Open-access A gente faz sexo com testosterona

We make sex with testosterone

Hacemos sexo con testosterona

Resumo:

No presente artigo, pretendo discutir a categoria sexo desde experiências transmasculinas com testosterona, tendo a ecologia queer e os novos materialismos como eixos teóricos. A relação entre pessoas transmasculinas e a testosterona indica um fazer processual do corpo, portanto, da sexagem. É nas relações bioquímicas que esses corpos constituem características sexuadas. Entretanto, este artigo considera a testosterona um agente bioquímico capaz de gestualidades que fogem à noção de virilidade. A ação da enzima da aromatase, em humanos e não humanos, é uma forma de reunir à história da testosterona relatos que baguncem a virilidade plasmada no hormônio. Proponho que o marco teórico apresentado acima e o passado da endocrinologia podem nos ajudar a pensar a história da sexagem humana como uma história interespécies.

Palavras-chave:
sexo; testosterona; transmasculinidade; aromatase; gestualidades

Abstract:

This paper aims to discuss the category of sex from the perspective of transmasculine experiences with testosterone, using queer ecology and new materialisms as theoretical axes. The relationship between transmasculine people and testosterone points to a procedural process of the body, and therefore of sexing. It is in biochemical relationships that these bodies constitute sexual characteristics. However, this article considers testosterone to be a biochemical agent capable of gestures that escape the notion of virility. The action of the aromatase enzyme, in humans and non-humans, is a way of bringing together the history of testosterone with stories that disrupt the virility embodied in the hormone. I propose that the theoretical framework presented above, and the past of endocrinology, can help us think of the history of human sexing as an interspecies history.

Keywords:
Sex; Testosterone; Transmasculinity; Aromatase; Gestures.

Resumen:

Este artículo se propone discutir la categoría de sexo desde la perspectiva de las experiencias transmasculinas con testosterona, utilizando la ecología queer y los nuevos materialismos como ejes teóricos. La relación entre las personas transmasculinas y la testosterona apunta a un proceso procedimental del cuerpo, por tanto, de sexuación. Es en las relaciones bioquímicas que estos cuerpos constituyen las características sexuales. Sin embargo, este artículo considera la testosterona como un agente bioquímico capaz de gestos que van más allá de la noción de virilidad. La acción de la enzima aromatasa, en humanos y no humanos, es una forma de unir la historia de la testosterona con relatos que alteran la virilidad encarnada en la hormona. Propongo que el marco teórico presentado anteriormente y el pasado de la endocrinología pueden ayudarnos a pensar la historia de la sexación humana como una historia interespecie.

Palabras clave:
Sexo; testosterona; transmasculinidad; aromatasa; gestualidades

Introdução

“I do not advocate disproving biological determinism.

I advocate rendering it nonsense.”

Tuana (1997)

Este artigo pretende contribuir para a re-habitação da categoria sexo nos estudos de gênero através de experiências transmasculinas e por meio da ecologia queer e das novas materialidades.1 Foi no encontro entre testosterona e transmasculinidades que fui conhecendo técnicas de elaborar corporalidades que afetam o sexo. Múltiplos corpos podem se produzir na relação com a testosterona. Eu escolhi focar a análise sobre a produção processual do sexo através dos encontros que envolvem pessoas trans, uma vez que a dissidência sexo-gênero torna explícita a capacidade de elaborar uma sexagem outra (em relação à designada ao nascimento). No tempo que permaneci entre essas práticas e relatos, conheci a aromatase, uma enzima que converte testosterona em estradiol. Nessa escrita, a aromatase figura como gestualidade bioquímica que nos acompanha no caminho de reunir novos sentidos ao conceito de sexo.

Em minha pesquisa de mestrado junto à testosterona e através dos relatos transmasculinos, me encontrei com um modo particular de fazer corpo com-substância que desafia oposições como sexo-gênero, cultura-natureza. Daniel foi meu interlocutore com uma relação mais longeva com a testosterona. Durante uma entrevista, ele me disse que seu sexo não difere do seu gênero, que ele “fazia sexo com a testosterona”. Natan me dizia que os corpos trans são não binários por seu desencaixe no modelo de dimorfismo sexual. Alai insistia que nós só iríamos existir com dignidade e integridade quando fôssemos bem representados nos livros de biologia, que nosso conhecimento empírico contava uma outra história biológica. Uarê, por sua vez, me dizia todo o contrário da virilidade colada à testosterona. As reflexões destes interlocutores apontam para uma multiplicação da sexagem2 dada no encontro com a substância hormonal, nos convidando a uma atenção desconfiada aos modos de virilidade simbolizados pela testosterona.

Enquanto escutava as elaborações de meus amigos-interlocutores, meu corpo mudava. Fui deixando as microdoses e preparando o corpo para saltos quantitativos 1mg, 2mg, 3mg, 4mg - e, aos olhos dos outros, qualitativos também - voz grossa, bigode fino. Um menino. O que via acontecer na gente e o modo que conversávamos sobre nossas experiências corporais me remetiam sempre ao sexo. Quando falávamos de pelos, estávamos falando de sexo. Um sexo que acontecia como um raio ou uma chuva, sem muito controle, sem muita opção, sem muita escolha. Ainda que a relação com a substância seja um desejo escolhido, para onde as mudanças corporais caminham, é sempre um mistério. Um pelo que nasce nas costas, outro que não nasce. Uma voz que engrossa, outra que falha. As roupas que vestimos, por exemplo, escolhemos dentro de parâmetros mais ou menos bem definidos como femininos e masculinos. Os acontecimentos corpóreos brotavam, induzidos pela escolha de se relacionar com a testosterona, mas, ainda assim, não de forma programática. Vinha o que vinha, o corpo ia se tornando aquilo que, processualmente, vai se apresentando. Incertamente, íamos nos diferenciando fisicamente de nós mesmos através de percursos e insistências hormonais.

Os corpos trans-hormonados mudam contundentemente suas fisiologias através de retrações e dilatações da carne, cheiros, texturas, localização e quantidade dos pelos. Essas mudanças apontam para um devir-aberto das histórias e escritas biológicas.3 Levar a sério as interações trans-hormonais requer um exercício de pensar o sexo enquanto movimento. A elaboração de hormônios sexuais fora do corpo implica a possibilidade de ingestões hormonais que afetam a sexagem dos corpos. Assim, enquanto o mundo muda, os corpos ganham capacidades específicas de transformação em resposta aos ambientes tecnocientíficos que habitam.

Donna Haraway (1992) aponta, em Otherworldly conversations, terran topics, local terms, que “natureza é sobre tornar-se” (Haraway, 1992, p. 159): se o sexo se encontra no domínio da natureza, os hormônios nos contam que a experiência sexuada de um corpo pode ser também sobre tornar-se. Não digo isso de forma genérica, ainda que seja possível generificar essa afirmação. Pessoas historicamente localizadas, como no caso desta pesquisa, pessoas trans que estabelecem alianças com a testosterona, nos convidam a repensar os usos que fazemos de conceitos como sexo e gênero. As divisões ontológicas que garantem a oposição sexo-gênero, natureza-cultura, além de não se sustentarem no contexto desta pesquisa, são basais para a elaboração de discursos e práticas transfóbicas que patologizam e/ou negam ontologicamente as existências trans. As práticas trans-hormonais dissolvem essa divisão, propondo outro tipo de circulação entre corpo e ambiente.

O sexo vem operando em um campo minado no qual as forças atuantes acarretam essencialismos e construtivismo,4 produzindo exclusão e marginalização das pessoas trans, dissidentes e desobedientes de gênero. Visto que a categoria sexo é frequentemente exaltada neste tipo de discurso, pretendo disputar e abrir a noção de sexo, e, portanto, de natureza, em uma perspectiva da multiplicidade e processualidade.

Tentei sustentar a categoria gênero no início da pesquisa uma vez que esta categoria é mais articulada pelos movimentos sociais e frequentemente usada para narrar as experiências de transição. Quanto mais a testosterona vinha para primeiro plano, mais o sexo se impunha como categoria de análise. Os hormônios sexuais (ou sexuados) fazem parte da definição do sexo. Portanto, as alianças trans-hormonais implicam uma dose sintética de sexagem, ou, como aponta Nikolas Rose (2012, p. 55), de “mais biologia”. O hormônio é inserido no corpo e, segundo os conhecimentos endocrinológicos, se dilui no sistema sanguíneo afetando uma série de glândulas e órgãos.

