Open-access Perspectivas decoloniais e saberes tradicionais na Ciência da Informação brasileira: um estudo dos trabalhos publicados nos anais do ENANCIB

RESUMO

Introdução:  A Ciência da Informação, especialmente no contexto brasileiro, consolidou-se a partir de bases epistemológicas eurocêntricas que contribuíram para a marginalização de saberes produzidos fora dos parâmetros da ciência moderna. Como questionamento dessas hierarquias, as perspectivas decoloniais emergem como campo teórico-crítico que tensiona práticas e sistemas informacionais, ampliando o reconhecimento dos saberes tradicionais como epistemes legítimas. Nesse cenário, entende-se relevante compreender como esses temas vêm sendo explorados na área.

Objetivo:  Analisar como as perspectivas decoloniais e os saberes tradicionais têm sido abordados na produção científica do Encontro Nacional de Pesquisa em Ciência da Informação (ENANCIB). Metodologia: Pesquisa de natureza básica, abordagem qualitativa e caráter exploratório, fundamentada em revisão de literatura e análise temática de conteúdo. O corpus foi constituído por 27 trabalhos recuperados da Base de Dados do ENANCIB. A análise dos documentos foi orientada por cinco categorias definidas a posteriori: Grupo de Trabalho do ENANCIB, enfoque metodológico, contexto da pesquisa, abordagem conceitual e articulações com a Ciência da Informação.

Resultados:  Os resultados evidenciam a predominância de estudos orientados pelas perspectivas decoloniais, especialmente a partir de 2021. As publicações concentram-se em Grupos de Trabalho que discutem as dimensões epistemológica, política e sociocultural da informação. Predominam métodos de abordagem qualitativa, análises teórico-conceituais e pesquisas empíricas em contextos indígenas, afro-diaspóricos e comunitários, observando-se diferentes níveis de aprofundamento conceitual e articulação entre os temas.

Conclusão:  Conclui-se que os assuntos vêm ganhando visibilidade no evento de maneira heterogênea, evidenciando temas em construção e a necessidade de aprofundamento das pesquisas que integrem criticamente perspectivas decoloniais e saberes tradicionais às práticas informacionais.

PALAVRAS-CHAVE
Ciência da Informação; Decolonialidade; Saberes tradicionais; Produção Científica; ENANCIB.

ABSTRACT

Introduction:  Information Science, particularly in the Brazilian context, has been historically grounded in Eurocentric epistemologies that contributed to the marginalization of knowledges produced outside the parameters of modern science. In response to these hierarchies, decolonial perspectives have emerged as a critical theoretical field that challenges informational practices and systems, expanding the recognition of traditional knowledge as legitimate epistemes. In this scenario, it becomes relevant to understand how these themes have been mobilized in the field’s scientific production.

Objective:  This paper analyzes how decolonial perspectives and traditional knowledge have been addressed in the scientific production presented at “Encontro Nacional de Pesquisa em Ciência da Informação” (ENANCIB). Methodology: This is basic research with a qualitative approach and an exploratory design, based on a literature review and thematic content analysis. The corpus comprised 27 papers retrieved from the ENANCIB Database. Document analysis was guided by five a posteriori category: ENANCIB Working Group, methodological approach, research context, conceptual framework, and relations with Information Science.

Results:  The findings indicate a predominance of studies oriented by decolonial perspectives, especially from 2021 onward. Publications are concentrated in Working Groups that address the epistemological, political, and sociocultural dimensions of information. Qualitative approaches prevail, including theoretical-conceptual analyses and empirical research conducted in Indigenous, Afro-diasporic, and community-based contexts, revealing different levels of conceptual depth and articulation between the themes.

Conclusion:  The results show that these topics have gained heterogeneous visibility at the conference, evidencing an emerging research agenda and highlighting the need for further studies that critically integrate decolonial perspectives and traditional knowledge into informational practices.

KEYWORDS:
Information Science; Decoloniality; Traditional knowledge; Scientific Production; ENANCIB.

INTRODUÇÃO

Historicamente, a Ciência da Informação consolidou-se a partir de modelos científicos associados à institucionalização do conhecimento, à formalização metodológica e à centralidade da escrita como principal forma de registro, validação e compartilhamento do conhecimento. Sob um olhar crítico a essa dinâmica, Fernandes (1995) argumenta que essa consolidação decorre de uma gestão institucional dos saberes, por meio da qual instâncias como o Estado, o Capital e a Ciência controlam e selecionam o fluxo do conhecimento social, determinando, de forma excludente, o que se legitima como informação. O caráter assimétrico desse processo é reconhecido e problematizado por Capurro (2003), ao afirmar que as ações de institucionalização e formalização do conhecimento não são neutras, pois se articulam a estruturas globais de poder e interesses hegemônicos, exigindo uma reflexão crítica acerca de quem a informação serve em um sistema marcado pela lógica da globalização.

No Brasil, o processo de consolidação científica foi atravessado pela herança colonial e pela adoção de epistemologias europeias que influenciaram a constituição da estrutura acadêmica predominante no país. Como consequência, conhecimentos produzidos fora dos parâmetros científicos implementados foram marginalizados, fazendo com que os saberes de comunidades tradicionais fossem desconsiderados pela racionalidade científica universalizante (Diegues, 2000). De modo convergente, Brandão e Fagundes (2016) ressaltam que os saberes vinculados à cultura popular foram historicamente tratados como objetos de intervenção e não como epistemes capazes de produzir conhecimento crítico.

Com o questionamento dos processos de hierarquização do saber e do poder, emergem então as perspectivas decoloniais, que configuram um campo teórico-crítico voltado ao tensionamento dos fundamentos e das teorias vigentes na Ciência da Informação contemporânea. Essas abordagens problematizam as práticas de produção, organização, mediação e circulação da informação, bem como os sistemas e políticas informacionais que reproduzem universalismos que invisibilizam o reconhecimento de epistemes situadas e coletivamente construídas (Fonseca; Zaninelli, 2022; Talone Neto; Marteleto, 2024).

