Resumo
Introdução Trabalhadores da saúde apresentaram alta ocorrência de covid-19, tornando-os vulneráveis à condição pós-covid-19, caracterizada pela persistência de sintomas após a fase aguda.
Objetivo Estimar a prevalência e caracterizar os sintomas da condição pós-covid-19 em trabalhadores da saúde.
Métodos Revisão sistemática de estudos observacionais, registrada no PROSPERO (CRD42023454818), abrangendo sete bases de dados. A qualidade metodológica foi avaliada pela Newcastle-Ottawa Scale e o risco de viés por meio da ferramenta do Joanna Briggs Institute, com avaliação independente por dois revisores.
Resultados Foram incluídos 32 estudos, totalizando 34.783 trabalhadores. A prevalência da condição pós-covid-19 entre as investigações oscilou entre 12% e 95%. A condição pós-covid-19 manifesta-se de forma multissistêmica, destacando-se sintomas como disfunções cognitivas, fadiga, dispneia, dores crônicas e transtornos psicossociais. Fatores como sexo feminino, gravidade da infecção inicial, comorbidades e reinfecções aumentam o risco de desenvolvimento do agravo, enquanto a vacinação exerceu efeito protetor.
Conclusão A condição pós-covid-19 em trabalhadores da saúde é frequente e exige protocolos de triagem ativa, vigilância epidemiológica contínua e programas de reabilitação interdisciplinar para garantir a manutenção da força de trabalho em saúde.
Palavras-chave:
Covid-19; Síndrome de Pós-covid-19 Aguda; Pessoal de Saúde; Prevalência; Revisão Sistemática; Saúde do Trabalhador
Abstract
Introduction Healthcare workers (HCWs) have experienced a high incidence of COVID-19, making them vulnerable to post-COVID-19 condition, characterized by persistent symptoms following the acute phase.
Objective To estimate the prevalence and characterize the symptoms of post-COVID-19 condition among HCWs.
Methods A systematic review of observational studies, registered in PROSPERO (CRD42023454818), covering seven databases. Methodological quality was assessed using the Newcastle-Ottawa Scale, and risk of bias was evaluated using the Joanna Briggs Institute tool, with independent assessment by two reviewers.
Results Thirty-two studies were included, totaling 34,783 workers. The prevalence of post-COVID-19 condition across the studies ranged from 12% to 95%. Post-COVID-19 condition manifests in a multisystemic manner, with symptoms such as cognitive dysfunction, fatigue, dyspnea, chronic pain, and psychosocial disorders being particularly prominent. Factors such as female sex, severity of the initial infection, comorbidities, and reinfection increase the risk of developing the condition, while vaccination exerted a protective effect.
Conclusion Post-COVID-19 condition among HCWs is common and requires active screening protocols, continuous epidemiological surveillance, and interdisciplinary rehabilitation programs to ensure the retention of the healthcare workforce.
Keywords:
COVID-19; Post-Acute COVID-19 Syndrome; Health Personnel; Prevalence; Systematic Review; Occupational Health
Introdução
A pandemia da covid-19 elevou o risco de adoecimento entre os trabalhadores da saúde, expostos ao vírus no cotidiano de suas funções. No Brasil, essa vulnerabilidade foi evidenciada pela notificação de 35.545 casos da doença registrados como acidentes de trabalho graves no Sistema de Informação de Agravos de Notificação nos anos de 2020 e 20211. Houve concentração de notificações em mulheres (79,0%), trabalhadores pretos e pardos (41,4%) e profissionais da enfermagem, que somaram 70,3% do total de registros1. Tal cenário explicita uma vulnerabilidade socialmente produzida, cujas repercussões transcendem a fase aguda da infecção.
Após a introdução das vacinas, embora tenha havido redução da incidência, das taxas de mortalidade e de hospitalização, a doença permanece em circulação global2. No Brasil, dados referentes ao ano de 2024 indicam a persistência da transmissão comunitária, com ocorrência de ciclos de aumento de incidência associados a novas variantes do SARS-CoV-23. A persistência da doença é acompanhada por subnotificação decorrente de barreiras estruturais no acesso à testagem e ao diagnóstico precoce entre grupos vulneráveis. Esse contexto reforça que a covid-19 ainda constitui um problema relevante de saúde pública.
