Open-access O Agronegócio Paulista: caracterização e desempenho do PIB entre 2010 e 2023

São Paulo’s Agribusiness: structure and GDP performance from 2010 to 2023

Resumo

Resumo  Os objetivos do estudo foram mensurar o PIB do agronegócio de São Paulo, no período de 2010 a 2023, e avaliar o desempenho do setor. Partiu-se da construção de uma Matriz de Insumo-Produto estadual e, posteriormente, foram aplicados procedimentos de mensuração do agronegócio. Os principais resultados foram: i) em 2023, o PIB do agronegócio paulista (R$ 609,7 bilhões) correspondeu a 23,6% do agronegócio brasileiro e a 18,9% da economia estadual; ii) a característica marcante do setor é a predominância dos segmentos “fora da porteira”, inclusive no campo, com destaque para as atividades vinculadas ao capital agroindustrial; iii) o PIB do setor cresceu apenas 1,81% no período; iv) o desempenho foi influenciado pela estagnação e/ou declínio de agroindústrias com demanda atrelada ao mercado doméstico e pelo crescimento limitado da indústria sucroenergética e de suas principais atividades agrícolas: cana-de-açúcar e laranja. No curto prazo, a retomada do crescimento depende do desempenho da economia brasileira, enquanto, no médio e longo prazos, a capacidade de geração de PIB pode ser potencializada por avanços na competitividade dos setores agroindustriais. Os resultados do estudo oferecem subsídios para políticas voltadas ao fortalecimento da competitividade agroindustrial e à ampliação da capacidade de geração de valor nas cadeias do agronegócio.

Palavras-chave:
agronegócio; São Paulo; crescimento econômico; PIB


Abstract

Abstract  This study aimed to measure the Gross Domestic Product (GDP) of São Paulo’s agribusiness from 2010 to 2023 and to assess the sector’s performance. The analysis was based on the construction of a state-level Input-Output Matrix, from which agribusiness measurement procedures were applied. The main results indicate that: i) in 2023, São Paulo’s agribusiness GDP (R$ 609.7 billion) accounted for 23.6% of Brazil’s agribusiness and 18.9% of the state economy; ii) a key feature of the sector is the predominance of off-farm segments, including within primary production, with emphasis on activities linked to agro-industrial capital; iii) the sector’s GDP grew only 1.81% over the period; iv) performance was influenced by the stagnation and/or decline of agro-industries oriented toward the domestic market, as well as by the limited growth of the sugar-energy industry and its main agricultural activities, sugarcane and oranges. In the short term, growth recovery depends on the performance of the Brazilian economy, while in the medium and long term, GDP generation may be enhanced by improvements in agro-industrial competitiveness. The results provide evidence to support policies aimed at strengthening agro-industrial competitiveness and enhancing value generation across agribusiness value chains.

Keywords:
agribusiness; São Paulo; economic growth; GDP


1 Introdução

O agronegócio envolve um conjunto de atividades econômicas interligadas que se estendem desde a produção de insumos para a agropecuária até a comercialização final dos produtos agropecuários e agroindustriais (Davis & Goldberg, 1957). Nessa perspectiva, a análise da contribuição econômica do setor ultrapassa os limites da agropecuária, incorporando as atividades a montante e a jusante que compõem o sistema agroindustrial. Essa abordagem fundamenta-se na literatura que destaca a crescente inter-relação entre a agropecuária e os demais setores ao longo do processo de desenvolvimento econômico, com aumento da importância das atividades que agregam valor, antes e depois das porteiras das fazendas, frente à agropecuária em si, dentro do agronegócio (Bajan & Mrówczyńska-Kamińska, 2019; King et al., 2010; Cook & Chaddad, 2000; Furtuoso et al., 1998; Davis & Goldberg, 1957).

A relevância dessa abordagem torna-se evidente quando se compara a participação da agropecuária no valor adicionado com a contribuição ampliada do agronegócio. Em 2023, o valor adicionado pela agropecuária representou 7,1% do valor adicionado da economia (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, 2024g). Já o agronegócio respondeu por 23,5% do PIB brasileiro (Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada, 2025), explicitando a elevada agregação de valor em decorrência das inter-relações setoriais entre a agropecuária e os setores industrial (insumos e processamento) e de serviços.

O estado de São Paulo, foco do presente estudo, respondeu por cerca de 1/3 do PIB nacional em 2021 (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, 2024h). Na indústria de transformação, a participação do estado chegou a 36% do valor adicionado no Brasil em 2023 (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, 2024h). Na agropecuária, os números são menos expressivos, mas ainda relevantes, com participação de 7,8% do valor adicionado nacional no mesmo ano. Some-se a isso a capacidade exportadora do estado paulista, onde se localiza o Porto de Santos, maior porto da América Latina e estratégico no escoamento de commodities agrícolas, minerais e produtos industrializados. Sob a ótica de demanda, São Paulo concentra 22% da população brasileira (46,65 milhões), segundo as estimativas mais recentes do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (2024a). E, junto com o Distrito Federal e o Rio de Janeiro, detém 95% de sua população em áreas urbanas, em comparação com a média de 84,4% para o Brasil (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, 2025).

Em face disso, o estado de São Paulo configura-se como um recorte regional de relevância para análises sobre o agronegócio. Primeiramente, em razão de seu protagonismo econômico, o diverso e vasto parque industrial e a concentração de infraestrutura, tecnologia e capital humano no estado devem se refletir na dimensão e no perfil do agronegócio paulista, que pode diferenciar-se do padrão observado para o agregado nacional. Em segundo lugar, devido à sua escala produtiva e ao elevado potencial de agroindustrialização, o desempenho do agronegócio paulista tende a repercutir tanto nos resultados do agronegócio nacional quanto na própria economia estadual. Essa influência deve se estender ainda à oferta nacional de produtos agropecuários e agroindustriais, bem como aos preços desses bens para o consumidor final.

Considerando o contexto acima apresentado, o objetivo deste estudo foi mensurar o Produto Interno Bruto (PIB) do agronegócio do estado de São Paulo entre 2010 e 2023, com o propósito de avaliar o desempenho desse setor, determinar os principais fundamentos do comportamento observado e, a partir dessa análise, realizar proposições de políticas públicas e/ou privadas de aceleração do crescimento.

