Open-access De estudos sobre trans a estudos trans: a emergência de um campo

From studies on trans people to trans studies: the emergence of a field

De los estudios sobre personas trans a los estudios trans: el surgimiento de un campo

Resumo:

Neste trabalho, discutimos a emergência da categoria “transepistemologias”, propondo reconfigurar a produção de conhecimento a partir do trânsito, da transdisciplinaridade e da crítica à cisnormatividade. Ao partirmos de um levantamento quanti-qualitativo da produção brasileira sobre travestilidade, transexualidade e transgeneridade (1975-2024), analisamos a transição de um campo de estudos inicialmente sobre pessoas trans para um campo de estudos trans, com destaque para o papel catalisador exercido pelo transfeminismo após 2015 e o prenúncio de uma retração a partir de 2024. Argumentamos que as transepistemologias se fundamentam na posicionalidade da experiência corporificada, na desconstrução dos três eixos estruturantes da cisgeneridade (pré-discursividade, binariedade e permanência) e na crítica às fronteiras disciplinares, convidando a transicionar as próprias epistemologias.

Palavras-chave:
Estudos trans; Trans; Epistemologias trans; Transdisciplinaridade; Cisgeneridade

Abstract:

In this work, we discuss the emergence of the category “trans-epistemologies”, proposing to reconfigure knowledge production through transit, transdisciplinarity, and the critique of cisnormativity. Based on a quantitative-qualitative survey of Brazilian literature on transness (1975-2024), we analyze the transition from a field of study initially about trans people to a field of trans studies, highlighting the catalytic role played by transfeminism after 2015 and the foreshadowing of a decline starting in 2024. We argue that trans-epistemologies are grounded in the positionality of embodied experience, the deconstruction of the three structural axes of cisgenderness (pre-discursivity, binarity, and permanence), and the critique of disciplinary boundaries, inviting us to transition epistemologies themselves.

Keywords:
Trans studies; Transness; Trans epistemologies; Transdisciplinarity; Cisgenderness

Resumen:

En este trabajo discutimos la emergencia de la categoría «transepistemologías», proponiendo reconfigurar la producción de conocimiento a partir del tránsito, la transdisciplinariedad y la crítica a la cisnormatividad. A partir de un relevamiento cuanti-cualitativo de la producción brasileña sobre travestilidad, transexualidad y transgeneridad (1975-2024), analizamos la transición de un campo de estudios inicialmente sobre personas trans hacia un campo de estudios trans, destacando el papel catalizador del transfeminismo tras 2015 y el presagio de una retracción a partir de 2024. Argumentamos que las transepistemologías se fundamentan en la posicionalidad de la experiencia encarnada, la deconstrucción de los tres ejes estructurantes de la cisgeneridad.

Palabras clave:
Estudios trans; Trans; Epistemologías trans; Transdisciplinariedad; Cisgeneridad

Introdução

O que significa falar sobre transepistemologias? De que modo essa conformação curiosa de palavras se apresenta não apenas como um neologismo, mas como uma proposta intencional de reconfiguração de um modo de conhecer? O que queremos dizer quando afirmamos que não apenas identidades e corpos estão em trânsito, mas saberes também?

Essas são apenas algumas das questões que suleiam este artigo. Pensado como uma colaboração ao processo de transformações na produção de conhecimento levado a cabo pela emergência, disseminação e consolidação do pensamento transfeminista e do campo de estudos trans no contexto brasileiro, tencionamos demonstrar, a partir de revisão bibliográfica, pesquisas empíricas, experimentações teórico-metodológicas e conexões entre saberes, como formas de produzir conhecimento orientadas pela perspectiva do trânsito podem contaminar agendas de pesquisa e campos de conhecimento, perturbar projetos de territorialização e fronteiras disciplinares, e propor analíticas de movimento e transformação. Trata-se, eminentemente, de um trabalho conjunto de reenquadramento dos termos a partir dos quais se pesquisa e se faz saber - por e sobre, mas não apenas, transmasculinidades, transfeminilidades e não binariedades.

Ao longo deste artigo, pretendemos reconstruir de modo breve e não exaustivo a trajetória de um campo de estudos originalmente sobre pessoas trans que gradualmente transicionou para um campo de estudos trans.label 1 Analisamos quanti- e qualitativamente o caminho da produção acadêmica sobre o tema no cenário brasileiro para, com isso, realizar um desenho da categoria “transepistemologias” - seus pressupostos, bases teóricas, elementos definidores, e relações com outros designativos e campos de investigação.

Produções brasileiras sobre pessoas trans

Investigamos, inicialmente, a produção brasileira em português sobre pessoas trans quantitativamente por meio de um levantamento bibliográfico abrangente envolvendo artigos revisados por pares publicados em periódicos nacionais, dissertações de mestrado e teses de doutorado. A partir desse recorte, definimos as nossas bases de dados, como o Portal de Periódicos (PP) e o Catálogo de Teses e Dissertações (CTD), ambos da Capes (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior). Para encontrar os trabalhos e já organizá-los em termos de palavras-chave relevantes para a nossa análise, dividimos os descritores de busca em seis (6) categorias:

  • Categoria Transgênero: “transgênero” OR “transgêneros” OR “transgeneridade”;

  • Categoria Transexual: “transexual” OR “transexuais” OR “transexualidade”;

  • Categoria Travesti: “travesti” OR “travestis” OR “travestilidade” OR “transvestigênere”;

  • Categoria Trans:label 2 “mulher trans” OR “mulheres trans” OR “homem trans” OR “homens trans” OR “pessoa trans” OR “pessoas trans” OR “comunidade trans”;

  • Categoria NB:label 3 “não-binariedade” OR “não-binária” OR “não-binárie” OR “não-binário” NOT “linguagem”;

  • Categoria TM: “transmasculino” OR “transmasculinidade”;

  • Categoria TF: “transfeminina” OR “transfeminilidade”.

Consequentemente, para os propósitos deste levantamento, considera-se um trabalho sobre pessoas trans aquele que contenha, em seu título, resumo ou assunto, algum dos termos elencados acima.

Teses e dissertações sobre pessoas trans

A busca realizada no CTD revelou 2434 resultados.label 4 Desses, 1536 (63,1%) são dissertações de mestrado, 501 (20,6%) são teses de doutorado, 155 (6,4%) são dissertações de mestrado profissional, 9 (0,4%) são trabalhos de conclusão de cursos profissionalizantes e 233 (9,6%) não estavam classificados na plataforma. Com respeito às nossas categorias de análise, temos que travesti é a mais mobilizada, aparecendo em pouco mais da metade (54,6%) dos trabalhos, seguida de perto por transexual (50,9%).label 5 Já as categorias trans (25,4%) e transgênero (25,2%) são empregadas por cerca de um quarto da amostra. Finalmente, as categorias mais específicas - TM (2,9%) e TF (0,21%) - têm contribuições marginais. Em particular, um teste de χ2 de Pearson revelou que a diferença na mobilização das categorias entre as diversas modalidades de publicação,label 6 apesar de ser significativa, é, de acordo com o V de Cramér, negligível (χ2(8, N = 3523) = 18,62, p = 0,02, V = 0,05).label 7

Gráfico 1
Série temporal de teses e dissertações sobre pessoas trans por categoria

O Gráfico 1 exibe a evolução temporal da mobilização das categorias de análise nos trabalhos recuperados do CTD entre os anos de 1988 e 2024. Nesse intervalo, a categoria travesti é a mais empregada em trabalhos acadêmicos, exceto pelos anos de 1995, 2003 e 2015, bem como pelo período entre 2017 e 2021, quando observamos um uso maior da categoria transexual. As categorias trans e transgênero, apesar de apresentarem um crescimento pronunciado a partir de 2014, ainda são significativamente menos utilizadas do que travesti e transexual. As mais recentes categorias TM e TF, por sua vez, ainda figuram marginalmente nos trabalhos.

