Comparação entre ambiente de trabalho de enfermeiros gerentes e assistenciais no contexto hospitalar

José Luís Guedes dos Santos Alacoque Lorenzini Erdmann Caroline Cechinel Peiter Murilo Pedroso Alves Suzinara Beatriz Soares de Lima Vânia Marli Schubert Backes Sobre os autores

ABSTRACT

Objective

Comparing the working environment of nurse managers and nursing assistants in the hospital context.

Method

A mixed methods research with concomitant triangulation of data developed in a university hospital in the South of Brazil. Participants in the quantitative study were 94 nursing assistants and 12 nurse managers. The data were collected using the Brazilian Nursing Work IndexRevised (B-NWI-R) and analyzed through descriptive and inferential statistics. Eight (8) nurse managers and 18 nursing assistants were interviewed for the qualitative study. The data were analyzed through thematic analysis.

Results

The total B-NWI-R mean score for nurse managers was 2.15±0.39, and for nursing assistants it was 2.22±0.39. No statistical significance was identified in the comparison between the groups (p=0.508). The qualitative results show the existence of collaborative relationships between nurse managers and nursing assistants.

Conclusion

The working environment was similarly evaluated by nurse managers and nursing assistants in the hospital context.

Nursing; Working Environment; Nursing, Supervisory; Nursing Administration Research; Hospitals, Public

RESUMEN

Objetivo

Comparar el ambiente laboral de enfermeros gerentes y asistenciales en el marco hospitalario.

Método

Investigación de métodos mixtos con triangulación concomitante de datos, desarrollada en un hospital universitario del Sur de Brasil. Los participantes en el estudio cuantitativo fueron 94 enfermeros asistenciales y 12 enfermeros gerentes. Los datos fueron recogidos a partir del Brazilian Nursing Work Index − Revised (B-NWI-R) y analizados mediante la estadística descriptiva e inferencial. Para el estudio cualitativo, fueron entrevistados ocho enfermeros gerentes y 18 enfermeros asistenciales. Los datos fueron valorados según el análisis temático.

Resultados

El promedio total del B-NWI-R para los enfermeros gerentes fue de 2,15±0,39 y para los enfermeros asistenciales fue de 2,22±0,39. No fue identificada significación estadística en la comparación entre los grupos (p=0,508). Los resultados cualitativos muestran la existencia de relaciones colaborativas entre enfermeros gerentes y enfermeros asistenciales.

Conclusión

El ambiente laboral fue evaluado de modo semejante por los enfermeros gerentes y asistenciales en el marco hospitalario.

Enfermería; Ambiente de Trabajo; Supervisión de Enfermería; Investigación en Administración de Enfermería; Hospitales Públicos

RESUMO

Objetivo

Comparar o ambiente de trabalho de enfermeiros gerentes e assistenciais no contexto hospitalar.

Método

Pesquisa de métodos mistos com triangulação concomitante de dados, desenvolvida em um hospital universitário do Sul do Brasil. Os participantes do estudo quantitativo foram 94 enfermeiros assistenciais e 12 enfermeiros gerentes. Os dados foram coletados a partir do Brazilian Nursing Work IndexRevised (B-NWI-R) e analisados por meio de estatística descritiva e inferencial. Para o estudo qualitativo, foram entrevistados oito enfermeiros gerentes e 18 enfermeiros assistenciais. Os dados foram analisados mediante análise temática.

Resultados

A média total do B-NWI-R para os enfermeiros gerentes foi de 2,15±0,39 e para os enfermeiros assistenciais foi de 2,22±0,39. Não foi identificada significância estatística na comparação entre os grupos (p=0,508). Os resultados qualitativos mostram a existência de relações colaborativas entre enfermeiros gerentes e enfermeiros assistenciais.

Conclusão

O ambiente de trabalho foi avaliado de modo semelhante pelos enfermeiros gerentes e assistenciais no contexto hospitalar.

Enfermagem; Ambiente de Trabalho; Supervisão de Enfermagem; Pesquisa em Administração de Enfermagem; Hospitais Públicos

INTRODUÇÃO

O foco do trabalho do enfermeiro é o gerenciamento do cuidado e a gestão dos serviços enfermagem, o que envolve, principalmente, atividades de gestão de pessoas e materiais para o alcance de objetivos organizacionais. O gerenciamento do cuidado é uma atribuição inerente ao exercício profissional do enfermeiro. Já a atuação na gestão dos serviços de enfermagem é uma responsabilidade dos enfermeiros gerentes ou chefes de unidade. Essas duas esferas de atuação do enfermeiro articulam-se na busca da excelência do cuidado destinado ao paciente(11. Lanzoni GMM, Magalhães ALP, Costa VT, Erdmann AL, Andrade SR, Meirelles BHS. Becoming nursing manager in the nested and complex border of caring and management dimensions. Rev Eletr Enf. 2015;17(2):322-32. DOI: http://dx.doi.org/10.5216/ree.v17i2.29570
http://dx.doi.org/10.5216/ree.v17i2.2957...
-22. Andrade SR, Piccoli T, Ruoff AB, Ribeiro JC, Sousa FM. Normative grounds of health care practice in Brazilian nursing. Rev Bras Enferm. 2016;69(6):1020-8. DOI: http://dx.doi.org/10.1590/0034-7167-2016-0228
http://dx.doi.org/10.1590/0034-7167-2016...
).

