Eficiência de Utilização da Energia Metabolizável para Mantença e Ganho de Peso e Exigências de Energia Metabolizável e de Nutrientes Digestíveis Totais de Bovinos Nelore Não-Castrados

Efficiency of Metabolizable Energy Utilization for Maintenance, Weight Gain, Metabolizable Energy and Total Digestible Nutrients Requeriments of Nellore Bulls

Fabiano Ferreira da Silva Sebastião de Campos Valadares Filho Luís Carlos Vinhas Ítavo Cristina Mattos Veloso Mário Fonseca Paulino Paulo Roberto Cecon Eduardo Bevitori Kling de Moraes Pedro Veiga Rodrigues Paulino Sobre os autores

Resumos

Foram utilizados 40 novilhos Nelore inteiros, com peso vivo médio inicial de 240 kg, sendo quatro novilhos de referência, quatro alimentados para mantença e o restante distribuído em oito tratamentos, com quatro diferentes níveis de concentrado nas dietas (20, 40, 60 e 80%) e dois níveis de proteína bruta (PB) (15 e 18%). O consumo de matéria seca (MS) suficiente para manter o equilíbrio de energia foi calculado dividindo-se o consumo de energia metabolizável (EM) suficiente para mantença, de 131,92 kcal/ kg PCVZ0,75, pela concentração de EM (kcal/kg de MS) da dieta, em cada tratamento. A concentração de energia líquida de cada ração para mantença (ELm) foi obtida dividindo-se a produção de calor em jejum, 83,70 kcal/kg PCVZ0,75, pelo consumo de MS, para manter o equilíbrio de energia, expresso em g de MS/kg PCVZ0,75. O consumo de energia metabolizável (EM) suficiente para mantença e a produção de calor em jejum foram obtidos experimentalmente com os mesmos animais deste experimento. A concentração de ELg foi calculada dividindo-se a energia retida por dia, em kcal/kg PCVZ0,75, pelo consumo de MS acima das necessidades de mantença, expresso em g MS/kg PCVZ0,75. As eficiências de utilização da EM (EUEM) para mantença (km) e ganho de peso (kf) foram estimadas a partir da relação entre os teores de energia líquida, para mantença ou ganho, respectivamente, em função da EM da dieta, e a kf também foi estimada como o coeficiente de regressão linear entre a energia retida e o consumo de EM, juntamente com os dados relativos aos animais designados de mantença. Os requisitos de EM para mantença e ganho foram obtidos pelas relações entre as exigências líquidas e as respectivas EUEM. As exigências de nutrientes digestíveis totais (NDT) foram calculadas dividindo-se as exigências de EM por 0,82, obtendo-se as exigências de energia digestível (ED) e, posteriormente, dividindo-se as exigências de ED por 4,409. A eficiência de utilização da EM para mantença (km) foi calculada em 0,63. As eficiências de utilização da EM para ganho (kf) foram estimadas em 0,30; 0,35; 0,38; e 0,43, respectivamente, para as concentrações de EM da dieta de 2,65; 2,84; 2,92 e 2,90 Mcal/kg de MS, obtidas para os níveis de 20, 40, 60 e 80% de concentrado. As exigências de EM, ED e NDT para mantença foram calculadas em 132,9 e 162,0 kcal/ kg PCVZ0,75 e 36,7 g/kg PCVZ0,75, respectivamente.