O primeiro trabalho encontrado é a dissertação de mestrado de Veriano de Souza Terto Jr., defendida no programa de Psicologia Clínica da PUC-RJ em 1988. Com o objetivo de elucidar as “chamadas perversões sexuais” [sic], o autor acompanhou uma sociedade orgiástica que se reunia em um cinema carioca e ali conduzia “uma multiplicidade de práticas sexuais, notadamente aquelas homossexuais” (Terto Jr., 1988, p. ix). Em seus relatos de campo, aparece a primeira menção às travestis, ainda tratadas no masculino: “Nos banheiros do balcão alguns travestis estão entrincheirados, o suficiente para tornarem seus estes territórios” (Terto Jr., 1988, p. 14). Quatro anos depois, a dissertação de mestrado de Delivar Tadeu de Mattos (1992, p. 7) emprega pela primeira vez a categoria transexual para analisar o consentimento do ofendido como causa de exclusão de ilicitude para “os casos de lesões consentidas nas cirurgias de natureza estética e de mudança de sexo (transexualismo)”.

Já o termo transgênero aparece apenas em 2004, na dissertação de mestrado de Roberto Alves Reis (2004, p. 6), que analisou “o modo como a deliberação transcorre no espaço midiático agenciando o conhecimento de especialistas e de leigos em dois casos que envolvem a coletividade GLBT (Gays, Lésbicas, Bissexuais e Transgêneros)”. Em 2011, a categoria trans é mobilizada pela primeira vez na tese de doutorado de Daniela Murta Amaral, que tinha como objetivo “problematizar o atual modelo de assistência a pessoas trans e construir novas perspectivas para a construção de políticas inclusivas e abrangentes que garantam o direito à saúde e o exercício da autonomia para pessoas trans” (Amaral, 2011, p. 7). As transmasculinidades surgem como categoria em 2014, na dissertação de mestrado de Rafaela Vasconcelos Freitas, que estudou “os processos de identificação e construção da masculinidade em homens transexuais” e constatou “que as transmasculinidades tencionam um alargamento da idéia de masculino e denunciam as regulações impostas a corpos designados como femininos” (Freitas, 2014, p. 8). Finalmente, a categoria transfeminina é usada pela primeira vez em 2019, na dissertação de mestrado de Nayla Rodrigues Pereira, para se referir a uma das participantes de seu estudo, que visava “identificar as necessidades de saúde de pessoas que vivenciam o processo de afirmação de gênero” (Pereira, 2019, p. xiii) sob a perspectiva da atuação da enfermagem durante o acompanhamento ambulatorial.

Gráfico 2
Série temporal de teses e dissertações sobre pessoas trans e modelos de RLS

No Gráfico 2, exibimos a série temporal para o número total de trabalhos (pontos pretos), bem como dois modelos de regressão linear simples (RLST1 e RLST2), cujos parâmetros estão compilados na Tabela 1 e descrevem o seu comportamento ao longo do período de 1988 a 2024. As regiões coloridas limitadas pelas curvas tracejadas de mesma cor denotam os intervalos de confiança para predições individuais dos respectivos modelos. Um modelo de regressão linear simples (RLS) fornece uma reta

y i ^ = a x i + b , i ∈ N

que melhor descreve o comportamento médio dos dados, ao minimizar o erro da predição de acordo com o critério dos mínimos quadrados.

Tabela 1
Parâmetros dos Modelos de RLS para teses e dissertações sobre pessoas trans

Apesar de ser possível ajustar uma reta para descrever o comportamento médio do período completo, a análise de resíduos juntamente com a inspeção visual sugere que as hipóteses de linearidade, de independência e normalidade dos erros e de igualdade das variâncias são violadas, de modo que o modelo de RLS simples, assim obtido, perde o seu poder explicativo. Uma forma de contornar essa limitação é particionar o intervalo completo e considerar um modelo de RLS para cada partição. Consequentemente, introduzimos dois modelos, o RLST1, que descreve o período de 1988 a 2014, e o RLST2, para os anos de 2013 a 2023.label 8

O modelo RLST1 captura 77% da variação ocorrida no período e cobre com suas bandas de previsão de 95% de confiança todos os anos, exceto por 2012, que apresenta um número de trabalhos y(2012)=59, levemente acima do limite superior {19, 1, 57, 1}. É apenas a partir de 2015 que o número de trabalhos passa a exceder consistentemente a banda superior, indicando uma mudança de regime. Tal novo regime é descrito pelo modelo RLST2, que captura 94% da variação no período, cobrindo com suas bandas de previsão de 95% de confiança todos os anos, inclusive 2020. Portanto, o impacto da pandemia na produção de teses e dissertações sobre pessoas trans ficou dentro das flutuações estatisticamente esperadas. Verificamos, contudo, que, em 2024, houve uma diminuição estatisticamente significativa dos trabalhos, já que y(2024)=197 não pertence ao intervalo de 95% de confiança predito pelo modelo {287.4, 457.0}. Logo, a nossa análise sugere que a produção sobre pessoas trans pode ser dividida em dois períodos: um primeiro de crescimento moderado, com um aumento médio de 2,0 ± 0,2 trabalhos por ano, entre 1988 e 2014; um segundo de crescimento significativo, com um aumento médio de 32,8 ± 3.0, entre 2015 e 2023. No entanto, também alerta para a possibilidade de 2024 marcar o início de um período de decrescimento nos trabalhos sobre a população trans.

Com respeito às grandes áreas do conhecimento, temos a seguinte distribuição: 6 (seis) (0,3%) nas Ciências Biológicas, 360 (14,8%) nas Ciências da Saúde, 1 (um) (0,04%) nas Ciências Exatas e da Terra, 702 (28,8%) nas Ciências Humanas, 413 (17,0%) nas Ciências Sociais Aplicadas, 3 (três) (0,12%) nas Engenharias, 170 (7%) na Linguística, Letras e Artes e 202 (8,3%) na Multidisciplinar. Novamente, um número significativo de trabalhos (577, ou 23,7%) não possuía a grande área do conhecimento discriminada na plataforma. Não obstante, nota-se que as humanidades contribuíram com pouco mais da metade (52,8%) de teses e dissertações sobre pessoas trans, enquanto que as exatas contribuíram com apenas 4 (quatro) trabalhos. Nota-se, em particular, a ausência de qualquer contribuição advinda das Ciências Agrárias.

Gráfico 3
Distribuição do uso das categorias por grande área do conhecimento

Dentre as 1682 pessoas listadas como orientadoras dos 2434 trabalhos encontrados, 23 (1,37%) possuem 5 (cinco) ou mais orientações, sendo responsáveis por 155 (6,37%) dos trabalhos. Neste seleto grupo, encontram-se apenas duas pessoas trans,label 10 Guilherme Almeida e Sil Nascimento, responsáveis, respectivamente, por 9 (nove) e 5 (cinco) orientações. Já dentre as 4101 pessoas listadas como membros de bancas, 30 (0,73%) participaram de 10 ou mais comissões julgadoras, sendo responsáveis pela aprovação de 511 (21,0%) dos trabalhos. Neste grupo, encontramos uma maior representatividade trans, com a presença de Amara Moira, Luma de Andrade, Sil Nascimento, Megg Rayara, Guilherme Almeida e Jaqueline Gomes de Jesus que, juntes, contribuíram para a avaliação de 182 (7,5%) dos trabalhos. Destaca-se o papel de Jesus (2014), por cujas mãos passaram 81 (3,3%) dos trabalhos.

Artigos sobre pessoas trans

A busca realizada no PP revelou 1335 resultados.label 11 As categorias mais mobilizadas foram, novamente, transexual e travesti, mas com uma presença levemente maior da primeira, que apareceu em 657 (49,2%) dos trabalhos, enquanto que a segunda constou em 615 (46,1%). As categorias trans e transgênero aparecem, respectivamente, em 393 (29,4%) e 302 (22,6%) dos artigos. Já as categorias NB, TM e TF continuam minoritárias, sendo empregadas em apenas 55 (4,1%), 21 (1,6%) e 2 (dois) (0,15%) dos trabalhos.