2 Fundamentação Teórica

Este estudo baseia-se no conceito de agronegócio de Davis & Goldberg (1957), em que a atividade agropecuária é considerada parte de uma estrutura econômica mais ampla, com setores relacionados a montante e a jusante. O agronegócio, conforme Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (2017), envolve quatro segmentos: a produção de insumos para a agropecuária (segmento de insumos), a própria agropecuária (segmento primário), as agroindústrias de processamento (segmento agroindustrial) e a distribuição e demais serviços necessários para que os produtos agropecuários e agroindustriais cheguem ao consumidor final (segmento de agrosserviços).

Partindo de tal estrutura conceitual, muitos estudiosos têm se dedicado à mensuração do que seria a real contribuição da agropecuária na geração de renda e dinâmica econômica. Na literatura internacional, destaca-se o estudo de Leones et al. (1994) que, seguindo Davis & Goldberg (1957), propuseram uma redefinição da agricultura nas análises interindustriais, argumentando que o impacto da atividade só é adequadamente compreendido quando considerada como parte de um sistema integrado que abrange insumos, produção e processamento. Essa perspectiva sistêmica seguiu sendo aprofundada, como feito nos estudos de King et al. (2010), que propuseram um arcabouço conceitual voltado à gestão integrada das cadeias agroalimentares, e por Cook & Chaddad (2000), que enfatizaram o papel da agroindustrialização na reorganização da economia agroalimentar global, destacando o crescente protagonismo das instituições, da inovação tecnológica e da governança nas cadeias produtivas.

A visão setorial ampliada influenciou também metodologias subsequentes de mensuração do agronegócio. Bajan & Mrówczyńska-Kamińska (2019) mediram o PIB do agronegócio para 28 países da União Europeia e encontraram que quanto maior o nível de desenvolvimento do país, menor tende a ser a participação do agronegócio no PIB, e também menor tende a ser a participação da agropecuária dentro do setor. Mais recentemente, Sesso Filho et al. (2024) agregaram uma dimensão ambiental à análise, ao proporem uma abordagem comparativa internacional que incorpora a pegada hídrica do agronegócio, evidenciando a necessidade de considerar a sustentabilidade dos recursos naturais na mensuração do PIB setorial, especialmente frente à crescente pressão por eficiência no uso da água. Em conjunto, tais estudos revelam a evolução do conceito de agronegócio como um sistema complexo e interdependente, cuja mensuração exige abordagens integradas das cadeias que se interligam à atividade agropecuária.

No Brasil, a literatura sobre o tema tem evoluído continuamente desde o trabalho pioneiro de Furtuoso et al. (1998), que estabeleceu a compreensão de segmentos interligados à agropecuária e vinculados à abordagem da Matriz Insumo-Produto (MIP) para o caso do país. Desde então, diversos estudos foram realizados com periodicidades e recortes diversos; para o Brasil, o PIB do agronegócio é estimado desde o final dos anos 1990 pelo Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea) da Universidade de São Paulo (USP) em parceria com a Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA). Além dessas contribuições, há estudos com recortes regionais, como Frainer et al. (2018) para o Mato Grosso do Sul; Araújo Neto & Costa (2005) para Pernambuco; Malafaia et al. (2021) para Goiás; e Cruz et al. (2009) para Minas Gerais, entre outros. Também há estudos focados em cadeias agropecuárias, como Malafaia et al. (2021) para a bovinocultura de corte; Cepea e Instituto Brasileiro de Floricultura (Ibraflor) para a cadeia de flores e plantas ornamentais; e Cepea e Associação Brasileira das Indústrias de Óleos Vegetais (Abiove) para a cadeia da soja e biodiesel (Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada, 2022, 2023).

Em comum, tais estudos fundamentam-se na visão de que a contribuição da agropecuária é determinada por sua interrelação com os demais setores da economia, a qual é crescente ao longo do tempo, tendo em vista que, à medida que os países se desenvolvem, aumenta a importância das atividades que agregam valor aos produtos da agropecuária, dentro do que constitui o agronegócio (Bajan & Mrówczyńska-Kamińska, 2019; King et al., 2010; Cook & Chaddad, 2000; Furtuoso et al., 1998; Leones et al., 1994).

3 Metodologia

3.1. Etapas de mensuração

Os procedimentos para a estimação da série histórica do PIB do agronegócio de São Paulo envolvem duas etapas. Na primeira etapa, o PIB é estimado para um ano base que, nesse estudo, é 2010. Na segunda etapa, adotam-se procedimentos para evolução desses números para compor a série histórica.

Na primeira etapa, foram construídos fluxos econômicos no formato de uma MIP para São Paulo. Então, foram aplicados à MIP os procedimentos descritos em Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (2017, 2021) para identificação dos segmentos do agronegócio. A construção da MIP da economia de São Paulo seguiu Guilhoto et al. (2010), Guilhoto & Sesso Filho (2010) e o System of National Accounts de 2008 (United Nations, 2009), que apresentam os procedimentos consolidados na literatura para a construção e regionalização de matrizes de insumo-produto. Para essa construção, tomaram-se como referências principais as informações das Contas Regionais para o próprio estado de São Paulo e das Tabelas de Recursos e Usos do Brasil. Para a regionalização, diversas outras pesquisas estruturais do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) também são utilizadas, como a Produção Agrícola Municipal (PAM), a Pesquisa da Pecuária Municipal (PPM) e a Produção da Extração Vegetal e da Silvicultura (PEVS) sobre a agropecuária; as Pesquisas Industriais Anuais, a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD-C) e a Pesquisa de Orçamentos Familiares (POF). Dados de outras fontes também foram utilizados, como informações do mercado de trabalho formal da Relação Anual de Informações Sociais (RAIS) e informações sobre os fluxos de comércio exterior do Sistema Oficial Comex Stat.

