Condições de saúde bucal de industriários participantes de Programa de Saúde Bucal na Empresa

Oral health status of industrial workers included in Corporate Oral Health Program

Luísa Silva Lima Maristela Santos Araújo Paloma Perez Castro Maria Cristina Teixeira Cangussu Sobre os autores

Resumo

Objetivo: verificar as condições de saúde bucal de trabalhadores de cinco indústrias da região metropolitana de Salvador, Bahia, que participavam do Programa de Saúde Bucal na Empresa (PSBE) entre os anos 2003 a 2008.

Métodos: estudo transversal retrospectivo, com dados secundários do banco de dados do SESI/DR-BA. Participaram todos os funcionários que realizaram pelo menos dois exames odontológicos no período, totalizando 1.277 trabalhadores. Foram investigados dados sociodemográficos, incidência de cárie, atividade de cárie, urgência odontológica, uso e necessidade de prótese.

Resultado: predominou o sexo masculino com média de idade de 38 anos (DP = 10,07). O índice CPO-D (dentes cariados, perdidos e obturados) apresentou variação da média de 15 a 19, com maior percentual para dentes obturados (de 58,5% a 70,2%). Observou-se menor incidência de cárie nos que possuíam maior número de exames – 35,03% com 2 exames e 21,88% com 4 exames (p<0,01). Destaca-se maior associação positiva entre atividade de cárie e ramo de metais (29,19%) em 2007. O ramo outros serviços apresentou os maiores percentuais de urgência odontológica (5,60% em 2007, 8,40% em 2008).

Conclusão: a redução na incidência de cáries e na necessidade de próteses entre os que mais realizaram exames indica que programas de saúde bucal nas empresas podem contribuir para a melhor saúde bucal dos trabalhadores.

Palavras-chave:
saúde bucal; saúde do trabalhador; epidemiologia; índice CPOD; indústrias

Abstract

Objective: to evaluate the oral health status of workers in five industries of the metropolitan region of Salvador, included in the Corporate Occupational Oral Health Program (PSBE) between 2003 and 2008.

Methods: a retrospective cross-sectional study with secondary data from SESI/DR-BA database. All workers who had at least two dental examinations in the period (1,277 workers) were included. Sociodemographic data, incidence of dental caries, dental caries activity, dental emergency, and the use and need of prostheses were investigated.

Results: most patients were male with mean age of 38 ± 10.07 years. Mean DMFT ranged from 15 to 19, with higher percentage of filled teeth (58.5% to 70.2%). The incidence of dental caries was lower in individuals who had a greater number of examinations – 35.03% for two examinations and 21.88% for four examinations (p<0.01). A positive association was found between caries activity and certain professional occupations, like metalworkers (29.19%). Highest percentages of urgency were found in individuals working in “other services” (5.60% in 2007 and 8.40% in 2008).

Conclusion: the reduction in incidence of dental caries and need of prostheses among those who performed more examinations indicate that corporate oral health programs can contribute to improve workers oral health.

Keywords:
oral health; occupational health; epidemiology; DMFT index; industry

Introdução

A partir da década de 1960, diversas mudanças ocorreram no contexto político e social mundial, principalmente dos países ocidentais, com o desenvolvimento de movimentos sociais e de trabalhadores, além de modificações na legislação relacionada à saúde e segurança do trabalhador e no próprio processo de trabalho. Esses acontecimentos foram fundamentais para o desenvolvimento do campo da Saúde do Trabalhador. Esse campo consolida-se com o papel de promover, proteger, recuperar e reabilitar a saúde dos trabalhadores, considerando seus valores, saberes, crenças, condições sociais, econômicas e culturais (MENDES; DIAS, 1991Mendes, R.; Dias, E. C. Da medicina do trabalho à saúde do trabalhador. Revista de Saúde Publica, São Paulo, v. 25, n. 5, p. 341-349, 1991. http://dx.doi.org/10.1590/S0034-89101991000500003. PMid:1820622.
http://dx.doi.org/10.1590/S0034-89101991...
; GARBIN; CARCERERI, 2006Garbin, D.; Carcereri, D. L. A odontologia nas políticas públicas de saúde do trabalhador. Arquivos em Odontologia, Belo Horizonte, v. 42, n. 2, p. 81-160, 2006.).

Na Odontologia existe hoje o aprofundamento da percepção de que as condições de saúde bucal apresentam reflexos sistêmicos e, portanto, não podem ser dissociadas da saúde geral (GARRAFA, 1986Garrafa, V. Odontologia do trabalho. Revista Gaúcha de Odontologia, Porto Alegre, v. 34, n. 6, p. 508-512, 1986.; ARAÚJO, 1998Araújo, M. E. Estudo da prevalência das manifestações bucais decorrentes de agentes químicos no processo de galvanoplastia: sua importância para a área de saúde bucal do trabalhador. 1998. 126 f. Tese (Doutorado em Odontologia)–Faculdade de Odontologia, Universidade de São Paulo, São Paulo, 1998.; VIANNA; SANTANA, 2001Vianna, M. I. P.; Santana, V. S. Exposição ocupacional a névoas ácidas e alterações bucais: uma revisão. Cadernos de Saúde Pública, Rio de Janeiro, v. 17, n. 6, p. 1335-1344, 2001. http://dx.doi.org/10.1590/S0102-311X2001000600017. PMid:11784894.
http://dx.doi.org/10.1590/S0102-311X2001...
; TELES; SILVA; SILVA, 2009Teles, M. P.; Silva, M. M. C.; Silva, R. A. A odontologia do campo da saúde do trabalhador. In: LIDEN, M. S. S. et al. Multidisciplinaridade na saúde bucal. 2. ed. Porto Alegre: RGO, 2009.). Além disso, alguns estudos evidenciam a existência de riscos presentes no ambiente de trabalho que são capazes de provocar danos à saúde bucal do trabalhador (Quadro 1).

