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Moustapha e a percussão sabar: um músico do mundo na capital do Brasil

Moustapha and the Sabar Percussion: a musician of the world in the Brazilian capital

Para muitos jovens senegaleses que buscam acessar os meios de contribuir economicamente com as suas famílias, os contextos culturais do estrangeiro são vistos como cheios de oportunidades para conquistar de fato essa emancipação e autonomia. Este relato foi escrito de forma coletiva com o percussionista Moustapha Diene, radicado em Brasília, que nos mostra, a partir dos seus percursos transnacionais, como buscou acessar essas possibilidades, articulando os seus saberes artísticos-musicais desenvolvidos na tradição de percussão sabar wolof do Senegal, no esforço de superar os desafios de jovens africanos pós-coloniais como ele, conectados às dinâmicas dos fluxos culturais globais, mas, ao mesmo tempo, comprometidos profundamente com os deveres ético-morais locais (Honwana, 2012HONWANA, Alcinda M. The Time of Youth: Work, Social Change, and Politics in Africa. Sterling: Kumarian Press, 2012., Honwana, de Boeck, 2005HONWANA, Alcinda; BOECK, Filip De (eds.). Makers and Breakers: Children and Youth in Postcolonial Africa. Trenton: Africa World Press, 2005.).

Moustapha Diene nasceu em Dakar, capital do Senegal, país do Oeste Africano. Músico desde os oito anos, aprendeu a tocar sabar, instrumento tradicional wolof, com seu pai, também músico e griô. Na infância precisou escolher entre a escola ou o trabalho, decisões comumente tomadas pelas crianças senegalesas até hoje. Aos oito anos ingressou na Escola Issa Kane, antiga Bassam Goumba, mas não continuou os estudos.

As lembranças guardadas por ele do tempo de escola são do livro “Sidi e Rama”, livro de leitura para alunos do ensino fundamental em que gerações de crianças senegalesas aprenderam o básico da leitura, acompanhando as aventuras dos personagens principais que dão título ao livro. Seu período na escola era acompanhado por saídas frequentes para tocar na rua com seus amigos. A contragosto de seus pais, continuava fazendo o que amava desde muito pequeno: batucar. Antes ainda não tinha sabar, então improvisava os ritmos do instrumento em latas de alumínio.

Após sair da escola, Moustapha tentou seguir os conselhos da família para trabalhar com outras funções fora da música, por temer a insegurança financeira, a desvalorização e a falta de perspectiva. O primeiro trabalho foi numa oficina mecânica em seu bairro, onde ficou por alguns meses e saiu pela falta de pagamento. Depois seu pai conseguiu emprego com um costureiro de rua que fazia roupas tradicionais senegalesas. Sua passagem pelo ofício de costura não durou muito tempo. Bastava ouvir o som do sabar para ir ao encontro de seus amigos para tocar.

Ao assumir para sua família que sua decisão de vida era ser músico e tocar sabar, começou a frequentar a casa do amigo de seu pai para aprender a tocar profissionalmente. A partir dessa formação, começou a tocar em festas, casamentos, aniversários e nas tradicionais lutas senegalesas chamadas làmb, em língua wolof.

O dinheiro começou a circular e Moustapha iniciou a ajudar financeiramente sua família. Ele lembra que sempre dividia o cachê que recebia das suas apresentações com sua mãe. Quando entregava parte do dinheiro recebido ela dizia: “Obrigada, Deus te proteja”. Moustapha carrega o respeito por sua família desde muito pequeno, quando aprendeu que o núcleo familiar deve ser tratado com amor e reverência. Ele reconhece na figura de sua mãe, sua mais velha viva, o exemplo de cuidado, dedicação e amor.

Em 2010 Moustapha se viu desafiado a levar sua arte para fora de seu país. Foi convidado pelo grupo “Lions of África” para uma turnê na Europa. A princípio sua família não gostou da ideia. Chamou o então contratante, Laye Ananas, para uma conversa para assegurar que Moustapha estaria em boas mãos e voltaria para casa. Depois dessa conversa e dos inúmeros processos burocráticos em busca dos documentos necessários para a viagem, chegou a hora do sabar de Moustapha ressoar em outro continente. O primeiro país em que desembarcou foi a Holanda. O frio é a principal lembrança guardada pelo músico até hoje. Diene sentiu que seu nível profissional aumentou durante a experiência internacional, onde teve contato com outros músicos e musicalidades em diversas línguas e culturas. Após percorrer mais cinco países europeus, retornou ao Senegal, como prometido a sua família.

Ao chegar em Dakar, recebeu todo acolhimento e carinho de seus familiares e amigos. Thieboudienne, tradicional prato senegalês, que significa arroz com peixe, foi a primeira comida saboreada pelo artista, após meses experimentando culinárias diversas e climas frios nos países europeus.

Moustapha não teve seu cachê aumentado por ter voltado da Europa, continuou a receber os mesmos valores em suas apresentações e sempre partilhava o que ganhava com os amigos. O sabar é um instrumento tocado comumente em grupo. Apesar de seu som expressivo, marcante e envolvente, os tambores que compõem a família de instrumentos sabar, com diferentes afinações e tons, precisam de várias mãos para ressoar o som em sua completa exuberância. Como lembra Diene, o sabar fala e sua voz conjunta é mais potente em grupo.

