História da Pós-Graduação na Escola de Enfermagem da Universidade de São Paulo

Historia del programa de postgrado de la Escuela de Enfermería de la Universidade de São Paulo

The University of São Paulo, School of Nursing's history of graduate program

Resumos

O estudo trata da história da criação e desenvolvimento do programa de pós-graduação na Escola de Enfermagem da Universidade de São Paulo e a participação das primeiras orientadoras, desde a instalação do curso de mestrado em 1973. As fontes de pesquisa foram os documentos e registros existentes na secretaria da Pós-Graduação, publicações, além da memória viva de alguns docentes. São apresentadas as transformações ocorridas como a criação dos cursos de doutorado, o aumento das áreas de concentração e a expansão para outras instituições fora do Estado de São Paulo e a identificação nominal das doutoras pioneiras e as que estas formaram, dando origem à segunda geração de doutores que, por sua vez, formaram mestres e doutores da terceira geração e assim sucessivamente, constituindo-se em verdadeira árvore genealógica de mestres e doutores.

História da enfermagem; Educação de pós-graduação em enfermagem; Escolas de enfermagem


El estudio trata de la historia de la creación y desarrollo del programa de postgrado de la Escuela de Enfermería de la Universidad de São Paulo y la participación de las primeras asesoras, desde la instalación dl Programa de maestría en 1973. Las fuentes de investigación fueron los documentos y registros existentes en la secretaría del Postgrado, publicaciones, además de la memoria viva de algunos docentes. Son presentadas las transformaciones ocurridas como la creación de los cursos de doctorado, el aumento de las áreas de concentración y la expansión hacia otras instituciones fuera del Estado de São Paulo y la identificación nominal de las doctoras pioneras y las que éstas formaron, dando origen a la segunda generación de doctores que, a su vez, formaron magísteres y doctores de la tercera generación y así sucesivamente, constituyéndose en un verdadero árbol genealógico de maestros y doctores.

Historia de enfermería; Educación de postgrado en enfermería; Escuelas de enfermería


It reports the history of creation and development of the graduate program at this School, as well as participation the first group of advisers, since the creation of the masters´course in 1973. Research sources were documents and data registration at the Graduate Program´s secretariat, publications, and also the living memory of some faculty members. Evolutions occurred with the creation of the doctoral program, the increasing of the study fields and its expansion to other institutions outside of the São Paulo State are presented as well as the identification of the nurse-pioneers doctors who they formed giving origin to the second generation of doctors in nursing, who in their turn formed other masters and doctors of the third generation, and so successively, conforming a true genealogical tree of masters and doctors.

Nursing history; Education, nursing, graduate; School, nursing


RELATO DE PESQUISA

História da pós-graduação na Escola de Enfermagem da Universidade de São Paulo

The University of São Paulo, School of Nursing's history of graduate program

Historia del programa de postgrado de la Escuela de Enfermería de la Universidade de São Paulo

Taka OguissoI; Maria Alice TsunechiroII

IEnfermeira. Professora Titular do Departamento de Orientação Profissional (ENO) da Escola de Enfermagem da Universidade de São Paulo (EEUSP) - takaoguisso@uol.com.br

IIEnfermeira. Professora Doutora do Departamento de Enfermagem Materno-Infantil e Psiquiátrica ENP) da EEUSP

Correspondência

RESUMO

O estudo trata da história da criação e desenvolvimento do programa de pós-graduação na Escola de Enfermagem da Universidade de São Paulo e a participação das primeiras orientadoras, desde a instalação do curso de mestrado em 1973. As fontes de pesquisa foram os documentos e registros existentes na secretaria da Pós-Graduação, publicações, além da memória viva de alguns docentes. São apresentadas as transformações ocorridas como a criação dos cursos de doutorado, o aumento das áreas de concentração e a expansão para outras instituições fora do Estado de São Paulo e a identificação nominal das doutoras pioneiras e as que estas formaram, dando origem à segunda geração de doutores que, por sua vez, formaram mestres e doutores da terceira geração e assim sucessivamente, constituindo-se em verdadeira árvore genealógica de mestres e doutores.

