A Revista Brasileira de Saúde Ocupacional (RBSO) foi criada em 1973. Lançada pela Fundação Jorge Duprat Figueiredo de Segurança e Medicina do Trabalho (Fundacentro) como etapa da consecução de suas finalidades, veio suprir a lacuna, no campo da “Saúde Ocupacional no Brasil”, de um veículo de divulgação e informação sobre diversos temas relacionados à prevenção dos acidentes de trabalho1.
A partir de então, a revista evoluiu, se consolidando como periódico científico destinado “à difusão de artigos originais de pesquisas sobre Segurança e Saúde do Trabalhador (SST)”. Foram publicados mais de 1.500 artigos, que contribuíram tanto para o conhecimento sobre as condições de trabalho, quanto para a prevenção de acidentes e doenças relacionadas ao trabalho. Durante meio século, os estudos e as reflexões divulgadas pela RBSO forneceram elementos para o debate acadêmico e social, de maneira a estimular a formulação de políticas públicas atinentes ao conteúdo problematizado em diferentes fóruns2.
É possível analisar a história da RBSO considerando pelo menos três distintos períodos: (i) até a década de 1980, como veículo oficial da Fundacentro, esteve voltada para a difusão de conhecimentos sobre a prevenção de acidentes; (ii) entre 1980 até o início do século XXI, constata-se expansão do foco para as relações entre trabalho e saúde. Foram publicados resultados de abordagens qualitativas e quantitativas, além de técnicas de pesquisas que caracterizam campos disciplinares específicos, como medicina do trabalho, higiene, epidemiologia ocupacional, ergonomia e psicologia do trabalho; e (iii) articulada à plataforma dos periódicos nacionais, nos últimos 20 anos, alcançou maior visibilidade e manteve seu escopo aberto aos diferentes campos disciplinares que conformam a saúde do trabalhador. Nos anos recentes, o esforço empreendido na construção de sua política editorial consolidou sua independência editorial2.
Em 2023, a RBSO completará 50 anos de existência. Para celebrar a trajetória da revista neste importante marco histórico, a equipe editorial e a secretaria executiva da revista trabalham em diversas frentes, que serão elencadas a seguir.
Durante evento realizado pela Fundacentro em abril de 2022, no Dia Mundial da Segurança e Saúde no Trabalho e em Memória das Vítimas de Acidentes e Doenças relacionadas ao Trabalho, foi lançado o selo comemorativo dos 50 anos da RBSO (Figura 1), com o lema “Ampliando horizontes, difundindo conhecimento”. O referido evento foi registrado e encontra-se acessível aos interessados (https://www.youtube.com/watch?v=NS569tOcleo).
O evento de encerramento do Dossiê temático “A pandemia da COVID-19 e a Saúde do Trabalhador” foi coordenado por Eduardo Algranti (Editor-Chefe da RBSO) e contou com a participação de pesquisadores, editores da RBSO e público em geral (disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=oahMpWFJ5I8). O objetivo foi refletir sobre os resultados publicados no Dossiê, bem como destacar os enfrentamentos dos trabalhadores durante a pandemia e as consequências dessas experiências sobre a saúde desse grupo em específico.
Duas chamadas para Dossiês temáticos alimentaram, durante este ano de 2022, as reflexões sobre os avanços e desafios da RBSO. O primeiro dossiê, com o tema “Contribuições da epidemiologia para o estudo das relações entre trabalho e saúde”, teve sua chamada de artigos lançada em sessão especial realizada durante o 11º Congresso Brasileiro de Epidemiologia, em novembro de 2021. O segundo dossiê, intitulado “Saúde Mental e Subjetividade: trabalho e dominação na contemporaneidade”, reuniu, juntamente com o primeiro, dezenas de autores de diferentes afiliações e tradições de pesquisa.
Vale destacar que a publicação de Dossiês temáticos tem sido adotada como estratégia para fomentar a submissão de artigos em temas emergentes e atuais, divulgar resultados de pesquisas inovadoras, bem como dar relevo à produção cientifica no âmbito da pós-graduação. Esses dossiês contam com editores convidados, tanto internos, como externos ao Corpo Editorial da RBSO, formato que indica coerência, imparcialidade e valorização do objetivo de qualidade da produção científica. A estratégia tem se mostrado exitosa. Como se verifica no Google Scholar Metrics (2022), os artigos publicados no Dossiê temático “A pandemia da COVID-19 e a Saúde do Trabalhador” figuram entre os mais citados da RBSO.
O número de citações é um indicador relevante, haja vista a 45° posição da RBSO no ranqueamento dos periódicos científicos publicados em português, conforme o índice h, produzido e divulgado pelo Google Scholar Metrics, em 2022. Por fim, estamos comemorando a trajetória ascendente da revista, que ocupou 76ª e 65ª posição no ranqueamento, nos anos de 2020 e 2021, respectivamente4.