Vicky Kirby (2008, p. 13) aponta que “o que temos chamado de cultura era realmente natureza o tempo todo”. Nesse artigo, estendo sua afirmação para o sexo. Talvez, parte do que temos chamado de gênero era, em alguma medida, sexo. Entretanto, não pretendo fazer uma generalização apontando que tudo aquilo que chamamos de gênero nos estudos feministas, na verdade, deveria ser nomeado como sexo. A intenção deste artigo, e de recuperar a afirmação de Kirby, opera no sentido de visibilizar a categoria sexo como uma possibilidade de devir-aberto e relacional. A pendulação entre os conceitos sexo e gênero é necessária, pois, pesquisando o corpo e as interações bioquímicas, estamos falando sobre o sexo e, com isso, abrindo novos significados para este conceito que tensiona explicações deterministas.

Para abrir o conceito de sexo às experiências trans-hormonais, navegaremos pelos xenotransplantes e opoterapia como práticas e conhecimentos antecedentes à endocrinologia. A história que nos leva ao que hoje conhecemos como endocrinologia nos ajuda a pensar como a produção do sexo, no caso de reafirmações de virilidade, foi moldada através de misturas entre espécies. Se hoje fazemos sexo com hormônios, que figuram como tecnologias biomédicas, antes da sintetização em massa dos hormônios, o sexo era feito e intensificado por meio de partes do corpo de outros animais. Independente do tempo e da técnica, o sexo é uma produção de natureza-com. Tanto os xenotransplantes, a opoterapia como a aromatase figuram nesse artigo como meios de pensar a instabilidade do sexo em um devir aberto e sempre em composição com não humanos, sejam hormônios ou gônadas de outros animais.

Como pontuei no começo deste tópico, as reflexões impulsionadas pelas experimentações sexuais com a testosterona serão analisadas através do arcabouço teórico da ecologia queer e dos novos materialismos. Esses dois conjuntos de pensamentos me interessam na medida em que tensionam os estudos de gênero através da disjunção entre o binarismo natureza-cultura, atravessando campos de pesquisa não centrados nas experiências corporais humanas. Dado que grande parte da crítica cultural queer foi produzida em pesquisas que prolongam o excepcionalismo humano, a ecologia queer e os novos materialismos buscam transferir o queer a um alinhamento ético-político com a profusão de diferenças e multiplicidades para mundos mais que humanos.

Enquanto os novos materialismos tematizam a matéria através de relações com os estudos de ciência e tecnologia,5 destacando a agentividade da matéria e de seres não humanos, a ecologia queer foca, sobretudo, pesquisas de sexo, gênero e sexualidade através de experiências não humanas. A ecologia queer é um campo recente que transversaliza os estudos de gênero e os estudos de mudanças ambientais. As preocupações que impulsionam ditas análises estão circunscritas tanto pelos efeitos das mudanças ambientais e devastações tóxicas, quanto pelas análises de diversidades sexo-gênero em mundos não humanos.

Ao partir, então, da aliança transmasculinidade+testosterona e dos campos teóricos apresentados acima, este artigo se estrutura em três diferentes partes. No tópico um, “Aromatase: sexo, temperatura e toxicidade”, discuto a transformação da testosterona em estradiol a partir de dois exemplos: uma situação ocorrida durante trabalho de campo em uma consulta coletiva, e, depois, o caso do sapo gay descrito por Hannah Boast. Esses exemplos me ajudam a traçar um paralelo entre humanos e anfíbios no que tange às mudanças morfológicas decorridas de toxicidades e mudanças tecnoambientais.

No tópico dois, “Fazendo corpos: matéria, natureza e sexo”, proponho uma discussão teórica sobre sexo, natureza e matéria, apresentando elaborações advindas dos novos materialismos. O problema central deste tópico é a recusa histórica do sexo pelos feminismos, que, supondo que esse conceito seria uma prisão essencialista, acabam por reforçar sua essencialização. Disputar o sexo, aqui, implica estar hábil para perceber seus processos de mutação. Aponto alguns argumentos elaborados pelos novos materialismos e recupero exemplos do tópico anterior como possíveis caminhos para pensarmos com a categoria sexo. Esse bloco teórico se faz necessário enquanto uma provocação para pensarmos no caráter mutável do sexo, dadas suas diversas relações, seja em termos de avanços em campos de estudos (e como eles se relacionam) seja em termos de relações entre corpo-ambiente.

O tópico três, “Ciência dos híbridos: xenotransplantes, opoterapia e endocrinologia”, apresenta um caráter histórico, no qual busco dar destaque aos hormônios como entidades fundamentais para a definição sexual do corpo. Traço uma relação entre sexo e bioquímica, apresentando as técnicas de xenotransplantes e opoterapia como passados científicos da endocrinologia. Esses momentos anteriores, e quase contemporâneos à nomeação dos hormônios, são caracterizados por atuar na configuração da sexagem humana através das partes de corpos de outros seres. Portanto, o argumento central do tópico é propor uma perspectiva de análise na qual a história da sexagem humana é, necessariamente, uma história interespécies.

Aromatase: sexo, temperatura e toxicidade

A primeira vez que ouvi o termo aromatização6 foi em uma consulta coletiva na Unidade Básica de Saúde (UBS) que frequentava. De três em três meses nos reuníamos para ler nossos exames de sangue com a ajuda tradutória do médico responsável por nossas hormonizações. Igor estava com uma altíssima taxa de estradiol e acabou virando o caso de análise do dia. João, o médico que nos acompanhava, nos explicou que Igor tinha subido abruptamente sua taxa de testosterona, o que faz com que “o corpo” acabe por metabolizá-la em estradiol através de enzimas de aromatase. Essas enzimas convertem o androgênio em estradiol. Em animais não humanos ela pode ser influenciada por fatores ambientais; em espécies em que a conformação do sexo é determinada pela temperatura, ambientes mais quentes conformam sexos femininos e temperaturas mais frias sexos masculinos. No caso do Igor, a transformação da testosterona em estradiol foi relacionada a um pico imprevisto de testosterona que não foi abordado ou explicado durante a consulta.

Já havia alguns anos que me hormonizava e, mais ainda, que ouvia a relação entre testosterona e virilidade, acompanhada pela noção opositiva entre testosterona e estradiol. Fiquei surpreso ao conhecer que, entre as feituras e gestos7 possíveis deste curioso ente bioquímico, está a capacidade de tornar-se seu oposto. Assim, a testosterona, através da sua ligação com a enzima da aromatase, converte-se em estradiol. Saí da UBS achando graça em saber que a testosterona transiciona. A vasta teorização que temos sobre os embates políticos e científicos ao longo da estabilização dos significados dos hormônios sexuais introduziu nos hormônios as disputas sociais de gênero. É comum ouvirmos, em consultas médicas, que o estradiol está bem controlado (ou bloqueado) pelo aumento da taxa de testosterona.

No caso de pessoas transfemininas, o uso de estradiol está, algumas vezes, relacionado ao uso de bloqueadores da testosterona, uma vez que a testosterona seria um hormônio “mais forte” que se “sobrepõe” ao estradiol, e, portanto, o estradiol, sozinho, não é capaz de inibir a força materializante da testosterona. Os processos endocrinológicos são descritos como uma guerra, em que as partes atacam, defendem e expandem suas atuações em diferentes territórios/órgãos.

No caso dos hormônios sexuais, a essa guerra é atribuída uma percepção sexuada. Como dito acima, a aromatização é o resultado da relação/encontro entre a testosterona e a enzima de aromatase que faz a noção estática e purificada do gênero vacilar. Se a testosterona opera como sinônimo essencialista de virilidade, ter “muita testosterona” não poderia significar “ser muito macho”, mas, dependendo do caso, pode significar estar mais afetado pelo estradiol.