eficiência de utilização; energia metabolizável; Nelore


Forty Nellore bulls, with average initial live weight (LW) of 240 kg, were used. Four reference bulls and four bulls fed for maintenance were used, and the remaining was assigned to eight treatments, with four different concentrate levels in the diets (20; 40; 60 and 80%) and two levels of crude protein (CP) (15 and 18%). The dry matter (DM) intake enough to maintain the energy balance was calculated dividing the metabolizable energy (ME) consumption enough for maintenance, of 131.92 kcal/kg EBW0.75, by the ME concentration (kcal/kg of DM) of the diet, in each treatment. The net energy concentration of each ration for maintenance (NEm) was obtained by dividing the heat production in fasting, 83.70 kcal/kg EBW0.75, by the DM consumption to maintain the energy balance, expressed in g of DM/kg EBW0.75. The metabolizable energy (ME) consumption enough for maintenance and the heat production in fasting were obtained experimentally with the same animals of this experiment. The NEg concentration was calculated by dividing the energy retained per day, in kcal/kg EBW0.75, by the DM consumption above the maintenance needs, expressed in g DM/kg EBW0.75. The ME efficiencies of utilization (MEEU) for maintenance (km) and for weight gain (kf) were calculated from the relationship among the net energy concentration, for maintenance or gain, respectively, in function of the ME of the diet and the kf was also calculated as the linear regression coefficient between retained energy and the ME intake, together with the data of the maintenance animals. The ME requirements for maintenance and gain were obtained by the relationship between the net demands and the respective MEEU. The total digestible nutrients (TDN) requirements were calculated dividing the ME requirements by 0.82, obtaining the digestible energy (DE) demands and, later, dividing the DE requirements by 4.409. The MEEU for maintenance (km) was 0.63 and the MEEU for gain (kf) were 0.30, 0.35, 0.38, and 0.43, respectively, for diet ME concentrations of 2.65, 2.84, 2.92, and 2.90 Mcal/kg of DM, obtained for the concentrate levels of 20, 40, 60 and 80%. ME, DE and TDN maintenance requirements were 132.9 and 162.0 kcal/kg EBW0.75, and 36.7 g/kg EBW0.75, respectively.

efficiency of utilization; metabolizable energy; Nellore


Eficiência de Utilização da Energia Metabolizável para Mantença e Ganho de Peso e Exigências de Energia Metabolizável e de Nutrientes Digestíveis Totais de Bovinos Nelore Não-Castrados1 1 Parte da tese de Doutorado em Zootecnia apresentada pelo primeiro autor à UFV. Financiada pela FAPEMIG.

Fabiano Ferreira da Silva2 1 Parte da tese de Doutorado em Zootecnia apresentada pelo primeiro autor à UFV. Financiada pela FAPEMIG. , Sebastião de Campos Valadares Filho3 1 Parte da tese de Doutorado em Zootecnia apresentada pelo primeiro autor à UFV. Financiada pela FAPEMIG. , Luís Carlos Vinhas Ítavo4 1 Parte da tese de Doutorado em Zootecnia apresentada pelo primeiro autor à UFV. Financiada pela FAPEMIG. , Cristina Mattos Veloso2 1 Parte da tese de Doutorado em Zootecnia apresentada pelo primeiro autor à UFV. Financiada pela FAPEMIG. , Mário Fonseca Paulino3 1 Parte da tese de Doutorado em Zootecnia apresentada pelo primeiro autor à UFV. Financiada pela FAPEMIG. , Paulo Roberto Cecon5 1 Parte da tese de Doutorado em Zootecnia apresentada pelo primeiro autor à UFV. Financiada pela FAPEMIG. , Eduardo Bevitori Kling de Moraes7 1 Parte da tese de Doutorado em Zootecnia apresentada pelo primeiro autor à UFV. Financiada pela FAPEMIG. , Pedro Veiga Rodrigues Paulino7 1 Parte da tese de Doutorado em Zootecnia apresentada pelo primeiro autor à UFV. Financiada pela FAPEMIG.

