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Payasos Sin Fronteras: considerando as populações refugiadas

Payasos Sin Fronteras: considering refugee populations

Resumo:

Os Payasos Sin Fronteras atuam em campos de refugiados e outros cenários marcados por conflitos e violências, recorrendo à palhaçaria e ao lúdico como estratégias para defender os direitos humanos e agir diretamente sobre situações de vulnerabilidade social. O presente texto almeja explorar o papel da arte na promoção de uma melhor qualidade de vida para pessoas nessas situações, a partir da atuação dos Payasos Sin Fronteras junto às populações refugiadas. Para tanto, realiza-se uma revisão bibliográfica de caráter exploratória e descritiva para auxiliar na compreensão do estudo de caso, articulando literaturas sobre refúgio e comicidade com a dimensão prática - cujas principais fontes são relatórios e publicações da organização. Verifica-se nesse debate que a função social do riso instrumentalizada pelos PSF contribui com a promoção da resiliência das populações refugiadas, fortalecendo uma perspectiva de “consideração” sobre a sua situação de vulnerabilidade, isto é, de observação atenta, aproximação e construção de possibilidades e alternativas de existência.

Palavras-chave:
Payasos Sin Fronteras; arte; populações refugiadas; infância

Abstract:

Payasos Sin Fronteras works in refugee camps and other settings marked by conflict and violence, resorting to ludic activities and clowning as strategies to defend human rights and act directly on situations of social vulnerability. This text aims to explore the role of art in promoting a better quality of life for people in these situations, based on the work of Payasos Sin Fronteras with refugee populations. To this end, an exploratory and descriptive bibliographical review is carried out to assist in the understanding of the case study, articulating literature on refuge and comicity with the practical dimension - whose main sources are the organization's reports and publications. It is verified in this debate that the social function of laughter instrumentalized by the PSF contributes to the promotion of the resilience of refugee populations, strengthening a perspective of "consideration" about their situation of vulnerability, that is, of attentive observation, approximation and construction of possibilities and existence alternatives.

Keywords:
Payasos Sin Fronteras; art; refugee populations; infancy

Introdução

Os Payasos Sin Fronteras (PSF) são uma organização não governamental sem fins lucrativos, fundada em 1993 na Catalunha com o intuito de melhorar a situação emocional da infância em situação de vulnerabilidade social por consequência de conflitos armados, guerras, desastres ambientais. Portanto, o principal público-alvo dessa entidade são crianças afetadas por esses eventos, geralmente em condição de refúgio e deslocamento forçado (PSF, 2023aPSF - PAYASOS SIN FRONTERAS. Orígenes de PSF. Barcelona: PSF, 2023a. Disponível em: Disponível em: https://www.clowns.org/pagina-basica/origenes-de-psf . Acesso em: 04.06.2021.
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, 2023b______. Misión. Barcelona: PSF, 2023b. Disponível em: Disponível em: https://www.clowns.org/pagina-basica/mision . Acesso em: 04.06.2021.
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); e vale sublinhar que, conforme o próprio estatuto da organização, sua atuação é direcionada para os campos de refugiados, bem como os territórios em desenvolvimento e em situação de emergência, tanto a nível nacional (Espanha) como internacional (PSF, 2021______. Estatutos de la Asociación Payasos Sin Fronteras/Pallassos sense Fronteres. Barcelona: PSF, 2021. Disponível em: https://www.clowns.org/sites/default/files/inline-files/Estatutos%202021.pdf. Acesso em: 30.05.2023.). O trabalho da organização está amparado pelo Art. 31 da Convenção sobre os Direitos da Criança (1990), na qual são reconhecidos como direitos o descanso e o lazer, assim como o envolvimento e participação livre em atividades lúdicas, culturais e artísticas (CWBI, 2017______. Miles of Smiles: Clowns without Borders International Handbook. CWBI/UNESCO, 2017. Disponível em: Disponível em: https://www.cwb-international.org/wp-content/uploads/CWBI-handbook-Miles-Of-Smiles.pdf . Acesso em: 04.06.2021.
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).

Importa destacar que, de acordo com o Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados, pelo menos metade dos refugiados ao redor do mundo são crianças, cujas experiências envolvem o risco de abuso, exploração, negligência, entre outras formas de violência, limitando sua qualidade de vida (UNHCR, 2021UNHCR - UNITED NATIONS HIGH COMMISSIONER FOR REFUGEES. Children. Genebra: UNHCR, 2021. Disponível em: Disponível em: https://www.unhcr.org/children-49c3646c1e8.html . Acesso em: 04.06.2021.
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, 2016______. Age, Gender and Diversity - Accountability Report 2016. Genebra: UNHCR, 2016. Disponível em: Disponível em: https://www.unhcr.org/protection/women/595cdf5c7/unhcr-age-gender-diversity-accountability-report-2016.html . Acesso em: 04.06.2021.
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). A partir disso, surge o seguinte questionamento: como a performance dos PSF pode contribuir com a promoção da resiliência das crianças em condição de refúgio e deslocamento? Ou, colocado de outra maneira, como o Cômico e o riso pode aliviar o Trágico e os sofrimentos provocados por tais condições de vulnerabilidade? É, por isso, que além de explorar a atuação dos PSF, suas características e abordagens, bem como suas ações e projetos voltadas para as populações refugiadas, o trabalho também se voltará para a literatura sobre o papel do riso e da “consideração” no estímulo à resiliência em crises humanitárias. O objetivo do trabalho, portanto, é observar o papel do riso na promoção de uma melhor qualidade de vida para pessoas em situação de vulnerabilidade, a partir da atuação dos PSF junto às populações refugiadas, em especial as crianças.

Para isso, adota-se uma abordagem metodológica qualitativa de caráter reflexivista, na qual a revisão bibliográfica e pesquisa documental auxiliou no estudo da performance dos PSF na consideração das populações refugiadas. As fontes para a construção deste texto remontam aos materiais informativos e documentos produzidos e disponibilizados pela própria organização1 1 Embora o presente texto tenha sido beneficiado pela leitura e pelos comentários de um colaborador do capítulo brasileiro dos PSF, a pesquisa não possui nenhum tipo de vínculo com a organização em nível nacional ou internacional, nem contou com a realização de entrevistas com seus membros. , bem como foram selecionadas bibliografias que fundamentaram a análise sobre os PSF. Assim, o texto foi dividido em quatro seções: (i) Payasos Sin Fronteras: entre o Trágico e o Cômico; (ii) populações refugiadas em foco; (iii) rir, resistir e considerar; (iv) siderações e considerações finais. A primeira apresentará a origem e os objetivos dos PSF, explorando as concepções de Trágico e de Cômico. A seção subsequente, por sua vez, traz um breve panorama da atuação da entidade junto às populações refugiadas, enquanto que a terceira articula as perspectivas de riso, consideração e resistência. Por fim, na última seção será apresentada uma síntese dos resultados encontrados na pesquisa.

