Resumo
Este estudo investigou reações de usuários brasileiros no X diante da chegada de 88 cidadãos deportados dos Estados Unidos a Manaus (AM), em 24 de janeiro de 2025. Com base em reflexões sobre capital social e cultural, tensões na diáspora brasileira, disputas de pertencimento, discurso de ódio e polarização política, buscou-se compreender formas de julgamento moral, responsabilização e diferenciação entre brasileiros. Adotou-se abordagem qualitativa, com análise de 193 postagens em resposta à reportagem do G1 sobre a chegada do voo ao Brasil. Os resultados revelam manifestações que variam entre apoio, críticas à imigração irregular, responsabilização individual e enquadramentos políticos. Observou-se que as reações extrapolam o debate migratório, evidenciando disputas sobre pertencimento, identidade e status social no ambiente digital. Os dados apontam, de modo situado, padrões de desqualificação interna que mobilizam classe, origem e posicionamento político, operando distinções que refletem fraturas internas à categoria “brasileiro” mais do que rejeição coletiva ao “próprio grupo”.
Palavras-chave:
Migração e Deportação; Redes Sociais; X (Twitter); Desqualificação Interna; Estados Unidos
Abstract
This study investigated the reactions of Brazilian users on X to the arrival of 88 citizens deported from the United States to Manaus, Amazonas, on January 24, 2025. Drawing on reflections on social and cultural capital, tensions within the Brazilian diaspora, disputes over belonging, hate speech, and political polarization, it examines forms of moral judgment, attribution of responsibility, and differentiation among Brazilians. A qualitative approach was adopted, based on the analysis of 193 posts responding to a G1 news report about the expected arrival of the flight in Brazil. The results reveal reactions ranging from support to criticism of irregular migration, often associated with individual blame and political framings. The analysis shows that these reactions go beyond the migration debate, revealing disputes over belonging, identity, and social status in the digital environment. The data indicate, in a situated way, patterns of internal disqualification that mobilize class, origin, and political positioning, producing social distinctions that reflect fractures within the category “Brazilian” more than a collective rejection of the “in-group.”
Keywords:
Migration and Deportation; Social Media; X (Twitter); Internal Disqualification; United States
Introdução
No início de seu novo mandato, em janeiro de 2025, Donald Trump intensificou medidas de endurecimento migratório nos Estados Unidos, incluindo envio de tropas às fronteiras, deportações aceleradas e ampliação de poderes para investigação e detenção de imigrantes considerados de alta periculosidade. Nesse contexto, em 24 de janeiro de 2025, um voo com 88 brasileiros deportados dos Estados Unidos pousou em Manaus (AM). A aeronave tinha Belo Horizonte (MG) como destino final, mas não prosseguiu devido a problemas técnicos; os deportados seguiram posteriormente para a capital mineira em uma aeronave da Força Aérea Brasileira. A publicação da reportagem pelo G1 no X mobilizou centenas de comentários e tornou visíveis reações de apoio, crítica, ironia, hostilidade e julgamento moral (G1, 2025)1.
O episódio permite observar como brasileiros interpretam a experiência migratória de conterrâneos em situação de retorno forçado. Mais do que um debate sobre legalidade, as postagens evidenciam a moralização da imigração irregular, a politização do sofrimento migrante, a baixa ocorrência de manifestações de solidariedade e a produção de distinções internas. Em parte das manifestações, aparecem formas de desqualificação dirigidas a brasileiros que podem ser aproximadas da noção de endofobia, entendida como rejeição ou depreciação de membros do próprio grupo (Feld et al., 2016).
Embora os estudos sobre migração brasileira tenham avançado, ainda são limitadas as análises sobre como conterrâneos reagem, em ambientes digitais, a situações de deportação e retorno forçado. Trabalhos sobre identidade, diáspora e migração brasileira indicam que pertencimentos e hierarquias são continuamente negociados em contextos sociais e midiáticos, problematizando a ideia de uma identidade nacional homogênea (Ribeiro, 1998; Margolis, 2008; Siqueira et al., 2025; Silva et al., 2025; Pinto, Siqueira, 2018).
Este estudo analisa qualitativamente 193 postagens publicadas no X em resposta à reportagem do G1 sobre a chegada dos deportados. Adotam-se o estudo de caso e a Análise de Conteúdo (AC) para compreender discursos de acolhimento, crítica e rejeição, examinando como a polarização política e as hierarquias sociais atravessam esses enunciados e como as experiências migratórias são neles representadas. A análise mobiliza Margolis (2013) e Siqueira (2009) para discutir tensões internas da diáspora brasileira; Bourdieu (2007a, 2007b) para compreender capitais social e cultural; e Giora (2016), Santos (2016) e Nunes e Traumann (2023) para situar a circulação de hostilidade e polarização nas redes. Também considera a recorrência de Governador Valadares (MG), historicamente reconhecida como polo de emigração para os Estados Unidos (Siqueira, 2009).
O argumento central é que as reações à deportação não podem ser compreendidas apenas como apoio ou oposição à política migratória estadunidense. Elas revelam modos de classificar brasileiros entre si, definindo quem é visto como digno de solidariedade, quem é responsabilizado por sua vulnerabilidade e quem é convertido em objeto de punição simbólica. Assim, o artigo desloca a análise da deportação para o campo das disputas de pertencimento, evitando duas simplificações: tratar toda crítica à imigração irregular como endofobia ou ignorar que parte dessas críticas assume formas de desprezo e desqualificação que extrapolam a discussão jurídica.
Discriminação ao próprio grupo?
O termo endofobia (do grego éndon, “dentro”, e phóbos, “medo” ou “aversão”) representa a hostilidade dirigida ao próprio grupo de pertencimento, seja nacional, cultural, religioso ou de outra natureza. Consiste numa “aversão ao que está dentro”. Na prática, a endofobia ocorre quando um indivíduo ou um segmento social rejeita ou deprecia a sua própria coletividade, frequentemente manifestando atitudes de menosprezo em relação a traços, valores ou membros do mesmo grupo de origem.
