Resumo
Este artigo analisa os papéis das contra-cartografias críticas como instrumentos de visualização, denúncia e transformação das paisagens migrantes na América Latina. Partindo de uma abordagem interdisciplinar, que articula geografia crítica, migrações e memórias, entendemos os mapas não como representações neutras, mas como dispositivos políticos e epistêmicos capazes de (in)visibilizar corpos, trajetórias e experiências migrantes. Contrastamos a cartografia tradicional - cartesiana, estadocêntrica e pretensamente neutra - com práticas contra-cartográficas que visibilizam errâncias migrantes de forma corporificada, afetiva e politicamente ativa. Nesse sentido, retomamos experiências latino-americanas, como as memórias de mulheres deslocadas na Colômbia, os desaparecimentos de migrantes entre a América Central e o México, e a experiência do exílio chileno na Alemanha, ressaltando esforços regionais na produção de contra-cartografias e as destacando como ferramenta metodológica e analítica de resistência, denúncia e rearticulação de espacialidades migrantes.
Palavras-chave:
cartografias críticas; migrações latino-americanas; trajetórias migrantes; visualidades migrantes
Abstract
This article analyses the roles of critical counter-mapping as instruments for visualizing, denouncing, and transforming migrant landscapes in Latin America. Based on an interdisciplinary approach that combines critical geography, migrations and memories, we understand maps not as neutral representations, but as political and epistemic devices capable of making migrant bodies, trajectories, and experiences (in)visible. We contrast traditional cartography-Cartesian, state-centric, and supposedly neutral-with counter-cartographic practices that make migrant wanderings visible in an embodied, affective, and politically active way. In this sense, we revisit Latin American experiences, such as the memories of displaced women in Colombia, disappearances of migrants between Central America and Mexico, and the experience of Chilean exile in Germany, highlighting regional efforts in the production of counter-cartographies and emphasizing them as a methodological and analytical tool for resistance, protest, and rearticulation of migrant spatialities.
Keywords:
critical cartographies; Latin American migrations; migrant trajectories; migrant visualities
Introdução
Nos primeiros vinte e cinco anos do século XXI, foram desenvolvidas produções acadêmicas sobre as migrações a partir de suas diversas compreensões e interlocuções com realidades e dinâmicas locais, regionais e globais que desafiam os sentidos e as análises rígidas, institucionalizadas e estadocêntricas do fenômeno. Para tanto, as cartografias e, sobretudo, as contra-cartografias críticas, têm sido utilizadas por pesquisadores na tentativa de imaginar outras paisagens errantes a partir de distintas abordagens e métodos não convencionais, por vezes combinados. Tais produções revelam ainda os limites e as fronteiras da própria escrita acadêmica costumeira, recorrendo a elementos artísticos, audiovisuais e ativistas, inseridos no cotidiano das próprias pessoas que, simultaneamente, constroem e são construídas pelas paisagens migrantes.
Assim, as cartografias críticas surgem enquanto interpelação aos mapas tradicionais ao proporem novas perspectivas de enquadrar, exibir e corporificar os deslocamentos humanos. Desse modo, este artigo analisa como as contra-cartografias possibilitam uma desestabilização de chaves epistemológicas e metodológicas hegemônicas para compreender as migrações e reivindicam centralidade às necessidades, às práticas e às trajetórias de vidas migrantes. Partimos de experiências de mapeamento que explicitam cartografias críticas migrantes e analisamos as experiências e as trajetórias errantes de sujeitos deslocados a partir da América Latina, acentuando as distintas visualidades, os instrumentos de denúncia e a transformação da paisagem migrante na região.
As contra-cartografias não são somente instrumentos ou ferramentas de representações temporal-espaciais das migrações, mas também dispositivos de reivindicação de direitos, produção de memórias, identidades e disputas políticas por representações e discursos, envolvendo atores estatais e não estatais, em um continuum local-global. Além de pluralizar as paisagens migrantes e quem as compõe, exploramos as errâncias migrantes a partir de afetos, escalas, silêncios e ecos, na perspectiva de destacar as camadas que compõem essas trajetórias.
Reconhecemos o exercício cartográfico e contra-cartográfico como uma via epistemológica e metodológica fundamental para a área de Relações Internacionais (RI) - área de origem das autoras - na compreensão das dinâmicas da governança global das migrações, em contribuição e em diálogo com outras áreas, como as Ciências Sociais, a Sociologia, a História, a Antropologia e a Arquitetura. Seguindo Sperling (2016, p. 80), ao apontar na direção de um “campo ampliado das cartografias”, esta contribuição também desafia as práticas cartográficas internacionais a irem além da representação do espaço estatal tomado de forma homogênea.
Nesse mesmo sentido, a pluralização das representações dos deslocamentos forçados na política internacional depende, paralelamente, de uma ampliação das práticas cartográficas acerca dessa dinâmica. Indagar o que as práticas cartográficas sobre migrações podem nos contar envolve deslocar a definição de mapa das representações supostamente exatas de um território fronteirizado e ordenado a partir de uma lógica de poder hierarquizado para, assim, reconhecer o mapa como “[…] um agenciamento em processo, que não é visto como uma representação do real, próxima do mito cientificista, mas uma cartografia embasada na experiência com múltiplas entradas” (Sperling, 2016, p. 83).
Em termos de construção metodológica, foi adotada uma revisão de literatura sobre cartografias, acompanhada de análise de propostas de cartografias hegemônicas e de contra-cartografias em perspectiva comparada, vinculadas a processos e dinâmicas migratórias. São mobilizados mapas produzidos por distintos atores, como meios de comunicação, artistas e acadêmicos, entendidos a partir de seus objetivos, interesses, alcances e limites, em articulação com narrativas e espacialidades que ultrapassam as fronteiras políticas estatais.
As propostas contra-cartográficas exploradas de forma detida no artigo são as de Libia Posada (2014), Prieto Díaz (2017) e Troncoso Guzmán e Ugarte (2022), sobretudo por apresentarem metodologias - ainda que distintas - complementares, e que ilustram uma produção cartográfica de distintas escalas, linguagens e dispositivos críticos de compreensão de errâncias migrantes latino-americanas. A interpretação destas propostas se concentra em identificar elementos visuais, textuais e simbólicos dos mapas selecionados, bem como as formas pelas quais eles expressam as trajetórias migrantes e as disputas por representações que ultrapassam as cartografias hegemônicas.