Payasos Sin Fronteras: entre o Trágico e o Cômico

O coletivo dos PSF foi registrado como uma associação no Ministério do Interior da Espanha em 1993, sendo reconhecida sua utilidade pública por ordem desta mesma instituição desde 1998. Entretanto, sua origem remonta ao final do ano de 1992, a partir da iniciativa de crianças da Escola Projecte, um Colégio de Educação Infantil e Primária (CEIP), localizado em Barcelona. Dois aspectos devem ser destacados em relação a essa iniciativa: primeiramente, essas crianças participavam de um projeto de inovação tecnológica realizado na escola, cujo foco era a comunicação temática; em segundo lugar, havia uma mobilização de entidades para a paz2 2 Moviment d’Objecció de Consciència (MOC), Servei Civil Internacional (SCI), Seminari Permanent d’Educació per la Pau (SPEP), Esplais Catalans9 e Catalunya Radio (Jesus, 2020). que usaram a tecnologia da informação como ferramenta pedagógica, articulando o estabelecimento da comunicação entre as crianças dessa escola e crianças refugiadas em Veli Joze, península de Ístria, na antiga Iugoslávia (PSF, 2023aPSF - PAYASOS SIN FRONTERAS. Orígenes de PSF. Barcelona: PSF, 2023a. Disponível em: Disponível em: https://www.clowns.org/pagina-basica/origenes-de-psf . Acesso em: 04.06.2021.
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; Jesus, 2020JESUS, Jennifer J. de. Palhaçaria humanitária: uma perspectiva decolonial sobre a experiência da ONG Palhaços sem Fronteiras . Tese de Doutorado em Teatro. Universidade do Estado de Santa Catarina, Florianópolis, 2020.).

Com base nesses estímulos, as crianças do CEIP propuseram a realização de um espetáculo no campo de refugiados em Veli Joze, objetivando promover a paz na região dos Balcãs. Para isso, elas arrecadaram os recursos e contaram com o apoio de “Elisabet, enfermeira do CEIP e irmã de Jaume Mateu Bullich, o conhecido palhaço catalão Tortell Poltrona” (Jesus, 2020JESUS, Jennifer J. de. Palhaçaria humanitária: uma perspectiva decolonial sobre a experiência da ONG Palhaços sem Fronteiras . Tese de Doutorado em Teatro. Universidade do Estado de Santa Catarina, Florianópolis, 2020., p. 61), que foi convidado para liderar a expedição - realizada em 26 de fevereiro de 1993 (PSF, 2023aPSF - PAYASOS SIN FRONTERAS. Orígenes de PSF. Barcelona: PSF, 2023a. Disponível em: Disponível em: https://www.clowns.org/pagina-basica/origenes-de-psf . Acesso em: 04.06.2021.
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). Foi nesse contexto que Tortell Poltrona fundou os PSF na Espanha, reunindo voluntários das artes cênicas, especialmente profissionais da palhaçaria, para participarem de ações e projetos humanitários em nível nacional e internacional (PSF, 2023b______. Misión. Barcelona: PSF, 2023b. Disponível em: Disponível em: https://www.clowns.org/pagina-basica/mision . Acesso em: 04.06.2021.
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). Posteriormente foram criadas seções ou, mais precisamente, capítulos internacionais dos PSF na França, Suécia, Bélgica, Irlanda, Alemanha, Estados Unidos, África do Sul e Canadá, que no ano de 2012 formaram os Clowns Without Borders International (CWBI), realizando no ano seguinte a sua Assembleia Geral - da qual surgem dois novos capítulos: Finlândia e Austrália. Atualmente somam-se mais cinco capítulos, totalizando quinze entidades federadas ao CWBI, a saber: Reino Unido, Suíça, Brasil3 3 O capítulo dos PSF no Brasil foi fundado em 2016, o primeiro na América Latina. Ver: www.palhacossemfronteiras.org.br/. , Áustria e Índia (PSF, 2023c______. Internacional. Barcelona: PSF, 2023c. Disponível em: Disponível em: https://www.clowns.org/pagina-basica/internacional . Acesso em: 20.03.2023.
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; CWBI, 2023a______. Who we are. Barcelona: CWBI, 2023a. Disponível em: Disponível em: https://www.cwb-international.org/who-we-are/ . Acesso em: 20.03.2023.
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).

O CWBI surge para alinhar seus capítulos a uma identidade comum, facilitando a comunicação e a cooperação entre eles. Seu principal objetivo é “oferecer alegria e risos para aliviar o sofrimento de todas as pessoas, especialmente crianças, que vivem em áreas de crise, incluindo campos de refugiados, zonas de conflito e territórios em situações de emergência” (CWBI, 2023a______. Who we are. Barcelona: CWBI, 2023a. Disponível em: Disponível em: https://www.cwb-international.org/who-we-are/ . Acesso em: 20.03.2023.
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, n.p.). Dentre as abordagens práticas da organização estão as performances artísticas com ênfase na palhaçaria e a realização de workshops como espaços de alívio e formação para os participantes, além de promover a articulação com organizações e artistas locais para incentivar a continuidade dessas e outras ações que deem suporte às comunidades atendidas (CWBI, 2023b______. Our work. Barcelona: CWBI, 2023b. Disponível em: https://www.cwb-international.org/our-work/. Acesso em: 04.06.2021.
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). Para apreender o potencial do riso no fomento à resiliência das populações em condição de vulnerabilidade, no entanto, faz-se necessário compreender a dimensão cômica da experiência humana.

O Cômico possui múltiplas e ambíguas formas, variando de acordo com a cultura. Em uma perspectiva cotidiana pode ser vista como uma intrusão, uma ação inesperada, que modifica a percepção da realidade de forma não convencional. Por meio do Cômico o impossível atinge, em certa medida, a experiência humana em seu cotidiano, servindo como válvula de escape ao subverter a seriedade das atividades mundanas do dia-a-dia. Nesse sentido, o Cômico se torna um “in-between game”, isto é, uma espécie de jogo de socialização que interconecta realidades concretas e imaginadas, criando e expandindo os significados do “mundo real” (Berger, 2014BERGER, Peter L. Redeeming laughter: the comic dimension of human experience. 2ª Ed. Berlim/Boston: De Gruyter, 2014.). Aqui, vale destacar uma forma de expressão cômica: a tragicomédia, uma expressão da comicidade que rompe com as fronteiras entre o Cômico e o Trágico, trabalhando através do humor a sensibilidade humana para com as situações trágicas.