A MIP estimada é então utilizada como instrumento contábil para identificar as relações intersetoriais necessárias à delimitação dos segmentos do agronegócio e à adequada alocação do valor adicionado (VA) ao longo das cadeias produtivas. Seguindo Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (2017, 2021), o PIB do agronegócio foi medido pela ótica do produto, considerando-se o VA do agronegócio do estado acrescido dos impostos indiretos líquidos (IIL) – sendo o VA, por sua vez, obtido pela diferença entre o valor bruto da produção (VBP) e o consumo intermediário (CI) (Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada, 2017; Feijó et al., 2013). Como a produção de um setor é utilizada na produção de outros setores na sequência das cadeias produtivas, a abordagem do valor adicionado deve ser a utilizada para não se incorrer em dupla contagem (Feijó et al., 2013).

Na segunda etapa, a metodologia para a evolução do PIB, ao longo do tempo, baseou-se em Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (2017). Por meio de um amplo conjunto de dados sobre preços de produtos e de insumos, produção, entre outros, de instituições de pesquisa e governamentais, são criadas as evoluções de VBP e de CI dos segmentos do agronegócio. A evolução do PIB a cada ano é, então, mensurada pela diferença entre VBP e CI, mais os IIL – que evoluem proporcionalmente ao VBP na metodologia adotada.

Aplicando-se as evoluções de preços e volumes sobre os valores do PIB de 2010 estimados, foram criados alguns tipos de séries históricas. Seguindo os procedimentos descritos no System of National Accounts 2008 (United Nations, 2009) para estatísticas de contabilidade nacional, foram calculadas as séries de valores correntes e a preços do ano anterior, permitindo a obtenção de índices de volume e de preços agregados com base móvel. A partir dos procedimentos mencionados e processos baseados em Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (2017), os cálculos do PIB do agronegócio estadual resultaram nos seguintes indicadores: i) PIB-nominal, que é a medida dos valores correntes do PIB; ii) PIB-volume, medido a preços constantes e que retrata a variação apenas do volume agregado; iii) Deflator do PIB, que é o índice de preços que mede a variação do nível de preços de todos os bens e serviços incluídos no PIB; iv) Preço relativo, que é o índice obtido pela relação entre o deflator do PIB do agronegócio e o deflator do PIB nacional; e v) PIB-renda, que reflete a evolução da renda real do setor, sendo consideradas no cálculo variações do PIB-volume e dos preços relativos. As derivações matemáticas para todos esses indicadores podem ser acessadas em Barros et al. (2019).

Ressalta-se que os dados adotados oficialmente para representar a evolução das economias e dos setores, pelo IBGE e por institutos responsáveis pelas Contas Nacionais e Regionais dos demais países, dizem respeito ao PIB-volume (United Nations, 2009). Todavia, nesse estudo, optou-se por utilizar a metodologia de Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (2017), que é a adotada para a evolução do PIB do agronegócio brasileiro, a enfocar o PIB-renda – doravante denominado apenas PIB por conveniência textual. Essa decisão refletiu os objetivos analíticos do estudo, que se centravam em entender a renda do agronegócio estadual de forma mais ampla, e não apenas a evolução de sua dimensão real. De forma complementar, para se aprofundar nas variações do PIB, também são analisados os comportamentos do PIB-volume e dos preços relativos.

Ressalta-se, também que não foram realizadas análises mais aprofundadas sobre os encadeamentos estruturais da economia paulista, nem a identificação de setores-chave por meio de indicadores tradicionais da análise de insumo-produto. Embora tais instrumentos pudessem contribuir para uma análise mais detalhada das inter-relações setoriais no ano-base do cálculo, 2010, o presente estudo concentrou-se no dimensionamento do agronegócio no estado de São Paulo e na análise de sua evolução ao longo do período de 2010 a 2023. Nesse sentido, optou-se por priorizar a construção e análise da dinâmica temporal, em detrimento da incorporação de ferramentas voltadas à análise estrutural do setor em 2010.

3.2. Cálculo do PIB por segmento

O dimensionamento de cada segmento do agronegócio de São Paulo foi baseado em Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (2017, 2021, 2023). O Apêndice A detalha as atividades consideradas no agronegócio, seus respectivos códigos da CNAE 2.0 e, quando aplicável, a parcela do PIB computada no setor.

No segmento de insumos, são computadas parcelas do PIB de todas as atividades industriais (não agroindustriais), do estado de São Paulo, que produzem e vendem insumos para a agropecuária. A parcela do PIB de cada atividade incluída no agronegócio é definida de acordo com a intensidade de vinculação dessa atividade com a agropecuária, que é medida pela parcela das vendas da atividade que se destina à agropecuária frente a suas vendas totais. Essa regra não se aplica apenas a cinco atividades, entendidas como atividades exclusivamente produtoras de insumos agropecuários: alimentos para animais, fertilizantes e corretivos de solo, defensivos agrícolas, medicamentos para uso veterinário, e máquinas e equipamentos agropecuários; nesses cinco casos, todo o PIB de cada atividade é alocado nesse segmento. Ressalta-se que não são computadas, no segmento de insumos, parcelas do PIB de atividades agropecuárias, agroindustriais e de serviços, mesmo que essas realizem vendas para a agropecuária; isso porque, esses valores são computados nos respectivos segmentos.

Quanto à estimação da série histórica, o PIB do segmento de insumos foi evoluído anualmente apenas pelo comportamento do VBP, diante da dificuldade envolvida no detalhamento e acompanhamento do CI dessas indústrias. O VBP do segmento, por sua vez, evolui conforme os valores de produção das cinco atividades essencialmente produtoras de insumos exclusivos para a agropecuária supramencionadas.

No segmento primário ou agropecuário, considera-se integralmente o PIB da atividade agropecuária (atividades agrícolas, florestais, da pecuária e da pesca). A evolução do PIB desse segmento depende dos comportamentos do VBP e do CI. O VBP evoluiu, a partir de 2010, por meio de indicadores de preços e de produção de vinte e duas atividades agrícolas e seis atividades pecuárias: algodão em pluma; amendoim em casca, arroz em casca, banana; batata, café, cana-de-açúcar, cebola, feijão, goiaba, laranja, limão, mandioca, manga, milho, soja, tangerina, tomate, trigo em grão, uva, madeira em tora, lenha e carvão vegetal na agricultura; e boi gordo para corte, aves para corte, suínos, leite, ovos e pesca na pecuária. A evolução do CI refletiu os gastos com sementes, fertilizantes, defensivos, diesel e energia elétrica pela agricultura, e com rações, medicamentos veterinários, diesel e energia elétrica na pecuária.