Quadro 1
Estudos de associação entre exposição a fatores de risco presentes no ambiente de trabalho e efeitos na saúde bucal

Ainda é reduzida a quantidade de estudos que avaliam a saúde bucal de adultos trabalhadores, seja de forma descritiva (MOTTA; TOLEDO, 1984Motta, R.; Toledo, V. L. Avaliação de resultados de plano odontológico em indústria mecânica. Revista Brasileira de Saúde Ocupacional, São Paulo, v. 46, n. 12, p. 64-71, 1984.; FRAZÃO; ANTUNES; NARVAL, 2003Frazão, P.; Antunes, J. L. F.; Narvai, P. C. Perda dentária precoce em adultos de 35 a 44 anos de idade. Estado de São Paulo, Brasil, 1998. Revista Brasileira de Epidemiologia, São Paulo, v. 6, n. 1, p. 49-57, 2003. http://dx.doi.org/10.1590/S1415-790X2003000100007.
http://dx.doi.org/10.1590/S1415-790X2003...
; LACERDA et al., 2004Lacerda, J. T. et al. Dental pain as reason for visiting a dentist in a Brazilian adult population. Revista de Saúde Publica, São Paulo, v. 38, n. 3, p. 453-458, 2004. http://dx.doi.org/10.1590/S0034-89102004000300017. PMid:15243677.
http://dx.doi.org/10.1590/S0034-89102004...
; TOMITA et al., 2005Tomita, N. E. et al. Oral health of building construction workers: an epidemiology approach. Journal of Applied Oral Science, Bauru, v. 13, n. 1, p. 24-27, 2005. http://dx.doi.org/10.1590/S1678-77572005000100006. PMid:20944876.
http://dx.doi.org/10.1590/S1678-77572005...
; PINTO; LIMA, 2006Pinto, V. G.; Lima, M. O. P. Estudo epidemiológico de saúde bucal em trabalhadores da indústria: Brasil 2002-2003. Brasília: SESI/DN, 2006. 236 p.; GOMES; ABEGG, 2007Gomes, A. S.; Abegg, C. O impacto odontológico no desempenho diário dos trabalhadores do Departamento Municipal de Limpeza Urbana de Porto Alegre, Rio Grande do Sul, Brasil. Cadernos de Saúde Pública, Rio de Janeiro, v. 23, n. 7, p. 1707-1714, 2007. http://dx.doi.org/10.1590/S0102-311X2007000700023. PMid:17572821.
http://dx.doi.org/10.1590/S0102-311X2007...
) ou em estudos de associação do risco ocupacional e das condições de saúde bucal (PETERSEN; GORMSEN, 1991Petersen, P. E.; Gormsen, C. Oral conditions among German battery factory workers. Community Dentistry and Oral Epidemiology, Copenhagen v. 19, n. 2, p. 104-106, 1991. http://dx.doi.org/10.1111/j.1600-0528.1991.tb00121.x. PMid:2049915.
http://dx.doi.org/10.1111/j.1600-0528.19...
; TUOMINEN et al., 1991Tuominen, M. et al. Tooth surface loss and exposure to organic and inorganic acid fumes in workplace air. Community Dental Health, London, v. 19, n. 4, p. 217-220, 1991. PMid:1653678.; TUOMINEN; TUOMINEN, 1992Tuominen, M.; Touminen, R. Tooth surface loss and associated factors among factory workers in Finland e Tanzania. Community Dental Health, London, v. 9, n. 2, p. 143-150, 1992. PMid:1504880.; ARAÚJO, 1998Araújo, M. E. Estudo da prevalência das manifestações bucais decorrentes de agentes químicos no processo de galvanoplastia: sua importância para a área de saúde bucal do trabalhador. 1998. 126 f. Tese (Doutorado em Odontologia)–Faculdade de Odontologia, Universidade de São Paulo, São Paulo, 1998.; VIANNA; SANTANA, 2001Vianna, M. I. P.; Santana, V. S. Exposição ocupacional a névoas ácidas e alterações bucais: uma revisão. Cadernos de Saúde Pública, Rio de Janeiro, v. 17, n. 6, p. 1335-1344, 2001. http://dx.doi.org/10.1590/S0102-311X2001000600017. PMid:11784894.
http://dx.doi.org/10.1590/S0102-311X2001...
; ALMEIDA et al., 2008Almeida, T. F. et al. Occupational exposure to acid mists and periodontal attachment loss. Cadernos de Saúde Pública, Rio de Janeiro, v. 24, n. 3, p. 495-502, 2008. http://dx.doi.org/10.1590/S0102-311X2008000300003. PMid:18327437.
http://dx.doi.org/10.1590/S0102-311X2008...
).

A condição de saúde bucal dos trabalhadores apresenta médias de CPO-D (índice que expressa a média de dentes cariados, perdidos e obturados) próximas à da população em geral e maior presença do componente perdido com o avanço da idade. Verifica-se ainda que os percentuais de uso e necessidade de prótese são expressivos e bastante similares entre os estudos, bem como os percentuais das alterações periodontais (PETERSEN; GORMSEN, 1991Petersen, P. E.; Gormsen, C. Oral conditions among German battery factory workers. Community Dentistry and Oral Epidemiology, Copenhagen v. 19, n. 2, p. 104-106, 1991. http://dx.doi.org/10.1111/j.1600-0528.1991.tb00121.x. PMid:2049915.
http://dx.doi.org/10.1111/j.1600-0528.19...
; PETERSEN; TANASE, 1997Petersen, P. E.; Tanase, M. Oral health status of an industrial population in Romania. International Dental Journal, London, v. 47, n. 4, p. 194-198, 1997. http://dx.doi.org/10.1111/j.1875-595X.1997.tb00449.x. PMid:9532459.
http://dx.doi.org/10.1111/j.1875-595X.19...
; TOMITA et al., 2005Tomita, N. E. et al. Oral health of building construction workers: an epidemiology approach. Journal of Applied Oral Science, Bauru, v. 13, n. 1, p. 24-27, 2005. http://dx.doi.org/10.1590/S1678-77572005000100006. PMid:20944876.
http://dx.doi.org/10.1590/S1678-77572005...
; PINTO; LIMA, 2006Pinto, V. G.; Lima, M. O. P. Estudo epidemiológico de saúde bucal em trabalhadores da indústria: Brasil 2002-2003. Brasília: SESI/DN, 2006. 236 p.; BATISTA; RIHS; SOUSA, 2012Batista, M. J.; Rihs, L. B.; Sousa, M. L. R. Risk indicators for tooth loss in adult workers. Brazilian Oral Research, São Paulo, v. 26, n. 5, p. 390-396, 2012. http://dx.doi.org/10.1590/S1806-83242012000500003. PMid:23018226.
http://dx.doi.org/10.1590/S1806-83242012...
, 2013Batista, M. J.; Rihs, L. B.; Sousa, M. L. R. Workers oral health: a cross-sectional study. Brazilian Journal of Oral Sciences, Piracicaba, v. 12, n. 3, p. 178-183, 2013. http://dx.doi.org/10.1590/S1677-32252013000300006.
http://dx.doi.org/10.1590/S1677-32252013...
).