Ela [a tragicomédia] não erradica qualquer mágoa ou tristeza [...], mas torna essas emoções mais suportáveis. Também como humor benigno, muitas vezes é mediado por crianças. A vibrante vitalidade das crianças é obviamente incongruente com qualquer que seja a trágica situação. A incongruência é cômica, mas também reafirma a força da vida diante de tudo que obscurece a condição humana. (Berger, 2014BERGER, Peter L. Redeeming laughter: the comic dimension of human experience. 2ª Ed. Berlim/Boston: De Gruyter, 2014., p. 110, tradução do autor)

Para além de qualquer categorização estética, o que deve ser destacado é o potencial do Cômico de jogar luz sobre a escuridão das tragédias, de aliviar e consolar em situações de extrema vulnerabilidade, de possibilitar imaginar “mundos” ou “realidades” alternativas em meio a seriedade, severidade e complexidade do mundo real. É a partir dessa capacidade de intromissão no cotidiano, na qual tristezas e alegrias interagem, que os PSF buscam estimular a resiliência perante o sofrimento. Portanto, a atuação dos PSF no campo dos direitos humanos reivindica novas concepções de cidadania e humanidade, confrontando a crueldade das fronteiras e das abordagens de tratamento das pessoas afetadas por catástrofes humanas e ambientais, como relata Carles Requena4 4 Chefe de Operações e Gerente dos PSF. :

Um refugiado, uma refugiada, um deslocado, um migrante, não é outra pessoa; somos nós, sou eu. Quando meu governo fecha as portas para as pessoas que sofrem, ele fecha as portas para mim. Eu sofro. Destrói meu conceito de coexistência e minha ideia de humanidade. Impulsionados por essa fratura vamos ao encontro de nós mesmos, como palhaços e palhaças, com mais determinação do que nunca. Recriamos espaços de felicidade, marcamos um caminho com os nossos sorrisos e com as nossas gargalhadas. Reconstruímo-nos e recuperamos a nossa unidade como seres humanos. (Requena, 2016______. Editorial: abriendo fronteras. Sonrisas Rev. de los socios y las socias de Payasos sin fronteras, n. 10, abr./set. 2016., p. 2, tradução do autor)

Essa redefinição da concepção de humanidade e cidadania se contrapõe às perspectivas dominantes, que partem da categorização das pessoas em nativas e estrangeiras dentro de um determinado território, servindo como critério para distinguir as formas de tratamento dado àquelas identificadas como pertencentes a um determinado grupo (étnico e/ou nacional, por exemplo) e àquelas que não tem sua cidadania reconhecida dentro das fronteiras em que se encontram. Isto é, cria-se uma separação entre cidadãos internos (insiders) e externos (outsiders), de acordo com uma lógica de naturalização das restrições de mobilidade, associada ao status de autorização ou desautorização dos deslocamentos humanos entre as fronteiras dos Estados-nação. Esse status é relevante para compreender uma série de práticas de discriminação em relação ao deslocamento entre fronteiras, tendo em vista a facilitação de alguns tipos de movimentos migratórios - por vezes encorajados pelos próprios governos que os recebem -, como aqueles que envolvem a mobilidade nos setores educacional, industrial, turístico, entre outros. As restrições impostas por essas práticas provocam questionamentos sobre os fundamentos que as embasam, como a influência de critérios culturais e raciais na definição das políticas migratórias nacionais (Doty, 2009DOTY, Roxanne L. Why is people’s movement restricted? In: EDKINS, Jenny; ZEHFUSS, Maja (orgs.). Global Politics: A New Introduction. 2ª Ed. London: Routledge, 2009, p. 200-219.).

Assim sendo, podem ser verificadas duas dimensões das ações humanitárias dos PSF: a promoção da resiliência e a denúncia da violação dos direitos humanos. Aliás, Berger (2014BERGER, Peter L. Redeeming laughter: the comic dimension of human experience. 2ª Ed. Berlim/Boston: De Gruyter, 2014.) reconhece que a criticidade que envolve o “sarcasmo” na palhaçaria se torna uma espécie de arma política5 5 Talvez em termos próximos a como Boal (1991) definiu a arte performática, em particular o teatro. Para Boal, a arte pode ser uma arma de dominação, assim como também pode ser uma potente arma política para a libertação e emancipação dos oprimidos, a depender de como e por quem essas manifestações são produzidas. , que seria utilizada pelos PSF para questionar os processos de securitização das políticas migratórias. Ambas as dimensões se encontram fundamentadas em uma perspectiva de ativismo social, político e cultural, caracterizado pelo desenvolvimento de projetos específicos para cada contexto em que atuam; ao mesmo tempo em que denunciam, tanto as violências que geram as crises humanitárias, como as práticas de discriminação por parte de governos e autoridades responsáveis pelo acolhimento das populações afetadas - e que consequentemente agravam a situação. É por isso que a próxima seção trará um breve panorama da atuação dos PSF junto às populações refugiadas.

Populações refugiadas em foco

Antes de explorar as ações e projetos dos PSF, destaquemos que o presente trabalho não almeja explorar o debate conceitual sobre migração forçada e/ou refúgio, mas sim apresentar uma abordagem para o acolhimento das populações nessas condições de vulnerabilidade. Não obstante, importa sublinhar que o conceito de “migração forçada” é amplo e aborda uma complexa rede de fenômenos relacionados ao deslocamento humano em razão de crises humanitárias. Esse não é um fenômeno estático, exigindo diferentes respostas a depender de sua configuração, causas, intensidade, impactos e contextualização espacial e temporal (Zetter, 2012ZETTER, Roger. Forced migration - changing trends, new response. International Organization for Migration, v. 2, n. 5, p. 5-11, 2012). Tendo em vista a complexidade das categorias que a envolvem - pessoas deslocadas, solicitantes de refúgios e retornados -, focaremos na condição de refúgio, que é uma nomenclatura adotada pela própria ONG e cuja definição pode ser encontrada na Convenção Relativa ao Estatuto dos Refugiados (complementada pela Declaração de Cartagena de 1984), referindo-se às:

[...] pessoas que tenham fugido dos seus países porque a sua vida, segurança ou liberdade tenham sido ameaçadas pela violência generalizada, a agressão estrangeira, os conflitos internos, a violação maciça dos direitos humanos ou outras circunstâncias que tenham perturbado gravemente a ordem pública. (Silva, Pacífico, 2018SILVA, Thalita M.; PACÍFICO, Andrea M. C. P. O regime internacional dos refugiados e os instrumentos de proteção jurídica em nível internacional e latino-americano. Meridiano 47 - Journal of Global Studies, v. 19, n. e19008, p. 1-18, 2018., p. 4)