Nesse universo, os saberes tradicionais passam a ser compreendidos como conhecimentos produzidos coletivamente, ancorados na experiência, na memória social, na oralidade e na transmissão intergeracional. Esses saberes não constituem resquícios de um estágio pré-científico do conhecimento, mas são epistemes que coexistem com a ciência moderna, operando segundo lógicas próprias e respondendo às demandas das comunidades que os produzem (Arruda; Caldas, 2021; Vilhena; Dias, 2021).

Diante da ampliação dessas discussões no campo da Ciência da Informação, as perspectivas decoloniais e os saberes tradicionais têm se constituído como temas recorrentes nas pesquisas, associados a subáreas e objetos empíricos diversos. Nesse cenário, a presente investigação emerge da aproximação entre as agendas de pesquisa das autoras que, embora situadas em áreas de atuação distintas no campo, compartilham o interesse em compreender como esses debates vêm sendo construídos e mobilizados na Ciência da Informação brasileira.

Considerando o exposto, entende-se que o Encontro Nacional de Pesquisa e Pós-Graduação em Ciência da Informação (ENANCIB) configura-se como contexto estratégico para o levantamento inicial dos conceitos e aplicações dos temas apresentados, por se tratar de um espaço de compartilhamento e reflexão da produção científica atualizada do campo. Diante disso, esta pesquisa busca responder à seguinte questão: Como as perspectivas decoloniais e os saberes tradicionais têm sido abordados na produção científica do ENANCIB e em que medida esses eixos teóricos se articulam nas pesquisas apresentadas no evento?

Por meio do levantamento de trabalhos na Base de Dados do ENANCIB (BENANCIB), tem-se como objetivo analisar como as perspectivas decoloniais e os saberes tradicionais têm sido tratados nas discussões do ENANCIB, identificando convergências, tensões e contribuições dos temas para o campo da Ciência da Informação brasileira.

Para isso, além desta introdução, o texto está organizado a partir da seguinte estrutura: uma seção voltada à construção do referencial teórico, que discute os fundamentos e contribuições das perspectivas decoloniais para a Ciência da Informação e os saberes tradicionais como fonte de conhecimento, considerando suas formas de produção, transmissão e reconhecimento no campo informacional; uma seção em que se apresenta o percurso metodológico da pesquisa, com a caracterização do estudo, os procedimentos de coleta, a constituição do corpus e das categorias analíticas adotadas; uma seção que reúne os resultados, articulando os achados empíricos ao referencial teórico mobilizado; por fim, a última seção apresenta as conclusões, com a síntese dos principais resultados, as limitações do estudo e as possibilidades de continuidade da investigação.

Com isso, espera-se que os resultados possam contribuir com a reflexão crítica das relações entre construção e compartilhamento do conhecimento, políticas e práticas de organização, uso e mediação da informação, valorizando a diversidade dos saberes no contexto brasileiro.

2 REVISÃO DE LITERATURA

Esta seção apresenta as bases teóricas que sustentam o estudo, articulando os dois eixos centrais da pesquisa: as perspectivas decoloniais e os saberes tradicionais. Inicialmente, discute-se a decolonialidade como uma abordagem crítica voltada à problematização das hierarquias epistêmicas e sociais, da colonialidade do saber e dos processos de legitimação do conhecimento. Em seguida, abordam-se os saberes tradicionais a partir de seus modos de produção, transmissão e reconhecimento, considerando sua relação com práticas sociais, memória, oralidade, território e cultura. Em conjunto, essas discussões permitem compreender como tais perspectivas tensionam conceitos e práticas informacionais relacionados à organização do conhecimento, à mediação da informação e ao reconhecimento de epistemologias historicamente subalternizadas.

2.1 Perspectivas decoloniais na Ciência da Informação

A perspectiva decolonial emerge, a partir do final do século XX, como um marco teórico-crítico que questiona a permanência das estruturas de dominação colonial mesmo após o fim formal do colonialismo. Desenvolvida sobretudo por intelectuais latino-americanos vinculados ao Grupo Modernidade/Colonialidade, essa abordagem propõe uma crítica às bases epistemológicas da modernidade ocidental, evidenciando que as assimetrias produzidas pela expansão colonial continuam operando na organização do saber científico e na legitimação do conhecimento (Quijano, 2005; Mignolo, 2008; Walsh, 2009). Nesse sentido, Crippa (2021, p. 19) entende que “a vertente decolonial [...] representa um movimento de resistência teórico, prático, político e epistemológico à lógica da modernidade/colonialidade”.

No campo dos estudos decoloniais, a modernidade é compreendida como indissociável da colonialidade, uma vez que o projeto moderno europeu se constituiu simultaneamente à exploração colonial. Segundo Quijano (2005) e Mignolo (2017) os ideais de progresso, racionalidade e universalidade foram historicamente acompanhados por processos de dominação política, econômica e epistêmica, nos quais determinados saberes foram afirmados como universais enquanto outros foram sistematicamente subalternizados.

Nesse contexto, Quijano (2005) formula o conceito de colonialidade do poder, entendido como uma matriz global de dominação que articula raça, trabalho, gênero e autoridade. Ainda segundo o autor, a classificação racial da população mundial tornou-se um eixo estruturante das relações sociais e econômicas, legitimando hierarquias que persistem até a contemporaneidade. Essa matriz não se limita às dimensões políticas e econômicas, mas atravessa também a produção e a validação do conhecimento, conformando o que se denomina colonialidade do saber.

A colonialidade do saber refere-se à imposição do conhecimento eurocêntrico como padrão universal de cientificidade, estabelecendo hierarquias epistêmicas que reconhecem determinadas formas de saber como legítimas, racionais e científicas, enquanto outras são desqualificadas, silenciadas ou reduzidas à condição de objeto de estudo. Esse processo sustenta a ideia de que apenas a ciência moderna ocidental é capaz de produzir conhecimento válido, marginalizando epistemologias situadas, locais e não hegemônicas (Lander, 2005; Mignolo, 2017).