Acompanhando os agentes constitutivos dos processos migratórios, suas trajetórias e modos de indagar, refletir e sentir sobre seus movimentos e paradas, selecionamos esses exemplos de mapas cujas práticas cartográficas centralizam as experiências dos sujeitos das migrações. Contrapondo-os a mapas que, simultaneamente, ilustram e arquitetam a governança global das migrações como uma estrutura homogênea, alienando o próprio sujeito deslocado desses mapas, exploramos três mapas-chave que representam uma parcela desse deslocamento na região. Iniciamos pelo trabalho de Posada (2014) sobre a cartografia do deslocamento forçado de mulheres colombianas. Em seus mapas, a autora traça, nas próprias panturrilhas das colombianas, um reencontro das participantes com as memórias do deslocamento e com sua então corporificação. O segundo mapa, contido no trabalho de Prieto Diaz (2017), revela a importância dos conhecimentos plurais e fragmentados dos próprios migrantes centro-americanos - deslocando-se em direção ao México - converterem-se em mapas autorais. Finalmente, chegamos ao exercício contra-cartográfico feito por Troncoso Guzmán e Ugarte (2022) a partir da experiência de exilados chilenos e os vínculos da comunidade chilena na Alemanha, culminando no mapeamento da experiência exilar do ex-exilado Sergio Vesely.
Nesta seção introdutória, tem-se uma aproximação entre e como o campo das RI e das Ciências Sociais se voltam ao desenvolvimento de cartografias críticas e aos estudos dos fenômenos migratórios, com destaque para algumas inflexões metodológicas e epistemológicas nesse duplo movimento. A sistematização e a mobilização de conceitos e elementos teóricos são realizadas ao longo do texto a partir da análise dos mapas selecionados. Assim, discutimos as potencialidades dessas cartografias críticas em contraponto às cartografias hegemônicas. Na área de RI mais especificamente, as escolhas epistemológicas e metodológicas de trabalhar com cartografias críticas ainda são recentes, ainda mais quando a abordagem parte de uma perspectiva bottom-up, ou seja, com a participação direta de indivíduos e/ou grupos, como a população migrante ou o sujeito migrante.
Trabalhos como os de Strandsbjerg (2010, 2013) e Ragazzi (2023) levantam uma discussão sobre as cartografias e seu potencial crítico a partir do nexo soberania-território, voltado a subverter instrumentos hegemônicos de controle e vigilância, como orientações matemáticas e sistemas de satélites, bem como a pensar na reorganização política das espacialidades. Basualdo, Domenech e Pérez (2019, p. 48, tradução nossa) avançam em um diagnóstico que pode servir de explicação das representações visuais no campo das RI e da política internacional, ao fronteirizarem a migração a partir dos limites aparentemente fixos do Estado-nação: “A representação das migrações e das fronteiras nos mapas está intimamente ligada à naturalização do Estado-nação nos esquemas de percepção, pensamento e ação”.
Dessa maneira, partimos da literatura acadêmica brasileira e internacional especializada. Em relação à produção brasileira, destacam-se os estudos voltados à articulação e à potência das cartografias críticas e de novas dinâmicas e construções geográficas dos espaços, a partir de ativismos comunitários (Gouveia, 2024), das artes e da arquitetura (Sperling, 2016, 2025), do meio ambiente e de suas dinâmicas societais (Porto-Gonçalves, 2001, 2002), dos afetos e sentimentos (Rolnik, 2011). Acompanhando Prieto Díaz (2017, p. 116), nossa proposta compreende que é preciso escapar dos sentidos e usos hegemônicos dos mapas, sublinhando que “[…] é urgente consolidá-los como ferramenta de protesto e explorar outros usos que permitam integrar o conhecimento científico-acadêmico com visibilidade e impacto social”.
Nesta contribuição, cartografia e mapa são usados como termos intercambiáveis e não distintos. Entretanto, reconhecemos o tratamento diferenciado que alguns autores e autoras dão aos termos, sobretudo no sentido de apontar para a ambiguidade da ambição e dos limites estáticos do mapa, bem como para a natureza da indagação e do movimento embutidos no exercício cartográfico. Rolnik (2011, p. 23) formula esta diferença, apontando que “[…] a cartografia - diferentemente do mapa: representação de um todo estático - é um desenho que acompanha e se faz ao mesmo tempo que os movimentos de transformação da paisagem. […] A cartografia, nesse caso, acompanha e se faz ao mesmo tempo que o desmanchamento de certos mundos - sua perda de sentido - e a formação de outros […]".
Quanto à literatura internacional, são ainda fundamentais os trabalhos de Wood (1992), Montoya Arango (2007), Mekdjian (2015), Basualdo et al. (2019), Vermeulen, De Korte e Van Houtum (2020), sobremaneira por trazerem críticas às cartografias tradicionais como dispositivos de poder e, consequentemente, homogeneização-apagamento de variadas trajetórias migrantes. Também nos embasamos nos trabalhos de Pinder (1996), Posada (2014), Prieto Díaz (2023) e Tazzioli (2015, 2023), que evidenciam a possibilidade de criar uma epistemologia contra-cartográfica situada e contextualizada a partir dos afetos.
A estrutura do artigo é composta por duas seções principais, além desta introdução e das considerações finais. A primeira discorre sobre as cartografias críticas e seus papéis em diálogo com os processos migratórios, dando ênfase à crítica dirigida às cartografias hegemônicas e às potencialidades das contra-cartografias como instrumentos capazes de pluralizar as visualidades, corporeidades e camadas envolvidas nesses processos migrantes.
Na segunda seção, são exploradas distintas experiências que movimentam e articulam uma paisagem migrante na América Latina, tendo como base contra-mapas que indicam diferentes movimentos e camadas de deslocamento, abertos por meio de visualidades críticas do fenômeno migrante. Concluímos ao ponderarmos que as cartografias críticas constituem uma abordagem às migrações capaz de tensionar os métodos convencionais e restritos de análise da (i)mobilidade humana, elevando o campo dos Estudos Migratórios a uma nova fronteira crítica: a das visualidades, representações e experiências oferecidas a partir de uma perspectiva cartográfica bottom-up, isto é, de quem migra.
As cartografias críticas e seus papéis: por uma rota de saída para os mapas dominantes das migrações
Os mapas são amplamente utilizados como ferramenta capaz de capturar as migrações, sobretudo por seu poder de articulação de elementos visuais abundantes e textuais sintéticos. Por meio da cartografia, há um processo de orientação para a leitura e interpretação dos movimentos migratórios (Casa-Cortés et al., 2017), colocando em intersecção, ainda que desigualmente, atores governamentais, institucionais internacionais, da sociedade civil e os próprios migrantes. Basualdo, Domenech e Pérez (2019, p. 44, tradução nossa, grifo dos autores) advertem, ainda, que “a produção de cartografias dos ‘fluxos migratórios’ tornou-se uma das novas manifestações de controle da mobilidade humana”.