Gráfico 4
Série temporal dos artigos sobre pessoas trans por categoria

O Gráfico 4 exibe o número de artigos que mobilizam cada uma das categorias estudadas no período de 1976 até 2024. A produção, inicialmente incipiente e intermitente, começa a se tornar mais frequente e estável a partir de 2002, com uma predominância de artigos empregando a categoria travesti. O termo transexual, que começa a ganhar força a partir de 2010, torna-se, em 2013, a principal categoria estudada, mantendo-se assim até 2022, com um retorno da predominância da categoria travesti. Contudo, a partir de 2023, a categoria trans passa a ser a mais empregada.

O termo transexual é o primeiro a aparecer em uma produção nacional em português revisada por pares no artigo de P. H. Saldanha e Luiza Campos Olazábal (1976), publicado nos Arquivos de Neuro-Psiquiatria. O trabalho buscava identificar uma causa etiológica para o “transexualismo” [sic] através de um estudo citogenético que revelou

que a frequência (32%) de mosaicismo quanto aos cromossomos sexuais em 25 transexuais é estatisticamente superior aos valores observados em 14 homossexuais e 40 controles normais, nos quais a proporção de mosaicismo é praticamente nula (Saldanha; Olazábal, 1976, p. 255).

Já o termo travesti aparece apenas em 1992, na Revista de Antropologia, em uma resenha de um livro de Sérgio Alves Teixeira (1992) cujo título “A semântica simbólica dos nomes de galos de briga, bois, prostitutas, prostitutos e travestis”, é, de acordo com Marcos Pereira Rufino (1992, p. 232), capaz de “de suscitar a nossa curiosidade à primeira vista”. O termo transgênero é invocado pela primeira vez no título de um artigo de Maria Consuelo Cunha Campos, publicado em 1999 na Revista Estudos Feministas. Nesse trabalho, Campos propõe uma reflexão sobre identidades prescritas e proscritas a partir da oposição entre a estabilidade da identidade civil expedida pelo estado e a maleabilidade dos processos de identificação contemporâneos catalisadores por novas tecnologias de gênero. Para tanto, discorre à luz do discurso cinematográfico dos anos 90 sobre a “escolha de Sofia entre cometer a falsificação ou passar por novos constrangimentos” (Campos, 1999, p. 15-16) imposta à Roberta Close.

A não binariedade é invocada como categoria de gênero pela primeira vez no trabalho de Gabriela de Andrade Rodrigues, publicado em 2010, na revista Educação e Pesquisa, que propõe, no contexto da educação em cultura visual, “mudanças relativas à metodologia de ensino, focando as relações de poder e gênero que cruzam as convivências entre professor/ educando e as socializações entre os próprios estudantes” (Rodrigues, 2010, p. 737). Para a autora, “um enfoque não binário significa não posicionar várias identidades como não heterossexuais e, portanto, anormais, que fogem ao padrão” (Rodrigues, 2010, p. 741).

A categoria trans surge em um artigo de Guilherme Almeida, publicado no Dossiê Vivências Trans: Desafios, dissidências e conformações, organizado na Revista Estudos Feministas por Berenice Bento e Larissa Pelúcio (2012). Nesse trabalho, Almeida explora “a emergência de uma nova categoria identitária no Brasil, a de ‘homem trans’” que “tem sido potencializada pelo estabelecimento do processo transexualizador no SUS” (Almeida, 2012, p. 513). Contudo, a transmasculinidade, como uma categoria própria, só se constitui 4 (quatro) anos depois, na resenha que Isabel Wittmann (2016) publicou também na Revista Estudos Feministas sobre o livro Transmasculinidades: a emergência de novas identidades políticas e sociais, de Simone Ávila (2014). Finalmente, em 2018, a categoria transfeminina é mobilizada por Maria Léo Fontes Borges Araruna em um artigo publicado na Periódicus. Em seu trabalho autoetnográfico sobre a socialização transfeminina em espaços urbanos, ela busca “denunciar facetas de uma sociedade estruturada na cisnormatividade e na transfobia” (Araruna, 2018, p. 133).

Gráfico 5
Série temporal dos artigos sobre pessoas trans e modelos RLS

O Gráfico 5 fornece a série temporal para o número total de trabalhos (pontos pretos), bem como três modelos de regressão linear simples (RLSA1, RLSA2 e RLSA3), cujos parâmetros estão compilados na Tabela 2 e descrevem o seu comportamento ao longo do período de 2002 a 2024.

Tabela 2
Parâmetros dos Modelos de RLS para artigos sobre pessoas trans

Novamente, um único modelo de RLS para o período completo apresenta problemas que limitam significativamente o seu poder interpretativo. Assim, a partir da análise de resíduos e da inspeção visual, particionamos o intervalo completo nos seguintes três períodos: (i) de 2002 a 2014; (ii) de 2014 a 2021; (iii) de 2021 a 2024, e consideramos os respectivos modelos de RLS.

O modelo RLSA1 captura 83% da variação ocorrida no período e cobre, com suas bandas de previsão com 95% de confiança, o número de artigos publicados em todos os anos até 2014. É também a partir de 2015 que o número de publicações passa a exceder consistentemente a banda superior, indicando uma mudança de regime. Tal novo regime é descrito pelo modelo RLSA2, que captura 99% da variação no período, cobrindo, com suas bandas de previsão com 95% de confiança todos os anos, até 2022, a partir de quando observamos valores significativamente menores do que os previstos. O modelo RLSA3 captura, então, 81% da variação ocorrida neste último período. Portanto, a nossa análise sugere que a produção de artigos sobre pessoas trans pode ser dividida em quatro períodos: um primeiro de produção incipiente e intermitente entre 1976 e 2002; um segundo de crescimento moderado, com um aumento médio de 1,6 ± 0,2 trabalhos por ano, entre 2002 e 2014; um terceiro de crescimento significativo, com um aumento médio de 25,3 ± 1.0, entre 2015 e 2021; e um quarto de forte decrescimento, com a diminuição média de 23,3 ± 7,9 trabalhos por ano a partir de 2022. Assim, de uma maneira ainda mais nítida, a análise da produção de artigos sobre pessoas trans sinaliza que entramos, recentemente, em um período de desinteresse pelo tema.

Os artigos considerados no corpus desta análise foram publicados em 1334 revistas distintas, com pouco mais de um quinto (21,3%) dessa produção concentrada em cinco periódicos: a Revista Periódicus, com 89 (6,7%) artigos, a Research, Society And Development, com 82 (6,2%), a Revista Estudos Feministas, com 50 (3,8%), os Cadernos Pagu, com 33 (2,5%), e a Sexualidad Salud y Sociedad (Rio de Janeiro), com 30 (2,3%).

Gráfico 6
Distribuição do uso das categorias por periódico

Dentre as 3597 pessoas listadas como autoras, 48 (1,3%) possuem 5 (cinco) ou mais publicações, sendo responsáveis por 329 (9,2%) dos trabalhos. Nesse seleto grupo, encontramos apenas duas pessoas trans, Beatriz Pagliarini Bagagli e Guilherme Almeida, ambos com 5 (cinco) publicações.

História de surgimento do campo: de estudos sobre trans para estudos trans

A produção de conhecimento realizada sobre pessoas trans se estabeleceu, inicialmente, no campo das ciências sociais, com a antropologia se debruçando, entre os anos 1990 e início dos 2000, principalmente, conforme Gráficos 1 e 4, sobre a travestilidade e o exercício do trabalho sexual. As etnografias de Hélio Silva (1993), Neuza Maria de Oliveira (1994) e Suzana Lopes (1995), de acordo com mapeamento de Marcos Benedetti (2005), inauguram o terreno de interesse - ainda que tenham abordagens teóricas e pressupostos morais distintos, convergem à medida que se baseiam em longas horas de trabalho de campo interagindo com interlocutoras. Também têm como interesse percepções sobre corpo, gênero e identidade em articulação aos contextos de violência e vulnerabilidade econômica que marcavam a prostituição.

