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Três casamentos e algumas reflexões: notas sobre conjugalidade envolvendo travestis que se prostituem

Three weddings and some reflection: notes on conjugality involving prostitute transvestites

Resumos

A partir de uma abordagem antropológica que dialoga com a teoria queer, analisam-se três experiências de conjugalidade envolvendo travestis que se prostituem, discutindo-se os limites dessas relações, impostos pela visão de mundo que orienta as travestis, pessoas pertencentes em sua maioria às camadas populares e, de acordo com a hipótese que se coloca, tributárias de uma visão de mundo holista. Assim, observa-se que as relações conjugais vêm fortemente orientadas por perspectivas essencialista quanto ao sexo e ao gênero, atribuindo papéis rigidamente estabelecidos para cada parceiro. Ao naturalizar o sexo que exige um gênero supostamente coerente a essa anatomia que elas simplesmente não aceitam como destino, mantêm-se atadas à matriz heteronormatizadora. Informadas por uma gramática de conjugalidade heterossexual, elas encontram dificuldades em elaborar um outro léxico para as relações conjugais.

travestis; conjugalidade; gênero; heteronormatividade; individualismo


Starting from an anthropological approach which dialogues with the queer theory, we analyze here three conjugal experiences involving prostitute transvestites. We are going to discuss the limits of those relationships, imposed by the world view that guides the transvestites, people that generally belong to the popular social layers and, in accordance to the hypothesis placed here, are tributary of a holist world view. Thus, we observe that the matrimonial relationships are strongly guided by essentialist interpretations in regard to sex and gender, assigning rigid established roles for each partner. When naturalizing sex which demands a gender supposedly coherent to that anatomy they simply do not accept as destiny, transvestites stay tied to the heteronormative matrix. Informed by a heterosexual matrimonial grammar, they find it difficult to elaborate another lexicon for the matrimonial relationships.

Transvestites; Matrimonial; Gender; Heteronormativivity; Individualism


DOSSIÊ

Três casamentos e algumas reflexões: notas sobre conjugalidade envolvendo travestis que se prostituem

Three weddings and some reflection: notes on conjugality involving prostitute transvestites

Larissa Pelúcio

Universidade Federal de São Carlos

RESUMO

A partir de uma abordagem antropológica que dialoga com a teoria queer, analisam-se três experiências de conjugalidade envolvendo travestis que se prostituem, discutindo-se os limites dessas relações, impostos pela visão de mundo que orienta as travestis, pessoas pertencentes em sua maioria às camadas populares e, de acordo com a hipótese que se coloca, tributárias de uma visão de mundo holista. Assim, observa-se que as relações conjugais vêm fortemente orientadas por perspectivas essencialista quanto ao sexo e ao gênero, atribuindo papéis rigidamente estabelecidos para cada parceiro. Ao naturalizar o sexo que exige um gênero supostamente coerente a essa anatomia que elas simplesmente não aceitam como destino, mantêm-se atadas à matriz heteronormatizadora. Informadas por uma gramática de conjugalidade heterossexual, elas encontram dificuldades em elaborar um outro léxico para as relações conjugais.

Palavras-chave: travestis, conjugalidade, gênero, heteronormatividade; individualismo/holismo.

ABSTRACT

Starting from an anthropological approach which dialogues with the queer theory, we analyze here three conjugal experiences involving prostitute transvestites. We are going to discuss the limits of those relationships, imposed by the world view that guides the transvestites, people that generally belong to the popular social layers and, in accordance to the hypothesis placed here, are tributary of a holist world view. Thus, we observe that the matrimonial relationships are strongly guided by essentialist interpretations in regard to sex and gender, assigning rigid established roles for each partner. When naturalizing sex which demands a gender supposedly coherent to that anatomy they simply do not accept as destiny, transvestites stay tied to the heteronormative matrix. Informed by a heterosexual matrimonial grammar, they find it difficult to elaborate another lexicon for the matrimonial relationships.

Key words: Transvestites; Matrimonial; Gender; Heteronormativivity; Individualism/Holism.

Cenas de alguns casamentos

Francislaine vai casar. Seu chá-de-cozinha foi na casa de Verônica, cafetina que abriga treze travestis e administra os imbróglios do comércio sexual da cidade.1 1 Este artigo deriva do projeto de doutorado intitulado Travesti, a Aids e o modelo oficial preventivo: uma etnografia nos cuidados de saúde de um grupo de trabalhadores do sexo, desenvolvido junto ao Programa de Pós-graduação em Ciências Sociais da Universidade Federal de São Carlos, SP. O campo centra-se na cidade de São Paulo, mas grande parte do material etnográfico sobre a dinâmica de vida das travestis provém da etnografia realizada na cidade de São Carlos. Dos três casos de conjugalidade privilegiados neste trabalho, apenas um casal vive na capital paulista (Duda e Wild). Fabyanna e Verônica e Fran e Tiago são de São Carlos e fazem parte de um mesmo grupo. Outras relações serão citadas de maneira a ilustrar algumas idéias levantadas. Na sua maioria, esses relatos provêm de pessoas que vivem em São Paulo, capital, porém, muitas informações também se originam do meu campo de pesquisa no interior do estado. Evidencia-se que a lógica simbólica das travestis pouco se diferencia dentro da oposição espacial capital/interior, sugerindo, metaforicamente, a oposição entre moderno/tradicional, no sentido dumontiano (Louis DUMONT, 1993). Com a presença de suas amigas, Fran, uma travesti2 2 Uso o feminino para me referir às travestis por uma questão política, pois o movimento social de travestis concorda que os pronomes de tratamento, adjetivos e artigos devam se adequar à imagem de mulher que elas buscam ter. Uma das lutas, portanto, é de serem assim tratadas em todas as instâncias da vida pública, podendo, inclusive, adotarem oficialmente seus nomes femininos. de 21 anos, legitimou sua união com Thiago, um rapaz também na casa dos 20, e que há pelo menos sete meses mantém um relacionamento estável com ela.

Verônica, a cafetina, acabou de completar 23 anos. Até há pouco tempo dividia o peso da tarefa administrativa com sua parceira Fabyanna, também travesti. As duas, segundo, Fabyanna, vivem "entre tapas e beijos. E nisso, aquele amor foi se perdendo". Mas confessa que não conseguem se separar. Por isso, ainda que ambas estejam namorando ocós,3 3 Significa "homem", no bajubá, gíria das travestis, falada nacionalmente e que tem sua origem no ioruba-nagô. elas dividem a mesma cama e mantêm no quarto do casal as fotos que indicam essa ligação amorosa.