A capacidade da testosterona de se converter em estradiol pode ser mapeada desde a matéria-prima compartilhada entre ambos hormônios, no caso da raiz do barbasco.8 Após serem diferenciadas/purificadas em processos laboratoriais, essas moléculas seguem a se confundir quando são ingeridas e metabolizadas pelo corpo humano. Essa transição testosterona/estradiol desafia tanto o ideal de um binário exclusivo/excludente, quanto uma equivalência entre testosterona e virilidade.

A relação entre testosterona e transmasculinidades é análoga à aromatização enquanto gestualidade feita na testosterona pela enzima da aromatase. Ambas, testosterona e transmasculinidades, são meios de acessar a ambivalência e polissemia de um “hormônio masculino” que atua em tensão com as noções ocidentais de sexo-gênero. A enzima da aromatase faz da testosterona uma substância imprecisa e antiessencialista. A testosterona não corresponde a noções de substância enquanto ser, verdade ou essência, pela sua própria capacidade gestual de, ao longo do seu curso de vida, e por meio das relações estabelecidas, tornar-se seu outro, e, portanto, sexuar o corpo masculino, em termos descritos como femininos.

A função da aromatase, aqui, neste relato, é reunir à história da testosterona uma gestualidade minorizada. Não pretendo revelar “o que é, enfim, a testosterona”, mas apontar para a ambiguidade hormonal e transversalizar questões de sexagem humana a de outros animais. Assim como Igor, que, pela ação da aromatase, teve sua taxa de estradiol elevada, algumas espécies de anfíbios e répteis também são afetadas, em termos de sexagem, pelas toxicidades de seus ambientes e pelo aumento de temperatura do planeta.

Comecemos pela relação entre temperatura e sexagem. Para alguns répteis e peixes, a temperatura pode influenciar o sexo do animal na formação do embrião. O sexo do embrião resulta, em partes, da quantidade dos diferentes hormônios sexuados presentes no “interior do corpo”. Entretanto, o ambiente influencia na sexagem animal (assim como argumentei anteriormente, o ambiente tecnocientífico, desde a possibilidade de ingestão de testosterona exógena, influi na sexagem humana). No caso destas espécies, o aumento da temperatura dos lugares onde botam seus ovos ativa as enzimas de aromatase que vão converter a testosterona do embrião em estradiol, feminilizando os embriões geneticamente traduzidos como machos (Ana Trumai; Miriã Bergamini, 2021).

O caso do sapo gay é relatado por Boast (2022) em Theorizing the gay frog. A autora aponta que “animais descritos nas manchetes como gays, incluindo o sapo gay, frequentemente exibem morfologias sexuais capturadas com mais precisão pelo termo intersexo em vez de se envolverem em comportamentos homoafetivos”9 (Boast, 2022, p. 663). O aumento da temperatura terrestre implica que os ambientes nos quais esse anfíbio deposita seus ovos esquentou de maneira a ativar a aromatase nos embriões, decorrendo em morfologias ambíguas.

Os xenoestrogênios10 também são entidades químicas que atuam sobre humanos e não humanos em direção à queerificação de suas morfologias (Rachel Vaughn, 2022). Xenoestrogênios são produtos químicos, como, por exemplo, a Atrazina. O xeno, exógeno, cultural, se mistura com o filo, endógeno, natural, modificando as morfologias sexuais a ponto de corpo e ambiente serem termos indistinguíveis. Os hormônios circulam entre essas oposições intoxicando e amolecendo as diferenças. Tanto o “sapo gay” (que, ressalto, não é denominado como gay por um comportamento sexual, mas por uma mutação morfológica) quanto pessoas trans que se aliam a hormônios sexuados estão com o sexo poroso devido às mutações anatomofisiológicas que a relação com hormônios pode produzir. Essa passagem pele-mundo exige uma reflexão entre natureza-cultura.

Boast (2022, p. 663) conclui seu artigo concebendo o “sexo como dinamicamente produzido dentro de contextos sociais e ambientais que incluem toxicidade e automedicação”. É importante ressaltar a diferença entre a toxicidade injetada por Igor, por mim e por outros transmasculinos, com a toxicidade decorrente de agrotóxicos como a Atrazina. Assim como as mudanças morfológicas desejadas das mudanças morfológicas decorrentes, tanto da crise climática, quanto de contextos ambientais populados por xenoestrogênios.

Ainda que os seres mutados pelos xenoestrogênios e pelo aquecimento global possam viver bem suas vidas queer, como ressalta Boast (2022), eles são impactados pela toxicidade produzida por alguns grupos humanos. Diferente de pessoas trans que buscam intencionalmente seus tóxicos, podendo escolher continuar ou interromper suas intoxicações sexuais a qualquer momento. Independente dos xenoestrogênios e da aromatase que vem feminilizando/queerificando espécies de anfíbios e répteis, o mundo não humano (e humano também) apresenta uma miríade de diferenças morfológicas em termos sexuais (Roughgarden, 2004), de forma que “as categorias sexuais do dimorfismo sexual humano não servem para explicar, nem os humanos, nem os não humanos” (Boast, 2022, p. 663).

Assim, a sexagem depende de uma associação de actantes (Bruno Latour, 2005), seja a enzima agindo com a testosterona, o calor agindo com a enzima, a indústria farmacêutica produzindo hormônios sintéticos ou a indústria agroquímica espalhando químicos que se comportam como xenoestrogênios. O sexo, humano e não humano, cis e trans, como parte da bioquímica, é moldado processualmente em ambientes tóxicos. As substâncias guardam um traço de imprecisão que aponta para o que Barad (2020) chamou de natureza queer da natureza. O sexo e as substâncias aqui tratados são pharmakóns, a dose e a forma em que a relação se estabelece matiza o químico (e o sexo) como remédio ou veneno. Eles são o que são em-fenômeno e no encontro.

Os conceitos de transcorporalidade e porosidade viscosa11 nos auxiliam a caminhar atentos às intra-ações corpo-ambiente que decorrem em multiplicações de morfologias sexuadas em ambientes tóxicos. O lugar epistêmico e ontológico que natureza e sexo passam a ocupar nesse tipo de observação implica uma transversalidade dentro/fora, um trajeto contínuo entre escalas moleculares (substâncias, enzimas, interioridades corpóreas) e molares (medicamentos, agrotóxico, indústrias, contextos de mudanças geológicas-políticas). Apostar em análises intra-ativas entre coisas, substâncias, pessoas e animais passa a ser um meio de reabilitar o conceito de sexo e recusar o excepcionalismo humano dentro dos estudos feministas e queer.

Enquanto pessoas trans, ouvimos com recorrência que até podemos mudar nosso gênero, mas sempre seremos nosso sexo. O que esse tipo de discurso transfóbico ainda não chegou a saber é que o conceito de sexo ao qual ele se apoia não corresponde à natureza da natureza. Nossos sexos, matéria, biologia podem ser (e são) transformados em outros futuros corpóreos.12

Disputar o conceito de sexo se faz urgente para uma habitação digna de pessoas trans em um mundo em transformação. Nossa diferença não é uma incongruência sexo-gênero, mas um devir-aberto, relacional e intencional-impreciso entre sexo-ambiente. Nossos trajetos hormonais expõem a relacionalidade como unidade mínima. Nosso sexo é, e se torna, através das relações às quais nos implicamos e da porosidade de nossos corpos com os ambientes tecnocientíficos em que vivemos.

Fazendo corpos: pensando matéria, natureza e sexo

A aparição inusitada da categoria sexo13 durante o processo etnográfico exige uma reflexão sobre os usos de sexo e gênero por feministas. Tanto autoras ligadas aos novos materialismos como as ecologias queer vêm produzindo possibilidades de reabilitar a categoria sexo no pensamento feminista. Sexo, evidentemente, não é um conceito simples de operar com, ainda mais depois de tanto esforço feminista para opor sexo a gênero. O sexo foi abandonado nas ciências sociais,14 deixado como categoria para as ciências da vida, constantemente esquecido pelo pensamento crítico. À noção de sexo parece estar implicado um determinismo biológico e um essencialismo enclausurante. Entretanto, questões como os xenoestrogênios e as interações trans-hormonais convidam a categoria sexo como ferramenta de análise por tratarem de questões corporais que estão no escopo da própria materialidade dos corpos.