Descritores: História da enfermagem. Educação de pós-graduação em enfermagem. Escolas de enfermagem (história)

ABSTRACT

It reports the history of creation and development of the graduate program at this School, as well as participation the first group of advisers, since the creation of the masters´course in 1973. Research sources were documents and data registration at the Graduate Program´s secretariat, publications, and also the living memory of some faculty members. Evolutions occurred with the creation of the doctoral program, the increasing of the study fields and its expansion to other institutions outside of the São Paulo State are presented as well as the identification of the nurse-pioneers doctors who they formed giving origin to the second generation of doctors in nursing, who in their turn formed other masters and doctors of the third generation, and so successively, conforming a true genealogical tree of masters and doctors.

Key words: Nursing history. Education, nursing, graduate. School, nursing (history).

RESUMEN

El estudio trata de la historia de la creación y desarrollo del programa de postgrado de la Escuela de Enfermería de la Universidad de São Paulo y la participación de las primeras asesoras, desde la instalación dl Programa de maestría en 1973. Las fuentes de investigación fueron los documentos y registros existentes en la secretaría del Postgrado, publicaciones, además de la memoria viva de algunos docentes. Son presentadas las transformaciones ocurridas como la creación de los cursos de doctorado, el aumento de las áreas de concentración y la expansión hacia otras instituciones fuera del Estado de São Paulo y la identificación nominal de las doctoras pioneras y las que éstas formaron, dando origen a la segunda generación de doctores que, a su vez, formaron magísteres y doctores de la tercera generación y así sucesivamente, constituyéndose en un verdadero árbol genealógico de maestros y doctores.

Descriptores: Historia de enfermería. Educación de postgrado en enfermería. Escuelas de enfermería (historia).

INTRODUÇÃO

No evento comemorativo dos 15 anos de Pós-Graduação da Escola de Enfermagem da Universidade de São Paulo (EEUSP), assim se expressava Yoriko Kamiyama(1), na ocasião Diretora desta Escola:

a pós-graduação é, provavelmente, uma das experiências mais bem sucedidas na história da Escola de Enfermagem, onde sua ação e reflexos se estendem a todas as áreas de enfermagem, sobretudo de ensino, em nível internacional.

Esta declaração é corroborada por outros autores(2) que confirmam também que o "ensino da pós-graduação é o nível mais bem sucedido" do sistema de educação brasileiro.

Decorridos trinta anos desde a sua criação em 1973, qual teria sido o impacto do Programa de Pós-Graduação da EEUSP na comunidade acadêmica e na esfera profissional de saúde, em geral, e na enfermagem, em particular?

Além de cumprir a exigência legal de qualificação docente para o ensino superior, havia a necessidade política de atender a essa demanda e facilitar o acesso à educação superior nos centros urbanos mais populosos. O Programa de Pós-Graduação vinha exatamente atender a exigência de formação acadêmica daqueles que já estavam vinculados com o ensino superior ou pretendiam nele ingressar. Assim, a melhor qualificação de docentes e de

profissionais engajados nos diferentes serviços de saúde deve ter contribuído para formar novas gerações de profissionais mais competentes e responsáveis e que deve ter tido reflexos diretos em uma assistência mais racional, eficaz e satisfatória à clientela.

A EEUSP conta uma extensa folha de serviços prestados à comunidade acadêmica e aos serviços de saúde, assim como a outras instituições educacionais e assistenciais. A força do idealismo e da tenacidade de pioneiras como Edith de Magalhães Fraenkel, primeira diretora da EEUSP e Maria Rosa Sousa Pinheiro, segunda diretora, não tem paralelo na história da enfermagem brasileira e ambas, incontestavelmente, são reconhecidas como duas de suas maiores líderes.