O advogado Wildcat4 4 Esse é o pseudônimo ou nick, para usar uma linguagem própria do ciberespaço, com o qual ele se apresenta em diversos ambientes da Internet onde homens que gostam de travestis se encontram virtualmente. acaba de comemorar seus 38 anos em uma reunião com seus amigos t-lovers5 5 Os t-lovers são homens que se relacionam com travestis e que se reúnem semanalmente em algumas capitais do país (Belo Horizonte, Rio de Janeiro e São Paulo) para interagirem entre si e com travestis, a quem chamam de t-gatas. Apesar de manterem fóruns de discussão, site e blogs na Internet, os t-lovers não constituem um movimento social, nem estão filiados ao movimento de Gays, Lésbicas, Bissexuais, Travestis e Transexuais. As reuniões em espaços off-line são bastante recentes, sendo o encontro paulista o único que ocorre em local fixo e com regularidade semanal. Minha hipótese é que esses homens têm no encontro um espaço de reforço da masculinidade hegemônica, uma vez que sua atração por travestis os coloca perigosamente no limiar das classificações binárias de gênero. A disputa em torno do direito de se autodenominar t-lover ainda está em andamento, bem como a conformação dessa identidade, que como já mencionei, não se filia, por enquanto, a qualquer movimento social. Para mais informações sobre esse grupo, ver PELUCIO, 2005a. e suas amigas t-gatas, ao lado de sua esposa Duda. Ela, uma travesti de 21 anos, veio do Mato-Grosso para fazer a vida no comércio sexual paulistano. Com Duda, Wildcat divide a sua confortável casa no sofisticado bairro dos Jardins, na capital paulista.

Antes de prosseguir, esclareço que os nomes citados neste trabalho são aqueles adotados pelas pessoas envolvidas na pesquisa em suas relações cotidianas. As travestis não só autorizaram o uso de seus nomes femininos como algumas pediram que seu sobrenome também aparecesse, pois desejam ser identificadas pelos leitores e, sobretudo, por suas colegas e parceiros, quando o texto vier a ser publicado. Quanto aos homens, Thiago autorizou o uso de seu nome desde que não fosse mencionado o seu sobrenome, e Wildcat permitiu apenas que seu nick fosse divulgado.

Para discutir as citadas experiências de conjugalidade, valho-me de estratégia de análise semelhante à utilizada por Maria Luiza Heilborn ao investigar conjugalidade entre casais de classe média. A partir do estudo de três arranjos conjugais – mulher/homem, homem/homem e mulher/mulher –, a autora verificou a existência de um padrão de conjugalidade estabelecido entre essas parelhas, as quais orientam-se por um conjunto de preceitos morais ligados a uma visão individualista moderna, entre eles a "indistinção valorativa entre os gêneros e também, apesar de em menor grau, entre identidades sexuais".6 6 HEILBORN, 2004, p. 11. Nas relações aqui analisadas, proponho que esse padrão não se impõe. Daí o esforço em trabalhar os arranjos de conjugalidade envolvendo travestis não só pelo prisma de gênero e identidades sexuais, mas também pelo pertencimento de classe. Nessa medida as possibilidades de conjugalidade que discuto envolvem travesti/homem de classe média, travesti/travesti, travesti/homem de classe popular.7 7 Apesar de existirem relações de contornos conjugais entre travestis e mulheres, essas são bastante raras. Em três anos de campo me deparei com um caso com esse arranjo. Essas combinações se justificam na medida em que defendo serem as travestis, em sua maioria, pertencentes às camadas populares,8 8 Heilborn menciona a "incômoda metáfora geológica", apontada por Abreu Filho quanto ao termo "camadas médias", mas vê nesse termo vantagem em apontar uma dimensão plural dessas formações de classe. Essa mesma pluralidade é atribuída à formação das camadas populares que vivem em meio urbano. Daí, seguir aqui o conceito de Gilberto VELHO, 1994, que indica a heterogeneidade e complexidade do tipo de configuração social contemporânea, na qual existem vários níveis de compartilhamento cultural. Evidencio que não há uma inteira subordinação das camadas populares à "ideologia dominante", mas que há, isso sim, uma "reinvenção criativa" do saber e da moralidade vigente, o que nos leva a considerar o pertencimento de classe sob um prisma mais abrangente do que o da teoria marxista. o que as aproxima de relações conjugais baseadas em modelo hierárquico de gênero, no qual a idéia de papéis sociais está marcadamente presente. Assim, a díade travestis/homem de classe média destoa das outras duas na questão de classe, enquanto a díade travesti/travesti traz para o debate uma relação marcada pela homocorporalidade. Isso indica que, além da orientação sexual, prevalece nessa parceria uma semelhança acentuada entre os corpos dos parceiros.

Em comum, essas relações têm, além do fato de envolverem um tipo de conjugalidade pouco convencional, a questão da prostituição de um dos cônjuges, o que impõe ao relacionamento uma dinâmica peculiar. Além disso, nas relações entre travestis e homens, o estigma que pesa sobre elas 'contamina' seus parceiros, levando muitas vezes a relações pautadas pela clandestinidade. Tudo isso torna a vida social de ambos menos previsível. Não há um script conjugal a seguir, uma vez que o modelo de conjugalidade que têm à disposição é o de casais heterossexuais, para os quais estão previstos papéis definidos como os de pai e mãe; esposo e esposa; provedor e administradora, entre outros. Ainda assim, há todo um empenho imitativo dos arranjos legitimados, a fim de que essas relações ganhem contornos inteligíveis e, dessa forma, reconhecíveis dentro e fora da rede social do casal.

Nas relações conjugais envolvendo travestis está claro quem é a "mulher" e quem é o "homem", uma vez que dentro do sistema simbólico próprio das travestis "as relações com o mesmo sexo só podem ser entendidas/experimentadas se masculino e feminino estão presentes em um casal".9 9 HEILBORN, 2004, p. 46. A autora menciona essa necessidade referindo-se ao contexto das relações definidas por Mathieu como sendo do modo 1, isto é, aquela que envolve os segmentos tradicionais. Assim, o gênero transgride o sexo, impondo-se como construção/adequação ao que seria natural e por isso visto como o correto.10 10 Para uma discussão mais acurada, ainda que resumida, dos modos de relação entre os sexos ver HEILBORN, 2004, capítulo 1.