O desenvolvimento da categoria gênero se opõe contundentemente ao que o sexo parecia ser. Portanto, é necessário um esforço no sentido de observar e pensar sobre o que o sexo vem sendo. Aqui, parto do princípio de que sexo e natureza fazem parte de um mesmo domínio; o sexo pode figurar enquanto uma manifestação específica da natureza que diz respeito à materialidade do corpo e às relações técnicas culturais e, no caso dos exemplos desta pesquisa, o sexo aparece como transformativo, processual e relacional.

Paul Preciado (2020), em Um apartamento em Urano, elucidou que o termo gênero não é uma invenção dos feminismos. O termo foi usado pela primeira vez pelo pedo-psiquiatra John Money, em 1966, em seu transcurso de pesquisa com crianças intersexo. Segundo Preciado, o conceito de gênero nasce com Money, “o inventor da noção clínica de gênero” (Preciado, 2020, p. 109). Money cunha a noção de identidade de gênero para diferenciar a materialidade apresentada do corpo da possibilidade de construir, via métodos, técnicas e práticas cirúrgicas e hormonais, uma habitação em um gênero que difere do sexo designado/diagnosticado no nascimento. Ainda que a aparição do termo gênero tenha se dado no contexto médico, com muita facilidade ele migra para a crítica feminista, desde Beauvoir, como uma categoria que opera a possibilidade de opor processos culturais a essencialismos biológicos.

Nesse processo, o feminismo se compromete com o enrijecimento da oposição natureza/cultura, por meio da reificação opositiva entre sexo/gênero. O gênero se torna, portanto, uma prática discursiva sobre o sexo, desde uma aposta em que a natureza/matéria é um dado fixo, enquanto o discurso e a linguagem são campos que possibilitam transformações no curso da história.

Segundo Stacy Alaimo, “enquanto a maioria dos feminismos pós-modernos e pós-estruturalistas buscam destrinchar ‘mulher’ da ‘natureza’ - por razões significativas, com certeza -, o feminismo material busca uma definição e transvaloração completa da natureza”15 (Alaimo, 2017, p. 12). Assim, ainda que Alaimo compreenda os impulsos políticos que levaram os feminismos pós-modernos e pós-estruturalistas a separarem as “mulheres” da “natureza”, o feminismo neomaterialista provoca a perspectiva de que a natureza é o solo inerte no qual a cultura se desenvolve.

Alaimo aponta que “quanto mais as teorias feministas se distanciam da ‘natureza’, mais essa mesma ‘natureza’ é implícita ou explicitamente confirmada como traiçoeira areia movediça da misoginia”16 (Alaimo, 2017, p. 4). A questão estaria, então, em disputar as características que definem “a natureza” e, portanto, “o sexo”. O esforço dos feminismos que se implicam em pensar o sexo está, também, em retematizar a natureza. Conceber a natureza como agêntica é um meio de entrar nas viscosas dobradiças entre corpo-ambiente, sexo-gênero, natureza-cultura. Tanto a transição hormonal proposta pela aromatase quanto os xenoestrogênios são bons exemplos da agência da natureza. Em ambos os casos, são relações entre corpo-químico-ambiente que transformam os caminhos da sexagem, mutando, contundentemente, a anatomia dos seres afetados.

O desafio em re-habilitar a categoria sexo implica tanto dados empíricos que convoquem essa categoria como mudanças conceituais nos campos das ciências da vida. Os trânsitos entre campos de conhecimento são possíveis na medida do que está sendo debatido em cada campo. Os feminismos que optaram por um afastamento de noções como sexo e natureza estavam em diálogo com uma teorização sobre sexo e natureza que compreendia ambos os termos como fixos, eternos, constantes, a-históricos.

Portanto, o sexo, como equivalente à natureza, significava um destino corpóreo circunscrito pelas capacidade biológicas dos corpos com útero, naquele momento, descritos como mulheres. Assim, a oposição que estes feminismos da primeira onda fizeram ao sexo era também uma oposição à natureza, tentando alocar as mulheres como sujeitos políticos e, portanto, parte da cultura (ou seja, do gênero, e assim livrá-las do “destino biológico” do matrimônio e reprodução, que era um “destino” historicamente circunscrito em questões de raça e classe).

Entretanto, como Karen Barad aponta, alguns desenvolvimentos da ciência, impulsionados, sobretudo, por cientistas feministas (como elu), vêm apontando que a noção que aquele feminismo tinha sobre a natureza da natureza, ou, em outros termos, com a natureza do sexo, se estabeleceu por uma concepção de natureza e de matéria que estão marcadas pela metafísica do individualismo, por um corte cartesiano e por um antropocentrismo (Barad, 2017). Hoje, sabemos, como Lynn Margulis, Joan Roughgarden (2004), os transmasculinos e a aromatase nos mostram que os seres são compostos por muitos seres, e que a multiplicidade sexo-gênero das espécies é muito mais vasta do que o modelo do dimorfismo sexual pressupõe. Portanto, outras descrições da natureza da natureza supõem uma mobilidade sexual, ou seja, uma capacidade de observar os devires sexuais em seus emaranhamentos transcorpóreos.17

Barad nos ajuda a pensar a natureza da natureza, de forma que os feminismos não precisem se afastar da natureza. Para tanto, são necessários dois momentos: primeiro, perguntar de qual natureza os feminismos precisaram se afastar, e, segundo, conhecer os avanços dos campos das ciências, como física e biologia, que elaboraram um novo paradigma sobre a natureza e trabalhar, nas ciências sociais, com eles. Barad ocupa um lugar na ciência e na teoria queer no qual a teoria queer invade a ciência e a ciência responde à teoria queer. Assim, um feminismo neomaterialista que fala com o sexo é, também, um feminismo queer que encontra, nas agências materiais, um devir-com aberto e indeterminado.

Os feminismos de influência pós-estruturalista desenharam suas pesquisas sobre o corpo através do discurso, da cultura e da linguagem e os feminismos pós-modernos contribuíram à crítica sobre as dicotomias do pensamento ocidental. A questão trazida pelos novos materialismos seria, então: como estudar o corpo levando em consideração a agência da natureza? Como estudar o corpo pela matéria? Como reconceitualizar a natureza? A teoria queer contribui para a delineação destes caminhos, uma vez que noções como feminino e masculino são embaralhadas e redistribuídas sem respeitar os contornos e (in)coerências entre sexo-gênero. Colocar o corpo e as práticas (humano e não humano) em primeiro plano, antes das identidades, é um procedimento comum no que vem se estabelecendo como novos materialismos (Alaimo, 2017; Alaimo; Susan Hekman, 2008; Barad, 2017; 2020; Kirby, 2008; Annemarie Mol, 2002; Nancy Tuana, 1997; 2008).

No caso da minha pesquisa de mestrado, a testosterona era a substância a ser estudada, através de sua relação situada com algumas transmasculinidades. O método para seguir o objeto de estudo partia da testosterona até as transmasculinidades, que, ainda que estivessem imbricadas com a substância, tendo muito a dizer sobre ela, não eram meu interesse específico. Escolher pesquisar uma substância implicou resistir às insistentes exigências advindas do ambiente de estudos de gênero ao qual pertencia, de lidar com questões de gênero e identidade dos interlocutores experts que me falavam sobre a substância.

Não me interessavam as taxonomias de gênero, ou a historicidade de quem são ou foram os transmasculinos, ou até suas diferenças com outros (ou mesmos) que recorrem a outros termos para dizer sobre si. Partir da substância me permitiu perceber sua agência. Acabei optando por designar a relação transmasculinos+testosterona como aliança, uma vez que a noção “uso”, ou seja, “pessoas que usam testosterona”, produz uma assimetria entre os sujeitos da relação que opaca o uso que a testosterona faz dos corpos transmasculinos,18 tendo em conta as relações que ela estabelece no interior do corpo injetado. A testosterona é um agente que faz os humanos fazerem coisas, tanto em termos moleculares/internos, como a relação que estabelece com a enzima da aromatase, quanto em termos molares/externos, como a transformação da carne que passa a poder se encaixar com outros objetos técnicos, como packers19 e minoxidil20.