RESUMO - Foram utilizados 40 novilhos Nelore inteiros, com peso vivo médio inicial de 240 kg, sendo quatro novilhos de referência, quatro alimentados para mantença e o restante distribuído em oito tratamentos, com quatro diferentes níveis de concentrado nas dietas (20, 40, 60 e 80%) e dois níveis de proteína bruta (PB) (15 e 18%). O consumo de matéria seca (MS) suficiente para manter o equilíbrio de energia foi calculado dividindo-se o consumo de energia metabolizável (EM) suficiente para mantença, de 131,92 kcal/ kg PCVZ0,75, pela concentração de EM (kcal/kg de MS) da dieta, em cada tratamento. A concentração de energia líquida de cada ração para mantença (ELm) foi obtida dividindo-se a produção de calor em jejum, 83,70 kcal/kg PCVZ0,75, pelo consumo de MS, para manter o equilíbrio de energia, expresso em g de MS/kg PCVZ0,75. O consumo de energia metabolizável (EM) suficiente para mantença e a produção de calor em jejum foram obtidos experimentalmente com os mesmos animais deste experimento. A concentração de ELg foi calculada dividindo-se a energia retida por dia, em kcal/kg PCVZ0,75, pelo consumo de MS acima das necessidades de mantença, expresso em g MS/kg PCVZ0,75. As eficiências de utilização da EM (EUEM) para mantença (km) e ganho de peso (kf) foram estimadas a partir da relação entre os teores de energia líquida, para mantença ou ganho, respectivamente, em função da EM da dieta, e a kf também foi estimada como o coeficiente de regressão linear entre a energia retida e o consumo de EM, juntamente com os dados relativos aos animais designados de mantença. Os requisitos de EM para mantença e ganho foram obtidos pelas relações entre as exigências líquidas e as respectivas EUEM. As exigências de nutrientes digestíveis totais (NDT) foram calculadas dividindo-se as exigências de EM por 0,82, obtendo-se as exigências de energia digestível (ED) e, posteriormente, dividindo-se as exigências de ED por 4,409. A eficiência de utilização da EM para mantença (km) foi calculada em 0,63. As eficiências de utilização da EM para ganho (kf) foram estimadas em 0,30; 0,35; 0,38; e 0,43, respectivamente, para as concentrações de EM da dieta de 2,65; 2,84; 2,92 e 2,90 Mcal/kg de MS, obtidas para os níveis de 20, 40, 60 e 80% de concentrado. As exigências de EM, ED e NDT para mantença foram calculadas em 132,9 e 162,0 kcal/ kg PCVZ0,75 e 36,7 g/kg PCVZ0,75, respectivamente.

Palavras-chave: eficiência de utilização, energia metabolizável, Nelore

Efficiency of Metabolizable Energy Utilization for Maintenance, Weight Gain, Metabolizable Energy and Total Digestible Nutrients Requeriments of Nellore Bulls

Abstract - Forty Nellore bulls, with average initial live weight (LW) of 240 kg, were used. Four reference bulls and four bulls fed for maintenance were used, and the remaining was assigned to eight treatments, with four different concentrate levels in the diets (20; 40; 60 and 80%) and two levels of crude protein (CP) (15 and 18%). The dry matter (DM) intake enough to maintain the energy balance was calculated dividing the metabolizable energy (ME) consumption enough for maintenance, of 131.92 kcal/kg EBW0.75, by the ME concentration (kcal/kg of DM) of the diet, in each treatment. The net energy concentration of each ration for maintenance (NEm) was obtained by dividing the heat production in fasting, 83.70 kcal/kg EBW0.75, by the DM consumption to maintain the energy balance, expressed in g of DM/kg EBW0.75. The metabolizable energy (ME) consumption enough for maintenance and the heat production in fasting were obtained experimentally with the same animals of this experiment. The NEg concentration was calculated by dividing the energy retained per day, in kcal/kg EBW0.75, by the DM consumption above the maintenance needs, expressed in g DM/kg EBW0.75. The ME efficiencies of utilization (MEEU) for maintenance (km) and for weight gain (kf) were calculated from the relationship among the net energy concentration, for maintenance or gain, respectively, in function of the ME of the diet and the kf was also calculated as the linear regression coefficient between retained energy and the ME intake, together with the data of the maintenance animals. The ME requirements for maintenance and gain were obtained by the relationship between the net demands and the respective MEEU. The total digestible nutrients (TDN) requirements were calculated dividing the ME requirements by 0.82, obtaining the digestible energy (DE) demands and, later, dividing the DE requirements by 4.409. The MEEU for maintenance (km) was 0.63 and the MEEU for gain (kf) were 0.30, 0.35, 0.38, and 0.43, respectively, for diet ME concentrations of 2.65, 2.84, 2.92, and 2.90 Mcal/kg of DM, obtained for the concentrate levels of 20, 40, 60 and 80%. ME, DE and TDN maintenance requirements were 132.9 and 162.0 kcal/kg EBW0.75, and 36.7 g/kg EBW0.75, respectively.

Key Words: efficiency of utilization, metabolizable energy, Nellore

Introdução

Apesar de já terem sido publicados e analisados vários dados sobre exigências nutricionais de bovinos no Brasil (Boin, 1995; Fontes, 1995; Valadares Filho, 1995), existe uma carência de fatores para a conversão das exigências líquidas em exigências dietéticas. Na formulação de rações, ainda são utilizadas tabelas de exigências nutricionais determinadas em outros países, nos quais os resultados de pesquisa revelam diferenças nos requisitos entre raças e categorias de bovinos, estado fisiológico, regiões e, até mesmo, estações do ano.