De que gênero estamos falando?

Para dar início à discussão aqui proposta é imprescindível definir o conceito de travesti, que, como se verá, está estreitamente vinculado ao de classe. As travestis são pessoas que nascem com o sexo genital masculino (por isso a grande maioria se entende como homem) e que procuram inserir em seus corpos símbolos do que é socialmente sancionado como feminino, sem, contudo, desejarem extirpar a genitália, com a qual, geralmente, convivem sem grandes conflitos. Via de regra, as travestis gostam de se relacionar sexual e afetivamente com homens, porém, ainda assim, não se identificam com os homens homo-orientados. Como explica Sandra em depoimento a Marcos Benedetti: "A gente é viado, mas as gays são as gays e as travestis são as travestis".11 11 BENEDETTI, 1998, p. 8.

Não basta se vestir de mulher para ser travesti. Para Claudinha Delavatti, travesti já falecida, "travesti que não toma hormônio não é travesti, pensa que é carnaval e sai fantasiado de mulher".12 12 Citado por Suzana LOPES, 1995, p. 225. Hélio Silva, em sua etnografia sobe as travestis da Lapa, cita a fala de uma delas que diz que, além dos hormônios, é preciso que se façam aplicações de silicone a fim de dar forma feminina ao corpo.13 13 SILVA, 1993, p. 117. As formas femininas estão referidas a formas arredondadas, inclusive no rosto, volume dos seios, ausência de pelos no rosto, abdômen e pernas. As travestis, além dessas intervenções e da apreensão de uma série de técnicas corporais que as distancia dos padrões masculinos, buscam agir, em muitos momentos, segundo prescrições de comportamentos instituídos como femininos, sem esquecerem, em contextos específicos, que dentro delas "mora um rapaz", expressão habitual no meio.

Qual é o gênero das travestis? A pergunta é capciosa. Até porque a idéia de gênero não pode vir desassociada das de sexo, classe social e etnia. Henrietta Moore procura tratar sexo e gênero como categorias distintas, porém relacionadas. A mesma autora alerta que a própria idéia de sexo é também construída, uma vez que não existiria um sexo biológico independente dos significados culturais a ele atribuído. Ou, nas palavras da teórica queer Judith Butler, não haveria um sexo pré-discursivo.

Moore alerta que "a experiência de ser uma mulher ou um negro ou um muçulmano não pode ser nunca uma experiência singular, sempre dependerá de uma multiplicidade de situações e posições que são construídas socialmente, ou seja, intersubjetivamente".14 14 Moore, citada em Juliana JAYME, 2001, p. 30. Em relação às travestis, considero essas relações de suma importância, pois me parece sintomático que a grande maioria seja proveniente das classes populares e média baixa, enquanto as transexuais, que se definem a partir de categorias próprias das ciências médicas e psi (psiquiatria e psicologia, principalmente), sejam mais comuns nas classes média e média alta.15 15 O transexualismo é classificado como patologia. Trata-se, segundo o Código Internacional de Doenças, de uma "disforia de gênero", que se caracteriza por uma incongruência entre o sexo genital e o gênero, levando o indivíduo transexual a buscar incessantemente a adequação dessas categorias por meio de operação da genitália.

Proponho que as travestis, ao compartilharem de noções e representações típicas das camadas populares, expressam uma visão de mundo mais próxima do holismo.

Nesta configuração holista que valoriza as questões relacionais, a ênfase da identidade social parece recair sobre a questão da corporalidade, que por sua vez está impregnada pela ordem moral. O corpo é concebido nesta configuração holista de valores como uma dimensão físico-moral, onde a ordem sensível e a cognitiva se imbricam e sobrepõem, contrastando com as dicotomias excludentes do tipo biológico/psicológico características da configuração individualista moderna.16 16 BENEDETTI, 1998, p. 7.

"Assim, a sexualidade não se constituiria em domínio de significações isoladas, estando sexo e prazer englobados por uma modalidade mais abrangente."17 17 HEILBORN, 1999, p. 41. Ainda que entre as travestis a sexualidade se apresente como referência básica para uma definição identitária, esta é construída em estreito vínculo com todo um conjunto de valores morais que define o papel cabível a cada gênero, em um sistema marcadamente binário, por meio do qual elas acionam elementos explicativos para entenderem a si mesmas.

No sistema de gênero construído pelas travestis, chama atenção a visão essencialista que elas parecem ter sobre os atributos de gênero. Como observou Don Kulick,18 18 KULICK, 1998. as travestis desenvolvem um "construtivismo essencialista", isso porque constroem sobre seus corpos masculinos um gênero feminino. Subvertem, assim, a própria idéia que comungam de ser o sexo biológico o definidor do gênero. Por outro lado, reforçam o binarismo a partir de um conjunto de preceitos morais que determinam e demarcam o que é ser homem e mulher.

A partir dessa visão, esperam que os 'homens de verdade' sejam másculos, ativos, empreendedores, penetradores. Elas não são "homens de verdade", são "bichas", "viados", monas, palavra que vem do ioruba-nagô e significa "menina" mas que é usada pelas travestis para se referirem umas às outras. Tampouco são mulheres, nem o desejam. São "outra coisa", uma "coisa" difícil de explicar, porque, tendo nascidos "homens", desejam se parecer com mulheres, sem de fato ser uma, isto é, ter um útero e reproduzir. É assim que Junot, travesti veterana, explica o que é ser mulher: "não é ter uma vagina, não! É ter útero, é dar a vida. Tem uns viados doidos aí que dizem que são como mulheres. Eu pergunto logo: 'ah é?! Pariu quantos?!'. Pariu no máximo um furúnculo. Que mulher o quê?".

As travestis têm claro para si que o homem que quiser viver com elas tem de ser "homem de verdade".19 19 Miguel Vale de Almeida, em seu estudo sobre masculinidade, propõe que ser homem é um processo que envolve muito mais que os caracteres físicos, com ênfase na genitália. "Para o nível a que nas Ciências Sociais chamamos de senso comum, ser homem é 'ser homem', no dia a dia, na interação social, nas construções ideológicas, nunca se reduz aos caracteres sexuais, mas sim a um conjunto de atributos morais de comportamento socialmente sancionados e constantemente reavaliados, negociados, relembrados" (VALE DE ALMEIDA, 2000, p. 127-128). Ser um 'homem de verdade' é estar o mais de acordo possível com essa construção do senso comum, contrapondo-se à idéia de "viado". Como diz Silvia sobre seu relacionamento conjugal:

Um homem que quiser se virar pra mim... ah, já não é homem. Mulher é essa coisa delicada. E eu sou a mulher. Uma vez, por exemplo, eu fui assim, passar a mão na bunda do meu marido, só passar a mão, um carinho. Ele se virou feito bicho: "tá pensando que eu sou que nem os homens que você pega na rua, é? Eu sou é homem, não vem com essas coisas pro meu lado não" . Ele era assim, um homem de verdade, não admitia viadagem.