Os hormônios, seja enquanto medicamento, xenoestrogênios, ou substâncias organicamente produzidas, são uma força da natureza-ambiente que sexua os corpos. É apenas na mistura que a testosterona pode ser vista. É na mistura que suas gestualidades podem ser reconhecidas. Optei por misturá-la com pessoas trans porque me interessava a experiência de quem escolhe pela mistura e, em alguma medida, se encanta pela substância. A alquimia etnográfica fez aparecer a processualidade, relacionalidade e intra-atividade da sexagem de um corpo. O corpo emerge na substância. É o encontro com elementos tecnocientíficos que constituem um ambiente comum nos quais processos biológicos são impulsionados.

A estratégia de disputa do conceito de sexo e retematização da natureza da natureza implica um reconhecimento de sermos a matéria/natureza/biologia que somos (levando em conta a capacidade agêntica e transformativa da matéria) e, ao mesmo tempo, a produção de outros modos de contar histórias, de narrar os processos biológicos do corpo. A aromatase, como vimos acima, é uma anedota que complexifica a história da testosterona, fazendo vacilar a noção de virilidade.21

Aqui, ainda me parece necessário frisar a importância de caminhos etnográficos que estejam atentos a processos de mudanças. É na mudança que a mistura aparece, que os elementos aparecem em-fenômeno (Barad, 2020). Latour (2004) aponta para a necessidade de renovarmos o empirismo: “precisamos de uma nova atitude crítica enraizada em novas ferramentas críticas, uma nova definição do crítico, não como alguém que ‘desmascara’ mas como alguém que ‘reúne’” (Latour, 2004, p. 246). Reunir relatos e gestualidades da testosterona foi o que tentei fazer durante o mestrado. A intenção não era criar uma nova verdade universal sobre a substância, mas situar sua história em determinada relação e observar o que emerge daí, atento às desestabilizações conceituais que práticas corporais podem impulsionar.

O gesto de reunir histórias hormonais me levou para o passado da endocrinologia e dos estudos sobre pessoas trans. Neste encontro, pude notar como a história do que hoje é o hormônio com o qual estabeleço uma relação escolhida é composta por outros animais não humanos que, no anseio cismasculino de retardar o tempo, pausar o envelhecimento e até acessar um estado de rejuvenescimento, se abriam a experiências cirúrgicas com inserção de gônadas de macacos. Os macacos apareciam como portadores da masculinidade desejada, e os testículos como carnificação do que hoje são os hormônios.

Na tentativa de traçar essa história, passearemos por um breve relato de uma geneticista que, depois de trabalhar com pessoas trans e intersexo, curiosa pela determinação sexual, torna-se uma ecóloga interessada em aves. Anita Wajntal, geneticista e professora aposentada da USP, já demonstrava um interesse particular pela atuação dos hormônios na feitura do sexo, assim como o fisiologista do século XIX, Serge Samuel Voronoff, que experimentava com transplantes animais. A produção do sexo é, portanto, historicamente um encontro entre espécies. Ainda que, para a massificação da produção de hormônios, a síntese química tenha sido o salto necessário para sua alta comercialização e habitação expandida em nosso mundo, sua história é preenchida de anedotas quiméricas nas quais humanos e não humanos interagem na produção do sexo humano.

Ciência dos híbridos: xenotransplantes, opoterapia e endocrinologia

Intriguei-me pela trajetória de pesquisa de Anita Wajntal. A geneticista defendeu sua tese de doutorado em 1973, intitulada “Variabilidade citogenética e dos dermatóglifos na intersexualidade humana”. Anita passou os primeiros anos de sua carreira trabalhando em colaboração com Roberto Farina.22 Juntos, eles compuseram o grupo de intersexo do Hospital das Clínicas. Nos últimos anos de sua carreira, Anita se dedicou a pesquisar a variabilidade genética das araras. Sua mudança de área de pesquisa me interessou muito e, por isso, marquei uma conversa com ela. No fim de 2023, aos 86 anos,23 Anita me recebeu em sua casa para uma longa conversa. Ela pouco quis me contar sobre os motivos para deixar suas pesquisas com pessoas trans e intersexo e migrar para o campo da ecologia.

Durante nossa conversa, Anita disse que “dá pra ver os cromossomos, mas os cromossomos não falam nada, podem produzir hormônios femininos e podem produzir hormônios masculinos, mas fora isso, não tem mais nada. Não tem nada no indivíduo que fale que ele é homem ou mulher, só os hormônios. Os hormônios falam”. Anita, com seus quase 90 anos, me contou que dedicou sua vida para encontrar padrões de diferença genética que explicariam a transexualidade, e foi nas conformações hormonais que ela conseguiu ouvir a processualidade do corpo que cresce em direções sexuadas (femininas/masculinas).

Nos anos 2000, Anne Fausto-Sterling apontou, no livro Sexing the Body, a relação emaranhada entre sexo e bioquímica. Segundo a autora, com o desenvolvimento da endocrinologia, na primeira metade do século XX, a designação de hormônios de crescimento como sexuados, e, portanto, femininos ou masculinos, intoxicou as noções de sexo e gênero dos imaginários molecularizados da bioquímica. Desde então, os discursos hormonais vêm exercendo autoridade explicativa sobre a sexagem dos corpos.

Assim como Anita, Fausto-Sterling (2000) está interessada em pensar as demarcações do regime da diferença sexual. Ambas apontam as interações hormonais enquanto responsivas e entupidas de marcações sexuadas. Tanto a testosterona quanto o estradiol são concebidos nas pesquisas experimentais de endocrinologia como causa e consequência da masculinidade e feminilidade.

Entretanto, a relação entre sexo e bioquímica não data das pesquisas com pessoas trans e intersexo, como as que Anita dedicou parte de sua vida, nem emerge das ratas de laboratório que tanto encantaram Fausto-Sterling.

É possível situar os conhecimentos sobre hormônios sexuais através das práticas de xenotransplantes.24 O fisiologista russo Serge Samuel Voronoff (1866-1951)25 é uma figura central para traçar os caminhos que nos levam a montagens corporais. Seus primeiros transplantes tinham o objetivo de aumentar a produção de lã de carneiros (Tarcisio Campos; Ethel Cuperschmid, 2007, p. 738). Voronoff “[t]ornou-se mundialmente famoso como cirurgião ao fazer enxertos e experiências glandulares para melhoria de raças de ovinos e equinos. Voronoff defendia que animais velhos transplantados com testículos de animais mais jovens recuperavam o vigor perdido. O cirurgião fez mais de quinhentos transplantes em carneiros, cabras e touros” (Campos; Cuperschmid, 2007, p. 739).

Após os testes com animais vinculados à agropecuária, Voronoff passou a experimentar com gônadas de macacos com a intenção de estimular a atividade sexual e a longevidade humana. Em 1913, ele implantou a glândula tireoide de um chimpanzé em uma criança (Campos; Cuperschmid, 2007, p. 740). A relação entre envelhecimento e produtividade contornava os experimentos com glândulas, aplicando-se tanto a humanos quanto a animais não humanos. Humanos eram rejuvenescidos através de xenotransplantes com partes de chimpanzés e babuínos, considerados ‘espécies fraternas do gênero humano’ (...). Entre 1920 e 1940, mais de 45 cirurgiões utilizaram as técnicas de Voronoff e foram realizados cerca de dois mil xenotransplantes entre primatas não-humanos e humanos” (Campos; Cuperschmid, 2007, p. 743). As gônadas figuravam enquanto parte fundamental para o desenvolvimento sexual e produtivo dos seres transplantados.

Antes da endocrinologia purificar, estabilizar e sintetizar a testosterona e o estradiol como hormônios sexuais opostos complementares, humanos, macacos e bovinos se misturavam corporalmente, intra e entre espécies, através da troca de gônadas, onde se supunha estar guardada a potência de vigor e virilidade, posteriormente nomeada como testosterona. Os xenotransplantes indicam que as pesquisas incipientes de fisiologistas que se desenrolam no que hoje entendemos como endocrinologia produziam quimeras, híbridos (Haraway, 2016) compostos de humanos e outros animais.