Após a recuperação da covid-19, algumas pessoas desenvolvem a chamada condição pós-covid-19, que a Organização Mundial da Saúde (OMS) definiu como um conjunto de sintomas que geralmente se iniciam dentro de três meses após o início da doença inicial, e que persistem por pelo menos dois meses sem outra explicação, ou seja, não são justificados por um diagnóstico alternativo4. A prevalência de sintomas persistentes após a infecção por SARS-CoV-2 varia entre 10% e 30% em casos não hospitalizados, alcançando de 50% a 70% entre indivíduos hospitalizados e entre 10% e 12% entre aqueles vacinados5. Uma meta-análise com mais de 735 mil participantes indicou que, em um acompanhamento médio de 126 dias, 45% dos sobreviventes da covid-19 apresentavam pelo menos um sintoma não resolvido6.
Na Europa, estima-se que 17 milhões de pessoas possam ter desenvolvido a condição pós-covid-19 nos dois primeiros anos da pandemia7. Mais de 200 sintomas foram relatados como possíveis para esse agravo, afetando principalmente os sistemas respiratório, neurológico e psicológico5. Apesar das formas seguras de diagnosticar a covid-19 por teste molecular, exames de imagem, testes rápidos sorológicos e de antígenos8-10, devido à diversidade de sintomas e à falta de conhecimento sobre os mecanismos subjacentes, o diagnóstico da condição pós-covid-19 tem acontecido com métodos de diagnóstico imprecisos, sem uma padronização, baseados na exclusão de outras causas11,12.
Muitos dos trabalhadores da saúde estão expostos a riscos ocupacionais como a exposição direta ao vírus sem proteção adequada, o controle ineficaz de infecções e a sobrecarga de trabalho, fatores que, somados a comorbidades preexistentes, aumentam consideravelmente sua suscetibilidade à infecção pelo SARS-CoV-213 e, consequentemente, elevam o risco de desenvolvimento da condição pós-covid-1914,15. Ademais, essa classe de trabalhadores se apresenta heterogênea quanto a características como situação socioeconômica, raça e gênero, que estão diretamente conectadas ao adoecimento e ao óbito16-18.
No entanto, a maioria das pesquisas disponíveis aborda a população geral, evidenciando uma lacuna de estudos que investiguem especificamente a intersecção entre as condições de trabalho e os impactos na saúde, especialmente no que tange aos trabalhadores da saúde. Além disso, a condição pós-covid-19 entre trabalhadores da saúde afeta a disponibilidade de profissionais nos serviços de saúde. Logo, investigar e entender essa condição é crucial para desenvolver estratégias que melhorem a qualidade de vida desses profissionais e assegurem a assistência necessária para sua recuperação15.
A escassez de informações sistematizadas sobre os impactos prolongados da doença dificulta o reconhecimento formal da condição e, por consequência, compromete a elaboração de políticas públicas voltadas ao diagnóstico, tratamento e acompanhamento adequado desses trabalhadores19. Soma-se a isso a instabilidade nas fontes institucionais que poderiam dimensionar, de forma segura, os efeitos da pandemia entre os trabalhadores da saúde, agravando a invisibilidade de suas sequelas e as implicações para o funcionamento dos serviços20. Nesse cenário, é urgente fomentar estudos que investiguem de maneira abrangente os efeitos da condição pós-covid-19, considerando desde aspectos clínicos, como os sintomas persistentes e transtornos mentais, até os impactos na qualidade de vida e na força de trabalho nas instituições de saúde21.
Perante o exposto, o objetivo desta revisão sistemática é estimar a prevalência e caracterizar os sintomas da condição pós-covid-19 em trabalhadores da saúde.
Métodos
Registro e protocolo
Trata-se de uma revisão sistemática, cujo protocolo foi desenvolvido de acordo com o Preferred Reporting Items for Systematic Review and Meta-Analysis Protocols - PRISMA-P e registrado no International Prospective Register of Systematic Review - PROSPERO (CRD42023454818).
Critérios de elegibilidade
A pergunta de pesquisa foi: “Qual a prevalência de sintomas da condição pós-covid-19 entre trabalhadores da saúde?”. Para responder a essa questão e direcionar a busca bibliográfica, utilizou-se o acrônimo CoCoPop (Condition, Context, Population), modelo recomendado para revisões de prevalência. Dessa forma, delimitaram-se os seguintes componentes: Condição (Condition), correspondente às condições pós-covid-19; Contexto (Context), caracterizado pelo trabalho em serviços de saúde; e População (Population), constituída por trabalhadores da saúde.