As travestis com as quais Kulick conviveu em Salvador são taxativas neste ponto: 'homem de verdade', no fundo, gosta de "buceta", pois, ainda que vá procurar travestis, que viva com elas, não resistirá a uma. É esse o grande diferencial entre ser homem e ser viado. Como escreveu uma famosa travesti a uma amiga, "quando bate a saudade do cheiro de bacalhau, eles voltam para elas", caracterizando esse retorno como um chamado instintivo, contra o qual um 'homem de verdade' não pode lutar. Daí a certeza, inconfessa, de que os relacionamentos que têm com homens serão efêmeros.

Enfim, as travestis buscam uma adequação de seus corpos "de homens"20 20 Partindo de várias histórias de vida que me foram relatadas, bem como da literatura sobre o tema (SILVA, 1993; Neusa OLIVEIRA, 1994; Silva e Cristina FLORENTINO, 1996; Marcelo OLIVEIRA, 1997; Hugo DENIZART, 1997; KULICK, 1998; JAYME, 2001), afirmo que as travestis se reconhecem como homens, e por isso muitas delas se referem à sua orientação sexual como sendo "homossexual". Outro ponto que chama a atenção é a insistência no "ser travesti" como algo que as acompanha desde muito pequenas, que se impõe como um imperativo natural, inescapável, portanto. aos seus desejos e práticas sexuais, construindo para si o que Butler chama de "gêneros inteligíveis". 'Gêneros inteligíveis' são aqueles que, em certo sentido, instituem e mantêm relações de coerência e continuidades entre sexo, gênero, prática sexual e desejo".21 21 BUTLER, 2003a, p. 38 Presas às amarras heteronormativas e a uma visão hierárquica das relações de gênero, as travestis reproduzem em suas relações conjugais os papéis tradicionais22 22 Uso o termo aqui no sentido empregado por Peter FRY, 1982. atribuídos à mulher/esposa, esperando de seus parceiros que também estejam adequados a esse modelo.

Estar junto não é ser igual

Travesti não tem namorado, tem marido, ensina-me Danil, um jovem de 22 anos que desde os 15 se relaciona com travestis. Danil está apaixonado por Paola, uma travesti dois anos mais velha que ele. Ela abdicou do sonho de ir para a Europa para ficar ao lado dele e planeja, em breve, morar com Danil, o que o deixa temeroso, pois o obrigará tornar pública, para além do gueto, a relação de quase um ano. Mas Giselle, travesti experiente, me esclarece que "marido" trata-se mais de uma gíria que elas usam do que a caracterização de laços conjugais: isto é, dividir o mesmo teto e repartir obrigações daí advindas.23 23 Heilborn considera que "a conjugalidade não emerge de um fato jurídico. É, isto sim, o que expressa uma relação social que condensa um 'estilo de vida', fundado em uma dependência mútua e em uma dada modalidade de arranjo cotidiano, mais do que propriamente doméstico, considerando-se que a coabitação não é regra necessária" (HEILBORN, 2004, p. 11-12).

A categoria "marido" sugere que nas relações amorosas envolvendo travestis o tempo de consolidação dos laços, e dos compromissos, é distinto daquele que envolve relacionamentos de contornos heterossexuais e de classe média:24 24 Para uma discussão aprofundada de padrões de conjugalidade nas camadas médias urbanas, ver HEILBORN, 2004, capítulo 3. nada de encontros cercados de amigos, flertes em barzinhos, passeios de mãos dadas em shoppings, saídas para jantares ou reuniões em casas de parentes. Além disso, travestis costumam ter uma trajetória de vida que as distancia dos padrões de comportamento considerados adequados para certas faixas etárias, mesmo entre camadas populares. Saem cedo de casa, em torno dos 14 anos. Geralmente, iniciam aí uma vida noturna sustentando-se pela prostituição. Precisam aprender, então, a dar o truque25 25 Significa, entre as travestis, enganar, fazer-se passar por, se virar com o que se tem otimizando atributos físicos e habilidades em geral. : parecerem mais velhas, driblar as situações de violência que podem vir tanto dos clientes como da polícia, e não raro de pessoas do seu grupo de convivência. Aprender os códigos da rua e da noite significa sobrevivência, e isso não é coisa de criança nem de adolescentes. É, como me diz Bruna Fontenelle, 24 anos, desde o 14 na prostituição travesti:

Quando eu cheguei em São Paulo, depois de fugir de casa de carona; fazer sete programas no caminho; procurar a casa da cafetina... Quando eu cheguei em frente ao prédio dela, eu olhei pro céu e pensei: "pronto, agora eu sou dona do meu nariz! Agora eu sou adulta!"

Não há espaço para relações pautadas pelos roteiros comuns à classe média heterossexual. Ainda assim, as travestis, informadas pelos códigos conjugais heteronormativos, almejam uma vida a dois nos moldes instituídos por essa norma: uma casa, marido 'homem de verdade', tranqüilidade financeira, trabalho "normal", o que significa fora de noite e da prostituição e, se possível, filhos.

Duda e Wildcat

Desde a primeira noite que passaram juntos, Duda e Wildcat começaram a dividir diariamente o espaço de suas casas um com o outro. Em pouco tempo ela já estava morando na casa dele. Mesmo se declarando feliz vivendo ao lado de Wildcat, ou simplesmente Wild, ela pretende encontrar um lugar para si, pois teme que a família dele venha a descobrir a relação. É justamente nesse ponto que Wildcat vê a maior diferença entre um casamento heterossexual e o que mantém com Duda:

Naquela relação tradicional, burguesa, traz-se a família para dentro do casamento, vamos dizer assim. Cachorro, papagaio, o ratinho, os primos, tudo. Você traz tudo pra dentro e faz um baita caldeirão.