Concomitante aos enxertos, estava sendo criada a noção de hormônios. Em 1905, a secretina26 é nomeada por Starling e Baylisse. Os fisiologistas descreveram os entes encontrados no corpo como “mensageiros químicos que se deslocam rapidamente de uma célula a outra, por intermédio do fluxo sanguíneo, podendo assim coordenar as atividades de crescimento das diferentes partes do corpo” (Fausto-Sterling, 2000, p. 127). As gônadas figuravam, tanto como material carnoso a ser transferido de um corpo para outro, como encapsulamento de fluidos que produzem as características que vêm a compor as gônadas. Supunha-se que havia algo, menor e interno, que fazia com que as gônadas tivessem a potência com a qual eram descritas.

Já “em 1927, Fred Koch e Lemuel McGee extraíram dos testículos de touros um material solúvel em álcool e éter que, injetado em capões, restaurou-lhes características de machos” (Campos; Cuperschmid, 2007, p. 745). Entretanto, anteriormente à classificação dos hormônios, em 1889, Voronoff já trabalhava em colaboração com Brown-Séquard, “conhecido por injetar em si próprio um extrato aquoso de testículos de cachorro e porco-da-guiné” (Campos; Cuperschmid, 2007, p. 739). A prática experimental de Séquard, denominada como opoterapia, era explorada ao mesmo tempo que as práticas de xenotransplante ganhavam popularidade na gestão dos corpos. Ambas técnicas denotam uma produção de sexagem humana por meio de relações interespécie, tornando necessária a relação com outras espécies para a produção do sexo humano.

Com esses relatos, pretendo elucidar a característica experimental da endocrinologia como ciência dos híbridos, uma ciência que se produziu pela capacidade de misturar corpos de diferentes espécies. Mais adiante, as partes (gônadas) e técnicas cirúrgicas vão caindo em desuso. A endocrinologia se estabelece como ciência dos hormônios, atenta às múltiplas relações emaranhadas decorrentes das secreções, excreções e ingestões dos fluidos. Uma molecularização diminuta e viscosa toma conta das explicações anteriormente atribuídas às gônadas

O desenvolvimento do saber hormonal não começa nem termina na endocrinologia. A descoberta dos hormônios no interior dos corpos decorre da produção de hormônios sintéticos, que passam a ser artefatos biotecnológicos que compõem arranjos de possibilidades de sexagem e mutações corpóreas.27 A indústria farmacêutica elabora e fornece estradiol e testosterona enquanto medicamentos de reposição hormonal. O ambiente tecnocientífico que habitamos hoje possibilita, com maior ou menor dificuldade, que pessoas trans acessem tecnologias de composição corporal, podendo experimentar outras materialidades da sexagem humana.

Portanto, a transformação do sexo em bioquímica implica a possibilidade de elaborar um corpo/carne outro.28 As alianças trans-hormonais apontam que, além dos hormônios terem se tornado um discurso de autoridade sobre a sexagem humana, eles se tornam resíduos materiais do regime da diferença sexual que podem ser introduzidos aos corpos, transformando tanto o corpo individual quanto o regime da diferença sexual. A transformação de ambas escalas - corpo individual e regime da diferença sexual - recorda a elaboração do Alai na introdução do artigo. Para ele, a existência transmasculina adquire materialidade e dignidade através da validação de nossos conhecimentos empíricos sobre outras histórias biológicas que estamos produzindo em nossos corpos. Desta perspectiva, a tensão entre inexistência transmasculina dentro do regime da diferença sexual e existência material de nossas corporalidades é uma perturbação ao próprio regime, incapaz de representar a multiplicidade sexo-gênero.

Além da perturbação molar que a existência de nossas corporalidades reflete no regime que delimita os corpos que existem, ou devem e podem existir, em minha pesquisa de mestrado, junto a testosterona e, através de relatos transmasculinos, encontrei momentos de dissolução entre endógeno e exógeno. Essa dissolução reflete outra perturbação causada no e através de nossos corpos. A produção sexual por meios tecnológicos não é uma particularidade das experiências trans, e, sim, a história da sexagem humana. O que ocorre de particular é que a delimitação desta pesquisa nos ajuda a ver o emaranhado indissolúvel entre exógeno e endógeno, uma vez que a testosterona injetada se mistura à testosterona organicamente produzida e, ainda que de origens distintas, perdemos a capacidade de diferenciá-las.

No caso de pessoas transmasculinas, a transformação do corpo/carne decorre do aumento da taxa de testosterona. Quando a testosterona exógena (em formato de medicamento) é inserida no corpo, perdemos de vista o limite do que era a testosterona endógena (produção bioquímica das glândulas), de forma que o natural/orgânico se mistura ao cultural/sintético sem deixar rastros de seus limites. A porosidade viscosa dos hormônios re-forma o corpo da pele para dentro. Ou como propõe Tuana (1997, p. 68) em sua análise sobre fisiculturismo, “o corpo é transformado de fora/dentro e de dentro/fora”. Os hormônios figuram, portanto, como uma dobradiça viscosa entre interioridade/exterioridade, corpo/ambiente.

O tensionamento entre natural/artificial através dos arranjos entre sexo e testosterona exógena propulsou a seguinte pergunta: se os hormônios sexuais são categorias bioquímicas e produções espontâneas do corpo responsáveis pelo crescimento de determinadas partes físicas compreendidas como gendradas/sexuadas em nossa cultura, o que ocorre no regime da diferença sexual (Thomas Laqueur, 2001) no momento em que substâncias análogas (outras testosteronas) emergem enquanto medicamentos que podem ser inseridos no corpo produzindo um aumento da taxa hormonal e, por consequência, uma remodelação da materialidade do corpo vivo?

Através da pergunta acima, notei que o caminho dos hormônios percorre: 1. produção espontânea e orgânica do corpo (natural/endógena), 2. produção laboratorial e sintética de uma molécula (artificial/exógena) e 3. ingestão do hormônio enquanto medicamento (naturartificialidadel/endoexógeno). O terceiro ponto é a dobradiça de minha pesquisa, onde cultura e natureza (assim como suas oposições derivadas, como sexo e gênero) emergem como fenômenos intra-ativos (Barad, 2020) implicados de tal forma que nos exige abandonar os pares de oposição, para, assim, poder ver, e levar a sério, inusitadas montagens que operam em contextos situados.

A categoria gênero não cabia como ferramenta de análise para o que a relação entre testosterona e transmasculinidades me apresentava. O gênero masculino dos sujeitos interlocutores da pesquisa é anterior à relação com a testosterona, assim como a relação com a testosterona não garante o gênero masculino destas pessoas, seja pela leitura social que vacila entre feminino/masculino, seja pelas relações intermitentes ou interrompidas com a substância. Ainda que a substância deixe de fazer parte do cotidiano destas pessoas, elas não são retiradas de suas identificações masculinas.

O que as relações às quais me atentei estavam me mostrando era como o corpo se (de)compõe através do que está fora dele, nublando a pele como fronteira entre as categorias natureza/cultura e exógeno/endógeno. O uso de uma substância sexuada produz uma série de mutações corporais que, ainda que aproximem opticamente aquele corpo aos marcadores da masculinidade ocidental, sempre vão vacilar frente ao modelo da diferença sexual. Nossos corpos, ao intra-agirem com a testosterona, fissuram os descritores sociais sobre masculinidade que se apoiam em funções ou promessas delineadas pelo campo da biologia. Tornamo-nos corpos heterogêneos, montagens de diferenças, composições de oposições que tomam um sentido densamente corporal, carnificando a processualidade da sexagem, movendo a natureza biológica de um corpo a formas inusitadas. A cada dose de testosterona a natureza muda. Não como corrompida pela tecnociência, mas o ambiente hormonal da corrente sanguínea e seus fluxos deslocam o sexo.