Os critérios de elegibilidade foram: estudos que abordassem a condição pós-covid-19; sem restrição de idiomas; participantes dos estudos maiores de 18 anos; estudos que tivessem na amostra trabalhadores da saúde e estudos observacionais (coorte, caso-controle e transversal). Os critérios de exclusão foram: participantes dos estudos menores de 18 anos, estudos de revisão (independentemente do tipo de revisão), estudos de intervenção, relatos de caso, capítulos de livros e resumos de seminários.
Fontes de informação
A busca dos estudos foi realizada nas bases de dados Latin American and Caribbean Health Sciences Literature (LILACS), Medline/PubMed, Web of Science, PsycNET, Scopus e Embase. Além disso, o Google Scholar (os 100 primeiros resultados) foi utilizado como fonte de literatura cinzenta e a lista das referências dos estudos incluídos foi consultada como forma de busca manual. As buscas nas bases de dados foram realizadas em 28 de julho de 2025.
Estratégia de busca
A definição dos descritores ocorreu a partir do acrônimo CoCoPop. Para as bases bibliográficas, foi empregada a estratégia: “Post-Acute COVID-19 Syndrome” OR “Long COVID” OR “Post-COVID Conditions” AND “Signs and Symptoms” OR “Clinical manifestations”. Para o Google Acadêmico, utilizou-se: Prevalência de sintomas da “covid longa” em “trabalhadores da saúde”. Não houve restrição quanto ao ano e período de publicação, idioma e região onde o estudo foi desenvolvido.
Seleção dos estudos
Após a remoção dos estudos duplicados, utilizando o programa online Rayyan®, a fase I de seleção se deu por leitura do título e resumo. Na fase II, ocorreu a leitura completa dos estudos. Ambas as fases de seleção se deram de modo independente entre dois revisores (KOM e LYSP) e, na presença de conflito, outros três revisores (CRNL, MMCA, TAS) colaboraram para a resolução do conflito.
Coleta de dados
Dois revisores independentes (KOM e LYSP) extraíram dados dos estudos incluídos e inseriram no Google Sheets™. Para este fim, desenvolveu-se previamente um formulário padronizado nessa plataforma, cujo preenchimento individual permitiu a coleta sistemática das informações de interesse após a leitura na íntegra de cada artigo selecionado.
Concluída essa etapa, os formulários individuais foram confrontados para a verificação de congruência. As discrepâncias identificadas entre os revisores foram resolvidas por meio de consenso e, quando necessário, mediante a mediação de um terceiro revisor sênior (MMCA), resultando em um banco de dados único e consolidado. Não houve necessidade de contato com os autores originais dos estudos incluídos, uma vez que todas as informações pertinentes estavam integralmente disponíveis nos textos publicados e em seus respectivos materiais suplementares.
Lista de dados
Os dados incluíram detalhes sobre a publicação (autor; ano de publicação; país; tamanho da amostra), participantes (idade; sexo/gênero), método do estudo e desfecho (principais sintomas, tempo de duração dos sintomas, prevalência dos sintomas).
Risco de viés
Dois revisores independentes (KOM e LYSP) avaliaram a qualidade metodológica usando a Newcastle-Ottawa Scale (NOS), que é dividida em três blocos (seleção, comparabilidade e resultado) para estudos transversais e de coorte e três blocos para estudos de caso-controle (seleção, comparabilidade e exposição). Para classificar a qualidade metodológica, utilizou-se a recomendação de Sharmin et al.22, que consideram três ou quatro estrelas como boa qualidade metodológica na dimensão de seleção, uma ou duas na dimensão de comparabilidade e duas ou três estrelas na dimensão de resultado.
Para determinar o risco de viés dos estudos, empregou-se a lista de verificação de Avaliação Crítica do Joanna Briggs Institute (JBI), específica para estudos observacionais. A classificação dos artigos seguiu a mesma metodologia utilizada por Lira et al.23, adotando-se os seguintes critérios: “alto risco de viés” para pontuações de “sim” entre 0% e 49%; “risco moderado de viés” para pontuações entre 50% e 69%; e “baixo risco de viés” para pontuações iguais ou superiores a 70%. A avaliação foi conduzida de forma independente por dois revisores (KOM e LYSP) e, na presença de conflito, um terceiro revisor (MMCA) participou.