Esse campo disciplinar continuou expandindo e complexificando sua atenção, com pesquisas de enfoque etnográfico como as de Benedetti (2005), Pelúcio (2007), Tiago Duque (2011), Silvana Nascimento (2014a; 2014b) e Letizia Patriarca (2015), dentre outras. Centram-se em questões que se espraiavam em articulação à transfeminilidade e ao trabalho sexual, como: dinâmicas de ocupação de espaço e reconfiguração de territorialidades; particularidades geracionais de sociabilidade, composição corporal e vivência do desejo; interpelações por forças policiais e pela Justiça Penal; e relações entre adoecimento (em especial o HIV/AIDS), acesso a serviços e políticas públicas de saúde e um regime regulatório de identidades e sexualidades que organiza o seu funcionamento.

Esses dois últimos focos de atenção se conectam a outros dois campos mais abrangentes, que também se desenvolvem ao longo das décadas iniciais dos anos 2000 e salientam o interesse acadêmico, sobretudo nas ciências sociais, acerca do trânsito de gênero, afastando-se de uma atenção limitada à travestilidade, conforme indica a mobilização crescente de categorias como trans, transgênero, NB, TM e TF. De um lado, há articulações entre subjetividades trans e luta por reconhecimento de direitos, modelos normativos de verdade de gênero, identidade e cidadania. Cabe citar, aqui, pesquisas como as de Elizabeth Zambrano (2003), Flávia Teixeira (2013), Lucas Freire (2015) e Lima (2015), que deram prioridade analítica ao campo de interlocução e tensão entre profissionais do direito e pleiteantes de direitos como a retificação de nome e sexo em documentos de identificação e a acesso ao processo transexualizador.

De outro, vemos um corpo robusto de pesquisas que se dedicam à área da saúde - produção de categorias nosológicas e diretrizes diagnósticas e de tratamento; idealização, organização e funcionamento de serviços de saúde voltados à população trans - como o processo transexualizador; dinâmicas de interação entre profissionais da saúde e pleiteantes e utilizadôries de ditos serviços, marcadas por assimetrias de poder; paradigmas normativos de produção de conhecimento médico sobre modos de existência generificada desviantes da cisnorma. Neste campo, são notáveis os trabalhos de Bento (2006), Marcia Arán (2006), Arán e Murta (2009), Arán, Murta e Tatiana Lionço (2009), Maria de Fátima de Lima Santos (2010) e Jorge Leite Jr. (2011). Aqui, tais intelectuais passam a sublinhar e submeter a exame um empreendimento classificatório médico que, afetado por pressupostos políticos e morais, se apoia em linguagem e protocolos científicos de aferição de verdade para distinguir transexual de travesti enquanto categorias psicopatológicas. Dita distinção (e os pressupostos que a sustentam) é alimentada por e tem efeitos sobre o Poder Judiciário, a elaboração e implementação de políticas públicas e representações de imprensa e conteúdo audiovisual.

Esse campo de investigação, levado a cabo quase que em sua inteireza por estudantes de pós-graduação e docentes universitáries cisgênero, conforme demonstra a nossa análise quantitativa, sofre uma virada com o ingresso crescente de pessoas trans nas universidades. A proliferação de trabalhos levada a cabo por tais autorias trans forma, todavia, um campo de estudos que, assim como os estudos transgênero nos Estados Unidos (Stryker, 2021), é herdeiro de e tem uma relação intrínseca com o movimento trans e com um campo de reflexões sobre os trânsitos de gênero que ocorrem há décadas ao largo de espaços universitários.

No Brasil, ainda ao longo dos anos 1970 e 1980, em que se destacam o conservadorismo político, a visibilização e a estigmatização da homossexualidade enquanto elementos da racionalidade do regime ditatorial, e uma abordagem especulativa e ambivalente da transexualidade, informada por enquadramentos médico e moral nos meios de comunicação, escritas trans alcançam certa atenção pública pela primeira vez. Benjamin Cowan (2015) descreve como ideólogos do regime e autoridades de departamentos de segurança compartilhavam um imaginário sobre inimigues da ordem e da nação que classificava a “homossexualidade” - que, então, abrangia experiências de trânsito de gênero, como destacado por James Green e Renan Quinalha (2015) - como conduta que fazia parte de uma mobilização mais ampla de subversão e guerra revolucionária, também composta pelo comunismo, ateísmo, convicção política à esquerda, movimentos feminista, negro e indígena etc.

Já jornais de grande circulação como O Globo e Folha de S. Paulo passam, a partir dos anos 1970, a noticiar com maior frequência eventos e controvérsias envolvendo a transexualidade. Tais veículos se dedicaram a discutir com alguma recorrência a possibilidade de se “mudar o sexo” de uma pessoa e como isso poderia se dar a partir de relatos sobre eventos médicos e casos judiciais dedicados ao tema, mas sempre sob a perspectiva de profissionais da medicina e do direito. Em meio a esse cenário, nota-se o lançamento póstumo das autobiografias A queda para o alto, de Anderson Herzer (1982), e Erro de pessoa, de João W. Nery (1984). Ambos os livros, a partir da narração das trajetórias de seus autores, questionam dinâmicas sociais de reprodução de desigualdades e de precarização de vidas de sujeitos que não cabem em expectativas sociais de gênero.

A queda para o alto denuncia as diversas formas de abandono, violência e recusa de afeto que marcaram a trajetória de Herzer em suas passagens pela antiga FEBEM. Ainda que a transformação de sua identidade de gênero e as implicações disso possam parecer secundárias, como nota Amara Moira (2018), a obra evidencia o caráter medular das expectativas cisheteronormativas e de modelos brutais de masculinidade ao longo do desenrolar de formas reiteradas de violência e arbitrariedade no espaço doméstico, durante sua institucionalização e nas breves oportunidades de vida em liberdade.

Já Erro de pessoa também promove um movimento de questionamento de pressupostos sociais e científicos a partir de reivindicações outras acerca da verdade sobre corpos, sexo e identidade. Na nota que abre a obra, o autor vincula o propósito de “documentar as sensações que tenho das vivências ambíguas no transcurso de minha vida” ao de “denunciar a hipocrisia e a ignorância sociais diante de um problema sério, profundo”. Ao longo do texto e após a descoberta do “transexualismo” enquanto condição médica, disputa com especialistas da área o estatuto patológico dessa condição e campos de possibilidades de alteração corporal - instando tais profissionais a ver procedimentos de “mudança de sexo” não como práticas arriscadas de mutilação das quais pessoas poderiam se arrepender no futuro, mas, sim, como formas de materialização de um senso de si.

Essas elaborações passam, contudo, ao largo das longas matérias que tanto os jornais Folha de S. Paulo quanto O Globo publicam sobre eles. No caso de Herzer, atribuem foco considerável à “tragédia” da marginalidade, da carência de afeto, do abuso de substâncias e da violência que o teriam levado a cometer suicídio poucos meses antes da publicação do livro. Atribuem, também, à fragilização que poderia tê-lo tornado mentalmente vulnerável à “confusão” quanto ao próprio gênero, usando seu nome de registro e pronomes femininos. Já o enquadramento das notícias sobre Nery e Erro de pessoa volta-se ao questionamento dos modos como sociedade e instituições brasileiras reagem ao “transexualismo” do qual é “portador”, mas, ainda assim, a atenção reside mais nos dados de uma vida considerada difícil do que nas reflexões feitas pelo autor sobre ela.