No início da década de 1980, apenas 8,5% da força de trabalho em enfermagem era composta de enfermeiros, 6,6% de técnicos de enfermagem, 21,1% de auxiliares de enfermagem e 63,8% de atendentes, segundo dados do Conselho Federal de Enfermagem/Associação Brasileira de Enfermagem(3) (COFEN/ABEn). Ora, 25 anos antes, o Levantamento de Recursos e Necessidades de Enfermagem(4), realizado pela mesma ABEn havia identificado situação semelhante com 7,5% de enfermeiros, 21,7% de práticos e auxiliares de enfermagem e parteiras e a grande maioria (70,8%) de atendentes. Na década de 1950, a diferença era que a categoria de técnicos de enfermagem ainda não estava criada. Finalmente, aqueles dados comparados com os de 31 de dezembro de 2003 mostram a evolução quantitativa ocorrida desde a pesquisa da década de 1950. Nessa data, os números de profissionais com inscrição definitiva no COFEN, para todo o Brasil, eram de: 99.028 enfermeiros, 154.532 técnicos de enfermagem e 454.482 auxiliares de enfermagem, totalizando 708.042 profissionais. Os atendentes deixaram de ser provisionados, pois os que existiam, passaram à categoria de auxiliar de enfermagem, por causa de um projeto nacional de Profissionalização de Trabalhadores da Área de Enfermagem _ PROFAE. Aqueles valores indicam que existem 13,98% de enfermeiros, 21,83% de técnicos e 64,19% de auxiliares de enfermagem, formando ainda uma pirâmide, mas com o ápice reforçado pelo aumento no número de enfermeiros, que cresceu de 7,5% sobre a população total do pessoal de enfermagem na década de 1950 para 8,5% em 1980 e daí para 13,98% em 2003.

Historicamente, no período de 1940, os cursos de pós-graduação começaram a surgir na modalidade de especialização, em distintas áreas do conhecimento de enfermagem, como o da Escola Anna Nery criado em 1947, que funcionou pouco tempo. Outros programas de pós-graduação também foram interrompidos ou fechados, em geral, por falta de recursos.

Entre os cursos de graduação, a EEUSP surgiu em 1942, e o decreto de sua criação previa dois cursos: o normal e a pós-graduação que se destinava à intensificação do estudo de uma parte ou da totalidade de uma ou mais disciplinas do curso normal. Em 1946, as diplomadas pela sua primeira turma foram sendo incorporadas ao quadro docente da EEUSP, sob o compromisso de seguirem um programa de pós-graduação no exterior, com auxílio

de instituições americanas, como as Fundações Rockefeller e Kellogg, além de outras internacionais como a Organização Pan-Americana de Saúde e o Instituto de Assuntos Interamericanos. Até 1953, 15 professoras haviam saído para cursos de pós-graduação no exterior(5).

A necessidade de pós-graduação em enfermagem que já era sentida, foi legalmente reconhecida em 1949, pois o Decreto 27.426(6), ao regulamentar a Lei 775(7) de 1949, que dispunha sobre o ensino de enfermagem no país, previu no artigo 3º, que "além dos dois cursos ordinários, podem(ou poderiam) ser criados outros de pós-graduação, destinados a ampliar conhecimentos especializados de enfermagem ou de administração", além de outros quatro artigos que especificavam como deveria ser o ensino e quem eram os destinatários desses cursos.

Dessa forma, na década de 1950, houve a iniciativa de criar na Escola de Enfermagem Raquel Hadock Lobo, atualmente, pertencente à Universidade Estadual do Rio de Janeiro, um curso de pedagogia e didática para docentes. Em 1958, quando a direção da EEUSP decidiu planejar o programa de pós-graduação, 12 de suas professoras contavam com mais de dez anos de experiência no ensino de suas disciplinas e nove delas haviam feito pós-graduação nos Estados Unidos. Assim, essa Escola estava capacitada e, em 1959, iniciou os cursos de pós-graduação em Pedagogia e Didática aplicada à Enfermagem e Administração de Unidade de Enfermagem, com ajuda da Fundação Kellogg. A procura de programas para o preparo de administradores, em escolas e no serviço determinou a ampliação e a criação de mais dois cursos: Administração de Ensino de Enfermagem, em 1962, e Administração de Serviço de Enfermagem, em 1967. Esses cursos funcionaram como "pólos de pós-graduação em enfermagem para o país e para o exterior, até sua extinção em 1969, pela Reforma Universitária(8) que determinou a criação dos cursos de pós-graduação stricto sensu"(3) e formaram 491 profissionais, incluindo-se, entre eles, 60 enfermeiros procedentes de 15 países latino-americanos(9).

Além dos próprios enfermeiros sentirem necessidade de melhor qualificação para o ensino, as instituições, sobretudo as de ensino de enfermagem, também se preocupavam em preparar enfermeiras para a docência, mas não havia o mesmo empenho na formação de doutoras ou livre-docentes, talvez porque essa exigência não estava contida na Lei n. 775/1949(7). A aparente despreocupação das enfermeiras pode ser explicada, também, pela legislação do exercício profissional da época - a Lei no. 2.604/1955(10) - que paralelamente à legislação do ensino dava à enfermeira, entre outras, a prerrogativa de direção e ensino em escolas de enfermagem e de auxiliares de enfermagem. Desde a década de 1950 e, até antes, alguns institutos e universidades (entre elas a USP), inspirados no modelo francês, já formavam doutores e livres-docentes em áreas específicas do conhecimento.