As visualidades consubstanciadas na cartografia tradicional promovem uma representação simplificada e supostamente racionalizadora do panorama global e regional das migrações, reivindicando para si neutralidade e objetividade que, implicitamente, (re)produzem lógicas de poder (Porto-Gonçalves, 2002; Montoya Arango, 2007). Tais cartografias resultam, entretanto, no silenciamento ou total exclusão da agência e singularidade das pessoas migrantes ao ignorarem as intenções a que estão atadas, as distintas dinâmicas de (re)negociação das estruturas de poder e autoridade (Aradau, Huysman, 2009) em seus circuitos e itinerários migratórios.
Os mapas e os criadores (map makers, em inglês) não estão, vale dizer, em uma posição descolada ou distante dos fenômenos retratados. Estão, de modo geral, atrelados a uma discursividade ativamente implicada na construção das realidades que pretendem retratar (Pinder, 1996). Logo está a importância de um movimento contra-cartográfico, construído a partir da instauração sobre os mapas de um horizonte crítico capaz de desafiar a sua aparente neutralidade, ao passo que também oferece ferramentas e perspectivas para a criação de mapas-denúncia. Esses mapas desestabilizam as linhas de silêncio que interditam a leitura das questões cartografadas pela chave da justiça social, da equidade, da representatividade e da agência política. Os mapas são, também, instrumentos de reivindicação de memórias e esquecimentos que, ao caminharem juntos, criam e recriam as identidades, as perspectivas e os afetos desde um passado que ecoa no presente e possibilita projeções a mudanças futuras àqueles que migram.
Reconhecer os mapas como instrumentos de poder confere à contra-cartografia outros sentidos de poder, como ferramenta de compreensão, denúncia e transformação de realidades político-espaciais. Compartilhamos do diagnóstico feito por Basualdo, Domenech e Pérez (2019, p. 44, tradução nossa) de que “os contra-mapas se tornaram uma nova ferramenta de luta e de construção de novos horizontes para a mobilidade e a passagem de fronteiras”, permitindo um olhar mais detido sobre a pluralidade das experiências e dos ativismos migrantes.
Vermeulen, De Korte e Van Houtum (2020) denunciam e dissecam alguns dos instrumentos e técnicas da cartografia hegemônica. Para os autores, são os próprios mapas que visualizam certas práticas migrantes, e não os leitores. Isso faz com que determinadas dimensões cartográficas estejam projetadas e, outras, em ponto cego: “Todos os mapas contêm escolhas inerentes. Que informação compilamos, o porquê, o que mostramos e o que deixamos de fora, que formas, cores, projeções e tamanhos utilizamos? Não existe um mapa objetivo ou neutro. Cada mapa projeta a sua própria visão do mundo” (Vermeulen, De Korte, Van Houtum, 2020, s. p., tradução nossa).
A agência dos criadores de mapas revela que as linhas constroem sentidos sociais para problemas e questões políticas por trás das linhas de propriedade, fronteiras e outras representações geográficas (Wood, 1992). Existe mais do que a realidade geográfica revelada por meio de escalas padronizadas, setas destacadas e proporções desmedidas: há uma gama de preconceitos, perspectivas, intenções e vieses dos seus criadores ali também contidos. Basualdo et al. (2019, p. 54) sugerem, a esse respeito, que “[…] os mapas, longe de serem instrumentos neutros, participam da conformação de visões de mundo, legitimando certas hierarquias espaciais e invisibilizando outras”. Nessa direção, Gomis (2022) destaca como as cartografias de migração são frequentemente utilizadas para sustentar políticas de controle migratório, alimentando uma retórica de “invasão”.
Uma ilustração da construção hegemônica sobre a migração é a elaboração de mapas por instituições estadunidenses - tanto pelo governo, quanto por veículos jornalísticos -, concentrada em representar os fluxos migratórios oriundos da América Latina. A utilização de setas vermelhas espessas e círculos destacados para indicar volumes de deslocamento sugere uma narrativa de crise, emergência e pressão na fronteira norte dos Estados Unidos da América (EUA) com o México. Esses recursos gráficos não são neutros, ao operarem como dispositivos de alerta e guiarem o olhar do leitor para uma percepção de ameaça iminente (Vermeulen, De Korte, Van Houtum, 2020).
No mapa 1 abaixo - elaborado pelo New York Post -, a seta vermelha em direção aos EUA e os círculos acompanhados de números elevados (como os 104 mil migrantes na fronteira norte do México) reforçam a ideia de uma “massa descontrolada” que aguarda para cruzar a fronteira. Trata-se de uma visualidade orientada pela lógica do controle e da contenção, que transforma as pessoas migrantes e suas complexidades sociodemográficas e identitárias em meros dados estáticos, uniformes e alarmistas.
No mapa 2, o trajeto da caravana de migrantes de outubro a novembro de 2018 é retratado pela BBC News (2018) com uma narrativa visual que também opera pela simplificação. A rota é marcada por uma linha (vermelha, pontilhada e reta) que atravessa o território mexicano do sul ao norte e conecta San Pedro Sula, em Honduras, a Tijuana, no México, como se fosse uma trajetória única, homogênea e linear.
Essa representação desconsidera as inúmeras rupturas, pausas, desvios forçados e diferentes experiências vividas ao longo do percurso, principalmente pelo perfil diverso das caravanas (mulheres com filhos pequenos, crianças desacompanhadas, idosos e população LGBTQI+) (Palacios, 2021). Ao ilustrar o deslocamento como uma linha unidirecional, o mapa apaga as incertezas, os riscos e os contextos locais que atravessam a mobilidade centro-americana. A migração, nesse caso, é simbolizada como um movimento quase automático, desprovido de agência, de diversidade ou de resistência.
Além de uniformizar as rotas migrantes, esses mapas condicionam uma leitura específica do território e da mobilidade. Eles invisibilizam os sentidos subjetivos, políticos e sociais das migrações, reforçando uma cartografia do poder, na qual a fronteira é vista como um limite a ser defendido, e não como um espaço vivo de disputas, negociações e reinvenções em prol da mobilidade humana. Como argumenta Prieto Díaz (2023), a migração indocumentada desafia as fronteiras não apenas territoriais, mas também as epistemológicas e, assim, o modo como representamos, mapeamos e narramos esses deslocamentos.
Em busca de visualidades alternativas, de traçados mais sinuosos e de escalas por vezes mais diminutas, as contra-cartografias nos auxiliam a repensar as próprias migrações. Esses exercícios críticos mobilizam diferentes camadas para descrever as jornadas e as realidades migrantes e, por consequência, as pluralizam e as disponibilizam para circular de forma mais ampla entre ativistas, pesquisadores, artistas (Mekdjian, 2015) e até mesmo entre os próprios migrantes.
