Open-access Para além da Etnização: Migração Internacional, Trabalho, Relações Familiares e a Complexidade das Indústrias de Produção de Roupas em São Paulo

Beyond Ethnicity: International Migration, Labour, Family Relations and the Complexity of the Clothing Production Industries in São Paulo

Resumo

Este artigo discute a presença de migrantes internacionais na indústria têxtil e de vestuário de São Paulo e problematiza o uso de categorias de nacionalidade e etnia em alguns estudos de migração no Brasil. As autoras, que também são migrantes internacionais ou descendentes, argumentam que suas posicionalidades influenciam sua sensibilidade de pesquisa. A partir de um "desconforto epistemológico" em relação a representações sobre o trabalho associado a certos grupos de migração em São Paulo, o artigo examina a tendência de se "etnizar" alguns setores da produção do setor de produção têxtil e de roupas. Tal tendência invisibiliza a diversidade de experiências migratórias e reforça estereótipos. Em contraposição, o artigo propõe uma abordagem que valoriza a complexidade das vivências migrantes e, ao assim proceder por meio de uma proposta de “pensar com cuidado”, identifica que as relações familiares são socialidades importantes nas dinâmicas de trabalho no setor de produção em discussão.

Palavras-chaves:
migração internacional; posicionalidade; epistemologias; etnização de setores produtivos; indústrias têxtil e de roupas

Abstract

This article discusses the presence of international migrants in the textile and clothing industry in São Paulo and questions the use of nationality and ethnicity categories in some migration studies in Brazil. The authors, who are also international migrants or descendants, argue that their positions influence their research sensibility. Based on an “epistemological discomfort” regarding representations of work associated with certain migrant groups in São Paulo, the article examines the tendency to “ethnicize” some sectors of the textile and clothing production industry. This tendency obscures the diversity of migrant experiences and reinforces stereotypes. In contrast, the article proposes an approach that values the complexity of migrant experiences and, in doing so through a proposal to “think carefully”, identifies that family relationships are important socialities in the work dynamics of the production sector under discussion.

Keywords:
international migration; positionality; epistemologies; ethnicization of productive sectors; textile and clothing industries

1. Introdução

São muitas as histórias da indústria têxtil e de confecção de São Paulo e nem todas chegam a ser consideradas. Por isso, enquanto pesquisadoras, as histórias que nos foram confiadas têm nos mobilizado a refletir justamente sobre aquelas que ainda não foram contadas. Principalmente pela razão de que o que ainda não foi contado nos foi compartilhado porque, de alguma maneira, vivenciamos as mesmas condições de nossas interlocutoras e interlocutores de sermos consideradas migrantes internacionais. Por isso, aqui tentamos discutir como isso contribui para configurar nossa sensibilidade de pesquisa. As histórias da indústria têxtil e de confecção que chegaram até nós são diversas e complexas. E esta complexidade tem nos movido a rever certos entendimentos estabelecidos nos estudos sobre a produção têxtil e de vestuário, principalmente aquela vinculada à presença de grupos de migrantes internacionais em São Paulo. Acompanhando as percepções de nossas interlocutoras e interlocutores, nossas posicionalidades de pesquisadoras, por sua vez, implicam um sentimento de desconforto epistemológico em relação a certas representações veiculadas por estudos sobre trabalho e migração internacional no Brasil, particularmente àquelas vinculadas ao setor de produção de roupas em São Paulo.

Neste artigo, discutimos o fenômeno da presença de migrantes internacionais na indústria têxtil e de vestuário de São Paulo para problematizar o uso de categorias de nacionalidade e etnia realizado por alguns estudos de migração no Brasil e suas implicações na vida de certos grupos de migração e seus descendentes. Assim o fazemos para chamar a atenção para uma produção de conhecimento mais humanizada neste campo. Ao interrogarmos sobre certos usos destas categorias, discutimos mais especificamente as consequências desses usos como processos redutivos e extremamente objetificantes das realidades e dos sujeitos que enquadram. Metodologicamente, encontramos em nossas posicionalidades o meio através do qual estranhamos certos entendimentos sobre nacionalidade e etnia que contribuem para a construção de representações depreciativas de certos grupos de migrantes internacionais envolvidos com a produção têxtil e de roupas em São Paulo. Entendemos nossas posicionalidades como uma abordagem colaborativa e situada, preocupada com os desafios da co-construção de saberes não somente entre nós pesquisadoras, mas também entre nós e nossas interlocutoras e interlocutores de pesquisa. Consequentemente, em termos epistemológicos, isso nos leva a discutir certas linhas de produção do conhecimento acadêmico que dão pouca atenção a experiências migratórias complexas, marcadas por múltiplas contradições e ambiguidades. Ao atentarmos para essas dimensões, propomos trazer ao debate a possibilidade de se produzir conhecimento a partir de experiências afetivas e plurais que contribuam para abordagens mais nuançadas - e, por isso, mais calibradas a respeito das formas de poder que nos atravessam - dentro dos estudos de migração no Brasil.

O artigo está organizado em três movimentos principais. Na primeira parte, discutimos nossas posicionalidades enquanto pesquisadoras migrantes e descendentes de migrantes, situando-as como ponto de partida metodológico e epistemológico para a análise, bem como explicitando o “desconforto epistemológico” que orienta nossa crítica a certos usos das categorias de nacionalidade e etnia nos estudos de migração no Brasil. Em seguida, examinamos a literatura que trata da presença de migrantes internacionais na indústria têxtil e de vestuário em São Paulo, problematizando os efeitos da etnização de determinados setores produtivos e suas implicações na produção de estereótipos e estigmas sociais. Na terceira parte, a partir de material etnográfico e de entrevistas realizadas com interlocutoras e interlocutores envolvidos com a produção de roupas na cidade, adentramos a complexidade do mundo do trabalho nesse setor, destacando a centralidade das relações familiares tanto na inserção quanto na organização das unidades produtivas. Ao longo do texto, buscamos articular reflexão teórica e experiências empíricas de modo a propor uma abordagem mais cuidadosa, situada e nuançada das relações entre migração, trabalho e produção de conhecimento.

Para a pesquisa como um todo, conversamos com 33 pessoas envolvidas direta ou indiretamente em atividades vinculadas à produção têxtil e de roupas, entrevistadas entre junho de 2023 e setembro de 2024. Porém, para os propósitos deste artigo, nos concentraremos nas conversas estabelecidas com entrevistadas e entrevistados que se identificam enquanto donos de unidades de produção, como confecções e oficinas de costura, ou são filhas e filhos destes. Além disso, foram resgatados alguns materiais reunidos durante o trabalho de campo da pesquisa de doutorado de Simone Toji, realizado entre setembro de 2013 e fevereiro de 2015.

2. Construindo uma experiência de pesquisa de coexistência dentro dos estudos de migração no Brasil

2.1 Posicionando-se, conhecendo a si, os “seus” e os “outros”

Para se refletir de que maneira nossas posicionalidades variadas influenciam como concebemos conjuntamente nossas questões de pesquisa e como estabelecemos nossos relacionamentos com nossas interlocutoras e interlocutores, é preciso antes caracterizar estas posicionalidades. Acreditamos que “caracterizar” e “categorizar” deve ser um gesto cauteloso para não se incorporar as mesmas formas que homogeneizam e reificam, as quais pretendemos questionar neste trabalho. Neste sentido, consideramos fundamental qualificar nossas posicionalidades a partir de uma preocupação interseccional, mas também afetiva (Lugones, 2008; Anzaldúa, 1987; Lorde, 1984), que apoie a produção de um conhecimento situado (Haraway, 1988) e questione certos pressupostos no uso reificado das categorias de nacionalidade e etnia no campo dos estudos da migração no Brasil. Assim, para além de sermos pessoas com identidades associadas à migração internacional, conforme mencionado anteriormente, somos mulheres com experiências acadêmicas diferenciadas e trajetórias bastante distintas.

Eu, Jung Yun Chi, nascida em Seul, cheguei em São Paulo como filha de um pai engenheiro que aceitou a transferência de cargo para o Brasil com duas filhas adolescentes. O bairro do Bom Retiro se tornou parte de minha trajetória em 2014, quando decidi desenvolver uma proposta acadêmica para revelar as diversidades dentro da comunidade de coreanos no Brasil (Chi, 2016). Meu objetivo era tentar quebrar o olhar estereotipado que a sociedade brasileira nos dirigia e do qual eu também me considerava atingida. Como arquiteta urbanista em pleno exercício da profissão, parecia incompreensível a frequência com que as pessoas presumiam que eu fosse uma confeccionista do Bom Retiro. Pois eu estava disposta a tentar entender a causa dessa situação. Porém, passados dez anos desde então, posso dizer que acabei me tornando o próprio estereótipo: coreana de meia-idade, migrante, confeccionista do Bom Retiro, rendida à pressão para desistir da profissão para assumir o negócio da família do meu marido. Tentando aprender um ofício novo, sou treinada pelas mãos da minha sogra, que nunca desistiu da ideia de me ter como sua sucessora desde que me casei com seu filho, um rapaz que conheci durante a pesquisa de campo do mestrado. Ela acredita, assim como a maioria das senhoras que fundaram junto com seus maridos as confecções do bairro, que um homem não consegue tocar o negócio sozinho, já que a parceria entre casais na divisão de trabalho é a peça central do negócio familiar. Um outro ponto sustentado por minha sogra é que uma carreira de especialista, mesmo que próspera, não poderia deixar de ser substituída por outra mais rentável - os parâmetros econômicos reinam absolutos nas tomadas de decisões de carreira em nome das contas para pagar, do padrão de vida a sustentar, dos filhos para criar e do legado familiar para continuar.