As organizações contemporâneas almejam gerentes de enfermagem com habilidades e competências para desenvolver estratégias de solução para os problemas no contexto do trabalho em saúde e enfermagem. É fundamental também que o gerente tenha a capacidade de coordenar a equipe de enfermagem, buscando reconhecer e atender às suas necessidades para garantir condições de trabalho favoráveis que promovam satisfação laboral. Dessa forma, é esperado deles conhecimento do processo de gestão em saúde e enfermagem, habilidade de liderança e capacidade de lidar com as responsabilidades e atribuições do cargo(11. Lanzoni GMM, Magalhães ALP, Costa VT, Erdmann AL, Andrade SR, Meirelles BHS. Becoming nursing manager in the nested and complex border of caring and management dimensions. Rev Eletr Enf. 2015;17(2):322-32. DOI: http://dx.doi.org/10.5216/ree.v17i2.29570
http://dx.doi.org/10.5216/ree.v17i2.2957...
,33. Dall’Agnol CM, Moura GMSS, Magalhães AMM, Falk MLR, Riboldi CO, Oliveira AP. Motivations, contradictions and ambiguities in the leadership of nurses in management positions in a university hospital. Rev Latino Am Enfermagem. 2013;21(5):1172-8. DOI: http://dx.doi.org/10.1590/S0104-11692013000500022
http://dx.doi.org/10.1590/S0104-11692013...
).

No entanto, muitas vezes, o exercício gerencial torna-se desestimulante diante das demandas, dos entraves organizacionais e da falta de suporte dos níveis hierárquicos superiores de gestão das instituições de saúde. Isso pode tornar o cotidiano do enfermeiro gerente desafiador e estressante, o que desencoraja muitos profissionais a assumir estas posições. Além disso, enfermeiros em cargos exclusivos de chefia vivenciam uma polarização entre gerência e assistência, pois, além das atribuições gerenciais conhecidas, não há um consenso sobre o ideal nível de envolvimento nas atividades assistenciais(11. Lanzoni GMM, Magalhães ALP, Costa VT, Erdmann AL, Andrade SR, Meirelles BHS. Becoming nursing manager in the nested and complex border of caring and management dimensions. Rev Eletr Enf. 2015;17(2):322-32. DOI: http://dx.doi.org/10.5216/ree.v17i2.29570
http://dx.doi.org/10.5216/ree.v17i2.2957...
,33. Dall’Agnol CM, Moura GMSS, Magalhães AMM, Falk MLR, Riboldi CO, Oliveira AP. Motivations, contradictions and ambiguities in the leadership of nurses in management positions in a university hospital. Rev Latino Am Enfermagem. 2013;21(5):1172-8. DOI: http://dx.doi.org/10.1590/S0104-11692013000500022
http://dx.doi.org/10.1590/S0104-11692013...
).

Nesse sentido, é importante pontuar que as condições físicas e organizacionais do ambiente de trabalho da enfermagem interferem no desempenho adequado da prática profissional. Fatores como porte da instituição ou do serviço de saúde, modelo de gestão, hierarquias profissionais, cultura organizacional, infraestrutura e recursos humanos e financeiros para a realização da assistência podem potencializar ou limitar a prática de enfermagem(44. Numminen O, Ruoppa E, Leino-Kilpi H, Isoaho H, Hupli M, Meretoja R. Practice environment and its association with professional competence and work-related factors: perception of newly graduated nurses. J Nurs Manag. 2016;24(1):E1-11. DOI: http://dx.doi.org/10.1111/jonm.12280
http://dx.doi.org/10.1111/jonm.12280...
). Assim, ambientes de trabalho que apresentem esses aspectos fortalecidos trazem maior satisfação profissional do enfermeiro, influenciando, assim, a qualidade da assistência de enfermagem no ambiente hospitalar(55. Cucolo DF, Perroca MG. Factors involved in the delivery of nursing care. Acta Paul Enferm. 2015;28(2):120-4. DOI: http://dx.doi.org/10.1590/1982-0194201500021
http://dx.doi.org/10.1590/1982-019420150...
).

Apesar da importância das características do ambiente de trabalho para a prática profissional de enfermagem, a produção científica sobre esse tema ainda é escassa no Brasil. Os estudos existentes são oriundos da região Sudeste e foram realizados no contexto de Unidades de Terapia Intensiva(66. Gasparino RC, Guirardello EB, Aiken LH. Validation of the Brazilian version of the Nursing Work Index-Revised (B-NWI-R). J Clin Nurs. 2011;20:3494-501. DOI: http://dx.doi.org/10.1111/j.1365-2702.2011.03776.x.
http://dx.doi.org/10.1111/j.1365-2702.20...

7. Balsanelli AP, Cunha ICK. The work environment in public and private intensive care units. Acta Paul Enferm. 2013;26(6):561-8. DOI: http://dx.doi.org/10.1590/S0103-21002013000600009
http://dx.doi.org/10.1590/S0103-21002013...

