Iniciativas e ações feministas no audiovisual brasileiro contemporâneo

Érica Ramos Sarmet dos Santos Marina Cavalcanti Tedesco Sobre os autores

Resumo:

É possível afirmar que nos últimos dois anos a palavra feminismo adquiriu um novo peso, conquistando um espaço significativo nas redes sociais, na mídia e nas ruas. O audiovisual foi uma das áreas que acompanhou esta ascensão recente do feminismo, o que se materializou através de uma série de iniciativas focadas em reivindicar direitos e discutir o machismo no mercado de trabalho. Neste artigo pretendemos, sem nenhuma pretensão de esgotar o tema, apresentar e refletir sobre oito iniciativas que consideramos emblemáticas dessa intersecção contemporânea entre feminismo e cinema: Mulher no Cinema, Mulheres do Audiovisual Brasil, Mulheres Negras no Audiovisual Brasileiro, Cabíria Prêmio de Roteiro, Eparrêi Filmes, Academia das Musas, Cineclube Delas e o FINCAR - Festival Internacional de Cinema de Realizadoras.

Palavras-chave:
mulheres; feminismo; cinema; audiovisual brasileiro contemporâneo

Abstract:

It is possible to affirm that in the last two years the word "feminism" has acquired a new weight, conquering a significant space in social networks, the media and in the streets. Audiovisual was one of the areas that accompanied this recent rise of feminism, which materialized through a series of initiatives focused on claiming rights and discussing sexism in the labor market. In this article, we intend to present and reflect on eight initiatives that we consider emblematic of this contemporary intersection between feminism and cinema: Mulher no Cinema, Mulheres do Audiovisual Brasil, Mulheres Negras no Audiovisual Brasileiro, Cabíria Prêmio de Roteiro, Eparrêi Filmes, Academia das Musas, Cineclube Delas and FINCAR - Festival Internacional de Cinema de Realizadoras.

Keywords:
Women; Feminism; Cinema; Contemporary Brazilian audiovisual

É possível afirmar que nos últimos dois anos a palavra feminismo adquiriu um novo peso, conquistando um espaço significativo nas redes sociais, na mídia e nas ruas. Segundo estudo elaborado pelo coletivo Think Olga e a Agência Ideal (2015), de janeiro de 2014 a outubro de 2015 o número de buscas pelo termo “feminismo” no Google aumentou 354,5% só no Brasil. Trata-se de um salto de 8.100 para mais de 90 mil buscas. Desde então, vimos a multiplicação de sites, blogs, páginas e grupos em redes sociais dedicados ao tema. A internet transformou-se no principal espaço para troca de informações, teorias, notícias e opiniões relacionadas às pautas feministas, e o Facebook consolidou-se como a ferramenta primordial para tal, sobretudo na formação de grupos de apoio entre mulheres.

Ao mesmo tempo alimentando e sendo alimentado pelo que acontecia nas redes, verifica-se um incremento da resistência das mulheres ao avanço do conservadorismo em diversas esferas da sociedade, e em especial na política, o qual ameaçava retirar direitos duramente conquistados. Um conjunto de protestos heterogêneos, regionalmente descentralizados e sem lideranças únicas, realizados principalmente contra o Estatuto do Nascituro, mas também tendo o machismo, as diversas formas de violência contra as mulheres, os entraves colocados pelos Conselhos Regionais de Medicina à presença de doulas nos hospitais, entre outras causas, como alvos, ficou amplamente conhecido como Primavera das Mulheres.

O audiovisual foi uma das áreas que acompanhou esta ascensão recente do feminismo, o que se materializou através de uma série de iniciativas focadas em reivindicar direitos e discutir o machismo no mercado de trabalho (e como ele muitas vezes aparece combinado com discriminações decorrentes de raça, orientação sexual e identidade de gênero). Assim, iniciativas e ações independentes surgiram com grande força por todo o Brasil, levando à criação de coletivos, grupos, plataformas, seminários, cineclubes, mostras e festivais dedicados ao protagonismo das mulheres.

De acordo com o Informe Anual de Produção de Longas-Metragens do Observatório Brasileiro do Cinema e do AudiovisualOBSERVATÓRIO BRASILEIRO DO CINEMA E DO AUDIOVISUAL. Informe de Acompanhamento do Mercado. Produção de Longas-Metragens. Disponível em: Disponível em: http://oca.ancine.gov.br/sites/default/files/cinema/pdf/informe_producao_2014.pdf . Acesso em: 18/12/2016.
http://oca.ancine.gov.br/sites/default/f...
da ANCINE - OCA, dos 114 longas-metragens lançados em 2014, 99 (86,8%) foram dirigidos por homens, 11 (9,6%) por mulheres e 4 (3,5%) tiveram direção mista. Destes, 82 obras obtiveram autorização para captar recursos por meio dos mecanismos federais de fomento indireto, e nelas foi verificado que as proporções de gênero praticamente não se alteraram: foram 71 longas (86,6%) com direção masculina, 8 (9,8 %) com direção feminina e 3 (3,7 %) com direção mista. Quando nos voltamos para os filmes concluídos, os números são igualmente díspares. Dos 186 longas-metragens concluídos em 2014, 156 (83,9%) foram dirigidos por homens, 28 (15,1%) por mulheres e 2 (1,1%) tiveram direção mista. Nas 76 obras concluídas que obtiveram autorização para captar recursos por meio de mecanismos federais de fomento indireto, verificou-se uma desigualdade de gênero ainda maior: foram 65 longas (85,5%) com direção masculina, 10 (13,2 %) com direção feminina e 1 (1,3 %) com direção mista.

Até alguns anos atrás, pouco se discutia sobre a desigualdade de gênero no mercado audiovisual brasileiro, ainda que o nosso cinema já tenha se encontrado com o feminismo em décadas anteriores através de cineastas como Helena Solberg e Tereza Trautman, nos anos 1960 e 1970, e nos anos 1980 via Coletivo de Mulheres de Cinema e Vídeo do Rio de Janeiro, entre outras iniciativas. A fim de combater as discrepâncias apresentadas nos dados acima, as mulheres do cinema começaram a se organizar para reverter tal quadro, sobretudo a partir de 2015.

Em 2016, vimos o feminismo ganhar força no cinema e expandir-se ainda mais. Cineclubes pipocaram por todo o país, como Academia das Musas (RS), Quase Catálogo,1 1 Sobre o cineclube Quase Catálogo e o feminismo no movimento cineclubista, ver Érica SARMET & Marina Cavalcanti TEDESCO (2016). Cineclube Delas e Facção Feminista (RJ), Aranha (BH) e A Hora e a Voz da Mulher no Cinema (SC); coletivos formaram-se, como o DAFB - Coletivo de Diretoras de Fotografia do Brasil (nacional), Somos Mais que 302 2 Somos Mais Que 30 (https://www.facebook.com/somosmaisque30/) é um coletivo composto por mulheres que trabalham no audiovisual. Foi formado após um caso ocorrido no Rio de Janeiro no primeiro semestre de 2016, onde uma menina foi estuprada por pelo menos 30 homens, que colocaram vídeos de seu crime na internet. O objetivo do grupo, segundo a integrante Gabriela Fernandes, em entrevista realizada em 5 de dezembro de 2016, é combater a violência contra a mulher. (SP) e Mulheres no Audiovisual (PE); e plataformas foram criadas a fim de visibilizar o trabalho e promover o contato entre mulheres, como a Mulheres Negras no Audiovisual BrasileiroMULHERES negras no audiovisual brasileiro. Disponível em: http://mulheresnegrasavbr.com/.
http://mulheresnegrasavbr.com/...
.

Neste artigo pretendemos, sem nenhuma pretensão de esgotar o tema, apresentar e refletir sobre oito iniciativas que consideramos emblemáticas dessa intersecção contemporânea entre feminismo e cinema: o site Mulher no CinemaMULHER no cinema. Disponível em: http://mulhernocinema.com/.
http://mulhernocinema.com/...
, o grupo do Facebook Mulheres do Audiovisual Brasil, a plataforma Mulheres Negras no Audiovisual Brasileiro, o Cabíria Prêmio de Roteiro, a produtora Eparrêi Filmes, o cineclube Academia das Musas, o Cineclube Delas e o FINCAR - Festival Internacional de Cinema de RealizadorasFESTIVAL INTERNACIONAL DE CINEMA DE REALIZADORAS. Apresentação. Disponível em: Disponível em: http://fincar.com.br/apresentacao/ . Acesso em: 18/12/2016.
http://fincar.com.br/apresentacao/...
. A opção por elas foi feita após um amplo mapeamento colaborativo e procurou contemplar a diversidade de atuação e regional verificadas, além de priorizar as que mesmo com pouco tempo de existência têm demonstrado continuidade nas ações desenvolvidas.

Mulher no Cinema

Desde junho de 2015, a jornalista Luísa Pécora dedica-se ao Mulher no Cinema, site diariamente atualizado com notícias, entrevistas, vídeos, críticas e pesquisas sobre as mulheres profissionais da indústria cinematográfica brasileira e estrangeira. Após assistir a Guerra ao Terror (2008GUERRA ao terror. Direção: Kathryn Bigelow. Roteiro: Mark Boal. Produtores: Donall McCusker, Greg Shapiro, Jack Schuster, Jenn Lee, Kathryn Bigelow, Mark Boal, Nicolas Chartier, Tony Mark. Gênero: Ação/Drama/Guerra, EUA, 2008, 128min.), de Kathryn Bigelow, e acompanhar as discussões que se sucederam à vitória da primeira mulher a ganhar o Oscar de Melhor Direção na história da premiação, Pécora percebeu que promover a igualdade de gênero nas telas seria também uma forma de promover a igualdade de gênero em geral. Em 2013, trabalhando no portal iG, a jornalista fez uma série de reportagens sobre o tema mulher no cinema, que continuou por aproximadamente dois anos. A boa repercussão com os leitores fez com que percebesse que havia mais gente interessada no assunto além dela, mas os debates no Brasil estavam bem menos avançadas que no exterior. Faltava um veículo que produzisse conteúdo em português sobre essa questão, tornando-a mais acessível a todos e reunindo em um mesmo lugar as informações ligadas à pauta. Assim, em junho de 2015, Pécora criou o Mulher no Cinema, a fim de compartilhar o conhecimento que ela adquiriu ao longo dos anos de pesquisa dedicados ao protagonismo da mulher no meio cinematográfico.