A essa altura, encontrei-me frustrada com a falta de perspectiva de ascender na carreira de arquiteta em grandes incorporadoras, sendo mãe e uma mulher racializada de fala desengonçada, carregada de sotaque, que ainda se depara com a dificuldade de interpretar certos códigos sociais. Porém, cada vez mais percebo que esses códigos também são formas pelas quais a sociedade brasileira nos racializa, afunilando nossas opções de carreira. Por isso, conheço de antemão os rótulos negativos que a mídia e a academia oferecem para a minha etnia e o meu tipo de negócio. Mas o dia a dia da confecção me faz ver que as coisas, mais uma vez, nunca são inteiramente claras e definidas. Como as coisas funcionam nesse mercado é o resultado complexo de um processo orgânico, empírico, histórico e coletivo. À parte as discussões éticas e até moralistas, há o modus operandi próprio de todo um modelo de negócio cujo lucro se baseia na máxima exploração da flexibilização de trabalho, de parcerias que se movimentam de acordo com as demandas, tendo como objetivo comum o menor custo fixo. É um negócio de alto desempenho que sempre teve na base do seu funcionamento uma competição acirrada entre negócios vizinhos - a conformação de clusters comerciais nos bairros do Bom Retiro e do Brás é a força e, ao mesmo tempo, a debilidade das confecções gerenciadas por famílias de origem coreana. Essas confecções hoje se inserem no cenário de competitividade transnacional, em disputa direta com produções oriundas de outros países e, para conferir ainda maior agressividade ao processo, com uma mercadoria altamente efêmera cujo apelo de venda mal se sustenta por alguns meses no rápido fluxo de informações da moda, do mundo fast fashion. Aos poucos, acostumo-me à ideia de ser responsável pela pequena equipe de empregados e de outras relações comerciais - entre oficinas, fornecedores, representantes, lojistas, etc., e aceitar conviver com a falta de controle sobre o que acontece além do meu alcance.

Sempre que posso, digo que o meu negócio é como um qualquer e que, sobretudo, é de uma empresa brasileira, remanescente da era industrial da região central da cidade de São Paulo, apesar de tocada pelas mãos de migrantes internacionais. Mesmo que óbvio, essa verdade choca as pessoas sempre que é dita. É tão chocante quanto o meu marido, filho de coreanos, declarar-se um brasileiro. Por mais que eu lute contra o estereótipo, eu vejo que sou frequentemente convencida a reforçá-lo eu mesma. Por exemplo, sei que o sentimento de culpa que sinto pelo trabalho que tenho é um sinal de aceite desse estereótipo, apesar de saber que a solução dos problemas inerentes do sistema de produção atual da moda - sejam eles ético, ambiental ou social - depende de um movimento coletivo e que a lógica econômica dos negócios da moda em nada tem relação com o caráter ou a moralidade de uma etnia.

Já eu, Jobana Moya Rodrigues, de Quillacollo, nascida em Cochabamba, moro no Brasil há 18 anos. Sou uma mulher imigrante humanista, boliviana, quechua, esposa, mãe de Wayra e Fernando Osvaldo, ativista pela causa migrante, a Não Violência Ativa e a Não Discriminação. Agora também sou acadêmica, desenvolvo uma pesquisa sobre as práticas culturais na gravidez, parto e pós-parto de mulheres quechuas e aymaras na cidade de São Paulo. Este é um lugar difícil de ocupar, de dar conta. Questionar o próprio lugar de onde teorizo (Spivak, 2010) irremediavelmente me faz refletir sobre minha trajetória como migrante na metrópole de São Paulo: os entendimentos, as mudanças, os afetos, os ganhos e as perdas. Cheguei sem saber quase nada sobre o Brasil, sobre xenofobia, racismo e sobre a vida longe da família. Casar com um brasileiro com certeza me deu acesso a privilégios como poder regularizar meu status migratório mais rapidamente, porém não mais facilmente: há muita burocracia em ambos os países. Não tive problema com a moradia, mas em relação ao trabalho, tive que estudar outras coisas em São Paulo para me inserir no trabalho autônomo. O idioma foi mais difícil; primeiro, porque eu não queria aprender, já que tinha a falsa esperança de ir embora logo; e, segundo, porque aprender o português não foi fácil para mim. Não falar a língua local sujeita os migrantes a silêncios, que depois são uma escolha para nos proteger. Os silêncios também dizem muitas coisas que as palavras não dão conta de expressar (Spivak, 2010).

Morar aqui me fez refletir sobre quem sou, me fez valorizar minha história pessoal e familiar, me permitiu me apoiar na minha comunidade de origem, a me sentir acolhida e abraçada por uma rede de afetos construída na militância pela causa humanista e migrante em diversas áreas, seja com pessoas brasileiras, migrantes ou refugiadas. Sou fundadora do coletivo de mulheres imigrantes Equipe de Base Warmis, que faz parte do Organismo Internacional Convergências das Culturas do Movimento Humanista desde 2013. Este coletivo nasceu com a pauta de lutar contra a violência obstétrica que mulheres imigrantes andinas sofriam (e que eu também sofri na minha gravidez) e que depois foi se ampliando a diversas pautas relacionadas com o acesso a direitos sociais como: a valorização da interculturalidade; a participação política de mulheres imigrantes; a democratização da informação em relação a direitos para a população migrante (formulação e elaboração de cartilhas, oficinas e produção de materiais para redes sociais e radiodifusão); o interesse na construção de políticas públicas na luta contra o racismo, a xenofobia e a toda forma de violência em esferas locais, federais e internacionais. Tudo isso articulado com coletivos de mulheres migrantes e equipes de base humanistas em outros países. Minha vida pessoal sempre esteve vinculada ao meu ativismo, porque as questões que enfrentei no meu cotidiano eram pautas que depois foram para a luta coletiva, pois a experiência das mulheres migrantes é muito similar em vários aspectos. Nessa longa caminhada, ficou mais que evidente que eu precisava ocupar também o espaço da academia para poder aportar a partir “deste lugar”, aportar uma outra perspectiva que ajude a enxergar e complementar de uma forma mais ampla a complexidade do tema da migração.

No contexto da migração, especialmente aquela atravessada por marcadores sociais como gênero, raça e classe social, as pessoas migrantes - por uma questão de sobrevivência - aceitam trabalhar em péssimas condições por salários abaixo do mínimo que é pago localmente, como acontece com uma parte da comunidade boliviana no campo da costura, onde custos são barateados com as terceirizações que dificilmente são alcançadas pelas leis trabalhistas (Spivak, 2010). Isso obriga esta população a viver em condições de vida, moradia e trabalho precarizadas, que podemos ilustrar com um relato que apareceu no trabalho de campo de nossa pesquisa, com uma entrevistada, filha de costureiros. Junto com sua família, esta entrevistada mora no bairro Bom Retiro, local que é referência na venda e produção de roupa, onde também se abrigam oficinas de costureiros bolivianos terceirizados, juntamente com a experiência de Jung Yun Chi com as confecções locais. Esta entrevistada nunca tinha entrado nas lojas de roupa da rua José Paulino, nem comprado nenhuma das suas roupas ali. Chama a atenção que a roupa que costuram é uma roupa que não é para “eles”, é para os “outros”. Quem são esses outros? Por que as pessoas bolivianas que trabalham na costura não podem usar essas roupas? Acredito que não somente tem a ver com os valores que são pagos aos costureiros e costureiras e os valores pelos quais são vendidas essas peças, mas também aos lugares que somos obrigadas a ocupar nesta sociedade, a performance de vida que se quer impor à nossa comunidade. Na minha experiência em diversas áreas, parece que nunca sei o suficiente porque não sou daqui, então nunca sou ou serei boa o suficiente para ocupar certos lugares, parece que sempre tenho que me esforçar mais para “merecer” qualquer coisa aqui.