No segmento agroindustrial, é contabilizado o PIB das indústrias processadoras das matérias-primas agropecuárias. Assim como no segmento de insumos, as indústrias que processam apenas produtos agropecuários têm seus respectivos valores de PIB alocados inteiramente no setor, a saber: fabricação de produtos alimentícios (Divisão CNAE 10), indústria de bebidas (Divisão CNAE 11), fabricação de produtos do fumo (Divisão CNAE 12), fabricação de produtos de madeira (Divisão CNAE 16), e fabricação de celulose, papel e produtos de papel (Divisão CNAE 17). Apenas para fins analíticos, são criadas parcelas que permitem uma maior abertura da indústria de produtos alimentícios.

No caso da atividade industrial que processa parcialmente matérias-primas agropecuárias, recorre-se à parcela do PIB de cada indústria que é vinculada ao processamento dos produtos agropecuários. São os seguintes casos: fabricação de produtos têxteis (61,0% da Divisão CNAE 13), confecção de artigos do vestuário e acessórios (65,0% da Divisão CNAE 14), preparação de couros e fabricação de artefatos de couro, artigos para viagem e calçados (71,5% da Divisão CNAE 15), e fabricação de móveis (70,8% da Divisão CNAE 31). Os coeficientes para desagregação dos VAs industriais foram calculados com base no VBP e no Valor da Transformação Industrial (VTI) da Pesquisa Industrial Anual (PIA) do IBGE, complementados por dados da massa salarial da Relação Anual de Informações Sociais (RAIS), e buscam estimar a parcela das matérias-primas naturais na produção das referidas indústrias.

No caso das agroindústrias, o PIB também é evoluído conforme a diferença do VBP e do CI; o primeiro é evoluído por meio de indicadores de preços e de produção. Para o preço do CI, em cada indústria, é construído um indicador de preço médio que reflete os preços da matéria-prima principal e um indicador geral de custos industriais; para o volume do CI, considera-se o próprio volume de produção da indústria.

No segmento de agrosserviços, computam-se os PIBs dos setores transporte, comércio e “demais serviços” relacionados ao agronegócio. Esse cálculo depende do uso desses serviços pelas atividades agropecuárias e agroindustriais no estado. Para mensurar o grau de vinculação das atividades de serviços da economia paulista com o agronegócio são adotados os procedimentos descritos em Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (2017), que mostra o cálculo para o agronegócio brasileiro, e Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (2021), que adapta o procedimento para o caso do cálculo para estados. Os “demais serviços” incluídos parcialmente no PIB envolvem serviços de edição; de intermediação financeira; de atividades jurídicas, contábeis, consultoria e sedes de empresas, entre outros, conforme definido em Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (2017) e detalhado no Apêndice A.

A definição da parcela do PIB das atividades de serviços, alocada no agronegócio, é dada pela proporção da demanda final de produtos agropecuários e agroindustriais produzidos em São Paulo na Demanda Final Total por Bens Domésticos (DFD) do estado, que pode ser obtida na MIP calculada. Esse procedimento é consistente com a abordagem que mensura o agronegócio a partir de inter-relações entre setores captadas pela MIP, permitindo estimar o grau de vinculação das atividades de serviços às cadeias produtivas agropecuárias, conforme presente em Furtuoso & Guilhoto (2003). Essa taxa de participação da agropecuária e da agroindústria na demanda final do estado – que expressa a relevância dos produtos dessas atividades no conjunto dos bens e serviços efetivamente demandados em São Paulo – é utilizada sob o pressuposto de que tal proporção constitui uma aproximação do peso do agronegócio na mobilização de serviços. Além disso, soma-se ao PIB dos agrosserviços o valor do PIB de serviços, calculado no segmento de insumos via parcela das vendas da atividade que se destina à agropecuária frente a suas vendas totais (Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada, 2017). Esse método de mensuração decorre da estrutura da MIP, que não permite observar diretamente, pelas dimensões do uso desses serviços, o vínculo da renda gerada por essas atividades com o agronegócio.

Em relação ao acompanhamento do PIB dos agrosserviços, aplicando a metodologia do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (2017), esse evolui conforme o desempenho dos segmentos a montante do agronegócio, utilizando os crescimentos dos valores adicionados nos segmentos de insumos, primário e agroindustrial de forma ponderada – considerando os pesos de cada um no uso de agrosserviços, dados conforme metodologia descrita no parágrafo acima.

4 Resultados e Discussão

4.1. Caracterização do agronegócio de São Paulo em 2023

O PIB do agronegócio de São Paulo somou R$ 609,7 bilhões em 2023, e sua distribuição entre os diferentes segmentos evidenciou a característica já esperada do setor paulista, que tem a maior parte da agregação de valor nos segmentos fora da porteira (Tabela 1). Os segmentos agroindustrial (33,8%) e de agrosserviços (45,8%) concentraram juntos quase 80% do valor agregado. Ressalta-se que o padrão em que os serviços realizam a maior parte da agregação de valor é similar ao observado no agronegócio brasileiro e nas economias paulista e nacional. Em 2023, o setor de serviços representou 67,4% do VA da economia brasileira (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, 2024b) e, em São Paulo, essa taxa chegou a 76,5% (Fundação Sistema Estadual de Análise de Dados, 2024).

Tabela 1
- PIB do agronegócio do estado de São Paulo e seus segmentos em 2023 (em R$ milhões correntes)

O PIB do segmento agropecuário totalizou R$ 90,2 bilhões em 2023, representando 14,8% do PIB do agronegócio em São Paulo. Esse cenário, de PIB mais elevado fora da porteira, reflete as próprias características do estado que, conforme já destacado, detém elevada renda, expressiva e urbanizada população, além de denso parque industrial. Para referência, no agronegócio brasileiro, a agropecuária representou 27,7% do PIB em 2023, mais que a agroindústria, que respondeu por 23,3% (Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada, 2025).