Em estudo pioneiro, Feld et al. (2016) introduziram a noção de endofobia para ampliar o entendimento sobre como preferências e preconceitos podem incidir sobre grupos sociais. Baseados nos estudos de Becker (1957), os autores afirmam que, tradicionalmente, as análises econômicas de discriminação focavam na diferença de tratamento entre grupos maioritários e minoritários, em geral, pressupondo que o grupo dominante estivesse discriminando o outro. Os autores, porém, argumentam que esse foco na suposta desvantagem pode, em muitos casos, mascarar uma predileção, ou seja, favoritismo pelo próprio grupo, em vez de um “ataque” direto ao outro.
Para Feld et al. (2016), endofobia ocorre quando um agente discrimina, ou seja, atribui resultados piores a alguém que compartilha características como gênero ou nacionalidade. Esse fenômeno evidencia a possibilidade de indivíduos expressarem repulsa por aqueles com os quais se assemelham. Esse comportamento, portanto, dialoga com a discussão sobre autodepreciação grupal, explicitando que, além de odiar ou favorecer o outro, as pessoas podem também desenvolver aversão a si mesmas ou aos pares que compartilham atributos identitários.
O termo “endofobia” é mobilizado neste estudo com ressalvas metodológicas fundamentais. Como observa Ribeiro (1998), a “brasilidade” não é uma identidade unívoca, mas um campo de disputas no qual diferentes segmentos sociais negociam pertencimento e legitimidade, frequentemente mobilizando marcadores de classe, raça e origem regional. Assim, quando brasileiros desqualificam outros brasileiros, raramente estão rejeitando o próprio grupo de forma abstrata; estão, antes, operando distinções internas que refletem desigualdades estruturais e hierarquias sociais historicamente constituídas.
Margolis (2013) documenta como, na diáspora, brasileiros constroem hierarquias entre si, diferenciando “bons” e “maus” imigrantes com base em critérios de classe, escolaridade e alinhamento político. Portanto, os discursos aqui analisados não devem ser lidos como “endofobia” no sentido de rejeição coletiva ao “ser brasileiro”, mas como operações de distinção social que revelam as fraturas internas à categoria “brasileiro” e a ausência de solidariedade com pessoas que, independentemente de pertencimento nacional, vivenciam violência e violações de direitos.
Terrenos da identidade
A chegada de 88 brasileiros deportados dos Estados Unidos extrapola as questões legais ou diplomáticas ao expor tensões ligadas à identidade nacional. Enquanto parte das pessoas reage com empatia e solidariedade, outra parcela demonstra desprezo, evidenciando, em alguns casos, a hostilidade voltada ao próprio grupo. Para entender tais reações díspares, convém examinar como a brasilidade foi historicamente construída e de que modo essa construção pode ora gerar união, ora suscitar rejeição interna, especialmente quando atravessada por diferenças sociais, regionais e políticas.
Castells (1999, p. 22) define identidade como “a fonte de significado e experiência de um povo” e como um processo contínuo de formação de sentido, marcado pelas relações de poder que moldam o “eu” e o “outro”. Em situações de migração, esse processo intensifica-se, pois o indivíduo confronta não apenas a cultura do país anfitrião, mas também as dinâmicas do próprio grupo, em que classe social, diferenças regionais e status migratório podem criar linhas de tensão. Hall (2005) enfatiza que a identidade, sobretudo na pós-modernidade, tornou-se fragmentada e variável, já que o sujeito passa por transformações ao longo da vida, interagindo com diversos contextos e práticas culturais.
A “brasilidade” não é uma identidade compartilhada de forma homogênea, mas um campo de disputas no qual diferentes grupos negociam pertencimento e legitimidade. Ribeiro (1995) descreve o Brasil como “uma etnia nacional”, mas essa unidade é, como argumenta Hall (2005), uma construção discursiva que unifica diferenças internas por meio de narrativas seletivas. Chauí (2000) demonstra que o “mito fundador” brasileiro oculta conflitos sociais profundos (de classe, raça e região) sob a imagem de nação harmoniosa. Castells (1999) reforça que identidades coletivas são sempre relacionais, definidas tanto por inclusão quanto por exclusão. Portanto, quando brasileiros criticam outros brasileiros, não estão necessariamente rejeitando “o próprio grupo”, mas operando distinções internas que refletem hierarquias sociais preexistentes. Qualquer análise de discursos entre brasileiros deve, assim, considerar que “brasileiro” não é uma categoria neutra, mas um terreno de disputas sobre quem merece pertencer plenamente à nação.
No contexto migratório, essas disputas tendem a se intensificar. Conforme argumenta Margolis (2008), a identidade brasileira na diáspora não se constrói apenas em oposição ao estrangeiro, mas também a partir de distinções internas entre os próprios brasileiros. De modo semelhante, Ribeiro (1998) destaca que identidades nacionais, em contextos transnacionais, são continuamente renegociadas, sendo atravessadas por fluxos culturais e relações de poder que impedem sua fixação como categorias estáveis.
A deportação em si não constitui um fenômeno recente, mas o discurso de campanha de Donald Trump e suas primeiras ações de governo trouxeram maior visibilidade às políticas de deportação. De um lado, há quem defenda uma noção ampla de solidariedade nacional, reconhecendo os deportados como “nossos” conterrâneos em situação de vulnerabilidade. De outro, surgem posturas de condenação e até escárnio. Essas reações não se dirigem indistintamente ao conjunto dos brasileiros, mas frequentemente a segmentos específicos, marcados por condições sociais, trajetórias migratórias ou posicionamentos políticos. Essa hostilidade interna, em alguns casos, pode assumir contornos que dialogam com a noção de endofobia, sobretudo quando há generalizações negativas dirigidas a conterrâneos. No entanto, tais manifestações também podem expressar distinções intragrupo e processos de hierarquização social, que não se reduzem a uma rejeição uniforme do pertencimento nacional.