A partir do conhecimento dos requisitos líquidos e levando-se em consideração os fatores de eficiência de utilização da energia do alimento para mantença e ganho, são obtidas as exigências dietéticas. Portanto, o conhecimento da eficiência de utilização da energia metabolizável (EUEM) da dieta é necessário para determinação das exigências de energia metabolizável e de nutrientes digestíveis totais (NDT).

Segundo Silva & Leão (1979), as exigências energéticas dos animais são as de mais difícil determinação, porque a EUEM é variável para os diferentes processos fisiológicos, além do fato destes requisitos serem influenciados pelo clima, trabalho muscular e, principalmente, pela concentração de EM da dieta.

As estimativas das EUEM para mantença (km) e ganho (kf) são obtidas a partir de equações não-lineares entre a ELm e a energia metabolizável (EM) da dieta e entre a ELg e a EM da dieta, respectivamente (Garrett, 1980a,b). A kf também pode ser estimada como o coeficiente de regressão linear entre a energia retida (ER) e o consumo de energia metabolizável (CEM), segundo o NRC (1996) e Ferrell & Jenkins (1998a,b).

A eficiência de utilização da energia metabolizável da ração não está muito bem estabelecida para ruminantes. O NRC (1984) mostra valores de eficiência de utilização da energia metabolizável para mantença variando de 57,6 a 68,6% e, para ganho, de 29,6 a 47,3%, conforme os teores de EM da ração. Garrett (1980a) relatou que resultados experimentais mostraram que a eficiência de utilização da EM na síntese de proteína variou entre 10 e 40%, enquanto para síntese de gordura, entre 60 e 80%.

As variações no balanço da energia são dependentes do nível de ingestão de alimentos, que é influenciado por interações entre os alimentos, denominadas efeito associativo. A adição de concentrado a dietas volumosas aumenta parcialmente a EUEM para mantença e ganho (NRC, 1984), em virtude das reduções da produção de metano, da ruminação e do incremento calórico (Van Soest, 1994). A eficiência de utilização da energia ingerida tende a ser maior para dietas concentradas, quando comparadas a volumosas, devido aos menores requisitos líquidos para mantença (ARC, 1980). Também, alimentos volumosos de melhor qualidade são mais eficientes que os de pior qualidade (Van Soest, 1994).

Diferenças nas taxas metabólicas dos vários órgãos e vísceras também podem influenciar a utilização da energia. Catton & Dhuyvetter (1997) relataram que os tecidos viscerais, embora compreendam pequena porção do peso corporal, consomem, aproximadamente, 50% da energia para mantença. Por outro lado, o tecido muscular, que constitui cerca de 41% da massa corporal, consome apenas 23% do total da energia requerida para mantença.

Garrett (1980a) relatou que resultados experimentais mostraram que a eficiência de utilização da EM na síntese de proteína variou entre 10 e 40%, enquanto para síntese de gordura, entre 60 e 80%. Segundo Rattray & Joyce (1976), os ganhos de peso associados com altas deposições de gordura foram energeticamente mais eficientes, porém menos eficientes em relação à conversão de alimentos em peso vivo, quando comparados a ganhos com pequena deposição de gordura. Isto ocorre porque os tecidos adiposos, nos quais ocorre grande parte do aumento de peso vivo, contêm teores mais elevados de matéria seca (Lana, 1991) que os músculos (80 x 30%, aproximadamente).

O objetivo deste trabalho foi determinar a eficiência de utilização da energia metabolizável para ganho de peso e as exigências de energia metabolizável e de nutrientes digestíveis totais para bovinos Nelore não-castrados, alimentados com rações contendo diferentes níveis de concentrado e de proteína.