Em relação aos ramos agrícola e pecuário, constatam-se perfis distintos: no agrícola, destaca-se a forte presença da agroindústria, refletindo a estrutura urbano-industrial paulista e o fato de que a agroindústria de base agrícola é muito mais diversa (em comparação com a indústria pecuária); já no ramo pecuário, em comparação ao agrícola, são relativamente mais relevantes os agrosserviços e os insumos – impulsionados, respectivamente, por cadeias logísticas especializadas e pela concentração da indústria de medicamentos veterinários no estado paulista – , que respondeu por 62% do VBP nacional da indústria em 2021 (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, 2022).

As Figuras 1 e 2 apresentam, por atividades econômicas, a composição da agropecuária e a da agroindústria do estado. Como não foram calculados os PIBs individuais de todas as atividades, essa composição é baseada em VBP – útil como referência, ainda que não reflita uma relação exata com o conceito e composição do PIB.

Figura 1
- Participação das atividades agrícolas e pecuárias no VBP dos respectivos segmentos em São Paulo em 2023. Nota: As porcentagens para cada ramo somam 100%; Demais atividades (menos de 1,5% de representatividade individualmente). Fonte: resultados da pesquisa.
Figura 2
- Participação das agroindústrias agrícolas e pecuárias no valor bruto da produção dos respectivos segmentos em São Paulo em 2023 (em %). Nota: As porcentagens para cada ramo somam 100%; * Panificações, biscoitos e bolachas; Derivados do cacau, de chocolates e confeitos; Fabricação de massas alimentícias; e outros produtos alimentícios ainda não especificados; ** Essa indústria não pode ser acompanhada ao longo do tempo devido à indisponibilidade de dados, sendo o percentual do VBP reportado aquele estimado no ano-base de 2008; *** Diz respeito à parcela do processamento dessas indústrias que é de fibras naturais. Fonte: resultados da pesquisa.

A agricultura paulista, em 2023, concentrou-se principalmente na cana-de-açúcar e na laranja (Figura 1), com destaque para a primeira. Esse perfil evidencia uma especialização da pauta produtora de forma associada ao capital agroindustrial, haja vista a relevância das indústrias sucroenergética e de suco de laranja no estado e a organização industrial marcada por verticalização e integração nessas cadeias. Nessas culturas, o estado mantém posição dominante no cenário nacional, respondendo por 58% da produção brasileira de cana e 77% da de laranja em 2022. Em nível global, o Brasil lidera a produção dessas commodities, representando cerca de 35% da oferta mundial de cada produto em 2023 (Food and Agriculture Organization of the United Nations, 2024; Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, 2024e; United States Department of Agriculture, 2024).

A soja também teve destaque na agricultura paulista em 2023, sendo a terceira do ranking. Esse resultado decorreu, sobretudo, da acelerada expansão da cultura no estado, como será explicitado na próxima subseção do presente estudo. Além dessas culturas, o milho, o café, o amendoim e a madeira também apresentaram representatividade relevante na agricultura de São Paulo em 2023. O caso do amendoim merece destaque, tendo em vista que São Paulo respondeu, em 2023, por aproximadamente 90% da produção nacional do produto (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, 2024b) – principalmente, pelo fato de que a cultura é comumente usada em rotação com a cana-de-açúcar. Assim como a soja, o amendoim teve acelerado crescimento no estado no período em estudo, o que será explorado na seção 4.2.

Na pecuária, a atividade de destaque foi a bovinocultura de corte, com 46,4% do total. Mesmo com elevada participação na pecuária estadual, São Paulo representava apenas 4,5% do rebanho bovino brasileiro em 2023, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (2024b). Em contraste, o estado respondeu por 10,7% do peso de bovinos abatidos no Brasil no mesmo ano (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, 2024c). Isso ocorre devido à indústria receber tanto animais para abate quanto carne para processamento de outros estados, além de haver uma entrada importante de gado jovem apenas para confinamento e posterior abate em São Paulo.

A produção de ovos foi a segunda em importância no segmento primário pecuário em 2023, com 25,7% do total. Nessa atividade, São Paulo detém destaque como o maior produtor do Brasil, com 23,8% do total em 2023 (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, 2024f). Além de vantagens estratégicas históricas, como presença de fornecedores de insumos, acesso a grande mercado consumidor e infraestrutura especializada para armazenagem e distribuição dos ovos, o estado conta com infraestrutura industrial para o processamento de ovos em diferentes formas (líquido, em pó e pasteurizado), que atende à demanda da indústria alimentícia (Kakimoto et al., 2013).

A Figura 2 apresenta análise similar para a agroindústria. Tem-se como destaque, em 2023, a indústria sucroenergética (fabricações de açúcar e etanol), que representou 39% da agroindústria agrícola em 2023. Em linha com o que se observa com a produção canavieira, na etapa industrial, São Paulo também detém destaque nacional: em 2023, a produção paulista de açúcar representou 62% da nacional; para o etanol de cana-de-açúcar, a participação foi de 51% para o anidro e de 44% para o hidratado (Brasil, 2024a). Ressalta-se que tem sido observada uma tendência de perda de participação de São Paulo nessas indústrias, devido ao crescimento acelerado no Centro-Oeste. No açúcar, as produções brasileira e paulista são voltadas sobretudo ao mercado internacional; em 2023, 74% da produção brasileira foi exportada, com o Brasil configurando-se como maior exportador global, com 44% das exportações mundiais (United States Department of Agriculture, 2024). Já o etanol ainda é voltado ao mercado doméstico.

Em seguida, com 14,4% do total, encontra-se a indústria de outros produtos alimentícios, que agrega uma ampla combinação de produtos para fins de consumo humano. Em São Paulo, essa indústria é impulsionada por grandes empresas que atuam na panificação industrial e produção de biscoitos, torradas e bolos, comercializando seus produtos tanto no mercado interno quanto externo. A fabricação de celulose, papel e produtos de papel também deteve dimensão expressiva, com 14% de participação.

Já na pecuária, 74% esteva relacionado ao abate de animais e fabricação de produtos da carne, com destaque para o abate de bovinos, que no estado de São Paulo é caracterizado por estrutura produtiva altamente integrada, infraestrutura de transporte, parque industrial e mercado consumidor (Tirado et al., 2008). A indústria de laticínios também se destacou (Figura 2) com participação de 23,67% no PIB do segmento, resultado da elevada capacidade industrial instalada no estado, o que proporciona inovações tecnológicas em derivados lácteos e contribui para a agregação de valor ao leite cru (Gonçalves et al., 2023).