Ciente de que não poderá comungar desse grupo familiar, Duda aceita a situação para "não prejudicar ele". Essa impossibilidade de configurarem um casamento nos termos convencionais, pelo que parece, não é o ponto conflitante da relação para ela. Continuar na prostituição é algo muito mais problemático do que ter de se manter invisível para a família dele: "Não gosto. Você viu naquele dia como eu fiquei mal". Refere-se a uma ocasião em que estávamos em um dos encontros dos t-lovers e ela saiu para fazer um programa com um dos homens presentes. Para Wild, é exatamente o inverso o que se coloca como problema: "Essa apresentação formal à família, eu já percebi ao longo desse tempinho... aí que se encontra o 'x' da questão". Quanto ao fato de Duda se prostituir, ele se refere como "normal. É a profissão dela".

Wild está desempregado no momento, o que para Duda reforça a sua necessidade de continuar fazendo programas, atividade que lhe rende cerca de R$ 6 mil mensais. Wildcat ensinou-a a administrar essa quantia, mas ela frisa que não o sustenta, apenas paga as suas próprias contas. Estar com um homem mais velho, de outra classe social, o qual ela não precisa sustentar, a coloca, a seu ver, em outro patamar de conjugalidade, que diferencia a sua relação daquelas que considera comuns no meio travesti:

Nenhuma é casada com um homem que já teve uma esposa, vem de uma família tradicional. Todas são casadas com michês, vivem a mesma vida. Então, a família sabe. É aquela coisa que você falou, das classes sociais distintas. Elas não estão com um tipo de casamento como o meu.

Apesar de ter bastante marcados os papéis de gênero, Duda tem flexibilizado seu olhar a partir da experiência com Wildcat, um homem que vem de uma relação heterossexual, burguesa e que, segundo declara, estava assentada em bases igualitárias de gênero. Mesmo reivindicando timidamente ser a dona da casa, tratando seu marido com mimos de recém-casada, ela passa a valorizar a simetria dos papéis de marido e mulher, ainda que se possa perceber em suas falas a legitimidade que imprime ao papel do homem provedor. Isso se evidencia quando reponde à pergunta sobre o que para ela mais caracteriza as relações conjugais entre homens e travestis: "Geralmente elas bancarem eles. No caso da Sabrina, é a única que não banca o marido. Ele trabalha, tem a vida dele e tal. Ela trabalha, ajuda, mas os dois constroem juntos, não é só ela que faz tudo, que tem que fazer tudo". Duda reproduz a idéia presente nos discursos do senso comum de que a renda auferida pela mulher, no caso aqui, pela figura feminina, é sempre uma "ajuda" orçamentária, ficando subentendido que o verdadeiro provedor é a figura masculina.

Sempre sob o risco de serem preteridas, quando o homem não se sente mais capaz de sustentar uma situação de clandestinidade e de forte estigma, as travestis se mostram bastante ciumentas. Segundo muitas de minhas informantes, o ciúme é provocado por dois motivos básicos: 1) impulso sexual "naturalmente incontrolável" dos homens que os leva a cederem a seduções de outras travestis; 2) a falta de coragem (atributo essencial de um 'homem de verdade') para assumi-las, o que os leva de volta aos braços das mulheres.

No caso de Duda, que tem assegurado a coragem de Wildcat em assumi-la em praticamente todas as esferas de sua vida social, o seu ciúme extremado vem do fato de seu marido ser uma pessoa ligada à organização do encontro dos homens que gostam de travestis, além de gerenciador e moderador de fóruns e blogs da Internet que versam sobre o tema. Isso o faz ficar longas horas na frente do computador, não só postando discussões dos mais diversos teores sobre o tema, bem como manipulando imagens de travestis nuas.

Compartilharem o mesmo meio torna-se assim um fator de insegurança para ela, e de tensão para ele, que precisa tergiversar e estar sempre a convencendo de que se trata apenas de uma atividade de trabalho. Wild quer promovê-la, dar a ela o que não conseguiu na sua relação com uma mulher – mais independência –, pois ele já vê assegurado o companheirismo, elemento típico de conformação da conjugalidade de setores intelectualizados da classe média, segundo Heilborn.26 26 HEILBORN, 2004.

Mas ela confessa:

[Duda] Eu não consigo confiar, eu queria confiar mais, ser menos insegura, sabe? Em todos eu confiava. Eu achava que gostavam, e eles estavam aprontando nas costas, ficando com outra. [...] Ainda mais ele que convive no meio, que tá sempre comentando, que tá sempre tirando fotos, buscando na Internet, isso me incomoda.

[Pesquisadora] Você acha que as travestis em geral vão ter mais receio de uma outra travesti?

[Duda] [...] Se for me trair, que seja com uma mulher. Uma mulher eu nunca vou ser. Posso ter a forma, mas nunca vou ser uma. Eu tenho consciência disso.

Na hierarquia de gênero das travestis, a mulher biológica tem de certa forma prerrogativas que tornam legítima ou, no mínimo, menos dolorosa a traição e mesmo a troca de parceira. Por isso, o maior temor de Duda é que outra travesti se interponha entre o casal, pois sabe que, independentemente das práticas sexuais, em que o par passividade/atividade geralmente é um dos elementos que define o que é ser um 'homem de verdade' para elas, seu marido é de fato viril, porque "assume" uma relação com travesti. Esse é mais um entre os já citados atributos prestigiosos que coloca Wild em posição privilegiada no restrito mercado conjugal das travestis.

Fabyanna e Verônica

Fabyanna e Verônica já moravam na casa da antiga cafetina da cidade quando o vínculo amoroso entre elas se estabeleceu. Segundo Fabyanna, a aproximação partiu de Verônica: "Ela me pediu um beijo e eu, na louca, dei, e gostei [...], eu não gosto de travesti, eu não sou 'lésbicha' [risos], não gosto". Por isso, Fabyanna achou complicada essa relação, pois no começo "você não vê a pessoa. Você vê o travesti".

Fabyanna já foi casada antes com um homem, e frisa bem a palavra "homem" quando se refere a Rafael, seu antigo parceiro.

Digo assim, homem, porque ele era ativo, completamente ativo. Então ele não era gay. Não era e não é gay, ele é homem! Fica aquela coisa, ele me ver como mulher. Porque quando um homem tem um relacionamento com uma travesti e ele é homem, ativo, ele não vê travesti, ele vê uma mulher. Então, no nosso relacionamento ele me tratava como mulher. Então, eu não ficava pelada perto dele, eu não deixava ele ver minha neca [pênis]. Esse tipo de coisa. O que não acontece no nosso relacionamento, que somos duas travestis.