Material e Métodos

O experimento foi realizado no Departamento de Zootecnia da Universidade Federal de Viçosa, em Viçosa-MG. Foram utilizados 40 novilhos Nelore não-castrados, com peso vivo médio inicial de 240 kg. Quatro novilhos foram abatidos após o período de adaptação de 30 dias (grupo referência), servindo de referência nos estudos subseqüentes. Quatro novilhos foram alimentados com uma dieta contendo 60% de concentrado e 15% de proteína bruta (PB) em quantidade restrita de 1,2% do peso vivo (grupo mantença), para atender os requisitos energéticos de mantença, calculados segundo o NRC (1996). Os 32 animais restantes foram pesados e distribuídos em oito tratamentos, com diferentes níveis de concentrado nas dietas (20, 40, 60 e 80%) e dois níveis de PB (15 e 18%), na base da MS, em esquema fatorial 4 x 2 (níveis de concentrado x níveis de proteína), em delineamento inteiramente casualizado com quatro repetições na fase de recria e duas repetições na fase de engorda. A fase de recria foi avaliada dos 240 aos 360 kg de peso vivo e a fase de engorda, dos 360 aos 450 kg de peso vivo. O volumoso foi composto de feno de gramínea Cynodon dactylon (L) Pears. cultivar Tifton 85. As rações foram formuladas de acordo com o NRC (1996) e para conter próximo de 32% de compostos nitrogenados não-protéicos. A proporção dos ingredientes e a composição bromatológica das dietas e do feno encontram-se na Tabela 1 e 2.

Os alimentos foram fornecidos à vontade, uma vez ao dia, e ajustados de forma a manter sobras em torno de 5 a 10% do fornecido, com água permanentemente à disposição dos animais. Foi realizada uma pesagem dos animais no início do experimento e, periodicamente, a cada 28 dias. À medida que um animal se aproximava do peso de abate preestabelecido, 360 ou 450 kg (recria e engorda, respectivamente), era pesado a intervalos menores (7 dias). Após o abate, o trato gastrintestinal foi pesado e seu peso foi somado aos dos órgãos e das demais partes do corpo (carcaça, cabeça, couro, cauda, pés e sangue), para determinação do peso de corpo vazio (PCVZ). Os conteúdos corporais de gordura, proteína e água foram determinados em função das concentrações percentuais destes nos órgãos, nas vísceras, no couro, no sangue, na cauda, na cabeça, nos pés e nos constituintes separados (gordura, músculos e ossos) da seção HH.

As concentrações de energia líquida das dietas foram calculadas segundo Harris (1970). Os valores de EM da dieta foram calculados considerando-se que 1 kg de NDT é igual a 4,409 Mcal de energia digestível (ED) e 1 Mcal de ED, a 0,82 Mcal de EM (Silva & Leão, 1979).

O consumo de MS suficiente para manter o equilíbrio de energia foi calculado dividindo-se o consumo de EM suficiente para mantença, de 131,92 kcal/kg PCVZ0,75 (Silva, 2001), pela concentração de EM (kcal/kg de MS) da dieta, em cada tratamento.

A concentração de energia líquida de cada dieta para mantença (ELm) foi obtida dividindo-se a produção de calor em jejum, 83,70 kcal/kg PCVZ0,75, pelo consumo de MS, para manter o equilíbrio de energia, expresso em g de MS/kg PCVZ0,75; enquanto o consumo de MS acima das necessidades de mantença foi obtido subtraindo-se do consumo total de MS (g de MS/kg PCVZ0,75) o consumo de MS suficiente para o equilíbrio de energia (g de MS/kg PCVZ0,75), para cada dieta. A concentração de ELg foi calculada dividindo-se a energia retida por dia, em kcal/kg PCVZ0,75, pelo consumo de MS acima das necessidades de mantença, expresso em g MS/kg PCVZ0,75.

As EUEM para mantença (km) e ganho de peso (kf) foram estimadas a partir da relação entre os teores de energia líquida, para mantença ou ganho, respectivamente, em função da EM da dieta, segundo Garrett (1980b), sendo que a kf também foi estimada como o coeficiente de regressão linear entre a ER e o CEM, para os animais de cada tratamento, segundo o NRC (1996) e Ferrell & Jenkins (1998a,b), juntamente com os dados relativos aos animais alimentados para mantença.

Os requisitos de EM para mantença e ganho foram obtidos pelas relações entre as exigências líquidas e as respectivas EUEM, estimadas segundo Garrett (1980b). As exigências de NDT foram calculadas dividindo-se as exigências de EM por 0,82 (Silva & Leão, 1979), obtendo-se as exigências de energia digestível (ED) e, posteriormente, dividindo-se as exigências de ED por 4,409.