A questão dos refugiados é um fenômeno histórico de dimensão global. Há, por exemplo, registros que remontam ao século XVI na Europa Ocidental, cujo processo de formação dos Estados-nacionais e as decorrentes mudanças nos regimes políticos geraram, em grande medida, a oposição popular, que culminou no deslocamento de diversas pessoas (Silva, Pacífico, 2018SILVA, Thalita M.; PACÍFICO, Andrea M. C. P. O regime internacional dos refugiados e os instrumentos de proteção jurídica em nível internacional e latino-americano. Meridiano 47 - Journal of Global Studies, v. 19, n. e19008, p. 1-18, 2018., p. 4). Atualmente, mesmo com os aparatos jurídicos nacionais e internacionais de proteção às populações refugiadas, o cenário permanece instável e apresenta diversas contradições, como no caso da América Latina. Nessa região, apesar da predominância de uma retórica de “fronteiras abertas” e da existência de diferentes sistemas de proteção dos direitos humanos, ainda pode ser observado um conjunto de práticas anti-imigrantes, assim como uma dificuldade no acesso ao reconhecimento ou implementação da Declaração de Cartagena (Jubilut, Lopes, 2018JUBILUT, Liliana L.; LOPES, Rachel de O. Forced Migration and Latin America: Peculiarities of a Peculiar Region in Refugee Protection. Archiv des Völkerrechts, v. 56, n. 2, p. 131-154, 2018.; Cantor, Barichello, 2013CANTOR, David J.; BARICHELLO, Stefania E. The Inter-American human rights system: a new model for integrating refugee and complementary protection? The International Journal of Human Rights, v. 17, n. 5-6, p. 689-706, 2013.).

Vale destacar que existem iniciativas complementares de proteção dessas populações, que partem de diferentes atores sociais - Estados, organizações internacionais, sociedade civil, etc. Isso implica reconhecer também que a performance dos PSF possui limitações fronteiriças, metodológicas, temáticas e orçamentárias para o acolhimento das populações refugiadas. Isto é, os esforços dessa organização devem ser somados a esforços coletivos de distintos atores, estatais e não-estatais. Até mesmo para superar as lacunas existentes nos regimes vigentes, pressupõe-se que a questão dos refugiados deve envolver toda a comunidade internacional, para além dos Estados e dos aparatos legais nacionais, regionais e internacionais. Levando em consideração uma perspectiva de responsabilidade compartilhada, podem ser elencadas ações humanitárias regionais e alternativas complementares de proteção, que visam reduzir os danos para os refugiados, protegendo-os e criando redes de solidariedade para seu acolhimento. Algumas dessas ações ou programas são: reassentamentos solidários, repatriação e integração local, vistos humanitários provisórios ou permanentes, concessão de cidadania, permissão de residência e de mobilidade de trabalho (Jubilut, Lopes, 2018JUBILUT, Liliana L.; LOPES, Rachel de O. Forced Migration and Latin America: Peculiarities of a Peculiar Region in Refugee Protection. Archiv des Völkerrechts, v. 56, n. 2, p. 131-154, 2018.).

Em contrapartida aos princípios de neutralidade e imparcialidade do sistema humanitário internacional moderno, os PSF assumem um compromisso normativo com a transformação da realidade das populações refugiadas, isto é, partem de uma perspectiva de que “a defesa dos direitos humanos muitas vezes significa tomar partido em uma disputa” (Ferris, 2011FERRIS, Elizabeth G. The Politics of Protection: The Limits of Humanitarian Action. Washington DC: The Brookings Institution Press, 2011., p. 40). O posicionamento crítico dos PSF em relação à condução das políticas de migração é explícito não só no campo retórico, mas em sua dimensão prática, no desenvolvimento de estratégias para ações e projetos humanitários baseados na função social e terapêutica do riso, ou seja, iniciativas pautadas pela preocupação com a saúde psicológica das pessoas em situação de vulnerabilidade. Percebe-se que a performance dos PSF na defesa dos direitos humanos nasce de sua preocupação com a promoção da paz e, por conseguinte, com a proteção dos corpos e mentes dos grupos assistidos pela organização, em contraposição ao foco dado à proteção das fronteiras nacionais em detrimento dos seres humanos (Jesus, 2020JESUS, Jennifer J. de. Palhaçaria humanitária: uma perspectiva decolonial sobre a experiência da ONG Palhaços sem Fronteiras . Tese de Doutorado em Teatro. Universidade do Estado de Santa Catarina, Florianópolis, 2020.).

Os PSF reconhecem o ato de solidariedade dos países que abrem suas fronteiras para os refugiados, como a Síria durante a crise no Iraque ou, mais recentemente, o Líbano durante a crise na Síria, que fazem isso sem contar com o apoio da comunidade internacional. O posicionamento dos PSF é orientado pela crítica ao Ocidente porque “além de não assumir suas obrigações de asilo com base no direito internacional e nos direitos humanos mais essenciais, também ignora a situação da população refugiada em todo o mundo” (Requena, 2019/2020______. Editorial: La revolución de las sonrisas no se detiene. Sonrisas Rev. de los socios y las socias de Payasos sin fronteras, n. 17, nov./mar. 2019/2020., p. 2). A crítica aos regimes dominantes e a ênfase dada aos seres humanos em condição de vulnerabilidade e marginalidade visa deslocar as narrativas centrais para possibilizar a visibilização das vozes e representações periféricas, constituindo assim uma perspectiva decolonial, que denuncia as violações dos direitos humanos oriundas das estruturas modernas de dominação das subjetividades não ocidentais. Por isso, as intervenções humanitárias devem levar em consideração a pluralidade, diversidade e complexidade das narrativas históricas e dos contextos socioculturais dos povos afetados, considerando suas experiências e conhecimentos (Jesus, 2020JESUS, Jennifer J. de. Palhaçaria humanitária: uma perspectiva decolonial sobre a experiência da ONG Palhaços sem Fronteiras . Tese de Doutorado em Teatro. Universidade do Estado de Santa Catarina, Florianópolis, 2020.). É nesse sentido que as linguagens da palhaçaria, do humor e do lúdico são adotadas pela organização, não só como “ferramenta que cria uma atmosfera aberta, aumenta a capacidade de concentração e reduz o estresse em crianças” (CWBI, 2017______. Miles of Smiles: Clowns without Borders International Handbook. CWBI/UNESCO, 2017. Disponível em: Disponível em: https://www.cwb-international.org/wp-content/uploads/CWBI-handbook-Miles-Of-Smiles.pdf . Acesso em: 04.06.2021.
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, p. 2), mas principalmente pelo potencial de empoderamento das pessoas que pensam ser invisíveis - que passam a se sentir reconhecidas como igualmente humanas.

