Apresentação

Mara Coelho de Souza Lago Sobre o autor

ARTIGOS TEMÁTICOS

REFLEXÕES E PRÁTICAS PSI

Apresentação

Mara Coelho de Souza Lago

Universidade Federal de Santa Catarina

A Revista Estudos Feministas, bem como a Cadernos Pagu, pela sua importância na área de publicações dedicadas aos estudos de gênero e feministas no país (e em países da América Latina, especialmente os do Mercosul), já mereceu muitos estudos e avaliações, reforçados pelos Encontros de Publicações Feministas1 1 Artigos provenientes desses dois encontros foram publicados na seção Dossiê da Revista Estudos Feministas, volume 11, número 1, de 2003, e no volume12, número especial, em 2004. e pelas comemorações de seus 10 e 15 anos de publicação.2 2 Ocorridas, respectivamente, em 2002 e 2007, na UFSC, em Florianópolis. Conferir Revista Estudos Feministas, volume 16, número 1, 2008, Seção Especial Revista Estudos Feministas 15 anos.

Um desses estudos, de autoria de Débora Diniz e Paula Foltran,3 3 DINIZ e FOLTRAN, 2004. apresenta a pesquisa que realizaram tendo a REF por objeto (cotejada em muitos momentos com a Cadernos Pagu), em descrição e análise minuciosas das diferentes seções e das autorias dos artigos publicados até aquela data (formação, áreas de atuação e filiação institucional de autores, temas, etc.).

Quando analisam os campos de formação das autoras (na maioria mulheres) dos artigos distribuídos pelas diversas seções que organizam a Revista, Diniz e Foltran ressaltam que a maioria deles foi escrita por estudiosas provenientes da área das ciências sociais (34%, com destaque para a antropologia, seguida da sociologia). Em proporções menores vinham os artigos escritos por autoras provenientes do campo da história (8%) e das áreas de letras, literaturas e educação (8%).

Outras áreas internacionalmente consolidadas na pesquisa de gênero e feminismo, tais como Psicologia, Ciência Política, Filosofia, Direito e Serviço Social, participaram marginalmente da história da REF, com 4%, 3%, 2%, 1% e 1% respectivamente.

4 4 DINIZ e FOLTRAN, 2004, p. 250.

Partindo dos resultados dessa pesquisa, publicada em 2004, e cientes de que tem havido muitas alterações, tanto nas políticas de publicações acadêmicas quanto no desenvolvimento e divulgação de pesquisas realizadas na área de estudos de gênero, ligadas a diferentes campos disciplinares no país, temos nos preocupado com a participação da psicologia nos periódicos dedicados aos estudos feministas e de gênero.

Supomos que as/os pesquisadoras/es do campo disciplinar da psicologia talvez prefiram direcionar seus trabalhos, mesmo os de gênero, para as revistas da área, enquanto as/os autoras/es de artigos de psicanálise os submetam a publicações ligadas a seus diferentes grupos institucionais, conforme uma tradição já longamente estabelecida nessa área de atuação profissional clínica. Só mais recentemente, com a implantação de cursos ou áreas de concentração em psicanálise nos Programas de Pós-Graduação do país, essa prática parece vir se transformando, com a procura, por psicanalistas, de publicação em periódicos consolidados no campo da psicologia e em revistas acadêmicas voltadas à clínica psicanalítica. Para os estudos feministas e de gênero esse movimento tem sido importante, já que é principalmente com o campo teórico da psicanálise que essa área de estudos tem dialogado e debatido. A importância desse diálogo já pode ser percebida na entrevista realizada pela psicanalista Patrícia Porchat Knudsen com a filósofa Judith Butler neste número da REF.

Esta Seção de Artigos Temáticos pretende reforçar a visibilidade, nas áreas PSI, da produção voltada para a consideração das questões de gênero e feministas, buscando sua divulgação em veículo interdisciplinar reconhecido no meio acadêmico e pelos movimentos sociais. Inicia-se com o artigo de Sandra Azerêdo sobre a conveniência de traduzir de uma forma mais contundente a expressão trouble gender utilizada por Judith Butler,5 5 BUTLER, 1990 e 2003. em função da verdadeira encrenca que os estudos de gênero podem significar nos Programas de Psicologia, segundo a longa experiência da autora como professora e orientadora em Instituição de Ensino Superior na região Sudeste do país.