Nas décadas seguintes, entre os anos 1990 e 2000, a constituição de uma coletividade organizada por e de pessoas trans, voltada à denúncia de discriminação e à reivindicação de transformações sociais, começa a se dar, no que Thiago Coacci (2018, p. 132) define como primeira onda do movimento trans. Trata-se de uma reação, levada a cabo por travestis, majoritariamente negras, à violência policial que impedia sua circulação no espaço público e o exercício do trabalho sexual - à época, uma das únicas formas de garantirem sua subsistência. Mas, aponta Coacci, o estabelecimento de políticas de enfrentamento do HIV/AIDS no país também contribuiu para a emergência dessa organização. É neste contexto que surge, em 1992, no Rio de Janeiro, a ASTRAL - Associação de Travestis e Liberados. Esse será um padrão recorrente ao longo da década marcada pela nucleação de coletivos T: “travestis que se prostituíam e que estavam envolvidas em projetos de prevenção à aids se reuniam e decidiam fundar uma organização” (Coacci, 2018, p. 134).

O debate público sobre subjetividades trans também ganha outra tônica: a atenção midiática marcada pelo discurso biomédico produz no imaginário popular uma imagem ambivalente, sobretudo da categoria “travesti”, evidenciando o pressuposto de relação opositiva entre verdade, permanência e natureza de um lado, e falsidade, contingência e construção social de outro. Salientava-se o sucesso de expressões de gênero femininas, como vemos no destaque dado a figuras como Telma Lipp e Roberta Close nos anos 80 e 90. Na veiculação de festas de carnaval, lançamentos de peças de teatro e shows em boates, a imprensa destaca o glamour de artistas como Rogéria descrevendo gestos, formas de corpo, vestimentas - celebrando sua adequação a convenções cisfemininas (Elias Veras, 2015). Atribuía-se a essa feminilidade, no entanto, em virtude de seu aspecto construído, um caráter de artifício e se sugeria que a subjetividade travesti se sustentava em engano: “fantasia, disfarce, embuste e falso-ser” (Veras, 2015, p. 85), a ser posta sob suspeição. Com pessoas não famosas, o tratamento era ainda mais marcado por suspeita, com a veiculação de reportagens sensacionalistas sobre criminalidade, violência e promiscuidade.

Nesse cenário, autobiografias de celebridades nacionais, como Nem tão bela, nem tão louca, de Ruddy Pinho (2007), e de pessoas até então não publicamente conhecidas, como A Princesa, de Fernanda Farias de Albuquerque e Maurizio Jannelli (1995), chegaram às livrarias. Ambas recusam expectativas convencionais de um gênero literário voltado à história individual, e a sentidos hegemônicos de existência transexual pautados em sofrimento interno que apenas encontra resolução a partir de acompanhamento médico, da realização de procedimentos cirúrgicos de transformação corporal, e da conquista de um corpo socialmente lido como cisfeminino.

Tanto Pinho quanto Albuquerque elaboram longas descrições que demonstram a imprescindibilidade de vínculos comunitários entre homens homossexuais, travestis e mulheres transexuais para seus processos de subjetivação e projetos de futuro, bem como para a conformação de condições materiais de existência - e não que se trata de um reconhecimento de si a partir de um diagnóstico feito por autoridade médica e de intervenções terapêuticas e cirúrgicas. Ambas questionam, também, as fronteiras e classificações convencionais, atravessadas por moralidade e pressupostos patologizantes, estabelecidas entre “transexual” e “travesti”, apresentando moldes de construção de si que rejeitam a expectativa de permanência identitária como critério de legitimidade e verdade. As duas se apresentam, inicialmente, como gays afeminados, depois como travestis, e, mais ao fim da narrativa, como mulheres transexuais ou apenas mulheres; entre o primeiro ponto e o último há um continuum que marca diferentes graus de estabilização da expressão de si feminina - não distinção de espécie. Trata-se de trânsito que produz ao longo de toda a sua trajetória sentidos reais de pessoa, cuja verdade não se reduz devido a seu caráter transitório.

Entre os anos 2000 e 2010, o cenário da militância, da notoriedade da produção cultural trans e da produção de conhecimento sofre uma transformação aguda, como podemos ver nos Gráficos 2 e 5. Sofia Favero (2020a) sublinha, assim como Stryker (2008), ao olhar para o contexto estadunidense, o papel crucial de uma maior difusão da internet no Brasil na década de 2010 na produção, circulação e reflexão conjunta sobre aspectos relacionados a trânsito de gênero para além dos muros das instituições de ensino superior, em especial com o que se convencionou como transfeminismo ao longo dos últimos 15 anos. Esse termo tem passado por franca disseminação, principalmente a partir de 2014, através de redes virtuais de informação, como o blog www.transfeminismo.com, fundado por Hailey Kaas. Mas também é reivindicado no cenário universitário, defendido e difundido por uma atuação acadêmica que situa essa designação política e sua agenda como fundamento da produção de conhecimento realizada por pessoas trans engajadas em examinar formas de vivenciar identidade de gênero. Um exemplo é a coletânea Transfeminismo: teorias e práticas, lançada em 2014 (Jesus, 2014). No prefácio, Juliana Perucchi já salienta: “o trabalho coletivo de enfrentamento a lógicas de exclusão de pessoas trans é necessariamente político e científico” (2014). Como resultado, a partir de 2015, iniciam-se os períodos de crescimento significativo nas produções de artigos e teses sobre pessoas trans. Também se destaca o livro Transfeminismo, da professora da Universidade Federal do Piauí Letícia Nascimento (2021).

De fato, assevera Coacci, o período a partir de 2010 até a atualidade é atravessado pela 3ª onda do movimento trans, com marcações muito acentuadas. Ele destaca “o crescimento de visibilidade das pessoas trans na mídia (...), a multiplicação dos padrões de atuação política, com um enfraquecimento do modelo organizacional das ONGs e o crescimento do ciberativismo (...)” e a emergência de contramovimentos, como o feminismo radical e a ascensão ao poder de figuras políticas de direita com foco prioritário em pautas de combate à “ideologia de gênero” (Coacci, 2018, p. 164). Elocubramos que essa resposta conservadora possa ser o fator que desencadeou a retração no campo de estudos trans evidenciada pela diminuição significativa do número de trabalhos sobre pessoas trans observada nos últimos anos.

Dois aspectos são salientados por Coacci, ao analisar esse recorte temporal: visibilidade em ascensão em plataformas de comunicação e expressão diversas e tomada de formas novas de engajamento político. No que toca ao primeiro, torna-se evidente como, nos últimos anos, a indústria cultural brasileira vem sendo cada vez mais ocupada por pessoas trans: no âmbito da música, artistas como Isma e Vita (dupla que forma o grupo de funk Irmãs de Pau), Jup do Bairro, Linn da Quebrada, Liniker, Urias e Ventura Profana conquistaram notoriedade em diferentes escalas - tratando aspectos da experiência de trânsito de gênero, críticas a modelos de afeto e desejo, desafios a convenções sobre temas como sagrado, violência e desigualdade em letras de suas canções. No audiovisual, documentários premiados e elogiados pela crítica se destacam, ainda que não tenham atingido circuitos de transmissão de largo alcance - como “Meu amigo Cláudia” (2009), sobre Claudia Wonder; “Bixa Travesty” (2018), sobre Linn da Quebrada, e “Indianara” (2019), sobre Indianarae Siqueira.

Na escrita de autorias trans, certo movimento tem se tornado cada vez mais recorrente e franqueado espaço em circuitos intelectuais e artísticos: estudos críticos que, informados por trajetórias de trânsito de gênero e sinalizando seus efeitos teórico-metodológicos, pretendem desafiar modelos de ciência e interpretações da história e da sociedade brasileiras. Este é o caso de: E se eu fosse puta, de Moira (2016); Não vão nos matar agora, de Jota Mombaça (2021); Monstrans: experimentando horrormônios, de Lino Arruda (2021); Quando o sol não mais brilhar, de Castiel Vitorino (2022); Ex/Orbitâncias: os caminhos da deserção de gênero, de Abigail Campos Leal (2021); e as coletâneas Corpos transitórios: narrativas transmasculinas (Bruno Pfeil et al., 2022) e Ateliê de futuridades trans (Slam Marginália; Móri Zines, 2020-2021).