Importa reiterar que as ações dos PSF se desdobram em quatro pontos: performances, referindo-se aos espetáculos artísticos; conexões com organizações, que parte de uma perspectiva de atuação coletiva, articulando organizações locais e internacionais; artistas locais, como importantes agentes na continuidade das ações; e resiliência por meio do riso, como principal recurso para visibilizar as comunidades atendidas (CWBI, 2023b______. Our work. Barcelona: CWBI, 2023b. Disponível em: https://www.cwb-international.org/our-work/. Acesso em: 04.06.2021.
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). De acordo com o relatório publicado em 2018, a organização contabilizou 1283 espetáculos e 945 workshops no âmbito de 101 projetos realizados, em 52 países visitados. Cerca de 283.680 pessoas, entre adultos e crianças assistiram aos espetáculos, enquanto 21.351 pessoas participaram dos workshops. Nesse mesmo ano, encerrou-se o projeto Fostering the diversity of cultural and artistic ex-pressions by supporting the networking and international cooperation between clowns and circus-related artists 6 6 Tradução do autor: “Fomentando a diversidade de expressões culturais e artísticas, apoiando a rede e a cooperação internacional entre palhaços e artistas circenses”. , que fez parte do Programa de Participação da UNESCO - organização para qual os PSF prestam serviço de consultoria desde 2015 (CWBI, 2018______. Annual Report 2018. Barcelona: CWBI, 2018. Disponível em: Disponível em: https://www.cwb-international.org/wp-content/uploads/Annual-Report-2018.pdf. Acesso em: 10.06.2021. . Acesso em: 04.06.2021.
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).

O ano de 2018 marca os 25 anos de existência dos PSF. Esse é apenas um recorte temporal para ilustrar a dimensão da atuação do grupo, uma demonstração dos mais de 1275 projetos conduzidos pelos PSF em mais de 123 países desde 1993 (CWBI, 2018______. Annual Report 2018. Barcelona: CWBI, 2018. Disponível em: Disponível em: https://www.cwb-international.org/wp-content/uploads/Annual-Report-2018.pdf. Acesso em: 10.06.2021. . Acesso em: 04.06.2021.
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). Destaquemos aqui algumas das iniciativas desenvolvidas em 2018, como o projeto voltado para os refugiados argelinos da etnia saharaui no campo Wilaya de Auserd, localizado no Saara Ocidental. Foram realizadas 19 performances nesse projeto, atingindo um público de 4.630 pessoas entre 28 de novembro e 09 de dezembro. Essa iniciativa tinha o objetivo de dar suporte emocional e psicológico à infância refugiada, mesmo objetivo do projeto implementado na Etiópia, que resultou em 16 performances com cerca de público total de 12.708 pessoas entre 15 e 30 de janeiro. Essa segunda iniciativa buscou acolher crianças refugiadas da Eritreia, Sudão e Iémen que estavam em campos de Addis Abeba e na área de Assosa (PSF, 2017/2018______. Proyectos en Benín, Burkina Faso, Colombia, Etiopía, Jordania, Líbano, Nepal y Sáhara. Sonrisas Rev. de los socios y las socias de Payasos sin fronteras, n. 13, nov./mar. 2017/2018.).

Os PSF comumente realizam parcerias estratégicas para viabilizar seus projetos e ações, estabelecendo assim arranjos colaborativos com agências governamentais e intergovernamentais, instituições privadas, organizações da sociedade civil, entre muitas outras. Toma-se como exemplo o projeto desenvolvido no Líbano, que contou com a colaboração da Unidad de Trauma Crisis y Conflictos de Barcelona (UTCCB), da Fundació Nous Cims e da Agència Catalana de Cooperació al Desenvolupament de la Generalitat de Catalunya. O objetivo dessa iniciativa era reduzir o estresse pós-traumático de crianças refugiadas sírias, culminando em mais de 64 performances para cerca de 16.706 pessoas. Esse projeto foi implementado em três expedições: a primeira entre 30 de setembro e 15 de outubro de 2017, a segunda de 6 a 18 de dezembro de 2017 e a última foi realizada entre 27 de janeiro e 12 de fevereiro de 2018 (PSF, 2017/2018______. Proyectos en Benín, Burkina Faso, Colombia, Etiopía, Jordania, Líbano, Nepal y Sáhara. Sonrisas Rev. de los socios y las socias de Payasos sin fronteras, n. 13, nov./mar. 2017/2018.). Embora o público-alvo seja as crianças refugiadas, os PSF não discriminam as pessoas que atendem aos seus espetáculos. Dentre os diversos projetos desenvolvidos, existe uma série de iniciativas voltadas para outros grupos de pessoas em situação de vulnerabilidade, como os deslocados internos em cenários de conflitos internos na Colômbia e na Ucrânia, como o trabalho voltado para o empoderamento das mulheres no Líbano ou, ainda, iniciativas de combate à desnutrição infantil nos projetos desenvolvidos em Burkina Faso (PSF, 2017/2018______. Proyectos en Benín, Burkina Faso, Colombia, Etiopía, Jordania, Líbano, Nepal y Sáhara. Sonrisas Rev. de los socios y las socias de Payasos sin fronteras, n. 13, nov./mar. 2017/2018., 2018______. Proyectos en Angola, Burkina Faso, Costa de Marfil, Líbano y Ucrania. Sonrisas Rev. de los socios y las socias de Payasos sin fronteras, n. 14, abr./out. 2018.).

O que se percebe é que, embora tenha como público-alvo as populações refugiadas (principalmente as crianças), os projetos e iniciativas dos PSF são estendidos a outros grupos socialmente vulneráveis. A partir daqui faz-se mister investigar as funcionalidades do riso, desde uma concepção social e terapêutica que serve de estratégia para estimular a resiliência desses povos. Ademais, a próxima seção buscará convergir essas fundações com a lógica de “consideração” apresentada por Macé (2018MACÉ, Marielle. Siderar, considerar: migrantes, formas de vida. Rio de Janeiro: Bazar do Tempo, 2018.), na qual se articulam noções de reflexão e agência social no entorno da questão do refúgio - com ênfase na percepção sobre a capacidade dos PSF em “considerar” as populações refugiadas.

Rir, resistir e considerar

Os Payasos Sin Fronteras sempre tiveram isso claro desde o primeiro dia em que pisaram em um campo de refugiados e puderam ver como o público recuperou a alegria de viver após seus shows, mas o mundo em que vivemos precisa ser alimentado por estatísticas e teorias científicas demonstrativas, para tornar evidente o que de alguma forma já é evidente na experiência de muitas pessoas. Agora nos encontramos no segundo momento mais importante da história dos Payasos Sin Fronteras. Tivemos que esperar 25 anos para obter provas do que considerávamos evidente; O riso cria o futuro! (Requena, 2018______. Editorial: ¡Reír crea futuro!. Sonrisas Rev. de los socios y las socias de Payasos sin fronteras, n. 14, abr./out. 2018., p. 2, tradução do autor)

A perspectiva de futuro criada pelo riso está na complementação das necessidades humanas básicas e imediatas, cujos aspectos materiais (cobertores, telhado, comida, remédios, etc.) se tornam o foco das ações humanitárias. Isto é, é uma perspectiva de agir hoje (no presente) mirando o horizonte (no futuro), pois o impacto do riso pode ser medido e investigado na construção de bases sólidas para a recuperação e desenvolvimento emocional e psicológico das crianças; uma forma de ajuda-las a criar as condições necessárias para lidar com seus traumas, estimulando-as a ver o caráter transitório de sua realidade e imaginar futuros alternativos menos conflituosos. Essas são as evidências coletadas por investigações sobre uma longa trajetória de fomento à resiliência por meio do riso, do humor, da comicidade (Requena, 2018______. Editorial: ¡Reír crea futuro!. Sonrisas Rev. de los socios y las socias de Payasos sin fronteras, n. 14, abr./out. 2018., 2018/2019______. Editorial: Sonrisas contra el trauma de la guerra. Sonrisas Rev. de los socios y las socias de Payasos sin fronteras, n. 15, nov./mar. 2018/2019.).

