialmente, da sobrecarga de funções associadas à dupla jornada de trabalho.5 Sendo assim, os novos conceitos interligados a funcionalidade da mulher sugerem adequações das atividades impostas dentro dos núcleos familiares, como divisão dos papéis domésticos entre os membros, 55 Pinho PS, Araújo TM. Associação entre sobrecarga doméstica e transtornos mentais comuns em mulheres. Rev Bras Epidemiol. 2012;15:560-72. o que reduziria a carga laboral, facilitando a realização de atividades de lazer e práticas de exercícios físicos. Dessa forma, seja por meio de programas e aulas online ou presencial com educadores físicos, fisioterapeutas, terapeutas ocupacionais e outros profissionais capacitados, desde que sejam respeitadas as medidas restritivas, deveriam ser estimuladas.

Devido ao maior tempo de dedicação aos estudos, ausência de relacionamentos estáveis e formação de um núcleo familiar tardio, pesquisadores têm reconhecido a faixa etária de 18 a 29 anos como um importante período de desenvolvimento e transição. 66 Arnett JJ, Žukauskienė R, Sugimura K. The new life stage of emerging adulthood at ages 18-29 years: implications for mental health. Lancet Psychiatry. 2014; 1: 569-76. Essa condição de vida do adulto jovem associada às cobranças socialmente impostas a função da mulher e a maior tendência de experimentarem transtornos de humor, influenciam para que haja maior prevalência de psicopatologias entre as mulheres jovens. 66 Arnett JJ, Žukauskienė R, Sugimura K. The new life stage of emerging adulthood at ages 18-29 years: implications for mental health. Lancet Psychiatry. 2014; 1: 569-76. Diante desse quadro, atenção especial deve ser direcionada a essa população, uma vez que apresentam significativa prevalência e recorrência, alongo prazo, de desenvolverem transtornos mentais, além do suicídio.

Estudos evidenciam que a insônia apresenta índices mais altos entre as mulheres e acentua-se à medida que envelhecem. 77 Salk RH, Hyde JS, Abramson LY. Gender differences in depression in representative national samples: Meta-analyses of diagnoses and symptoms. Psychol Bull. 2017; 143: 783-822. Embora existam incertezas quanto a relação causal entre os distúrbios do sono e os psiquiátricos, acredita-se que a insônia, além de ser um sintoma típico de psicopatologias, seja também um preditor para depressão e outras enfermidades mentais. 77 Salk RH, Hyde JS, Abramson LY. Gender differences in depression in representative national samples: Meta-analyses of diagnoses and symptoms. Psychol Bull. 2017; 143: 783-822. Diante da crescente frequência do não diagnóstico, subtratamento, tratamento inadequado e agravamento dos distúrbios do sono durante a pandemia da COVID-19, medidas preventivas e de reconhecimento precoce devem ser elaboradas, como a identificação dos fatores precipitantes e avaliações através de autorrelato. Recomenda-se, como tratamento de primeira escolha, a terapia cognitiva-comportamental, a qual deve ser mais disponibilizada, uma vez que seus efeitos benéficos, em contraste aos produzidos por medicamentos, atuam a longo prazo. 88 Everitt H, Baldwin DS, Stuart B, Lipinska G, Mayers A, Malizia AL, Manson CC, Wilson S. Antidepressants for insomnia in adults. Cochrane Database Syst Rev. 2018; 5:CD010753.

À medida que mais informações sejam obtidas sobre os fatores associados à saúde mental da mulher durante a pandemia da COVID-19, estratégias multidisciplinares poderão ser consolidadas como guias para melhores decisões sobre diagnósticos, condutas terapêuticas e prevenção de novos casos. Deve-se também estar atento ao retorno das políticas públicas de saúde mental, considerando o “novo normal” no atendimento a essas mulheres, a fim de não prolongar o diagnóstico e início do tratamento.

Referências bibliográficas

  • 1
    Senicato C, Azevedo RCS, Barros MBA. Transtorno mental comum em mulheres adultas: identificando os segmentos mais vulneráveis. CiêncSaúdeColetiva. 2018; 23: 2543-54.
  • 2
    Pessa VE, Cruz Vaz CDL, Luz LS, Silva Pereira MF, Lazzerini M. COVID-19 among health workers in Brazil: the silent wave. J Glob Health. 2020; 10: 010379.
  • 3
    Thapa SB, Mainali A, Schwank SE, Acharya G. Maternal mental health in the time of the COVID-19 pandemic. Acta ObstetGynecol Scand. 2020; 99: 817-8.
  • 4
    Mattos D. O impacto do desemprego e a saúde psicossocial. Psicologia.pt. 2018: 1-14. Disponível: https://www.psicologia.pt/arti-gos/textos/A1165.pdf
    » https://www.psicologia.pt/arti-gos/textos/A1165.pdf
  • 5
    Pinho PS, Araújo TM. Associação entre sobrecarga doméstica e transtornos mentais comuns em mulheres. Rev Bras Epidemiol. 2012;15:560-72.
  • 6
    Arnett JJ, Žukauskienė R, Sugimura K. The new life stage of emerging adulthood at ages 18-29 years: implications for mental health. Lancet Psychiatry. 2014; 1: 569-76.
  • 7
    Salk RH, Hyde JS, Abramson LY. Gender differences in depression in representative national samples: Meta-analyses of diagnoses and symptoms. Psychol Bull. 2017; 143: 783-822.
  • 8
    Everitt H, Baldwin DS, Stuart B, Lipinska G, Mayers A, Malizia AL, Manson CC, Wilson S. Antidepressants for insomnia in adults. Cochrane Database Syst Rev. 2018; 5:CD010753.

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    30 Out 2020
  • Data do Fascículo
    Jul-Sep 2020
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