Eu, Simone Toji, nasci em São Paulo, de um pai que nasceu no Japão e uma mãe que nasceu no Brasil. Assim como o marido de Jung Yun Chi, apesar de ter nascido no Brasil e ter o português como minha primeira língua, raramente sou considerada como brasileira no dia a dia. Direta ou indiretamente, consciente ou inconscientemente, as pessoas no Brasil se referem a mim como sendo “oriental” na maior parte das vezes. Isso inclui ser abordada como chinesa, coreana e, quando muito, como japonesa. O tratamento que recebo é bastante situacional. Quando morei no Bom Retiro durante meus estudos de doutorado, era frequentemente considerada como coreana. Por sua vez, quando retornava à minha universidade no Reino Unido, era vista como uma estudante chinesa. Apesar das imagens a mim imputadas nem sempre se referirem a atividades ligadas à produção de vestuário, vivencio cotidianamente os efeitos reificantes de ser recorrentemente considerada algo que não sou. Ainda assim, em muitos sentidos, sou uma pessoa privilegiada por conseguir acessar o ambiente acadêmico nacional e internacional, mesmo que de modo precário, já que não possuo vínculo permanente em nenhuma instituição acadêmica. Este acesso ao menos me permite ser uma pessoa produtora de conhecimento, mesmo que de maneira marginal. Desde pelo menos o doutorado, minha pesquisa tem sido um esforço epistemológico de não abordar os outros como sou constantemente abordada. Para não projetar suposições sobre aqueles que se tornam minhas interlocutoras e interlocutores de pesquisa, tenho me preocupado em questionar operações de produção de conhecimento que objetificam nossos participantes de pesquisa de maneira desumanizante (Toji, 2016, 2023). Por isso, sou bastante crítica em relação aos procedimentos de essencialização e classificação que desfiguram nossos colaboradores de pesquisa em generalizações desvinculadas das considerações que eles fazem de si mesmos. Meu interesse em investigar a presença dos diferentes grupos migrantes envolvidos com o setor de produção de roupas em São Paulo vem de longa data. Vem desde a época na qual tive a oportunidade de coordenar um levantamento chamado “Inventário de Referências Culturais do Bom Retiro: Multiculturalismo em Situação Urbana” (IPHAN, 2009). Desde então, ficaram em aberto muitas questões sobre as relações de convivência e conflitos existentes entre os variados grupos de identidade participantes da indústria de confecções na cidade. Porém, em minha irregular trajetória de pesquisa, tive a oportunidade de conhecer pessoas como Jobana Moya e Jung Yun Chi. O que nos junta aqui é o esforço comum em entender as dinâmicas do setor de produção de roupas em São Paulo de modo nuançado, a partir das vivências diversas, mas emaranhadas, de nossas interlocutoras e interlocutores de pesquisa, guiadas também por nossas experiências enquanto mulheres migrantes ou descendentes de migrantes. Graças a um projeto de pesquisa de pós-doutorado proposto por mim, Simone Toji, e financiado pela British Academy,1 está sendo possível trabalharmos juntas desde 2023. Enquanto eu, Simone Toji, sou considerada a pesquisadora principal; nós, Jung Yun Chi e Jobana Moya, somos as agentes de pesquisa de engajamento comunitário do projeto. A partir das diferentes responsabilidades dentro da execução da pesquisa, o espaço de reflexão aberto pelo projeto nos possibilitou sintonizar experiências, conhecimentos e práticas.

Apesar de nossas convergências, também temos consciência de nossas diferenças e, nesse sentido, também transparecemos isso em relação ao nosso modo de escrever este artigo. Por vezes manifestamo-nos individualmente por meio do pronome “eu” ou o fazemos coletivamente por meio do uso de uma voz conjunta “nós”. Por isso, criamos texturas variadas de vozes, junto com as vozes de nossas interlocutoras e interlocutores, de maneira a construir nosso texto como um lugar de coexistência não necessariamente consensual.

2.2 A etnização de certos setores da produção de roupas em São Paulo

Para situar o lugar de nossa colaboração enquanto pesquisadoras, é preciso brevemente recuperar como os estudos sobre migração têm caracterizado o trabalho de migrantes internacionais nos processos de produção de roupas na cidade de São Paulo. Fazemos isso porque consideramos que alguns destes estudos produzem efeitos sociais e políticos que reverberam valores em tensão sobre nossas posições enquanto migrantes internacionais e descendentes na cidade de São Paulo.

A começar pelas abordagens macroestruturais, estas têm enfatizado que a reestruturação produtiva da região metropolitana de São Paulo, em curso desde pelo menos os anos 1990, alterou significativamente as configurações do trabalho na cidade. Marcado pela retração da atividade industrial, pelo crescimento do setor de serviços e pela expressiva expansão de um setor econômico informal, esse processo, de acordo com esta literatura, também teve repercussões nas análises sobre a migração internacional no Brasil (Buechler, 2013; Cavalcanti et al., 2014). Nesse período, autores apontam que não somente o Brasil se tornou um país de emigração expressiva, como também passou a receber novos fluxos migratórios oriundos do Sul Global, de migrantes vindos de países como Bolívia, Paraguai, Colômbia, Senegal, entre outros (Baeninger, 2012; Demétrio, Baeninger, Domeniconi, 2023). Dessa maneira, a reconfiguração das estruturas produtivas é vista como uma situação que abriu novas possibilidades de inserção para esses novos migrantes internacionais, porém em áreas de trabalho predominantemente marcadas pela informalidade, como a indústria têxtil e de confecção, a construção civil e o setor de serviços (Cavalcanti et al., 2014). No setor têxtil e de vestuário, a abertura comercial da década de 1990 facilitou a entrada de insumos têxteis, o que, num primeiro momento, provocou um crescimento na produção das pequenas indústrias de confecções no centro da cidade de São Paulo. Em seguida, já no início da década de 2000, esse crescimento perdeu vigor com a entrada de produtos prontos a preços baixos, especialmente aqueles importados de países asiáticos. Ao mesmo tempo, segundo estes estudos, tal reestruturação, devido à intensa competição com a produção internacional, levou empresas nacionais a adotarem estratégias de terceirização em variadas etapas de produção para redução de custos, o que resultou em novas formas de negócios e trabalho. Em tal contexto, a produção se fragmentou. Por um lado, empresas formais adotaram uma estratégia de concentração em atividades como criação, modelagem, corte e/ou comercialização dos produtos finais. Por outro lado, a costura - fase de maior demanda por mão de obra - foi majoritariamente terceirizada para uma rede de oficinas subcontratadas, então caracterizadas por elevados níveis de informalidade e desregulamentação. Essa terceirização emergiu como principal tática de gestão da força de trabalho para gerenciar uma produção diversificada e em menor volume (Risek et al., 2010). Na literatura especializada, migrantes de países como a Coreia do Sul se concentraram nas empresas especializadas na criação e comercialização de roupas, em sua grande parte localizadas em bairros centrais como o Bom Retiro e o Brás (Choi, 1991; Buechler, 2004). Já migrantes provenientes de países como Bolívia e Paraguai passaram a ocupar um espaço significativo nos serviços de costura, localizados principalmente nas zonas leste e norte da cidade (Silva, 2006, 2012; Souchard, 2023; Correa, 2024). Dessa forma, no geral, a reorganização produtiva da indústria de roupas em São Paulo tem sido considerada como responsável, por um lado, por uma dinâmica urbana ligada a uma produção descentralizada que conformou o que tem sido descrito como “nichos étnicos” no mercado de trabalho (OIT, 2017), e, por outro, pela reorganização espacial de diferentes grupos de migração ligados a esta produção em distintas territorialidades étnicas (Truzzi, 2001; Cymbalista, Xavier, 2007).

A partir de nosso trabalho de pesquisa conjunto e enquanto pesquisadoras migrantes e descendentes de migrantes, identificamos ao menos dois efeitos dessa leitura que “etniza” certos setores de trabalho dentro da produção de roupas em São Paulo. O primeiro efeito é que a tendência de se generalizar a presença de certos grupos de migração internacional dentro dessa indústria invisibiliza outros grupos migrantes participantes. Nas variadas conversas com pessoas migrantes ou descendentes dentro da dinâmica de produção de roupas em São Paulo, para além dos grupos de migração de origem coreana e boliviana, pudemos identificar também experiências de famílias de origem libanesa, peruana, grega e uchinanchu2, por exemplo. Experiências estas que podem ser consideradas de menor escala, por vezes rapidamente mencionadas em alguns trabalhos (Truzzi, Stern, 1995), mas que consideramos importantes apontar para caracterizar a complexidade do eixo migração e trabalho nesse setor. Por isso, assim como Souchard (2012), consideramos o trabalho dentro dos processos de produção de roupas em São Paulo não como sendo formado por “nichos étnicos”, mas como um nicho econômico para a migração em geral, inclusive considerando a importante participação de migrantes internos de outras regiões do país para a própria constituição do setor de produção de vestuário de São Paulo (Kontic, 2007). Nesse sentido, a tendência de “etnizar” certos setores de trabalho na indústria de confecção por uma certa produção acadêmica contribui para invisibilizar a participação de outros grupos de migrantes na cidade, tanto nacionais quanto internacionais.