Com Rafael, Fabyanna largou a prostituição e passou a cumprir aquilo que entende como papel da mulher: passividade sexual, vida doméstica e recato. Para demarcar os papéis, Fabyanna jamais deixou que Rafael tivesse com ela determinadas práticas eróticas, como sexo oral, pois, segundo afirma, "acabaria com o nosso relacionamento. Eu não deixaria. Ao contrário dela [Verônica]. Que eu fazia nela e ela em mim".

A simetria na relação entre as duas durou pouco. Logo Fabyanna, que se acha "muito menos feminina" que Verônica, assumiu a posição de "ativa" no sexo. Não saber o que fazer na cama levou-as a adiar a primeira relação sexual completa, isto é, com penetração. Sem uma gramática da cópula pautada em valores não hierárquicos, na qual passividade e atividade orientam as posições e papéis, as duas não sabiam como se posicionar na hora do sexo. Depois de quebrado esse tabu, os papéis foram se definindo não só na hora da cama. Fabyanna passou a vestir cueca durante o dia (momento em que não estava trabalhando), e chegou até a sair de ocó certa noite, quando a acompanhei em uma incursão de averiguação da rotina da prostituição. Lá estava ela de boné, camiseta larga e bermudas, "fazendo a cafetina", dizia rindo. Verônica, em casa, cuidava da dinâmica doméstica, enquanto Fabyanna atuava na rua. Ambas em prol do casal, cada uma assumindo as clássicas posições espaciais entre a casa/rua e mulher/homem.

O casamento de Fabyanna e Verônica durou dez meses, desgastado, segundo a primeira, pelo seu ciúme excessivo, sentimento despertado, sobretudo, pela vida de ambas na prostituição: "Eu não admitia ver ela entrando num carro, ou ela falando com alguém". Era uma situação mais incômoda do que ver Verônica com o novo namorado em casa, segundo relata. Fico intrigada: por que não tem ciúme do namorado, mas de clientes?

[Fabyanna] Eu sei que ele não vai mudar meu relacionamento com ela.

[Pesquisadora] E o cliente, muda?

[Fabyanna] O cliente muda! Muda pelo fato assim, que eu que tô lá na rua, sei tudo que eu faço com um homem. Da mesma forma que eu sabia como ela fazia. E vinha o ciúme na minha cabeça: "meu, ela tá entrando nesse carro agora, poxa, eu sei tudo que ela tá fazendo. O cara tá na maior sacanagem com ela". E isso deixa eu possuída, descontrolada.

Pergunto-me se essa mudança que o cliente é capaz de provocar não tem relação com o fato de poderem fazer a "maior sacanagem", receber sexo anal, felação, tocar no pênis da travesti, entre outras práticas geralmente interditas aos "maridos", uma vez que os que assim procedem correm o risco de perderem seu status masculino.

Como já foi dito, viver à custa da travesti, também torna o homem menos homem. Ciente disso, Fabyanna agrediu verbalmente o namorado de Verônica, procurando destituí-lo de seu bem simbólico maior: a masculinidade. Depois de conceder a entrevista para compor este artigo, ela conta que ficou muito "mexida" pelas lembranças. Por isso, naquela noite quando chegou em casa, alterou-se e ofendeu o rapaz, acusando-o de explorar financeiramente Verônica, entre outras locuções ofensivas.

Diante do ocorrido, Verônica desabafou:

Ela pensa até hoje que é dona da minha vida. Me falou coisas horríveis!. Ofendeu o meu namorado. Chamou ele de gay! Disse que ele estava comigo só pra me explorar... Não é verdade! A gente sabe quando um homem gosta da gente. Ele vem aqui e pede pizza, paga tudo. Sai comigo e sempre paga tudo. Você acha que um homem ia se expor desse jeito ao lado de uma travesti se não gostasse dela? O que a Fabyanna tem que entender é que acabou. Ela tem a vida dela e eu a minha. E já disse pra ela: se chegar aqui bêbada com retetê27 27 O termo significa "confusão", no bajubá. ela não passa daquela porta. E ela só vai ter duas escolhas, porque eu vou dar uma surra nela, mas uma surra! Que ou ela vai pra polícia fazer uma queixa contra mim ou para Santa Casa.

Ao fim da relação, a simetria se coloca novamente. Caso precise, Verônica saberá usar o "rapaz", como dizem as travestis, ao se referirem a momentos em que usam a força física ou em que precisam tomar atitudes que consideram masculinas.

Fran e Tiago

Em busca de privacidade difícil de se alcançar numa casa onde viviam pelo menos 15 pessoas, Fran e Tiago decidiram que o melhor era "juntar as tralhas" e morar num quarto de pensão como marido e mulher. "Imagino essa louca", comenta Letícia, a travesti mais velha da casa, com 37 anos: "o marido chegando da rua e ela querendo ferver". Refere-se ao fato de Fran ser muito festeira. Contudo, para surpresa de todos, Francislaine está tranqüila e feliz em sua nova vida. Tem ido pouco para a "putaria", como ela se refere ao seu trabalho na avenida Getúlio Vargas, em São Carlos. "Isso é uma coisa que ele não quer. Ele tem esse sonho de me tirar da rua", conta ela, referindo-se ao marido. Mas Fran admite que a rua tem seus encantos: amizades, liberdade e, principalmente, dinheiro. Por isso, não largou de vez a prostituição. E Tiago, que é trabalhador braçal, tem de aceitar, pois ambos sonham em ter bens materiais como uma casa e um carro. Eles sonham também com um filho, "adotado, claro", pois, como diz ela sorrindo, "ninguém ali é louco". A mesma lucidez é que a faz tirar da cabeça o desejo de casar de véu e grinalda. "Passa tanta coisa pela minha cabeça... essa é uma delas. Mas aí eu faço assim ó, e foi. Deixa pra lá", diz sacudindo a cabeça enquanto ri. Depois volta ao tema me inquirindo: "mas que mulher não sonha com isso?".

Agora que assumiram uma vida a dois, Fran e Tiago não desejam a clandestinidade, mas sabem que têm de enfrentar colegas e parentes. Superados os obstáculos com a família dele, restam os colegas de trabalho de Thiago. Por isso, Fran diz a ele que deve enfrentar a situação como o 'homem de verdade' que é. "Homem não fica debochando dos outros porque tem esse laço. Você é mais homem do que eles. Porque você é homem de assumir uma travesti, de ser sincero, de ser educado. Isso é que eu tenho orgulho de você", declara ela ao marido.