Na verdade, a instituição de títulos de mestre e doutor provém da Idade Média, quando as universidades foram criadas e, o grau de mestre e o de doutor eram títulos de docência(11). O mestre de artes era a qualificação para o magistério nas artes liberais e o de doutor para o ensino de teologia, direito e medicina. Ensina a autora(11) que "o título de doutor em medicina designava, portanto, o professor e não o médico que exercia a profissão".

A demanda de docentes crescia na década de 1960, na medida em que aumentavam os cursos de graduação, que somava, em 1961, a 39 escolas, a maioria concentrada nas regiões sudeste e sul(12).

A partir de 1964, a Escola de Enfermagem Anna Nery passou a oferecer cursos de Pedagogia e Didática e em Administração aplicada à Enfermagem, assim como a Faculdade de Saúde Pública da USP, e a Fundação Escola Nacional de Saúde Pública no Rio de Janeiro, cujos cursos sobre Saúde Pública previam a inclusão de enfermeiros.

Até essa década quase todos os cursos eram em nível de especialização ou aperfeiçoamento e deixaram de funcionar a partir de 1970, por força da Lei no. 5.540/1968(8) e legislação complementar que fixava normas e funcionamento do ensino superior, mais conhecida como Reforma Universitária e exigia redefinição do corpo docente com base na qualificação com títulos de mestre, doutor e livre-docente (Parecer CESu 77/1969(13)) e dois níveis de pós-graduação: o stricto sensu, com mestrado e doutorado, e o lato sensu, com especialização e aperfeiçoamento. Na ocasião, o Estatuto da USP começou a ser reformulado incorporando tais exigências para a docência e entrou em vigor, em 1970, dando um prazo até 1972 para que os docentes sem titulação pudessem atender a esse requisito sem freqüentar os dois níveis da pós-graduação stricto sensu.

Entre as virtudes da Reforma Universitária, além de ampliar a capacidade de investigação das universidades e de seu corpo docente, foram enumeradas, em 2002, as seguintes:

promover a formação de professores competentes que pudessem atender à expansão quantitativa do ensino superior, estimular o desenvolvimento da pesquisa por meio de preparação de novos pesquisadores e assegurar o treinamento eficaz de técnicos e trabalhadores intelectuais do mais alto nível, para fazer face às necessidades do desenvolvimento em todos os setores(2).

Nas três décadas da pós-graduação, quem participou do Programa? Quem participou na laboriosa tarefa de formação dessa geração de enfermeiros para trabalhos de ensino e pesquisa? Como a EEUSP contribuiu para essa formação nos últimos trinta anos? Como tem repercutido nas instituições de saúde a utilização de profissionais mais bem-qualificados? A produção científica de teses e dissertações de enfermeiros tem contribuído para a melhoria da assistência prestada aos usuários dos serviços?

Evidentemente, nem todas as questões poderão ser respondidas de modo cabal neste estudo, pois mais pesquisas e estudos serão necessários na outra ponta da linha, ou seja, sob a ótica dos órgãos utilizadores desses profissionais, para avaliar o efetivo impacto da contribuição, no sentido da qualidade da assistência prestada.

No presente estudo pretende-se dar visibilidade aos atores do Programa de Pós-Graduação da EEUSP, talvez já esquecidos ou desconhecidos pelas novas gerações de enfermeiros e deixar registro desses fatos, antes que passem a ser parte de um passado por demais remoto, prejudicando a transparência das realidades vivenciadas por essas pessoas. Assim, os objetivos são:

1. Descrever a trajetória histórica da Pós-Graduação de Enfermagem na EEUSP;

2. Identificar a população de enfermeiros(as) participantes desse programa e, dentro dela, verificar quantas gerações de doutores foram formadas desde 1973.