As exigências para ganho de 1 kg de PCVZ foram multiplicadas pelo fator 0,96 para se obterem as exigências líquidas para ganho de 1 kg de peso vivo (PV), conforme relação obtida entre ganho de peso de corpo vazio e ganho de peso vivo (Silva, 2001). A relação entre o peso vivo e o PCVZ, obtida neste experimento, foi: PCVZ = PV x 0,8975.

As determinações de matéria seca (MS), proteína bruta (PB), extrato etéreo (EE) e fibra em detergente neutro (FDN) foram feitas conforme técnicas descritas por Silva (1990). Os teores de nutrientes digestíveis totais (NDT) foram obtidos em ensaio de digestibilidade com os mesmos animais deste experimento (Ítavo, 2001), utilizando a fórmula NDT (%) = PB digestível + FDN digestível + carboidratos não fibrosos digestíveis + (EE digestível x 2,25), conforme recomendação de Sniffen et al. (1992).

Resultados e Discussão

Na Tabela 3 são apresentados os teores de NDT, as concentrações de EM das dietas e os valores calculados de ELm e ELg, além das km e kf calculadas, e as estimativas das kf, segundo o NRC (1996) e Ferrell & Jenkins (1998a,b). Os valores calculados referem-se aos obtidos partir dos dados do presente trabalho e os estimados segundo o NRC (1996), utilizando-se dados do presente trabalho.

Utilizando a equação de Garrett (1980a), recomendada pelo NRC (1996), a estimativa da concentração de ELm de uma ração com teor de EM de 2,60 e 2,90 Mcal/kg MS é de 1,69 e 1,94 Mcal/kg MS, respectivamente, e a estimativa da concentração de ELg destas mesmas rações, de 1,08 e 1,30 Mcal/kg MS, respectivamente. Estes valores estão próximos aos encontrados para as dietas com concentração de EM semelhante. Véras (2000), trabalhando com animais Nelore, para uma dieta com 2,60 Mcal de EM/kg MS, encontrou menor concentração de ELm (1,46 Mcal/kg MS) e maior concentração de ELg (1,27 Mcal/kg MS). A km estimada para uma dieta com 2,6 Mcal de EM/kg MS, segundo Garrett (1980a), seria de 65,1%, valor próximo ao obtido no presente trabalho. Véras (2000) obteve km de 56% para dietas com EM variando de 2,10 a 2,60 Mcal/kg MS.

As equações que geraram os resultados para a estimativa das kf como sendo os coeficientes de regressão das relações lineares entre a ER (Y) e o CEM (X), para os animais de cada tratamento (20, 40, 60 e 80% de concentrado), segundo preconizado pelo NRC (1996) e Ferrell & Jenkins (1998a,b), foram: Y = - 1,4704 + 0,2555 X, r2 = 0,18; Y = - 1,3669 + 0,2544 X, r2 = 0,45; Y = - 2,6804 + 0,3247 X, r2 = 0,88 e Y = - 3,6587 + 0,4048 X, r2 = 0,67. Portanto, as kf estimadas apresentaram valores inferiores às kf calculadas e ambas as formas foram inferiores aos valores encontrados por Véras (2000). Ferreira et al. (1999), oferecendo dietas com EM variando de 2,30 e 2,70 Mcal/kg MS, a animais F1 Simental x Nelore, observaram kf próximas às deste experimento (0,23 a 0,42).

As exigências de EM, ED e NDT para mantença, para diferentes pesos vivos e corpo vazio, são mostradas na Tabela 4, na qual se observam aumentos nestes requisitos, à medida que o peso corporal se eleva, apresentando a mesma tendência das exigências líquidas de energia para mantença.

Considerando-se a km obtida, de 0,63, e o valor de 83,70 kcal/kgPCVZ0,75 como requisito líquido de energia para mantença (Silva, 2001), as exigências de EM para mantença seriam de 132,9 kcal/PCVZ0,75; as de ED, 162,0 kcal/PCVZ0,75; e as de NDT, 36,7 g/PCVZ0,75, valores inferiores aos encontrados por Véras (2000), com Nelores não-castrados, e por Ferreira et al. (1999), com F1 Simental x Nelore, também não-castrados.