8. Panunto MR, Guirardello EB. Professional nursing practice: environment and emotional exhaustion among intensive care nurses. Rev Latino Am Enfermagem. 2013;21(3):765-72. DOI: http://dx.doi.org/10.1590/S0104-11692013000300016
http://dx.doi.org/10.1590/S0104-11692013...
-99. Oliveira PB, Spiri WC, Dell’Acqua MCQ, Mondini CCSD. Comparison between the accredited and non-accredited public hospital working environments. Acta Paul Enferm. 2016;29(1):53-9. DOI: http://dx.doi.org/10.1590/1982-0194201600008
http://dx.doi.org/10.1590/1982-019420160...
). Nesse sentido, pontua-se a inexistência de pesquisas anteriores comparando o ambiente de trabalho de enfermeiros gerentes e assistenciais no contexto hospitalar. Assim, este estudo teve como questão de pesquisa: Quais as diferenças entre o ambiente de trabalho de enfermeiros gerentes e assistenciais no contexto hospitalar?

O objetivo da pesquisa foi comparar o ambiente de trabalho de enfermeiros gerentes e assistenciais no contexto hospitalar.

MÉTODO

TIPO DE ESTUDO

O presente estudo configura-se como uma pesquisa de métodos mistos, com triangulação concomitante de dados (QUAN + QUAL). Nessa tipologia de estudo, os dados quantitativos e qualitativos são coletados concomitantemente e depois comparados visando à identificação de convergências, diferenças e combinações(1010. Creswell JW. A concise introduction to mixed methods research. Thousand Oaks: Sage; 2014.).

CENÁRIO DO ESTUDO

O cenário do estudo foi um hospital universitário público da Região Sul do Brasil, com 268 leitos e que atende exclusivamente pacientes do Sistema Único de Saúde. A instituição conta com 17 serviços de enfermagem organizados em quatro Departamentos Assistenciais: Emergência e Ambulatório, Enfermagem Médica, Enfermagem Cirúrgica e Saúde da Mulher, Criança e Adolescente. Cada serviço possui um enfermeiro gerente, que é responsável pela gerência da unidade e do cuidado, atuando tanto na administração quanto na assistência direta, quando necessário.

COLETA DE DADOS

Os dados quantitativos e qualitativos foram coletados simultaneamente entre novembro de 2012 e novembro de 2013.

Para a coleta de dados quantitativos, não houve cálculo amostral. A população elegível foi composta dos 162 enfermeiros lotados nos departamentos assistenciais do hospital no momento da coleta de dados. Foi considerado como critério de inclusão um tempo de atuação igual ou maior a 3 meses no atual local de trabalho. Foram excluídos da pesquisa enfermeiros que exerciam exclusivamente atividades gerenciais e/ou que estavam ausentes da instituição em função de férias e/ou licenças. Assim, obtiveram-se 132 enfermeiros aptos para a pesquisa, os quais foram convidados a integrar o estudo. Desse total, 106 (80,3%) aceitaram participar, sendo 94 (88,7%) enfermeiros assistenciais e 12 (11,3%) enfermeiros gerentes.

Os instrumentos de coleta de dados foram uma ficha de caracterização sociodemográfica e profissional e o instrumento Brazilian Nursing Work Index − Revised (B-NWI-R). O B-NWI-R foi traduzido, adaptado e validado para uso no Brasil e tem o objetivo de mensurar fatores que interferem no ambiente de trabalho do enfermeiro. O instrumento é composto por 15 itens distribuídos em quatro subescalas: controle sobre o ambiente (sete itens), autonomia (cinco itens), relações entre médicos e enfermeiros (três itens) e suporte organizacional (dez itens provenientes das três primeiras subescalas)(66. Gasparino RC, Guirardello EB, Aiken LH. Validation of the Brazilian version of the Nursing Work Index-Revised (B-NWI-R). J Clin Nurs. 2011;20:3494-501. DOI: http://dx.doi.org/10.1111/j.1365-2702.2011.03776.x.
http://dx.doi.org/10.1111/j.1365-2702.20...
,1111. Gasparino RC, Guirardello EB. Translation and cross-cultural adaptation of the “Nursing Work Index – Revised” into Brazilian Portuguese. Acta Paul Enferm. 2009;22(3):281-7. DOI: http://dx.doi.org/10.1590/S0103-21002009000300007
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).

No B-NWI-R, o participante é solicitado a responder se concorda ou não com a assertiva “esse fator está presente no meu trabalho diário”, por meio de uma escala Likert de quatro pontos: concordo totalmente (um ponto), concordo parcialmente (dois pontos), discordo parcialmente (três pontos) e discordo totalmente (quatro pontos). Dessa forma, pontuações menores indicam a presença de atributos favoráveis, de modo que médias abaixo e acima de 2,5 correspondem, respectivamente, a ambientes favoráveis e desfavoráveis à prática profissional(88. Panunto MR, Guirardello EB. Professional nursing practice: environment and emotional exhaustion among intensive care nurses. Rev Latino Am Enfermagem. 2013;21(3):765-72. DOI: http://dx.doi.org/10.1590/S0104-11692013000300016
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).

Os dados qualitativos foram coletados por meio de entrevistas semiestruturadas com 18 enfermeiros assistenciais e oito enfermeiros gerentes. As entrevistas foram realizadas individualmente no local de trabalho dos participantes, gravadas em um dispositivo eletrônico de áudio e tiveram duração média de 20 minutos. O foco das entrevistas foram aspectos do ambiente de trabalho que contribuem e/ou dificultam a prática do enfermeiro. O número de participantes foi definido com base no critério de saturação dos dados.