A testosterona modifica o corpo com o qual entra em relação em níveis que podem deslocar a posição de gênero, mas, sobretudo, ela atua nas noções de opositivo, complementar, fixo, continuum. Essas experiências nos convidam a rearticular a arquitetura do conceito de sexo desde uma sensibilidade transicional, que denota uma cumplicidade e coabitação entre termos descritos como opositivos. Os hormônios são pensados, aqui, como eixo central da atribuição sexual do corpo humano, mas também como agentes biotecnológicos dispersos no ambiente tecnocientífico que habitamos. Os hormônios falam, como diz Anita, desde as experiências trans-hormonais; conversamos com eles e podemos chegar a conhecer suas gestualidades imprecisas. Nesta conversa, pretendi ouvir a aromatização enquanto transição hormonal, notando a ambiguidade e a instabilidade da testosterona.

Considerações finais

A estrutura do artigo separada em: questão emergente no trabalho de campo, discussão teórica e retorno histórico pode parecer um pouco estranha, e, talvez, seja. A intenção de apresentar o problema nessa cadência implica, primeiro, atribuir uma relevância para os problemas incitados em campo. Ainda que o texto não seja etnográfico, pretendi circunscrever a origem empírica do problema teórico deste artigo.

Dada a pouca circulação das propostas advindas dos novos materialismos e da ecologia queer nos estudos de gênero no Brasil, me pareceu importante dedicar um tópico inteiro para situá-la. Ainda que de sobrevoo, pretendi apontar alguns caminhos analíticos propostos por essas linhas de pesquisa. Busquei, assim, apontar que o problema emergido do trabalho de campo tem aderência aos debates que se arriscam a tematizar o conceito de sexo desde um ponto de vista que tensiona a natureza como terreno dado e inerte no qual a cultura se desenvolve e se diferencia.

O terceiro tópico, com caráter mais histórico, foi uma tentativa de vincular no tempo os exemplos apresentados no primeiro tópico. Portanto, narrar a história prévia da endocrinologia enquanto produção de híbridos e misturas entre espécies me ajudou a perceber que a porosidade corpo-ambiente da sexagem, que encontrei em campo, e, posteriormente, sistematizada pelos estudos citados, não é uma história para nada nova. Trata-se, sim, de um modo de fazer corpo-sexo que implica, há muito tempo, relações entre tecnologias e outros seres.

Aqui, tentei relacionar enzima da aromatase, pessoas transmasculinas, testosterona endógena e exógena, xenotransplantes, opoterapia, xenoestrogênios e mudanças ambientais como um meio de recordar a multiplicidade do real (Mol, 2002) e a importância de análises específicas sobre sexo. Ainda que nesse artigo não tenha me dedicado a demonstrar etnograficamente como essas montagens processuais do corpo sexual são elaboradas, acredito que o deslocamento conceitual de pensar experiências corporais trans através do conceito de sexo pode contribuir para retematizar a natureza.

O esforço deste artigo consistiu em deixarmos de reforçar conceitos articulados nos feminismos que são postos contra pessoas trans. O apelo para retematizarmos sexo e natureza através de relações situadas nas experiências trans-hormonais é uma tentativa de desmontar o conceito de sexo como operador dos discursos transfóbicos. Enquanto não fizermos o esforço de reunir outras histórias sobre a sexagem, humana e não humana, estaremos em eminente risco de sermos ontologicamente negados. O sexo é o que fazemos da/na materialidade do corpo, é a resposta biológica do trânsito de substâncias, enzimas, cromossomos, DNA e ambiente. A pele não é fronteira entre sexo e gênero em um mundo de trânsitos químicos, viscosos e imprecisos entre corpo e ambiente.

Espero que este artigo contribua, de forma tradutória, para que os estudos de gênero no Brasil metabolizem a categoria sexo que está sendo remontada pelos novos materialismos, pela ecologia queer e por práticas e pensamentos trans-hormonais. Os rearranjos críticos da categoria sexo, ainda que possam parecer abstratos, são densamente materiais quando nos topamos com a necessidade etnográfica de levarmos a categoria a sério desde a perspectiva do que nossos interlocutores (humanos e não humanos) estão dizendo e fazendo sobre/com ela.

O biológico compõe as análises da ciência social, e seguir operando dentro do binário: sexo/ciências da vida e gênero/ciências sociais opaca uma categoria que continua sendo operada como recurso discriminatório e destitui as ciências sociais de contribuir criticamente, e de forma inovadora, em conversas interdisciplinares que renovem o empirismo, como quis Latour e como demandaram meus interlocutores de pesquisa.

Referências

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1

Ver coleções: Material Feminism (Alaimo; Hekman, 2008) e Queer Ecologies: sex, nature, politics, desire (Catriona Mortimer-Sandilands; Bruce Erickson, 2010) (MORTIMER-SANDILANDS, Catriona; ERICKSON, Bruce. Queer Ecologies: sex, nature, politics, desire. Bloomington: Indiana University Press, 2010).

2

2 No decorrer do texto, usarei o termo sexagem como tradução de sexing, visando apontar o caráter processual da constituição do sexo.

3

3 A noção de “histórias e escritas biológicas” é elaborada por um de meus interlocutores, Alai, para se referir às mudanças morfológicas que a testosterona produz em seu corpo. Para mais detalhes, ver a dissertação de Mestrado “Secreções do regime da diferença sexual: metabolizando relações humano-hormônio em experiências transmasculinas” (Tui Isnard, 2023) (ISNARD, Tui Xavier. Secreções do regime da diferença sexual: metabolizando relações humano-hormônio em experiências transmasculinas. 2023. Mestrado em Antropologia Social - Instituto de Filosofia e Ciências Humanas, Universidade Estadual de Campinas, Campinas, SP, Brasil).

4

4 O campo minado do sexo é, por um lado, empurrado por discursos construtivistas que entendem o sexo como um diagnóstico e construção médico-farmacêutica, e, por outro lado, sufocado por essencialismos que consideram o sexo parte da dimensão da natureza, e a natureza como conceito que engloba tudo aquilo que é pré-discursivo e imutável. Entretanto, o sexo afetado por relações hormonais tecnológicas (no formato de medicamentos ou xenoestrogênios) fissura tanto os discursos construtivistas quanto essencialistas. Ambos se assemelham na supressão da agência, seja da pessoa trans, seja dos hormônios sexuados.

5

5 Passando também por estudos ambientais e crítica cultural queer.

6

6 Aromatização é o efeito da enzima aromatase que converte testosterona em estradiol. O termo será apresentado com mais atenção adiante.

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7 As noções de gesto e gestualidade aparecem com frequência no texto para caracterizar algo feito pela testosterona. Gesto é comumente usado para descrever um movimento do corpo, voluntário ou não. O gesto é um fazer que o corpo faz. A atenção às coisas que a testosterona faz me ajudou a perceber o caráter agêntico deste ente bioquímico. A testosterona faz coisas, se liga a receptores de enzimas, modula a carne, produz movimento. Os movimentos impulsionados por ela serão nomeados como gestos, dado que a testosterona como um corpo faz coisas em outros corpos e faz outros corpos fazerem outras coisas.

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8 No fim dos anos 50 o reino vegetal começa a emergir enquanto potencial meio de extração da matéria-prima para a elaboração de fármacos de hormônios sexuais. O estradiol e a testosterona já se supunham estabilizados, mas ainda não eram produzidos fora do corpo, e, portanto, comercializados. A espécie Verbascum thapsus (barbasco) passa a ser coletada por campesinos no sudeste do México e exportada para laboratórios nos Estados Unidos (Gabriela Laveaga, 2005). As pesquisas que identificaram a molécula de diosgenina (utilizada pela indústria farmacêutica para produção sintética de estradiol e cortisona sendo um fitoesteróide extraído do inhame selvagem) na raiz do barbasco modificaram o rumo destas populações campesinas e da produção de hormônios sintéticos. O barbasco passa a ser a possibilidade de produção tanto de pílulas anticonceptivas, compostas por estradiol, quanto de testosterona (LAVEAGA, Gabriela. “Uncommon trajectories: steroid hormones, Mexican peasants, and the search for a wild yam”. Studies in History and Philosophy of Science Part C: Studies in history and Philosophy of biological and Biomedical Sciences, v. 36, n. 4, p. 743-760, 2005).