Segundo sua criadora,3 3 As informações e citações creditadas à Luisa Pécora nesse artigo são fruto de entrevista realizada por e-mail no dia 9 de dezembro de 2016. o site tem por objetivos principais: 1) conscientizar o público sobre a desigualdade de gênero no audiovisual; 2) dar voz às mulheres que fazem cinema; e 3) colocar o público em contato com cineastas e vice-versa. Entre as principais atividades desenvolvidas por ela estão entrevistas com profissionais e divulgação de filmes dirigidos e/ou protagonizados por mulheres. A jornalista aponta que o Mulher no Cinema faz uma cobertura comum de veículos de cultura, porém sempre em busca do ângulo que se relaciona à mulher. Como a maioria dos veículos, o Mulher no Cinema publica semanalmente a lista de filmes que entram em cartaz - entretanto, o foco é apenas naqueles escritos, dirigidos e/ou estrelados por mulheres.

Também como muitos outros portais de mídia, o Mulher no Cinema sugere filmes para serem assistidos na Netflix, mas mantendo o recorte dos filmes dirigidos por mulheres. Igualmente, quando saem listas de indicados a premiações no mundo cinematográfico, a cobertura do site aborda especificamente as mulheres indicadas, aponta a proporção de mulheres em relação a de homens, apresenta trabalhos anteriores feitos por essas mulheres e investiga dados históricos como, por exemplo, a quantidade de mulheres já indicadas em cada categoria de uma premiação específica. O diferencial do Mulher no Cinema para outros veículos semelhantes é, portanto, a divulgação dos acontecimentos culturais tendo como recorte o protagonismo feminino.

Segundo Pécora, o Mulher no Cinema tenta reunir o máximo de conteúdo possível (notícias, trailers, dados, estudos, reportagens que saíram na imprensa estrangeira) para que o leitor acompanhe as principais discussões e filmes sem que seja preciso “caçar” informações em muitas fontes diferentes - especialmente quando essas fontes dependem de conhecimento da língua inglesa. Como resultados significativos, a jornalista aponta as mais de 19.200 curtidas em cerca de um ano e meio de existência da página do Facebook, um número impressionante levando em conta que se trata de uma iniciativa independente, não ligada a nenhum veículo ou portal e que não recebe patrocínio. Em 2017, está nos planos da jornalista assumir uma maior presença offline, promovendo debates, mostras e oficinas.

Podemos afirmar que o Mulher no Cinema é um exemplo emblemático de como os últimos dois anos representaram um avanço sem precedentes no debate sobre desigualdade de gênero no cinema brasileiro. Pécora conta que, quando fez sua primeira reportagem sobre o tema, em 2013, teve dificuldade de conseguir fontes para entrevistas, além de ter tido que contar os lançamentos de diretoras brasileiras por sua própria conta, pois a ANCINE ainda não contabilizava nem disponibilizava tais dados. Hoje, muitas cineastas falam abertamente sobre a questão do protagonismo das mulheres e do machismo no audiovisual, além de termos acesso a mais números, estudos e pesquisas, mesmo que estas ainda não sejam iniciativas consolidadas. Por outro lado, ela considera ser muito cedo para saber se essa movimentação necessariamente significa uma mudança real.

As estatísticas ainda não mostraram melhora significativa na presença feminina em frente ou por trás das câmeras, e vai levar alguns anos para sabermos o efeito prático desse maior engajamento. Então diria que é importante celebrar as iniciativas que surgiram e têm surgido, mas com a consciência de que há muito trabalho pela frente. A mulher no cinema é o assunto do momento, mas tem de ser assunto sempre. Até não ser mais assunto.

Mulheres do Audiovisual Brasil

Com mais de 9 mil profissionais até o término deste artigo, o Mulheres do Audiovisual Brasil é o maior grupo no Facebook de mulheres ligadas à área. O grupo teve início em setembro de 2015, após a primeira reunião entre mulheres do setor na Spcine.4 4 Empresa de cinema e audiovisual de São Paulo ligada à Secretaria Municipal de Cultura. Segundo Malu Andrade,5 5 As informações e citações creditadas à Malu Andrade nesse artigo são fruto de entrevista realizada por e-mail no dia 8 de dezembro de 2016. coordenadora de Inovação, Criatividade e Acesso da Spcine e administradora do grupo, em um primeiro momento o espaço seria apenas para as presentes no encontro, a fim de trocarem ideias após a reunião. Com o alto interesse por parte de outras profissionais, no entanto, o grupo cresceu para além de seus muros. No final de semana em que foi aberto para a adesão de quaisquer membros, já contava com mais de 500 mulheres.

Andrade enfatiza que, apesar de ser a única administradora, o grupo tem caráter horizontal e colaborativo, e seu funcionamento deve-se exclusivamente à participação autônoma das mulheres. Trata-se de uma rede de trocas, debates e networking que funciona fortalecendo a contratação de mais mulheres, a articulação entre profissionais do meio e o estabelecimento de negócios. De resultados concretos destacam-se desde o surgimento de grupos regionais, que passaram a fortalecer as redes locais de estados onde muitas vezes faltam políticas públicas, bem como a realização de projetos que só saíram do papel devido à articulação proporcionada pelo grupo online.

Após a criação do grupo houve pelo menos dois encontros: um geral, em novembro de 2015, dedicado à discussão do desenvolvimento de uma pesquisa quantitativa sobre a mulher no audiovisual brasileiro, além das discussões de pautas importantes para o feminismo no audiovisual; e outro no dia 17 de novembro de 2016, durante o Encontro Spcine. Neste último, foi feito o balanço de um ano do grupo Mulheres do Audiovisual Brasil desde a primeira reunião promovida pela Spcine com representantes do setor. Debateu-se o que foi alcançado em termos de política pública e quais seriam as metas para os próximos quatro anos.

Andrade afirma que

o mais importante agora é a organização e atualização de dados referentes às diversas áreas do cinema, a fim de que seja possível elaborar boas políticas públicas a partir do reconhecimento de quais são as demandas das mulheres do setor.

Essa é uma das ações que já se iniciaram a partir do grupo. Desde novembro do ano passado, vem sendo feito um o levantamento de dados a respeito das mulheres no audiovisual brasileiro. Organizada pela pesquisadora e cineasta Amanda Lopes, a investigação traz dados muito interessantes. Sua última parcial, de 30 de junho de 2016, contava com as respostas de 1.130 pessoas e fornecia as seguintes informações:

97% se consideram mulheres (imaginamos que as outras 3% se identifiquem como homens trans ou pessoas não binárias);

66% das mulheres consideram-se brancas; 22,2% pardas e negras; 8,1% responderam “nenhuma”; 2,65% amarelas; e 1,15% indígenas;

66,1% afirmam-se heterossexuais; 18,2% bissexuais, 8,1% lésbicas, 6,10% preferiram não responder; 1,15% disseram-se pansexuais; e 0,26%, assexuais;

13,6% têm entre 20 e 24 anos; 27,2% têm entre 25 e 29 anos ; 24,7% têm entre 30 e 34 anos; 14,8% de 35 a 39 anos; 8,2% têm de 40 a 44 anos; 5,13% têm entre 45 e 69 anos; e 1,15% têm entre 15 e 19 anos;

48,3% concluíram a graduação; 14,8% estão com a graduação em curso, 15% concluíram a pós-graduação; 5% estão com pós-graduação em curso; e 13% outras escolaridades;

54,2% afirmaram sobreviver da receita do audiovisual, ao passo que 45,8% disseram que não;

44,7% não possuem salário mensal; 21,9% recebem de R$ 3.1502,1 a R$ 7.880,00; 15% recebem de R$ 1.576,01 a R$ 3.152,00; 8,9% recebem de R$ 7.880,01 a R$ 15.760,00; e 0,97% recebem mais de R$ 15.760,00.

77,6% não possuem filhos, 22,4% sim.

Ainda que sejam dados parciais de uma pesquisa em andamento, tais informações já nos permitem suscitar algumas questões. As mulheres do audiovisual no Brasil possuem alto grau de escolaridade e mais de 80% encontram-se em idade produtiva. No entanto, é alarmante que 45,8% não sobrevivam exclusivamente da renda advinda de seu trabalho no audiovisual. Tal informação se solidifica quando analisado conjuntamente com outro dado, a faixa salarial: a maioria, 44,7%, não possui salário mensal, ou seja, trabalha como autônoma/freelancer, com renda variável.

O cinema brasileiro confirma-se ainda como um espaço dominado por mulheres brancas e heterossexuais: elas representam, respectivamente, 66% e 66,1% das profissionais. O dado de que 77,6% não possuem filhos também pode ser útil para investigarmos as condições da maternidade no meio audiovisual. A instabilidade da área, a falta de regulamentação das profissões, a ausência de creches em produtoras e as longas jornadas de trabalho podem ser alguns dos motivos que levam esse grande índice de mulheres a optar por não ter filhos, mas tal debate ainda se encontra distante da realidade de empresas e profissionais.

Ao ser questionada se haveria o interesse de formalizar o grupo do Facebook como uma associação nacional, Andrade respondeu que considera ser difícil que isso aconteça; no entanto, ela considera que seria muito interessante que as mulheres presentes e filiadas a associações formassem chapas e concorressem à diretoria de suas associações, reforçando a voz das mulheres junto aos órgãos públicos.