Especificamente em relação ao trabalhador, graves condições de saúde bucal e necessidades de atenção odontológica não atendidas podem interferir na jornada de trabalho do indivíduo, seja através do absenteísmo (falta ao trabalho por problemas odontológicos ou para tratamento) ou do presenteísmo (situações de desconforto e dor de origem odontológica que interferem na realização das atividades laborais dos trabalhadores pela redução da capacidade de concentração, com diminuição da capacidade produtiva e aumento do risco de acidentes de trabalho) (MIDORIKAWA, 2000Midorikawa, E. T. A odontologia em saúde do trabalhador como uma nova especialidade profissional: definição do campo de atuação e função do cirurgião-dentista na equipe de saúde do trabalhador. 2000. 337 f. Dissertação (Mestrado em Saúde Coletiva)–Faculdade de Odontologia, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2000.). Muitas vezes, também, a inserção produtiva é incompatível com a sistemática e com o horário de funcionamento dos serviços públicos de saúde, o que faz protelar-se a busca por atendimento, agravando o quadro da doença (PIZZATO, 2002Pizzato, E. A saúde bucal no contexto da saúde do trabalhador: análise de modelos de atenção. 2002. 110 f. Dissertação (Mestrado em Odontologia)–Faculdade de Odontologia de Araçatuba, Universidade Estadual Paulista, São Paulo, 2002.; MOIMAZ et al., 2002Moimaz, S. A. S. et al. Prótese dentária: avaliação do uso e necessidade em população adulta. Revista Paulista de Odontologia, São Paulo, v. 5, n. 1, p. 31-34, 2002.; SILVA et al., 2004Silva, D. D.; Sousa, M. L. R.; Wada, R. S. Saúde bucal em adultos e idosos na cidade de Rio Claro, São Paulo, Brasil. Cadernos de Saúde Pública, Rio de Janeiro, v. 20, n. 2, p. 626-631, 2004. http://dx.doi.org/10.1590/S0102-311X2004000200033. PMid:15073645.
http://dx.doi.org/10.1590/S0102-311X2004...
).

Em 2001, o Serviço Social da Indústria/BA (SESI/BA) desenvolveu o Programa de Saúde Bucal na Empresa (PSBE), baseado nos princípios da promoção e atenção à saúde bucal do trabalhador, visando à redução do adoecimento por problemas bucais e, em consequência, melhoria da qualidade de vida (SERVIÇO SOCIAL DA INDÚSTRIA, 2005SERVIÇO SOCIAL DA INDÚSTRIA – SESI. Departamento Regional da Bahia. Programa de Saúde Bucal na Empresa – PSBE. manual operacional do Programa de Saúde Bucal na Empresa. Relatório final:Salvador, 2005. 35 p.). Nesse sentido, este estudo se propôs a verificar as condições de cárie dentária, percentual de urgência odontológica, uso e necessidade de prótese de trabalhadores de indústrias vinculadas ao PSBE no período de 2003 a 2008, bem como analisar as mesmas variáveis segundo o número de exames realizados no programa e segundo o ramo de atividade.

Métodos

Foi desenvolvido um estudo transversal, retrospectivo, com trabalhadores de cinco indústrias de Salvador e Camaçari, na Bahia, que participavam do Programa de Saúde Bucal na Empresa (PSBE), no período de 2003 a 2008. As indústrias participantes do estudo pertenciam aos ramos de metais, produtos químicos e outros serviços (atividades de administração pública) e seus trabalhadores estavam expostos a fatores de risco como altas temperaturas, névoas ácidas e radiações não ionizantes, respectivamente. As empresas participantes tiveram o programa implantado pelo SESI/BA em momentos distintos, com um tempo mínimo de duração de dois anos. Tratou-se de um programa de atenção à saúde bucal, pois os trabalhadores tiveram acesso ao atendimento odontológico em consultórios instalados dentro da respectiva empresa, para tratamento das necessidades curativas. Além disso, ele envolveu a realização de atividades, individuais e coletivas, educativas e de promoção e prevenção em saúde, de forma sistemática, visando instrumentalizar os trabalhadores na busca de mudanças de hábitos e comportamentos (SERVIÇO SOCIAL DA INDÚSTRIA, 2005SERVIÇO SOCIAL DA INDÚSTRIA – SESI. Departamento Regional da Bahia. Programa de Saúde Bucal na Empresa – PSBE. manual operacional do Programa de Saúde Bucal na Empresa. Relatório final:Salvador, 2005. 35 p.).

O programa preconizava a realização de um exame odontológico anual para avaliação periódica das condições de saúde bucal. Durante o exame foram coletadas informações de natureza sociodemográfica, ocupacionais e de saúde. Foram avaliados ainda hábitos de vida e aqueles relacionados com a saúde bucal. No exame clínico foram coletados dados sobre a condição dental através do índice CPO-D, condição periodontal, através do IPC (Índice Periodontal Comunitário) e PIP (Índice de Perda de Inserção Periodontal) (WORLD HEALTH ORGANIZATION, 1997WORLD HEALTH ORGANIZATION – WHO. Oral health surveys: basic methods. Geneva, 1997.). O trabalhador foi avaliado ainda quanto à presença de lesão de mucosa oral e o uso e necessidade de prótese dentária (SERVIÇO SOCIAL DA INDÚSTRIA, 2005SERVIÇO SOCIAL DA INDÚSTRIA – SESI. Departamento Regional da Bahia. Programa de Saúde Bucal na Empresa – PSBE. manual operacional do Programa de Saúde Bucal na Empresa. Relatório final:Salvador, 2005. 35 p.). Somente para a análise da cárie dentária utilizou-se o período de 2005 a 2008, pela ausência desse indicador em anos anteriores.