Nesse cenário, a compreensão histórica e cultural da brasilidade é decisiva para explicar por que a chegada dos deportados provoca reações tão distintas. Hall (2005) e Castells (1999) ajudam a entender como a identidade é um constructo mutável e permeado de relações de poder. Chauí (2000) e Ribeiro (1995), por sua vez, trazem à tona a riqueza e a complexidade de um país heterogêneo, onde convivem inúmeros modos de ser brasileiro. Assim, o episódio dos 88 deportados não apenas revela um embate em torno de leis migratórias, mas também reflete a maneira como os brasileiros, em diferentes posições sociais e simbólicas, negociam quem merece acolhimento ou repúdio dentro de um campo mais amplo de disputas identitárias.
Migração, redes e tensões internas
A experiência migratória brasileira para os Estados Unidos ganhou visibilidade a partir dos anos 1980 e se intensificou nas décadas seguintes, com destaque para fluxos originários de localidades como Governador Valadares (Margolis, 2013; Siqueira, 2009; Assis, 2002; Sales, 1999). No caso valadarense, Assis (2002, p. 151) caracteriza os primeiros emigrantes dos anos 1960 como homens jovens e de classe média, que não enfrentavam problemas econômicos imediatos que explicassem a partida e eram movidos também pelo desejo de conhecer a “América”. Com o adensamento das redes familiares e de amizade, sobretudo a partir dos anos 1980, o projeto migratório tornou-se acessível a segmentos sociais mais amplos. Essa diversificação produziu tensões na diáspora, pois diferenças regionais e socioeconômicas do Brasil passaram a ser reproduzidas no exterior (Margolis, 2013).
A autora questiona: “Então, no momento em que a população imigrante brasileira tornou-se mais diversa em termos de classe social e escolaridade, quais teriam sido as repercussões desse fato nas relações dentro das comunidades brasileiras no exterior?” (Margolis, 2013, p. 71). Segundo ela, a chegada de brasileiros de origens mais humildes incomodou aqueles que se viam como “de elite”, produzindo distinções como “mineirada” ou “povão” para designar compatriotas considerados menos sofisticados (Margolis, 2013, p. 72). Essas divisões podem gerar desconfiança mútua e rejeição a quem não se ajusta a certos padrões de linguagem ou comportamento.
Esse fenômeno não se limita às relações cotidianas no país de acolhida, mas reverbera nas redes sociais digitais, onde brasileiros de diferentes perfis discutem questões comuns, inclusive eventos críticos, como o voo com os 88 deportados. Margolis (2013, p. 212) cita relatos de brasileiros em Nova Iorque, como “os brasileiros fogem uns dos outros” e “posso contar nos dedos da mão o número de amigos brasileiros que eu tenho”. Esses depoimentos não indicam a inexistência de vínculos entre conterrâneos, mas mostram que a sociabilidade intragrupo pode ser seletiva: a formação de redes com determinados brasileiros pode coexistir com o afastamento e a desconfiança em relação a outros, sobretudo quando essas relações são atravessadas por diferenças de classe, escolaridade e origem regional. Em alguns casos, essa desconfiança desemboca em repúdio aos conterrâneos mais vulneráveis, vistos como responsáveis por “manchar a imagem” do país no exterior (Margolis, 2013, p. 213). Embora esses achados se refiram à diáspora, oferecem pistas para compreender como distinções internas entre brasileiros também são mobilizadas por não migrantes ao interpretar experiências migratórias alheias em ambientes digitais.
Estudos recentes reforçam que essas dinâmicas são reconfiguradas nas redes sociais. Siqueira et al. (2025) e Silva et al. (2025) indicam que essas plataformas operam como espaços de produção de narrativas sobre a migração, nos quais brasileiros negociam pertencimentos e reproduzem distinções sociais. A diferenciação entre migrantes considerados “legítimos” e “ilegítimos” passa, assim, a orientar julgamentos morais que extrapolam a experiência migratória e influenciam a interpretação de deportações e retornos no país de origem.
Embora a endofobia descreva a rejeição ou depreciação dos próprios compatriotas, o “complexo de vira-lata” (Rodrigues, 1993) aponta para um sentimento de inferioridade diante do estrangeiro. As duas noções convergem quando a supervalorização do que vem de fora se articula à desqualificação do próprio grupo. Na crônica em que cunhou a expressão, Nelson Rodrigues (1993, p. 52) escreve: “por ‘complexo de vira-latas’ entendo eu a inferioridade em que o brasileiro se coloca, voluntariamente, em face do resto do mundo”. Embora originado no futebol, o termo passou a simbolizar a tendência a enxergar a cultura nacional como menos valiosa que a estrangeira.
Essa postura pode reforçar a endofobia quando, em busca de aprovação externa, brasileiros hostilizam conterrâneos associados a tradições ou traços culturais do país de origem, acusando-os de prejudicar a reputação do grupo no exterior. Margolis (2013) mostra que muitos imigrantes procuram diferenciar-se dos “mal-ajustados”, vistos como responsáveis por uma imagem negativa perante a sociedade receptora. No caso analisado, porém, o foco recai sobre as reações publicadas por usuários brasileiros no X diante dos deportados. Como o corpus não permite determinar a experiência migratória nem o perfil sociodemográfico dos autores das postagens, a análise se concentra nos sentidos produzidos pelos enunciados. Neles, a rejeição aparece associada a julgamentos morais, políticos e sociais. Nesse entrelaçamento, a endofobia é mobilizada de forma situada, como uma chave interpretativa possível, sem pressupor identidade nacional homogênea.
Margolis (2013) também reflete sobre o papel do capital social e cultural nas relações entre conterrâneos, revelando hierarquias e hostilidade interna. Segundo a autora, aqueles com maior escolaridade, redes de contato ou status socioeconômico tendem a desqualificar compatriotas vistos como “menos qualificados”, acusando-os de prejudicar a imagem do grupo no exterior. Esse fenômeno evidencia dinâmicas de diferenciação interna que podem assumir formas de desprezo ou rejeição, nem sempre dirigidas ao conjunto dos brasileiros, mas a segmentos específicos.