Tal proposta, no entanto, não se restringe à escrita: podemos citar multiartistas, como a própria Jota Mombaça, em instalações, vídeos e performances voltadas para a crítica anticolonial; Castiel Vitorino, que também, em diferentes meios, reflete sobre ancestralidade, relações interespecíficas e cura como alternativas à violência ontológica e cognitiva da modernidade; e a já citada Ventura Profana, que se apropria da linguagem neopentecostal para propor futuros de abundância e vitória para vidas trans. Podemos destacar, ademais, jovens ingressantes do circuito artístico como A Transalien, Aun Helden, Uýra Munduruku, o coletivo Themônias, Walla Capelobo etc.

Com autorias cuja trajetória navega entre a militância, as artes e a academia, mas que não reivindicam pertencimento propriamente a nenhum desses campos em seus moldes hegemônicos, tais obras inauguram um campo de reflexão e crítica social particular. Estão menos interessadas em explorar aspectos da identidade de gênero, experiências de transição, ou relações entre masculinidades e feminilidades; trata-se, mais bem, de trabalhos que partem de uma perspectiva informada pelo trânsito, pelas reações sociais a ele e pelo campo de possibilidades de reflexão e ação gerados por trajetórias situadas para refletir sobre uma miríade de fenômenos sociais. A experiência, assim, “é um modo de produção de conhecimento” (Favero, 2020a, p. 11) - não necessariamente um objeto de atenção.

Para além desse campo artístico e intelectual diverso que se expande, o acesso de pessoas trans a instituições de ensino superior em cursos de graduação e pós-graduação formou, no próprio espaço acadêmico, ao longo de todo o país, uma rede de pesquisadôries trans que empreendem investigações em torno de temas relacionados à identidade de gênero. Favero (2020a, p. 4) cita, para fins de exemplo, intelectuais como Jaqueline Gomes de Jesus (IFRJ), Luma Andrade (UNILAB), Megg Rayara (UFPR), Viviane Vergueiro (UFBA), dentre outras. Podemos destacar, também, Guilherme Almeida (UERJ), Letícia Nascimento (UFPI), Sil Nascimento e Gabrielle Weber (USP), Lux Ferreira Lima (Unicamp) e Vitória Grunvald (UFRGS).

Mais recentemente, nos últimos anos, a luta por políticas de acesso e permanência na graduação e na pós-graduação, como a aprovação de cotas trans, tem se expandido por instituições de ensino superior (Gabrielle Weber, 2024): no momento da escrita desse artigo, pelo menos 14 Universidades Federais e 6 Universidades Estaduais aprovaram tal ação afirmativa. Enquanto os efeitos de tais ações ainda estão por ser notados e investigados, ativistas e intelectuais registram como pode a trajetória de presença de pessoas trans na academia: a pesquisadora Juh Cirico, por exemplo, criou e desenvolve o projeto PhD Trans Brasil,label 13 que dá visibilidade a pessoas trans que receberam o título de doutoras - divulgando informações sobre tais pesquisadôries, suas pesquisas e áreas de atuação. A página, até o momento desta escrita, já havia divulgado 31 perfis. Notamos, entretanto, que, a despeito desse influxo de pessoas trans na academia, a produção sobre nossas corpas continua capitaneada pela cisgeneridade, como a nossa análise sobre as autorias de artigos e as orientações de dissertações e teses denunciam.

Esse cenário atual evidencia o início de uma reestruturação de instituições não só em virtude de sua presença visível - ter pessoas trans ministrando e assistindo a disciplinas em salas de aula, participando de reuniões docentes e assembleias estudantis e sindicais, como membros de comissões de pesquisa e projetos de extensão, sujeitos cuja fisicalidade perceptível perturba expectativas de pertencimento associadas à universidade -, mas também de reconfigurações teórico-metodológicas que propõem, movidas por desafios, tensões e saídas em condução de pesquisa, bem como modos de conhecer e interpretar específicos.

Tais especificidades são produto não de uma identidade, pura e simplesmente, mas do modo como o trânsito de gênero, as formas dissidentes de habitar e mover o corpo e a reação social a eles configuram possibilidades de existência e perspectivas particulares de investigação e entendimento, até então não consideradas como posicionamentos privilegiados na universidade. Exemplos de tais propostas são a ética pajubariana e a desaquengrafia, de Favero (2020a; 2020b), bem como o empreendimento de Viviane Vergueiro (2016) de partir da precariedade e da violência que marcam existências trans no Brasil para, valendo-se de autoetnografia, empreender um estudo crítico da cisgeneridade como norma. Da mesma forma, é oportuno citar a proposta de pensamento transfeminista negro de Sil Nascimento, que, influenciado pelo trabalho de Patricia Hill Collins e atento às articulações de “tanto conhecimentos tradicionais das pistas e do pajubá quanto pela produção teórica acadêmica” (Nascimento, 2021, p. 551), volta-se à desnaturalização de regimes regulatórios de classificação e organização social a partir da evidenciação dos processos cisnormativos e brancocentrados de produção de conhecimento científico e da ênfase atribuída a saberes produzidos desde uma posicionalidade transfeminina negra.

Transicionar as epistemologias

Considerando a trajetória da produção de conhecimento em torno do que podemos chamar de “trans”, torna-se, imaginamos, cada vez mais evidente o que queremos dizer com “transepistemologias”. Não se trata, eminentemente, de campo de investigação sobre pessoas trans e fenômenos a elas articulados; não se trata sequer de estudos cujo enfoque seja gênero, envolvendo suas normas e desobediências. Como tentamos delinear no que toca ao cenário brasileiro, e como Susan Stryker (2021) resgata no que tange ao contexto euroamericano, projetos como esse têm uma longa história. O que se faz aqui é outra coisa e tem um compromisso particular com três elementos centrais: posicionalidade; evidenciação e crítica a pilares da produção de conhecimento; e transdisciplinaridade.

Por posicionalidade, referimo-nos à consideração, nos termos de Stryker, da “experiência corporificada do sujeito enunciador (...) como componente apropriado - na verdade, essencial - à análise de fenômenos” (ibid., n.p.). Isso não significa, como elabora a intelectual estadunidense, um acesso mais imediato à verdade ou a produção de um saber mais objetivo; não é o binário verdadeiro-falso que sustenta essa aposta. O que argumentamos é, seguindo Favero (2020a), que a trajetória percorrida por sujeitos produtores de conhecimento, marcada por campos de possibilidades e limitações, por grades de inteligibilidade social, por experiências de pertencimento e/ou pelo atravessamento de vulnerabilidades, discriminações e violências, afeta o tipo de conhecimento que se produz. Afeta o que interessa a tais pessoas pesquisadoras, as perguntas que fazem, as escolhas teóricas que mobilizam. Da mesma forma, como argumenta a doutora em psicologia, a inscrição social produzida pela trajetória de tais pessoas, as posições pelas quais navegam na socialidade (atravessadas por gênero mas também por raça, classe, geração, sexualidade deficiência, dentre outros marcadores) criam acessos e interdições diferenciais à pesquisa. Demandam ajustes metodológicos. Reconfiguram caminhos de investigação. Levam a resultados muito distintos.

O debate sobre saberes situados também não é novo; como Favero destaca, tal reflexão é herdeira de uma linhagem de pensamento feminista interseccional, formada por reflexões como em Donna Haraway (1995) e Collins (2016; 2000). O elemento inovador que se apresenta é considerar de que modo vidas atravessadas - não só diferentemente, mas multiplamente - pela cisgeneridade e pela transgeneridade se encontram, se relacionam e levam a pesquisas diversas.

Não falamos, aqui, em “pessoas cis” e “pessoas trans” - e, sim, sobre atravessamentos pela cisgeneridade e pela transgeneridade. Isso não é trivial; tem a ver com o modo como normas de cognição e inteligibilidade conformam a produção de conhecimento, e com o que se pretende questionar e perturbar através das transepistemologias. Um aspecto central dessa conformação é, argumentamos, a cisgeneridade.