Os conhecimentos silenciados ou considerados “não racionais” não se restringem àqueles produzidos fora do Ocidente, mas incluem também saberes produzidos por sujeitos racializados e historicamente subalternizados. Conhecimentos produzidos por povos de origem africana, indígenas e populações periféricas foram, ao longo da história, invalidados ou apropriados sem reconhecimento, ao passo que suas narrativas e experiências foram frequentemente registradas a partir do olhar de homens brancos e europeizados, reforçando assimetrias epistêmicas e simbólicas.

A crítica decolonial à ciência moderna, contudo, não implica sua negação, mas a problematização de seus fundamentos e de seus efeitos excludentes. Ao se apresentar como neutra, objetiva e universal, a ciência moderna contribui para a naturalização de hierarquias epistêmicas e para o apagamento das relações de poder que atravessam sua constituição histórica. Nesse sentido, Grosfoguel (2009 apudBernardino-Costa; Grosfoguel, 2016) chama atenção para a distinção entre lugar social e lugar epistêmico, ressaltando que estar socialmente situado no lado oprimido das relações de poder não significa, automaticamente, pensar a partir de um lugar epistêmico subalterno. Para o autor, pensar a partir da perspectiva subalterna exige um compromisso ético-político com a produção de conhecimentos contra-hegemônicos.

Assim, a decolonialidade não se configura apenas como um arcabouço teórico ou uma crítica abstrata às estruturas coloniais, mas como “um conjunto de posicionamentos, posturas, horizontes e projetos ou ações de resistência, que admite a transgressão, intervenção e, até mesmo, a insurgência” (Achilles; Gonçalves; Peixoto 2022, p. 2). Trata-se, portanto, de uma perspectiva que articula reflexão crítica e engajamento político, orientada à transformação das condições históricas que sustentam a colonialidade do poder e do saber.

Garcez e Sales (2023) também compreendem a decolonialidade como um campo de reflexão que se opõe às formas hegemônicas de produção do conhecimento, constituindo-se por abordagens críticas voltadas a confrontar, de modo respeitoso, o processo histórico de colonização dos saberes. Para os autores, trata-se de questionar e tensionar as estruturas de poder e os sistemas que sustentam a colonização e a opressão em suas diversas expressões.

A exclusão sistemática de conhecimentos não hegemônicos é compreendida, no âmbito dos estudos decoloniais, como epistemicídio, conceito que evidencia o caráter ativo e estrutural da negação de modos de conhecer produzidos por povos subalternizados. Trata-

se de um processo que envolve a deslegitimação intelectual, a negação de acesso a sistemas educacionais e científicos e a inferiorização simbólica de sujeitos e saberes. Conforme aponta Carneiro (2005, p. 97), o epistemicídio refere-se à “anulação e desqualificação do conhecimento dos povos subjugados”, o que produz uma indigência cultural sustentada por mecanismos institucionais e simbólicos de exclusão.

O conjunto dessas reflexões constitui o chamado giro decolonial, entendido como um deslocamento epistemológico que busca desnaturalizar as bases eurocêntricas do conhecimento e questionar a pretensa universalidade da ciência moderna. Esse giro propõe a abertura para outras racionalidades, experiências históricas e práticas cognitivas, sem reduzi-las a categorias subalternas ou folclorizadas, atravessando diferentes áreas do conhecimento e provocando a reconfiguração de agendas de pesquisa e práticas acadêmicas (Walsh; Mignolo, 2018).

Nesse horizonte crítico, Walsh (2009) e Santos (2009) enfatizam a necessidade de ampliar os marcos epistemológicos da ciência moderna, reconhecendo a coexistência de múltiplas formas de produção do conhecimento. Para os autores, a superação das hierarquias epistêmicas exige a valorização de saberes historicamente subalternizados e a construção de práticas acadêmicas comprometidas com a justiça epistêmica.

Essa perspectiva dialoga com os desafios colocados à Ciência da Informação no contexto brasileiro, onde a perspectiva decolonial tem sido mobilizada como uma crítica epistemológica às narrativas hegemônicas, aos modelos universalizantes de organização do conhecimento e à suposta neutralidade dos processos informacionais. Ao evidenciar as relações entre ciência, poder e conhecimento, essa abordagem oferece subsídios teóricos para analisar criticamente a produção científica da área, suas escolhas temáticas, conceituais e metodológicas, bem como os silenciamentos e ausências que atravessam sua constituição.

Portanto, Moura, Trivellato e Gomes (2024) articulam a noção de justiça epistêmica como um princípio voltado à valorização de diferentes formas de produção do conhecimento, reconhecendo a diversidade de perspectivas e experiências na construção do saber. Assim, a decolonialidade possibilita compreender em que medida a Ciência da Informação brasileira tem incorporado, tensionado ou marginalizado epistemologias não hegemônicas, especialmente no que se refere ao diálogo com saberes tradicionais e populares.

2.2 Saberes tradicionais como fonte de conhecimento

Os saberes tradicionais podem ser compreendidos como conhecimento produzido coletivamente, ao longo do tempo, por grupos sociais específicos, ancorado na experiência, na observação do ambiente, na prática cotidiana e na interação contínua entre sujeitos, cultura e território. Esses saberes se originam de processos históricos e sociais próprios e se desenvolvem paralelamente à ciência moderna, permanecendo profundamente vinculados aos modos de vida, valores culturais e necessidades concretas das comunidades que os produzem (Arruda; Caldas, 2021; Vilhena; Dias, 2021).

Diferentemente do conhecimento científico, esses saberes não se legitimam por critérios acadêmicos ou metodológicos institucionalizados, mas pelo uso social, pela eficácia prática e pelo reconhecimento coletivo. A oralidade, a memória social, a aprendizagem pela convivência e a transmissão intergeracional configuram elementos centrais em seus modos de produção e circulação, conferindo-lhes caráter situado, dinâmico e processual, em que o conhecimento se constrói e se transforma no interior das práticas culturais e relações comunitárias (Batista; Farias, 2022; Blanco; Souza, 2023).