O aporte de Bourdieu (2007a, 2007b) sobre capitais social e cultural ilumina essas dinâmicas. À medida que um grupo acumula recursos e prestígio, seus membros reivindicam distinção frente aos demais, reproduzindo desigualdades já existentes no país de origem. Margolis (2013) mostra que, no contexto migratório, essa busca por diferenciação tende a fomentar tensões intragrupo e desprezo pelos conterrâneos inferiorizados. Pinto e Siqueira (2018) acrescentam que essas hierarquizações não são apenas econômicas ou educacionais, mas também simbólicas, envolvendo reconhecimento e legitimação social nas experiências migratórias.
Essas dinâmicas ajudam a compreender como hierarquizações sociais são reativadas em diferentes contextos, inclusive nas reações de não migrantes diante de deportados. O capital social e cultural atua como mediador das relações de poder no interior da coletividade migrante, favorecendo julgamentos de distanciamento, distinção e desqualificação em relação aos deportados, sem que isso signifique rejeição homogênea ao “ser brasileiro”. A lógica bourdieusiana indica que esses mecanismos de distinção são, em larga medida, inconscientes, mas produzem efeitos concretos de exclusão. No contexto analisado, ajudam a explicar por que determinados discursos dirigidos aos deportados assumem formas de julgamento, desqualificação ou distanciamento simbólico por parte de outros brasileiros.
Escolhas metodológicas
Para Martino (2015), o termo “redes sociais” remete à imagem de indivíduos conectados a celulares ou outros dispositivos, trocando mensagens e opiniões continuamente. No entanto, esse cenário tecnológico é apenas a face visível de um fenômeno social anterior à internet, pois as relações sociais já se manifestavam em interações diversas, dos laços afetivos a conexões passageiras. O que os ambientes digitais proporcionaram foi a ampliação e intensificação desses vínculos (Martino, 2015). Essa compreensão, segundo o autor, desloca o foco dos dispositivos para as relações estabelecidas entre os usuários e para os sentidos produzidos nas interações que ocorrem nesses ambientes.
A rede X destaca-se como plataforma de alcance global, perfil noticioso e voltada a debates de opinião. No início de 2022, os recursos publicitários do então Twitter indicavam alcance potencial de 19,05 milhões de usuários no Brasil, correspondente a 11,5% da base nacional de internautas; como se trata de uma estimativa de audiência publicitária, o dado não equivale necessariamente ao número de usuários ativos mensais (Kemp, 2022). Pesquisa da própria empresa no Brasil indica que um terço dos usuários a considera fonte de notícias, enquanto um quarto a percebe como espaço de formação de opinião e discussão (X Brasil, 2022). Além disso, 36% dos entrevistados afirmaram acessar a plataforma ao acordar, em busca da “pauta do dia”, o que sinaliza a influência da velocidade e da atualização contínua do X no modo como as pessoas interagem com acontecimentos. Assim, a plataforma constitui espaço relevante para investigar reações do público a eventos de grande impacto, como a chegada dos 88 brasileiros deportados, permitindo observar manifestações de apoio, repúdio e discussão.
Uma limitação metodológica central deste estudo é a impossibilidade de verificar a autenticidade dos perfis analisados. O X não deve ser compreendido como espaço neutro de circulação discursiva, pois seus conteúdos são atravessados por lógicas algorítmicas, mecanismos de visibilidade e possíveis interferências automatizadas, como bots2 e perfis falsos. Em estudo realizado ao longo de 21 dias, Singh e Singh (2019) acompanharam os resultados de buscas de imagens no Twitter para as hashtags #Nurse e #Doctor e observaram que a proporção de homens e mulheres exibidos variava significativamente de um dia para outro; em determinados momentos, inclusive, alterava-se qual gênero aparecia desproporcionalmente representado. Esse resultado não permite afirmar que a mesma distorção ocorreu no corpus desta pesquisa, mas demonstra que aquilo que a plataforma torna visível pode variar conforme o momento da coleta. Desse modo, as 193 respostas analisadas constituem um recorte situado das manifestações acessíveis na plataforma, e não uma expressão direta, integral ou representativa da opinião pública brasileira sobre os deportados.
Diferentemente do Facebook, que privilegia laços bidirecionais de amizade, o X opera majoritariamente em sistema unidirecional, no qual usuários seguem figuras públicas, jornalistas ou organizações sem reciprocidade obrigatória (Murthy, 2011). Essa dinâmica, somada ao formato de microblogging, em que postagens curtas se agregam para formar narrativas em tempo real (Java et al., 2007), reforça o caráter público das discussões. Também fortalece a lógica de broadcasting3, expandindo o alcance das publicações e tornando a plataforma apropriada para veicular notícias e moldar a opinião pública (Molla, 2016).
A abordagem qualitativa justifica-se porque o objeto de estudo, as reações de internautas à deportação de 88 brasileiros, exige compreensão aprofundada dos sentidos atribuídos pelos usuários do X, sem que a mensuração quantitativa constitua o objetivo central. Mais do que contar ou correlacionar opiniões, a proposta é analisar postagens, “centrando-se na compreensão e explicação da dinâmica das relações sociais” (Goldenberg, 1997, p. 34). Essa escolha se alinha à interpretação de elementos subjetivos e simbólicos das mensagens e dialoga com estudos migratórios recentes que enfatizam narrativas e práticas discursivas na compreensão das experiências de mobilidade, especialmente em ambientes digitais, onde identidades e pertencimentos são continuamente negociados (Silva et al., 2025).
Nesse processo, a AC permite desdobrar o sentido das postagens além da literalidade (Martino, 2018), concentrando-se no conteúdo discursivo, sem pretender identificar com precisão o perfil ou a autenticidade dos usuários. O estudo de caso, por sua vez, delimita o fenômeno investigado: a repercussão da postagem do G1. Como ressalta Martino (2018), essa estratégia analisa em profundidade uma situação delimitada, escolhida a partir de critérios definidos para responder às perguntas do trabalho.