O segundo efeito que a “etnização” dos setores de trabalho dentro da produção de roupas em São Paulo produz é o de visibilização excessiva dos grupos de migração de origem coreana e boliviana, que reifica demasiadamente a representação destes grupos dentro da sociedade brasileira. Esta reificação opera de tal modo que eu, Jung Yun Chi, por exemplo, mesmo quando trabalhava como profissional arquiteta, era frequentemente considerada como sendo uma confeccionista do Bom Retiro apenas por ser coreana, como já mencionei acima. Por outro lado, eu, Jobana Moya, sou frequentemente questionada nos diferentes espaços em que transito se trabalho na costura, e as pessoas ficam surpresas quando falo que trabalho em outra área. Além disso, ao entrevistar inúmeros filhos e filhas de migrantes bolivianos cujos pais e mães são envolvidos com o trabalho de costura, compartilhei do sofrimento destes jovens. Estes jovens me contaram sobre suas experiências de não serem considerados brasileiros, apesar de terem nascido no país, e o peso de suas famílias serem cotidianamente vistas como “escravas” da indústria de produção de roupas, sofrendo racismo e xenofobia por não serem brancos. Como me explicou Gladys3, nascida no Brasil, cujos pais são de La Paz e possuem uma oficina de costura:

Você acaba se tornando meio que um alvo. E as pessoas acabam te julgando antes de te conhecer. Você é visto apenas como um estereótipo. E, enfim, só veem o que eles ouvem na TV, nas mídias, né, de que os bolivianos são escravos, que são traficantes de drogas, então tudo isso também era associado a mim em qualquer lugar que eu estava… (entrevista, 3 de setembro, 2023)

Assim também me confidenciou Tatiana, nascida na Bolívia, filha de uma mãe que é também proprietária de uma oficina de costura:

‘Ah, você é boliviana! Mas sua mãe trabalha com quê? Com costura?’ Vinha essa ideia do estereótipo de costura. Eu dizia: ‘Não, minha mãe não trabalha necessariamente assim, não é análogo à escravidão. É outra forma...’ É difícil tirar essa outra imagem que a mídia cria nas pessoas, né. (entrevista, 30 de outubro, 2023)

Ou mesmo Juan, nascido em São Paulo, filho de uma mãe boliviana que sempre trabalhou com costura e que também já teve uma oficina. Para ele, é preciso contextualizar o que é o trabalho na produção de roupas em São Paulo “para não cair num lugar estigmatizado ou fechado de que os bolivianos só são isso [costureiros], só trabalham com isso [atividade de costura] e não sabem fazer mais nada” (entrevista, 7 de outubro, 2023).

A etnização de certos setores desta indústria, dada a ênfase que certos estudos de migração no Brasil efetuam, vincula certos grupos de migração internacional a certas atividades da indústria de roupas em São Paulo. Dessa maneira, mesmo que não deliberadamente, corrobora com a estigmatização de pessoas migrantes no país, principalmente as de origem coreana e boliviana. Esta estigmatização não apenas generaliza coreanos como confeccionistas e bolivianos como costureiros, como também coloca estes grupos de migração em posições antagônicas, nas quais os primeiros são taxados como exploradores e os últimos como explorados (Silva, 1999). Por isso, para os fins deste artigo, articulamos pelo menos três níveis diferenciados nessa produção de representações sobre grupos de migrantes internacionais envolvidos com a produção têxtil e de roupas em São Paulo, os quais foram acionados por nossas experiências enquanto migrantes internacionais e descendentes, por nossas interlocutoras e interlocutores e por alguns pesquisadores dos estudos de migração internacional no Brasil. São eles as noções de “imagem”, “estereótipo” e “estigma”. “Imagem” pode ser entendida como a representação mais ampla e multifacetada de um grupo que pode ser tanto positiva quanto negativa, ou mesmo neutra, e tende a ser mais dinâmica. O “estereótipo”, por sua vez, é uma imagem simplificada, generalizada e frequentemente distorcida, que atribui características fixas e homogêneas a um grupo inteiro, desconsiderando a diversidade individual. Já o estigma (Goffman, 1963) é uma marca ou atributo profundamente desabonador que desqualifica um indivíduo ou grupo na sociedade, associando-o a algo indesejável ou inferior. No caso dos migrantes associados à produção de roupas em São Paulo, a combinação de certas imagens negativas e estereótipos pode culminar em um estigma social, resultando em discriminação, preconceito e marginalização, impactando diretamente suas vidas e condições de trabalho. Assim, enquanto a imagem é um conceito mais abrangente, o estereótipo é uma forma específica e redutora de imagem e o estigma é a consequência social e moralmente depreciativa da internalização e aplicação de estereótipos.

De modo a evitar reforçar ou reproduzir os efeitos da operação de etnização de certas atividades ligadas à produção de roupas em São Paulo, conforme identificamos, consideramos cautelosa nossa tática de pesquisa de não entender essa indústria a partir de um único grupo de nacionalidade ou migração internacional, como é praxe nos estudos de migração. Escolhemos, assim, evitar etnizar de antemão as práticas sociais, culturais e econômicas que nos propomos a entender. Isso não quer dizer que nossa equipe de pesquisa ficou imune aos efeitos das já mencionadas estigmatizações. Tais imagens são tão dominantes que também tensionaram a própria coexistência dentro de nossa equipe. Encontrar as formas de vermos umas às outras para além destas representações exigiu um processo de desconstrução conjunta e um contínuo trabalho de recomposição de nossas sensibilidades para não reduzirmos umas às outras, e nossas interlocutoras e interlocutores, a essas imagens reificantes que circulam.

2.3 Co-construindo um processo de reflexão de polivisões que se afetam

Nesse sentido, enquanto pesquisadoras migrantes e descendentes de migrantes que também sofrem os efeitos reificantes dos estereótipos e estigmatizações associadas a certos grupos de migração internacional no Brasil, temos consciência de que, assim atingidas, nossa maneira de entender e refletir sobre questões de migração se funda em bases epistemológicas diversas de pesquisadores que não consideram suas experiências ou legados de migração como determinantes para sua produção de conhecimento. Em nossa experiência de pesquisa conjunta, nossas vivências como migrantes e descendentes de migrantes permitem alcançar uma outra sensibilidade de reflexão em duplo sentido. Primeiro que, ao compartilharmos com interlocutoras e interlocutores algumas das condições que nos fazem ser consideradas pessoas diferentes e externas à sociedade brasileira, nossas relações de pesquisa foram marcadas pelo compromisso de não objetificar indiscriminadamente aqueles que, a partir de muitas vulnerabilidades, têm nos ajudado a compreender melhor as dinâmicas de produção de roupas em São Paulo. Segundo que, ao lidar com uma literatura que predominantemente trata migrantes internacionais e descendentes como objetos de pesquisa e ao nos posicionarmos como migrantes e descendentes que também são sujeitas produtoras de conhecimento sobre migração, acabamos por transitar entre dois registros de “consciência”: um registro no qual, enquanto migrantes internacionais e descendentes e junto com nossas interlocutoras e interlocutores de pesquisa, não nos reconhecemos plenamente; um outro registro no qual tentamos, junto com nossas interlocutoras e interlocutores de pesquisa, revelar as experiências complexas do que é ser migrante internacional ou descendente em São Paulo para além do primeiro tipo de registro. Por isso, enquanto pesquisadoras, consideramos nossa produção de conhecimento como marcada por múltiplas consciências, a começar pelo que Du Bois (1996) concebe como a experiência de se possuir uma “dupla consciência” (double consciousness). Este tipo de consciência envolve a capacidade de sustentar duas perspectivas, duas maneiras de pensar e ver o mundo ao mesmo tempo, aprendendo com cada perspectiva em tensão, sem eliminar as diferenças de uma e outra em idealizações de síntese ou fusão. Isso converge com o que Lugones chama de capacidade de “ter duas percepções incompatíveis e paralelas ao mesmo tempo”4 (2003, p.156) e o que Collins (2000) qualifica como incorporar “o estranho dentro de si” (the outsider within). Quijano (1992) ainda aponta como a colonização do imaginário do dominado faz parte dele até certo ponto. Intensificando estas proposições, tentamos exercer o que Medina (2013) descreve como uma “consciência caleidoscópica” (kaleidoscopic consciousness), na qual a consciência deve necessariamente conter contrapontos epistêmicos dentro de si mesma, pois a fricção entre as diferentes partes ilumina uma à outra, de modo a se comporem num contínuo movimento crítico. Isso nos leva às considerações de Silvia Rivera Cusicanqui (2018) a respeito da noção de ch’ixi, palavra aymara que designa “uma cor que parece cinza à distância, mas que, à medida que nos aproximamos, percebemos que é composta por pontos de cor puros e contrastantes: manchas brancas e pretas misturadas”5 (Rivera Cusicanqui, 2018, p. 79). Ch’ixi, em nossa prática de pesquisa, se refere à possibilidade de se posicionar para além de binarismos, em situações contraditórias ou de oposições irredutíveis que não se completam ou se resolvem, e mantêm suas discrepâncias. Com esforço por praticarmos uma epistemologia ch’ixi, construímos aqui um processo de reflexão sobre a migração por meio das múltiplas consciências que nos atravessam como mulheres pesquisadoras migrantes e descendentes para apreciar a complexidade das vivências de nossas interlocutoras e interlocutores no campo de produção de roupas na cidade de São Paulo. Assim, tentamos não lançar mão de expedientes com potencial essencializante e reificante, como a tão disseminada operação de se “etnizar” certos setores produtivos deste campo de produção.