A Figura 3 sintetiza algumas participações relevantes do PIB do agronegócio de São Paulo, frente a outros agregados em 2023. O agronegócio estadual responde por parcelas significativas do nacional, sobretudo nas etapas industriais – insumos e agroindústria – e de agrosserviços; já na agropecuária, a participação de São Paulo no Brasil é menor (12,6%), mas ainda significativa. Ressalta-se que o agronegócio em São Paulo representou 18,9% do PIB total do estado, e consequentemente, 5,6% do PIB brasileiro no mesmo ano. Também merece destaque que a agroindústria respondeu por 33,7% da indústria de transformação paulista.

Figura 3
- Participação do PIB do agronegócio de São Paulo no PIB do agronegócio brasileiro e outros agregados em 2023 (em %). Nota: *No caso da comparação entre agroindústria e indústria de transformação, são comparados os valores adicionados, pois não há informação sobre PIB setorial da SEADE. Fonte: resultados da pesquisa, Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (2025) e Fundação Sistema Estadual de Análise de Dados (2024).

A caracterização do agronegócio de São Paulo, em 2023, demonstrou que o valor agregado pelo setor tem elevada dimensão, com significativas representatividades frente ao PIB do agronegócio nacional, ao do estado de São Paulo e, mesmo, ao PIB nacional. Os números calculados também evidenciaram que a agregação de valor pelo agronegócio estadual ocorre, sobretudo, através do processamento de matérias-primas agropecuárias tanto do próprio estado quanto de outras regiões do Brasil, e da prestação de serviços para distribuição de produtos e insumos ao longo da cadeia do agronegócio. Mesmo no campo, o setor paulista ainda tem em sua pauta produtiva a proeminência de atividades ligadas ao capital agroindustrial, como a cana- de-açúcar, a laranja e a engorda de bovinos.

A próxima subseção apresenta a série histórica estimada para o PIB do setor, a partir de 2010, analisando e discutindo os resultados obtidos.

4.2. Evolução do setor de 2010 a 2023

O comportamento do PIB do agronegócio paulista e seus determinantes, que culminou no resultado observado de 2023, são analisados nesta seção. A Figura 4 apresenta a evolução geral do PIB do agronegócio do estado de 2010 em diante, e como os desempenhos do volume agregado pelo setor e dos preços relativos reais influenciaram esse comportamento. Nota-se que o PIB decresceu entre 2010 e 2018, mesmo após a ascensão pontual obtida em 2016, mas voltou a crescer anualmente de 2019 em diante. Na comparação entre 2010 e 2023, o crescimento acumulado foi de 1,81%. Com esse resultado, o desempenho do agronegócio de São Paulo ficou muito aquém daquele do agronegócio brasileiro no período, que registrou crescimento de 26,3% (Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada, 2025).

Figura 4
- Evolução do PIB do agronegócio de São Paulo e seus componentes de volume e preços relativos, de 2010 a 2023 (Número-Índice 2010 = 100). Fonte: resultados da pesquisa

Verificou-se que as principais oscilações no PIB decorreram dos movimentos de preços relativos reais. Entre 2014 e 2018, o efeito do cenário de preços desfavoráveis sobre o PIB foi agravado também por queda do volume agregado, exceto em 2016 – ano marcado por alta pontual, mas expressiva, nos preços do açúcar e do etanol devido a déficits globais (Brasil, 2016). A recuperação do volume agregado ocorreu principalmente a partir de 2019, exceto em 2021, com a quebra da safra de cana-de-açúcar.

Na comparação entre 2010 e 2023, verifica-se que o modesto aumento de 1,81% no PIB decorreu do aumento de 3,4% no volume, tendo em vista uma redução de 1,6% nos preços relativos reais. Para referência, o agronegócio nacional cresceu 17,9% em volume e teve aumento de 7,2% nos seus preços relativos no mesmo período (Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada, 2025). Logo, sobretudo devido a uma expansão real (em volume) menos acelerada, a tendência geral foi de redução da participação do agronegócio de São Paulo no agronegócio brasileiro.

Para aprofundar a análise dos determinantes do desempenho do agronegócio de São Paulo, a Tabela 2 resume as variações do PIB por ramos e segmentos do setor entre 2010 e 2023, com detalhamento também dos componentes de volume e preços.

Tabela 2
– Resumo das variações do PIB por ramos e segmentos na comparação entre 2010 e 2023, com detalhamento de volume e preços relativos

Nota-se que, pela perspectiva dos segmentos do agronegócio estadual, o comportamento de relativa estabilidade do PIB na comparação entre 2010 e 2023 ocorreu em virtude do decréscimo do PIB agroindustrial (-8,29%) – que também implica menor movimentação de serviços, contribuindo para a redução do PIB dos agrosserviços (-4,03%), associado ao crescimento importante do PIB agropecuário (+55,76%) e ao avanço do PIB dos insumos (+35,18%). Na agroindústria, o desempenho negativo refletiu principalmente o ramo agrícola, enquanto a indústria de origem pecuária cresceu. Já no segmento primário, o aumento refletiu sobretudo a agricultura, dada a sua maior dimensão, embora a pecuária também tenha registrado crescimento.

Na agropecuária, os preços e volumes oscilaram anualmente sem mudança de patamar até 2019. Houve, então, um crescimento expressivo em 2020, e o PIB subiu para R$ 70 bilhões, com movimentos favoráveis dos preços e volumes. Em 2021, o volume agregado pela agropecuária recuou devido à quebra da safra da canavieira, mas os preços agropecuários subiram e contribuíram para manter o PIB no patamar de 2020. Em 2022, mesmo com uma acomodação dos preços, o volume agregado aumentou e sustentou o PIB. Um novo e expressivo aumento ocorreu em 2023, com o crescimento de preços e volumes levando o PIB agropecuário ao patamar de R$ 90 bilhões. O biênio 2020-2021 destacou-se pela valorização dos preços agrícolas em São Paulo – e no Brasil e no mundo. Dentre outros fatores, um relatório da Food and Agriculture Organization of the United Nations (2021) destaca que a alta global decorreu de rupturas nas cadeias de suprimentos durante a pandemia, aumento da demanda por alimentos e eventos climáticos adversos. No Brasil, esse movimento foi amplificado pela desvalorização cambial (próxima de 40% em 2020) e pelas políticas de transferência de renda (Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada, 2025). Já em 2023, o crescimento expressivo no PIB agropecuário paulista relacionou-se à supersafra da cana-de-açúcar. Em termos de volume, a agropecuária paulista cresceu 29% entre 2010 e 2023 – mas essa taxa esteve bem abaixo do avanço de 74% no volume da agropecuária brasileira.