Síntese dos resultados
A síntese dos resultados foi conduzida de forma descritiva, utilizando planilhas eletrônicas do Google Sheets™ para o processamento e organização das informações. Para a caracterização dos estudos e da população, calcularam-se frequências absolutas e relativas. A meta-análise foi considerada metodologicamente inviável em razão da elevada heterogeneidade identificada nos estudos incluídos com relação às questões clínicas e metodológicas, além de variações nas definições de condições pós-covid-19, períodos de seguimentos e instrumentos de mensuração. Assim, em consonância com as recomendações do PRISMA, optou-se pela realização de uma síntese narrativa.
Resultados
Seleção dos estudos
Foram recuperados 4.478 registros nas seis bases pesquisadas mais a literatura cinzenta, dos quais 1.226 duplicados foram removidos. A triagem de títulos e resumos resultou na exclusão de 3.015 registros que não atendiam aos critérios de inclusão. Em seguida, 237 artigos foram selecionados para a triagem de texto completo, dos quais 24 artigos atenderam inicialmente aos critérios de inclusão. Complementarmente, foi aplicada a técnica de bola de neve (snowballing) a partir da análise das listas de referências desses trabalhos, o que permitiu a identificação e inclusão de mais oito estudos que preencheram rigorosamente os requisitos da pesquisa. Dessa forma, foram incluídos nesta revisão sistemática 32 estudos15,24-54. O processo de seleção dos estudos está resumido no fluxograma PRISMA (Figura 1).
Características dos estudos incluídos
Foram incluídos estudos publicados de 202126,35,39,42,51 a 202531,37. Quanto ao idioma, a maioria dos estudos foi publicada em inglês (n = 22), seguida do português (n = 10)36,37,50,52,54, espanhol45,47, russo25, coreano43 e alemão38.
Houve predomínio de investigações conduzidas no continente europeu (n = 13), em países como Dinamarca26, Itália30,51, França40,42, Reino Unido35,49, Espanha28,45,46, Suécia39 e Alemanha38,44. A América Latina concentrou nove estudos, sendo sete no Brasil15,33,36,37,50,52,54, um no México29 e um em Cuba47. Na Ásia, foram realizados seis estudos (18,7%), abrangendo o Paquistão24, Índia48, Coreia do Sul43, Taiwan31, Bangladesh32 e Irã34. Dois estudos situaram-se na Eurásia (Turquia41; Rússia25, enquanto os dois restantes foram realizados na África do Sul53 e no Canadá27.
Quanto ao desenho de estudo, 18 eram transversais24,28-30,35-38,41,43-45,48-50,52-54, 11 de coorte25,26,31-34,39,40,42,47,51 e três de caso-controle15,27,46.
A população analisada nesta revisão é composta por 34.783 trabalhadores da saúde, apresentando uma predominância do sexo feminino (n = 25.299). A idade dos participantes variou de 18 anos25,53,47 a 91 anos42. Em todos os estudos incluídos, o diagnóstico de covid-19 foi confirmado via teste de Polymerase Chain Reaction (PCR), garantindo uniformidade dos critérios de inclusão dos participantes.
Dos 32 estudos incluídos, 10 apresentaram risco de viés moderado24,25,33-36,41,47,53,54 e 22 evidenciaram baixo risco de viés. Os fatores que mais contribuíram para o aumento do risco de viés compreenderam a falta de identificação e de tratamento estatístico adequado para variáveis de confusão, bem como descrições insuficientes acerca do acompanhamento dos participantes em delineamentos longitudinais.
No que tange à qualidade metodológica, 14 estudos demonstraram boa qualidade. Em contrapartida, 10 estudos foram avaliados com qualidade moderada33,34,37,40,43,45,47-49,52 e oito estudos com baixa qualidade24,25,29,35,36,41,53,54. A classificação moderada decorreu, predominantemente, da ausência de ajuste estatístico no domínio de comparabilidade (falta de controle para fatores de confusão) ou da inexistência de um grupo controle adequado. Por sua vez, os estudos de baixa qualidade metodológica evidenciaram limitações mais substanciais: além de não ajustarem os dados para possíveis confundidores, apresentaram fragilidades críticas no domínio de seleção, marcadas pelo uso frequente de amostras de conveniência não representativas e pelo relato de taxas de não resposta elevadas e sem justificativa.
A maioria dos 32 estudos detalhou as categorias profissionais dos trabalhadores da saúde, evidenciando uma composição heterogênea. A equipe de enfermagem (enfermeiros, técnicos e auxiliares) representou o grupo predominante, variando entre 35,1%30 e 60,4%38. O grupo dos profissionais médicos também foi expressivo, apresentando maior concentração em estudos específicos, como o de Romero-Rodríguez et al.46, no qual compuseram 61,6% dos participantes. Outras categorias identificadas incluíram fisioterapeutas, psicólogos, fonoaudiólogos, nutricionistas, farmacêuticos e pessoal administrativo. Adicionalmente, quatro estudos foram delineados com foco exclusivo na categoria de enfermagem34,36,43,50.