É oportuno esclarecer também que, mesmo compartilhando com muitos de nossas interlocutoras e interlocutores a condição de sermos migrantes internacionais ou descendentes, nós não “falamos” por eles ou os representamos enquanto pesquisadoras. Questões variadas de classe, geração, ou mesmo de residência geográfica diferenciam substancialmente a nós mesmas, pesquisadoras, e também a nossas interlocutoras e interlocutores. Por isso, tampouco consideramos que realizamos um trabalho de autoetnografia, tendo em vista que nossas experiências pessoais não são a fonte da análise que empreendemos aqui. Porém, nossas experiências pessoais constroem nossas respectivas posicionalidades particulares.

Enquanto pesquisadoras, compartilhar a condição de sermos migrantes internacionais ou descendentes com nossas interlocutoras e interlocutores nos traz um senso de interdependência que coloca nossos modos de pensar e conhecer também enquanto relações de cuidado em relação àqueles que confiam em nossa ação de pesquisa. Assim, buscamos desenvolver uma prática epistemológica na direção do que De la Bellacasa (2012, 2017) chama de “pensar com cuidado” (thinking with care), um exercício que também envolve “pensar-com” (thinking-with) e “pensar-para” (thinking-for) aqueles envolvidos em nossa pesquisa, de modo a conceber um tipo de conhecimento situado que se importe com a multitude de relações que torna possível os mundos e as vidas com os quais pensamos juntos. “Pensar com cuidado” em nossa experiência de pesquisa significa estarmos atentas para os sentidos particulares que nossas interlocutoras e interlocutores nos propõem a pensar, de modo a constituir um entendimento complexo de suas experiências de vida e de trabalho. Ao mesmo tempo, enquanto pesquisadoras também atravessadas por experiências variadas de migração, sentimos um senso de responsabilidade junto a nossos participantes de pesquisa, o que nos permite nos sentir implicadas por suas considerações. Isso acontece de tal maneira que tais considerações se tornam a base de nossa crítica a respeito de certas abordagens dentro dos estudos de migração internacional no Brasil. Nesse sentido, consideramos que nossas posicionalidades de pesquisadoras migrantes ou descendentes nos oferecem uma outra sensibilidade de reflexão dentro de tais estudos.

3. Adentrando a complexidade do mundo do trabalho na produção de roupas em São Paulo a partir das experiências de nossas interlocutoras e interlocutores

Fazer pesquisa junto a pessoas vinculadas às atividades nos pequenos e médios negócios de produção têxtil e de roupas em São Paulo não é uma tarefa muito fácil. Devido aos já mencionados estereótipos e estigmatizações caracterizando estas pessoas e suas atividades dentro deste setor, a grande maioria delas não se dispõe a conceder entrevistas ou a falar abertamente sobre suas vidas e rotinas de trabalho. Muitas delas sentem o risco concreto de serem de alguma maneira recriminadas ou penalizadas devido ao status precário de suas situações de produção e/ou trabalho. Nosso acesso junto a algumas destas pessoas só foi possível devido a relações de proximidade e confiança preexistentes ou construídas a partir da posicionalidade particular de cada uma de nós, pesquisadoras. Eu, Jung Yun Chi, reuni interlocutoras e interlocutores a partir do âmbito de relações da unidade de confecção da qual faço parte, como também da rede de contatos de alguns grupos de migrantes coreanos e descendentes em São Paulo. Eu, Jobana Moya, identifiquei participantes da pesquisa de minha rede de contatos formada a partir de minhas experiências dentro dos movimentos sociais migrantes e da comunidade boliviana na cidade. Enquanto eu, Simone Toji, me vali de relações institucionais construídas desde a época da instrução do Inventário de Referências Culturais do Bom Retiro: Multiculturalismo em Situação Urbana, das relações de pesquisa estabelecidas durante os estudos de doutorado, como também da indicação de Jung Yun Chi e Jobana Moya para encontrar interlocutoras e interlocutores para nossa pesquisa conjunta.

A partir das variadas entrevistas e interações com nossas interlocutoras e interlocutores6, um primeiro aspecto que inesperadamente emergiu foi o caráter familiar dos negócios de nossas entrevistadas e entrevistados, fossem eles voltados à tecelagem, confecção ou costura. Diante do que fomos aprendendo junto a nossas interlocutoras e interlocutores, ficou claro que um outro efeito da operação de etnizar as atividades dentro das indústrias de produção de roupas em São Paulo é o de generalizar de tal maneira tais atividades, atribuindo-as a determinadas nacionalidades de migrantes internacionais, que aspectos essenciais para funcionamento de tais indústrias, como o uso das dinâmicas familiares nos negócios e a diferenciação de funções dentro das diferentes unidades de produção, acabam passando despercebidos. Nas próximas subseções, iremos detalhar melhor esses aspectos a partir das experiências de vida e de trabalho de nossas interlocutoras e interlocutores.

3.1 A centralidade da família para a inserção nas atividades de produção de roupas em São Paulo

Na maior parte de nossas entrevistas, o fator determinante para nossas interlocutoras e interlocutores estarem envolvidos em atividades ligadas à produção têxtil e de roupas são justamente suas relações de parentesco. Para aquelas e aqueles nascidos em outros países, a ligação familiar definiu tanto sua inserção de trabalho quanto seu itinerário migratório para São Paulo. Para iluminar este ponto, trazemos alguns exemplos. No caso da família de Yeon, na década de 1980, sua tia casou-se com um coreano que estava no Paraguai. Este, se dirigindo a São Paulo, abriu uma confecção no bairro do Brás. Diante do sucesso do negócio, a tia estimulou o irmão, pai de Yeon, que estava na Coreia do Sul, a também migrar para São Paulo com sua família. Yeon chegou à cidade com sua família em 1987, morando por um breve período junto com seus tios. No início, seu pai trabalhou como representante de vendas, o que os coreanos na cidade chamavam de “bendê”7. Em seguida, o pai de Yeon abriu uma loja para vender roupas e, posteriormente, sua própria confecção.

Na família de Silmara, seus pais, ambos de El Alto, Bolívia, decidiram migrar para São Paulo no final da década de 1990 porque dois irmãos da mãe que já estavam na cidade falavam das muitas oportunidades de trabalho. Já trabalhando em oficinas de costura, os tios de São Paulo arranjaram trabalho na área para os pais de Silmara quando estes chegaram à cidade. Depois de alguns anos trabalhando como costureiros, tanto os pais dela quanto seus tios compraram máquinas de costura para, cada qual, se tornar dono de oficina. A oficina de costura dos pais de Silmara, localizada no Bom Retiro, desde o início, foi basicamente formada pela mãe e pelo pai, ambos sempre costurando juntos. Silmara já nasceu no Brasil, assim como suas duas outras irmãs, e acompanhou esse processo de estabelecimento das atividades de trabalho dos pais desde muito pequena. Constituindo-se enquanto famílias transnacionais, as relações familiares funcionam como redes invisíveis que fortalecem as estratégias de sobrevivência, mantendo os laços de solidariedade apesar de serem mediadas por relações econômicas (Hinojosa, 2009).

Essa situação de inserção em atividades de produção têxtil e de roupas em São Paulo foi recorrente não somente com nossas entrevistadas e entrevistados de origem coreana e boliviana. Encontramos também essa mesma dinâmica nas famílias de interlocutoras e interlocutores de outras nacionalidades. Samyra, por exemplo, nascida em São Paulo, cujos pais chegaram do Líbano na década de 1950, casou-se com outro descendente de libaneses que por muito tempo se dedicou ao ramo de cama, mesa e banho no Brás. Nos anos 2000, com o sucesso da produção de jeans no país, um parente a estimulou a entrar nessa área de produção. Junto de sua irmã, Samyra então abriu sua confecção de roupas jeans por volta dessa época.

Já Leo, nascido em Arequipa, no Peru, chegou a São Paulo por volta de 2010 para se juntar à sua irmã mais velha, que é casada com um peruano que administra uma unidade de costura no bairro do Bom Retiro. A oficina de seu cunhado depende basicamente de pedidos de costura de empresas externas, mas também desenha e fabrica suas próprias peças de roupa. Os membros da família do cunhado de Leo e sua irmã trabalham principalmente na produção, enquanto Leo se tornou responsável pelas vendas, seja em bazares itinerantes em todo o Brasil, seja na barraca da família no mercado popular da Feira da Madrugada, no Brás.

