Desafios para crescer!

M. Isabel T. D. Correia Sobre o autor

Coluna do editor

O hoje é fruto do ontem e será exemplo para o amanhã! Assim, ao assumir como editora-chefe da Revista do Colégio Brasileiro de Cirurgiões (CBC) faz-se mister enaltecer o trabalho de todos os que me antecederam nesta posição, mas principalmente mencionar os líderes da Instituição que não mediram esforços para que a revista fosse a voz da ciência e educação, não só no Brasil, como em outros países, em especial, de língua portuguesa. De olhos no amanhã, estou certa do desafio e da responsabilidade que me foi atribuída pela atual diretoria, a quem de antemão agradeço a confiança, esperando alcançar as metas desejadas.

Ciente de que a atual crise econômica pela qual o Brasil passa dificulta enormemente a produção de ciência e educação com a devida qualidade, fatores esses que impactam na literatura científica, vislumbro grandes desafios pela frente. No entanto, a percepção que tenho da vida é a de um eterno desafiar. Nesse sentido, a escolha pela Cirurgia define, de antemão, a personalidade característica da especialidade, independentemente do sexo. Logo, este será mais um entre tantos outros desafios enfrentados ao longo da profissão, em especial, para quem há muitos anos, escolheu enveredar por um ambiente dominado pelo sexo oposto.

A revista do CBC nasceu precocemente, após a fundação do Colégio, em 1929, em cujo primeiro estatuto havia a previsão da publicação do “Boletim do Colégio Brasileiro de Cirurgiões”, fato que ocorreu em janeiro de 1930 11 A arte e a técnica da cirurgia no Brasil - A história da maior entidade científica da América Latina Rio de Janeiro Libertta; 2018/2019 [Available from: file:///C:/Users/isabe/Downloads/Revista%20Histo%C3%8C%20rica%2090%20Anos-compactado.pdf.
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. No entanto, apenas em 1967 houve a mudança para o título atual, ainda que a periocidade fosse irregular, e, somente em 1974, passasse a ser bimestral. Ao longo destes anos, os esforços de distintos editores-chefes conduziram à indexação do periódico em bases de dados nacionais e internacionais, adotando a política de acesso livre e imediato ao conteúdo. Este princípio democrático para a difusão do conhecimento, não deixa, contudo, num país sem verbas para a prática e difusão da ciência, de ser um ônus para os autores. Por outro lado, esta é prática adotada mundialmente para o acesso livre a qualquer meio de conhecimento, ainda que em países de primeiro mundo, as agências financiadoras, públicas ou privadas, na grande maioria das vezes, assumam o custo do livre acesso. Neste sentido, este seja talvez um dos primeiros desafios a enfrentar, digamos, equacionar a democratização do livre acesso com a do ônus dos autores, os quais tampouco recebem financiamentos para realizar ou publicar seus trabalhos. Tarefa árdua, mas envidaremos esforços para que a democratização seja, de fato, igual para todos! De sorte que, faz-se mister a realização de outras iniciativas para as quais não só a relevância do conteúdo científico dos trabalhos mas também a aplicabilidade clínica precisam ser atrativos para a comunidade de usuários.

O crescimento do número de médicos no Brasil tem sido enorme, uma vez que entre 1920 e 2017, o total de registros de médicos aumentou de 14.031 para 451.777 (crescimento de 2.219,8%), em um país em que o número de habitantes cresceu em 577,8%, ou seja, o incremento de médicos foi 3,7 vezes maior do que o da população geral. Deve-se ressaltar que o aumento de médicos se deu, em especial, a partir do início do presente século, havendo, por conseguinte, a predominância de profissionais jovens, o que se reflete no perfil dos cirurgiões atuantes 22 Medicina CFd. Brasil chega a quase meio milhão de médicos, com cada vez mais mulheres e jovens entre os profissionais [Web page]. 2018 [Available from: http://portal.cfm.org.br/index.php?option=com_content&view=article&id=27500%3A2018-03-19-19-09-56&catid=3%3Aportal&Itemid=1.
http://portal.cfm.org.br/index.php?optio...
. Há, atualmente, cerca de 35 mil cirurgiões gerais no país, cujas idades variam entre 30 e 49 anos 33 http://www.myendnoteweb.com/EndNoteWeb.html?func=remoteSearchConnections& [
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, para os quais a revista do CBC representa levar informação e conhecimento gratuito, principalmente, considerando as limitações geográficas e econômicas deste grande país. Contudo, almejamos mais, uma vez que ao ser bilíngue, a revista possa alcançar outros cirurgiões ou profissionais interessados no tema “Cirurgia” pelo mundo, em especial, se o conteúdo científico impactar na realidade prática destes.

A Medicina em geral, e a Cirurgia em especial, no Brasil, evoluíram muito e acompanharam os grandes avanços mundiais. Em Cirurgia, a realização de operações minimamente invasivas e robóticas, além da adoção de práticas multimodais sobre a importância do adequado preparo metabólico e nutricional, colocaram o Cirurgião brasileiro no mesmo patamar de colegas de primeiro mundo. Contudo, a despeito dessa realidade, o profissional brasileiro não traduziu para a prática da ciência a mesma determinação e destreza, nem tampouco o hábito de publicar.

Poder-se-ia se questionar a necessidade de revistas científicas nacionais, quando atualmente cerca de 20 milhões de trabalhos são publicados no Pubmed, dos quais um milhão são estudos clínicos e, quase dois milhões, revisões 44 Ioannidis JP. The Mass Production of Redundant, Misleading, and Conflicted Systematic Reviews and Meta-analyses. Milbank Q. 2016;94(3):485-514.. Contudo, particularidades e experiências da Medicina e Cirurgia Brasileira, a despeito das grandes dificuldades financeiras, logísticas e até mesmo científicas, certamente são valiosas para a prática clínica no país, mas não só. No entanto e para tal, é essencial que padrões metodológicos e análises estatísticas adequadas sejam respeitados.

Ressalta-se a relevância do método científico correto, ao invés do comumente praticado “vamos fazer um trabalhinho”. Logo, como uma das metas, a coluna da(o) editor(a) abordará entre outros temas, a discussão de assuntos pertinentes ao método científico. Certamente, necessitaremos do envolvimento e colaboração de vários colegas nacionais e internacionais para este desafio, respeitando sempre os princípios da ética, assunto que também deverá ser plenamente praticado e discutido na temática da revista. Há um mundo a ser desvendado!

É importante estimular os profissionais a fazerem pesquisas e publicá-las, em especial, nas áreas que independem da disponibilidade de grande vulto de recursos, tais como assuntos relacionados com qualidade e segurança, fundamentais para as boas práticas cirúrgicas.

Na caminhada, precisaremos da colaboração de muitos, em particular, dos membros do corpo editorial e dos revisores ad hoc, que entre os vários afazeres diários, ainda precisarão dedicar parte do tempo para a revisão dos trabalhos designados. A esses, de antemão, agradeço!

“O real não está no início nem no fim, ele se mostra pra gente é no meio da travessia” (João Guimarães Rosa - Grande sertão veredas)

Referências

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    27 Mar 2020
  • Data do Fascículo
    2020
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