Mulheres Negras no Audiovisual Brasileiro

A plataforma Mulheres Negras no Audiovisual Brasileiro consiste principalmente em um banco de dados online onde, por um lado, mulheres indígenas e negras que trabalham com audiovisual no país podem disponibilizar seus currículos e portfólios, e, por outro, pessoas interessadas em contratar profissionais podem procurar perfis que lhes interessem.

Sua idealizadora foi a cineasta Carol Rodrigues, de São Paulo. Graduada em Ciências Sociais com formação complementar na área de Cinema, participou, em 2016, de um curso de Iniciação à Programação promovido pelo PrograMaria, que tem por objetivo incentivar mais meninas e mulheres a entrarem no campo da programação.

O objetivo do curso era capacitar mulheres a darem seus primeiros passos em programação Front-End (HTML, CSS e JavaScript). Como precisávamos entregar um site como projeto final do curso, me pareceu uma boa ideia utilizar meus conhecimentos para um fim que não fosse apenas individual, como um portfólio. O audiovisual é uma área muito racista e machista e há algum tempo discutimos sobre formas de dar visibilidade a nós, profissionais negras, e aos nossos projetos. Assim, achei que era uma ótima ideia tentar desenvolver algo nesse sentido, fazer uma plataforma que pudesse ser útil enquanto ferramenta de visibilidade de profissionais negras do audiovisual. 6 6 As informações e citações creditadas a Carol Rodrigues nesse artigo são fruto de entrevista realizada por e-mail no dia 12 de dezembro de 2016.

As motivações para a construção da plataforma ficam muito claras na fala de Rodrigues, mas alguns dados ajudam a ilustrar a dimensão real da sub-representação da mulher negra7 7 Abordaremos apenas a sub-representação das mulheres negras por não termos dados para tecer considerações sobre as mulheres indígenas. Contudo, é importante ressaltar que a ausência destas no audiovisual brasileiro é gritante e brutal. no audiovisual brasileiro. Segundo pesquisa desenvolvida pelo Grupo de Estudos Multidisciplinares da Ação Afirmativa - GEMAA, da Universidade Estadual do Rio de Janeiro, entre 2002 e 20128 8 A Agência Nacional do Cinema – ANCINE – disponibilizou, em 2016, um levantamento sobre as diretoras no audiovisual brasileiro. Contudo, como a variável raça ficou de fora do escopo da investigação, preferimos trabalhar com o material do GEMAA. as mulheres dirigiram apenas 13,7% dos filmes de maior bilheteria, e as pessoas negras e pardas, 2% (Verônica TOSTE e Marcia Rangel CANDIDOTOSTE, Verônica; CANDIDO, Marcia Rangel. O Brasil das telas de cinema é um país branco. Disponível em: Disponível em: http://gemaa.iesp.uerj.br/publicacoes/infografico/infografico1.html . Acesso em: 18/12/2016.
http://gemaa.iesp.uerj.br/publicacoes/in...
, [s.d.]), não sendo encontrada nenhuma cineasta negra nas 218 produções analisadas.

É preciso reconhecer que de 2012 até o momento algumas mudanças significativas aconteceram. Ao menos para quem acompanha o audiovisual para além das salas de cinema (ou seja, mostras, festivais, cineclubes etc.) é impossível não conhecer as diretoras Larissa Fulana de Tal, Yasmin Thayná, Sabrina Fidalgo, Viviane Ferreira, entre outras. E a cineasta Adélia Sampaio, primeira mulher negra realizar um longa-metragem no Brasil, finalmente vem tendo o reconhecimento que merece através de diversas homenagens.

Contudo, as condições de ingresso e permanência das mulheres negras na área ainda estão muito aquém do que seria justo, e não há nem políticas públicas suficientes nem engajamento do conjunto dos e das profissionais do audiovisual para promover mudanças significativas a curto prazo nesse quadro. Pelo contrário, o edital Curta Afirmativo, histórico por ser a primeira ação afirmativa com recorte racial do audiovisual no país, por exemplo, foi contestado na justiça e, depois de uma edição, descontinuado.9 9 O Edital Carmen Santos Cinema de Mulheres, outra ação afirmativa lançada no mesmo período do Curta Afirmativo, não foi tão contestado. No entanto, seu destino também foi a descontinuidade.

Assim, uma plataforma como Mulheres Negras no Audiovisual Brasileiro se torna urgente. Contando com 78 mulheres cadastradas até o término deste artigo, oferece os seguintes filtros de busca: ordem alfabética, estado (pode-se selecionar mais de um ao mesmo tempo) e função - há 38 funções disponíveis, que envolvem inclusive atividades fora do processo de realização, como o ensino e a crítica. Rodrigues afirma que ainda é preciso melhorar. Até então as interessadas mandam suas informações por formulário e dependem de pessoas para transferir os dados do formulário para a plataforma. A ideia é tornar o processo mais dinâmico, com as mulheres podendo acessar e editar seus perfis de maneira mais rápida.

Em geral, acredito que, além da nossa própria dedicação, os lugares que nós ocupamos só se tornaram possíveis pelo sacrifício e esforço de outras pessoas. Nada nos será dado. Compete a nós nos organizarmos, criarmos nossas próprias ferramentas e arrancarmos mais espaço e mais conquistas com nossas próprias mãos. Um exemplo recente é a iniciativa da criação da APAN, Associação dos/as Profissionais do Audiovisual Negro em São Paulo.

De fato, é possível que com a recente criação da Apan e sua participação em espaços institucionais, como o Conselho Consultivo da SPCine, vejamos melhorias daqui a um tempo. Mas para as mulheres negras, que não podem nem querem mais esperar, Mulheres Negras no Audiovisual Brasileiro pode ser um importante espaço de oportunidade e visibilidade.

Cabíria - Prêmio de Roteiro

Cabíria é um prêmio de roteiro para histórias por protagonistas mulheres. Seu objetivo é aumentar em qualidade e quantidade a presença das mulheres nas telas e atrás das câmeras. O projeto teve início oficialmente em agosto de 2015, quando Marília Nogueira, da Ipê Rosa Produções, criou a página do Facebook para divulgação do prêmio e da campanha de financiamento coletivo. Sem o crowdfunding na internet o projeto não teria conseguido atingir seu objetivo inicial, que era contemplar as(os) roteiristas vencedoras(es) com prêmios em dinheiro. Ao fim, conseguiu-se atingir e ultrapassar a meta do financiamento coletivo, arrecadando-se cerca de R$20.000,00. Para além do recebimento do dinheiro, sabidamente insuficiente para viabilizar a maioria dos filmes, vencer o concurso contribui para a visibilidade dos roteiros e colabora para que eles tenham mais chances de conseguir financiamento e chegar às salas de cinema. Em entrevista,10 10 As informações e citações creditadas à Marília Nogueira nesse artigo são fruto de entrevista realizada por e-mail no dia 9 de dezembro de 2016. Nogueira (2016) conta que várias questões mobilizaram-na a criar o Cabíria:

Em 2008 participei de uma residência artística para jovens realizadores da América Latina, o Taller de Desarrollo de Proyectos Cinematograficos da Fundación Typa, na Argentina. Foi uma experiência que me impactou muito e comecei a pensar em realizar algo parecido no Brasil um dia. Os anos se passaram, o projeto parecia grande demais e esqueci dessa história por um tempo. Paralelamente, fui tomando consciência do impacto da desigualdade de gênero sobre diversos aspectos da minha vida. Eu dirigi dois curtas e escrevi outros tantos roteiros e contos e, salvo raras exceções, meus protagonistas são masculinos. Meu impulso é escrever personagens masculinos ou contar histórias de um ponto de vista masculino. Isso não faz sentido. Eu sou mulher. Seria muito mais simples e lógico que meu impulso fosse o contrário, escrever de um ponto de vista feminino. Escrever sobre e para mulheres. Mas não. Foram tantos livros, filmes, desenhos animados e quadrinhos da minha infância e adolescência com protagonistas masculinos que meu cérebro deve ter apreendido esse dado como sendo o natural. Comecei a ler muito e conversar com outras mulheres sobre essas inquietações. A ideia de realizar uma residência artística voltou e, não me lembro exatamente como, se transformou no projeto de um prêmio para histórias com protagonistas femininas.

Assim, a roteirista e assistente de direção lançou-se na empreitada de elaboração do Cabíria. Ela teve ajuda dos designers Rita Faria e Luiz Arbex, criadores da identidade visual, que contribuíram com críticas e sugestões em todo o processo de criação da primeira edição, e de outras parcerias importantes, como WIFT Brasil, Women in Film and Television Brasil e roteiristas voluntárias.

Na primeira etapa da seleção, 12 profissionais fizeram voluntariamente a leitura de 158 roteiros inscritos. Foram 165 inscrições, 158 válidas, dentre as quais 102 roteiros de autoria feminina e 56 de autoria ou coautoria masculina. A diretora e roteirista Thais Fujinaga recebeu R$10.000,00 pelo primeiro lugar. O 2º lugar ficou com Guilherme Macedo e o 3º com Cecilia Engels. Receberam menções honrosas Eleonora Loner e Marton Olympio.

Apesar do sucesso da premiação e da visibilidade que os cinco roteiristas finalistas ganharam após participarem da seleção, o financiamento para a segunda edição ainda é uma questão em aberto, segundo Nogueira. A roteirista tem planos de abrir uma pessoa jurídica para o projeto a fim de captar recursos através de leis de incentivo e fundos diversos. O financiamento coletivo via internet ainda é uma possibilidade, porém se trata de um tipo de captação que demanda muito tempo dos envolvidos, por exigir um trabalho grandioso de divulgação e mobilização nas redes. Há, ainda, a ideia de criar uma plataforma de roteiros aos moldes do site americano The Black List, revertendo o lucro da plataforma para o prêmio de roteiro.

Eparrêi Filmes

A sensibilização às questões do feminismo, ocorrida nos últimos anos, tem acarretado um incremento no volume da produção audiovisual feita por mulheres principalmente nas áreas do curta-metragem e de obras coletivas em diversos formatos e para variadas janelas, mas também uma mudança em como e por que produzir. E, nesse sentido, a trajetória da Eparrêi Filmes é bastante emblemática.