Caracterização dos sintomas da condição pós-covid-19
O grupo de sintomas mais marcante e consistentemente citado, embora com grande variação, é a disfunção cognitiva e neurológica, que engloba problemas de memória, raciocínio e concentração. A prevalência desses sintomas variou de 10,7%41 a 98,8%28.
A prevalência de fadiga ou fraqueza variou de 4,6%37 a 78,9%46. Num contexto de seguimento de curto prazo, sintomas de fadiga e fraqueza persistiram em 38,5% dos trabalhadores da saúde na Rússia durante o terceiro mês pós-infeção, abrangendo inclusive os casos classificados como leves ou moderados25.
O terceiro grupo de sintomas mais frequente envolve a dor, incluindo cefaleia, mialgia e artralgia. A prevalência das manifestações do grupo dor apresentou variação entre os estudos incluídos. Para a artralgia, os valores oscilaram entre 5,0%25 e 63,6%41. Já para a cefaleia, a frequência variou de 1,1%25 a 69,7%46. A cefaleia crônica foi observada em 56,3% dos trabalhadores da saúde54, e dores musculares, articulares ou vertebrais foram relatadas por 23,1% dos trabalhadores da saúde na Rússia25.
A prevalência da dispneia mostrou grande variabilidade, influenciada pela avaliação ao esforço versus em repouso. Uma prevalência de 3,7% foi observada para falta de ar em um estudo com enfermeiros sul-coreanos43, aproximando-se da persistência de dispneia em repouso de 3,8% em trabalhadores da saúde na Espanha46e uma prevalência de 67,7% foi encontrada para a dificuldade em respirar ao subir escadas em enfermeiros na Coreia do Sul43.
Por fim, os sintomas de ansiedade e distúrbios do sono configuraram o quinto grupo de manifestações mais frequentes, sublinhando o impacto psicossocial da condição pós-covid-19. A prevalência destes sintomas variou de 6,3% para insônia48 a 84,5% para ansiedade54. Os distúrbios do sono foram relatados por 50,3% dos enfermeiros sul-coreanos43, e a ansiedade, em 22,0% dos profissionais de enfermagem em estudo brasileiro50.
Fatores associados
Entre os 32 estudos incluídos nesta revisão, o sexo feminino foi o principal fator associado à condição pós-covid-19. Estudos realizados com trabalhadores da saúde na Europa, como o de Haller et al.38, identificaram maior prevalência de sintomas da condição pós-covid-19 entre mulheres quando comparadas aos homens. Resultados semelhantes foram observados em investigações conduzidas no Brasil, nas quais Marra et al.15 e Vasconcelos et al.50 relataram associação estatisticamente significativa entre sexo feminino e ocorrência de condição pós-covid-19, especialmente entre profissionais da enfermagem.
A gravidade da infecção na fase aguda configurou-se como outro fator associado recorrente, sendo reportada em 15,6% dos estudos incluídos nesta revisão. Em estudo realizado no Canadá por Carazo et al.27 foi observada maior frequência de condição pós-covid-19 entre trabalhadores que apresentaram maior número de sintomas durante a fase inicial da doença. De forma semelhante, investigações conduzidas na Alemanha38 e no Brasil15 relataram associação entre hospitalização ou curso clínico mais prolongado na fase aguda e maior ocorrência de sintomas da condição pós-covid-19. Esse padrão também foi identificado no estudo espanhol de Rey Samper et al.45.
A presença de comorbidades preexistentes foi apontada como fator associado em 21,9% dos estudos analisados. A obesidade foi associada à condição pós-covid-19 em trabalhadores da saúde em estudos europeus38,51 e brasileiros15. Doenças respiratórias crônicas e condições metabólicas também foram relatadas como associadas à persistência de sintomas em investigações realizadas em diferentes contextos geográficos, incluindo a Europa e o sul da Ásia32,44.
Alguns estudos relataram ainda associação entre a condição pós-covid-19 e a ocorrência de múltiplos episódios de infecção por SARS-CoV-2. Trabalhadores da saúde que apresentaram dois ou mais episódios de covid-19 ao longo do período pandêmico relataram maior frequência de sintomas persistentes, conforme descrito por Marra et al.15 e reforçado pelos dados de Cegolon et al.30 sobre o impacto das reinfecções na cronicidade do quadro.