Aqui, a cisgeneridade não está sendo compreendida como modalidade de gênero, embora possa, também, assumir esse significado. Por cisgeneridade, seguimos Vergueiro (2016), que a elabora enquanto um modo normativo de organização de ideias, modos de entendimento, instituições, políticas etc.; um conceito que se aproxima do que Julia Serano (2007) denomina cissexismo. Trata-se de um referencial que leva à classificação e à hierarquização de identidades e corporalidades generificadas como normais e anormais, legítimas e ilegítimas, mas também à conformação de modelos de família, de moralidades e de ações de Estado; que leva a expectativas de interação e - o que nos interessa - a modos de conhecer, a condições de emergência de uma teoria, a pressupostos de análise naturalizados.

De acordo com Vergueiro, tal definição de cisgeneridade tem três eixos: pré-discursividade; binariedade; e permanência. A pré-discursividade se refere ao entendimento de que seria possível apreender aspectos da realidade social de modo objetivo, a partir de uma verdade própria, autocontida, independente do contexto sociocultural em que tais aspectos se inserem, dos enquadramentos discursivos próprios de tal contexto e de percepções de atores envolvidos. Isso pode se referir, por exemplo, a convenções hegemônicas sobre sexo, dimorfismo sexual e verdade biológica como dados autoevidentes, convenções essas que vêm sendo sistematicamente acionadas no debate público. Refere-se, também, à apreensão do real tal qual se institui no pensamento ocidental moderno a partir do desenvolvimento científico fundado na colonialidade de pensamento (Arturo Escobar, 2020). Nesses termos, em uma racionalidade colonial do Um, há apenas uma verdade dada ontologicamente, em oposição a falsidades, crenças, superstições, ideologias - trata-se de lógica que justifica, por exemplo, a desqualificação de saberes tradicionais em contraposição ao conhecimento científico, apresentado como mais “objetivo”, mais dotado de ferramentas a capturar imediatamente a “materialidade”, cuja verdade está essencialmente dada para quem tem os mecanismos para apreendê-la.

O outro eixo, a binariedade, refere-se à organização dos elementos do mundo em binários opostos, exclusivos, excludentes e imiscíveis. Novamente, a consideração do sexo se evidencia: a classificação hegemônica de corpos como masculino ou feminino, baseada na naturalização do dimorfismo sexual, se dá não apenas pela restrição das possibilidades de normalidade a esses dois termos, mas a seu entendimento como categorias discretas e disjuntas que encontram sentido pelo contraste que estabelecem uma com a outra e pelo pressuposto de coerência e homogeneidade que define cada uma.

Não obstante, tal eixo também é herdeiro dos dualismos ontológicos que embasam a tradição cartesiana de pensamento e suas atualizações coloniais - em binários que até hoje estruturam nossa compreensão e categorização, como mente e corpo, natureza e cultura, objetividade e subjetividade, fato e opinião etc. Collins (2016) destaca o modo como tais operações são atravessadas por relações de poder, ao não apenas enquadrarem diferenças em dualismos, mas também apresentá-las como essencialmente opostas e desiguais, em assimetrias de valor que implicam dinâmicas naturalizadas de superioridade e inferioridade, dominação e subordinação.

Por fim, o último eixo se refere à permanência: “a premissa de que corpos ‘normais’ (...) apresentam uma certa coerência (...) a uma ou outra categoria de ‘sexo biológico’, e que tal coerência se manifeste (...) de maneira consistente através da vida de uma pessoa” (Vergueiro, 2016, p. 260). Ou seja: pressupõe-se uma verdade de si cuja manifestação poderia ser aferida desde o princípio da existência e se manteria estável, desenvolvendo-se apenas linear e gradualmente. Tal eixo se evidencia, por exemplo, no modo como a validade das identidades trans foi verificada por décadas por operadores do direito a partir da expectativa de um relato autobiográfico que manifestasse a identidade de gênero oposta à atribuída ao nascer “desde a mais tenra infância” e sua persistência ao longo da vida das pessoas requerentes (Lima, 2015). De modo contrastivo, se evidencia na desqualificação de pessoas que se apresentam como não binárias e, posteriormente, assumem outras identidades - como travesti, homem trans etc. -, como se o momento de apreensão de si como não binárie fosse menos verdadeiro porque não se manteve, porque se transformou.

No entanto, essa atribuição de valor ao que está presente “desde o começo” e que persiste não se restringe à validação de identidades de gênero. Jack Halberstam (2022) argumenta em torno das influências heteronormativas e burguesas da nossa valorização da longevidade, estabilidade e amadurecimento linear de trajetórias pessoais, familiares e profissionais. De modo mais sutil, tais pressupostos se revelam na suspeição, em processos seletivos para pós-graduação e para docência, bem como na consideração de financiamentos de pesquisa por agências de fomento, diante de hiatos de carreira, ou mudanças consideráveis de temas de investigação - como se pausa e mudança expressassem fragilização ou não amadurecimento de tal trajetória de pesquisa.

As transepistemologias desafiam e perturbam tais eixos, propondo outros modos de compreensão do mundo, de teorização e de produção de pensamento crítico - sobre sexo e gênero, mas não só. Ao questionarem tal pré-discursividade, pretendem não apenas evidenciar a naturalização de uma verdade dada, passiva, pronta do mundo, que tem uma trajetória sócio-histórica que remonta à revolução científica e à instituição de um modelo colonial de ciência. Pretendem, também, apresentar outros modos de relação com o mundo e a verdade, que partam de um vínculo inextricável entre o material e o discursivo (Karen Barad, 2017). Ademais, atentam para o caráter processual do real - para a possibilidade de sua feitura, de sua materialização, a partir do trabalho do sonho, do desejo e da imaginação de como as coisas podem ser, para além do modo como são. Assim, Cáel Keegan (2018, p. 2-3) o define como algo central não só à experiência trans, mas à fenomenologia trans:

O desejo de tornar perceptível um sentido de gênero que outres não testemunharam (ainda). [...] Perceber algo que outres não percebem, o imaginário trans invoca sua própria literalização, “sua externalização, sua substanciação, em carne material” (84-86). Poderíamos dizer que “trans” descreve uma relação inerentemente subjuntiva com o que é considerado real, com o que pode ser comumente percebido. Para sobreviver, pessoas transgênero tiveram que elaborar imaginários que sustentavam nosso desejo de se tornar, nossa crença de que poderíamos vir à percepção diferentemente. O mundo, e eu, como poderíamos ser (itálico no original).

Da mesma forma, a crítica à binariedade é central. De certo modo, é herdeira de reflexões feitas no campo de estudos queer, sobretudo ao apontar a imprescindibilidade da

desconstrução das oposições binárias [tornando] manifesta a interdependência e a fragmentação de cada um dos pólos. Trabalhando para mostrar que cada pólo contém o outro, de forma desviada ou negada, a desconstrução indica que cada pólo carrega vestígios do outro e depende desse outro para adquirir sentido. A operação sugere também o quanto cada pólo é, em si mesmo, fragmentado e plural (Guacira Lopes Louro, 2001, p. 548).

Tal reflexão tem tomado forma, se complexificado e se enriquecido no campo das transepistemologias de diversos modos. Um deles, a partir de estudos não bináries, tem se dado não só com enfoque no reconhecimento de uma diversidade de termos de significação de sujeitos, relações, práticas etc., para além do binário; mas também argumentando acerca da violência e da carceralidade da fixidez binária - que, de acordo com Marquis Bey (2022), é parte de um imperativo ocidental de modo a conhecer que demanda a captura e o cabimento em tal forma de classificação hegemônica naturalizada como critério de legibilidade, reconhecibilidade e legitimidade. Como contraposição, autorias que se debruçam sobre o tema, como C. Riley Snorton (2017), convidam ao desafio desse desenho, colocando em xeque as expectativas de identidade unívoca, autocontida, coerente em negação e completa separação a seus opostos. Postulam relações que se dão em interdependência e porosidade, considerando a multiplicidade dos termos em si e seu potencial relacional de contaminação e transformação.