Com um nome que homenageia a orixá Yansã, “orixá guerreira, senhora dos ventos e raios, que não tolera nenhum tipo de preconceito e é a protetora das mulheres independentes”,11 11 As informações e citações creditadas à Elen Linth nesse artigo são fruto de entrevista realizada por e-mail no dia 10 de dezembro de 2016. está sediada no Estado do Amazonas, onde começou suas atividades no princípio de 2015. Motivadas pela percepção de que o cinema ainda é realizado basicamente por homens brancos do eixo Rio de Janeiro-São Paulo, as sócias e companheiras Elen Linth e Riane Nascimento resolveram apostar na potencialidade que a Região Norte possui para desenvolver produtos que tivessem mais afinidade com suas identidades em termos étnico-raciais, de classe e de orientação sexual.

A Eparrêi é dirigida e coordenada por mulheres lésbicas, de origem popular/quilombola, que buscam pensar o audiovisual a partir da perspectiva da mulher negra, pobre, lésbica, sem, com isso, reproduzir os mesmos estereótipos que as mulheres vêm sem representadas ao longo da história do cinema.

Os objetivos que orientaram a criação da produtora ficam bem evidentes quando nos debruçamos sobre os conteúdos por ela já produzidos e os em desenvolvimento. Financiada pelo Fundo Setorial do Audiovisual (FSA/ANCINE) através do Edital de TVs Públicas Região Norte, a série documental Territórios (a ser lançada em 2017), composta por 5 episódios, tem como temas centrais a discriminação por endereço e a mobilidade urbana. Trata-se, sem dúvida alguma, de assuntos abordados em outras obras. Contudo, em Territórios, Manaus chega até o público através do ponto de vista de 5 mulheres: Mikaela, moradora de uma comunidade estigmatizada da cidade, Maria, jovem travesti que estuda Pedagogia, Andria, que vive em uma ocupação e constrói a luta por moradia, Cida, rapper indígena, e Sara, poetiza que vende fanzines nas ruas.

É importante destacar que, mesmo a série tendo o foco anteriormente citado, questões cruciais para as personagens, como travestilidade, afetividade na cidade e maternidade autônoma não são ignoradas pela diretora Elen Linth, que procura estabelecer diálogos entre elas e as outras, que são estruturais, mas impactam a vida dos indivíduos.

Em 2017, a Eparrêi filmará Travessias, documentário de longa-metragem também financiado pelo FSA/ANCINE, sobre a imigração haitiana no Amazonas. Aqui, mais uma vez uma mulher periférica será o fio condutor da narrativa. Nadie, haitiana, negra, mãe de 2 filhos, que entrou de forma clandestina no Brasil e teve que esperar 5 anos para que sua condição de refugiada fosse reconhecida, retornará ao seu país atravessando as fronteiras Brasil-Peru-Colômbia-República Dominicana-Panamá-Haiti.

Um estudo realizado pelas pesquisadoras Denise COGO e Terezinha SILVA (2015COGO, Denise; SILVA, Terezinha. “Mídia, alteridade e cidadania da imigração haitiana no Brasil” In: ENCONTRO DA ASSOCIAÇÃO NACIONAL DOS PROGRAMAS DE PÓS-GRADUAÇÃO EM COMUNICAÇÃO, 2015, Brasília. Anais ... Brasília: Compós, 2015, p. 1-16.) demonstra o quanto é importante a emergência de novos olhares sobre temas em voga na grande mídia em nossa sociedade.

Se, no começo de 2013, algumas narrativas atribuem ao “surto de imigração” de haitianos, “que entraram ilegalmente no Brasil”, a responsabilidade pela criação de “um grave problema social no Acre”, no início de 2014, novos relatos voltam a evocar a imigração haitiana associada a “problema”, “chegada massiva”, “invasão”, “descontrole por parte das autoridades” e “ilegalidade por parte dos imigrantes”, etc. No contexto de um novo movimento de entrada de haitianos - cerca de 70 por dia em Brasileia/AC -, narrativas evocam a situação de “calamidade pública” e a necessidade de “fechamento de fronteiras”. Ao mesmo tempo, enfatizam a “falta de infraestrutura do abrigo ocupado pelos imigrantes e a escassez de mantimentos”.

Embora evidentemente um documentário com tal temática e produzido por uma pequena produtora tenha uma possibilidade de alcance muito menor - segundo dados da ANCINE, as maiores bilheterias do gênero nos últimos 5 anos foram (OCA): 2011 - Bahêa Minha Vida (Márcio CavalcanteBAHÊA minha vida. Direção: Márcio Cavalcante. Gênero: Documentário, Brasil, 2011.), 74.857 pessoas, 2012 - Raul, o Início, o Fim e o Meio (Walter Carvalho & Evaldo MocarzelO INÍCIO, o fim e o meio - Raul. Direção: Walter Carvalho, Leonardo Gudel, Evaldo Mocarzel. Roteiro: Leonardo Gudel. Produtores: Alain Fresnot, Denis Feijão. Gênero: Biografia/Documentário, Brasil, 2012, 128min., 170.471 pessoas, 2013 – Elena (Petra CostaELENA. Direção: Petra Costa. Roteiro: Carolina Ziskind, Petra Costa. Produção: Julia Bock. Gênero: Biografia/Documentário, Brasil, 2012, 82min. ), 58.614 pessoas, 2014 - Tarja Branca (Cacau RhodenTARJA branca. Direção: Cacau Rhoden. Roteiro: Marcelo Negri. Produção: Juliana Borges. Gênero: Documentário, Brasil, 2014, 80min.), 14.892 pessoas e 2015 - Cássia Eller (Paulo Henrique Fontenelle MigdalCÁSSIA Eller. Direção e roteiro: Paulo Henrique Fontenelle. Produção: Iafra Britz. Brasil, 2014, 120min.), 75.133pessoas -, consideramos fundamental que outras narrativas e representatividades comecem a ser construídas.

Em termos de estrutura de produção, Linth e Nascimento participam de uma tendência a qual, mesmo não alcançando a maioria do cenário audiovisual, vem aumentando em diversos países: a opção política de privilegiar mulheres na conformação das equipes. Assim, estabeleceram que nos filmes e séries da Eparrêi 75% das cabeças de equipe devem ser mulheres. Contudo, há ainda outra diretriz: que 75% das pessoas que integram as equipes sejam negras. Garante-se, dessa maneira, um dos principais lemas da produtora: “pra nós as pretas vão sempre estar no comando”.

Acreditamos que estamos movimentando o cenário amazonense com a proposição de temas que são pouco discutidos na região, bem como temos discutido o papel e o lugar da mulher no cinema e na produção brasileira. Também estamos promovendo a descentralização da produção cinematográfica e consolidando também o norte como uma região que pensa e produz conteúdos para o cinema e para a TV na perspectiva da mulher.

Academia das Musas

No campo das iniciativas voltadas para a exibição de filmes de mulheres, 2016 será lembrado como um ano extremamente frutífero. Já no dia 9 de janeiro tem início, na Sala Multimídia da Cinemateca Capitólio, em Porto Alegre, o Academia das Musas,12 12 O grupo de estudos Academia das Musas, assim como seu antecessor, Aurora, não está vinculado a nenhuma instituição. Reúne pessoas de diferentes universidades, mas também do meio cinematográfico e da sociedade em geral. um novo grupo de estudos dedicado à pesquisa, debate e difusão de obras cinematográficas dirigidas por mulheres.

A iniciativa começa a ser gestada em 2015, quando alguns de seus integrantes (trata-se de um espaço misto), então vinculados ao grupo de estudos Aurora, debruçaram-se sobre uma tese de doutorado (Luiz Carlos Gonçalves de OLIVEIRA JÚNIOR, 2015OLIVEIRA JÚNIOR, Luiz Carlos Gonçalves de. Vertigo, a teoria artística de Alfred Hitchcock e seus desdobramentos no cinema moderno. 2015. Tese (Doutorado em Meios e Processos Audiovisuais), Programa de Pós-Graduação em Meios e Processos Audiovisuais, Escola de Comunicação e Artes da USP, São Paulo.) na qual havia um capítulo dedicado ao ponto de vista feminino em Um corpo que cai (1958CORPO que cai, Um. Direção: Alfred Hitchcock. Produtores: Alfred Hitchcock, Herbet Coleman. Gênero: Mistério/Romance/Thriller, EUA, 1958, 128min.) e outro sobre o orgasmo feminino no cinema. Terminada a leitura, decidiram enveredar definitivamente pelo campo do gênero, mas realizando um deslocamento significativo: ao invés das mulheres em frente às câmeras, as que determinam o que e como as câmeras devem filmar.

Delineado o que iriam fazer, era preciso um nome, que veio com a exibição de Academia das Musas (2015ACADEMIA das musas. Direção: José Luis Guerín. Espanha, 2015.). A princípio causa estranhamento que um projeto com o objetivo de privilegiar diretoras adote o título de um longa-metragem feito por um cineasta homem. Contudo, de acordo com a integrante Juliana Costa (2016):

Academia das Musas é a apropriação de duas ideias que de certa forma questionamos com as práticas do nosso grupo de estudos: a “academia” como único local legítimo de produção de conhecimento e de pesquisa, e “musas” como entidades femininas de culto da beleza e da inspiração. Apropriar-nos e subvertermos conceitos que historicamente ajudamos a erigir nos pareceu mais interessante do que jogá-los na fogueira. Tomado como reflexão ou como chiste, é um nome que nos diz respeito: a sala de cinema é nossa Academia e nos inspiramos em nossas musas inspiradas. 13 13 As informações e citações creditadas a Juliana Costa nesse artigo são fruto de entrevista realizada por e-mail entre os dias 5 e 7 de dezembro de 2016.