Desse modo, assumimos que uma epistemologia contra-cartográfica busca essa perspectiva situada e permite “[…] emancipar o mapa ao humanizá-lo radicalmente, o que significa trazer à luz, conscientemente, as informações geográficas que importam para as pessoas cuja existência e interesses a cartografia tradicional geralmente invisibiliza” (Houtum, Lacy, 2020, p. 208, tradução nossa). Os movimentos contra-cartográficos abrem distintos caminhos e rotas de subversão, em múltiplas escalas e de sofisticação variada (Pinder, 1996). Segundo Tazzioli (2015), isso se manifesta ainda mais quando a contra-cartografia e o contra-mapeamento ultrapassam a própria dimensão cartográfica, abrindo inúmeras possibilidades de interpretação.
Os sentidos contra-cartográficos mais significativos e produtivos na desestabilização das linhas de continuidade a que os processos e dinâmicas migratórios têm sido subordinados estão majoritariamente atrelados a contra-mapas que: reivindicam a centralidade do deslocamento corporificado, tal como o de Líbia Posada (2014) para o caso colombiano; denunciam as práticas de subalternização das cartografias, em Prieto Díaz (2023) na América Central; e que buscam dialogar com as violências sofridas no contexto das ditaduras latino-americanas, no trabalho de Troncoso Guzmán e Ugarte (2022). Esses três esforços discutidos na sequência coincidem sobretudo no que Prieto Díaz (2023, p. 283, tradução nossa) conclui e nos chama a atenção: “[…] o conhecimento territorial e a sua expressão cartográfica emanam das próprias populações migrantes”. Assim, a próxima seção está dedicada a enfrentar esses exercícios cartográficos e trazer uma paisagem migrante dinâmica e corporificada de experiências migrantes na região - de maneira não exaustiva - em diálogo com propostas, ora críticas, ora hegemônicas.
Cartografias críticas latino-americanas: temporalidades, espacialidades e memórias pluralizadas
Ainda que haja uma diversidade cultural, histórica e geográfica que compõe a América Latina, a região compartilha processos estruturais semelhantes refletidos em experiências comuns. Heranças da colonização, a imposição de regimes autoritários e os desdobramentos de projetos políticos e econômicos exógenos deixaram marcas profundas que ainda ecoam nas dinâmicas políticas, sociais e territoriais. Essas condições históricas e materiais favorecem o estabelecimento de vínculos e conexões entre os países latino-americanos, conformando um campo comum de análise (Abrego, Menjívar, 2022).
O deslocamento populacional é um desses processos que cruzam e constituem fronteiras e temporalidades, configurando uma marca-chave da região. A América Latina abriga uma pluralidade de mobilidades - por motivos econômicos, políticos, ambientais ou sociais (Abrego, Menjívar, 2022) - que desafiam representações simplificadas e lineares presentes em cartografias convencionais. Tais representações tendem a reduzir a complexidade dos fluxos a trajetórias retilíneas ou a leituras binárias, negligenciando as experiências vividas e os sentidos atribuídos pelos próprios sujeitos em movimento.
A geografia da região, marcada por extensas conexões terrestres entre países, contribui para a centralidade do ato de caminhar como forma predominante de deslocamento. Nesse contexto, emerge a figura do povo que caminha, na qual o corpo se torna simultaneamente instrumento e território da migração. Caminhar, nesse caso, revela uma forma de “autonomia migrante” (Cordero, Mezzadra, Varela, 2019, p. 15), ainda que vulnerável, já que o corpo em trânsito é exposto a múltiplas formas de violência. Efeitos físicos do percurso - como o cansaço e as lesões - até as práticas de desaparecimento forçado e, em seu extremo, a morte migrante.
Nesse contexto, torna-se fundamental a produção de um saber cartográfico situado, ancorado nas particularidades da região e capaz de tensionar os discursos hegemônicos que subalternizam e homogeneízam os processos migratórios latino-americanos. Aqui, reunimos experiências de contra-cartografias latino-americanas e seus efeitos para além da região, propondo formas críticas e plurais de representar as múltiplas espacialidades e temporalidades que constituem a mobilidade regional. Tais práticas desafiam as lógicas territoriais fixas e as fronteiras do Estado-nação, ao mesmo tempo em que afirmam outras formas de pertencimento, circulação e resistência.
Há produção vasta e mais sistemática de contra-cartografias e mapas críticos ao menos desde os anos 1990 na América Latina, que conta com a colaboração de pesquisadores e de ativistas, bem como a mobilização de mapas coletivos elaborados pelos migrantes, situados em lutas territoriais e no campo da identidade e do reconhecimento migrante (Basualdo, Domenech, Pérez, 2019). Centralizamos os migrantes como sujeitos ativos e protagonistas de suas trajetórias, cujas memórias e vivências devem ser destacadas nas representações espaciais e cartográficas.
3.1 Libia Posada e o deslocamento forçado de mulheres na Colômbia
Libia Posada (2014) é aqui escolhida na qualidade de artista audiovisual e pesquisadora que traz o corpo feminino - deslocado e em deslocamento - para o centro dos processos políticos colombianos, país da região latino-americana e do mundo com uma das maiores populações de deslocados internos em décadas de conflito armado, e para o centro ainda do exercício de elaboração de seus mapas.
Para além de protagonistas de suas rotas e itinerários, por mais violentos e dolorosos que tenham sido, as doze mulheres colombianas deslocadas forçosamente são fotografadas e estão presentes em sua instalação audiovisual na medida em que carregam memórias corporificadas da guerra civil na Colômbia.
Posada (2014) propõe, a partir de sua instalação artística, um grande mapa coletivo. Esse mapa permite observar, em caráter de denúncia, as violências historicamente silenciadas e inscritas no corpo das mulheres deslocadas. O mapa 3 resgata o protagonismo e as dinâmicas dessas mulheres, permitindo que suas experiências revelem outros aspectos da guerra civil colombiana. Nesse contra-mapa de Posada (2014), os corpos estão inscritos como veículo das violências da guerra civil - e das resistências - das mulheres deslocadas, conforme se pode observar em uma das fotografias-mapa elaboradas (Posada, 2014):
Representação corpórea-mapeada de violências da guerra civil sobre mulheres deslocadas na Colômbia
Nessa perspectiva, as unidades de medida do território são corporificadas e, por consequência, redimensionadas, tal como se vê na legenda que acompanha as fotografias na figura 1 abaixo:
Legenda relativa à representação contra-cartográfica do deslocamento de mulheres na guerra civil colombiana
Centrados nas memórias das deslocadas sobre suas trajetórias, os mapas tanto singulares quanto coletivos contidos no projeto ressaltam a importância de entendermos o número de vezes em que as mulheres colombianas se veem forçadas a se mudar. Quantos quilômetros - por uma escala de passos que acentua a exaustão física - foram necessários percorrer andando em busca de alguma segurança?