Essa análise demonstrou que, mesmo no caso da agropecuária, com desempenho destacado no contexto do agronegócio de São Paulo, o avanço também respondeu em grande medida a movimentos conjunturais dos preços nos anos finais do período.

Na agroindústria, a tendência geral foi de volume em queda ou relativa estabilidade até 2021. As quedas mais acentuadas ocorreram ao longo do período recessivo no Brasil, com redução de 8% no volume da agroindústria paulista de 2014 a 2016 – no mesmo período, a indústria de transformação paulista encolheu 19,8%; e, em 2021, quando houve quebra da safra canavieira e consequentes menores produções de açúcar e de etanol. O volume agregado pela agroindústria cresceu apenas em 2022 e em 2023, recuperando parte das perdas anteriores, mas continuando em patamar inferior ao de 2010.

Ao longo do período, o PIB da agroindústria passou por intensas oscilações, que responderam principalmente aos movimentos dos preços relativos. Os preços relativos do segmento tiveram forte recuo entre 2010 e 2014; avançaram significativamente em 2015 e 2016; e recuaram novamente até 2018 – e o PIB agroindustrial teve, em 2018, o seu menor valor do período estudado, de R$ 163 bilhões. Os preços relativos do segmento aumentaram de forma relevante de 2019 a 2021, mantendo certa estabilidade em 2022 e 2023. Com esses movimentos, combinados aos do volume, o PIB da agroindústria paulista alcançou o patamar de R$ 206 bilhões em 2023 – ainda abaixo do observado em 2010, mas uma melhora importante frente aos anos anteriores. A análise temporal do comportamento desse segmento demonstrou que o PIB da agroindústria esteve suscetível às fortes oscilações de preços que, como será discutido, refletiram, em grande medida, questões climáticas ou políticas comerciais no Brasil e em outros grandes produtores de cana-de-açúcar; e, em volume, o período foi marcado predominantemente por reduções ou estagnações.

Os resultados da Tabela 2 discutidos são agregações do conjunto de atividades que compõem os segmentos e ramos do agronegócio paulista. Para uma compreensão mais detalhada setorialmente, a Figura 5 apresenta a contribuição de cada atividade para o crescimento real da agropecuária paulista, assim como os crescimentos reais de seus valores brutos da produção. Considerando essas dinâmicas, pode-se atribuir, a 10 atividades, mais de 90% do avanço da agropecuária do estado no período.

Figura 5
- Contribuição das atividades individuais para o crescimento do VBP da agropecuária paulista entre 2010 e 2023 e crescimentos acumulado e anual, ambos reais, do VBP. Fonte: resultados da pesquisa.

Devido à elevada dimensão da cultura canavieira no estado, identificou-se que 36,6% do crescimento do VBP do segmento foi atribuído ao avanço da cultura. Algo semelhante ocorreu nos casos do boi gordo e da laranja – com contribuições individuais elevadas sobretudo devido às grandes dimensões, embora sem um crescimento destacado de VBP. Já a cultura da soja, embora menos representativa, cresceu expressivos 12,1% ao ano, contribuindo com cerca de 18%. Para os ovos (alta de 7,7% a.a.), a contribuição chegou a 9,6%. E para o amendoim, que cresceu relevantes 16,2% ao ano, a contribuição foi estimada em 5,3%.

Então, a cana-de-açúcar, a laranja e o boi gordo, atividades vinculadas ao capital agroindustrial do estado, mantiveram-se como principais geradores de valor de produção. Mas, além dessas três atividades que, juntas, representaram, em média, 60% do VBP da agropecuária de 2010 a 2023, ganharam participação no total: soja (de 2,6% para 7,8%), ovos (de 2,9% para 5,1%) e amendoim (de 0,4% para 2%).

O VBP da cana-de-açúcar (+2,8% a.a.) foi impulsionado principalmente pela valorização dos preços, já que o volume permaneceu estagnado em sua tendência geral. A produção de 2023, excepcional devido às condições climáticas favoráveis e aos investimentos na renovação dos canaviais (Brasil, 2024a), mascarou essa tendência geral de estagnação e culminou em avanço de 6% no acumulado entre 2010 e 2023. Essa trajetória geral refletiu a redução da área plantada e os efeitos da crise no setor sucroenergético, que envolveu, dentre outros fatores, endividamento em dólar, quedas diversas dos preços internacionais do açúcar, congelamento dos preços dos combustíveis (2011-2015) e redução da produtividade agrícola devido ao clima e à queda nos investimentos (Santos & Sampaio, 2024). Em valores, os preços da cana-de-açúcar só apresentaram alta significativa nos anos finais do período; a exceção foi 2016, quando os preços subiram devido ao déficit global de açúcar e à valorização do etanol (Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada, 2024). No geral, as altas mais expressivas ocorreram quando os preços internacionais do açúcar aumentavam, como reflexo de problemas climáticos em grandes países produtores (Brasil, 2016; Food and Agriculture Organization of the United Nations, 2017).

Para a laranja, a produção paulista reduziu 17% de 2010 a 2023, sobretudo entre 2011 e 2015, devido à disseminação severa do greening (Fundo de Defesa da Citricultura, 2024). O desestímulo à cultura da laranja foi reforçado por preços baixos em vários subperíodos – momentos em que, em geral, a demanda internacional pelo suco ficava estagnada (Silva et al., 2018). Todavia, com a aceleração dos preços, de 2020 em diante, devido a problemas climáticos e com pragas no Brasil, Estados Unidos e Espanha (Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada, 2024); em 2023, o preço da laranja esteve em patamar real 49% superior ao de 2010, o que explica o crescimento do VBP, de 1,7% ao ano (Figura 5). Logo, o avanço reportado é conjuntural e não estrutural.