A partir destas trajetórias, é possível verificar que, apesar da diversidade de nacionalidades e situações, as relações de parentesco - sejam elas da família nuclear ou estendida - predominam como principal motivo para a inserção em atividades vinculadas à produção de roupas em São Paulo. Muitas vezes, tais relações também são a própria razão para a migração das pessoas para a cidade.

Outra via de inserção nessas atividades por meio de laços de família é justamente a transferência dos negócios de uma geração para outra. Rosa nasceu em São Paulo e é representante de vendas de tecidos. Apesar de ter graduação em moda, seu envolvimento com o mundo da produção de roupas em São Paulo se deu graças à carteira de clientes conquistada por seu pai dentro do comércio de tecidos. Considerando esta carteira como uma “herança” de seu pai, um brasileiro de origem judaica, Rosa entendeu que, apesar do setor se transformar continuamente, ela já tinha uma “base” significativa e por isso decidiu continuar os negócios familiares (entrevista, 8 de dezembro, 2023). Farid, por sua vez, herdou sua confecção de jeans no Brás de seu pai e seu tio, descendentes de libaneses que começaram com uma fábrica de malhas deixada por um parente que havia retornado ao Líbano na década de 1970. Farid é formado em direito e, mesmo trabalhando por um período em grandes escritórios de advocacia em São Paulo, optou por se dedicar aos negócios da família devido ao legado construído por seu pai e seu tio.

O que se verifica a partir das experiências de nossas interlocutoras e interlocutores, que são migrantes internacionais ou descendentes destes, é que a entrada no trabalho associado à produção têxtil ou de roupas é predominantemente realizada por meio de conexões familiares. Isso não quer dizer que não existam outras formas de inserção nos pequenos e médios negócios deste setor. Em nossa pesquisa, tivemos a oportunidade de ouvir o relato de uma boliviana que foi recrutada por compatriotas na década de 1990, indo trabalhar como doméstica antes de se introduzir na atividade de costura, a qual até hoje permanece sendo sua atividade principal. Também nos deparamos com a experiência de uma jovem brasileira negra que, após concluir a graduação em moda e trabalhar para algumas empresas de confecção, decidiu abrir sua própria unidade de produção de roupas. Mesmo que essas interlocutoras não tenham se inserido no setor por meio de relações de parentesco, é interessante notar que, uma vez estabelecidos seus respectivos negócios, o funcionamento destes tem se sustentado por meio do trabalho realizado junto das pessoas de parentesco próximo ou estendido. A primeira tinha uma oficina de costura em parceria com seu marido, na qual ambos costuravam e compartilhavam as tarefas administrativas e financeiras; enquanto a segunda abriu um modelo de negócios do tipo private label, no qual ela criava e produzia itens de vestuário para certas marcas, contando com sua mãe como assistente. A presença de familiares e parentes na organização interna das unidades de produção de roupas é justamente um dos aspectos que iremos desenvolver na próxima subseção.

3.2 A centralidade da família na divisão do trabalho nas unidades de produção de roupas em São Paulo

Conforme vimos até aqui, por meio das vivências de nossas interlocutoras e interlocutores, as indústrias de produção de roupas em São Paulo são constituídas em grande parte por pequenas unidades de venda e produção, sejam elas nos ramos de tecelagem, confecção ou de costura. Nestas unidades, a maioria de seus atores são arregimentados por meio de suas ligações de família, o que, para aqueles que são oriundos de outros países, muitas vezes também se torna a principal razão de suas mobilidades até a cidade de São Paulo. Nesta subseção, caracterizamos como estas pequenas unidades se organizam internamente a partir destas mesmas dinâmicas de parentesco.

De maneira geral, as experiências de trabalho de nossas entrevistadas e entrevistados mostram que existem pelo menos duas áreas-chave para o funcionamento de qualquer destas pequenas unidades de produção: uma área que se concentra mais na criação e/ou execução dos itens de vestuário; e uma área mais dedicada à administração logística e financeira. Dentro do processo produtivo das confecções, a parte de criação e desenvolvimento das peças é comumente denominada como área de “estilo”, enquanto a outra parte é designada genericamente como área “financeira". Na confecção da família de Sonia, cujos pais nasceram na Coreia do Sul, mas se casaram no Brasil, a mãe sempre foi responsável pela área de estilo, enquanto o pai, pela área financeira.

Ainda que esta seja uma percepção comum dentro da própria comunidade coreana envolvida com o setor de produção de roupas, nossa pesquisa também identificou outras experiências de organização familiar dentro das confecções. Como a de Sung, cuja família migrou de Seul para São Paulo na década de 1990, quando ela ainda era recém-nascida. Na família de Sung, o estabelecimento dos negócios de confecção de vestuário feminino levou sua mãe a ser responsável tanto pela parte de estilo quanto pelo financeiro, devido ao melhor domínio do português. Enquanto seu pai ficou com a parte logística de coordenar o trânsito de materiais entre fornecedores e a entrega para clientes. Além disso, para além da comunidade coreana, já vimos a experiência de Samyra que compartilhou o gerenciamento de sua confecção de roupas jeans junto de sua irmã por muito tempo. Nesse sentido, pode haver uma certa tendência em atribuir as funções de criação e desenvolvimento para entes familiares do gênero feminino e as funções administrativas e financeiras para membros familiares do gênero masculino nos pequenos e médios negócios de confecção em São Paulo. Porém, isso não necessariamente se constitui como uma regra. Cada situação familiar é particular, e isso afeta diretamente a organização dos negócios. O que fica evidente nas experiências de nossas interlocutoras e interlocutores ligados às atividades de confecção é justamente a centralidade das relações familiares na definição de funções-chave dentro de cada unidade de produção.

O mesmo acontece em relação às oficinas de costura de maneira ligeiramente diferente. Apesar de termos específicos ainda não terem se consolidado, é possível identificar pelo menos duas funções principais na produção dentro das oficinas através dos relatos de nossas interlocutoras e interlocutores. Uma dessas funções é mais dedicada à montagem e execução da costura das peças de roupa, enquanto a outra é voltada para a negociação, administração e logística do serviço em relação a atores externos à oficina. De qualquer maneira, na maior parte das vezes, todos os membros da família executam o trabalho de costura, mesmo ficando mais responsáveis por uma determinada função.

Retornando ao caso da família de Silmara, o pai sempre foi a pessoa a agenciar as encomendas e a lidar com as exigências administrativas dos negócios da oficina, enquanto a mãe se ocupava de garantir a execução dos trabalhos de costura. Nayla, cujos pais são de La Paz, mencionou que na oficina de costura de sua família, quando seu pai era vivo, ele era a pessoa que “negociava o preço, levava a roupa, ia pro Bom Retiro, cobrava o dinheiro”. Por outro lado, sua mãe “ficava em casa” para assegurar o serviço de costura e também para “cuidar dos filhos” (entrevista, 7 de outubro, 2023). Semelhante à tendência de se atribuir certas funções a determinados gêneros nas confecções, também há uma percepção generalizada de que nas oficinas de costura as funções associadas à montagem e execução dos itens de vestuário ficam sob a responsabilidade de membros familiares do gênero feminino, enquanto as funções administrativas, logísticas e financeiras, sob a responsabilidade de membros familiares do gênero masculino.

Porém, assim como nas confecções, nossa pesquisa também se deparou com outras experiências de organização familiar nas oficinas de costura. Na oficina da família de Gladys, cujos pais saíram de La Paz e chegaram a São Paulo na década de 1990, houve um momento em que todos os membros da família nuclear desempenharam um papel específico. Gladys ficava com a parte de criação e desenvolvimento das peças de vestuário, seu pai com a parte de modelagem e corte, o irmão mais novo se dedicava à parte financeira, e a mãe cuidava da parte administrativa, logística e de negociação. Conforme a própria Gladys ponderou, a organização das atividades dentro de uma oficina de costura gerenciada por famílias de origem boliviana “muda bastante de família em família” (entrevista, 3 de setembro, 2023). Nas famílias de Juan e Tatiana, interlocutores mencionados em subseção anterior, suas respectivas mães, por serem mães-solo, cada qual era a única responsável por todos os aspectos de sua própria oficina de costura. Apesar da percepção de haver uma certa tendência na qual familiares do gênero feminino se concentrem mais nas atividades de execução da costura, e familiares do gênero masculino foquem mais nas atividades logísticas, financeiras e administrativas, isso também não chega a se estabelecer como norma nas oficinas de costura. Souchard (2023), ao apurar dados do censo, demonstra que nas últimas décadas houve um ascendente crescimento no número de homens migrantes internacionais trabalhando como costureiros na região metropolitana de São Paulo. Nossa pesquisa de caráter qualitativo não somente corrobora esse achado, como contribui para evidenciar que alguns destes homens migrantes também atuam no desenvolvimento de peças de vestuário, bem como na administração financeira e logística destas mesmas oficinas.