Hidalgo Nieto e Lema Habash (2020, p. 2) destacam que a cartografia de Posada (2014) diz respeito à “[…] diáspora que pertence, ao menos nominalmente, à mesma nação [Colômbia] e ocorre dentro do mesmo território nacional”. Além de compilar e corporificar as memórias das mulheres colombianas que vivenciaram ciclos intensos de violência, Posada (2014) também prepara os seus corpos para a (re)inscrição das memórias vividas neles:
O estágio da inscrição corporal resultou da interseção de pelo menos três elementos: os relatos orais das suas viagens; o contraste entre os percursos que percorreram e os que constam dos mapas oficiais do país; e o próprio ato da artista de inscrever nas pernas e nos pés das mulheres a tradução visual das suas narrativas (Hidalgo Nieto, Lema Habash, 2020, p. 5, tradução nossa).
Os mapas propostos por Posada, por meio de um amplo processo de escuta ativa e participação das mulheres, atestam como a violência se inscreve desigualmente sobre os corpos dessas deslocadas colombianas, inclusive reconhecendo e antecipando o risco de morte e de massacre em seus itinerários forçados. O resultado desse encontro de narrativas sob a forma de mapas individuais e coletivos também desestabiliza a leitura homogênea da guerra civil no país, demandando atenção aos efeitos desiguais de gênero dos deslocamentos decorrentes.
3.2 Prieto Díaz e o trânsito migrante pelo México
A proposta de um mapa conjunto, elaborado por pessoas migrantes em trânsito pelo México e em diálogo com o amplo e heterogêneo fenômeno da migração indocumentada, do desaparecimento e morte migrante, está refletida na proposta de Prieto Díaz (2023, p. 282, tradução nossa), segundo o qual “[…] a migração indocumentada é, assim, uma manifestação contemporânea do processo histórico de criação de subalternidades migrantes […] e a condição subalterna da mobilidade é difícil de alterar e é uma marca de nascença do processo migratório”.
É essa condição de subalternidade, atravessada por riscos, vulnerabilidades e pela fragmentação das experiências de deslocamento, que impõe limites à construção de narrativas migratórias unificadas, tensionando as lógicas homogeneizadoras próprias das cartografias tradicionais. O exercício de mapeamento conduzido por Prieto Díaz (2017), no qual homens da América Central em trânsito pelo México desenharam seus próprios mapas, evidencia uma dificuldade de produzir uma representação coletiva de um território que não é vivido de forma compartilhada, mas por rotas, tempos e condições diversas, conforme o mapa 4:
Os mapas resultantes são, assim, necessariamente parciais e expressam uma “consciência coletiva” constituída pela justaposição de experiências individuais interconectadas, por meio das quais o território emerge como uma paisagem em disputa, continuamente reconfigurada pelas trajetórias migratórias (Prieto Díaz, 2017, 2023). Nesse sentido, tais cartografias não apenas registram deslocamentos, mas também evidenciam relações de poder, apagamentos e disputas simbólicas que atravessam a produção do espaço na América Central e no México.
Outras pesquisas que abordam o desaparecimento migrante na América Latina dialogam com o exercício de Prieto Díaz (2023), como a pesquisa de Amalia Campos-Delgado (2018). A autora aponta para os migrantes indocumentados e os migrantes desaparecidos como agentes que desafiam, extrapolam e excedem os mapas tradicionais. Em muitas dessas realidades, as corporeidades migrantes são deliberadamente utilizadas para a subtração de responsabilidades políticas e institucionais de diversos atores diante de seu desaparecimento e de sua morte, o que se estende ainda às populações que têm contato com essas vidas-mortes migrantes.
Nesse sentido, o desaparecimento migrante vai ao encontro do desaparecimento forçado, expandindo-o para além de uma categoria jurídica estabelecida no marco das décadas de 1970 e 1980 (Dulitzky, 2016), quando familiares, amigos e movimentos sociais trabalharam na busca pelo paradeiro dessas vítimas da violência estatal e paraestatal na América Latina. O desaparecimento social de pessoas migrantes trata da invisibilização de suas vidas e de suas mortes, bem como da possibilidade de conseguirem se apropriar da vida pública na qual estão inseridas e construí-la.
Demanda-se, assim, um mapeamento crítico crescente e constante de fronteiras e espacialidades dilatadas pela presença da vida-morte subalterna migrante e não mapas que encerrem a tensão, subrepresentem ou simplifiquem as trajetórias migrantes. Desestabilizar as linhas definidoras das cartografias e mapas hegemônicos também interessa, pois é, a partir delas, possível desestabilizar também as fronteiras: “As próprias fronteiras também viajam e não são fixas, mas são concebidas para serem tão móveis como os sujeitos e objetos ‘em movimento’ que procuram controlar” (Brambilla, 2014, p. 25, tradução nossa, grifo da autora).
3.3 Trancoso Guzmán e Ugarte e a experiência do exílio chileno na Alemanha
Na esteira da perspectiva de uma paisagem migrante cartografada, estão os exemplos de processos históricos ao longo das décadas de 1960 e 1990 nas Américas. No contexto das ditaduras de segurança nacional, os exílios se constituíram como estratégias e resultados das Forças Armadas para desmobilizar dissidentes políticos, como ocorreu na Argentina, no Brasil, no Chile, no Paraguai e no Uruguai.
Troncoso Guzmán e Ugarte (2022) propõem um exercício contra-cartográfico da experiência de exilados chilenos na Alemanha, construído com base em elementos culturais e de solidariedade da comunidade chilena nesse país. Os mapas produzidos demonstram a interrelação entre os afetos e as experiências na errância, como ilustrado no mapa 5 da cartografia do ex-exilado Sergio Vesely, cantor, escritor, artista visual e poeta chileno:
Contra-cartografia de ex-exilado Sergio Vesely ilustra a perseguição da inteligência chilena e a sua conexão artística na Alemanha
Nessa contra-cartografia, o mapa do Chile aparece atravessado por linhas que conectam distintos pontos, os quais destacam a experiência de Sergio Vesely antes de ir para a Alemanha, como as suas prisões em centros clandestinos de detenção na cidade de Valparaíso. E, no cárcere, desenvolveu sua experiência a partir da música, da escrita e da arte. Esses elementos, presentes no mapa chileno, conectam-se a círculos vermelhos, pretos e azuis de um mapa ao sul da Alemanha, que representam locais onde houve eventos de solidariedade com a comunidade exilar chilena. Além das linhas vinculadas à sua prisão pela ditadura chilena, o mapa também apresenta trechos textuais de Sergio Vesely sobre a sua experiência de maneira poética, indo desde sentimentos de amor e saudade em uma carta a uma canção de um suposto monarca cruel, malvado, em alusão ao autoritarismo da época.