Em relação ao status vacinal, 4/32 estudos indicaram associação entre vacinação prévia e menor ocorrência de condição pós-covid-19. Essa associação foi observada em investigações conduzidas por Senjam et al.48 na Índia, no estudo italiano de Cegolon et al.30, bem como no estudo brasileiro de Marra et al.15e no estudo de Chen, Chiu & Chen31. Entretanto, esses estudos também relataram a presença de sintomas persistentes entre trabalhadores da saúde vacinados.
Discussão
A prevalência da condição pós-covid-19 entre os trabalhadores da saúde incluídos nesta revisão oscilou entre 12% e 95%, amplitude que não deve ser interpretada apenas como fragilidade metodológica dos estudos primários, mas como expressão da natureza multissistêmica e heterogênea da síndrome, cujas manifestações variam conforme a carga viral, a variante do SARS-CoV-2, o estado imunológico e o tempo de seguimento adotado em cada investigação5,56, além de características individuais que os estudos desta revisão identificaram como associadas à condição, como o sexo feminino, a obesidade e a presença de comorbidades.
A heterogeneidade clínica e metodológica identificada, com períodos de acompanhamento que variaram de quatro semanas a 12 meses e definições operacionais distintas da condição, limitou a realização de meta-análise e deve ser considerada na interpretação dos resultados. Estudos classificados com baixa qualidade metodológica pela Newcastle-Ottawa Scale (um quarto dos estudos incluídos) apresentaram, em geral, amostras de conveniência não representativas e proporções de não resposta elevadas, o que pode contribuir para a variação nas estimativas.
Mesmo com a restrição da análise aos estudos de melhor qualidade, a prevalência da condição permanece expressiva, sinalizando um problema de saúde ocupacional de grande magnitude. Essa constatação ganha relevância quando confrontada com os dados disponíveis para a população geral. Revisões sistemáticas com meta-análise estimam prevalência combinada da condição pós-covid-19 em torno de 42,5% (IC95%: 36,0%; 49,3%) na população geral, com base em 43 estudos e 367.236 participantes57, enquanto estimativas globais atualizadas apontam prevalência média de 37% a 38% nas publicações de 2021 a 2023, com ampla variação entre 1% e 92% a depender da definição adotada, do período de seguimento e das características da população estudada58.
No contexto brasileiro, estudo multicêntrico com 1.907 participantes identificou a condição pós-covid-19 em 67% dos participantes, com fadiga (60%) e dificuldade de concentração (55%) como sintomas mais prevalentes59. A comparação entre esses dados e os achados desta revisão sugere que os trabalhadores da saúde apresentam prevalências iguais ou superiores às da população geral, padrão biologicamente e socialmente plausível diante da exposição ocupacional repetida ao SARS-CoV-2, do risco elevado de reinfecções e das condições de trabalho extenuantes que caracterizam essa categoria profissional60,61.
O perfil demográfico predominantemente feminino observado nos estudos incluídos nesta revisão extrapola a explicação imunológica e hormonal. A trabalhadora da saúde frequentemente acumula jornadas múltiplas de trabalho, combinando a atividade profissional com responsabilidades domésticas e de cuidado60,61. Esse desgaste crônico compromete a recuperação na fase aguda da infecção e constitui um determinante social para a cronicidade dos sintomas, conforme evidenciado por estudo de coorte prospectivo que revelou associação entre estressores ocupacionais pré-infecção, como alta demanda no trabalho, baixo controle sobre as atividades e ausência de suporte social, e o desenvolvimento da condição pós-covid-19 entre trabalhadores62.
Estudos realizados com trabalhadores da saúde brasileiros no período pré-pandêmico já evidenciavam prevalências de transtornos mentais comuns entre 16,0% e 46,9%, com maior impacto entre as mulheres, para quem a combinação de alta demanda psicológica, baixo controle sobre o trabalho e sobrecarga doméstica ampliava significativamente a vulnerabilidade ao adoecimento mental60. A condição pós-covid-19, portanto, não incidiu sobre uma força de trabalho em plenas condições de saúde: ela se sobrepôs a um processo histórico de desgaste profissional já documentado, no qual as trabalhadoras da saúde, especialmente aquelas inseridas em condições de maior precarização e desigualdade, acumulavam as maiores desvantagens nas condições e características do trabalho em saúde, potencializando vulnerabilidades preexistentes61,63.