ANÁLISE DOS DADOS QUANTITATIVOS

A análise dos dados ocorreu por meio de estatística descritiva, por meio de média aritmética, mediana, desvio padrão, valores mínimo e máximo. A simetria dos dados foi verificada por meio de histogramas de distribuição amostral, porém as variáveis não apresentaram distribuição normal. Dessa forma, o teste não-paramétrico de Mann-Whitney foi utilizado para comparar a pontuação do B-NWI-R dos enfermeiros gerentes e assistenciais. As relações foram consideradas significativas se p<0,05. As análises foram realizadas no programa Statistical Package for the Social Sciences (SPSS), versão 19.0.

ANÁLISE DOS DADOS QUALITATIVOS

A análise dos dados ocorreu por meio das três etapas da análise temática: pré-análise, exploração do material e tratamento dos resultados, a inferência e a interpretação(1212. Bardin L. Análise de conteúdo. São Paulo: Edições 70; 2011.). As subescalas do B-NWI-R foram utilizadas como categorias temáticas.

ASPECTOS ÉTICOS

A presente pesquisa integra um macroprojeto sobre governança de enfermagem no ambiente hospitalar, que foi aprovado por um Comitê de Ética em Pesquisa, sob o parecer número 144.436/2012, e desenvolvido em consonância à Resolução 196/96, vigente no momento da submissão do projeto ao Comitê de Ética. Os sujeitos do estudo assinaram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido e as suas falas foram codificados pela letra “P” de participante e um número atribuído de acordo com a ordem das entrevistas: P1 a P26.

RESULTADOS

As características do perfil socioprofissional dos participantes do estudo quantitativo estão apresentadas na Tabela 1.

Tabela 1
– Caracterização socioprofissional dos participantes – Florianópolis, SC, Brasil, 2012-2013.

A partir do B-NWI-R, os enfermeiros assistenciais avaliaram ter controle sobre o ambiente, suporte organizacional, bom relacionamento com os médicos e autonomia para o exercício da enfermagem. Os enfermeiros gerentes também consideraram ter suporte organizacional, boas relações com os médicos e autonomia. No entanto, a subescala controle sobre o ambiente foi avaliada como uma característica desfavorável, pois apresentou média acima de 2,5. Na comparação entre o ambiente de trabalho dos dois grupos (Tabela 2), não foi identificada significância estatística.

Tabela 2
– Comparação do ambiente de trabalho de enfermeiros gerentes e assistenciais –Florianópolis, SC, Brasil, 2012-2013.

Os resultados qualitativos estão sintetizados e apresentados no Quadro 1, com base nas subescalas do B-NWI-R.

Quadro 1
– Aspectos do ambiente de trabalho que contribuem e/ou dificultam a prática dos enfermeiros no ambiente hospitalar – Florianópolis, SC, Brasil, 2012-2013.

Entre os enfermeiros gerentes, predominou a percepção de que os enfermeiros assistenciais possuem maior autonomia, principalmente para o exercício do gerenciamento do cuidado de enfermagem. Os enfermeiros gerentes consideram-se responsáveis pela articulação entre as demandas da unidade e a direção de enfermagem, o que não representa necessariamente autonomia para tomada de decisão. Já entre os enfermeiros assistenciais, obtiveram-se duas visões sobre a autonomia. Alguns enfermeiros consideram que possuem um domínio sobre o que acontece no setor, ocupando um papel central no contexto da organização do trabalho. No entanto, outros enfermeiros afirmam que a rigidez hierárquica e a hegemonia do modelo biomédico limitam a autonomia da enfermagem na instituição.

No tangente ao controle sobre o ambiente, enfermeiros gerentes e enfermeiros assistenciais relataram dificuldades nesse aspecto. Os principais entraves destacados foram a falta de material, o absenteísmo e o número elevado de afastamentos para tratamento de saúde, o que gera sobrecarga de trabalho e insatisfação entre a equipe de enfermagem. Tais limitações também comprometem a qualidade do cuidado prestado aos pacientes.

As relações com os médicos foram consideradas boas pelos dois grupos participantes do estudo. Enfermeiros gerentes consideram que os enfermeiros assistenciais possuem melhores relações com os médicos. Enfermeiros assistenciais pontuam que as relações com os médicos têm melhorado ao longo do tempo e são facilitadas pela caracterização da instituição como hospital escola. No entanto, o bom relacionamento entre as categorias profissionais nem sempre culmina em trabalho em equipe e atuação interdisciplinar.

Quanto ao suporte organizacional, os participantes enfatizaram o apoio e o suporte dos enfermeiros que ocupam os cargos superiores na estrutura organizacional da instituição. Os enfermeiros gerentes salientaram a participação nas reuniões deliberativas da direção de enfermagem e sua responsabilidade pelo repasse das decisões para a equipe. Os enfermeiros assistenciais destacam a proximidade e a abertura ao diálogo dos enfermeiros gerentes, vislumbrando que ambos compartilham objetivos comuns no contexto organizacional.