A partir desse recorte, a AC foi utilizada para interpretar o material coletado, identificando o entrecruzamento entre identidade, migração, discurso de ódio nas redes sociais e endofobia. Para Martino (2018, p. 157), a AC permite “desmontar as mensagens” e revelar significados menos óbvios, indo além da contagem de termos. Aplicada às postagens no X, possibilita identificar recortes temáticos, padrões de sentido e aspectos simbólicos que poderiam passar despercebidos em uma leitura superficial, contribuindo para compreender as dinâmicas comunicacionais nas redes sociais.
Delimitação do corpus e estratégia de análise
Para compreender de que maneira os internautas reagiram à reportagem sobre a chegada de 88 brasileiros deportados dos Estados Unidos, anunciada no perfil do G1 no X, definiu-se um conjunto de procedimentos que conferem clareza e objetividade ao processo de coleta e análise dos dados. Em primeiro lugar, justifica-se a escolha do G1 como fonte principal de investigação. Lançado em 2006 como o portal de notícias da Globo, o G1 conquistou, em 2008, a liderança na audiência dos portais de notícias do Brasil e, desde então, mantém-se como uma das referências nacionais em jornalismo digital.
Segundo dados da Comscore4, o portal alcança mais de 55 milhões de usuários por mês e mantém uma redação distribuída em todos os estados do país, produzindo conteúdo noticioso em tempo real. Nas redes sociais, também se destaca: em fevereiro de 2025, quando os dados foram coletados, o perfil @g1 reunia 15.305.383 seguidores no X, plataforma na qual está presente desde 2007. Esse alcance expressivo justificou a escolha da conta para investigar as interações dos internautas diante de um fato noticioso de grande repercussão.
A postagem analisada foi publicada em 24 de janeiro de 20255 e fazia menção às circunstâncias da deportação e ao desembarque dos brasileiros em Manaus (AM). Em 4 de fevereiro de 2025, foram contabilizados 952 comentários na linha do tempo do X para essa postagem. Porém, 246 estavam associados a anúncios publicitários que surgiam de maneira intercalada na timeline, não sendo considerados para análise. Isso reduziu o universo para 706 comentários efetivamente relacionados ao conteúdo divulgado pelo G1. Desses, 513 eram interações subsequentes, ou seja, respostas de usuários a outros internautas, muitas vezes se afastando do tema central ou resultando em discussões paralelas sem vínculo direto com a matéria.
A fim de garantir um foco analítico preciso, optou-se por analisar apenas os 193 comentários publicados diretamente em resposta ao perfil do G1. Essa escolha visou captar as reações primárias e espontâneas à notícia, evitando influências derivadas de interações subsequentes e discussões secundárias. Cabe ressaltar, mais uma vez, que tais manifestações não podem ser automaticamente interpretadas como plenamente orgânicas ou representativas da totalidade dos usuários da plataforma, pelo fato de a plataforma X ser atravessada por dinâmicas algorítmicas, perfis automatizados e estratégias de amplificação de conteúdo que podem interferir na visibilidade e circulação das postagens. Ainda assim, o recorte adotado permite observar padrões discursivos relevantes no contexto da recepção imediata da notícia.
Os enunciados citados no artigo foram transcritos tal como publicados, preservando-se a grafia, a pontuação, a concordância e as marcas de oralidade presentes nas postagens. Eventuais supressões ou acréscimos explicativos realizados pelos autores são indicados entre colchetes.
Durante a leitura integral das 193 postagens, o procedimento de categorização combinou um movimento indutivo e uma orientação teórica. As categorias não foram extraídas de uma tipologia preexistente, mas construídas pelos autores a partir das recorrências observadas no corpus e delimitadas em diálogo com o referencial teórico, especialmente com a noção de endofobia (Feld et al., 2016), empregada como uma entre outras possibilidades analíticas para compreender formas de desqualificação dirigidas a brasileiros. Desse processo resultaram quatro categorias analíticas:
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Críticas situacionais: que censuram a imigração irregular ou a imprudência do deportado, sem generalizar a “brasilidade”;
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Manifestações de solidariedade: mensagens de apoio, compaixão ou acolhimento aos deportados que não apresentem marcadores textuais explícitos de ironia ou deboche;
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Indícios de desqualificação interna: comentários que podem ser interpretados como atribuição generalizante de características negativas a brasileiros ou à identidade nacional, especialmente quando ultrapassam críticas situacionais e assumem caráter essencializante. Essa categoria dialoga com a noção de endofobia, mas é utilizada de forma situada, considerando as distinções internas de classe, origem, trajetória migratória e posicionamento político;
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Polarização política: postagens que vinculam a deportação a preferências eleitorais ou responsabilizam o deportado por suas escolhas políticas.
Após essa definição inicial, todas as postagens foram relidas e classificadas com base nos critérios e nas expressões-chave associados a cada categoria. Com isso, os comentários classificados como indícios de desqualificação interna correspondiam àqueles que podiam ser interpretados como extrapolação da crítica pontual às circunstâncias da viagem ou à falta de documentação, passando a mobilizar generalizações negativas sobre brasileiros ou sobre a identidade nacional. Por outro lado, postagens que apenas reprovavam práticas ilegais, questionavam a imprevidência dos deportados ou discutiam a legalidade da imigração nos Estados Unidos não eram automaticamente consideradas formas de desqualificação interna, desde que não apresentassem generalizações ou desqualificações mais amplas da identidade nacional.