Assim, a justaposição entre esses dois conjuntos de mapas geográficos - os trajetos de repressão no Chile e os registros culturais e de acolhida na Alemanha - informa uma leitura do exílio que rompe com uma cartografia hegemônica do período para uma contra-cartografia de resistência e denúncia à ditadura pela arte. Troncoso Guzmán e Ugarte (2022) sublinham que as cartografias são instrumentos que possibilitam compreender as dinâmicas e as imbricações dos exílios, as suas redes e os movimentos de solidariedade em um espaço geográfico. A partir da experiência exilar de chilenos na Alemanha, as autoras mobilizam as cartografias-críticas para demonstrar como a experiência no exílio é construída e é construtora de geografias sociais e culturais, disputas de poder e de infraestruturas que informam padrões de comportamento (Troncoso Guzmán, Ugarte, 2022).
Em consideração aos elementos psicológicos, burocráticos, físicos, sentimentais e coletivos do exílio chileno, a característica sentimental (e cognitiva) dessa contra-cartografia se trata de um exercício que foca na dimensão espacial da experiência, de sentidos, emoções e memórias (Campos-Delgado, 2018). Portanto, segundo Ziemke (2012), os exercícios contra-cartográficos apresentados também servem como instrumento de denúncia contra as violações de direitos humanos. Ao sinalizarem as múltiplas dificuldades e estratégias de manutenção da vida e de segurança física e mental ao longo das errâncias, são compostas camadas complexas de paisagens migrantes, em que pese as distintas “geo-grafias” (Porto-Gonçalves, 2002) físicas, sentimentais e corpóreas.
O exercício contra-cartográfico demonstra novas possibilidades de interpretação das migrações, permitindo a vazão de sentimentos e memórias que extrapolam a palavra escrita e encontram ecos em mapas por uma perspectiva dos próprios migrantes. Sua experiência emocional está vinculada ao seu potencial de reconfigurar, cultivar e gerir as emoções de acordo com os contextos políticos e sociais das experiências migrantes (Boccagni, Baldassar, 2015).
Logo, a configuração de vínculos entre migrações e emoções se articula aos mapas e exercícios cartográficos críticos das migrações, estabelecendo novos marcadores metodológicos e epistemológicos, no intuito de evidenciar as contínuas transformações societais, políticas e culturais que constituem e são constituídas pelas trajetórias migrantes. Experimentados de forma dinâmica e não linear, os mapas e as cartografias críticas tensionam as visualidades e narrativas hegemônicas de Estados, organizações internacionais e demais atores da governança global das migrações, a partir da necessidade de um campo ampliado de cartografias, como salienta Sperling (2016, 2025).
Considerações finais
As contra-cartografias ou cartografias críticas constituem ora uma alternativa estético-visual à homogeneidade das cartografias hegemônicas, ora uma proposta político-situada e corporificada com vistas à compreensão de representações visuais (ainda que não somente) mais plurais dos processos migratórios. Mais do que disputar com as cartografias e os mapas hegemônicos, as contra-cartografias surgem como contraponto a esses mapas, considerando seus objetivos e interesses em diálogo com a visibilidade das experiências e das vozes migrantes.
É possível e premente pensarmos na produção de outras visualidades, narrativas e espacializações das paisagens migrantes de maneira corporificada, abrindo espaço para as denúncias das violências ao longo do processo de deslocamento e das experiências emocionais subterrâneas vivenciadas. Nesse sentido, as dinâmicas globais-locais das migrações e as estruturas geopolíticas em torno da temática, endereçadas por Estados, organizações internacionais e demais atores envolvidos, devem ser tensionadas em que pese os seus exercícios de mapeamento e cartográficos hegemônicos.
No marco da política internacional, os casos discutidos neste trabalho trazem outras perspectivas para a compreensão das necessidades, dos obstáculos e das violências que homens, mulheres e crianças migrantes vivem em seus itinerários. Os mapas críticos das experiências de mulheres colombianas, os mapeamentos de migrantes desaparecidos, especialmente no México, e as cartografias-críticas exilares apontam simultaneamente para a potencialidade transnacional e os aprendizados situados dos deslocamentos humanos e suas camadas.
Tais contra-cartografias atestam como os mapas e as cartografias hegemônicos seguem e perpetuam lógicas estatais e institucionalizadas de controle, de invisibilização e de sequestro da agência política dos migrantes. Desde linhas retas, números, cores e símbolos padronizados, esses mapas convencionais vão na contramão de centralizar e de se preocupar com as dinâmicas e as estruturas (políticas, burocráticas e sociais) que regem e operacionalizam as violências nas errâncias: a securitização, a espetacularização e a quantificação das vidas e das mortes migrantes, consolidadas em políticas da exaustão e de morte.
Evidencia-se, assim, o alcance diverso, criativo e comprometido com uma justiça e uma memória coletivas - contextualizadas - em prol dos direitos das pessoas que migram. Logo, as contra-cartografias dão ênfase a pontos nos quais os mapas hegemônicos não tocam: nas corporeidades, no poder de agência migrante e nas camadas subjetivas das narrativas e vivências migrantes. Por outro lado, as cartografias críticas concebem novas ontologias e epistemologias para trabalharmos com temáticas sensíveis que requerem maior cuidado e compromisso com as vidas e experiências de migrantes. A articulação entre mapas, cartografias e subjetividades dos migrantes (sentimentos, afetos, memórias, identidades) potencializa e sublinha a necessidade de visualidades que se alimentem de trabalhos interdisciplinares e sirvam também de substrato a esses trabalhos.
Os denominados contra-mapas são, ainda, instrumentos de luta política e de ativismo contra as injustiças, as desigualdades e as violências perpetradas pela (in)ação de atores estatais e não estatais na política internacional. Costurar, desenhar, colar, riscar e apontar camadas sentimentais e psicológicas são maneiras de ancorar a territorialidade das dores e das dificuldades do deslocamento, sem as aprisionar. As paisagens migrantes são afetivas, corporais e memoriais que, se mapeadas criticamente, reafirmam o compromisso dos estudos de (i)mobilidade humana com a compreensão diversa e situada das errâncias corporificadas, individual e coletivamente.