Por fim, tais transepistemologias perturbam expectativas e valorações de permanência. Muitas autorias apontam para esse argumento considerando a própria raiz de “trans”: aqui, novamente, citamos Bey (2017, p. 287) e sua atenção ao caráter “prefixal” do termo, bem como ao que ele denota:

Através, ao lado de (para-), além. Trans* é alhures, não aqui, porque aqui é conhecido, ontologicamente discernível e circunscritível. [...] “Trans* é tanto movimento quanto a força de materialização que pode se tornar matéria, mas apenas de modo preposicional”, Hayward e Weinstein escrevem (2015: 197). (...) Trans* é essa recusa de ser a si mesmo, de ter certeza de si, de ter certeza de que está onde se está. [...] trans* é movimento, excitação e agitação. “Ser” trans* é uma impossibilidade já que trans* é um não/lugar radicalmente instável [...]. Trans* é “força” e “intensidade” em vez de identidade, fixa ou de qualquer outro jeito (Puar, 2014: 80). Trans* não é linear, permanente ou um fim - é, com efeito, a impossibilidade dessas coisas.

Esta centralidade e valoração dadas ao movimento orientam, por fim, o último elemento que organiza nossa elaboração de “transepistemologias”: a transdisciplinaridade. Aqui, destacamos que tais formas de produção de conhecimento não se restringem a linhas de pesquisa disciplinares com enfoque em gênero e sexualidade - já que, repetimos, elas não se detêm unicamente no tema do trânsito de gênero. Trata-se de perspectivas críticas e propostas referentes a operações de investigação que são produtivas a diversos campos disciplinares.

Ademais, são uma recusa a essas fronteiras de saber convencional muito inspirada nas reflexões de Halberstam (2020): interpelam e tensionam limites rígidos de padrões de treinamento, aprendizagem e pensamento que, a partir de convenções, tradições e rotinas, reproduzem moldes de conhecimento legítimos (e outros ilegítimos), especialistas reconhecidos (e outros não reconhecidos), bem como métodos e formas de análise já sabidos e delimitados (e suspeição de empréstimos, contaminações e experimentações com o que é feito em outras áreas). A transdisciplinaridade, aqui, é um convite para valorizar e testar os trânsitos que são possíveis quando navegamos para além dos limites que confinam áreas de conhecimento, quando refazemos caminhos de pesquisa, e quando adentramos e ocupamos territórios não conhecidos - que nos demandam outras habilidades que não fixidez, reprodução, defesa de identidade, aversão à dissidência, legibilidade institucional. Demandam-nos:

Mutualidade, coletividade, plasticidade, diversidade e adaptabilidade. [...] práticas de saberes que recusam tanto a forma quanto o conteúdo de cânones tradicionais podem levar a formas de especulação ilimitadas, modos de pensar que não se aliam com rigor e ordem, mas com inspiração e imprevisibilidade. [...] talvez queiramos um saber mais indisciplinado, mais perguntas e menos respostas (Halberstam, 2020, p. 31).

Mais perguntas e menos respostas, de fato; um engajamento profundo com a abertura e com o desconhecido que o entendimento de investigação como movimento pode gerar, em refutação à expectativa hegemônica de descoberta e revelação de algo como um real dado do mundo - com pressupostos de verdade bastante cisgêneros, diria Favero (2020b). Uma abertura destacada por Susan Stryker, Paisley Currah e Lisa Jean Moore (2008), ao enfatizarem a produtividade de considerar o termo “trans” com hífen - a saber, “trans-” - para recusar o nominalismo e a redução de sentido que adquiriu no debate público e atribuir atenção à sua relacionalidade, à sua adaptabilidade para conexão com diferentes sufixos.

Em outras palavras, trata-se de afastar o entendimento de que isso diz respeito a um saber sobre uma categoria específica de pessoas cuja identidade ou cujas práticas são definidas por um certo tipo de trânsito de gênero, “enquanto todo o resto poderia ser caracterizado por limitação e fixidez” (Stryker et al., 2008, p. 11). Trata-se, então, de um modo de produzir conhecimento cuja emergência se dá a partir de realidades sociais vividas por intelectuais trans, seus efeitos, e o que elus fazem com isso em termos de reflexão, crítica e produção de pesquisa - mas um modo de produzir conhecimento que não se atenta apenas a corporalidade, subjetividade, masculinidades e feminilidades. Atenta-se, eminentemente, para operações conceituais, articulações teórico-metodológicas, investimentos analíticos, e outras dimensões de trabalho intelectual com atenção especial ao movimento, aos atravessamentos de fronteiras, às conexões inesperadas, às transformações e materializações do real e a não binariedade - em desafio a normas (não só voltadas a corpos, mas a formas de entendimento) que, sistematicamente, naturalizaram e disciplinaram formas acadêmicas de saber. Por isso não propomos epistemologias trans; propomos transicionar epistemologias.

Referências

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1

Uma versão mais extensa dessa trajetória foi inicialmente elaborada em Lux Ferreira Lima (2022) (LIMA, Lux Ferreira. Trânsitos em texto: uma análise comparada de biografias e autobiografias de pessoas trans no Brasil e nos Estados Unidos. 2022. Doutorado (Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social) - Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo, São Paulo, SP, Brasil).

2

2 A Categoria Trans não envolve explicitamente o termo “trans”, que se mostrou demasiadamente polissêmico, transbordando a categoria de análise proposta ao incluir, por exemplo, substâncias químicas e objetos astronômicos.

3

3 A polissemia dos termos da Categoria NB foi filtrada em um tratamento posterior para os dados coletados no Portal de Periódicos. Contudo, devido a limitações da plataforma do Catálogo de Teses e Dissertações, a mesma abordagem não se mostrou possível, de forma que tal categoria não foi incluída no levantamento das teses e dissertações.

4

4 A pesquisa foi realizada no dia 16/7/2025.

5

5 A somatória excede 100%, pois um mesmo trabalho pode mobilizar diversas categorias.

6

6 Para satisfazer as condições de Cochran para os testes de χ2 realizados ao longo deste trabalho, excluímos pontualmente as categorias que apresentaram contagens marginais nas tabelas de contingência. No caso deste primeiro teste, excluímos os trabalhos de conclusão de cursos profissionalizantes e a categoria TF.

7

7 A análise estatística foi realizada com o software Wolfram Mathematica14.2.

8

8 Não consideramos o ano de 2020 para o ajuste do modelo RLST2, devido ao impacto da pandemia de Covid-19 no funcionamento das universidades.

9

9 Excluímos a categoria TF, bem como os trabalhos das Engenharias e das Ciências Exatas e da Terra.

10

10 De acordo com o nosso conhecimento sobre a autodefinição dessas pessoas.

11

11 A pesquisa foi realizada no dia 24/7/2025.

12

12 Similarmente, excluímos as categorias NB, TF e TM, de forma a satisfazer as condições de Cochran.

13

13 https://www.instagram.com/phd_trans_brasil/.

Como citar esse artigo de acordo com as normas da revista:

WEBER, Gabrielle; LIMA, Lux Ferreira. “De estudos sobre trans a estudos trans: a emergência de um campo”. Revista Estudos Feministas, Florianópolis, v. 34, n. 3, e114286, 2026.

Financiamento:

Não se aplica.

Declaração de disponibilidade de dados:

os dados de pesquisa estão disponíveis no corpo do documento.

Consentimento de uso de imagem:

Não se aplica.

Aprovação de comitê de ética em pesquisa:

Não se aplica.

Correspondência

gabrielleweber@usp.br

Correspondência

luxfl@unicamp.br

Editora responsável:

Cristina Scheibe Wolff / http://orcid.org/0000-0002-7315-1112

Editora científica:

Contribuição de autoria:

As autoras contribuíram igualmente

Conflito de interesses:

Não se aplica

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    09 Out 2026
  • Data do Fascículo
    2026

Histórico

  • Recebido
    06 Abr 2026
  • Aceito
    14 Abr 2026
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