Seria tentador afirmar que a divisão de trabalho dentro das unidades produtivas das indústrias de roupas, sejam elas confecções ou oficinas de costura, é determinada pelo gênero de seus participantes. Mas assim como em nosso trabalho temos o cuidado de não generalizar excessivamente as vivências de nossas interlocutoras e interlocutores por meio da “etnização” de suas atividades de trabalho, também temos o cuidado de não “generificar” gratuitamente estas mesmas atividades quando esta operação epistêmica não se mostra totalmente apropriada diante das evidências reunidas. Em nosso esforço de “pensar com cuidado”, nos atentamos para realizar uma pesquisa que não considere a interseccionalidade apenas como a justaposição de diferentes padrões em blocos - como classe, raça, etnia e gênero -, mas que considere a interseccionalidade também como o emaranhamento de infinitos aspectos não-padronizados, que se co-constituem e engendram experiências inesperadas que merecem igualmente ser apreciadas. Se não se pode afirmar que a atribuição das diferentes funções dentro de cada unidade de produção seja determinada pelo gênero de quem participa delas, ao menos é possível verificar que a organização do trabalho de produção é altamente porosa às mais variadas situações de parentesco e de habilidades oferecidas pelos membros familiares participantes. Desta maneira, a organização familiar das unidades de produção nas indústrias têxteis e de roupas se mostra como possibilidade de gerar formas de trabalho altamente flexíveis e variadas. Na próxima subseção, iremos explorar como nossas interlocutoras e interlocutores qualificam os benefícios e as dificuldades de se operar em tais condições.

3.3 A eficácia e a ambivalência da centralidade da família nos negócios de produção de roupas em São Paulo

Recorrer a familiares e parentes para a organização do trabalho nas variadas unidades de produção das indústrias têxteis e de roupas em São Paulo, como fomos entendendo a partir das experiências de nossas interlocutoras e interlocutores, não é algo provisório ou aleatório. Como vimos nas subseções mais acima, tais arranjos se tornam, na realidade, estruturantes de seus próprios negócios nessas indústrias. E isso se deve à eficácia desse tipo de organização, que, como discutimos aqui, atende a uma série de fatores que afetam as situações particulares de seus membros enquanto migrantes internacionais e descendentes.

A começar pela facilidade para chegar e se instalar numa grande cidade como São Paulo, por exemplo. Como acompanhamos no caso de Yeon, sua família chegou a São Paulo graças ao estímulo e apoio da irmã do pai, ficando temporariamente hospedados na casa dos tios. Uma vez na cidade, o pai de Yeon foi aprendendo com os parentes o funcionamento do setor de confecções ao se iniciar como vendedor no ramo. O mesmo aconteceu com a família de Silmara, cujos tios, que já estavam trabalhando em oficinas de costura em São Paulo, conseguiram trabalho e moradia para os outros irmãos em outras oficinas, inclusive a mãe de Silmara. Com o tempo, tanto os pais quanto os tios de Silmara, já familiarizados com as atividades de costura, foram aprendendo o funcionamento desse tipo de serviço e passaram a ter seus próprios negócios. Conforme comenta Tatiana:

... o imigrante, quando vem ao Brasil, não sabe falar o português, então não consegue alugar sua casa, e aí na oficina tem um lugar para viver, um lugarzinho para viver, juntar dinheiro e, com o tempo, também abrir sua oficina, ter sua autoindependência. Por exemplo, essa parte da família, né, às vezes se traz seus irmãos, suas tias, trabalham juntos e aí depois abrem suas oficinas, e aí vão conseguindo cada um se independentizar… (entrevista, 30 de outubro, 2023)

Nesse sentido, a chegada a São Paulo e a inserção de trabalho realizadas através das relações de parentesco são consideradas vantajosas para aqueles que migram, tanto para se conseguir acomodação na cidade quanto para adquirirem conhecimento sobre a área de trabalho nas indústrias de produção de roupas ao longo do tempo. E isso vale tanto para aqueles que se envolvem com atividades de confecções quanto para aqueles que se envolvem com atividades de costura. Porém, é preciso observar que, na organização do espaço físico de trabalho, as oficinas de costura se diferenciam das confecções enquanto unidades de produção ao juntar o espaço de trabalho com o espaço de moradia. Enquanto nas confecções, o espaço de trabalho é usualmente localizado em lugar diferente da moradia, nas oficinas de costura é comum que o trabalho de produção opere no mesmo espaço de moradia das famílias. Assim, no caso das oficinas de costura, é frequente que as atividades de cuidado e reprodução social se combinem com as atividades de costura, como visto na experiência da família de Nayla, na qual a mãe “ficava em casa” e era responsável tanto pela execução do serviço de costura quanto pelo cuidado dos filhos. Souchard (2023) caracteriza essa situação das oficinas de costura, de acomodação das necessidades de moradia e de cuidados familiares dentro do espaço de trabalho como um “dispositivo” ajustado às condições de chegada de certos grupos de migrantes internacionais, como os de paraguaios e bolivianos.

Seguindo com a caracterização do que nossas interlocutoras e interlocutores consideram vantajoso para a organização do trabalho em suas unidades de produção através das relações familiares, um outro aspecto indicado é a estabilidade que o emprego de membros de familiares nas atividades de produção fornece para a estrutura dos negócios. Tal busca de estabilidade é baseada na confiança que os laços de parentesco de alguma maneira suprem diante de um setor altamente volátil e cheio de incertezas, tanto em relação à oferta de profissionais quanto à demanda de clientes. Com o processo contínuo de terceirização das atividades dentro dessas indústrias, a rotatividade dos empregos também cresceu, e o emprego de membros da família é também uma maneira de reduzir o impacto da inconstância de produção desse setor.

Em nossas conversas com as interlocutoras e interlocutores, a eficácia do envolvimento de parentes nos negócios de produção de vestuário, no caso das confecções, se evidenciou mais pela consideração dos familiares serem capital humano mais confiável e mais permanente. Por isso, por exemplo, ter um familiar na área de estilo que possa absorver imprevistos relativos à ausência ou troca de profissionais como estilistas, modelistas ou piloteiros, ou um familiar na área financeira que possa lidar com os altos e baixos das entradas e saídas financeiras, que são altamente variáveis, torna a produção mais estável. De uma outra maneira, a eficácia do envolvimento de parentes nos negócios de produção de vestuário, no caso das oficinas de costura, enfatizou mais a possibilidade de se aproveitar a proximidade entre parentes enquanto mecanismo ágil de distribuição de demandas volumosas. Neste caso, mais uma vez, Tatiana nos elucida:

... eu creio que acaba se criando uma rede, né, uma rede de acolhimento, assim, digamos. Por exemplo, houve épocas que minha tia passava serviço para minha mãe e minha mãe costurava, então conseguiam costurar juntas e entregar o serviço. Então, creio que isso é uma forma de ajuda mútua em si. (entrevista, 30 de outubro, 2023)

Se os arranjos de produção baseados nos relacionamentos de parentesco proporcionam os benefícios mencionados, por outro lado, também implicam em algumas condições por vezes desfavoráveis. A principal delas é justamente o caráter não-formalizado do trabalho individual executado pelos membros familiares na mesma unidade de produção ou compartilhado com outros parentes de outras unidades de produção. Isso se manifesta, por exemplo, na situação desses familiares dificilmente receberem qualquer tipo de pagamento fixo ou salário, seja nas confecções ou nas oficinas de costura. Os ganhos, quando existem, são de acordo com a produção entregue ou vendida, e não são individualizados em pró-labore ou salários. Consequentemente, estes membros também ficam descobertos das seguridades individuais relacionadas ao trabalho regido pela Lei de Consolidação do Trabalho, como férias, licença maternidade ou auxílio-doença. Apesar do trabalho relacionado às oficinas de costura figurar como sendo a manifestação mais visível dessa situação delicada de não-formalização do trabalho individual dos membros familiares envolvidos nas unidades de produção de roupas, a mesma situação ocorre em relação às famílias proprietárias de pequenas confecções. Os ganhos, não sendo individualizados, são do grupo familiar como um todo, e a sua distribuição depende dos variados arranjos entre seus membros. Essa ambivalência na organização dos pequenos negócios das indústrias têxtil e de roupa em São Paulo, por não se constituir de maneira definida, é precisamente o ponto que se torna suscetível de engendrar as mais distintas experiências - sejam experiências de regozijo coletivo pelo sucesso dos negócios e dos projetos familiares de mobilidade social, ou experiências de indignação por não ser compensado devidamente pelos esforços pessoais empreendidos, acompanhado de um sentimento profundo de exploração.

Em nossa pesquisa, também identificamos outros elementos associados aos arranjos familiares na organização dos negócios nas indústrias de produção de roupas em São Paulo, como a desvalorização e invisibilização do trabalho de cuidado e de reprodução social realizado principalmente pelas mulheres, por exemplo. Devido ao espaço reduzido, não é possível expandir outros pontos mais. Porém, para os argumentos específicos deste artigo, consideramos suficiente o exposto até aqui.