Essa sobreposição entre o desgaste ocupacional preexistente e as sequelas psiquiátricas da infecção pelo SARS-CoV-2 é particularmente visível nos transtornos psicossociais identificados na presente revisão. Ansiedade e distúrbios do sono figuraram entre as manifestações mais frequentes, com prevalências que variaram de 6,3% a 84,5% para ansiedade24,29,31,34,53,42,50,54 e de 3,1% a 71,1% para distúrbios do sono entre os trabalhadores da saúde estudados25,28,33,35,39,40,53,43,47,49. Esse perfil não representa um fenômeno isolado ou inteiramente novo: estudos realizados com trabalhadores da saúde brasileiros no período pré-pandêmico já documentavam prevalências expressivas de transtornos mentais comuns nessa categoria, associadas às condições precárias de trabalho, à sobrecarga e à baixa recompensa profissional60,61.
A pandemia de covid-19 introduziu, sobre esse substrato de vulnerabilidade preexistente, a exposição simultânea ao risco biológico, ao luto de pacientes e colegas e ao agravamento das condições de trabalho, criando um cenário de sobreposição de fatores de adoecimento psíquico que torna metodologicamente difícil e clinicamente pouco relevante separar as sequelas da infecção pelo SARS-CoV-2 do desgaste ocupacional estrutural que já acometia essa força de trabalho63. A bidirecionalidade entre sofrimento psíquico e persistência de sintomas físicos reforça a necessidade de uma abordagem reabilitadora que considere o contexto psicossocial e as condições de trabalho como determinantes centrais da recuperação5.
As disfunções cognitivas, compreendendo alterações de memória, concentração e raciocínio, identificadas como os sintomas de maior prevalência na presente revisão, merecem atenção especial no contexto do trabalho em saúde. Diferentemente de outras ocupações, a prática assistencial exige precisão técnica, raciocínio clínico e tomada de decisão em ambientes de alta criticidade, nos quais comprometimentos cognitivos aumentam a probabilidade de erros e eventos adversos64. A persistência de lapsos cognitivos em profissionais que atuam nessas condições não representa apenas um problema individual de saúde, mas um risco sistêmico para a segurança do paciente. A persistência de disfunções cognitivas em trabalhadores da saúde que retornam às atividades após a infecção pelo SARS-CoV-2 está documentada na literatura, com revisão sistemática envolvendo mais de 14 milhões de participantes, confirmando que déficits de memória, dificuldade de concentração e lentidão de raciocínio são mais prevalentes entre indivíduos com histórico de infecção pelo vírus, independentemente da gravidade do quadro agudo65.
Quando esses profissionais permanecem em atividade sem afastamento ou adaptação de função, configura-se o fenômeno do presenteísmo, definido como a permanência do indivíduo em atividade ocupacional sem condições plenas de saúde física ou emocional, com consequências negativas para a produtividade e para a qualidade do cuidado prestado66. No contexto assistencial, esse fenômeno é particularmente insidioso porque mascara o déficit real da força de trabalho e onera silenciosamente a segurança do paciente, sendo documentado entre trabalhadores da saúde com condição pós-covid-19 no Canadá, onde a condição esteve associada a uma prevalência 26,7% maior de baixo funcionamento no trabalho (IC95%: 22,1%; 31,3%) e a uma prevalência 14,9% maior de baixa capacidade laboral (IC95%: 11,6%; 18,2%) em comparação com trabalhadores infectados que não desenvolveram a condição67.
Por fim, a proteção conferida pela vacinação, evidenciada pela redução da severidade dos sintomas persistentes entre os profissionais imunizados, reforça a centralidade dos trabalhadores da saúde como grupo prioritário nas políticas de imunização e de saúde ocupacional. Diante da magnitude do problema, as instituições de saúde precisam transcender o manejo sintomático individual e adotar estratégias de proteção integral: triagem ativa de sintomas persistentes pós-infecção, protocolos de retorno ao trabalho com avaliação funcional, programas de reabilitação interdisciplinar e reorganização das cargas de trabalho para os profissionais em recuperação67.
A heterogeneidade metodológica identificada nos estudos primários aponta, adicionalmente, para a urgência de padronização diagnóstica e de investimento em coortes longitudinais que permitam estimar com maior robustez o impacto da condição pós-covid-19 sobre a capacidade laboral e a saúde de longo prazo dessa população.
Conclusão
Esta revisão sistemática reforça que a condição pós-covid-19 se configura como um agravo complexo e multissistêmico à saúde do trabalhador, e não apenas como um evento pós-infeccioso isolado.