Em seu país natal, o jovem e experiente artista se dividia entre o ofício de tocar e o de ensinar as crianças de sua cidade a tradição musical e cultural do sabar (Tang, 2007TANG, Patricia. Masters of the Sabar: Wolof Griot Percussionists of Senegal. Philadelphia: Temple University Press, 2007., 2008______. Rhythmic Transformations in Senegalese Sabar. Ethnomusicology, v. 52, n. 1, p. 85- 97, 2008.), antes utilizada também como meio de comunicação. Os griôs sempre reforçam o poder comunicacional do instrumento senegalês. Onde cada toque tem um significado. E os tons são respeitados por toda população.

Os tambores sabar são vestidos de tecidos e cordas coloridas, além da pele de cabra, animal muito comum em terras senegalesas, e as madeiras encaixadas nos buracos laterais do corpo do instrumento. Esses elementos juntos formam som, afinação e performances rítmicas diversas oriundas dos variados tons criados pelos tambores sabar, dentre eles os chamados: tugune, thiol e bambam.

Moustapha aprendeu desde criança a cuidar e a fazer as manutenções necessárias de seus tambores, assim como aprendeu a fazer suas próprias baquetas. O sabar é pesado e, além da técnica, exige um esforço das mãos, braços e ombros para carregá-los durante as apresentações e percursos entre os trabalhos.

As mãos potentes, criativas e calejadas do artista senegalês chegaram em terras brasileiras, em 2014, para tocar na segunda edição do Festival Internacional de Dança de Goiás, realizado no Centro Cultural Oscar Niemeyer (CCON), em Goiânia, para apresentação do espetáculo “Tigres da África”, do Ballet du Senegal, em exibição pela primeira vez no país.

Moustapha pretendia retornar ao seu país depois de tocar no festival, mas foi convidado por um senegalês conhecido de sua cidade natal para permanecer no Brasil para trabalhar. Diene aceitou e iniciou sua vida no país em Caxias do Sul, onde permaneceu por quase dois anos. No município brasileiro do estado do Rio Grande do Sul se dividia entre o trabalho de carteira assinada, em uma fábrica de roupas e apresentações artísticas com seu grupo de amigos senegaleses músicos e dançarinos.

O frio foi novamente o registro que mais marcou sua vivência na maior cidade da Serra Gaúcha. Em busca de mais trabalho como artista, mais uma vez aceitou o convite de um amigo senegalês para migrar para São Paulo. O sim à capital paulista, tomada por uma das maiores diversidades culturais do país, representava também um aceite ao maior período longe de casa que Moustapha experimentaria.

Assim como é conhecida a cidade de São Paulo por seu movimento constante, Moustapha não parou desde sua mudança para a capital paulista em 2015. Começou com oficinas de percussão e depois passou a integrar grupos musicais com africanos e mais tarde com brasileiros e se viu transitando em vários estados do Brasil fazendo ressoar o som do sabar.

Como descrito neste texto, escrito com sua companheira brasileira Ramíla, os afetos foram a força motora que moveram Diene a atravessar fronteiras com seu sabar. Para ajudar sua família a ter melhores condições de vida e por acreditar no seu profundo amor pela música, Moustapha enfrentou todos os desafios à frente para manter o seu ofício. E mais uma vez o afeto foi um dos motivos que o fez migrar, em 2020, para Brasília, onde reside atualmente e onde busca divulgar seu trabalho artístico e difundir a cultura senegalesa e africana no Brasil.

Antes de morar na capital, Moustapha já havia tocado em duas ocasiões em Brasília, no Fórum Mundial da Água e no CCBB com o grupo paulistano Höröyá, do qual Diene faz parte desde 2015, com colegas brasileiros e africanos. Ambas as apresentações na cidade aconteceram em 2018. Já morando na capital do país, participou como atração internacional da primeira edição do Festival Afro Urbano, realizado no Museu de Arte de Brasília, com ações culturais, literatura, cursos de formação e apresentações musicais para enaltecer a produção de artistas negros da capital do país.

Entre tambores, línguas, afetos e sons, Moustapha segue sendo o que nasceu para ser: um músico do mundo a encantar e dialogar através do sabar com todas as culturas que encontra por onde passa.

Este texto foi escrito de forma coletiva, a partir de uma rede de afetos construída por Moustapha, e na qual nós, os outros autores que conduzimos esta escrita, estamos inseridos. Na escuta atenta das memórias recuperadas e partilhadas por Moustapha conosco, suas experiências transnacionais, buscamos tecer, neste relato, os percursos, conquistas e desafios de um jovem artista e percussionista muçulmano senegalês, na construção de sua vida, na fluidez da mobilidade e a partir da performance e ensino da sua cultura musical, diante dos encontros e desencontros representados pelas diferenças culturais do estrangeiro e do seu compromisso ético e moral profundo aos seus familiares.

Referências bibliográficas

  • DIOP, Moussa. Sidi et Rama: lecture: cours d'initiation Senegal: Ministère de l'éducation nationale du Sénégal, Institut national d'étude et d'action pour le développement de l'éducation, 1990.
  • HONWANA, Alcinda M. The Time of Youth: Work, Social Change, and Politics in Africa Sterling: Kumarian Press, 2012.
  • HONWANA, Alcinda; BOECK, Filip De (eds.). Makers and Breakers: Children and Youth in Postcolonial Africa Trenton: Africa World Press, 2005.
  • TANG, Patricia. Masters of the Sabar: Wolof Griot Percussionists of Senegal Philadelphia: Temple University Press, 2007.
  • ______. Rhythmic Transformations in Senegalese Sabar. Ethnomusicology, v. 52, n. 1, p. 85- 97, 2008.

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    12 Dez 2022
  • Data do Fascículo
    Sep-Dec 2022

Histórico

  • Recebido
    31 Ago 2022
  • Aceito
    14 Nov 2022
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