O texto seguinte, de minha autoria, refere-se às relações entre psicanálise e estudos feministas e de gênero, mediadas pelas traduções de textos clássicos de teóricas feministas, especialmente anglófonas, utilizados na academia brasileira. Essa questão reporta tanto à tradução da obra de Freud para o Brasil, em viagem que teve escala inicial na Inglaterra, onde foi traduzida por James Strachey, quanto às viagens e as traduções, para a academia brasileira, de teóricas feministas que produziram seus textos dialogando, em geral, com a tradução inglesa da psicanálise em seus países.

O artigo de Tito Sena reflete sobre os relatórios Masters & Johnson de sexualidade, nas circunstâncias políticas e epistemológicas de sua produção. Analisa sua importância para a consolidação da área da sexologia que, no Brasil, tem sido ligada, preferencialmente, à atuação de profissionais psicólogos, secundada pela área da medicina, ao contrário dos Estados Unidos, onde são principalmente os médicos que assumem essa prática terapêutica. Utilizando ferramentas foucaultianas de análise, o autor enfatiza o papel dos relatórios no reforçamento de padrões heteronormativos de comportamento.

Wiliam Peres aborda em seu artigo a prática desenvolvida em programa de saúde na periferia da cidade de Assis, SP, onde supervisiona estágio de Psicologia Clínica voltada para questões psicossociais e de saúde coletiva, em diálogo com outros saberes, como os estudos culturais, as teorias queer e a esquizoanálise. O autor analisa os efeitos da orientação para uma clínica crítica e ampliada nos relatos dos/as estagiárias/os, que vão além das leituras psicológicas, buscando diálogo com teorias sociais, econômicas, políticas, culturais, de gênero e sexualidade, na perspectiva de subjetividades em constante processo de construção.

O artigo de Fernando Teixeira Filho também se elabora sobre reflexões que fundamentam o trabalho de clínica social desenvolvido por ele e orientandos/as em organização voltada para o atendimento a pessoas envolvidas com adoção. Problematiza a vinculação entre os segredos da adoção e o que define como matriz bioparental, reforçadora dos sofrimentos e estigmas que recaem sobre as pessoas adotadas, componentes de uma cultura de adoção que afetam as relações de famílias adotivas e biológicas.

Os trabalhos apresentados nesta Seção de Artigos Temáticos, refletindo sobre teorias psicológicas, de gênero, feminismo, ou sobre práticas clínicas e de pesquisa no campo PSI, enfatizam a importância do diálogo da psicologia e da psicanálise com outras áreas do conhecimento social, ressaltando a importância da interdisciplinaridade, questão tradicionalmente colocada aos diferentes campos disciplinares pelos estudos feministas e de gênero.

  • 1
    Artigos provenientes desses dois encontros foram publicados na seção Dossiê da
    Revista Estudos Feministas, volume 11, número 1, de 2003, e no volume12, número especial, em 2004.
  • 2
    Ocorridas, respectivamente, em 2002 e 2007, na UFSC, em Florianópolis. Conferir
    Revista Estudos Feministas, volume 16, número 1, 2008, Seção Especial Revista Estudos Feministas 15 anos.
  • 3
    DINIZ e FOLTRAN, 2004.
  • 4
    DINIZ e FOLTRAN, 2004, p. 250.
  • 5
    BUTLER, 1990 e 2003.
    • BUTLER, Judith. Gender Trouble - Feminism and the Subversion of Identity Routledge: Chapman & Hall, Inc., 1990.
    • ______. Problemas de gênero: feminismo e subversão da identidade. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2003.
    • DINIZ, Débora; FOLTRAN, Paula. "Gênero e feminismo no Brasil: uma análise da Revista Estudos Feministas". Revista Estudos Feministas, v. 12, n. especial, p. 245-253, 2004.

    1 Artigos provenientes desses dois encontros foram publicados na seção Dossiê da Revista Estudos Feministas, volume 11, número 1, de 2003, e no volume12, número especial, em 2004. 2 Ocorridas, respectivamente, em 2002 e 2007, na UFSC, em Florianópolis. Conferir Revista Estudos Feministas, volume 16, número 1, 2008, Seção Especial Revista Estudos Feministas 15 anos. 3 DINIZ e FOLTRAN, 2004. 4 DINIZ e FOLTRAN, 2004, p. 250. 5 BUTLER, 1990 e 2003.

    Datas de Publicação

    • Publicação nesta coleção
      28 Maio 2010
    • Data do Fascículo
      Abr 2010
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