Assim, adotou-se um processo de leitura em três momentos. Primeiro, procedeu-se a uma apreciação preliminar de cada comentário, para identificar temas principais e eventuais sinais de polarização ou hostilidade direcionada ao “ser brasileiro”. Em seguida, selecionaram-se aquelas postagens cujo teor sugeria uma depreciação coletiva, verificando se havia expressões de generalização negativa, como “brasileiro não aprende nunca”, ou exaltação indiscriminada do estrangeiro em detrimento do nacional. Por fim, consideraram-se os contextos políticos, linguísticos e morais em que tais comentários apareciam, distinguindo críticas situacionais de discursos de desqualificação mais ampla. Essa opção metodológica reflete a necessidade de demarcar com clareza a fronteira entre crítica pontual e discurso de desvalorização coletiva.
Análise e discussão dos resultados
Foram adotados dois cenários de classificação para refletir a natureza multifacetada das 193 postagens. No primeiro cenário, cada mensagem foi alocada exclusivamente em uma categoria, de acordo com a característica considerada predominante. Nesse procedimento, foram identificadas 125 (64,8%) postagens na categoria “Críticas situacionais”, as quais destacam a ilegalidade da imigração ou questionam a cobertura midiática sem atribuir uma desqualificação intrínseca à “brasilidade”; 3 (1,6%) em “Manifestações de solidariedade”, nas quais foram identificados enunciados de acolhimento ou empatia sem marcadores textuais explícitos de ironia ou deboche; 19 (9,8%) em “Indícios de desqualificação interna”, quando há generalizações negativas ou depreciativas dirigidas a brasileiros, à identidade nacional ou a segmentos específicos de conterrâneos; e 46 (23,8%) em “Polarização política”, relacionando a deportação a preferências ou lideranças partidárias sem necessariamente ofender toda a condição de “ser brasileiro”.
Esse quadro apresenta um retrato quantitativo simplificado, pois distribui as postagens em blocos mutuamente excludentes. Contudo, algumas mensagens exibiram simultaneamente indícios de desqualificação interna e de polarização política. Por isso, num segundo cenário, admitiu-se que certas postagens pudessem ser associadas a mais de uma categoria. Nessa abordagem multicategórica, o número de comentários contendo indícios de desqualificação interna subiu de 19 para 27 (14%), pois 8 postagens antes classificadas como “Polarização política” também incluíam expressões depreciativas em relação ao “ser brasileiro”. De modo similar, foram detectadas sobreposições entre “Críticas situacionais” e “Polarização política”, embora o impacto quantitativo no total de cada categoria tenha sido menor.
Assim, quando se opta por um único rótulo por postagem, 19 delas foram classificadas como indícios de desqualificação interna segundo os critérios operacionais adotados; porém, ao considerar o caráter multicategórico, esse número sobe para 27, uma vez que os elementos políticos e de desqualificação identitária coexistem em diversas mensagens. Tal diferença ilustra a complexidade do corpus: embora o primeiro cenário favoreça uma visão clara das proporções em cada conjunto, o segundo revela como dimensões situacionais, políticas e identitárias podem aparecer simultaneamente em várias postagens.
No conjunto das 193 respostas diretas ao G1, verifica-se uma preponderância de comentários críticos ou jocosos, com poucos discursos abertamente solidários. Identificamos quatro principais tendências. A primeira reúne críticas à irregularidade documental ou manifestações de reprovação moral. Muitos internautas julgam “natural” a deportação de quem tenta entrar ou permanecer irregularmente nos EUA. Um exemplo é o comentário: “É só saber ir pra lá tudo certinho com vistos corretos documentos, tenho familiares que já foram pra os Estados Unidos e Europa e não passaram nada dessas humilhação”.
A segunda tendência reúne postagens que, ainda que não desqualifiquem o brasileiro em si, expressam satisfação ou escárnio diante da situação dos deportados. Comentários como “Rindo até 2099” ou “Bem feito kkkkk” indicam uma reação de deboche ou punição simbólica. Em diversos casos, essa reação é articulada a disputas políticas, com referências a “bolsominions” ou “trumpistas”.
A terceira tendência ultrapassa a crítica situacional e mobiliza formas mais amplas de desqualificação. Comentários como “[avião] Cheio de vagabundos” e “[...] o Brasil lamenta a devolução do lixo” não se limitam ao ato migratório, mas associam os deportados a atributos depreciativos. Nesse ponto, Santos (2016) ajuda a compreender como o discurso hostil nas redes pode operar pela exposição, estigmatização e inferiorização de sujeitos ou grupos. À luz de Bourdieu (2007a, 2007b), tais falas também expressam distinções que mobilizam capitais econômico, cultural e simbólico, associando a deportação à pobreza, à baixa escolaridade, ao despreparo ou à ‘vergonha nacional’. Em alguns casos, essas desqualificações miram grupos específicos por meio de rótulos como “bolsonaristas”, “ilegais” ou “patriotas”. Essas classificações são atribuídas pelos próprios usuários e não constituem evidência de que os deportados possuíssem efetivamente os perfis migratórios ou políticos que lhes são imputados. O que elas demonstram é a sobreposição, no plano discursivo, entre crítica política, julgamento moral e desvalorização identitária. Mais do que uma rejeição indiferenciada ao “ser brasileiro”, observam-se operações de distinção que hierarquizam “bons” e “maus” brasileiros por classe, escolaridade e alinhamento político.
Por fim, observa-se um número reduzido de postagens com enunciados de acolhimento ou recepção. Expressões como “Sejam bem-vindos” foram classificadas como manifestações de solidariedade quando não estavam acompanhadas de risos, termos depreciativos ou outros marcadores textuais de deboche. Essa classificação não permite determinar com segurança a intenção do usuário, pois a comunicação escrita não oferece elementos como entonação e tom de voz, e algumas formulações podem admitir uma leitura irônica. A análise, portanto, restringe-se às marcas observáveis no texto. De modo geral, as manifestações classificadas como solidárias são minoritárias, prevalecendo respostas marcadas por julgamento moral, ironia e distanciamento em relação aos deportados.
Crítica pontual, endofobia ou desqualificação interna?