4. Considerações: complexificando análises para nuançar os estudos de migração em São Paulo

Retomando os pontos até aqui desenvolvidos, neste artigo nos propomos a rediscutir alguns entendimentos sobre a presença de migrantes internacionais nas indústrias têxtil e de vestuário de São Paulo, argumentando que nossas posicionalidades como pesquisadoras migrantes internacionais ou descendentes influenciam nossa sensibilidade de pesquisa e nossa compreensão do assunto. Por compartilharmos certas experiências enquanto migrantes ou descendentes, nossas posicionalidades conformam relações de proximidade com nossas interlocutoras e interlocutores que nos levam a questionar o uso reificante de categorias de nacionalidade e etnia na caracterização das relações de trabalho nas indústrias têxtil e de vestuário de São Paulo - pelo qual nós, pesquisadoras, também nos sentimos afetadas. Identificamos que, nesses estudos, é bastante disseminada a operação epistêmica de “etnizar” setores e atividades de trabalho em São Paulo e, nesse sentido, problematizamos essa operação e argumentamos que tal tendência de etnizar certos setores da produção de roupas em São Paulo produz pelo menos dois efeitos. Por um lado, invisibiliza certos grupos de migrantes internos e internacionais e seus respectivos descendentes que também participam do setor e, por outro lado, reifica a representação de grupos específicos como coreanos e bolivianos na sociedade brasileira, o que corrobora para a estigmatização destes no país.

Buscando não reproduzir esta operação, esforçamo-nos por elaborar uma abordagem situada e interseccional que valoriza a complexidade das vivências de nossas interlocutoras e interlocutores. Baseada numa proposta epistemológica “caleidoscópica” e “ch’ixi”, procuramos construir uma experiência de pesquisa de “pensar com cuidado” e, assim, produzir um conhecimento mais complexo e humanizado a partir das conversas realizadas com nossas interlocutoras e interlocutores.

Neste esforço, chegamos a um entendimento mais nuançado das dinâmicas de vida e trabalho nas indústrias de produção têxtil e de roupas em São Paulo que a operação de etnização dos setores de trabalho dessas indústrias tende a negligenciar. Um aspecto central que emergiu das conversas com nossas interlocutoras e interlocutores foi a centralidade das relações de família nas unidades de produção das indústrias de produção de vestuário, tanto na entrada dos indivíduos no trabalho quanto na organização da produção. Como aprendemos com nossas interlocutoras e interlocutores, as relações de parentesco frequentemente determinam a migração para São Paulo e a entrada no setor, além de serem a base para a divisão de trabalho nas unidades de produção. Essa organização familiar traz tanto benefícios, como facilidade de inserção e estabilidade, quanto desafios, como a não-formalização do trabalho e suas ambivalências.

Chegar a esse tipo de nuance se mostra significativo, porque revela que a base principal para a sustentação dos pequenos negócios das indústrias de produção têxtil e de roupas em São Paulo não são as sociabilidades de nacionalidade e étnicas, mas são as relações de parentesco, que podem, em maior ou menor grau, estar imbuídas em solidariedades étnicas. Apesar do pertencimento a uma nacionalidade específica ou a um grupo étnico figurar como elemento das sociabilidades das famílias de migrantes internacionais e seus descendentes, o que se mostrou como fator recorrente na estruturação das unidades de produção do setor, conforme apresentado pelas experiências de nossas interlocutoras e interlocutores, foram as sociabilidades de parentesco nos mais diversos grupos sociais. Isso não quer dizer que as sociabilidades de pertencimento nacional e étnico não possam ser influentes na conformação do trabalho nas indústrias de produção têxtil e de vestuário em São Paulo. Este setor de produção de roupas é bastante diversificado e, neste artigo, mostramos que há lógicas mais complexas operando, como a lógica de parentesco.

Isso nos leva não somente a ponderar sobre o uso não-nuançado das categorias de nacionalidade e etnia em certos estudos sobre a migração internacional em São Paulo, mas também a ponderar criticamente sobre as consequências sociais e políticas desta prática epistêmica que enfatiza a essencialização de sujeitos e contextos complexos. Enquanto pesquisadoras migrantes internacionais ou descendentes, observamos com desconforto a produção de conhecimento no campo dos estudos de migração que adota indiscriminadamente noções de cultura, como pertencimento nacional ou etnia, como aspectos totalizantes, sem perceber que, por vezes, o uso de tais noções pode reforçar dinâmicas de uma estrutura racista. Acompanhando o que Gutierrez Rodriguez (2018) caracteriza como “colonialidade da migração”, entendemos que as categorias utilizadas para se referir à migração também podem ser capturadas pelas mesmas estruturas que constituem a “colonialidade de poder” (Quijano, 2000, 2008). A colonialidade de poder, nessa acepção, se constitui como sistema de classificação racial, surgido a partir do colonialismo europeu, que mantém sua influência em nossa contemporaneidade como forma de hierarquizar as populações humanas, incluindo as migrantes. Ao privilegiar os considerados brancos e subalternizar os não-brancos, este sistema aciona os mais variados dispositivos para a construção de alteridades que estabelecem as classes de pessoas às quais é concedido reconhecimento ou rejeição. No caso dos grupos de migrantes internacionais, a diferença colonial é reiterada, por exemplo, por meio da divisão entre o interno, o cidadão, e o externo, o migrante, dentro da sociedade nacional. Mas nos estudos sobre a presença de grupos migrantes internacionais e seus descendentes nas indústrias de produção têxtil e de vestuário em São Paulo, a colonialidade da migração, a nosso ver, se manifesta ainda mais além: na própria racialização da força de trabalho dos grupos migrantes envolvidos, por meio da operação de etnização desses grupos. Ao reificar a presença dessas pessoas migrantes, essa operação de etnização só reforça na opinião pública e no senso comum a mesma matriz de classificação social baseada em hierarquias raciais coloniais. Classificação esta que, além de generalizar, termina também estigmatizando grupos, ofuscando as dinâmicas complexas que compõem as vulnerabilidades existentes no modo de produção das indústrias têxteis e de roupa em São Paulo num sistema que, para sua manutenção, precisa que exista desigualdade. Perversamente, essa mesma reificação coloca alguns dos grupos de migração internacional e descendentes, como coreanos e bolivianos, em posições de conflito sem horizontes de transformação das suas relações e interações, que tem como uma das suas consequências um desconhecimento mútuo entre si das dinâmicas destas comunidades dentro deste circuito de trabalho. Os primeiros são rotulados como “exploradores” e os segundos, como “explorados", enquanto o funcionamento do setor de produção têxtil e de vestuário em São Paulo não é abordado na profundidade que sua complexidade merece. Porém, é preciso reconhecer que há uma profunda desigualdade das estruturas e formas de trabalho entre aqueles que operam os negócios de confecção e os que operam os negócios das oficinas de costura, com estes últimos sendo indiscutivelmente os mais vulneráveis e precarizados nas dinâmicas de produção de roupas em São Paulo. Ainda assim, conforme argumentamos, não é etnizando esta dicotomia que a compreenderemos melhor.

Diante de tudo o que foi apontado, consideramos que é preciso realizar o contínuo exercício crítico dentro dos estudos de migração internacional em São Paulo, de modo a alcançar o que Grosfoguel (2009) chama de “descolonização do pensamento.” É preciso avançar nas formas de conhecimento que possam ir além das armadilhas da colonialidade da migração, e - conforme nossa experiência de pesquisa de “pensar com cuidado” vem nos ensinando - isso requer realizar a autocrítica das estruturas de pensamento racializador que ainda nos atravessam.

Agradecimentos

Antes de tudo, agradecemos a nossas interlocutoras e interlocutores pela confiança em nosso trabalho de pesquisa. Apesar de estarem identificadas e identificados neste texto por meio de pseudônimos, sem a participação destes, a pesquisa não teria sido possível. Agradecemos ainda à estrutura oferecida pelo Urban Institute, da Universidade de Sheffield, para a realização do trabalho e à British Academy pela concessão dos fundos necessários.

Declaração de Disponibilidade de Dados

Os dados de pesquisa estão disponíveis no corpo do documento

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  • 1
    Newton International Fellowship NIF22\220344.
  • 2
    Termo usado para se referir ao povo indígena de Okinawa, no Japão, ou aos descendentes de pessoas de Okinawa que vivem em outros lugares.
  • 3
    Todos os nomes de nossas interlocutoras e interlocutores são pseudônimos.
  • 4
    Nossa tradução do inglês.
  • 5
    Nossa tradução do espanhol.
  • 6
    Foram entrevistados empresárias e empresários de pequenas unidades de confecção e costura em São Paulo, com base num roteiro de perguntas semiestruturadas. A maior parte das entrevistas foram realizadas em português, havendo trechos delas realizadas em coreano ou espanhol.
  • 7
    Termo derivado do verbo “vender” pronunciado com sotaque coreano.

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    17 Abr 2026
  • Data do Fascículo
    2026

Histórico

  • Recebido
    01 Ago 2025
  • Aceito
    18 Mar 2026
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