Investimentos operacionais também fizeram parte das atividades comemorativas, como é o caso da produção do aplicativo para smartphones RBSO_app (disponível para download nos sistemas Android e iOS). Essa ferramenta facilita disseminar informações gerais sobre o funcionamento e outras características da revista, buscar artigos, acessar o resumo e o texto completo, salvar o material favorito, bem como compartilhar artigos nas mídias sociais.
Nessas primeiras décadas do século XXI, os pesquisadores que escolheram a RBSO para submeter os seus manuscritos chamaram a atenção para a mudança da natureza do trabalho e de suas consequências sobre a situação de saúde das populações.3),(5. Está evidenciado de que maneira o menor poder dos sindicatos para reagir ao ritmo acelerado da produção e os parcos investimentos na melhoria dos ambientes laborais contribuem para a degradação das condições de trabalho6. Estresse, cansaço, adoecimento, acidentes e mortes estão presentes na sociedade em geral, mas esses problemas são gerados ou agravados nos ambientes laborais7. Na atualidade, centenas de trabalhadores e trabalhadoras se deslocam para os serviços organizados em plataformas digitais. Diante desta situação, é razoável manter a separação clássica dos eventos estudados em “do trabalho” e “fora do trabalho”? As estruturas ocupacionais, ou seja, os empregos que estarão disponíveis para os trabalhadores nos próximos cinquenta anos, se mostram cada vez mais dependentes do cenário neoliberal e de suas políticas de desregulamentação trabalhista. A crise de emergência sanitária trouxe à cena, de um lado, desvantagens ligadas ao tipo de inserção das pessoas no mercado de trabalho, pois parcelas da força de trabalho vivenciaram o “dilema do contágio ou da fome”8; e, de outro, a experiência construída no enfrentamento da crise tornou visível o trabalho enquanto eixo de estruturação da sociedade civilizada9.
Para o futuro próximo, os aspectos mencionados acima motivam pesquisadores a elaborarem uma agenda de inovação conceitual, metodológica e programática.10 Articulada ao processo, a RBSO, em uma de suas frentes, vai revisar as instruções aos autores em linha com as atuais políticas de compartilhamento de dados. Em outra, vai encarar o desafio em responder às exigências contemporâneas de promoção da diversidade, equidade e inclusão nos projetos investigativos, de maneira a fortalecer esses princípios na publicação científica. Ainda, a RBSO está se preparando para lograr a indexação em bases bibliográficas internacionais.
Apesar das incertezas, exigências crescentes e dificuldades operacionais, este corpo editorial encontra-se imbuído do propósito de fortalecer a revista. Integrando a comunidade da RBSO, leitores cada vez mais críticos e desejosos de conhecimento, autores dos manuscritos submetidos e dos artigos publicados, revisores que gentilmente aceitam mais uma tarefa em seu cotidiano já sobrecarregado são todas e todos convidados para essa caminhada. Será um belo presente para a RBSO na celebração de seus 50 anos!
Referências
- 1 Wünsch Filho V. A RBSO em perspectiva. Rev Bras Saude Ocup. 2011;36(123):6-7.
- 2 Jackson, JM, Algranti E, Saito CA, Garcia EG. Da segurança e medicina do trabalho à Saúde do Trabalhador: história e desafios da Revista Brasileira de Saúde Ocupacional. Cienc saude coletiva. 2015;20(7):2041-51.
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3 Google Scholar. Top publications [Internet]. São Paulo: Google; [date unknown] [citado em 24 out 2022]. Disponível em: https://scholar.google.com.br/citations?view_op=top_venues&hl=en&vq=pt
» https://scholar.google.com.br/citations?view_op=top_venues&hl=en&vq=pt - 4 Lacaz, FAC. Continuam a adoecer e morrer os trabalhadores: as relações, entraves e desafios para o campo Saúde do Trabalhador. Rev Bras Saude Ocup. 2016;41:e13.
- 5 Kalleberg AL. Precarious work, insecure workers: employment relations in transition. Am Sociol Rev. 2018;74(1),1-22.
- 6 Schulte PA, Pana-Cryan R, Schnorr T, Schill AL, Guerin R, Felknor S, et al. An approach to assess the burden of work-related injury, disease, and distress. Am J Public Health. 2017;107(7):1051-7.
- 7 Antunes, R. Coronavírus: o trabalho sob fogo cruzado. São Paulo: Boitempo, 2020.
- 8 Delgado GN, Rocha ALG. Um retrato do mundo do trabalho na pandemia em cinco paradoxos. Direito UnB. 2020,4(2):16-34.
- 9 Peckham TK, Baker MG, Camp JE, Kaufman JD, Seixas NS. Creating a future for occupational health. Ann Work Exposures Health, 2017;61(1), 3-15.
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10 Scientific Electronic Library Online. Critérios, política e procedimentos para a admissão e a permanência de periódicos na Coleção SciELO Brasil. São Paulo; 2022 [citado em 24 out 2022]. Disponível em: https://www.scielo.br/media/files/20220900-criterios-scielo-brasil.pdf
» https://www.scielo.br/media/files/20220900-criterios-scielo-brasil.pdf
Datas de Publicação
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Publicação nesta coleção
02 Dez 2022 -
Data do Fascículo
2022