A diversidade de contextos socioculturais em que esses saberes emergem contribui para a multiplicidade de denominações utilizadas para designá-los. Silva e Ferreira (2023) e Pereira e Souza (2022) indicam que expressões como ‘conhecimento popular’, ‘saberes ancestrais’, ‘saberes comunitários’, ‘saberes indígenas’ e ‘conhecimentos coletivos’ são empregadas para nomear fenômenos epistemológicos distintos com características comuns. Essa pluralidade conceitual não deve ser caracterizada como fragilidade teórica, mas como expressão da heterogeneidade dos modos de produção do conhecimento e a inadequação em reduzi-los a uma definição única e universalizante (Okawati; Muriel-Torrado, 2024).

Além disso, Arruda e Caldas (2022) destacam que os saberes tradicionais não podem ser compreendidos como resquícios de um estágio pré-científico do conhecimento. Ao contrário, configuram epistemes que coexistem historicamente com a ciência moderna, operando segundo lógicas próprias e estabelecendo relações que podem variar entre diálogo, complementaridade e tensão (Fonseca; Zaninelli, 2022).

As tensões entre saberes tradicionais e ciência intensificaram-se com a consolidação de critérios específicos de validação do conhecimento científico, fundamentados na escrita, na formalização metodológica e na institucionalização acadêmica. Esse processo passou a orientar o reconhecimento do conhecimento produzido como legítimo, hierarquizando as formas de saber, atribuindo centralidade à ciência e marginalizando os conhecimentos produzidos fora de seus parâmetros (Arruda; Caldas, 2021; Pereira; Souza, 2022).

De acordo com Fonseca e Zaninelli (2022), o apagamento desses saberes não se manifesta apenas pela negação explícita, mas também por meio de processos mais sutis de captura, enquadramento e neutralização. Quando reconhecidos, os saberes tradicionais tendem a ser convertidos em objeto de estudo, registro ou patrimonialização, sendo deslocados de seus contextos de produção e reinterpretados a partir de categorias externas às comunidades que os produzem. Esse movimento contribui para a folclorização e o esvaziamento de sua dimensão política e social (Blanco; Souza, 2023).

No campo da Ciência da Informação, a incorporação dos saberes tradicionais nas pesquisas tem provocado a ampliação e a problematização de conceitos clássicos relacionados à informação, ao documento, à memória e à organização do conhecimento. Segundo Zammataro, Barité e Albuquerque (2024), reconhecer esses saberes implica admitir formas informacionais que extrapolam o registro escrito, incluindo práticas culturais, narrativas, artefatos e expressões orais como manifestações legítimas de informação. Nesse contexto, o conceito de documento é ampliado para abarcar manifestações culturais e materiais dotadas de sentidos socialmente construídos, compreendidos como documentos culturais ou documentos vivos, cuja significação depende dos contextos históricos e sociais em que estão inseridos (Ribeiro; Silva, 2024; Santos; Mucheroni, 2021), colocando a mediação da informação como atividade central nos processos de construção e comunicação desses saberes.

Por fim, a atuação informacional junto aos saberes tradicionais envolve questões éticas relacionadas à autoria coletiva, ao consentimento e à participação das comunidades envolvidas. A ausência desses cuidados pode reforçar práticas de apropriação e controle externo do conhecimento, mesmo quando associadas a iniciativas de preservação e difusão cultural (Costa; Modolo; Miguel, 2024; Barbalho et al., 2023; 2024). Assim, a Ciência da Informação ocupa posição estratégica nessa relação, podendo tanto reproduzir processos de invisibilização quanto contribuir para o reconhecimento de epistemes diversas, ao problematizar a neutralidade dos sistemas informacionais e os paradigmas universais de organização do conhecimento.

3 METODOLOGIA

Esta pesquisa, de natureza básica, possui abordagem qualitativa, com apoio de procedimentos quantitativos descritivos, e caráter exploratório e analítico. Fundamenta-se em revisão de literatura e análise temática de conteúdo (Bardin, 2011), articuladas à identificação de frequências e à distribuição categorial dos dados. O percurso metodológico consistiu na identificação e análise das produções do ENANCIB, considerando sua centralidade para a produção e validação do conhecimento científico na Ciência da Informação brasileira.

Conforme destacam Baracho et al. (2014), o ENANCIB constitui-se como instância privilegiada de socialização da produção acadêmica da área, reunindo Grupos de Trabalho (GT) que refletem tanto agendas de pesquisa consolidadas quanto temáticas emergentes, o que permite acompanhar o desenvolvimento histórico do campo, além de identificar tendências, disputas conceituais e deslocamentos epistemológicos.

O corpus da pesquisa foi constituído por artigos recuperados da BENANCIB, em novembro de 2025, por meio de busca sistemática e da utilização dos descritores ‘saberes tradicionais’, ‘conhecimento popular’, ‘conhecimento tradicional’, ‘decolonial’ e ‘decolonialidade’. Os termos foram pesquisados individualmente, em cinco buscas distintas e sem associação por operadores booleanos, com o objetivo de identificar os resultados retornados por cada descritor. Considerando as características de busca da base de dados, não foram aplicados filtros por Grupo de Trabalho, tipo de documento ou recorte temporal.

Foram recuperados 40 documentos, publicados entre 1997 e 2024, ano correspondente à última edição do ENANCIB incorporada à base no momento da busca. Após a exclusão de duplicatas e a leitura sistemática dos títulos, resumos e palavras-chave, resultaram em um conjunto de 27 textos. Como critério de inclusão, optou-se pela seleção de trabalhos completos ou de comunicação oral, que tivessem ao menos um dos temas relacionados como elemento central da discussão. Essa centralidade foi identificada pela presença do termo no título, pelo alinhamento dos objetivos da pesquisa aos temas investigados, ou pelo foco da abordagem teórica ou da população analisada nos conceitos de decolonialidade e saberes tradicionais.