O passo seguinte foi a realização de chamada pública no Facebook, em dezembro de 2015 e início de 2016, para que mais pessoas conhecessem a proposta, e um encontro presencial que aglutinaria todos os interessados. Ocorrido na data supracitada, nele foi exibido GarotasGAROTAS. Direção: Céline Sciamma. Gênero: Drama, França, 2015, 112min. (2014). Dentre as inúmeras possibilidades de filmes de mulheres, escolheu-se este devido ao fato de ele não ter sido exibido em nenhuma sala de cinema da cidade e ao interesse de uma integrante, que estava investigando audiovisuais com protagonistas negras e negros.

A exemplo desta primeira sessão, as demais (quinzenais, realizadas aos sábados pela manhã) também foram pautadas pela dificuldade do visionamento nas telas grandes e pela vontade de estudar de algumas das pessoas do grupo - posto que sempre uma delas fica responsável por pesquisar sobre a obra, trazendo dados para contribuir com a discussão.

Apesar de não haver a priori uma preocupação em contemplar diversos modos e locais de produção, é visível a pluralidade do material estudado. Concentrando-se basicamente em longas-metragens (talvez essa seja a característica mais constante da curadoria, embora haja exceções), e não na filmografia de diretoras, Academia das Musas, ao longo de 2016, elegeu para assistir e debater dez filmes europeus - em especial franceses -, três estadunidenses, dois em coprodução Europa/Estados Unidos, três latino-americanos, três asiáticos, dois africanos (um deles em coprodução com a França), um soviético e um da Oceania. Ademais, organizaram sessões especiais no circuito exibidor e dentro de mostras temáticas. Nestes casos específicos, o principal critério para escolha foi a obtenção do direito de exibição.

Em relação à quantidade de participantes, após uma grande aproximação inicial o número estabilizou em torno de 12, que comparecem a quase todos os encontros, e 10, que participam de alguns. Há, ainda, espectadores e espectadoras sem nenhum envolvimento com o grupo, mas que eventualmente vão a uma ou outra das atividades organizadas.

Por aglutinar perfis muito diferentes, é difícil avaliar o impacto da iniciativa na vida de cada um, mas é evidente que ele existe. Há, por exemplo, a história de uma mulher de fora da área do audiovisual, mas que sempre teve interesse em cinema, que começou a escrever sobre o tema e foi, recentemente, a um festival internacional. A do pai de uma integrante que acabou se tornando mais assíduo que ela e também está se aventurando a escrever. Entre tantas outras.

Tentando refletir de forma mais geral, Costa (2016) afirma:

Pensando na questão do gênero, bem, aí acho fundamental! Acho fundamental que quando a gente pense em primeiro cinema, pense em Lumière, em Meliés, mas pense também que a Alice Guy fez filmes coloridos muito antes, fez experimentos com som sofisticadíssimos, que a Lois Weber inaugurou o gênero de suspense, que a gente espere o próximo filme da Mia Hansen-Love como esperamos o próximo do Miguel Gomes. Que a obra dessas mulheres esteja na nossa conversa e no nosso pensamento pela qualidade que tem, porque foram pioneiras, arriscaram, experimentaram, enfim, criaram, deitaram seu olhar pelo mundo... Por isso acho esse tipo de grupo importante também, pras pessoas se darem conta que as mulheres já estão representadas, é só a gente saber procurar.

Cineclube Delas

O Cineclube Delas surge como projeto em maio de 2016, quando as críticas de cinema Camila Vieira e Samantha Brasil, que já estavam com o projeto pessoal de assistir a mais filmes de mulheres, vislumbram a possibilidade de criar um cineclube feminista no Templo Glauber, na cidade do Rio de Janeiro.

A princípio a ideia não era trabalhar apenas com realizadoras, levando às telas também produções dirigidas por homens nas quais as protagonistas fossem mulheres. Contudo, após a primeira sessão, ocorrida em 14 de julho, onde foram exibidos o curta-metragem Resposta das mulheres (1975RESPOSTA das mulheres. Direção: Agnés Varda. Gênero: Documentário, França, 1975.) e o longa Ela fica linda quando está com raiva (2014ELA fica linda quando está com raiva. Direção: Mary Dove. Gênero: Documentário, 2014.), seguidos de debate com a escritora Marcia Tiburi, a professora Susana De Castro e a cineasta Sabrina Fidalgo, perceberam a enorme demanda de focar apenas em cineastas mulheres.14 14 Em novembro dois diretores trans entraram na programação. Posto que muitas vezes homens transexuais enfrentam preconceitos e violências semelhantes aos infligidos às mulheres, isso não foi visto como um desvio na proposta do cineclube.

Segundo Brasil e Vieira,15 15 As informações creditadas à Samantha Brasil e Camila Veira nesse artigo são fruto de entrevista presencial, realizada no dia 8 de dezembro de 2016. tal demanda se relaciona, por um lado, à necessidade de ampliação de espaços exibidores que programem obras audiovisuais de diretoras. Nas duas sessões em que abriram convocatória (“ser mulher” e Edição Especial: Lançamento do Coletivo Diretoras de Fotografia do Brasil - DAFB), receberam um número enorme de filmes. Ademais, mesmo sem estarem com convocatória aberta, têm sido contatadas por realizadoras mulheres que não encontram espaço para elas nas curadorias dos festivais e salas de cinema.

Ao mesmo tempo, salta aos seus olhos a importância de oportunidades para discutir questões caras ao feminismo e que orientam as sessões: cinema e feminismo (julho), “ser mulher” (agosto), novas conjugalidades (setembro), visibilidade trans (novembro) e corpo como performance do feminino (dezembro). Embora haja pessoas que sempre acompanham o Cineclube Delas, a maior parte do público é variável e muitas vezes se aproxima por estar interessada em um tema específico, sobre o qual precisa falar. Uma urgência percebida nas intervenções que são feitas, mas também nos abraços e agradecimentos emocionados ao fim da atividade.

No que diz respeito à curadoria, além do recorte do cineclube não há diretrizes pré-definidas. As sessões podem ser motivadas por alguma obra assistida, pela vontade de abordar determinados assuntos, pelos supracitados contatos feitos pelas cineastas... Por isso, as constantes que conseguimos identificar são um grande destaque para o curta-metragem, que nunca está ausente, e, a partir da estreia, quando foram exibidas uma produção francesa e outra estadunidense, uma exclusividade do filme nacional.16 16 É interessante destacar que acabar exibindo quase que exclusivamente filmes nacionais, mesmo sem ter uma política previamente definida nesse sentido, é um fenômeno que ocorre em outros cineclubes brasileiros. No cineclube Quase Catálogo, coordenado por nós, aconteceu a mesma coisa: das 8 sessões apenas uma foi dedicada à produção estrangeira.

Sobre os debates, há uma preocupação em conjugar a presença de realizadoras com mulheres oriundas de outras áreas. A intenção é que as discussões não se restrinjam apenas a aspectos formais, ou mesmo narrativos, mas a partir do cinema pensar características mais gerais da nossa sociedade, se e como elas oprimem as mulheres, experiências pessoais e possibilidades de transformação - lembremo-nos de que o primeiro eixo estrutural do cineclube foi o feminismo, para depois ser incorporado ao das diretoras.

Seguindo a tradição de muitos cineclubes, o Delas extrapola a dupla visionamento/debate e, além de utilizar sua página no Facebook para replicar notícias pertinentes à sua proposta, também produz conteúdo. Podemos mencionar, a título de ilustração, a lista 100 Melhores Filmes Dirigidos Por Mulheres No Século XXI (CINECLUBE DELAS, 2016CINECLUBE DELAS. 100 melhores filmes dirigidos por mulheres no século XXI. Disponível em: Disponível em: https://www.facebook.com/permalink.php?story_fbid=268076023590486&id=193928527671903&substory_index=0 . Acesso em: 18/12/2016.
https://www.facebook.com/permalink.php?s...
), com 125 compartilhamentos até o momento. Para além de uma sentença definitiva, ela pretende ser uma resposta às listas de melhores filmes, nas quais raramente constam mulheres (na da Télérama francesa (TÉLÉRAMA, 2016TÉLÉRAMA. Les 100 meilleurs films de l'histoire selon “Télérama”. Disponível em: Disponível em: http://www.telerama.fr/cinema/les-100-meilleurs-films-de-l-histoire-selon-telerama,149864.php . Acesso em: 9/12/2016.
http://www.telerama.fr/cinema/les-100-me...
), que irritou/inspirou Vieira e Brasil, dos 100 eleitos apenas dois eram de cineastas mulheres) e uma provocação para que essas e outras obras sejam mais assistidas.

Ao fim de 2016, computa-se 9 edições, sendo 6 regulares e 3 especiais (lançamento do DAFB, no próprio Templo Glauber, Ocupa IFCS/UFRJ17 17 Ocupação estudantil do Instituto de Filosofia e Ciências Sociais da Universidade Federal do Rio de Janeiro. e Sarau do Escritório na Lapa18 18 Evento que promove a ocupação das ruas com diversas atividades culturais. A convite do Cineclube Facção Feminista, os cineclubes Delas e Quase Catálogo fizeram a curadoria de um curta-metragem feito por mulher para ser exibido. ), que, somadas, foram palco para a exibição de 6 longas-metragens e 18 curtas. E, em termos não qualitativos, as organizadoras relatam que todas as histórias que escutaram neste segundo semestre só reforçaram a necessidade de continuar com a iniciativa em 2017.

FINCAR

Criado em 2016, o FINCAR ocorreu no mês de julho na cidade do Recife (PE), produzido pela Orquestra Cinema Estúdios e Vilarejo Filmes e viabilizado pelo Governo de Pernambuco através do Funcultura Audiovisual. Com foco nas mulheres na direção cinematográfica, o festival propõe-se a investigar processos criativos audiovisuais feitos por mulheres. Segundo consta no seu site, o

FINCAR tem por motivação fomentar o debate em torno do cinema e a mulher que observa e é observada. Investigaremos a liberdade de formas e temas em longas, médias e curtas-metragens. Interessa a realização que acontece geograficamente descentralizada. Aqui, a internacionalidade é entendida como uma ponte que respeita as singularidades das obras, das autoras e dos locais de exibição. Um diálogo entre visões atentas aos contextos de realização. Entendemos o festival de cinema como um espaço de trocas entre realizadoras e público. Um momento para pensar sobre arte, autoria, gênero e a teia social em torno dessas questões (2016).

Em parceria com a Federação Pernambucana de Cineclubes, o FINCAR também realiza o Circuito Cineclubista FINCAR - FEPEC, o que possibilitou que os filmes fossem exibidos também em outras cidades do Estado de Pernambuco. O festival vem ocupar o espaço vago deixado pelo FEMINA, maior e mais antigo festival brasileiro dedicado às mulheres, que realizou sua décima primeira e última edição em 2014, por falta de patrocínio para os anos seguintes. Diferentemente do FEMINA e, nesse sentido, atualizando-se em relação às demandas feministas contemporâneas, o FINCAR não aceita filmes dirigidos por homens - a não ser que em codireção com alguma realizadora mulher. O festival tem direção artística, curadoria e produção apenas de mulheres, critério de seleção de equipe bastante afinado com o presente momento, como já abordado em páginas anteriores.

Nesta primeira edição, foram selecionados 30 filmes de 19 países, entre mais de 2.400 inscrições de curtas, médias e longas-metragens do mundo todo. Em entrevista à jornalista Luísa Pécora, do Mulher no Cinema, Maria CARDOZO (2016CARDOZO, Maria. FINCAR: Diretora artística fala sobre novo festival feminino. Mulher no Cinema, 8/03/2016. Entrevista concedida à Luísa Pécora. Disponível em: Disponível em: http://mulhernocinema.com/entrevistas/diretora-artistica-fala-sobre-fincar-festival-para-mulheres-cineastas/ . Acesso em: 18/12/2016.
http://mulhernocinema.com/entrevistas/di...
), diretora artística e curadora do festival, conta o que a motivou a criá-lo:

Em 2014 vi uma atriz brasileira que admiro muito ganhar um prêmio de atuação em um tradicional festival de cinema. Ela fez um discurso alertando para os tipos de personagens femininas que vemos na tela. E falou também da importância da relação dela com a diretora, por serem duas mulheres, para aquele filme. Aquilo bateu forte em mim. Estava no festival com um filme no qual tinha trabalhado, mas naquele ano especialmente estava em uma pesquisa intensa sobre artistas mulheres na videoarte. Foi curioso perceber que conhecia muito mais realizadoras nas artes visuais do que no cinema. Comecei a estreitar a minha pesquisa entre cinema e videoarte e passei a encontrar textos que traziam os motivos dessa diferença.

Para Cardozo (2016CARDOZO, Maria. FINCAR: Diretora artística fala sobre novo festival feminino. Mulher no Cinema, 8/03/2016. Entrevista concedida à Luísa Pécora. Disponível em: Disponível em: http://mulhernocinema.com/entrevistas/diretora-artistica-fala-sobre-fincar-festival-para-mulheres-cineastas/ . Acesso em: 18/12/2016.
http://mulhernocinema.com/entrevistas/di...
), o espaço de trabalho do cinema e sua hierarquia nunca favoreceram a presença da mulher enquanto realizadora.

No caso da videoarte, as câmeras “amadoras” davam uma liberdade de uso, inclusive para espaços domésticos. Isso há décadas. Mas ainda hoje existem diretores que afirmam que mulheres são melhores produtoras porque elas já têm a habilidade de cuidar de questões de casa e família. Desconstruir esse espaço da personagem mulher feita para ser olhada pelo homem e buscar as coisas que prendem o olhar de realizadoras do cinema me motivou a criar o festival.

A idealizadora do FINCAR afirma ainda que é importante discutirmos sobre a importância de um festival focado em mulheres diretoras, sobretudo quando deparamo-nos com a resistência a essa ideia por parte de cineastas mais antigas. “Festivais dedicados exclusivamente a realizadoras não são nenhuma novidade. Se a realização no cinema ainda é em maioria de homens, precisamos afirmar a realização feita pela mulher para que ela se fortaleça e aumente” (CARDOZO, 2016CARDOZO, Maria. FINCAR: Diretora artística fala sobre novo festival feminino. Mulher no Cinema, 8/03/2016. Entrevista concedida à Luísa Pécora. Disponível em: Disponível em: http://mulhernocinema.com/entrevistas/diretora-artistica-fala-sobre-fincar-festival-para-mulheres-cineastas/ . Acesso em: 18/12/2016.
http://mulhernocinema.com/entrevistas/di...
).

Considerações finais

A pesquisadora Suely Gomes COSTA (2009COSTA, Suely Gomes. “Onda, rizoma e ‘sororidade’ como metáforas: representações de mulheres e dos feminismos (Paris, Rio de Janeiro: anos 70/80 do século XX)”. Revista Internacional Interdisciplinar INTERthesis, v. 6, n. 2, p. 01-29, jul./dez. 2009.), recuperando o debate crítico sobre o conceito de onda para pensar os movimentos feministas, acredita ser possível conciliar tal conceito, limitado na visão de certas autoras e autores, com o de rizoma, que por vezes é apontado como seu substituto:

Ambas [ondas e rizoma] são úteis como metáforas; não são excludentes, pois, juntas, traduzem conceitos convergentes; mas é preciso distingui-las, sim. Há, nos feminismos, tempos múltiplos e simultâneos por conhecer, observando que há gerações de mulheres e feministas diferentes, que interagem em diversos estados de consciência e múltiplas identidades (HALL, 1994) em circulação, num dado tempo. Há eventos a observar, daí, os tempos curtos, as conjunturas, portanto; mas também há manifestações no tempo longo - não perceptíveis - forjadas, em “estruturas” submersas, entrelaçada sou não a esses mesmos eventos, redefinidos ou não; elas estão na história dos feminismos (COSTA, 2009COSTA, Suely Gomes. “Onda, rizoma e ‘sororidade’ como metáforas: representações de mulheres e dos feminismos (Paris, Rio de Janeiro: anos 70/80 do século XX)”. Revista Internacional Interdisciplinar INTERthesis, v. 6, n. 2, p. 01-29, jul./dez. 2009., p. 10).

Não ignoramos que há manifestações no longo tempo e estruturas submersas entrelaçadas aos eventos, aos tempos curtos e às conjunturas aqui abordadas. Contudo, optamos por nos dedicar aos três últimos por avaliarmos que o audiovisual brasileiro contemporâneo vive, no que tange ao engajamento e à organização das mulheres em torno de pautas feministas, um momento único de sua trajetória. Diante disso, é importante afastar-nos do fluxo intenso dos acontecimentos, onde estamos inseridas como cineastas e roteiristas e fotógrafas e cineclubistas e militantes, para tentar compreender, mesmo que de forma incompleta, um fenômeno sentido por muita gente, mas sobre o qual quase não há textos e dados.

E o próprio percurso em busca dessa compreensão já nos forneceu algumas pistas preciosas. Em termos metodológicos, decidimos começar com um mapeamento o mais abrangente possível das ações e iniciativas feministas que estão acontecendo na área. Para tanto, acionamos nossas redes pessoais e profissionais, que muitas vezes se sobrepõem, e fizemos um post pedindo ajuda no grupo do Facebook aqui estudado Mulheres do Audiovisual Brasil. No mesmo instante, as integrantes começaram a responder, sugerindo nomes e marcando outras mulheres que pudessem contribuir. Como resultado, no final daquele dia já contávamos com dezenas de possibilidades a serem investigadas.

Ao longo do percurso, aprofundando nosso conhecimento sobre tantas ações e iniciativas, percebemos que o que nos aconteceu neste post e o que vivenciamos diariamente na curadoria e produção do cineclube Quase Catálogo não são casos isolados. Muitas mulheres do audiovisual estão realmente engajadas em mudar o cenário adverso onde atuam ou pretendem atuar, investindo parte do seu tempo em projetos seus, ou mesmo de outras que possam contribuir com este objetivo.

Ademais, como apontamos nas primeiras páginas e ao tratar das 8 iniciativas abordadas, a internet costuma ser muito mais que um espaço de divulgação de filmes e atividades - embora ela também seja este espaço, o que é muito importante. Para algumas, como o site Mulher no Cinema, o grupo do Facebook Mulheres do Audiovisual Brasil e a plataforma Mulheres Negras no Audiovisual Brasileiro, por exemplo, é a própria arena de atuação. No entanto, é fundamental destacar seu papel como lugar de informação e de formação - não só sobre audiovisual, mas também sobre feminismo - e na articulação de frentes e ações colaborativas, onde o engajamento, mencionado no parágrafo acima, encontra diversas maneiras (que, claro, não são as únicas) de se efetivar.

A internet também contribui para uma memória das movimentações feministas que estão ocorrendo no audiovisual brasileiro contemporâneo. Porém, é sabido que tal contribuição se dá através de informações dispersas, desorganizadas, muitas vezes produzidas sem a intenção de constituírem registro e, menos ainda, um conjunto lógico, organizado e de rápido acesso. Esta foi a outra razão pela qual enfocamos os eventos, os tempos curtos e as conjunturas. Ao mesmo tempo em que há uma proliferação de ações e iniciativas, é preciso começar a reunir o material espalhado na internet e complementá-lo com outras fontes se quisermos ser protagonistas na escrita das narrativas sobre nós, mulheres do audiovisual, e criar um cenário em que cada vez mais se torne impossível encontrar livros sobre cinema nos quais diretoras, produtoras, roteiristas, fotógrafas, críticas, exibidoras etc., estejamos ausentes.