O ajuste de uma equação relacionando as concentrações de ELg, em função das concentrações de EM das dietas do presente trabalho, apresentou-se na forma linear, sendo ELg = - 3,2033 + 1,5045 EM, r2 = 0,11. A partir desta relação foram estimadas as eficiências de utilização da EM de duas dietas com teores diferentes de EM (2,7 e 2,9 Mcal/kg MS) e as respectivas exigências de EM e NDT (Tabela 5). Ferreira et al. (1999) e Véras (2000) obtiveram uma relação cúbica entre ELg e EM, com os seguintes modelos: ELg = - 54,764 EM3 + 391,28 EM2 - 927,84 EM + 731,13, R2 = 0,64, ELg = 4,871 EM3 - 37,609 EM2 + 97,642 EM - 84,232, R2 = 0,93; respectivamente.

Na Tabela 5, são apresentadas as estimativas dos requisitos de ELg, em Mcal/ kg ganho de peso vivo (GPV), de EM para ganho de peso, em Mcal por kg de ganho de PV (Mcal/kg GPV), e de NDT, em kg/kg de GPV, utilizando-se a relação entre os requisitos líquidos estimados para os dados em conjunto, por Silva (2001), e as kf para as concentrações de EM de 2,7 e 2,9 Mcal/kg de MS, obtidas no presente trabalho. Apenas foram utilizados os valores relativos às exigências líquidas de energia dos dados em conjunto, porque o teste de identidade de modelos, de acordo com a metodologia recomendada por Regazzi (1996), indicou não haver diferença entre os tratamentos, níveis de concentrado e de proteína bruta da dieta.

As exigências de EM aumentaram, à medida que o peso corporal se elevou, o que concorda com o AFRC (1993), que estimou aumento nos requisitos de EM para ganho de 1 kg, de 79 para 95 MJ/dia, com a elevação do peso corporal de 300 para 400 kg, respectivamente.

As exigências líquidas e totais para diferentes pesos vivos e taxas de ganho de peso vivo estão apresentadas na Tabela 6. As exigências totais de EM (mantença + ganho de 1 kg de PV) e de NDT de um animal pesando 400 de PV foram de 21,24 Mcal/dia e 5,87 kg/dia, respectivamente. O requisito de NDT é semelhante ao recomendado pelo NRC (1984) para um bovino não-castrado de porte médio, com peso vivo aproximado de 400 kg, ganhando cerca de 1 kg/dia, que é próximo a 6,0 kg/dia. Véras (2000) encontrou exigência de NDT para esta mesma categoria, com a mesma taxa de ganho de peso: 5,30 kg/dia.

As exigências líquidas para ganho de PCVZ foram convertidas para ganho de PV segundo multiplicação pelo fator 0,96, obtido por Silva (2001).

Conclusões

A eficiência de utilização da EM para mantença (km) foi de 63% e para ganho (kf) variou entre 31,8 e 40% para dietas, com teor de EM entre 2,7 e 2,9 Mcal/ kd de MS, semelhantes às recomendações do NRC (1996).

As exigências totais de EM, ED e NDT encontradas neste experimento, para animais Nelore, foram inferiores ao recomendado pelo NRC (1996).

Literatura Citada

Recebido em: 29/04/01

Aceito em: 29/11/01

  • 1
    Parte da tese de Doutorado em Zootecnia apresentada pelo primeiro autor à UFV. Financiada pela FAPEMIG.
  • 2 Professor do curso de Zootecnia - UESB ¾ Pc. Primavera, 40 - Itapetinga, BA 45700-000. E.mail: ffsilva@uesb.br; cmveloso@uesb.br

    3 Professor do Departamento de Zootecnia - UFV - Viçosa, MG. E.mail: svcfilho@ufv.br

    4 Professor da Universidade Católica Dom Bosco - Campo Grande, MS. E.mail: itavo@ucdb.br

    5 Professor do Departamento de Medicina Veterinária - UFV - Viçosa, MG. E.mail: svcfilho@ufv.br

    6 Professor do Departamento de Informática - UFV - Viçosa, MG.

    7 Mestrando em Zootecnia/UFV - Viçosa, MG. E.mail: eg35439@correio.ufv.br; edukling@bol.com.br

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    1 Parte da tese de Doutorado em Zootecnia apresentada pelo primeiro autor à UFV. Financiada pela FAPEMIG.

    Datas de Publicação

    • Publicação nesta coleção
      29 Jul 2002
    • Data do Fascículo
      Jan 2002

    Histórico

    • Aceito
      29 Nov 2001
    • Recebido
      29 Abr 2001
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