METODOLOGIA

As fontes de pesquisa foram os registros existentes na seção de Pós-Graduação da EEUSP sobre os alunos que se titularam por esse Programa e os docentes que os formaram, relatórios, publicações, normas legais e outros documentos relativos ao Programa de Pós-Graduação. Outra fonte de dados foi a memória viva de alguns docentes que relataram experiências a respeito de fatos e situações ocorridos no período em estudo.

História é, realmente, a documentação da memória, fortalecida por recursos confiáveis e testada pelas regras da lógica e da evidência. A tarefa do historiador, portanto, consiste em achar e avaliar a evidência e depois analisá-la e interpretá-la. Nesse contexto, problemas ou mitos citados por essas autoras indicam que a boa história surge de bons fatos e que a história é a estória da continuidade ou progresso, uma tentativa de criar uma linha contínua para conectar eventos passados ao presente. E o historiador precisa voltar ao passado para tentar compreender eventos, comportamentos e crenças em seu próprio tempo e contexto(14).

Considerando que a historia é a estória da continuidade ou conseqüência no presente de fatos passados, o futuro não será uma simples continuação do presente, mas será uma conseqüência deste(1).

RESULTADOS

Em 1970, o fechamento do Programa de Pós-Graduação, iniciado em 1959, ensejou a preparação compulsória de seu corpo docente de preencher o requisito da obtenção do grau de doutor. Na verdade, essa obrigatoriedade de qualificação foi súbita, dolorosa e compulsória, pois o Estatuto da USP.

seria reformulado, a EEUSP poderia ser extinta se medidas imediatas não fossem tomadas para romper a cadeia que se formaria e impediria o crescimento da Escola(5).

De qualquer forma, esse episódio fez com que professoras e instrutoras da Escola obtivessem o grau de doutor, defendendo suas teses entre os anos de 1971 e 1972, como era permitido pelo estatuto vigente na ocasião.

O Quadro 1 mostra as docentes da EEUSP que se titularam em 1971 e 1972 e no Quadro 2 as docentes enfermeiras de outras escolas e instituições que aproveitaram a oportunidade para sua titulação acadêmica.

A participação da Professora Wanda de Aguiar Horta, detentora do título de Livre-docente por concurso na Escola de Enfermagem Anna Nery, título aceito pela USP que o considerou equivalente ao da Universidade(3), foi fundamental na formação das primeiras doutoras de enfermagem na EEUSP, tendo sido a orientadora de cinco das docentes listadas no Quadro 1. A Professora Leda Ulson Mattos, a primeira a titular-se pela EEUSP, em 1971, pôde contribuir no doutoramento de outra docente. Sendo a primeira titulação, a maioria dos orientadores pertencia a outras unidades da USP, notadamente, a Faculdade de Medicina, Faculdade de Saúde Pública, Faculdade de Educação e Instituto de Ciências Biomédicas.

Algumas dessas docentes tituladas, que já haviam completado seu tempo de serviço, aposentaram-se e duas delas, por motivos particulares, pediram rescisão do contrato em 1973 e 1974, não havendo tempo para preparar outras pessoas. A Professora Circe de Melo Ribeiro, mesmo tendo se aposentado em 1978, formou outras docentes em nível de mestrado e, depois, de doutorado.

As docentes do Quadro 2 aproveitaram a oportunidade concedida pela USP para se titularem. De regresso às suas universidades, conseguiram criar cursos de pós-graduação e ajudaram a formar novas gerações de mestres e doutores na enfermagem, dados a serem estudados posteriormente.

Estudos preliminares para criação do Programa de Pós-Graduação, nível de mestrado, foram iniciados em 1970 quando foi novamente solicitada à Fundação Kellogg, uma ajuda financeira que foi obtida. A proposta inicial à Câmara de Pós-Graduação (CPGr) criava apenas a área de concentração em Fundamentos de Enfermagem, que contava com a Professora Doutora Wanda de Aguiar Horta. Aprovado o Programa proposto, iniciou-se o primeiro curso em 1º de outubro de 1973. Era o segundo no Brasil, pois, em agosto de 1972 havia sido instalado o primeiro curso de pós-graduação, em nível de mestrado, na Escola de Enfermagem Anna Nery, no Rio de Janeiro.