Para a organização dos procedimentos de pesquisa, os trabalhos selecionados foram divididos em dois eixos centrais, definidos a partir dos termos de busca e do foco predominante da produção: 1) saberes e 2) decolonialidade. Essa organização teve caráter operacional, não sendo compreendida como classificação rígida, uma vez que diversos textos dialogam com mais de um eixo.

Os textos foram analisados seguindo os princípios da análise temática do conteúdo (Bardin, 2011), privilegiando-se a identificação de recorrências conceituais, modos de abordagem dos temas, tensões epistemológicas e implicações informacionais presentes nas produções analisadas. As categorias de análise foram definidas a posteriori, emergindo do conteúdo dos documentos após a leitura integral dos trabalhos, sendo organizadas em: 1) GT da publicação no ENANCIB; 2) enfoque metodológico da pesquisa; 3) contexto de aplicação dos conceitos/temas analisados; 4) abordagem conceitual; 5) articulações da pesquisa com a Ciência da Informação.

A definição das categorias buscou estabelecer correspondência entre os objetivos da pesquisa, o referencial teórico e os elementos recorrentes identificados no corpus. Embora definidas a posteriori, as categorias analíticas refletem dimensões discutidas no referencial teórico e permitiram examinar a inserção das perspectivas decoloniais e dos saberes tradicionais nos Grupos de Trabalho do ENANCIB, as abordagens metodológicas adotadas, os contextos de aplicação, os níveis de elaboração conceitual e as formas de articulação desses temas com a Ciência da Informação.

Para fins de sistematização, foi elaborada uma matriz de análise para o registro da presença, ausência ou abordagem parcial de cada categoria, possibilitando a identificação de padrões, convergências e divergências entre os documentos do corpus. Ressalta-se que as categorias foram utilizadas como parâmetro interpretativo para a apreensão das abordagens presentes nos textos, e que buscou-se preservar as especificidades conceituais e contextuais de cada produção, evitando generalizações e respeitando a diversidade epistemológica característica do campo.

4 RESULTADOS

Os resultados desta pesquisa foram organizados a partir das cinco categorias analíticas definidas nos procedimentos metodológicos, orientando a apresentação dos dados segundo os padrões e recorrências conceituais observados no corpus analisado (Bardin, 2011). A fim de explicitar a sistematização da análise dos resultados, o Quadro 1 apresenta a síntese quantitativa dos dados, distribuídos conforme as categorias analíticas adotadas. A representação integrada dos resultados permite a visualização da incidência dos eixos temáticos, a distribuição por GT, os enfoques metodológicos, os contextos de aplicação, as abordagens conceituais e as formas de articulação das pesquisas com a Ciência da Informação.

Quadro 1
Tabulação geral dos resultados

Verifica-se que, especialmente nas categorias relativas à abordagem conceitual e às articulações com a Ciência da Informação, as subcategorias não são excludentes, podendo um mesmo trabalho contemplar simultaneamente diferentes modalidades. Essa sobreposição evidencia a complexidade das formas pelas quais saberes tradicionais e perspectivas decoloniais são mobilizados na produção científica examinada, indicando que os estudos transitam entre usos descritivos e articulações analítico-operacionais.

No que se refere à distribuição dos trabalhos segundo os eixos centrais, verifica-se a predominância de estudos orientados pelas perspectivas decoloniais em relação àqueles que abordam diretamente os saberes tradicionais. Dos 27 textos analisados, 19 enquadram-se no eixo da decolonialidade e 8 têm os saberes tradicionais como foco principal de investigação. As pesquisas voltadas aos saberes estão presentes no ENANCIB desde a década de 1990, enquanto a mobilização explícita da decolonialidade como referencial teórico intensifica-se a partir de 2021.

Entende-se que a discussão dessas temáticas, no contexto do ENANCIB, não se configura como fenômeno isolado, mas como parte de um movimento mais amplo de inflexão crítica na Ciência da Informação brasileira. A predominância de trabalhos orientados pela decolonialidade sugere que esse referencial tem se consolidado como eixo estruturante de reflexão no campo, especialmente no que se refere à problematização dos regimes de produção e representação da informação. Esse movimento acompanha o crescimento da produção científica relacionada à decolonialidade na área, intensificado a partir de 2020 e com aumento expressivo em 2021, conforme apontam Ribeiro e Conceição (2023). Constata-se, portanto, que as pesquisas compartilhadas no ENANCIB se inserem em um cenário abrangente de ampliação teórica, indicando a incorporação de abordagens que tensionam modelos universalizantes e hierarquias epistêmicas historicamente instituídas.

Do ponto de vista da organização temática do evento, a distribuição das publicações entre os GT indica maior incidência em três grupos. Entre os 12 GT do ENANCIB, destacam-se o GT-2 - Organização e Representação do Conhecimento e o GT-12 - Informação, Estudos Étnico-Raciais, Gênero e Diversidades, com sete trabalhos cada, seguidos pelo GT-3 - Mediação, Circulação e Apropriação da Informação, com quatro trabalhos. Esses três grupos concentram mais da metade do corpus analisado.

Essa distribuição evidencia os Grupos de Trabalho em que os debates sobre decolonialidade e saberes tradicionais encontram maior aderência na Ciência da Informação. A incidência no GT-2 mostra-se coerente com a problematização dos processos de organização e representação do conhecimento, especialmente quando considerados os debates sobre colonialidade do saber, hierarquias epistêmicas e regimes de visibilidade e invisibilidade de sujeitos, práticas e conhecimentos (Quijano, 2005; Lander, 2005; Mignolo, 2017; Zammataro; Barité; Albuquerque, 2024). Nesse sentido, a presença desses trabalhos nesse grupo permite constatar que a crítica aos modelos universalizantes de validação e representação do conhecimento se aproxima das discussões decoloniais desenvolvidas no campo.

No GT-12, a concentração de trabalhos reforça a relação dessas temáticas com as discussões sobre diversidade, relações étnico-raciais, gênero e reconhecimento de epistemologias historicamente subalternizadas. A presença expressiva nesse grupo evidencia que os debates sobre decolonialidade e saberes tradicionais têm sido mobilizados em articulação com questões de justiça epistêmica, epistemicídio e contestação das formas hegemônicas de produção e legitimação do conhecimento (Garcez; Sales, 2023; Carneiro, 2005; Moura; Trivellato; Gomes, 2024). Já no GT-3, a incidência dos estudos aponta para a relevância dos processos de mediação, circulação e apropriação da informação, sobretudo quando se consideram os saberes tradicionais como conhecimentos produzidos coletivamente, transmitidos por práticas sociais, oralidade, memória e relações comunitárias (Arruda; Caldas, 2021; Batista; Farias, 2022; Blanco; Souza, 2023).

Desse modo, a distribuição por Grupos de Trabalho permite compreender que os debates a respeito de decolonialidade e saberes tradicionais se articulam a núcleos temáticos centrais da Ciência da Informação, especialmente aqueles voltados à organização do conhecimento, à mediação da informação, à diversidade e à crítica das hierarquias epistêmicas.

Verifica-se que a consolidação temática também reflete nas escolhas metodológicas que estruturam as pesquisas compartilhadas no evento, em que há a predominância de pesquisas de natureza básica e abordagem qualitativa, com forte incidência de estudos teórico-conceituais e análises críticas da literatura, especialmente nos trabalhos orientados pelas perspectivas decoloniais. Entre os estudos que abordam saberes tradicionais, identificou-se a presença de pesquisas empíricas ou aplicadas, mobilizando metodologias como estudos de caso, análise documental, observação participante e análise de conteúdos culturais e informacionais, articuladas a contextos como comunidades, museus, bibliotecas, plataformas digitais e iniciativas comunicacionais. Em menor número, identificam-se pesquisas de caráter métrico e bibliométrico.

Entende-se que a utilização de estratégias qualitativas e analítico-interpretativas não constitui apenas um dado descritivo, mas um indicativo do estágio de maturação do debate no interior da área. Embora os estudos de caráter métrico e bibliométrico não representem a abordagem majoritária, eles contribuem para a identificação de tendências, padrões de visibilidade e lacunas temáticas na comunicação científica da Ciência da Informação, funcionando como instrumentos de autorreflexão do campo.

Já a ênfase em estratégias analítico-interpretativas repercute diretamente nos contextos de aplicação privilegiados pelas pesquisas. Mais do que simples cenários empíricos, esses lócus configuram-se como espaços nos quais se materializam as disputas epistemológicas anteriormente discutidas. Esses contextos articulam-se, de modo predominante, aos GT que assumem a dimensão epistemológica e sociopolítica da informação, estando ligados a pesquisas que questionam a neutralidade dos processos informacionais, tensionam regimes hegemônicos de produção e representação do conhecimento e buscam reconhecer práticas, narrativas e epistemes historicamente marginalizadas no âmbito da Ciência da Informação.

Quanto aos contextos de aplicação, as discussões se desenvolvem em cenários empíricos e conceituais diversos, refletindo a amplitude e a transversalidade dos temas no campo da Ciência da Informação. A análise do corpus evidencia que os estudos se concentram, principalmente, em três lócus: 1) povos originários, comunidades tradicionais e saberes situados territorialmente; 2) processos de organização, representação e mediação da informação; 3) memória, patrimônio cultural e práticas comunicacionais.

No conjunto dos trabalhos analisados, o contexto mais recorrente refere-se aos povos originários, às comunidades tradicionais e aos saberes territorializados, evidenciando uma aproximação da Ciência da Informação com realidades sociais historicamente subalternizadas. Nesses estudos, os saberes tradicionais são compreendidos como formas de conhecimento produzidas coletivamente, vinculadas à experiência, à oralidade, à memória social e à relação contínua com o território, não sendo tratados como objetos residuais ou folclóricos, mas como epistemes em operação. Pesquisas como as de Fonseca e Zaninelli (2022) e Barbalho et al. (2023) demonstram que esses saberes constituem a base de sistemas produtivos, socioculturais e informacionais próprios, demandando abordagens que considerem suas lógicas internas de produção, circulação e validação do conhecimento.

A partir desses contextos empíricos, a atuação da Ciência da Informação é tensionada a repensar modelos de gestão, organização e mediação da informação tradicionalmente orientados por parâmetros universalizantes. Trabalhos como o de Torino et al. (2024) ampliam o debate ao articular saberes tradicionais indígenas com governança e soberania de dados em ambientes digitais, introduzindo preocupações éticas e políticas relacionadas à autodeterminação informacional e à colonialidade do saber. De modo convergente, Nascimento e Valério (2024) evidenciam a pluralidade dos saberes tradicionais ao abordar epistemologias afro-diaspóricas, valorizando oralidade, corporeidade e ancestralidade como formas legítimas de produção e transmissão do conhecimento.

A inserção dos saberes tradicionais na produção científica da Ciência da Informação, portanto, não se limita à documentação ou preservação cultural, mas envolve disputas epistemológicas e políticas de informação, exigindo a construção de práticas informacionais sensíveis às especificidades históricas, culturais e territoriais dos grupos envolvidos. Essa inflexão conduz ao segundo lócus de investigação, centrado na problematização das infraestruturas, instrumentos e práticas informacionais como espaços estratégicos para a operacionalização das perspectivas decoloniais e do reconhecimento da pluralidade epistemológica.