Declaração de Disponibilidade de Dados
Os dados de pesquisa só estão disponíveis mediante solicitação
Referências bibliográficas
- ABREGO, Leisy J.; MENJÍVAR, Cecila. Central American Migration to the United States: historical roots and current conditions. In: FELDMANN. Andreas E.; BADA, Xochitl; DURAND, Jorge; SCHÜTZE, Stephanie (eds.). The Routledge History of Modern Latin American Migration Abingdon: Routledge, 2022, p. 232-245.
- ANTHIAS, Penelope. Mapping the Subaltern. In: SPECHT, Doug; KENT, Alexander (eds.). The Routledge Handbook of Geospatial Technologies and Society London/New York: Routledge, 2024, p. 109-121.
- ARADAU, Claudia; HUYSMANS, Jef. Mobilising (global) democracy: a political reading of mobility between universal rights and the mob. Millennium: Journal of International Studies, v. 37, n. 3, 583-604, 2009. DOI: http://dx.doi.org/doi:10.1177/0305829809103234.
- BAPTIST, Karen W. Diaspora: Death without a landscape. Mortality, v. 15, n. 4, 294-307, 2010. DOI: https://doi.org/10.1080/13576275.2010.513162.
- BASUALDO, Lourdes; DOMENECH, Eduardo; PÉREZ, Evangelina. Territorios de la movilidad en disputa: cartografías críticas para el análisis de las migraciones y las fronteras en el espacio sudamericano. REMHU: Revista Interdisciplinar da Mobilidade Humana, v. 27, n. 57, p. 43-60, 2019. DOI: https://doi.org/10.1590/1980-85852503880005704.
-
BBC News. Migrant caravan: Hundreds reach Tijuana on US border. BBC News, 2018. Disponível em: https://www.bbc.com/news/world-latin-america-46207034
» https://www.bbc.com/news/world-latin-america-46207034 - BOCCAGNI, Paolo; BALDASSAR, Loretta. Emotions on the move: mapping the emergent field of emotion and migration. Emotion, Space and Society, v. 16, p. 73-80, 2015. DOI: https://doi.org/10.1016/j.emospa.2015.06.009.
- BRAMBILLA, Chiara. Exploring the Critical Potential of the Borderscapes Concept. Geopolitics, v. 20, n. 1, p. 14-34, 2014. DOI: https://doi.org/10.1080/14650045.2014.884561.
- BRADLEY, Megan. The International Organization for Migration: challenges, commitments, complexities. New York: Routledge, 2020.
-
CAMPOS-DELGADO, Amalia. Counter-mapping migration: irregular migrants’ stories through cognitive mapping. Mobilities, v. 13, n. 4, p. 488-504, 2018. DOI: https://doi.org/10.1080/17450101.2018.1436540
» https://doi.org/10.1080/17450101.2018.1436540 -
CASAS-CORTÉS, Maribel; COBARRUBIAS, Sebastian; HELLER, Charles; PEZZANI, Lorenzo. Clashing Cartographies, Migrating Maps: The Politics of Mobility at the External Borders of E.U. Rope. ACME: An International Journal for Critical Geographies, v. 16, n. 1, p. 1-33, 2017. Disponível em: https://www.acme-journal.org/index.php/acme/article/view/1094
» https://www.acme-journal.org/index.php/acme/article/view/1094 -
CORDERO, Blanca; MEZZADRA, Sandro; VARELA, Amarela (coords.). América Latina en movimiento: migraciones, límites a la movilidad y sus desbordamientos. Madrid: Traficantes de Sueños, 2019. Disponível em: https://traficantes.net/sites/default/files/pdfs/TS-ALMOVIMIENTO_web.pdf
» https://traficantes.net/sites/default/files/pdfs/TS-ALMOVIMIENTO_web.pdf - GOMIS, Elsa C. Cartographies of migration and mobility as levers of deferral policies. Convergence: The International Journal of Research into New Media Technologies, v. 28, n. 1, p. 52-69, 2022. DOI: https://doi.org/10.1177/13548565221079788
-
GRAMSCI, Antonio. Cuadernos de la cárcel México: Ediciones Era, 1999. Disponível em: https://proletarios.org/books/Gramsci-Antonio-Cuadernos-de-la-Carcel-1.pdf
» https://proletarios.org/books/Gramsci-Antonio-Cuadernos-de-la-Carcel-1.pdf -
GOUVEIA, Matheus. Ativismos cartográficos e representações espaciais: um debate essencialmente geográfico. Tese (Doutorado em Geografia), Universidade Federal da Paraíba, João Pessoa, 2024. Disponível em: https://repositorio.ufpb.br/jspui/handle/123456789/36079
» https://repositorio.ufpb.br/jspui/handle/123456789/36079 - HIDALGO NIETO, Catalina; LEMA HABASH, Nicolas. Cartographies of Diasporic Thinking. The European Legacy, v. 25, n. 3, p. 324-340, 2020. DOI: https://doi.org/10.1080/10848770.2020.1732720.
- HOUTUM, Henk; LACY, Rodrigo B. The migration map trap. On the invasion arrows in the cartography of immigration. Mobilities, v. 15, n. 2, p. 196-219, 2020. DOI: https://doi.org/10.1080/17450101.2019.1676031.
- HUNTER, Alistair. Deathscapes in diaspora: contesting space and negotiating home in contexts of post-migration diversity. Social & Cultural Geography, v. 17, n. 2, p. 247-261, 2016. DOI: https://doi.org/10.1080/14649365.2015.1059472.
-
INTERNATIONAL ORGANIZATION FOR MIGRATION (IOM). Constitution, 2020. Disponível em: https://www.iom.int/constitution
» https://www.iom.int/constitution - MARCONI, Cláudia Alvarenga; DAUER, Gabriel Roberto. Migrações: mapear e corporificar as práticas migrantes. Monções: Revista de Relações Internacionais da UFGD, v. 13, n. 25, p. 1-6, 2024. DOI: https://doi.org/10.30612/rmufgd.v13i25.19101.