DISCUSSÃO

A maioria dos participantes do estudo foi do sexo feminino, com idade em torno de 37 anos, o que vai ao encontro do perfil sociodemográfico da Enfermagem no Brasil(1313. Machado MH, Aguiar Filho W, Lacerda WF, Oliveira E, Lemos W, Wermelinger M, et al. Características gerais da enfermagem: o perfil sócio demográfico. Enferm Foco [Internet]. 2016 [citado 2017 mar. 14];7(n.esp):9-14. Disponível em: http://revista.portalcofen.gov.br/index.php/enfermagem/article/view/686
http://revista.portalcofen.gov.br/index....
). Destacou-se a quantidade de enfermeiros com especialização lato sensu e Mestrado, a qual foi mais expressiva do que a descrita em estudos nacionais(88. Panunto MR, Guirardello EB. Professional nursing practice: environment and emotional exhaustion among intensive care nurses. Rev Latino Am Enfermagem. 2013;21(3):765-72. DOI: http://dx.doi.org/10.1590/S0104-11692013000300016
http://dx.doi.org/10.1590/S0104-11692013...
,1414. Gasparino RC, Guirardello EB. Ambiente da prática profissional e burnout em enfermeiros. Rev RENE [Internet]. 2015 [citado 2017 mar. 14];16(1):90-6. Disponível em: http://www.periodicos.ufc.br/rene/article/view/2667/2052
http://www.periodicos.ufc.br/rene/articl...
) e internacionais(1515. Desmedt M, De Geest S, Schubert M, Schwendimann R, Ausserhofer D. A multi-method study on the quality of the nurse work environment in acute-care hospitals: positioning Switzerland in the Magnet hospital research. Swiss Med Wkly. 2012;21(142):w13733. DOI: http://dx.doi.org/10.4414/smw.2012.13733
http://dx.doi.org/10.4414/smw.2012.13733...
-1616. Titzer JL, Shirey MR, Hauck S. A nurse manager succession planning model with associated empirical outcomes. J Nurs Adm. 2014;44(1),37-46. DOI: http://dx.doi.org/10.1097/NNA.0000000000000019
http://dx.doi.org/10.1097/NNA.0000000000...
) anteriores.

Ainda em relação à caracterização socioprofissional dos participantes, constatou-se que a idade e o tempo de atuação na instituição dos enfermeiros gerentes eram menores em comparação aos enfermeiros assistenciais. Em contrapartida, eles possuíam maior nível educacional, com formação em nível de pós-graduação. Esse resultado difere da realidade de organizações e serviços de saúde, em que cargos gerenciais são assumidos comumente por enfermeiros com maior experiência profissional, especialmente na área clínica(1717. Van Dyk J, Siedlecki SL, Fitzpatrick JJ. Frontline nurse managers’ confidence and self-efficacy. J Nurs Manag. 2016;24(4):533-9. DOI: 10.1111/jonm.12355
https://doi.org/10.1111/jonm.12355...
). Além disso, a experiência profissional é considerada um diferencial para o adequado desenvolvimento das atribuições relacionadas a um cargo gerencial no contexto da enfermagem(1717. Van Dyk J, Siedlecki SL, Fitzpatrick JJ. Frontline nurse managers’ confidence and self-efficacy. J Nurs Manag. 2016;24(4):533-9. DOI: 10.1111/jonm.12355
https://doi.org/10.1111/jonm.12355...
-1818. Parker V, Giles M, Lantry G, McMillan M. New graduate nurses’ experiences in their first year of practice. Nurse Educ Today. 2014;34(1):150-6. DOI: 10.1016/j.nedt.2012.07.003
https://doi.org/10.1016/j.nedt.2012.07.0...
).

Porém, no contexto contemporâneo da Administração, a formação profissional tem sido cada vez mais valorizada para o exercício de cargos gerenciais. Isso contribui para que profissionais jovens com maior capacitação que profissionais mais experientes destaquem-se no exercício de cargos gerenciais(1919. Nguyen N, Hansen JØ. Becoming a leader-manager: a matter of training and education. Dev Learn Organ. 2016;30(6):10-12. DOI: 10.1108/DLO-07-2016-0056), o que pode estar acontecendo no cenário investigado. Nesse sentido, é importante que futuras investigações explorem os motivos pelos quais enfermeiros têm assumido cargos gerenciais e como têm se capacitado para tal atividade.

A avaliação das médias gerais do B-NWI-R mostrou que tanto o ambiente de trabalho dos enfermeiros assistenciais quanto dos enfermeiros gerentes apresentam características favoráveis. Resultados similares estão descritos em estudos anteriores usando o mesmo instrumento no Brasil(88. Panunto MR, Guirardello EB. Professional nursing practice: environment and emotional exhaustion among intensive care nurses. Rev Latino Am Enfermagem. 2013;21(3):765-72. DOI: http://dx.doi.org/10.1590/S0104-11692013000300016
http://dx.doi.org/10.1590/S0104-11692013...
,2020. Oliveira EM, Barbosa RL, Andolhe R, Eiras FRC, Padilha KG. Nursing practice environment and work satisfaction in critical units. Rev Bras Enferm. 2017;70(1):79-86. DOI: http://dx.doi.org/10.1590/0034-7167-2016-0211
http://dx.doi.org/10.1590/0034-7167-2016...
).

Os quatro domínios do B-NWI-R foram favoráveis para os enfermeiros assistenciais. No entanto, a subescala controle sobre o ambiente foi desfavorável entre os enfermeiros gerentes. Essa subescala também foi avaliada negativamente por enfermeiros de unidades críticas de um hospital universitário em São Paulo(2121. Maurício LFS, Okuno MFP, Campanharo CRV, Lopes MCBT, Belasco AGS, Batista REA. Professional nursing practice in critical units: assessment of work environment characteristics. Rev Latino Am Enfermagem. 2017;25:e2854. DOI: http://dx.doi.org/10.1590/1518-8345.1424.2854
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). Assim, pontua-se a necessidade de que o controle dos enfermeiros sobre o ambiente seja melhorado no contexto hospitalar.