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9 Tradução do autor.

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10 São substâncias químicas encontradas em: plásticos, pesticidas, cosméticos, produtos de limpeza, alimentos processados, medicamentos, protetores solares, entre outros. Parabenos, DDT e Bisfenol são alguns exemplos de químicos que atuam como xenoestrogênios. Usualmente, seja em artigos científicos como em breves pesquisas no Google, eles são descritos como substâncias químicas que imitam a ação do estrogênio. Uma vez que o estrogênio é caracterizado como uma substância organicamente produzida pelos corpos, aquelas substâncias que, ao entrarem em contato com os corpos, se ligam aos receptores de estrogênio, mimetizam ou bloqueiam a ação do estrogênio orgânico.

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11 Em “Viscous porosity: witnessing katrina”, Tuana sugere o termo como meio de posicionar a relacionalidade entre seres humanos e não humanos como modo de entender a constituição dos seres. Operando com as noções de corpo e ambiente, Tuana busca um descritor material que explique a relação entre os termos.

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12Agradeço a Lux F. Lima pela noção de futuros corpóreos.

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13 Digo inusitada uma vez que o termo gênero é frequentemente escolhido, em detrimento do sexo, para narrar ou analisar questões de transição, tanto por pessoas trans como por profissionais da saúde.

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14Com uma breve busca na biblioteca de teses e dissertações do CNPq, é possível avaliar que o termo sexo aparece nas pesquisas desenvolvidas em programas de pós-graduação de: psicologia (usualmente ligado à noção de sexo como prática sexual), ciência da saúde, doenças tropicais, gerontologia biomédica e medicina. Enquanto o termo gênero está presente nas pós-graduações de: letras (se referindo usualmente a gênero literário), educação, história, ciências sociais e psicologia. O termo mulher aparece em: história, educação, psicologia, letras e ciências sociais. Todos os termos descritos acima aparecem na seguinte ordem transcrita. O campo dos estudos de gênero vem se desenvolvendo no Brasil como estudos de gênero e sexualidade, usualmente interessados por questões taxonômicas, histórias e experiências que identificam e diferenciam os sujeitos desde suas práticas sexuais e identidades de gênero.

14

15 Tradução do autor.

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16 Tradução do autor.

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17 Transcorpóreo é um conceito apresentado por Alaimo no artigo “Feminismo transcorpóreo e o espaço ético da natureza”, traduzido para o português e publicado na Revista Estudos Feministas em 2017. Semelhante à noção de porosidade viscosa, o transcorpóreo aponta que a corporalidade pode ser pensada como transcorporalidade, implicando uma abertura aos encontros com não humanos. Alaimo aponta para uma inseparabilidade entre substâncias corporais e ambiente, propondo um comprometimento analítico em lidar com esse emaranhado.

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18 Como, por exemplo, a relação da enzima de aromatase com os receptores de estrogênio que converte testosterona em estradiol. Essa relação é dada por agentividades corpóreas que não implicam uma intencionalidade humana.

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19 Packer é uma prótese de cyberskin com semelhança ótica e tátil à pele humana. Diferente do dildo, sua base não é reta, e o corpo do objeto é oco, possibilitando, assim, que se urine por meio dele. A elasticidade do material, quando aberto e acomodado ao corpo, produz um vácuo entre o genital carne e o genital cyber. A carne se ajusta em ondulações que produzem sensação tátil, prolongando o corpo para além da pele orgânica; a cyberskin, além de, como prótese, prolongar os limites e capacidades do corpo, nubla a fronteira entre pele exógena e endógena. O packer vem acompanhado de uma vértebra móvel, um material de plástico composto por pequenas partes que, deslocadas, produzem inclinações e torções na prótese. A vértebra pode ser colocada e retirada do interior do packer, e, quando coberta pela cyberskin, produz rigidez instável e inclinações; a depender de como for modulada, quando retirada, produz um vácuo por onde a urina pode escorrer para fora do corpo.

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20 É um fármaco que reduz a pressão arterial através da vasodilatação de longa duração, comumente utilizado por pessoas cis e trans para o tratamento de queda de cabelo e para o crescimento de pelos.

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21 Dada a suposição de mais testosterona = mais virilidade. Portanto, se testosterona corresponde à virilidade e a sua incrementação pode decorrer em estradiol, o aumento da testosterona não implica mais virilidade.

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22 Farina era professor de cirurgia plástica na Escola Paulista de Medicina. Personagem presente nos relatos autobiográficos de João W. Nery, Farina realizava cirurgias em pessoas trans antes de qualquer tipo de legislação sobre elas. Em 1971, o cirurgião realizou a primeira construção de neovagina conhecida no Brasil. Em 1976, Farina foi intimado pelo Ministério Público a fornecer nomes e endereços de suas/seus pacientes. Ele se negou. Em 1978, Waldirene, que havia sido operada em 1971, foi considerada pelo Estado vítima de mutilação. O processo movido pelo CFM condenou Farina a dois anos de reclusão. Em 1979, Farina foi absolvido. Entre 1976 e 1979, o “caso Farina” promoveu comentários e solidariedade internacional, contando com uma carta de John Money, na qual aponta para as cirurgias realizadas por Farina como internacionalmente reconhecidas e respeitadas. Entre 1979 e 1997, as cirurgias genitais em pessoas transexuais ocuparam um dissenso jurídico-político. Apenas em 1997 o Conselho Federal de Medicina (CFM) autorizou, via resolução de nº 1.482, as cirurgias que vinham sendo feitas. O processo contra Farina correu na justiça criminal. Sendo condenado em primeira instância, ele foi absolvido após apelação, em segunda instância.

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23 Anita faleceu no dia 15 de novembro de 2024. Agradeço o tempo disponível para conversar comigo.

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24 O xenotransplante é uma prática que implica transplantar o tecido de um animal não humano para o corpo de um humano.

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25 Para informações detalhadas sobre a passagem de Voronoff no Brasil, recomendo a dissertação de Jude: https://repositorio.unicamp.br/acervo/detalhe/978818.

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26 A secretina é o hormônio produzido pelo duodeno que atua na inibição e liberação do suco gástrico. Também é responsável por estimular o pâncreas a secretar o suco pancreático.

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27 Uma singularidade da relação entre transmasculinidades e uso de testosterona é a falta de referência, tanto nas pesquisas de controle como nos discursos proferidos pelas bulas. A testosterona sintética foi lançada no mercado com a pretensão de afetar corpos cismasculinos em fase de envelhecimento. Com o medicamento, emergiu a categoria hipogonadismo, análoga à menopausa. Como uma droga rejuvenescedora, ela é vendida prometendo a recuperação de um estado enérgico do corpo e uma capacidade libidinal. Os testes de controle de fabricação do medicamento não incluíram corpo hormonalmente classificado como mulheres. As bulas dos medicamentos reificam a diferença sexual ao alertarem que “este medicamento é contraindicado para uso de mulheres”, ainda que seus usos em períodos de menopausa sejam frequentes.

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28 Aqui, aposto na ideia de que as feituras corporais com hormônios sexuados tensionam a noção de duas carnes, dois sexos, dois gêneros (Laqueur, 2001), na qual se estabelece o regime da diferença sexual. A proliferação de outras anatomias feitas através de tais alianças multiplica as materialidades humanas em termos sexuais. Um corpo trans-hormonado cresce e diminui (n)os marcadores da diferença sexual. A reorganização da gordura, dos pelos, das genitais e das tonalidades vocais tensiona, assim como os corpos intersexo fazem, a organização entre complementar e opositivo das materialidades sexuais humanas.

Como citar esse artigo de acordo com as normas da revista:

ISNARD, Tui Xavier. “A gente faz sexo com testosterona”. Revista Estudos Feministas, Florianópolis, v. 34, n. 3, e111978, 2026.

Financiamento:

Fapesp n 2024/06863-5.

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Contribuição de autoria:

Não se aplica

Conflito de interesses:

Não se aplica

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    12 Out 2026
  • Data do Fascículo
    2026

Histórico

  • Recebido
    08 Abr 2026
  • Aceito
    14 Abr 2026
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