Como critério de inclusão, para este estudo, considerou-se que cada trabalhador tivesse realizado exames odontológicos em, ao menos, dois anos no período, para possibilitar a comparação dos dados entre os exames. Todos os trabalhadores que cumpriram esse critério foram incluídos. Foram utilizados dados secundários, referentes ao exame odontológico anual, coletados pela equipe que recebeu treinamento acerca dos critérios de diagnóstico e preenchimento das fichas de saúde bucal, de modo a uniformizar os registros realizados.

Os dados das fichas de saúde bucal foram digitados no Epi Info 6.04 (DEAN et al., 1994Dean, A. G. et al. Epi Info Version 6.0: a word processing, database and statistics program for epidemiology on microcomputers. Atlanta: Center for Disease Control and Prevention, 1994.), em seguida foram agrupados num banco único, para a realização das análises no pacote estatístico SAS 8.1 (SAS INSTITUTE CORPORATE, 2000SAS INSTITUTE CORPORATE – SAS. The SAS System for Windows, Release 8.1. Cary, 2000.). Para a análise de dados, foram selecionadas, do banco, variáveis sociodemográficas como: idade (em anos); sexo (feminino e masculino); renda (até 5 salários-mínimos – SM – e acima de 5 SM); escolaridade (até 1º grau completo, até 2º grau completo, superior completo); ramo de atividade (produtos químicos, metais e outros – categoria referente a atividades de administração pública e geral); número de exames odontológicos realizados (2 exames, 3 exames ou 4 exames); e variáveis clínicas: CPO-D (indicador que avalia a média de dentes cariados, perdidos e obturados); incidência de cárie (obtida a partir da razão entre os indivíduos com casos novos de cárie e o somatório de pessoas no ano correspondente); atividade de cárie (sim – presença de um ou mais dentes com lesão de mancha branca ativa de cárie ou cárie com cavitação; não – ausência de dentes com lesão de mancha branca ativa de cárie ou cárie com cavitação); uso de prótese (sim ou não); necessidade de prótese (sim ou não); urgência odontológica (presença de dor ou infecção). Realizou-se a análise descritiva com a caracterização da população do estudo, descrevendo-se as frequências absolutas e relativas das variáveis sociodemográficas, total de exames odontológicos realizados e indicadores de saúde bucal. A análise bivariada foi realizada utilizando-se o Teste do Qui-quadrado, com nível de significância de 95%.

O presente estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética do Instituto de Ciências da Saúde (ICS) da Universidade Federal da Bahia (UFBA) em 5/4/2009 sob o número de processo 27453-2, n. CAAE 0054.0.069.000-10.

Resultado

Um total de 1.277 trabalhadores das cinco empresas fizeram ao menos dois exames odontológicos (cada exame em um ano diferente) entre 2003 e 2008. Desses, 30,7% fizeram três ou até quatro exames no período (Tabela 1). A falta de obrigatoriedade do exame odontológico anual também fez com que esses trabalhadores tivessem um comparecimento variável aos exames ao longo do período. Dos 1.277 trabalhadores, 368 fizeram o exame em 2003, 364, em 2004, 300, em 2005, 463, em 2006, 807, em 2007 e 708, em 2008.

Tabela 1
Características sociodemográficas e número de exames odontológicos realizados nos trabalhadores participantes do Programa de Saúde Bucal na Empresa*, Bahia, 2003-2008

Em relação à caracterização da população estudada, pôde-se verificar uma maior ocorrência do sexo masculino, com um percentual de 78,98%, e média de idade de 38 anos (± 10,07). Em relação ao nível de escolaridade, a maioria dos trabalhadores possuía até segundo grau completo (51,76%), com uma faixa de renda de até 5 salários-mínimos (52,78%) e maior percentual de trabalhadores pertencentes ao ramo de atividade de metais (61,24%) (Tabela 1).

A experiência de cárie dos trabalhadores foi verificada através do CPO-D para os anos de 2005 a 2008, em função da possibilidade de cálculo desse indicador apenas para os anos referidos. Os resultados apresentados na Tabela 2 revelam grande variabilidade do CPO-D nos anos analisados e entre os grupos de trabalhadores estudados. Observam-se os maiores valores de CPO-D para o ramo de produtos químicos, com variação de CPO-D = 15,46 (DP = 6,05) em 2007 a CPO-D = 19,52 (DP = 3,70) em 2006.

Tabela 2
Experiência de cárie dos trabalhadores de empresas participantes do Programa de Saúde Bucal na Empresa* por ramo de atividade, Bahia, 2005-2008**

A composição percentual do CPO-D para cada ano também mostra grande variação nos percentuais. O componente “cariado” apresentou os menores percentuais em todos os anos, apresentando uma queda quando comparados os anos inicial e final: 11,8% em 2005, 12,6% em 2006 e 6,3% em 2007 e 2008. O componente “perdido” apresentou uma ligeira queda quando comparados seu valor inicial e final: 29,7% em 2005, 24,6% em 2006, 22,4% em 2007 e 23,5% em 2008. Já o componente “obturado” apresentou os maiores percentuais, acompanhado de uma tendência de crescimento: 58,5% em 2005, 62,8% em 2006, 71,3% em 2007 e 70,2% em 2008.

Destaca-se uma intensa e expressiva variação dos percentuais dos indicadores ao longo dos anos (Tabela 3). Somente no período compreendido entre os anos de 2007 e 2008, os resultados evidenciam uma redução dos coeficientes de incidência de cárie, da atividade de cárie e da necessidade de prótese. Apenas o percentual de urgência odontológica aumentou de um ano para o outro. Ressalta-se, também, o crescimento progressivo do número de exames odontológicos realizados no PSBE, quando comparados os períodos de 2003-2006 e 2007-2008.

Tabela 3
Indicadores de saúde bucal dos trabalhadores de empresas participantes do Programa de Saúde Bucal na Empresa*, Bahia, 2003-2008

Observou-se uma redução na incidência de cárie, com o aumento do número de exames, de 35,04% com dois exames para 21,88% com quatro exames (p < 0,01). Significância estatística também foi observada na associação da atividade de cárie com número de exames odontológicos realizados, sendo ela menor no grupo de indivíduos com quatro exames, com uma redução de mais de 15% quando comparada ao grupo de indivíduos com dois exames (p < 0,01). Verificou-se, em paralelo, um aumento dos usuários de prótese com aumento do número de exames realizados, ao passo que a necessidade de prótese sofre uma redução dos percentuais (Tabela 4).

Tabela 4
Associação entre total de exames odontológicos realizados e indicadores de saúde bucal em trabalhadores de empresas participantes do Programa de Saúde Bucal na Empresa*, Bahia, 2003-2008

Apenas os indicadores atividade de cárie e urgência odontológica foram selecionados para realização da associação com os ramos de atividade, através da análise bivariada, em função da expressividade dos percentuais que apresentaram na análise descritiva para os anos de 2007 e 2008. Observou-se associação positiva entre atividade de cárie e ramo de atividade, com maior proporção de atividade de cárie para o ramo de metais (29,19%) no ano de 2007 e percentuais semelhantes para o ramo de metais e outros serviços (24,56%) no ano de 2008. Em relação à urgência odontológica, os maiores percentuais foram observados no ramo de outros serviços, tanto no ano de 2007 (5,60%) como no ano de 2008 (8,40%) (Tabela 5).

Tabela 5
Atividade de cárie e urgência odontológica de trabalhadores em empresas participantes do Programa de Saúde Bucal na Empresa* por ramo de atividade, Bahia, 2003-2008

Discussão

Foi possível verificar uma variação significativa do quantitativo de trabalhadores participantes a cada ano, pois a realização do exame odontológico não é obrigatória e a visita periódica ao dentista ainda não é uma prática adotada por grande parte dos indivíduos (SERVIÇO SOCIAL DA INDÚSTRIA, 2009SERVIÇO SOCIAL DA INDÚSTRIA. Relatório final da análise crítica do PSBE: ciclo 2008. Salvador, 2009. 14 p.). Há que se ressaltar o expressivo aumento ocorrido nos anos de 2007 e 2008, que talvez possa ser explicado pela existência do programa há mais tempo nas empresas, estimulando a maior participação dos trabalhadores.

Em relação às condições sociodemográficas, os resultados deste estudo são semelhantes ao estudo de Pinto e Lima (2006)Pinto, V. G.; Lima, M. O. P. Estudo epidemiológico de saúde bucal em trabalhadores da indústria: Brasil 2002-2003. Brasília: SESI/DN, 2006. 236 p., que evidencia a maior ocorrência no setor da indústria, com idade entre 35 e 44 anos, do sexo masculino e com faixa de renda de até 5 SM.

A condição de saúde bucal da população deste estudo apresenta como principal problema a cárie dentária e relevante necessidade de prótese, cujas perdas dentárias podem ter ocorrido por cárie ou doença periodontal. Esses achados estão de acordo com o perfil epidemiológico de saúde bucal da população adulta brasileira, em que a cárie dentária e a doença periodontal são os principais agravos observados (MOIMAZ et al., 2002Moimaz, S. A. S. et al. Prótese dentária: avaliação do uso e necessidade em população adulta. Revista Paulista de Odontologia, São Paulo, v. 5, n. 1, p. 31-34, 2002.; MOTTA; TOLEDO, 1984Motta, R.; Toledo, V. L. Avaliação de resultados de plano odontológico em indústria mecânica. Revista Brasileira de Saúde Ocupacional, São Paulo, v. 46, n. 12, p. 64-71, 1984.; FRAZÃO; ANTUNES; NARVAL, 2003Frazão, P.; Antunes, J. L. F.; Narvai, P. C. Perda dentária precoce em adultos de 35 a 44 anos de idade. Estado de São Paulo, Brasil, 1998. Revista Brasileira de Epidemiologia, São Paulo, v. 6, n. 1, p. 49-57, 2003. http://dx.doi.org/10.1590/S1415-790X2003000100007.
http://dx.doi.org/10.1590/S1415-790X2003...
; BRASIL, 2004BRASIL. Secretaria de Atenção à Saúde. Departamento de Atenção Básica. Coordenação Nacional de Saúde Bucal. Projeto SB Brasil 2003: condições de saúde bucal da população brasileira 2002-2003. Brasília, 2004.; LACERDA et al., 2004Lacerda, J. T. et al. Dental pain as reason for visiting a dentist in a Brazilian adult population. Revista de Saúde Publica, São Paulo, v. 38, n. 3, p. 453-458, 2004. http://dx.doi.org/10.1590/S0034-89102004000300017. PMid:15243677.
http://dx.doi.org/10.1590/S0034-89102004...
; TOMITA et al., 2005Tomita, N. E. et al. Oral health of building construction workers: an epidemiology approach. Journal of Applied Oral Science, Bauru, v. 13, n. 1, p. 24-27, 2005. http://dx.doi.org/10.1590/S1678-77572005000100006. PMid:20944876.
http://dx.doi.org/10.1590/S1678-77572005...
; GOMES; ABEGG, 2007Gomes, A. S.; Abegg, C. O impacto odontológico no desempenho diário dos trabalhadores do Departamento Municipal de Limpeza Urbana de Porto Alegre, Rio Grande do Sul, Brasil. Cadernos de Saúde Pública, Rio de Janeiro, v. 23, n. 7, p. 1707-1714, 2007. http://dx.doi.org/10.1590/S0102-311X2007000700023. PMid:17572821.
http://dx.doi.org/10.1590/S0102-311X2007...
).

A avaliação da condição de cárie realizada revelou médias de CPO-D variando entre 15,27 e 19,52. Ao comparar esses achados com os da literatura, observa-se que o valor máximo obtido neste estudo foi inferior à maioria dos valores encontrados por outros autores, como CPO-D = 22,39 Frazão, Antunes e Narval (2003Frazão, P.; Antunes, J. L. F.; Narvai, P. C. Perda dentária precoce em adultos de 35 a 44 anos de idade. Estado de São Paulo, Brasil, 1998. Revista Brasileira de Epidemiologia, São Paulo, v. 6, n. 1, p. 49-57, 2003. http://dx.doi.org/10.1590/S1415-790X2003000100007.
http://dx.doi.org/10.1590/S1415-790X2003...
); CPO-D = 22,5 Brasil (1988)BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria Nacional de Programas Especiais de Saúde. Divisão Nacional de Saúde Bucal. Fundação de Serviços de Saúde Pública. Levantamento epidemiológico em saúde bucal: Brasil, zona urbana, 1986. Brasília: Centro de Documentação do Ministério da Saúde, 1988.; CPO-D = 20,12 Brasil (2004)BRASIL. Secretaria de Atenção à Saúde. Departamento de Atenção Básica. Coordenação Nacional de Saúde Bucal. Projeto SB Brasil 2003: condições de saúde bucal da população brasileira 2002-2003. Brasília, 2004.; CPO-D = 22,56 Pinto e Lima (2006)Pinto, V. G.; Lima, M. O. P. Estudo epidemiológico de saúde bucal em trabalhadores da indústria: Brasil 2002-2003. Brasília: SESI/DN, 2006. 236 p.. Diferenças foram observadas apenas quando houve comparação com os dados do SB Brasil 2010 (BRASIL, 2012BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Secretaria de Vigilância em Saúde. Projeto SB Brasil 2010: Pesquisa Nacional de Saúde Bucal: resultados principais. Brasília, 2012.), pois foram verificados valores de CPO-D de 16,75 para o Brasil e 16,62 para o Nordeste, para a faixa etária em questão, abaixo dos valores identificados para alguns anos e ramos de atividade no presente estudo. Uma possível justificativa para esses resultados pode ser a presença do programa de atenção em saúde bucal dentro das empresas, resultando em melhores condições de saúde bucal.

Em relação ao componente perdido do CPO-D, a literatura mostra percentuais relevantes de perda dentária refletida em uma alta proporção de necessidade de prótese (BRASIL, 1988BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria Nacional de Programas Especiais de Saúde. Divisão Nacional de Saúde Bucal. Fundação de Serviços de Saúde Pública. Levantamento epidemiológico em saúde bucal: Brasil, zona urbana, 1986. Brasília: Centro de Documentação do Ministério da Saúde, 1988., 2004BRASIL. Secretaria de Atenção à Saúde. Departamento de Atenção Básica. Coordenação Nacional de Saúde Bucal. Projeto SB Brasil 2003: condições de saúde bucal da população brasileira 2002-2003. Brasília, 2004., 2012BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Secretaria de Vigilância em Saúde. Projeto SB Brasil 2010: Pesquisa Nacional de Saúde Bucal: resultados principais. Brasília, 2012.; MOIMAZ et al., 2002Moimaz, S. A. S. et al. Prótese dentária: avaliação do uso e necessidade em população adulta. Revista Paulista de Odontologia, São Paulo, v. 5, n. 1, p. 31-34, 2002.; SILVA; SOUSA; WADA, 2004Silva, D. D.; Sousa, M. L. R.; Wada, R. S. Saúde bucal em adultos e idosos na cidade de Rio Claro, São Paulo, Brasil. Cadernos de Saúde Pública, Rio de Janeiro, v. 20, n. 2, p. 626-631, 2004. http://dx.doi.org/10.1590/S0102-311X2004000200033. PMid:15073645.
http://dx.doi.org/10.1590/S0102-311X2004...
; PINTO; LIMA, 2006Pinto, V. G.; Lima, M. O. P. Estudo epidemiológico de saúde bucal em trabalhadores da indústria: Brasil 2002-2003. Brasília: SESI/DN, 2006. 236 p.; BATISTA; RIHS; SOUSA, 2012Batista, M. J.; Rihs, L. B.; Sousa, M. L. R. Risk indicators for tooth loss in adult workers. Brazilian Oral Research, São Paulo, v. 26, n. 5, p. 390-396, 2012. http://dx.doi.org/10.1590/S1806-83242012000500003. PMid:23018226.
http://dx.doi.org/10.1590/S1806-83242012...
). Reforçando esse contexto, Frazão, Antunes e Narval (2003)Frazão, P.; Antunes, J. L. F.; Narvai, P. C. Perda dentária precoce em adultos de 35 a 44 anos de idade. Estado de São Paulo, Brasil, 1998. Revista Brasileira de Epidemiologia, São Paulo, v. 6, n. 1, p. 49-57, 2003. http://dx.doi.org/10.1590/S1415-790X2003000100007.
http://dx.doi.org/10.1590/S1415-790X2003...
afirmam que uma parcela significativa da população não tem acesso a ações de promoção de saúde bucal e a serviços odontológicos profissionais, o que torna a exodontia uma prática comum para o tratamento de dentes afetados, mesmo sendo uma opção evitável (VARGAS; PAIXÃO, 2005Vargas, A. M. D.; Paixão, H. H. Perda dentária e seu significado na qualidade de vida de adultos usuários de serviço público de saúde bucal do Centro de Saúde Boa Vista, em Belo Horizonte. Ciência & Saúde Coletiva, Rio de Janeiro, v. 10, n. 4, p. 1015-1024, 2005. http://dx.doi.org/10.1590/S1413-81232005000400024.
http://dx.doi.org/10.1590/S1413-81232005...
; BARBATO et al., 2007Barbato, P. R. et al. Perdas dentárias e fatores sociais, demográficos e de serviços associados em adultos brasileiros: uma análise dos dados do estudo Epidemiológico Nacional (Projeto SB Brasil 2002-2003). Cadernos de Saúde Pública, Rio de Janeiro, v. 23, n. 8, p. 1803-1814, 2007. http://dx.doi.org/10.1590/S0102-311X2007000800007. PMid:17653398.
http://dx.doi.org/10.1590/S0102-311X2007...
). Os achados do presente estudo estão de acordo com a literatura, já que foram observados percentuais significativos do componente perdido em todos os anos avaliados.

Os percentuais de uso e necessidade de prótese se assemelharam ao estudo de Moimaz et al. (2002)Moimaz, S. A. S. et al. Prótese dentária: avaliação do uso e necessidade em população adulta. Revista Paulista de Odontologia, São Paulo, v. 5, n. 1, p. 31-34, 2002., que observaram um percentual de 48% de uso e 48,68% de necessidade de prótese para indivíduos na faixa de 35 a 44 anos. Já os resultados de Pinto e Lima (2006)Pinto, V. G.; Lima, M. O. P. Estudo epidemiológico de saúde bucal em trabalhadores da indústria: Brasil 2002-2003. Brasília: SESI/DN, 2006. 236 p. apresentaram-se melhores em relação ao uso de prótese em industriários da região Nordeste (28,2% de uso de prótese no arco superior e 7,8%, no arco inferior). Porém, em relação à necessidade de prótese, os achados foram semelhantes com 49,4% de necessidade no arco superior e 64,4% de necessidade no arco inferior.

Analisando-se os indicadores de saúde bucal, observou-se a redução dos percentuais de incidência de cárie, atividade de cárie e necessidade de prótese no período de 2007 e 2008. Uma das possíveis hipóteses é que houve um crescimento na realização dos exames odontológicos, o que pode ter proporcionado um melhor acompanhamento do grupo, acesso algumas vezes disponibilizado pelo próprio PSBE. A redução da necessidade de prótese entre 2007 e 2008 pode estar associada, também, à implantação do consultório dessa especialidade em empresas participantes do estudo, o que facilitou o acesso do trabalhador ao tratamento (SERVIÇO SOCIAL DA INDÚSTRIA, 2009SERVIÇO SOCIAL DA INDÚSTRIA. Relatório final da análise crítica do PSBE: ciclo 2008. Salvador, 2009. 14 p.), já que não há necessidade de faltar ao trabalho ou buscar por tratamento após o turno de trabalho (PIZZATO, 2002Pizzato, E. A saúde bucal no contexto da saúde do trabalhador: análise de modelos de atenção. 2002. 110 f. Dissertação (Mestrado em Odontologia)–Faculdade de Odontologia de Araçatuba, Universidade Estadual Paulista, São Paulo, 2002.).

A verificação de maiores percentuais de atividade de cárie e de urgência odontológica para o ramo de metais e para outros serviços talvez possa ser explicada, neste estudo, em função da maior rotatividade dos trabalhadores desses ramos em relação ao ramo de produtos químicos. Essa mudança constante pode impossibilitar o seguimento no programa e a inversão do perfil de saúde, impedindo a redução das necessidades curativas e o alcance da fase de manutenção da saúde bucal. Outro fator que deve ser considerado é o grau de escolaridade dos trabalhadores, em que se observaram maiores níveis de escolaridade no ramo de produtos químicos quando comparado aos ramos de metais e outros serviços. Nesse sentido, evidências apontam que o nível de escolaridade influencia de modo importante a saúde das pessoas e que melhores condições de saúde bucal são observadas em indivíduos com maior nível de escolaridade (COHEN-CARNEIRO; SANTOS; REBELO, 2011Cohen-Carneiro, F.; Santos, R. S.; Rebelo, M. A. B. Qualidade de vida relacionada à saúde bucal: contribuição dos fatores sociais. Ciência & Saúde Coletiva, Rio de Janeiro, v. 16, n. 1, p. 1007-1015, 2011.).

Os percentuais de urgência odontológica não sofreram grandes alterações ano a ano e o maior percentual encontrado neste estudo foi de 5,3%, em 2005, bem abaixo dos valores encontrados por outros autores, como Petersen (1983)Petersen, P. E. Dental health among workers at a Danish chocolate factory. Community Dentistry and Oral Epidemiology, Copenhagen, v. 11, n. 6, p. 337-341, 1983. http://dx.doi.org/10.1111/j.1600-0528.1983.tb01388.x. PMid:6580997.
http://dx.doi.org/10.1111/j.1600-0528.19...
, que observou um percentual de 12% de odontalgias no seu estudo, Lacerda et al. (2004)Lacerda, J. T. et al. Dental pain as reason for visiting a dentist in a Brazilian adult population. Revista de Saúde Publica, São Paulo, v. 38, n. 3, p. 453-458, 2004. http://dx.doi.org/10.1590/S0034-89102004000300017. PMid:15243677.
http://dx.doi.org/10.1590/S0034-89102004...
, em que o percentual de odontalgias foi de 18,7%, e Gomes e Abegg (2007)Gomes, A. S.; Abegg, C. O impacto odontológico no desempenho diário dos trabalhadores do Departamento Municipal de Limpeza Urbana de Porto Alegre, Rio Grande do Sul, Brasil. Cadernos de Saúde Pública, Rio de Janeiro, v. 23, n. 7, p. 1707-1714, 2007. http://dx.doi.org/10.1590/S0102-311X2007000700023. PMid:17572821.
http://dx.doi.org/10.1590/S0102-311X2007...
, que relataram percentual de 20,7% de trabalhadores com problemas agudos e situação de urgência. Ainda assim, a urgência odontológica é uma questão importante a ser considerada, pois está relacionada a situações de dor e desconforto, que interferem na capacidade de concentração e desempenho das atividades laborais, caracterizando o presenteísmo no ambiente de trabalho (PETERSEN, 1983Petersen, P. E. Dental health among workers at a Danish chocolate factory. Community Dentistry and Oral Epidemiology, Copenhagen, v. 11, n. 6, p. 337-341, 1983. http://dx.doi.org/10.1111/j.1600-0528.1983.tb01388.x. PMid:6580997.
http://dx.doi.org/10.1111/j.1600-0528.19...
; FERREIRA, 1995Ferreira, R. A. O valor da saúde bucal nas empresas. Revista da Associação Paulista de Cirurgiões-Dentistas, São Paulo, v. 49, n. 2, p. 96-107, 1995.; MIDORIKAWA, 2000Midorikawa, E. T. A odontologia em saúde do trabalhador como uma nova especialidade profissional: definição do campo de atuação e função do cirurgião-dentista na equipe de saúde do trabalhador. 2000. 337 f. Dissertação (Mestrado em Saúde Coletiva)–Faculdade de Odontologia, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2000.).

Um resultado importante obtido foi a redução da incidência de cárie e da atividade de cárie para o grupo de trabalhadores com maior número de exames odontológicos realizados. Apesar de não ter havido significância estatística, observou-se redução da necessidade de prótese e aumento do percentual de uso prótese no grupo com maior número de participações no programa, o que pode significar que os trabalhadores que necessitavam de próteses avançaram para reabilitação protética. Esses resultados concordam com achados de Petersen (1989)Petersen, P. E. Evaluation of dental preventive program for Danish chocolate workers. Community Dentistry and Oral Epidemiology, Copenhagen, v. 17, n. 2, p. 53-59, 1989. http://dx.doi.org/10.1111/j.1600-0528.1989.tb00587.x. PMid:2920539.
http://dx.doi.org/10.1111/j.1600-0528.19...
, Westerman (1993)Westerman, B. Appropriate dental care for employees at the workplace. Australian Dental Journal, Sydney, v. 38, n. 6, p. 471-475, 1993. http://dx.doi.org/10.1111/j.1834-7819.1993.tb04762.x. PMid:8110082.
http://dx.doi.org/10.1111/j.1834-7819.19...
, Ahlberg, Tuominen e Murtomaa (1996aAhlberg, J.; Tuominen, R.; Murtomaa, H. Oral mucosal changes and associated factors among male industrial workers with or without access to subsidized dental care. Acta Odontologica Scandinavica, Stockholm, v. 54, n. 4, p. 217-222, 1996a. http://dx.doi.org/10.3109/00016359609003527. PMid:8876731.
http://dx.doi.org/10.3109/00016359609003...
, bAhlberg, J.; Tuominen, R.; Murtomaa, H. Subsidezed dental care improves caries status in male industrial workers. Community Dentistry and Oral Epidemiology, Copenhagen, v. 24, n. 4, p. 249-252, 1996b. http://dx.doi.org/10.1111/j.1600-0528.1996.tb00854.x. PMid:8871032.
http://dx.doi.org/10.1111/j.1600-0528.19...
) e Ide et al. (2001)Ide, R. et al. Evaluation of oral health promotion in the workplace: the effects on dental care costs and frequency of dental visits. Community Dentistry and Oral Epidemiology, Copenhagen, v. 29, n. 3, p. 213-219, 2001. http://dx.doi.org/10.1034/j.1600-0528.2001.290307.x. PMid:11409680.
http://dx.doi.org/10.1034/j.1600-0528.20...
, que identificaram redução das necessidades de tratamento e melhoria das condições de saúde bucal de trabalhadores de empresas que possuíam programas de Odontologia assistenciais ou de prevenção em saúde. É importante ressaltar a influência, nesses indicadores, de um programa que, diferentemente daqueles citados na literatura, foi estruturado de acordo com os princípios da vigilância da saúde e que reforça o desenvolvimento de ações de educação e promoção em saúde para mudanças de hábitos e comportamentos, contribuindo para melhoria da saúde bucal e da qualidade de vida (PAIM, 2003Paim, J. S. Modelos de atenção e vigilância da saúde. In: ROUQUAYROL, M. Z.; ALMEIDA-FILHO, N. Epidemiologia & saúde. 6. ed. Rio de Janeiro: MEDSI, 2003. p. 567-586.; SERVIÇO SOCIAL DA INDÚSTRIA, 2005SERVIÇO SOCIAL DA INDÚSTRIA – SESI. Departamento Regional da Bahia. Programa de Saúde Bucal na Empresa – PSBE. manual operacional do Programa de Saúde Bucal na Empresa. Relatório final:Salvador, 2005. 35 p.).

É importante ressaltar os limites metodológicos deste estudo, já abordados anteriormente, em relação às mudanças da população a cada ano e à utilização de dados secundários, que pode trazer consigo erros de informação, como diferenças de critérios de preenchimento entre os dentistas que realizaram o exame odontológico, mesmo havendo capacitação para utilização da ficha de saúde bucal; perda de informações pela falta de preenchimento de todos os campos do prontuário; e os erros provenientes da digitação para lançamento dos dados dos prontuários na base de dados do SESI/BA, embora tenham-se colocado bloqueios e permissões nos campos de digitação, para minimização dos erros. Além disso, tem-se a clareza de que submeter-se ao exame odontológico a cada ano não necessariamente significa acesso e participação direta no programa, mas sim maior sensibilização.

Mesmo com limites, a realização do exame odontológico, vinculada ao programa, parece possibilitar, além da identificação e direcionamento para tratamento das necessidades curativas, a realização de ações preventivas individuais e de motivação para participação nas ações coletivas desenvolvidas na empresa. O Programa de Saúde Bucal na Empresa, analisado por meio dos exames odontológicos realizados, além do monitoramento sistemático, parece contribuir para a melhor saúde bucal dos trabalhadores, visto que aqueles trabalhadores que realizaram maior número de exames apresentaram menor incidência de cárie, atividade de cárie e necessidade de prótese. Verifica-se a importância da implantação de programas de atenção em saúde bucal resolutivos e que possam contribuir para melhoria da saúde bucal dos trabalhadores.

Contribuições de autoria

  • O presente trabalho é baseado na dissertação de mestrado de Luísa Silva Lima, intitulada “Condições de saúde bucal em trabalhadores da indústria, em empresas que possuem o Programa de Saúde Bucal na Empresa, 2003 a 2008 – Bahia”, defendida em 2010 na Faculdade de Odontologia da Universidade Federal da Bahia.
  • Trabalho não apresentado em reunião científica.

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Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    01 Dez 2015
  • Data do Fascículo
    Jul-Dec 2015

Histórico

  • Recebido
    18 Set 2013
  • Revisado
    24 Fev 2014
  • Aceito
    26 Fev 2014
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