Nem toda crítica à tentativa de entrar nos EUA sem visto e sem documentação se traduz em endofobia. Várias postagens adotam um tom de censura moral, como “sabia que era ilegal”, mas não expandem essa censura a todos os brasileiros. Na postagem anteriormente citada, o usuário contrapõe a situação dos deportados à de familiares que viajaram regularmente e apresenta a irregularidade documental como o cerne do problema. Nesses casos, a crítica recai no comportamento individual ou de um grupo específico, sem implicar o “ser brasileiro” como intrinsecamente desqualificado.
Por outro lado, há comentários que utilizam termos depreciativos mais amplos. Por exemplo, “[avião] Cheio de vagabundos” não se limita a mencionar a irregularidade documental, mas emprega um rótulo pejorativo coletivo. Ainda assim, não é possível afirmar de forma inequívoca que tal classificação se dirige à condição de “ser brasileiro”, podendo também estar associada a julgamentos morais sobre migração indocumentada, pobreza ou criminalidade. Postagens como “Pqp mais escoria vindo pra cá..” intensificam esse tipo de desqualificação, embora também permaneça ambíguo se a crítica recai sobre a nacionalidade ou sobre características atribuídas aos deportados enquanto grupo social específico.
Outro tipo de manifestação envolve a associação dos deportados a grupos políticos específicos. No comentário “Minions sendo expulsos”, o termo “Minions” funciona como um rótulo político depreciativo atribuído aos deportados, articulando antagonismo ideológico, ironia e desqualificação. A postagem não comprova a posição política dessas pessoas, mas registra a classificação produzida pelo próprio usuário. Nesse caso, a rejeição parece direcionada prioritariamente a um grupo supostamente identificado por seu alinhamento político, aproximando-se mais de uma lógica de antagonismo ideológico do que de rejeição ao conjunto dos brasileiros.
O humor, especialmente por meio de gargalhadas (“kkkkk”), aparece de forma recorrente. Há casos em que esse riso simboliza mera galhofa, sem uma depreciação abrangente, e outros em que reforça a humilhação coletiva. Para distinguir essas situações, considera-se o foco do enunciado. Quando o objetivo é ridicularizar a ilegalidade ou o fracasso individual, trata-se de uma reação situacional. Por outro lado, quando o riso se associa a termos depreciativos generalizantes, ele pode contribuir para a construção de uma desvalorização mais ampla, ainda que nem sempre claramente dirigida à identidade nacional como um todo.
Um exemplo ilustrativo é a postagem “Primeira carrada de vira latas bolsominions/trumpistas chegando… o carnaval de Governador Valadares promete?”. Nesse enunciado, os termos “bolsominions/trumpistas” tornam explícita a classificação ideológica atribuída aos deportados, enquanto “vira latas” acrescenta uma forma de inferiorização simbólica associada à identidade brasileira; a referência a Governador Valadares regionaliza esse estigma. A sobreposição desses marcadores mostra que antagonismo político e desqualificação interna não são excludentes. À luz da noção de endofobia (Feld et al., 2016), o enunciado pode ser lido, com cautela, como indício de endofobia seletiva: o desprezo não se dirige indistintamente a todos os brasileiros, mas àqueles classificados pelo usuário por uma suposta posição política e por uma associação regional. Essa leitura se restringe às categorias mobilizadas na postagem e não comprova que os deportados fossem apoiadores de Bolsonaro ou Trump, nem que fossem oriundos de Governador Valadares.
Do sonho americano ao pesadelo da deportação
Embora Governador Valadares não integrasse o itinerário do voo, a cidade surge em 19 das 193 postagens analisadas, seja com o nome completo, seja como “GV”, “Valadólares” ou “Valadares”. Essa recorrência decorre de sua associação histórica com a migração para os Estados Unidos, uma vez que a cidade se consolidou como um dos primeiros polos brasileiros dessa emigração, desde a década de 1960 (Siqueira, 2009; Assis, 2002; Sales, 1999). Várias mensagens associam o desembarque dos deportados a um “repovoamento” da cidade. Algumas são meramente irônicas: “Repovoamento de Governador Valadares”; “Censo de Governador Valadares explodindo!”, “Governador Valadares logo terá mais população que São Paulo”, “População de Valadares voltando em peso” e “Tá. E como Governador Valadares vai suportar essa turma toda chegando?”. Nesses casos, embora haja tom de zombaria, as postagens parecem mobilizar principalmente um repertório humorístico associado à fama migratória da cidade, sem necessariamente configurar uma rejeição direta à identidade nacional.
Essa dimensão simbólica associada a determinados territórios de origem dialoga com análises que apontam como certas localidades passam a condensar representações sociais mais amplas sobre a migração, funcionando como marcadores identitários e morais no imaginário coletivo (Ribeiro, 1998). Nesse sentido, Governador Valadares opera não apenas como referência geográfica, mas como signo social que sintetiza expectativas, estigmas e narrativas sobre o migrante brasileiro. Essas representações também são atravessadas por dinâmicas contemporâneas de circulação de discursos em ambientes digitais, nos quais experiências migratórias passam a ser constantemente reinterpretadas, disputadas e ressignificadas por diferentes públicos (Silva et al., 2025).
Polarização política e discurso de ódio nas redes
Entre as postagens analisadas, várias indicam um cenário de polarização política, com o uso de termos como “bolsominions” e “trumpistas”. Comentários como “O vôo tá cheio de bolsominion e torcedores de trump kkkk” e “Primeira carrada de vira latas bolsominions/trumpistas chegando… o carnaval de Governador Valadares promete?” sugerem que o retorno desses imigrantes é convertido em motivo de escárnio por usuários que os associam a Jair Bolsonaro ou Donald Trump.
Nunes e Traumann (2023) analisam a polarização no Brasil como um processo em que a política deixa de ser apenas disputa de projetos e passa a operar como marcador identitário. Segundo os autores, “a posição política passou a ser parte da identidade de cada um e o seu diferencial em relação ao outro” (Nunes, Traumann, 2023, p. 14). Nesse contexto, parte das postagens reinterpreta a deportação como consequência de escolhas ideológicas atribuídas aos próprios deportados, como ocorre em “E aposto que apoiaram o Trump” ou “Cadê o Eduardo Bolsonaro, Carla Zambelli, Nikolas Ferreira pra ajudar essa turma...”.