De si, Fran se orgulha de não parecer uma travesti. "Ih, eu pego ônibus, vou, passo e ninguém cata", diverte-se. Esse sentimento a deixa confiante em relação a uma hipotética traição de Tiago, pois duvida muito que ele a traia com outra travesti. A mesma segurança já não tem em relação a uma mulher. Por mais que Tiago afirme para ela que gosta de se relacionar com travestis e não com mulheres, Fran sabe que, como 'homem de verdade', ele pode vir a desejar um filho.

Francislaine vive com Tiago uma relação que chama de liberal no que se refere ao sexo. Ao contrário de muitas travestis, para ela não são as práticas sexuais que atestam sobre a masculinidade ou não de um homem. Estende essa definição até mesmo aos clientes, dizendo que os compreende, pois sabe que eles buscam com as travestis o que não têm coragem de pedir para as suas mulheres em casa. "O quê?", quero saber. "Fazer o modo de passivo", isto é, permitir práticas que envolvam carícias e, sobretudo, penetração anal.

O que ela não tolera mesmo num homem é "viadagem", "coisa de gay", "falar mole, desmunhecar". Fora isso, diz que não vê problemas em um homem procurar travesti e mesmo viver com uma, pois essa atitude não o fará menos homem. Para ela não há dúvidas, Tiago é um 'homem de verdade', pois é provedor; quer que ela deixe a prostituição e não tem qualquer trejeito feminino. Para Francislaine isso basta para legitimar a união dos dois e fazê-la feliz, apesar da impossibilidade de realizar alguns sonhos.

Até que a vida os separe

Nas relações conjugais envolvendo travestis, "homens de verdade" devem se relacionar com pessoas que nunca serão "mulheres de verdade". As travestis nem sequer almejam isso. Desejam, sim, parecerem mulheres. Isso significa mais do que estampar no corpo atributos físicos próprios de mulher biológica; significa investir em uma educação corporal e moral que conforma um ethos próprio do grupo. Assim, desejam que seus parceiros tenham bastante evidenciados todos os atributos legitimados da masculinidade hegemônica. Porém, o desejo de serem incluídas na norma faz com que as travestis valorizem, sobretudo, o homem capaz de "assumir" a relação, aquele que as leva ao shopping, como espaço privilegiado do reconhecimento social, onde os bens simbólicos e não simbólicos estão materializados. Ficam em segundo plano, assim, as práticas eróticas, restritas ao universo privado.

Ao naturalizarem o sexo, que exige um gênero supostamente coerente a uma anatomia, as travestis mantêm-se atadas à matriz heteronormatizadora, uma vez que aquele seria definidor de papéis claros e legítimos. Informadas por uma gramática de conjugalidade heterossexual, as travestis têm dificuldades em elaborar um outro léxico para as relações conjugais que desenvolvem. Sonham em serem aceitas, e para tal se referenciam nos padrões de conjugalidade e parentalidade ditos normais: monogâmicos, pautados em relações não-comerciais de sexo, centrados na família nuclear, na qual a mulher/esposa se encarregaria da administração do lar e dos cuidados com este, enquanto o homem/marido, de provê-lo.

Duda e Wild, Fabyanna e Verônica, Fran e Tiago têm desejos típicos de relações tradicionais e normatizadas, e que soam socialmente inteligíveis. Porém, por mais que busquem nas suas relações práticas legitimadoras, estas não "aparecem imediatamente como coerentes no léxico de legitimação disponível".28 28 BUTLER, 2003b, p. 230. Por isso, são alocados em um espaço social indefinido, em não-lugares, "onde o reconhecimento, inclusive o auto-reconhecimento, demonstra ser precário ou mesmo evasivo, apesar de nossos melhores esforços de ser um sujeito reconhecível de alguma maneira".29 29 BUTLER, 2003b, p. 229.

Para tornar esse não-lugar um novo topos, seria preciso que esses casais estivessem dispostos a romper com seus sonhos de legitimação dentro dos padrões heteronormativos, e se arriscassem em outros modelos de parceria. É um desafio que exige mais do que amor: pede engajamento político. Para tanto, essas parelhas teriam que se propor arranjos conjugais, parcerias, laços, vínculos para além do binarismo de gênero instituído, da família nuclear burguesa e das relações sexuais procriadoras. Trata-se de tarefa difícil quando, na base dessas relações, o que se tem e se quer consolidar é, justamente, a busca pela aceitação social. Consegui-la negando a norma parece tão difícil e desafiador quanto lográ-la dentro desta mesma norma. Eis o paradoxo em que se enredam as travestis e seus cônjuges.