Para o primeiro grupo, foram selecionadas 54 alunas, sendo 25 auxiliares de ensino da EEUSP. O segundo grupo, com 32 novas candidatas, 13 da EEUSP, iniciou-se em 1975, com outras áreas de concentração, com as mesmas características de Fundamentos de Enfermagem. As novas áreas de concentração foram em: Enfermagem Obstétrica e Neonatal, Enfermagem Pediátrica, Enfermagem Psiquiátrica e Administração de Serviços de Enfermagem, aprovadas pela CPGr.

Na época, a EEUSP estava estruturada em três Departamentos - Enfermagem Médico-Cirúrgica (ENC), Enfermagem Materno-Infantil e Psiquiátrica (ENP) e de Orientação Profissional (ENO). As áreas específicas como Enfermagem Obstétrica e Neonatal, Enfermagem Pediátrica e Enfermagem Psiquiátrica vincularam suas próprias docentes, mas as docentes que pertenciam a outras especialidades, acabaram, por força das circunstâncias, vinculando-se ou a Fundamentos de Enfermagem, ou à Administração de Enfermagem.

Inicialmente, o Regulamento do Programa estabelecia três anos para completar os créditos e cinco para desenvolver a dissertação. As primeiras defesas de dissertação tiveram início em 1975(5).

Em meados de 1976, a Professora Wanda Horta alertou a Comissão de Pós-Graduação sobre a necessidade de abrir o nível de doutorado, pois as professoras que haviam concluído o mestrado queriam prosseguir seus estudos, além de que a Escola continuaria ameaçada de extinção se não houvesse aumento do número de doutoras.

Em 1978, foi solicitada à CPGr a permissão para iniciar a formação em nível de doutorado. Ante a inviabilidade de aprovação por insuficiência de massa crítica, e por sugestão da CPGr, a EEUSP uniu-se à Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto para oferecer em conjunto um único programa, chamado Interunidades. Assim, em 1981, foi aprovado o primeiro programa de doutoramento em enfermagem da América Latina, credenciado pelo Conselho Federal de Educação em 1986. A relação das docentes da EEUSP formadas por esse Programa na década de 1980 são apresentadas no Quadro 3.

No Quadro 3, observa-se que a maioria dos orientadores era constituída pelo grupo das doutoras pioneiras de 1972, com exceção do Professor Joel da Silva Camacho, pertencente ao quadro da EEUSP, formado na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, da Professora Tamara Iwanow Cianciarulo, também do quadro, porém doutorada pela Escola de Sociologia e Política de São Paulo, a Professora Yolanda Cintrão Forghieri, que era do quadro do Instituto de Psicologia e o Professor Nélio Parra, da Faculdade de Educação que aceitaram orientar as candidatas ao doutorado do Programa Interunidades, na EEUSP.

Recorde-se que o nível de doutorado em Enfermagem foi aprovado na USP em outubro de 1981 e implantado a partir de 1982. Nessa ocasião, algumas docentes da Escola já estavam vinculadas a outros programas de doutorado e preferiram continuar onde já estavam engajadas. Posteriormente, outras docentes também preferiram obter doutoramento em outras unidades, dada a especificidade de seus projetos de pesquisa, bem como para ampliar o espectro de estudos e conhecimentos (Quadro 4).

No final de 1987, desencadeou-se o processo de criação do nível de doutorado como extensão do mestrado na EEUSP, aprovado em 1989, com uma única área de concentração em Enfermagem. O primeiro grupo para esse Programa foi constituído por cinco docentes da própria EEUSP, das quais quatro concluíram e uma pediu desligamento após um ano de curso.

Na década de 1990, ocorreram eventos importantes: a ampliação das áreas de concentração e a expansão para outros Estados.

O Programa de Mestrado aumentou as áreas de concentração com a Enfermagem em Saúde Coletiva no ano de 1992 sob a responsabilidade do Departamento de Enfermagem em Saúde Coletiva (ENS) e Enfermagem na Saúde do Adulto Institucionalizado no ano de 1995, do Departamento ENC. Cabe esclarecer que o Departamento ENS foi criado em fevereiro de 1987, a partir do desmembramento do Departamento de Enfermagem Médico-Cirúrgica (ENC)(15).

Em março de 1992, foi aprovada a expansão do Programa de Pós-Graduação, nível de Doutorado na Escola de Enfermagem da Universidade Federal de Minas Gerais(UFMG), com validade de cinco anos. Para a primeira turma, iniciada em 1992, foram selecionadas seis docentes e, em 1994, mais cinco docentes da UFMG e uma da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), tendo titulado 11 doutores e ocorrido um desligamento.