Em uma síntese dos resultados dessas investigações podem ser apontados quatro contribuições dos PSF na construção da resiliência de crianças refugiadas: (i) paradoxalmente, a intrusão da comicidade impacta positivamente sobre os traumas, tratando sintomas também intrusivos, como os flashbacks 7 7 Uma experiência corporal que relembra ou reaviva episódios graves, dificultando o relaxamento ou provocando pesadelos e que, consequentemente, resultam na construção de bloqueios emocionais como mecanismos de autoproteção. ; (ii) além disso, percebeu-se que a atuação dos PSF influenciou no comportamento das crianças no ambiente escolar, ou seja, problemas emocionais e de conduta tendem a reduzir quando as crianças vão para a escola após atender às atividades dos PSF; (iii) os efeitos descritos nos pontos i e ii são ampliados quando a atuação é complementada com medidas terapêuticas, o que reforça a limitação na performance da organização e a demanda por esforços coletivos e interdisciplinares; (iv) por fim, também observou-se que a combinação entre as ações dos PSF e medidas terapêuticas contribui com a diminuição dos sintomas de depressão nas crianças (Requena, 2018/2019______. Editorial: Sonrisas contra el trauma de la guerra. Sonrisas Rev. de los socios y las socias de Payasos sin fronteras, n. 15, nov./mar. 2018/2019.).

As premissas apresentadas aqui são que, primeiro, a risada é uma expressão propriamente humana e, em segundo lugar, ela possui significado e funcionalidade social. Para tanto, tendo em vista a variação cultural do Cômico, o riso só pode ser provocado quando são encontradas interseções da vida em comum (Bergson, 1978BERGSON, Henri. O riso: ensaio sobre a significação do cômico. 2ª Ed. Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1978.). Reitera-se que a capacidade disruptiva do riso abrange também as fronteiras culturais e idiomáticas, fazendo com que essas interseções da vida em comum sejam capturadas e tornadas cognoscíveis entre os interlocutores pelas linguagens corporais, pelo compartilhamento das experiências estéticas. Isso não significa que exista uma fórmula universal para provocar o riso, nem que toda variação cultural do Cômico necessariamente será compreendida8 8 O hotxuá, por exemplo, representaria a figura do palhaço para o povo Krahô na região Norte do Brasil, mas não necessariamente sua comicidade provocará riso fora das redes de socialização desse povo. , mas parte do reconhecimento que a intencionalidade com a qual essas linguagens são exploradas possibilitam que a busca do que há em comum.

Isto posto, sublinha-se que uma das funções do riso é a socialização, na qual constrói-se uma noção de coletividade ou de pertencimento ao grupo; mesmo que o indivíduo esteja sozinho, o riso é resultado dessa noção de pertencimento, das percepções socialmente construídas em relação ao contexto ou objeto risível. Esta não é uma mera reação corporal, é uma manifestação espontânea do intelecto humano em situações absurdas que desafiam a racionalidade. Ou seja, argumenta-se que o risível está no inusitado, inesperado ou, talvez, numa espécie de quebra das expectativas (Santos, 2018SANTOS, Paulo D. B. dos. Riso e função social na filosofia de Bergson. Revista Ideação, v.1, n. 37, p. 144-153, jan./jun 2018.; Mendonça Jr., 2014MENDONÇA JR., Jorge P. O Riso e a Ordem Social: Ensaio sobre a teoria de Henri Bergson sobre o riso e o cômico. In: XIII Semana Acadêmica do PPG em Filosofia da PUCRS. Porto Alegre: EDIPUCRS, 2014. Disponível em: <https://editora.pucrs.br/anais/semanadefilosofia/XIII/13.pdf>. Acesso em: 24.06.2021.
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). Embora seja uma reação momentânea, existe um aspecto pedagógico na risada, pois, consciente ou inconscientemente, essa manifestação pode transformar supostos comportamentos nocivos, como um “gesto social” de coação ou alerta sobre os danos de certos atos/pensamentos (Bergson, 1978BERGSON, Henri. O riso: ensaio sobre a significação do cômico. 2ª Ed. Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1978.; Santos, 2018SANTOS, Paulo D. B. dos. Riso e função social na filosofia de Bergson. Revista Ideação, v.1, n. 37, p. 144-153, jan./jun 2018.).

[...] o homem que não desviou de uma pedra, tropeçou e caiu estava distraído em seus hábitos diários, automáticos assim não percebeu o obstáculo, a pedra. Desviar do obstáculo seria uma mudança no seu percurso habitual modificando com isto o movimento habitual do seu corpo a fim de não se tornar alvo de riso. Mas além da rigidez corporal, o riso, enquanto ferramenta de controle, pode também visar enquadrar indivíduos “distraídos” nos padrões sociais compartilhados. (Santos, 2018SANTOS, Paulo D. B. dos. Riso e função social na filosofia de Bergson. Revista Ideação, v.1, n. 37, p. 144-153, jan./jun 2018., p. 146)

Nesse sentido, algumas lições podem ser apreendidas desse breve panorama conceitual. A primeira delas é sua capacidade de provocar a socialização. Mesmo sem falar necessariamente o mesmo idioma dos refugiados, o palhaço usa o Cômico como linguagem para se comunicar, transmitir mensagens e se aproximar do público. Isso caracteriza a capacidade de adaptação dos PSF a diferentes públicos e cenários, buscando encontrar essas interseções da vida em comum. Toma-se como exemplo o recente contexto da pandemia de Covid-19, que atingiu diretamente o trabalho de profissionais de diferentes categorias, incluindo os profissionais do setor cultural. Nesse cenário, a organização se posicionou oficialmente sobre a necessidade de preservar a saúde das pessoas por meio de estratégias de prevenção e de diminuição da curva de contágio, como o isolamento e distanciamento social. Ao mesmo tempo, ao enfatizar a importância de zelar pela saúde mental, os PSF se reorganizaram pela noção de que “o riso é a distância mais curta entre duas pessoas” - um ideal que orientou a mobilização e reinvenção das suas formas de atuação, incluindo meios digitais e oportunidades criadas pelos Estados para a continuidade dos projetos (Requena, 2020REQUENA, Carles. Editorial: La sonrisa es la distancia más corta entre dos personas. Sonrisas Rev. de los socios y las socias de Payasos sin fronteras, n. 18, abr./set. 2020.).