Sob a perspectiva da gestão e da atenção à saúde dos trabalhadores, os resultados alertam para o fenômeno do presenteísmo e para riscos pouco explícitos à segurança assistencial, uma vez que o retorno ao trabalho frequentemente ocorre sem recuperação funcional plena, especialmente no domínio cognitivo. A sobreposição entre manifestações da condição pós-covid-19 e quadros de exaustão profissional impõe desafios diagnósticos que podem contribuir para a banalização das queixas, o subdiagnóstico e a perpetuação do adoecimento, com impacto negativo na produtividade e na qualidade do cuidado.
Diante desse cenário, recomenda-se que as instituições de saúde transcendam o foco exclusivo na fase aguda da infecção, implementando protocolos de triagem ativa que incluam avaliação funcional e neuropsicológica. As políticas institucionais precisam contemplar programas de reabilitação interdisciplinar e estratégias de retorno gradual ao trabalho, adaptadas às limitações individuais. Para pesquisas futuras, sugere-se a padronização das definições de caso e o investimento em estudos longitudinais que permitam compreender a evolução temporal da condição pós-covid-19, bem como o impacto das novas variantes do SARS-CoV-2 sobre a força de trabalho em saúde.
Referências
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62 Igarashi Y, Tateishi S, Harada A, Hino A, Tsuji M, Ando H et al. Association of workplace stressors prior to infection and the development of long COVID among workers during the COVID-19 pandemic: a cohort study in Japan. J Occup Health. 2024;66(1):uiae062. https://doi.org/10.1093/joccuh/uiae062
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67 Isangwe S, Talbot D, Coutu MF, Canitrot E, Décary S, Falcone EL et al. Functional impact of long COVID among healthcare workers with comorbidities in Quebec, Canada. medRxiv. 2025. https://doi.org/10.1101/2025.09.19.25335951
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Informações sobre trabalho acadêmico:
Artigo baseado no trabalho de conclusão de curso intitulado “Sintomas da covid longa em trabalhadores da saúde: uma revisão sistemática”, apresentado pelo autor Kaique Oliveira Mota no curso de enfermagem da Universidade Federal da Bahia em abril de 2026.
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Disponibilidade dos dados:
O conjunto de dados que dá suporte aos resultados deste estudo foi disponibilizado no repositório SciELO Data em 2026: Mota KO; Paz LYS; Almeida MMC; Machado LP; Santana GS; Lira CRN; Santos TA, “Dados de replicação para: Prevalência da condição pós-covid-19 entre trabalhadores da saúde: uma revisão sistemática”, Disponível em: https://doi.org/10.48331/SCIELODATA.NS394D.
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Declaração sobre uso de Inteligência Artificial:
Durante a elaboração do artigo, foi utilizada a ferramenta de inteligência artificial Gemini versão 3.1 e 3.5 flash, com o objetivo de tradução do resumo para o inglês e espanhol para garantir a fluidez, a precisão da terminologia técnica, a naturalidade idiomática, a correção gramatical e a concisão do texto. Os autores declaram que revisaram e validaram todo o conteúdo gerado com o auxílio de ferramenta de inteligência artificial.
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Apresentação do estudo em evento científico:
Os autores informam que os resultados parciais do estudo foram apresentados no Congresso UFBA 2025 da Universidade Federal da Bahia em 3 setembro de 2025, na cidade de Salvador – BA, Brasil.
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Financiamento:
Todos os autores do estudo receberam apoio financeiro por meio de bolsa de pesquisa ou orientação, com exceção de Carlos Rodrigo Nascimento de Lira. Esclarecemos que o fomento foi concedido via Termo de Execução Descentralizada (TED nº 74/2023).
Tabelas Suplementares:
Editado por
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Editora responsável
Leila Posenato Garcia. https://orcid.org/0000-0003-1146-2641. Fundação Jorge Duprat Figueiredo de Segurança e Medicina do Trabalho - FUNDACENTRO
O conjunto de dados que dá suporte aos resultados deste estudo foi disponibilizado no repositório SciELO Data em 2026: Mota KO; Paz LYS; Almeida MMC; Machado LP; Santana GS; Lira CRN; Santos TA, “Dados de replicação para: Prevalência da condição pós-covid-19 entre trabalhadores da saúde: uma revisão sistemática”, Disponível em: https://doi.org/10.48331/SCIELODATA.NS394D.


Fonte: adaptado de PRISMA55.