No âmbito da organização e representação do conhecimento, a decolonialidade é mobilizada como lente crítica para questionar a suposta neutralidade técnica dos sistemas classificatórios, das linguagens documentárias e dos instrumentos de descrição. Garcez e Sales (2021; 2023) e D’Almeida, Silva e Campos (2023) evidenciam que esses dispositivos incorporam hierarquias epistêmicas naturalizadas, resultando na sub-representação de povos originários e na invisibilização de epistemologias do Sul Global. Romeiro e Silveira (2023), ao examinarem tesauros voltados aos estudos de gênero, reforçam essa compreensão ao demonstrar que decisões classificatórias implicam decisões epistemológicas e políticas no âmbito da Ciência da Informação.

No campo da mediação da informação, pode-se notar que as perspectivas decoloniais têm sido mobilizadas para repensar práticas institucionais e comunitárias, especialmente em bibliotecas e espaços culturais. Souza, Blanco e Sanches Neto (2024) argumentam que a mediação orientada por uma perspectiva decolonial implica alinhar processos de seleção, organização e desenvolvimento de coleções às demandas culturais e identitárias das comunidades atendidas, reposicionando a biblioteca como espaço de justiça epistêmica e emancipação informacional. Ainda que muitas dessas iniciativas se concentrem em análises teórico-críticas e experiências localizadas, elas indicam deslocamentos relevantes na incorporação desses referenciais nos processos centrais da área.

O terceiro lócus reúne discussões relacionadas à memória, ao patrimônio cultural e às práticas comunicacionais, evidenciando deslocamentos na forma como a Ciência da Informação compreende e opera com os registros da memória. Achilles, Gonçalves e Peixoto (2022) discutem a memória das bibliotecas públicas brasileiras como campo atravessado por disputas simbólicas, enquanto Ferreira e Silva (2024) demonstram como experiências vividas e conhecimentos situados tensionam modelos hegemônicos de cientificidade. No âmbito do patrimônio cultural, Silva e Ferreira (2023) destacam a performance como prática informacional, e Argenta e Scheiner (2018) evidenciam experiências museais que contribuem para o resgate e valorização de saberes historicamente desconsiderados.

Nas práticas comunicacionais e nos ambientes digitais, Barbalho et al. (2024) evidenciam a comunicação indígena como prática de resistência e autorrepresentação, enquanto Silva et al. (2022) analisam produções poéticas em mídias sociais como práticas informacionais que articulam memória, linguagem e resistência ao epistemicídio. Em conjunto, esses estudos ampliam a compreensão de memória, patrimônio e comunicação ao reconhecer a pluralidade de linguagens, suportes e práticas informacionais como campos de disputa epistemológica e política.

Se nos diferentes lócus analisados se observa a ampliação temática e empírica do debate, torna-se igualmente relevante examinar a profundidade conceitual com que esses referenciais são mobilizados. Assim, as diferenças nos níveis de incorporação conceitual nas pesquisas analisadas não se restringem a variações formais de uso terminológico, mas indicam distintos modos de inserção dos saberes tradicionais e da decolonialidade.

Em parte dos estudos, os termos associados aos saberes tradicionais são empregados de maneira predominantemente descritiva ou nominal, funcionando como categorias de identificação de práticas culturais, modos de vida ou conhecimentos situados, sem aprofundamento teórico sistemático ou problematização das hierarquias epistêmicas da ciência moderna. Pesquisas como as de Argenta e Scheiner (2018) e Silva e Ferreira (2023) exemplificam esse movimento ao enfatizarem experiências museais e práticas culturais sem recorrer explicitamente a referenciais voltados à crítica das dinâmicas de invisibilização do conhecimento.

Outro conjunto de pesquisas apresenta incorporação analítico-operacional da literatura, na qual os saberes tradicionais são definidos de forma mais consistente e articulados a conceitos e processos da Ciência da Informação, como gestão do conhecimento, memória, mediação e circulação da informação. Nesses casos, ainda que nem sempre se perceba a adoção explícita de uma perspectiva decolonial, os trabalhos reconhecem esses saberes como formas legítimas de produção de conhecimento e discutem suas implicações informacionais em contextos sociais, culturais e econômicos específicos.

Fonseca e Zaninelli (2022) e Barbalho et al. (2023), ao discutirem conhecimentos tradicionais indígenas e comunitários em diálogo com a gestão do conhecimento, evidenciam tanto as potencialidades quanto os riscos associados ao registro, à circulação e ao compartilhamento desses saberes, especialmente no que concerne à preservação de suas lógicas próprias e à possibilidade de apropriações indevidas.

Nos trabalhos em que a decolonialidade é mobilizada como referencial estruturante, o deslocamento torna-se mais evidente. Garcez e Sales (2021; 2023), Achilles, Gonçalves e Peixoto (2022), Moura, Trivellato e Gomes (2024) e D’Almeida, Silva e Campos (2023) exemplificam essa abordagem ao problematizar os fundamentos epistemológicos da Ciência da Informação e seus instrumentos de organização, representação e mediação da informação, propondo revisões conceituais e metodológicas alinhadas à justiça epistêmica. Nesses casos, a crítica não se limita à ampliação temática, mas alcança os próprios pressupostos ontológicos e epistemológicos que orientam o campo.

Ainda que em número mais restrito, os estudos que articulam de forma integrada saberes tradicionais e perspectivas decoloniais apontam para um horizonte de maior densidade teórica. Barbalho et al. (2024), Nascimento e Valério (2024) e Torino et al. (2024) evidenciam essa articulação ao tratar de práticas comunicacionais, governança de dados e epistemologias afrocentradas como campos atravessados por disputas epistemológicas e informacionais, nos quais os saberes são compreendidos como epistemes em operação e não apenas como objetos de estudo.

Por fim, evidenciam-se diferentes níveis de explicitação das relações estabelecidas nos trabalhos analisados com a Ciência da Informação. Em parte das pesquisas orientadas por perspectivas decoloniais, a área aparece como objeto central de problematização teórica e epistemológica, sendo mobilizada para discutir noções como neutralidade, objetividade e universalidade, bem como instrumentos e práticas da organização, representação e mediação da informação. Em outros estudos, sobretudo aqueles voltados aos saberes tradicionais, a articulação com a Ciência da Informação ocorre de forma menos explícita. Nesses casos, os objetos analisados incluem museus, bibliotecas, patrimônio cultural, práticas comunicacionais e gestão do conhecimento, mas nem sempre são desenvolvidas reflexões diretas acerca dos fundamentos teóricos da área ou dos deslocamentos epistemológicos implicados nas análises realizadas.