Recebido em novembro de 2005 e aceito para publicação em maio de 2006

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  • VELHO, Gilberto. Projeto e metamorfose: antropologia das sociedades complexas Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1994.
  • 1
    Este artigo deriva do projeto de doutorado intitulado
    Travesti, a Aids e o modelo oficial preventivo: uma etnografia nos cuidados de saúde de um grupo de trabalhadores do sexo, desenvolvido junto ao Programa de Pós-graduação em Ciências Sociais da Universidade Federal de São Carlos, SP. O campo centra-se na cidade de São Paulo, mas grande parte do material etnográfico sobre a dinâmica de vida das travestis provém da etnografia realizada na cidade de São Carlos. Dos três casos de conjugalidade privilegiados neste trabalho, apenas um casal vive na capital paulista (Duda e Wild). Fabyanna e Verônica e Fran e Tiago são de São Carlos e fazem parte de um mesmo grupo. Outras relações serão citadas de maneira a ilustrar algumas idéias levantadas. Na sua maioria, esses relatos provêm de pessoas que vivem em São Paulo, capital, porém, muitas informações também se originam do meu campo de pesquisa no interior do estado. Evidencia-se que a lógica simbólica das travestis pouco se diferencia dentro da oposição espacial capital/interior, sugerindo, metaforicamente, a oposição entre moderno/tradicional, no sentido dumontiano (Louis DUMONT, 1993).
  • 2
    Uso o feminino para me referir às travestis por uma questão política, pois o movimento social de travestis concorda que os pronomes de tratamento, adjetivos e artigos devam se adequar à imagem de mulher que elas buscam ter. Uma das lutas, portanto, é de serem assim tratadas em todas as instâncias da vida pública, podendo, inclusive, adotarem oficialmente seus nomes femininos.
  • 3
    Significa "homem", no bajubá, gíria das travestis, falada nacionalmente e que tem sua origem no ioruba-nagô.
  • 4
    Esse é o pseudônimo ou
    nick, para usar uma linguagem própria do ciberespaço, com o qual ele se apresenta em diversos ambientes da Internet onde homens que gostam de travestis se encontram virtualmente.
  • 5
    Os
    t-lovers são homens que se relacionam com travestis e que se reúnem semanalmente em algumas capitais do país (Belo Horizonte, Rio de Janeiro e São Paulo) para interagirem entre si e com travestis, a quem chamam de
    t-gatas. Apesar de manterem fóruns de discussão, site e blogs na Internet, os
    t-lovers não constituem um movimento social, nem estão filiados ao movimento de Gays, Lésbicas, Bissexuais, Travestis e Transexuais. As reuniões em espaços
    off-line são bastante recentes, sendo o encontro paulista o único que ocorre em local fixo e com regularidade semanal. Minha hipótese é que esses homens têm no encontro um espaço de reforço da masculinidade hegemônica, uma vez que sua atração por travestis os coloca perigosamente no limiar das classificações binárias de gênero. A disputa em torno do direito de se autodenominar
    t-lover ainda está em andamento, bem como a conformação dessa identidade, que como já mencionei, não se filia, por enquanto, a qualquer movimento social. Para mais informações sobre esse grupo, ver PELUCIO, 2005a.
  • 6
    HEILBORN, 2004, p. 11.
  • 7
    Apesar de existirem relações de contornos conjugais entre travestis e mulheres, essas são bastante raras. Em três anos de campo me deparei com um caso com esse arranjo.
  • 8
    Heilborn menciona a "incômoda metáfora geológica", apontada por Abreu Filho quanto ao termo "camadas médias", mas vê nesse termo vantagem em apontar uma dimensão plural dessas formações de classe. Essa mesma pluralidade é atribuída à formação das camadas populares que vivem em meio urbano. Daí, seguir aqui o conceito de Gilberto VELHO, 1994, que indica a heterogeneidade e complexidade do tipo de configuração social contemporânea, na qual existem vários níveis de compartilhamento cultural. Evidencio que não há uma inteira subordinação das camadas populares à "ideologia dominante", mas que há, isso sim, uma "reinvenção criativa" do saber e da moralidade vigente, o que nos leva a considerar o pertencimento de classe sob um prisma mais abrangente do que o da teoria marxista.
  • 9
    HEILBORN, 2004, p. 46. A autora menciona essa necessidade referindo-se ao contexto das relações definidas por Mathieu como sendo do modo 1, isto é, aquela que envolve os segmentos tradicionais.
  • 10
    Para uma discussão mais acurada, ainda que resumida, dos modos de relação entre os sexos ver HEILBORN, 2004, capítulo 1.
  • 11
    BENEDETTI, 1998, p. 8.
  • 12
    Citado por Suzana LOPES, 1995, p. 225.
  • 13
    SILVA, 1993, p. 117. As formas femininas estão referidas a formas arredondadas, inclusive no rosto, volume dos seios, ausência de pelos no rosto, abdômen e pernas.
  • 14
    Moore, citada em Juliana JAYME, 2001, p. 30.
  • 15
    O transexualismo é classificado como patologia. Trata-se, segundo o Código Internacional de Doenças, de uma "disforia de gênero", que se caracteriza por uma incongruência entre o sexo genital e o gênero, levando o indivíduo transexual a buscar incessantemente a adequação dessas categorias por meio de operação da genitália.
  • 16
    BENEDETTI, 1998, p. 7.
  • 17
    HEILBORN, 1999, p. 41.
  • 18
    KULICK, 1998.
  • 19
    Miguel Vale de Almeida, em seu estudo sobre masculinidade, propõe que ser homem é um processo que envolve muito mais que os caracteres físicos, com ênfase na genitália. "Para o nível a que nas Ciências Sociais chamamos de senso comum, ser homem é 'ser homem', no dia a dia, na interação social, nas construções ideológicas, nunca se reduz aos caracteres sexuais, mas sim a um conjunto de atributos morais de comportamento socialmente sancionados e constantemente reavaliados, negociados, relembrados" (VALE DE ALMEIDA, 2000, p. 127-128). Ser um 'homem de verdade' é estar o mais de acordo possível com essa construção do senso comum, contrapondo-se à idéia de "viado".
  • 20
    Partindo de várias histórias de vida que me foram relatadas, bem como da literatura sobre o tema (SILVA, 1993; Neusa OLIVEIRA, 1994; Silva e Cristina FLORENTINO, 1996; Marcelo OLIVEIRA, 1997; Hugo DENIZART, 1997; KULICK, 1998; JAYME, 2001), afirmo que as travestis se reconhecem como homens, e por isso muitas delas se referem à sua orientação sexual como sendo "homossexual". Outro ponto que chama a atenção é a insistência no "ser travesti" como algo que as acompanha desde muito pequenas, que se impõe como um imperativo natural, inescapável, portanto.
  • 21
    BUTLER, 2003a, p. 38
  • 22
    Uso o termo aqui no sentido empregado por Peter FRY, 1982.
  • 23
    Heilborn considera que "a conjugalidade não emerge de um fato jurídico. É, isto sim, o que expressa uma relação social que condensa um 'estilo de vida', fundado em uma dependência mútua e em uma dada modalidade de arranjo cotidiano, mais do que propriamente doméstico, considerando-se que a coabitação não é regra necessária" (HEILBORN, 2004, p. 11-12).
  • 24
    Para uma discussão aprofundada de padrões de conjugalidade nas camadas médias urbanas, ver HEILBORN, 2004, capítulo 3.
  • 25
    Significa, entre as travestis, enganar, fazer-se passar por, se virar com o que se tem otimizando atributos físicos e habilidades em geral.
  • 26
    HEILBORN, 2004.
  • 27
    O termo significa "confusão", no bajubá.
  • 28
    BUTLER, 2003b, p. 230.
  • 29
    BUTLER, 2003b, p. 229.
  • Datas de Publicação

    • Publicação nesta coleção
      18 Dez 2006
    • Data do Fascículo
      Set 2006

    Histórico

    • Aceito
      Maio 2006
    • Recebido
      Nov 2005
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