Na comparação entre o ambiente de trabalho dos dois grupos, não foi identificada significância estatística. Esse resultado sugere a existência de um ambiente de trabalho com características similares para os enfermeiros da instituição, independentemente do exercício de um cargo gerencial. Em contrapartida, é relevante a reflexão sobre o empoderamento dos enfermeiros gerentes para identificação de problemas e implementação de estratégias para resolvê-los, as quais são atividades inerentes ao cargo exercido.

O empoderamento corresponde à capacidade para intervir em determinado contexto, sendo decorrente de sistemas formais e informais. O empoderamento formal resulta de estruturas que permitem a tomada de decisões conforme o entendimento sobre o que é melhor para o alcance dos objetivos organizacionais, e o informal deriva dos relacionamentos interpessoais no trabalho(2222. Teixeira AC, Nogueira MAA, Alves PJP. Empoderamento estrutural em enfermagem: tradução, adaptação e validação do Conditions of Work Effectiveness Questionnaire II. Rev Enf Ref. 2016;4(10):39-47. DOI: http://dx.doi.org/10.12707/RIV16014
http://dx.doi.org/10.12707/RIV16014...
). O empoderamento formal dos enfermeiros não costuma aumentar à medida que se sobe na hierarquia organizacional(2323. Laschinger HKS, Wong CA, Grau AL, Read EA, Pineau Stam LM. The influence of leadership practices and empowerment on Canadian nurse manager outcomes. J Nurs Mang. 2012;20(7):877-88. DOI: http://dx.doi.org/10.1111/j.1365-2834.2011.01307.x
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) e enfermeiros gerentes, muitas vezes, possuem menos poder do que gerentes de outras áreas hospitalares(2424. Su SF, Jenkins M, Liu PE. Nurses’ perceptions of leadership style in hospitals: a grounded theory study. J Clin Nurs. 2011;21(1-2):272-80. DOI: http://dx.doi.org/10.1111/j.1365-2702.2011.03815.x
http://dx.doi.org/10.1111/j.1365-2702.20...
). No entanto, gerentes empoderados podem empoderar outros e são mais propensos a fazê-lo do que aqueles que não se sentem habilitados a tal. Além disso, quando enfermeiros percebem que os seus gerentes têm influência na organização, eles tornam-se mais propensos a sentirem-se empoderados também(2323. Laschinger HKS, Wong CA, Grau AL, Read EA, Pineau Stam LM. The influence of leadership practices and empowerment on Canadian nurse manager outcomes. J Nurs Mang. 2012;20(7):877-88. DOI: http://dx.doi.org/10.1111/j.1365-2834.2011.01307.x
http://dx.doi.org/10.1111/j.1365-2834.20...
), o que contribui para uma maior satisfação profissional e melhores resultados assistenciais.

No Brasil, o empoderamento dos enfermeiros gerentes é influenciado pela forma como esses profissionais chegam ao cargo. É comum, especialmente nos hospitais públicos, enfermeiros serem eleitos pelos seus pares para os cargos gerenciais ou promovidos de assistentes a gerentes pela instituição, diferentemente do que acontece em outros países. No Canadá e na Austrália, por exemplo, enfermeiros externos à instituição de saúde são contratados especificamente para o exercício de cargos gerenciais. Esses enfermeiros gerentes estão envolvidos diretamente na implementação de estratégias organizacionais e são figuras essenciais para os cumprimentos dos ideais atuais e futuros das organizações, assim como para atingir os objetivos almejados por meio das metas traçadas para a qualidade e a segurança da assistência prestada pelas suas equipes(2525. Brown P, Fraser K, Wong CA, Muise M, Cummings G. Factors influencing intentions to stay and retention of nurse managers: a systematic review. J Nurs Mang. 2012;21(3):459-72. DOI: http://dx.doi.org/10.1111/j.1365-2834.2012.01352.x
http://dx.doi.org/10.1111/j.1365-2834.20...
).

Os resultados desta pesquisa indicaram a existência de relações colaborativas entre enfermeiros gerentes e assistenciais. Tal achado reforça resultados de um estudo brasileiro no qual o trabalho em equipe foi considerado uma competência importante para que enfermeiros gerentes promovam a integração dos profissionais de sua equipe em prol de melhores resultados organizacionais(2626. Furukawa PO, Cunha ISKO. Profile and competencies of nurse managers at accredited hospitals. Rev Latino Am Enfermagem. 2011;19(1):106-14. DOI: http://dx.doi.org/10.1590/S0104-11692011000100015
http://dx.doi.org/10.1590/S0104-11692011...
). Em outra pesquisa, chinesa, identificou-se que os enfermeiros gerentes adotavam uma postura autocrática em relação aos enfermeiros assistenciais, conferindo-lhes limitado poder nos processos de tomada de decisão, criando um ambiente de trabalho que compromete a qualidade do cuidado(2424. Su SF, Jenkins M, Liu PE. Nurses’ perceptions of leadership style in hospitals: a grounded theory study. J Clin Nurs. 2011;21(1-2):272-80. DOI: http://dx.doi.org/10.1111/j.1365-2702.2011.03815.x
http://dx.doi.org/10.1111/j.1365-2702.20...
).