Constata-se, assim, que a Ciência da Informação aparece nos trabalhos tanto como campo de aplicação empírica quanto como espaço de crítica epistemológica, variando conforme o enfoque adotado. As diferentes formas de articulação identificadas no corpus evidenciam distintos níveis de aproximação teórica e prática entre os temas analisados e o campo científico, revelando tanto a consolidação de agendas críticas quanto a permanência de abordagens aplicadas e descritivas no interior da produção examinada.

Essa heterogeneidade conceitual revela um campo em processo de consolidação, no qual coexistem usos descritivos, articulações analítico-operacionais e mobilizações epistemológicas estruturantes. Tal diversidade evidencia, simultaneamente, a abertura e a pluralização do debate e os desafios de integrar perspectivas críticas a um campo historicamente marcado por paradigmas técnico-científicos e universalizantes. Nesse contexto, torna-se necessário aprofundar a articulação entre crítica epistemológica e práticas informacionais, evitando que a decolonialidade se restrinja a um enquadramento teórico desvinculado de transformações estruturais nos modos de produção e organização do conhecimento na Ciência da Informação, ao mesmo tempo em que se ampliam as possibilidades de diálogo e consolidação futura.

Compreende-se, assim, que as perspectivas decoloniais e os saberes tradicionais têm sido mobilizados na produção científica da Ciência da Informação a partir de diferentes enfoques, contextos e níveis de elaboração conceitual. As categorias analíticas permitiram identificar convergências e especificidades nas formas de abordagem dos temas, revelando um campo em processo de ampliação conceitual e metodológica. Esse conjunto de achados sustenta a reflexão em torno dos caminhos trilhados pela Ciência da Informação brasileira no âmbito do ENANCIB, evidenciando não apenas um espaço de debate em construção, mas um processo de reconfiguração epistemológica em curso.

5 CONCLUSÃO

Sob a perspectiva de que o ENANCIB se configura como um espaço privilegiado de produção e compartilhamento do conhecimento científico no campo da Ciência da Informação, entende-se que o evento constitui um relevante observatório de sinais e tendências que indicam como os referenciais teóricos tradicionais e contemporâneos têm sido incorporados, (re)elaborados e problematizados na Ciência da Informação brasileira. Partindo dessa compreensão, este estudo buscou analisar de que modo as perspectivas decoloniais e os saberes tradicionais têm sido mobilizados na produção científica apresentada nesse contexto.

Considerando articulações conceituais, metodológicas e informacionais, a análise do corpus evidenciou que as discussões temáticas abordadas vêm ganhando visibilidade no campo, ainda que de forma heterogênea, e assumindo diferentes níveis de aprofundamento e relação com os fundamentos da Ciência da Informação. Observou-se também que a presença dos saberes tradicionais nas pesquisas analisadas não implica, necessariamente, a adoção de uma perspectiva decolonial, uma vez que vários trabalhos abordam esses saberes a partir de recortes empíricos vinculados a contextos culturais, territoriais ou institucionais específicos, com ênfase na valorização de suas práticas.

Por outro lado, há um conjunto expressivo de pesquisas orientadas por perspectivas decoloniais que, embora enfatizem a valorização de epistemologias historicamente subalternizadas e a crítica à colonialidade do saber, não se dedicam diretamente à análise empírica dos saberes tradicionais ou populares.

Os resultados também indicam a relevância de ampliar agendas de pesquisa que considerem os impactos éticos, políticos e epistemológicos da atuação informacional junto a esses contextos, especialmente no que se refere à autoria coletiva, à legitimidade do conhecimento, à soberania informacional e aos regimes de visibilidade nos sistemas da Ciência da Informação. Tais agendas reforçam o papel estratégico da área como campo capaz de dialogar criticamente com a ciência moderna, contribuindo para ampliar seus horizontes epistemológicos e suas práticas informacionais a partir de perspectivas plurais.

Como limitação, destaca-se que o estudo se restringiu ao corpus recuperado na base BENANCIB, delimitando o alcance dos resultados e visões de pesquisadores que não participam ativamente do ENANCIB. Desse modo, as evidências aqui apresentadas não pretendem esgotar as discussões desses temas na Ciência da Informação brasileira, mas oferecer um recorte analítico a partir da perspectiva do evento.

Nesse sentido, espera-se que este estudo incentive pesquisas futuras que aproximem os temas aqui abordados de forma explícita, articulando a crítica epistemológica às práticas informacionais e aos sistemas de organização do conhecimento. Fortalecendo, assim, a compreensão da Ciência da Informação como uma área em constante construção, capaz de articular diferentes agendas de pesquisa e de intervir criticamente nos desafios da ciência e da sociedade contemporâneas.

Agradecimentos:

Não aplicável.

  • Financiamento:
    Não aplicável.
  • Aprovação:
    Não aplicável.
  • Declaração de uso de ferramenta de IA:
    As autoras declaram que o uso de ferramentas de Inteligência Artificial neste manuscrito foi estritamente instrumental, devidamente declarado, e que assumem integral responsabilidade humana pelo conteúdo, pelos argumentos e pelas conclusões apresentados.
  • Imagem:
    Extraída da plataforma Lattes.
  • JITA: AA.
    Library and information science as a field
  • ODS:
    10. Redução das desigualdades

Disponibilidade de dados e material:

Não aplicável.

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Editado por

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    24 Ago 2026
  • Data do Fascículo
    2026

Histórico

  • Recebido
    18 Fev 2026
  • Aceito
    13 Jul 2026
  • Publicado
    22 Jul 2026
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