Essa dinâmica também pode ser lida à luz de Santos (2016), para quem o discurso de ódio nas redes sociais se vale da linguagem e da comunicação para expor e estigmatizar sujeitos ou grupos, produzindo violência simbólica e visibilidade para quem agride. Perguntas como “Desceram fazendo a dancinha do Trump?” não funcionam apenas como sarcasmo político: elas deslocam a deportação do campo da vulnerabilidade migratória para o da punição moral, demarcando fronteiras entre “nós” e “eles”. Como sugerem Siqueira et al. (2025), a circulação de narrativas sobre migração em ambientes digitais tende a simplificar experiências complexas em categorias binárias, como “legal” e “ilegal” ou “merecedor” e “culpado”.
Essa coexistência de enquadramentos também foi observada por Dias (2025) ao examinar as reações públicas ao mesmo voo. De um lado, o autor identifica o escárnio de quem trata a deportação como consequência legítima da violação das normas migratórias; de outro, o riso daqueles que pressupõem que os deportados apoiavam Trump e estariam sendo atingidos pela política que defenderam. Em ambos os casos, a vulnerabilidade dos deportados é convertida em punição moral e política. Como sintetiza Dias (2025, n.p.), “o riso apenas expõe a nossa indiferença com a dor do próximo”. No corpus aqui analisado, o segundo enquadramento aparece explicitamente nas referências a “bolsominions” e “trumpistas”; o primeiro manifesta-se na moralização da irregularidade, embora não seja possível atribuir com segurança uma orientação política aos usuários que o mobilizam.
Em síntese, embora 14% (27 de 193) dos comentários tenham sido associados, no cenário multicategórico, a indícios de desqualificação interna, esses casos devem ser interpretados com cautela. Mais do que evidenciar rejeição homogênea à identidade nacional, os dados indicam disputas simbólicas nas quais critérios políticos, sociais e morais são mobilizados para avaliar e classificar os deportados.
Considerações finais
Este estudo analisou manifestações discursivas no X diante da chegada de 88 brasileiros deportados dos Estados Unidos a Manaus, em 24 de janeiro de 2025. A análise qualitativa de 193 postagens em resposta à reportagem do G1 revelou um cenário marcado por julgamento moral, polarização política e disputas simbólicas sobre pertencimento.
Os resultados indicam que as reações extrapolam o debate migratório. A deportação foi frequentemente interpretada por meio da moralização da ilegalidade, da responsabilização individual e de clivagens políticas. Há manifestações que podem ser lidas como indícios de desqualificação interna, mas elas aparecem de modo situado, articuladas a classificações de classe, origem regional, trajetória migratória e posição ideológica produzidas nas próprias postagens. Por isso, a categoria endofobia deve ser usada com prudência: no corpus, ela funciona melhor como chave auxiliar para compreender certas formas de desprezo intragrupo do que como explicação total do fenômeno.
A polarização política foi decisiva. Muitos comentários associaram os deportados a “bolsominions” ou “trumpistas”, convertendo a deportação em consequência supostamente merecida de escolhas ideológicas. Essa leitura confirma a análise de Nunes e Traumann (2023) sobre a política como marcador identitário no Brasil contemporâneo e mostra como o sofrimento migrante pode ser reinterpretado como punição simbólica.
A recorrência de Governador Valadares evidenciou a força dos imaginários regionais da migração brasileira. A cidade aparece como signo do “sonho americano” e de seu fracasso, ativando piadas, estigmas e classificações sociais. À luz de Ribeiro (1998), Margolis (2008), Siqueira et al. (2025), Silva et al. (2025) e Pinto e Siqueira (2018), o caso reforça que experiências migratórias envolvem deslocamentos físicos, mas também disputas simbólicas, morais e políticas nos contextos de origem e destino.
Metodologicamente, a abordagem qualitativa permitiu captar nuances que uma análise apenas quantitativa não alcançaria, mas o recorte em respostas a uma única postagem do G1 impede generalizações amplas. O estudo tampouco acompanha a circulação e a eventual remoção dos comentários, a mediação algorítmica, o perfil dos usuários ou a autenticidade das contas, incluindo indícios de automação. Pesquisas futuras podem ampliar o corpus para outros veículos, plataformas e episódios de deportação, realizar coletas longitudinais e contrastar os discursos publicados com relatos de pessoas deportadas.
Em síntese, o principal achado não é uma rejeição homogênea dos brasileiros contra brasileiros, mas a forma como deportação, política e redes sociais reconfiguram fronteiras internas de pertencimento. Em contextos de alta visibilidade midiática, o migrante deportado pode ser transformado em objeto de disputa moral, marcador político e alvo de exclusão simbólica. Diante disso, o artigo se posiciona contra a conversão da situação migratória irregular, da origem regional ou de uma orientação política presumida em justificativas para inferiorização e desumanização. A crítica ao descumprimento de normas migratórias não elimina a dignidade nem os direitos dos sujeitos. Distinguindo críticas situacionais de ataques identitários, a análise oferece critérios para reconhecer e problematizar discursos estigmatizantes no debate público. Esse enfrentamento demanda narrativas jornalísticas e ações de educação midiática que contextualizem políticas e trajetórias migratórias, evitem reduzir as pessoas à sua situação documental e ampliem a presença das vozes dos próprios deportados.
Declaração de Disponibilidade de Dados
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É o método de transmitir conteúdos, como áudio, vídeo ou mensagens, de um emissor para um grande número de receptores ao mesmo tempo.
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Empresa estadunidense de análise e medição de mídia que fornece dados e análises para empresas, agências de publicidade e editoras.
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Editores de Seção
Roberto Marinuccihttps://orcid.org/0000-0002-2042-2628Barbara Marciano Marqueshttps://orcid.org/0000-0003-0835-2441