Embora o tom do artigo tenha sido de otimismo, porque independente de qualquer estatística vivemos um momento extraordinário, também é preciso olhar para alguns dados referentes ao período. A partir de dados disponibilizados pelo Observatório Brasileiro do Cinema e do Audiovisual______. Filmes Brasileiros Lançados - 1995 a 2015. Disponível em: http://oca.ancine.gov.br/sites/default/files/cinema/pdf/2102_1.pdf. Acesso em: 18/12/2016.
http://oca.ancine.gov.br/sites/default/f...
- OCA, da ANCINE, elaboramos gráfico 1:

Gráfico 1
Filmes brasileiros lançados X filmes dirigidos por mulheres lançados

Percebe-se que, entre 2005 e 2015, houve um incremento significativo no total de filmes brasileiros lançados, mas o número de produções dirigidas por mulheres que conseguiram estrear não cresceu na mesma proporção. Na verdade, desde 2007 estávamos em um período em que a sub-representação vinha, muito lentamente e aquém das expectativas e necessidades das mulheres, diminuindo. Contudo, em 2013 e 2014, temos um novo revés, como pode ser visto no gráfico 2, também elaborada por nós sobre a mesma base de dados.

Gráfico 2
Porcentagem de filmes dirigidos por mulheres dentro do total de lançamentos

É curioso que em 2015, ano em que algumas iniciativas de promoção de visibilidade e igualdade para mulheres e combate ao machismo já estavam em curso, assim como as discussões e movimentações que resultariam no surgimento de tantas outras em 2016, o número de lançamentos de filmes de mulheres volta a crescer. Quando o OCA divulgar os números de 2016 poderemos afirmar com mais propriedade se foi coincidência ou não.

Será fundamental para isso, também, a continuidade da pesquisa realizada pela ANCINE sobre a Presença feminina no audiovisual brasileiro19 19 Estudo elaborado pela Superintendência de Análise de Mercado (SAM)/Coordenação do Observatório do Cinema e do Audiovisual (COB)/Assessoria da Diretoria Colegiada da Ancine e apresentado em março de 2016 por Débora Ivanov no Rio Content Market. (2016), por abranger não apenas os longas-metragens e as salas de exibição, mas também outros âmbitos da produção nos quais talvez seja mais fácil as mulheres desenvolverem carreiras como cabeças de equipe. Aliás, é importante destacar que esta foi a primeira vez que a ANCINE dedicou tantos esforços a fazer um diagnóstico da desigualdade de gênero, mesmo que com as limitações anteriormente apontadas, e apresentou seus resultados em um local importante como o Rio Content Market de 2016. Aqui sim acreditamos ser possível estabelecer com segurança uma relação com este novo interesse pelo feminismo e sua penetração entre as mulheres do audiovisual.

Por fim, retomando o que disse uma das entrevistadas, ainda é cedo para nos arriscarmos a desenhar hipóteses para o futuro. E, ao mesmo tempo que é importante celebrar o que vem acontecendo, faz-se necessária a consciência de que ainda há muito trabalho pela frente. “A mulher no cinema é o assunto do momento, mas tem de ser assunto sempre. Até não ser mais assunto”.20 20 Luísa Pécora, em entrevista realizada por e-mail dia 9 de dezembro de 2016.

Referências

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  • BRASIL, Samantha; VIEIRA, Camila. Entrevista sobre o Cineclube Delas. Realizada presencialmente em 8 de dezembro de 2016.
  • CANDIDO, Marcos. “Buscas por ‘feminismo’ e ‘empoderamento feminino’ cresceram no Google - e isso é ótimo”. Elástica, São Paulo, 27/11/2015. Disponível em: Disponível em: http://elastica.abril.com.br/buscas-por-feminismo-e-empoderamento-feminino-cresceram-no-google-e-isso-e-otimo Acesso em: 18/12/2016.
    » http://elastica.abril.com.br/buscas-por-feminismo-e-empoderamento-feminino-cresceram-no-google-e-isso-e-otimo
  • CARDOZO, Maria. FINCAR: Diretora artística fala sobre novo festival feminino. Mulher no Cinema, 8/03/2016. Entrevista concedida à Luísa Pécora. Disponível em: Disponível em: http://mulhernocinema.com/entrevistas/diretora-artistica-fala-sobre-fincar-festival-para-mulheres-cineastas/ Acesso em: 18/12/2016.
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  • CINECLUBE DELAS. 100 melhores filmes dirigidos por mulheres no século XXI Disponível em: Disponível em: https://www.facebook.com/permalink.php?story_fbid=268076023590486&id=193928527671903&substory_index=0 Acesso em: 18/12/2016.
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  • COGO, Denise; SILVA, Terezinha. “Mídia, alteridade e cidadania da imigração haitiana no Brasil” In: ENCONTRO DA ASSOCIAÇÃO NACIONAL DOS PROGRAMAS DE PÓS-GRADUAÇÃO EM COMUNICAÇÃO, 2015, Brasília. Anais ... Brasília: Compós, 2015, p. 1-16.
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  • FERNANDES, Gabriela. Entrevista sobre o coletivo Somos Mais que 30. Realizada por e-mail em 5 de dezembro de 2016.
  • FESTIVAL INTERNACIONAL DE CINEMA DE REALIZADORAS. Apresentação Disponível em: Disponível em: http://fincar.com.br/apresentacao/ Acesso em: 18/12/2016.
    » http://fincar.com.br/apresentacao/
  • LINTH, Elen. Entrevista sobre a produtora Eparrêi Filmes. Realizada por e-mail em 10 de dezembro de 2016.
  • MULHER no cinema. Disponível em: http://mulhernocinema.com/
    » http://mulhernocinema.com/
  • MULHERES negras no audiovisual brasileiro. Disponível em: http://mulheresnegrasavbr.com/
    » http://mulheresnegrasavbr.com/
  • OBSERVATÓRIO BRASILEIRO DO CINEMA E DO AUDIOVISUAL. Informe de Acompanhamento do Mercado. Produção de Longas-Metragens. Disponível em: Disponível em: http://oca.ancine.gov.br/sites/default/files/cinema/pdf/informe_producao_2014.pdf Acesso em: 18/12/2016.
    » http://oca.ancine.gov.br/sites/default/files/cinema/pdf/informe_producao_2014.pdf
  • ______. Filmes Brasileiros Lançados - 1995 a 2015. Disponível em: http://oca.ancine.gov.br/sites/default/files/cinema/pdf/2102_1.pdf Acesso em: 18/12/2016.
    » http://oca.ancine.gov.br/sites/default/files/cinema/pdf/2102_1.pdf
  • OLIVEIRA JÚNIOR, Luiz Carlos Gonçalves de. Vertigo, a teoria artística de Alfred Hitchcock e seus desdobramentos no cinema moderno 2015. Tese (Doutorado em Meios e Processos Audiovisuais), Programa de Pós-Graduação em Meios e Processos Audiovisuais, Escola de Comunicação e Artes da USP, São Paulo.
  • RODRIGUES, Carol. Entrevista sobre Mulheres Negras no Audiovisual Brasileiro Carol. Realizada por e-mail em 12 de dezembro de 2016.
  • SARMET, Érica; TEDESCO, Marina Cavalcanti. “Cineclubismo e mulheres cineastas no estado do Rio de Janeiro: a experiência do cineclube Quase Catálogo”. Revista Moventes, v. 1, n. 1, set. 2016.
  • TÉLÉRAMA. Les 100 meilleurs films de l'histoire selon “Télérama”. Disponível em: Disponível em: http://www.telerama.fr/cinema/les-100-meilleurs-films-de-l-histoire-selon-telerama,149864.php Acesso em: 9/12/2016.
    » http://www.telerama.fr/cinema/les-100-meilleurs-films-de-l-histoire-selon-telerama,149864.php
  • TOSTE, Verônica; CANDIDO, Marcia Rangel. O Brasil das telas de cinema é um país branco Disponível em: Disponível em: http://gemaa.iesp.uerj.br/publicacoes/infografico/infografico1.html Acesso em: 18/12/2016.
    » http://gemaa.iesp.uerj.br/publicacoes/infografico/infografico1.html

Filmes

  • ACADEMIA das musas. Direção: José Luis Guerín. Espanha, 2015.
  • BAHÊA minha vida. Direção: Márcio Cavalcante. Gênero: Documentário, Brasil, 2011.
  • ELA fica linda quando está com raiva. Direção: Mary Dove. Gênero: Documentário, 2014.
  • ELENA. Direção: Petra Costa. Roteiro: Carolina Ziskind, Petra Costa. Produção: Julia Bock. Gênero: Biografia/Documentário, Brasil, 2012, 82min.
  • CÁSSIA Eller. Direção e roteiro: Paulo Henrique Fontenelle. Produção: Iafra Britz. Brasil, 2014, 120min.
  • CORPO que cai, Um. Direção: Alfred Hitchcock. Produtores: Alfred Hitchcock, Herbet Coleman. Gênero: Mistério/Romance/Thriller, EUA, 1958, 128min.
  • GAROTAS. Direção: Céline Sciamma. Gênero: Drama, França, 2015, 112min.
  • GUERRA ao terror. Direção: Kathryn Bigelow. Roteiro: Mark Boal. Produtores: Donall McCusker, Greg Shapiro, Jack Schuster, Jenn Lee, Kathryn Bigelow, Mark Boal, Nicolas Chartier, Tony Mark. Gênero: Ação/Drama/Guerra, EUA, 2008, 128min.
  • O INÍCIO, o fim e o meio - Raul. Direção: Walter Carvalho, Leonardo Gudel, Evaldo Mocarzel. Roteiro: Leonardo Gudel. Produtores: Alain Fresnot, Denis Feijão. Gênero: Biografia/Documentário, Brasil, 2012, 128min.
  • RESPOSTA das mulheres. Direção: Agnés Varda. Gênero: Documentário, França, 1975.
  • TARJA branca. Direção: Cacau Rhoden. Roteiro: Marcelo Negri. Produção: Juliana Borges. Gênero: Documentário, Brasil, 2014, 80min.