Alguns dos projetos internacionais continuaram em campo (mesmo com as justificadas limitações), mas muitas iniciativas foram interrompidas por causa das restrições de acesso e locomoção. Nesse cenário de pandemia, duas iniciativas dos PSF podem ser destacadas: uma campanha de prevenção ao Covid-19 para crianças em Bobo Dioulasso (Burkina Faso); e o arranjo colaborativo com a organização libanesa Clown Me In para realizar performances para os afetados pela explosão em Beirute (Requena, 2020REQUENA, Carles. Editorial: La sonrisa es la distancia más corta entre dos personas. Sonrisas Rev. de los socios y las socias de Payasos sin fronteras, n. 18, abr./set. 2020.). O recente relatório publicado pela organização, referente às atividades do ano de 2021, apresenta uma síntese de sua adaptação e manutenção das atividades no contexto pandêmico. Os CWBI contabilizaram 950 espetáculos e 1600 workshops no âmbito de 71 projetos realizados em 41 países. Ao todo, mais de 110 mil pessoas, entre adultos e crianças assistiram aos espetáculos realizados no ano de 2021, ao passo que mais de 22 mil pessoas participaram dos workshops. Importa destacar que 8 dos 71 projetos foram arranjos colaborativos entre diferentes capítulos dos PSF, como a websérie Infinitas Peripécias (Boundless Adventures), projeto desenvolvido pelos capítulos do Brasil e dos Estados Unidos com o intuito de disseminar virtualmente metodologias utilizadas em situações de emergência (CWBI, 2022CWBI - CLOWNS WITHOUT BORDERS INTERNATIONAL. Annual Report 2021. Barcelona: CWBI, 2022. Disponível em: Disponível em: https://www.cwb-international.org/wp-content/uploads/Annual-Report-2021.pdf . Acesso em: 17.03.2023.
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).

Independentemente de serem atividades realizadas no campo de refugiados ou no campo digital, os movimentos ilustrados acima reforçam uma segunda lição a ser destacada: a possibilidade de utilização do humor e da comicidade como mecanismos que aliviam os sintomas causados por traumas, crises e conflitos. Desse modo, reconhece-se o impacto positivo do riso na saúde mental; como construção basilar para a recuperação psicológica e desenvolvimento emocional dos indivíduos em condição de vulnerabilidade e para sua resiliência. Para tanto, faz-se necessário destacar o papel da figura do palhaço, indo além de seus estereótipos:

A Palhaçaria da qual falamos é a arte do encontro, coconstruída no improviso, assim como o Psicodrama. É uma Palhaçaria marcada pelo signo do humor, do riso com o outro, em vez do riso do outro. Rita Barboza (2016) - ao falar do palhaço - afirma que o riso é singular, conectado ao “aqui e agora”; o humor está associado a uma transgressão do status quo, ou seja, do que está conservado culturalmente. A Palhaçaria é um devir, um constante processo de vir a ser em movimento; por isso, a palhaça ou o palhaço não tem como ser totalmente definido na conserva cultural das palavras. Há quem diga que responder à pergunta “O que é um palhaço?” seja mais difícil que realizar quaisquer dos incríveis números realizados sob a lona do circo. Isso porque a força dessa arte reside justamente aí - nesse ser mutante e espontâneo.

[...] A lógica da Palhaçaria é a da ingenuidade, da crueldade, da simplicidade, da empatia e da afetividade. (Bruhn et al., 2019BRUHN, Marília M.; BOSCOLO, Kim O.; BARBOZA, Rita P.; CRUZ, Lilian R. Psicologia, palhaçaria e psicodrama: construção coletiva de aprendizados e intervenções.Revista Brasileira de Psicodrama, v. 27, n. 1, p. 65-74, 2019., p. 69)

Percebe-se que a palhaçaria é um trabalho de sensibilização, recorrendo à ingenuidade, crueldade, simplicidade, empatia e afetividade como formas de se relacionar com o mundo; não por uma via estritamente racional ou como mecanismo de controle, mas como uma abordagem que expande as possibilidades de existência (Bruhn, 2019BRUHN, Marília M.; BOSCOLO, Kim O.; BARBOZA, Rita P.; CRUZ, Lilian R. Psicologia, palhaçaria e psicodrama: construção coletiva de aprendizados e intervenções.Revista Brasileira de Psicodrama, v. 27, n. 1, p. 65-74, 2019.). Essa é uma perspectiva que converge com os PSF, na qual o encontro e a conexão com as populações refugiadas se tornam espaços para a imaginação de novos mundos, novas realidades, distintas e distantes daquelas em que estão inseridos. Trata-se de um potencial subversivo ou mesmo revolucionário das práticas dominantes no tratamento das questões migratórias, que busca confrontar políticas egoístas com a generosidade, com a defesa dos direitos humanos (incluindo o direito ao asilo) e com a proteção daqueles em condição de vulnerabilidade (Requena, 2019/2020______. Editorial: La revolución de las sonrisas no se detiene. Sonrisas Rev. de los socios y las socias de Payasos sin fronteras, n. 17, nov./mar. 2019/2020.).

É possível observar a atuação dos PSF como um “[m]ovimento de consideração, isto é, de observação, atenção, delicadeza, cuidado, estima, e consequentemente de reabertura de uma relação, de uma proximidade, uma possibilidade” (Macé, 2018MACÉ, Marielle. Siderar, considerar: migrantes, formas de vida. Rio de Janeiro: Bazar do Tempo, 2018., p. 28). Em síntese, por “consideração” se compreende uma perspectiva de sensibilização, atenção e cuidado para com aquilo e aqueles em condição de vulnerabilidade. Em contraposição à “sideração”, que pressupõe a imobilidade dos corpos e dos sentidos nessas situações e, consequentemente, engessa as possibilidades de transformação das dinâmicas de relacionamento; considerar demanda reflexão cuidadosa e ação direta para transformar a realidade, com esforços para impedir a reincidências das crises humanitárias. No contexto das populações refugiadas, considerar implica refletir sobre as causas dessas crises, mas também demanda iniciativas de acolhimento que subvertam as práticas de discriminação e que impeçam a continuidade da fuga involuntária (Macé, 2018MACÉ, Marielle. Siderar, considerar: migrantes, formas de vida. Rio de Janeiro: Bazar do Tempo, 2018.).

Essa é uma forma de quebrar a lógica de “sideração”, que imobiliza perante as tragédias e os horrores do mundo. Essa perspectiva desestrutura a concepção tripartite apresentada por Bergson (1978BERGSON, Henri. O riso: ensaio sobre a significação do cômico. 2ª Ed. Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1978.), na qual o riso é uma manifestação humana, coletiva e anestésica. Humana e coletiva, sim; anestésica, não. Pois, a anestesia leva ao imobilismo. O riso ganhou relevância nessa pesquisa por ser o instrumento adotado pelos PSF para potencializar a resistência das populações refugiadas. Ou seja, não é possível conceber nos termos da presente investigação o riso como elemento anestésico; pelo contrário, o riso é abordado pelo seu potencial em recuperar os sentidos, o prazer, a ideia de movimento e a percepção de ser/estar vivo.