Em fevereiro de 1998, iniciou-se o Convênio Mestrado Interinstitucional entre a USP, as Universidades Estaduais de Londrina e Maringá e a Secretaria de Estado da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior do Estado do Paraná - área de Fundamentos de Enfermagem, para capacitação docente dos professores dessas instituições. O Convênio previsto para durar 30 meses foi prorrogado por seis meses. Ingressaram, por seleção, 15 alunos - 10 professores da Universidade Estadual de Londrina e 5 da Universidade Estadual de Maringá. Foram aprovados 14 alunos obtendo o título de Mestre em Enfermagem e uma aluna foi desligada por não cumprir as exigências regimentais até a data limite do Programa.

Destaque-se que o Programa em nível de mestrado foi sucessivamente recredenciado pelo Conselho Federal de Educação assim como o doutorado também foi credenciado já às vésperas da comemoração dos 15 anos da Pós-graduação da EEUSP(5).

Em dezembro de 1999, a USP autorizou a criação de mais um Programa de Pós-Graduação strictu sensu, em Enfermagem na Saúde do Adulto, nos níveis de mestrado e doutorado. Este Programa nasceu do desmembramento do Programa de Pós-Graduação em Enfermagem e fundiu as áreas de concentração de Fundamentos de Enfermagem e de Enfermagem na Saúde do Adulto Institucionalizado. Em 2002, esse último Programa foi recomendado pela Fundação Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES)(15).

Com essa reformulação, atualmente, existem dois Programas de Pós-Graduação: o Programa de Pós-Graduação em Enfermagem (PPGE) sob a responsabilidade de três Departamentos (ENP, ENO e ENS) e o Programa de Pós-Graduação em Enfermagem na Saúde do Adulto (PROESA) sob a responsabilidade do Departamento ENC, além do Programa Interunidades de Doutoramento, em parceria com a Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto.

O Quadro 5, em anexo, mostra a árvore genealó-gica das primeiras orientadoras da Pós-Graduação, com a geração de novos mestres e doutores a partir dos doutores pioneiros que ajudaram a criar o primeiro Programa de Pós-Graduação da EEUSP, nível de mestrado, em 1973, orientando um grande número de enfermeiros. Nesta apresentação, por questão de espaço, no Quadro 5, a primeira geração é representada pelas doutoras de 1972 que formaram as doutoras do Programa Interunidades (segunda geração), que por sua vez passaram a formar um grande contingente de novos mestres e doutores (terceira geração) e já formam a quarta geração. São elas: Circe de Melo Ribeiro, Evalda Cançado Arantes, Sonia Della Torre Salzano e Wanda Escobar da Silva Freddi. Por exemplo, na árvore de Evalda Cançado Arantes que formou vários mestres e doutores, entre eles, temos a Doutora Maguida Costa Stefanelli (segunda geração), que gerou também, um grande número de mestres e doutores como a Doutora Dulce Maria Rosa Gualda (terceira geração) que, por sua vez, formou outros como a Doutora Neide de Souza Praça (quarta geração), já orientadora do Programa, formando outros pesquisadores.

A representação da árvore genealógica dos orientadores da EEUSP que não constam deste texto, está feita separadamente e encontra-se à disposição, para que orientandos e orientadores possam encontrar-se no quadro.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Em suma, os fatos cronológicos da pós-graduação stricto sensu da EEUSP foram marcados pela criação, em 1973, do Programa de Mestrado; em 1981, pela instalação do primeiro Doutorado, em conjunto com a Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto, da mesma Universidade, finalmente, em 1989, da criação de seu próprio programa de doutorado em Enfermagem e de um segundo programa de pós-graduação (mestrado e doutorado) de Enfermagem na Saúde do Adulto, do Departamento de Enfermagem Médico-Cirúrgica (ENC) autorizado pela USP, em 1999, e recomendado pela CAPES, em 2002.