  • 1
    Sobre o cineclube Quase Catálogo e o feminismo no movimento cineclubista, ver Érica SARMET & Marina Cavalcanti TEDESCO (2016SARMET, Érica; TEDESCO, Marina Cavalcanti. “Cineclubismo e mulheres cineastas no estado do Rio de Janeiro: a experiência do cineclube Quase Catálogo”. Revista Moventes, v. 1, n. 1, set. 2016.).

  • 2
    Somos Mais Que 30 (https://www.facebook.com/somosmaisque30/) é um coletivo composto por mulheres que trabalham no audiovisual. Foi formado após um caso ocorrido no Rio de Janeiro no primeiro semestre de 2016, onde uma menina foi estuprada por pelo menos 30 homens, que colocaram vídeos de seu crime na internet. O objetivo do grupo, segundo a integrante Gabriela FernandesFERNANDES, Gabriela. Entrevista sobre o coletivo Somos Mais que 30. Realizada por e-mail em 5 de dezembro de 2016., em entrevista realizada em 5 de dezembro de 2016, é combater a violência contra a mulher.

  • 3
    As informações e citações creditadas à Luisa Pécora nesse artigo são fruto de entrevista realizada por e-mail no dia 9 de dezembro de 2016.

  • 4
    Empresa de cinema e audiovisual de São Paulo ligada à Secretaria Municipal de Cultura.

  • 5
    As informações e citações creditadas à Malu AndradeANDRADE, Malu. Entrevista sobre o grupo do Facebook Mulheres do Audiovisual. Realizada por e-mail em 8 de dezembro de 2016. nesse artigo são fruto de entrevista realizada por e-mail no dia 8 de dezembro de 2016.

  • 6
    As informações e citações creditadas a Carol RodriguesRODRIGUES, Carol. Entrevista sobre Mulheres Negras no Audiovisual Brasileiro Carol. Realizada por e-mail em 12 de dezembro de 2016. nesse artigo são fruto de entrevista realizada por e-mail no dia 12 de dezembro de 2016.

  • 7
    Abordaremos apenas a sub-representação das mulheres negras por não termos dados para tecer considerações sobre as mulheres indígenas. Contudo, é importante ressaltar que a ausência destas no audiovisual brasileiro é gritante e brutal.

  • 8
    A Agência Nacional do Cinema – ANCINE – disponibilizou, em 2016, um levantamento sobre as diretoras no audiovisual brasileiro. Contudo, como a variável raça ficou de fora do escopo da investigação, preferimos trabalhar com o material do GEMAA.

  • 9
    O Edital Carmen Santos Cinema de Mulheres, outra ação afirmativa lançada no mesmo período do Curta Afirmativo, não foi tão contestado. No entanto, seu destino também foi a descontinuidade.

  • 10
    As informações e citações creditadas à Marília Nogueira nesse artigo são fruto de entrevista realizada por e-mail no dia 9 de dezembro de 2016.

  • 11
    As informações e citações creditadas à Elen LinthLINTH, Elen. Entrevista sobre a produtora Eparrêi Filmes. Realizada por e-mail em 10 de dezembro de 2016. nesse artigo são fruto de entrevista realizada por e-mail no dia 10 de dezembro de 2016.

  • 12
    O grupo de estudos Academia das Musas, assim como seu antecessor, Aurora, não está vinculado a nenhuma instituição. Reúne pessoas de diferentes universidades, mas também do meio cinematográfico e da sociedade em geral.

  • 13
    As informações e citações creditadas a Juliana Costa nesse artigo são fruto de entrevista realizada por e-mail entre os dias 5 e 7 de dezembro de 2016.

  • 14
    Em novembro dois diretores trans entraram na programação. Posto que muitas vezes homens transexuais enfrentam preconceitos e violências semelhantes aos infligidos às mulheres, isso não foi visto como um desvio na proposta do cineclube.

  • 15
    As informações creditadas à Samantha Brasil e Camila VeiraBRASIL, Samantha; VIEIRA, Camila. Entrevista sobre o Cineclube Delas. Realizada presencialmente em 8 de dezembro de 2016. nesse artigo são fruto de entrevista presencial, realizada no dia 8 de dezembro de 2016.

  • 16
    É interessante destacar que acabar exibindo quase que exclusivamente filmes nacionais, mesmo sem ter uma política previamente definida nesse sentido, é um fenômeno que ocorre em outros cineclubes brasileiros. No cineclube Quase Catálogo, coordenado por nós, aconteceu a mesma coisa: das 8 sessões apenas uma foi dedicada à produção estrangeira.

  • 17
    Ocupação estudantil do Instituto de Filosofia e Ciências Sociais da Universidade Federal do Rio de Janeiro.

  • 18
    Evento que promove a ocupação das ruas com diversas atividades culturais. A convite do Cineclube Facção Feminista, os cineclubes Delas e Quase Catálogo fizeram a curadoria de um curta-metragem feito por mulher para ser exibido.

  • 19
    Estudo elaborado pela Superintendência de Análise de Mercado (SAM)/Coordenação do Observatório do Cinema e do Audiovisual (COB)/Assessoria da Diretoria Colegiada da Ancine e apresentado em março de 2016 por Débora Ivanov no Rio Content Market.

  • 20
    Luísa Pécora, em entrevista realizada por e-mail dia 9 de dezembro de 2016.

  • 21
    About the Quase Catálogo and feminism in the film movement, see SARMET & TEDESCO, 2016SARMET, Érica; TEDESCO, Marina Cavalcanti. “Cineclubismo e mulheres cineastas no estado do Rio de Janeiro: a experiência do cineclube Quase Catálogo”. Revista Moventes, v. 1, n. 1, set. 2016..

  • 22
    Somos Mais Que 30 (We Are More than 30) (https://www.facebook.com/somosmaisque30/) is a collective group composed by women that work with audiovisual. It was created after a case that happened in Rio de Janeiro in the first semester of 2016, when a girl was raped by at least 30 men, who posted online the videos they made during the crime. The objective of the group, according to member Gabriela FernandesFERNANDES, Gabriela. Entrevista sobre o coletivo Somos Mais que 30. Realizada por e-mail em 5 de dezembro de 2016., in an interview held on December 5, 2016, is to combat violence against women.

  • 23
    The informations and quotes credited to Luísa Pécora in this paper are the result of an interview made by e-mail on December 9, 2016.

  • 24
    Film and audiovisual company of São Paulo, linked to the Municipal Secretary of Culture.

  • 25
    The information and quotes credited to Malu AndradeANDRADE, Malu. Entrevista sobre o grupo do Facebook Mulheres do Audiovisual. Realizada por e-mail em 8 de dezembro de 2016. in this article are the result of an interview conducted by e-mail on December 8, 2016.

  • 26
    The information and quotes credited to Carol RodriguesRODRIGUES, Carol. Entrevista sobre Mulheres Negras no Audiovisual Brasileiro Carol. Realizada por e-mail em 12 de dezembro de 2016. in this article are the result of an interview conducted by e-mail on December 12, 2016.

  • 27
    We will address only the underrepresentation of black women because we have no data to make considerations about indigenous women. However, it is important to emphasize that the absence of these in the Brazilian audiovisual is blatant and brutal.

  • 28
    The National Cinema Agency - ANCINE made available in 2016 a survey about the directors in the Brazilian audiovisual sector. However, since the race variable is outside the scope of the investigation, we prefer to work with the GEMAA material.

  • 29
    The funding Carmen Santos Cinema for Women, another affirmative action launched in the same period of the “CurtaAfirmativo”, was not so contested. However, its fate was also discontinuity.

  • 30
    The information and quotes credited to MaríliaNogueira in this article are the result of an interview conducted by e-mail on December 9, 2016.

  • 31
    The information and quotes credited to Elen LinthLINTH, Elen. Entrevista sobre a produtora Eparrêi Filmes. Realizada por e-mail em 10 de dezembro de 2016. in this article are the result of an interview conducted by e-mail on December 10, 2016.

  • 32
    The study group Academy of Muses, like its predecessor Aurora, is not tied to any institution. It brings together people from different universities, but also from the cinematographic milieu and from society in general.

  • 33
    The information and quotes credited to Juliana Costa in this article are the result of an interview conducted by e-mail between December 5 and 7, 2016.

  • 34
    In November, two transgender directors entered the program. Since transsexual men often face prejudice and violence similar to those inflicted on women, this was not seen as a departure from the film's proposal.

  • 35
    The information credited to Samantha Brasil and Camila VeiraBRASIL, Samantha; VIEIRA, Camila. Entrevista sobre o Cineclube Delas. Realizada presencialmente em 8 de dezembro de 2016. in this article is the result of a face-to-face interview, held on December 8, 2016.

  • 36
    It is interesting to note that ending up exhibiting almost exclusively national films, even without having a policy previously defined in this sense, is a phenomenon that occurs in other Brazilian film clubs. In the film club “QuaseCatálogo, almost the same happened: of the 8 sessions only one was dedicated to foreign production.

  • 37
    Student occupation of the Institute of Philosophy and Social Sciences of the Federal University of Rio de Janeiro.

  • 38
    Event that promotes the occupation of streets with various cultural activities. At the invitation of the Feminist Faction Film club, the Delas and QuaseCatálogo Film clubs curated a short film by a woman to be screened.

  • 39
    Study elaborated by the Supervision of Market Analysis (SAM) / Coordination of the Cinema and Audiovisual Observatory (COB) / Advisory Board of Ancine's Collegiate Board and presented in March 2016 by Débora Ivanov at Rio Content Market. Available at: http://www.ancine.gov.br/sites/default/files/apresentacoes/Presen%C3%A7a%20Feminina%20-%20RCM%202_0.pdf.

  • 40
    Luísa Pécora, in an interview conducted by e-mail on December 9, 2016.

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    Sep-Dec 2017

Histórico

  • Recebido
    13 Fev 2017
  • Aceito
    30 Mar 2017
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