-
MEKDJIAN, Sarah. Mapping Mobile Borders: Critical Cartographies of Borders Based on Migration Experiences. In: SZARY, Anne-Laure Amilhat; GIRAUT, Frédéric (eds.). Borderities and the Politics of Contemporary Mobile Borders Londres: Palgrave MacMillan, 2015, p. 204-223. Disponível em: https://shs.hal.science/halshs-01242523/document
» https://shs.hal.science/halshs-01242523/document -
MONTOYA ARANGO, Vladimir. El mapa de lo invisible. Silencios y gramática del poder en la cartografía. Universitas humanística, n. 63, p. 155-180, 2007. Disponível em: http://www.scielo.org.co/scielo.php?pid=S0120-48072007000100009&script=sci_arttext
» http://www.scielo.org.co/scielo.php?pid=S0120-48072007000100009&script=sci_arttext -
New York Post. Over 100 000 migrants still waiting in mexico to cross into the us. New York Post, 2023. Disponível em: https://nypost.com/2023/07/17/104000-migrants-waiting-in-mexico-to-cross-into-the-us/
» https://nypost.com/2023/07/17/104000-migrants-waiting-in-mexico-to-cross-into-the-us/ - PALACIOS, Simón Pedro Izcara. Las caravanas de migrantes, las economías de tráfico humano y el trabajo excedente. Andamios, v. 18, n. 45, p. 21-45, 2021. DOI: https://doi.org/10.29092/uacm.v18i45.809
-
PALLO, Erica Robert. Material Culture Story: Shanawdithit (Early 19th Century), Canada. 2021. Disponível em: https://ericarobertpallo.wixsite.com/research/post/shanawdithit-early-19th-century-canada
» https://ericarobertpallo.wixsite.com/research/post/shanawdithit-early-19th-century-canada - PINDER, D. Subverting cartography: the situationists and maps of the city. Environment and Planning, v. 28, n. 3, p. 405-427, 1996. DOI: https://doi.org/10.1068/a280405.
-
PORTO-GONÇALVES, Carlos Walter. Da geografia às geo-grafias: um mundo em busca de novas territorialidades. Buenos Aires: CLACSO, 2002. Disponível em: https://biblioteca.clacso.edu.ar/clacso/gt/20101018013328/11porto.pdf
» https://biblioteca.clacso.edu.ar/clacso/gt/20101018013328/11porto.pdf - ______. Geo-grafías: movimientos sociales, nuevas territorialidades y sustentabilidad México: Siglo XXI Editores, 2001.
-
POSADA, Libia. Signos Cardinales. Cuadernos de música, artes visuales y artes escénicas, v. 9, n. 2, p. 217-222, 2014. Disponível em: https://go.gale.com/ps/i.do?p=IFME&u=anon~f5ed3f9d&id=GALE%7CA451311695&v=2.1=r
» https://go.gale.com/ps/i.do?p=IFME&u=anon~f5ed3f9d&id=GALE%7CA451311695&v=2.1=r -
PRIETO DÍAZ, Sergio. Cartografías de la subalternidad migratoria: bestialización, inhumanidad y contrahegemonía en el contexto del Plan Frontera Sur de México. Tese. (Doutorado em Ciências Sociais e Políticas). Universidad Iberoamericana. Cidade do México. 2017. Disponível em: https://ri.ibero.mx/handle/ibero/399
» https://ri.ibero.mx/handle/ibero/399 -
______. Mapeos Migrantes: Cartografías de la subalternidad migratoria. In: RODRÍGUEZ OROZCO, Arlet (coord.). La invención de las fronteras: Ciencia y Arte. Exploraciones Transdisciplinares. Morelia: Ediciones CENIT - Casa de Estudios Amaité, 2023, p. 277-305. Disponível em: https://www.researchgate.net/publication/370098859
» https://www.researchgate.net/publication/370098859 - RAGAZZI, Francesco. Mapping as a Critical Making Practice in International Relations. Global Studies Quarterly, v. 3, n. 4, p. ksad064, 2023. DOI: https://doi.org/10.1093/isagsq/ksad064.
-
REKACEWICZ, Philippe. Mapping Europe’s war on immigration. Le Monde Diplomatique, 2013. Disponível em: https://mondediplo.com/outsidein/mapping-europe-s-war-on-immigration
» https://mondediplo.com/outsidein/mapping-europe-s-war-on-immigration - ROLNIK, Suely. Cartografia sentimental: transformações contemporâneas do desejo. Porto Alegre: Editora da UFRGS, 2011.
-
SPERLING, David M. Você (não) está aqui: convergências no campo ampliado das práticas cartográficas. Indisciplinar, v. 2, n. 2, p. 77-92, 2016. Disponível em: https://periodicos.ufmg.br/index.php/indisciplinar/article/view/32766
» https://periodicos.ufmg.br/index.php/indisciplinar/article/view/32766 - SPERLING, David Moreno. Cartografias críticas: ensaios tecnopolíticos e geopoéticos. Rio de Janeiro: Rio Books, 2025.
- STRANDSBJERG, Jeppe. Territory, Globalisation and International Relations: the cartographic reality of space. Basingstoke: Palgrave, 2010.
-
______. Cartography and Territory in International Relations E-International Relations, 2013. Disponível em: https://www.e-ir.info/2013/10/02/cartography-and-territory-in-international-relations/
» https://www.e-ir.info/2013/10/02/cartography-and-territory-in-international-relations/ -
TAZZIOLI, Martina. Which Europe? Migrants’ uneven geographies and counter-mapping at the limits of representation. Movements. Journal for Critical Migration and Border Regime Studies, v. 1, n. 2, p. 1-20, 2015. Disponível em: https://movements-journal.org/issues/02.kaempfe/04.tazzioli--europe-migrants-geographies-counter-mapping-representation.html
» https://movements-journal.org/issues/02.kaempfe/04.tazzioli--europe-migrants-geographies-counter-mapping-representation.html - ______. Counter-mapping the techno-hype in migration research. Mobilities, v. 18, n. 6, p. 920-935, 2023. DOI: https://doi.org/10.1080/17450101.2023.2165447.
- TRONCOSO GUZMÁN, María Verónica; UGARTE, Francisca. Cartography of the Chilean exile in Baden-Württemberg: the story of the solidarity network. Tapuya: Latin American Science, Technology and Society, v. 5, n. 1, p. 1-17, 2022. DOI: https://doi.org/10.1080/25729861.2022.2115221.
-
This is not an Atlas. Counter Cartographies of Exile: from France to Afghanistan/ From Afghanistan to France Disponível em: https://notanatlas.org/maps/counter-cartographies-exile/
» https://notanatlas.org/maps/counter-cartographies-exile/ - VERMEULEN, Maite; DE KORTE, Leon; VAN HOUTUM, Henk. How maps in the media make us more negative about migrants The Correspondent, 2020. Disponível em: https://thecorrespondent.com/664/how-maps-in-the-media-make-us-more-negative-about-migrants.
- WOOD, Denis. The power of maps New York: The Guilford Press, 1992.
- ZIEMKE, Jen. Crisis mapping: the construction of a new interdisciplinary field? Information, Communication & Society, v. 15, n. 6, p. 101-117, 2012. DOI: https://www.tandfonline.com/doi/abs/10.1080/15420353.2012.662471.







Fonte:
Fonte:
Fonte:
Fonte:
Fonte:
Fonte: