Open-access Alta prevalência de síndrome de burnout em médicos intensivistas da cidade de Porto Alegre

INTRODUÇÃO

A síndrome de burnout é descrita como uma síndrome de esgotamento emocional (EE), despersonalização (DP) e redução de realizações pessoais (RP).(1,2) O burnout associa-se a absentismo, doenças físicas, problemas emocionais, pobre desempenho no trabalho e atitudes negativas,(3) podendo resultar em diminuição da qualidade dos cuidados.

A ferramenta de medição de síndrome de burnout mais estudada é o Inventário de Burnout de Maslach (IBM).(4) Variações na prevalência e na gravidade de burnout são relatadas em todas as especialidades médicas.(5-8) Os intensivistas podem ter níveis elevados de burnout por conta de sua demanda estressante associada ao cuidado do paciente crítico.(6,9)

Guntupalli e Fromm estudaram o desgaste entre intensivistas americanos(10) e encontraram que 29% apresentaram altas taxas de EE, 20,4% de DP e 59% sentiam baixa RP. Achados semelhantes são relatados entre os intensivistas franceses e ingleses, com prevalências de burnout moderado e elevado entre 30 e 45%.(7,11) No Brasil, são poucos os levantamentos de prevalência de burnout entre intensivistas de adultos.(6,12,13)

A síndrome de burnout é um fator limitante profissional, de modo que este estudo objetiva identificá-la entre intensivistas de pacientes adultos da cidade de Porto Alegre.

MÉTODOS

Estudo de corte transversal entre médicos intensivistas de pacientes adultos de Porto Alegre (RS), com carga semanal de trabalho ≥ 12 horas em unidade de terapia intensiva e registrados na Sociedade de Terapia Intensiva do Rio Grande do Sul (SOTIRGS). Cada médico recebeu um e-mail com um link para o preenchimento eletrônico de um questionário dividido em duas partes: características sociodemográficas (Apêndice 1) e avaliação da síndrome de burnout pelo IBM.(6,14)

O IBM avalia a subescala EE para sentimentos de sobrecarga emocional e esgotamento por seu trabalho. A subescala DP mede uma resposta insensível e impessoal para os destinatários de um serviço, cuidado ou tratamento. A subescala RP avalia os sentimentos de competência e realização em trabalhar com as pessoas. A ausência de burnout é indicada pela pontuação de zero a 20, possível burnout de 21 a 40, burnout leve de 41 a 60, burnout moderado de 61 a 80, e de 81 a 100 pontos o nível de burnout é elevado. O estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa do Hospital de Clínicas de Porto Alegre (número 853.986). Um termo de consentimento tácito foi incluído no questionário.

Análise estatística

Uma análise de variância univariada foi usada para testar a igualdade entre médias. A análise de correlação de Pearson foi utilizada para avaliar a associação entre burnout e as três dimensões de estresse. A associação entre as diferentes variáveis e a presença de burnout foi avaliada pelo teste exato de Fisher. Os dados são expressos como média ± desvio padrão, e o nível de significância foi de 5%.

RESULTADOS

Responderam ao questionário de forma completa 52 intensivistas (24%) de 220 elegíveis (Tabela 1). Nenhum outro profissional informou sua recusa em participar. Todos os médicos apresentaram algum grau de burnout: 3 com burnout elevado, 29 moderado e 20 leve. A proporção de médicos sofrendo de EE elevado ou moderado foi de 52%; DP elevada foi de 61% e de realização baixa foi 62%. A associação de burnout moderado e elevado, quando comparada ao leve, foi maior entre os médicos na faixa de 30 - 39 anos, com tempo de experiência profissional até 5 anos e que trabalhavam mais que 60 horas semanais como intensivista (Tabela 2). O escore de burnout e a intensidade do mesmo estavam associados às dimensões EE e DP (Figuras 1 e 2), mas não à RP.

Tabela 1
Características dos participantes
Tabela 2
Variáveis sociodemográficas e proporção de burnout moderado e elevado combinados comparado com leve
Figura 1
Escores de gravidade para cada dimensão, segundo o Inventário de Burnout de Maslach.

# p < 0,05 burnout elevado versus moderado e leve; * p < 0,05 burnout moderado versus leve.


Figura 2
Correlações entre o escore de burnout e cada dimensão avaliada.

DISCUSSÃO

Um dos achados deste estudo foi uma alta proporção de burnout elevado e moderado entre os intensivistas, dado semelhante ao de intensivistas de outras nacionalidades,(7,9,10) bem como de outros estudos brasileiros(12,13,15,16) que mostram proporções de burnout considerável próximas ou até mais elevadas que 50%.

Os médicos jovens e com pouca experiência apresentaram mais burnout, igualmente àqueles com jornadas semanais longas, que também sofreram mais de burnout. Estes achados devem estar relacionados, pois os jovens possuem menos experiência profissional e trabalham muitas horas, combinando plantões e trabalho horizontal. No entanto, mesmo especulando que o intensivista jovem trabalhe muito à noite e nos fins de semana, não encontramos associação entre plantões noturnos ou de fim de semana e burnout. A proporção de médicos mais velhos que fazem plantões é menor, o que pode indicar que aqueles para quem os plantões tornaram-se uma sobrecarga abandonaram este tipo de atividade e protegeram-se de burnout. Este achado está de acordo com outros estudos entre profissionais de terapia intensiva.(6,9,13)

O presente estudo tem limitações. Nós avaliamos a presença de burnout entre intensivistas da cidade de Porto Alegre, que trabalhavam em vários hospitais com características diferentes, e registrados na SOTIRGS, mas obtivemos apenas 52 respostas. Os intensivistas não registrados não foram contatados. Este estudo não permite estabelecer nexo causal e análises de confundimento e interação, o que diminui sua robustez.

CONCLUSÃO

A presença de burnout é grande entre intensivistas. Os intensivistas jovens, com pouca experiência profissional e jornada laboral longa sofrem de estresse maior. Urge aprofundar o entendimento das causas que levam o intensivista a ter estresse elevado para propor melhorias na atividade deste especialista.

  • Editor responsável: Thiago Costa Lisboa

Apêndice 1

Parte 1
Dados do perfil sociodemográfico
Parte 2
Questionário para identificação preliminar do burnout

Elaborado e adaptado por Chafic Jbeili, inspirado no Inventário de Burnout de Maslach - IBM

Marque “X” na coluna correspondente:

1- Nunca | 2- Anualmente | 3- Mensalmente | 4- Semanalmente | 5- Diariamente


REFERÊNCIAS

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  • 6 Tironi MO, Nascimento Sobrinho CL, Barros DS, Reis EJ, Marques Filho ES, Almeida A, et al. [Professional Burnout Syndrome of intensive care physicians from Salvador, Bahia, Brazil]. Rev Assoc Med Bras (1992). 2009;55(6):656-62. Portuguese.
  • 7 Embriaco N, Azoulay E, Barrau K, Kentish N, Pochard F, Loundou A, et al. High level of burnout in intensivists: prevalence and associated factors. Am J Respir Crit Care Med. 2007;175(7):686-92. Erratum in: Am J Respir Crit Care Med. 2007;175(11):1209-10.
  • 8 Campbell DA Jr, Sonnad SS, Eckhauser FE, Campbell KK, Greenfield LJ. Burnout among American surgeons. Surgery. 2001;130(4):696-702; discussion 702-5.
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  • 15 Barros DS, Tironi MO, Nascimento Sobrinho CL, Neves FS, Bitencourt AG, Almeida AM, et al. Intensive care unit physicians: socio-demographic profile, working conditions and factors associated with burnout syndrome. Rev Bras Ter Intensiva. 2008;20(3):235-40.
  • 16 Garcia TT, Garcia PC, Molon ME, Piva JP, Tasker RC, Branco RG, et al. Prevalence of burnout in pediatric intensivists: an observational comparison with general pediatricians. Pediatr Crit Care Med. 2014;15(8):e347-53.

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    Jan-Mar 2017

Histórico

  • Recebido
    01 Jul 2016
  • Aceito
    06 Dez 2016
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