A hierarquização na estrutura organizacional hospitalar permeada por valores como controle e rigidez no trabalho, individualismo e competição fomenta a fragmentação da assistência, uma vez que dificulta o trabalho em equipe e o desenvolvimento de ações interdisciplinares, o que prejudica a qualidade dos serviços prestados. A adoção de novas formas de gestão e organização do trabalho são práticas em saúde alternativas aos modelos tradicionais. Para tanto, é esperado de gestores e coordenadores do trabalho a valorização do trabalho em equipe e da humanização das relações interpessoais(2727. Rocha FLR, Marziale MHP, Carvalho MC, Id SFC, Campos MCT. The organizational culture of a Brazilian public hospital. Rev Esc Enferm USP. 2014;48(2):303-9. DOI: http://dx.doi.org/10.1590/S0080-6234201400002000016
http://dx.doi.org/10.1590/S0080-62342014...
).

Na combinação entre os resultados quantitativos e qualitativos, observaram-se convergências no tangente ao controle sobre o ambiente, às relações com os médicos e ao suporte organizacional. Porém, evidenciaram-se divergências quanto à autonomia. Entre as subescalas do B-NWI-R, a autonomia apresentou a média mais positiva. No entanto, predominou entre os enfermeiros entrevistados a percepção de que a autonomia profissional é limitada na instituição.

Os enfermeiros gerentes consideraram que a sua autonomia é circunscrita ao papel de articulação entre as demandas dos serviços de enfermagem e a direção de enfermagem. Desse modo, o processo decisório não é centrado no enfermeiro gerente. Estudo desenvolvido no Sul do Brasil também evidenciou que as decisões tomadas não partem unicamente do enfermeiro gerente dos serviços de enfermagem. Elas são transmitidas para instâncias superiores, devido à descentralização da gestão, e a partir de então são adotadas condutas por meio do processo decisório(2828. Eduardo EA, Peres AM, Almeida ML, Roglio KD, Bernardino E. Analysis of the decision-making process of nurse managers: a collective reflection. Rev Bras Enferm. 2015;68(4):668-75. DOI: http://dx.doi.org/10.1590/0034-7167.2015680414i
http://dx.doi.org/10.1590/0034-7167.2015...
).

Na visão dos enfermeiros assistenciais, a autonomia é limitada pela hierarquização e influência do modelo biomédico no hospital. A autonomia do enfermeiro pode ser considerada um processo relativo, que é construído a partir da convivência com os outros profissionais da equipe de enfermagem e saúde. A consolidação da autonomia do enfermeiro requer o desenvolvimento de competências técnicas, científicas, políticas e humanísticas construídas coletivamente no cotidiano do trabalho(2929. Dalcól C, Garanhani ML. Management role of surgical center nurses: perceptions by means of images. Rev Eletr Enf. 2016;18:e1168. DOI: http://dx.doi.org/10.5216/ree.v18.34888
http://dx.doi.org/10.5216/ree.v18.34888...
).

O controle sobre o ambiente obteve as médias menos favoráveis entre os dois grupos de enfermeiros. Nos resultados qualitativos, os enfermeiros mencionaram dificuldades quanto à falta de materiais e pessoal. Nas instituições públicas, a compra de materiais e a contratação de trabalhadores depende da liberação de recursos financeiros pelo governo e requer a realização de licitações e concursos públicos, o que vai além da governabilidade dos profissionais e gestores. Além disso, esse resultado pode ter sido influenciado pela crise nos hospitais públicos universitários no país, que interferiu negativamente nas condições de trabalho dos profissionais de saúde, principalmente durante o período de coleta de dados. Assim, reforça-se que as limitações financeiras do sistema de saúde têm comprometido a capacidade produtiva da Enfermagem(55. Cucolo DF, Perroca MG. Factors involved in the delivery of nursing care. Acta Paul Enferm. 2015;28(2):120-4. DOI: http://dx.doi.org/10.1590/1982-0194201500021
http://dx.doi.org/10.1590/1982-019420150...
). Além disso, características da instituição estão associadas ao sofrimento psicológico no trabalho da enfermagem, podendo gerar esgotamento profissional e sobrecarga entre os profissionais(3030. Adriaenssens J, De Gucht V, Maes S. Determinants and prevalence of burnout in emergency nurses: a systematic review of 25 years of research. Int J Nurs Stud. 2015;52(2):649-61. DOI: http://dx.doi.org/10.1016/j.ijnurstu.2014.11.004
http://dx.doi.org/10.1016/j.ijnurstu.201...
).

O relacionamento com os médicos foi considerado positivo pelos participantes, principalmente devido à caracterização do hospital como instituição de ensino. De modo semelhante, estudos apontam que as relações dos enfermeiros com os médicos em hospitais universitários são facilitadas pelas características dessas instituições, que buscam promover um ambiente favorável à autonomia e ao desenvolvimento de um trabalho colaborativo(2020. Oliveira EM, Barbosa RL, Andolhe R, Eiras FRC, Padilha KG. Nursing practice environment and work satisfaction in critical units. Rev Bras Enferm. 2017;70(1):79-86. DOI: http://dx.doi.org/10.1590/0034-7167-2016-0211
http://dx.doi.org/10.1590/0034-7167-2016...
,3131. Oliveira AM, Lemes AM, Ávila BT, Machado CR, Ordones E, Miranda FS, et al. Relação entre enfermeiros e médicos no Hospital das clínicas da Universidade Federal de Goiás: a perspectiva do profissional de enfermagem. Rev Latino Am Bioética. 2010;10(2):58-67.).