Assim, o primeiro grupo de doutoras da EEUSP, de 1972, formou novos doutores pelo Programa Interunidades, e estes passaram, efetivamente, a gerar outros mestres e doutores de enfermagem, constituindo uma verdadeira árvore genealógica com a geração de doutores que, por sua vez, passaram a gerar outros doutores, multiplicando-se geometricamente a for-mação de titulados e, ao mesmo tempo, prosseguindo na carreira acadêmica participando de concursos para alcançar outros títulos e graus acadêmicos como a livre-docência e o cargo de Professor Titular. Ex-alunos desse Programa, procedentes de outras universidades ou que se transferiram para outros centros de formação "conseguiram criar novos cursos de pós-graduação no País e também se tornaram líderes de núcleos de pesquisas e centros de estudos em instituições acadêmicas e assistenciais"(15).

Cabe a homenagem a todos os docentes da EEUSP que impulsionaram a Pós-Graduação em seu início, enfrentando desafios e a enorme sobrecarga de trabalho com o intuito de formar academicamente as novas gerações de profissionais e assegurar que a enfermagem constituísse efetivamente um ramo da ciência, com suas pesquisas e estudos científicos que hoje merecem o devido respeito e credibilidade nacional e internacional.

Espera-se que as novas gerações de enfermeiros e docentes, mais amadurecidos e academicamente bem preparados, possam elevar ainda mais a qualidade do ensino e a produção científica, a fim de melhorar progressivamente a assistência aos usuários dos serviços de saúde, objetivo final de todas as profissões e profissionais de saúde.

Recebido: 11/04/2005

Aprovado: 22/06/2005

ANEXO

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  • (1) Kamiyama Y. Discurso da sessão de instalação. In: Anais do Simpósio "15 anos de pós-graduação na EEUSP: reflexos e perspectivas"; 1987 out. 24-25; São Paulo. São Paulo: Escola de Enfermagem da USP; 1990. p. 21-4.
  • (2) Almeida MCP, Rodrigues RAP, Furegato ARF, Scochi CGS. A pós-graduação na Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto - USP: evolução histórica e sua contribuição para o desenvolvimento da enfermagem. Rev Lat Am Enferm 2002; 10(3):276-87.
  • (3) Conselho Federal de Enfermagem/Associação Brasileira de Enfermagem. O exercício de enfermagem nas instituições de saúde do Brasil. 1982-/1983. Rio de Janeiro: COFEN/ABEn; 1985; 1:65-70.
  • (4) Associação Brasileira de Enfermagem. Relatório final do levantamento de recursos e necessidades da enfermagem no Brasil - 1956/1958. Brasília; 1980.
  • (5) Arantes EC. Evolução da pós-graduação na Escola de Enfermagem da Universidade de São Paulo. In: Anais do "Simpósio 15 anos de pós-graduação na EEUSP - reflexos e perspectivas"; 1987 out 24-25; São Paulo. São Paulo: Escola de Enfermagem da USP; 1990. p. 53-7.
  • (6) Brasil. Decreto n. 27426, de 14 de novembro de 1949. Aprova o regulamento básico para os cursos de enfermagem e de auxiliar de enfermagem. In: Ministério da Saúde. Fundação Serviços de Saúde Pública. Enfermagem, legislação e assuntos correlatos. 3a ed. Rio de Janeiro: Artes Gráficas da FSESP; 1974. v. 1, p. 161-72.
  • (7) Brasil. Lei n. 775, de 6 de agosto de 1949. Dispõe sobre o ensino de enfermagem no País e dá outras providências. In: Ministério da Saúde. Fundação Serviços de Saúde Pública. Enfermagem, legislação e assuntos correlatos. 3ª ed. Rio de Janeiro: Artes Gráficas da FSESP; 1974. v. 1, p. 154-7.
  • (8) Brasil. Lei n. 5540, de 28 de novembro de 1968. Fixa normas de organização e funcionamento do ensino superior e sua articulação com escola média e dá outras providências. In: Ministério da Saúde. Fundação Serviços de Saúde Pública. Enfermagem, legislação e assuntos correlatos. 3ª ed. Rio de Janeiro: Artes Gráficas da FSESP; 1974. v. 2, p. 471-82.
  • (9) Carvalho AC. Escola de Enfermagem da Universidade São Paulo: resumo histórico: 1942-1980. São Paulo: Escola de Enfermagem da USP; 1980.
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  • Correspondência:
    Taka Oguisso
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Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    04 Dez 2008
  • Data do Fascículo
    Dez 2005

Histórico

  • Aceito
    22 Jun 2005
  • Recebido
    11 Abr 2005
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