A consideração não é mera observação, pois reivindica a transformação da raiva e indignação em ação, reivindica a reflexão e a mobilização sobre a realidade, que não é estática - o mundo não é simplesmente o que é em razão de sua materialidade, uma vez que as siderações e considerações moldam a realidade, influenciando nas dinâmicas de relacionamento humano com a natureza e entre nós mesmos. Considerar as populações refugiadas, por exemplo, reivindica o reconhecimento das implicações ou impactos negativos das políticas de detenção e isolamento dos “indesejáveis”, bem como das restrições de mobilidade, que geram práticas de discriminação, exclusão e opressão.

Siderações e considerações finais

Nesse retorno às raízes etimológicas das palavras consideração e sideração, talvez valha a pena resgatar a expressão “agressividade”, não como a sinônimo de violência - comum na contemporaneidade -, mas como aproximação, movimento e combatividade9 9 Do latim: aggressivitas, agressio, aggredi, ad-gradi, gradus – que remete a dar um passo para frente ou caminhar em direção a algo/alguém. O sentido de atacar deriva da utilização dessa expressão em tempos de guerra, reproduzindo a ideia de avançar contra os inimigos (Muller, 2007). . A leitura da agressividade sob uma perspectiva de não violência associa-se à ideia de progredir, da coragem de romper com a passividade e se direcionar ao desconhecido (Muller, 2007MULLER, Jean-Marie. O princípio da não-violência: uma trajetória filosófica. São Paulo: Palas Athena, 2007.). Essa é uma lógica similar ou ao menos coerente com a consideração, que requer um posicionamento combativo em relação aos horrores do mundo. Do mesmo modo, considerar as crianças é subverter a atribuição do papel de não falantes (infância), ou seja, considera-las é observar atentamente suas necessidades, aproximando-se delas e reconhecendo seu potencial de agência. Isso significa que o trabalho de conscientização e sensibilização das crianças refugiadas exige a criação de espaços nos quais elas se sintam reconhecidas como seres humanos relevantes, bem como seguras para se expressarem e se desenvolverem física e psicologicamente.

É nesse sentido que a atuação dos PSF converge com abordagens que visam a melhoria da qualidade de vida das pessoas em situação de vulnerabilidade social, em particular ao implementar projetos e promover iniciativas que consideram as populações refugiadas. Centralizar as margens e abrir as possibilidades para formas de existência alternativas é um exercício de consideração. Nesse caso, os PSF buscam reduzir os danos na saúde mental dessas pessoas, instigando não só a resiliência em relação a dura realidade em que vivem, mas também providenciando as bases para que se reconheçam como pertencentes ao mundo - e, de alguma forma, valorizados nele.

O riso, o Cômico e a ludicidade oriundas das práticas de palhaçaria têm um papel fundamental na evolução históricas dos PSF e nos resultados imediatos e de longo-prazo de sua atuação em áreas de crise, incluindo campos de refugiados, mas não se restringindo a esses espaços. Os PSF apresentam um posicionamento crítico em relação às formas convencionais de lidar com as questões das fronteiras e migrações; posicionamento este fundamentado na defesa dos direitos humanos e no questionamento das práticas de discriminação e crueldade dos atores ocidentais. No entanto, a organização não se limita às críticas, pois em sua dimensão prática busca transformar sua inconformidade com o status quo em ação, isto é, em iniciativas concretas de mudança social.

Agradecimentos

O presente texto foi elaborado no âmbito de curso interdisciplinar e interdepartamental promovido pela Cátedra Sérgio Vieira de Mello (CSVM) da PUC-Rio e contou com apoio da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES) - Código de Financiamento: 001. Agradeço também ao palhaço Mancada Obom (a.k.a. Paulo Kuhlmann), colaborador dos Palhaços sem Fronteiras Brasil, pela leitura atenciosa e pelos comentários.

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  • ZETTER, Roger. Forced migration - changing trends, new response. International Organization for Migration, v. 2, n. 5, p. 5-11, 2012
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    Embora o presente texto tenha sido beneficiado pela leitura e pelos comentários de um colaborador do capítulo brasileiro dos PSF, a pesquisa não possui nenhum tipo de vínculo com a organização em nível nacional ou internacional, nem contou com a realização de entrevistas com seus membros.
  • 2
    Moviment d’Objecció de Consciència (MOC), Servei Civil Internacional (SCI), Seminari Permanent d’Educació per la Pau (SPEP), Esplais Catalans9 e Catalunya Radio (Jesus, 2020JESUS, Jennifer J. de. Palhaçaria humanitária: uma perspectiva decolonial sobre a experiência da ONG Palhaços sem Fronteiras . Tese de Doutorado em Teatro. Universidade do Estado de Santa Catarina, Florianópolis, 2020.).
  • 3
    O capítulo dos PSF no Brasil foi fundado em 2016, o primeiro na América Latina. Ver: www.palhacossemfronteiras.org.br/.
  • 4
    Chefe de Operações e Gerente dos PSF.
  • 5
    Talvez em termos próximos a como Boal (1991)BOAL, Augusto. Teatro do Oprimido e Outras Poéticas Políticas. 6ª Ed. Rio de Janeiro: Editora Civilização Brasileira, 1991. definiu a arte performática, em particular o teatro. Para Boal, a arte pode ser uma arma de dominação, assim como também pode ser uma potente arma política para a libertação e emancipação dos oprimidos, a depender de como e por quem essas manifestações são produzidas.
  • 6
    Tradução do autor: “Fomentando a diversidade de expressões culturais e artísticas, apoiando a rede e a cooperação internacional entre palhaços e artistas circenses”.
  • 7
    Uma experiência corporal que relembra ou reaviva episódios graves, dificultando o relaxamento ou provocando pesadelos e que, consequentemente, resultam na construção de bloqueios emocionais como mecanismos de autoproteção.
  • 8
    O hotxuá, por exemplo, representaria a figura do palhaço para o povo Krahô na região Norte do Brasil, mas não necessariamente sua comicidade provocará riso fora das redes de socialização desse povo.
  • 9
    Do latim: aggressivitas, agressio, aggredi, ad-gradi, gradus – que remete a dar um passo para frente ou caminhar em direção a algo/alguém. O sentido de atacar deriva da utilização dessa expressão em tempos de guerra, reproduzindo a ideia de avançar contra os inimigos (Muller, 2007MULLER, Jean-Marie. O princípio da não-violência: uma trajetória filosófica. São Paulo: Palas Athena, 2007.).

Editores do dossiê

Roberto Marinucci, Barbara Marciano Marques

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    04 Set 2023
  • Data do Fascículo
    May-Aug 2023

Histórico

  • Recebido
    21 Mar 2023
  • Aceito
    26 Maio 2023
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