O bom relacionamento não significa a ausência de conflitos entre essas categorias profissionais. Médicos e enfermeiros desenvolvem uma prática interdependente no contexto hospitalar, o que pode facilitar o desencadeamento de conflitos interprofissionais, principalmente diante de diferenças entre pontos de vista e condutas assistenciais(3131. Oliveira AM, Lemes AM, Ávila BT, Machado CR, Ordones E, Miranda FS, et al. Relação entre enfermeiros e médicos no Hospital das clínicas da Universidade Federal de Goiás: a perspectiva do profissional de enfermagem. Rev Latino Am Bioética. 2010;10(2):58-67.). Desse modo, salienta-se a diferença entre o desenvolvimento de trabalho multidisciplinar e o alcance de uma assistência interdisciplinar. A primeira diz respeito à associação de diferentes saberes, enquanto a segunda vai além desta interdependência e acontece por meio de interação e diálogo dentre as diferentes disciplinas(3232. Velloso MP, Guimarães Maria BL, Cruz CRR, Neves TCC. Interdisciplinarity and training in the collective health area. Trab Educ Saúde. 2016;14(1):257-71. DOI: http://dx.doi.org/10.1590/1981-7746-sip00097
http://dx.doi.org/10.1590/1981-7746-sip0...
).

O suporte organizacional foi avaliado positivamente no B-NWI-R e nas entrevistas com os dois grupos participantes da pesquisa. O suporte organizacional recebido pelos níveis superiores de administração é um importante estímulo para a prática gerencial do enfermeiro(11. Lanzoni GMM, Magalhães ALP, Costa VT, Erdmann AL, Andrade SR, Meirelles BHS. Becoming nursing manager in the nested and complex border of caring and management dimensions. Rev Eletr Enf. 2015;17(2):322-32. DOI: http://dx.doi.org/10.5216/ree.v17i2.29570
http://dx.doi.org/10.5216/ree.v17i2.2957...
,2020. Oliveira EM, Barbosa RL, Andolhe R, Eiras FRC, Padilha KG. Nursing practice environment and work satisfaction in critical units. Rev Bras Enferm. 2017;70(1):79-86. DOI: http://dx.doi.org/10.1590/0034-7167-2016-0211
http://dx.doi.org/10.1590/0034-7167-2016...
). No entanto, a menção dos enfermeiros de que as decisões vêm da Direção de Enfermagem remete à existência de um processo decisório pautado na hierarquia institucional, cujos resultados são informados e/ou repassados para o restante dos profissionais. De modo semelhante, os resultados de um estudo desenvolvido na Suécia indicaram que os enfermeiros assistenciais possuem pouca participação nos processos decisórios, o que acarreta perda de controle sobre o ambiente de trabalho. Já os enfermeiros que ocupam cargos gerenciais possuem maior participação no processo decisório e consequentemente possuem maior senso de controle e suporte organizacional(3333. Johansson G, Sandahl C, Hasson D. Role stress among first-line nurse managers and registered nurses: a comparative study. J Nurs Manag. 2011;21(3):449-458. DOI: http://dx.doi.org/doi:10.1111/j.1365-2834.2011.01311.x
http://dx.doi.org/doi:10.1111/j.1365-283...
).

Como limitação do estudo, pontua-se que a amostra quantitativa foi não probabilística e restrita ao grupo de enfermeiros de uma instituição hospitalar. Outra limitação refere-se ao delineamento transversal, no qual a causalidade reversa não pode ser descartada.

Quanto aos avanços para a área da enfermagem/saúde, este é o primeiro estudo brasileiro que comparou o ambiente de trabalho de enfermeiros gerentes e assistenciais, por meio da aplicação do B-NWI-R e que adotou uma metodologia mista de pesquisa. Os resultados indicaram fatores que intervêm e impactam negativamente o trabalho do enfermeiro no ambiente hospitalar. Dessa forma, o estudo fornece subsídios para o desenvolvimento de estratégias para melhorar o ambiente de trabalho dos enfermeiros visando a uma maior satisfação do profissional e à melhoria da qualidade assistencial. Além disso, o estudo também contribui para a divulgação da pesquisa de métodos mistos como estratégia metodológica entre pesquisadores da enfermagem e saúde.

CONCLUSÃO

A integração entre os resultados quantitativos e qualitativos mostrou que o ambiente de trabalho é avaliado de modo semelhante pelos enfermeiros gerentes e enfermeiros assistenciais no contexto investigado. Os enfermeiros assistenciais avaliaram ter controle sobre o ambiente, suporte organizacional, bom relacionamento com os médicos e autonomia. Os enfermeiros gerentes também consideraram ter suporte organizacional, boas relações com os médicos e autonomia. No entanto, a subescala controle sobre o ambiente foi avaliada como uma característica desfavorável pelos enfermeiros gerentes.

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Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    2017

Histórico

  • Recebido
    11 Abr 2017
  • Aceito
    10 Out 2017
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