O cenário de produção estagnada ou em queda muda para a soja e o amendoim. A análise do comportamento dessas culturas no estado demonstrou que o VBP foi impulsionado principalmente pelas fortes expansões de produção. Diferentemente da cana-de-açúcar e da laranja, que tradicionalmente são destaques na agricultura paulista, a soja e o amendoim apresentam menor vínculo com a agroindústria estadual.

Para a soja, a produção no estado cresceu 210%, sobretudo de 2012 em diante e na região Sudoeste paulista, que tem clima propício ao cultivo (Brasil, 2024b). Embora São Paulo não fosse tradicionalmente associado ao cultivo de soja, o principal motivo da expansão da área estaria na sua maior rentabilidade e liquidez comparativamente às outras commodities, em especial a cana-de-açúcar – em um cenário de crescente demanda internacional – especialmente da China, e firme consumo interno de seus derivados, como farelo para ração animal e óleo para fins comestíveis e energéticos (Zeferino & Martins, 2020). Os preços da oleaginosa também subiram expressivamente de 2020 a 2022 e, em 2023, estavam em patamar real 42% superior ao de 2010, refletindo, entre outros fatores, a desvalorização cambial do Real e as fortes demandas externa e doméstica do período.

Para o amendoim, o avanço da produção paulista foi de importantes 362% no período, com o preço aumentando 52% em termos reais. Segundo o MAPA (Brasil, 2024c), enquanto há dez anos essa cultura era rústica e informal, atualmente predomina o uso de sementes certificadas de categoria superior, o que garantiu importante evolução para a cultura, de forma a atender à crescente e exigente demanda externa. Cerca de 70% da produção é atualmente exportada, especialmente para a União Europeia e, mais recentemente, para a China (Brasil, 2024b; Sampaio, 2016).

Logo, as duas principais atividades agrícolas do estado de São Paulo, cana e laranja, não avançaram em termos de produção no período devido a crises diversas. Entre 2010 e 2023, houve crescimento real do VBP para as culturas, mas esse refletiu quase exclusivamente a valorização de preços registrada de 2020 em diante – reflexo, principalmente, de problemas de oferta. Para a soja e o amendoim, que exerceram influência positiva significativa sobre a dinâmica da agricultura paulista no período, o efeito da valorização dos preços de 2020 em diante também existiu. Mas, os fatores determinantes do desempenho foram as aceleradas expansões da produção, influenciadas pela forte demanda, sobretudo externa.

Para a pecuária paulista, a análise individual explicitou o efeito da Peste Suína Africana (PSA) chinesa sobre os mercados, com aumento dos preços do boi gordo, suíno, frango para corte, e ovos a partir de 2019. No caso do boi gordo, também houve crescimento da produção paulista, sobretudo após 2019, como provável resultado do aumento dos preços; entre 2010 e 2023, a produção aumentou 19% (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, 2024b). No caso dos ovos, a produção paulista cresceu consistentemente ao longo do período, com pequenas quedas de 2021 em diante – no acumulado de 2010 a 2023, aumentou 48%, destaque de crescimento no contexto da pecuária (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, 2024f). Soares & Ximenes (2022) apontam que a produção de ovos na região de Bastos-SP (maior produtor nacional) tem crescido para acompanhar a demanda em expansão, reflexo tanto da busca por uma dieta mais saudável por parte da população, quanto do fato de ser uma fonte de proteína mais barata.

Ao contrário, para o leite cru, a produção paulista ficou estagnada no período (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, 2024d), tal que o aumento real do VBP decorreu do crescimento de 51% dos preços reais. Esse cenário para a produção refletiu principalmente na saída de produtores diante da elevação dos custos, redução de investimentos no setor e choques climáticos e de mercado ocorridos a partir de 2020 (Silva, 2023); a combinação desses fatores comprometeu a expansão física da produção, apesar da valorização dos preços. As altas mais expressivas de preços, assim como para grande parte dos produtos agropecuários analisados, ocorreram de 2020 em diante, devido a irregularidades climáticas, choques de demanda, com destaque para o período do auxílio emergencial, e choques negativos de oferta devido aos fatores supramencionados (Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada, 2024).

A Figura 6 apresenta análise análoga para o segmento agroindustrial. Ressalta-se que a indústria de transformação, setor que engloba a agroindústria, esteve entre as mais afetadas pela recessão econômica de 2014 a 2016, e foi também prejudicada pelas medidas relacionadas à Covid-19. Durante a recessão brasileira de 2014 a 2016, o PIB nacional reduziu 6,24% e o paulista caiu 8,31%; o PIB da indústria de transformação paulista reduziu 19,8% ao longo de 2014, 2015 e 2016 (Fundação Sistema Estadual de Análise de Dados, 2024); no contexto da Covid-19, as economias brasileira e paulista recuaram em 2020, pouco mais de 3% cada, com redução mais acentuada do conjunto da indústria de transformação. Nesse cenário, como mostra a Figura 6, o VBP agroindustrial teve crescimento real de apenas 4,5%1 no período (0,3% ao ano). Entre as indústrias de maior peso no estado, a sucroenergética e a de outros produtos alimentícios apresentaram crescimentos bastante superiores ao médio e tiveram contribuições positivas relevantes. Já a indústria de celulose e papel, que está entre as principais do estado, teve redução real no VBP. Ademais, a fabricação de bebidas, a de artigos do vestuário e de couro e calçados, bem como a de móveis também apresentaram redução real de VBP; os piores desempenhos foram observados no âmbito dos vestuários e calçados. Por outro lado, o destaque relativo da indústria pecuária de abate e fabricação de produtos da carne e pescados também é explicitado.

Figura 6
- Contribuição das atividades individuais para o crescimento do VBP da agroindústria paulista entre 2010 e 2023 e crescimentos acumulado e anual reais do VBP. Nota: * Panificações, biscoitos e bolachas; Derivados do cacau, de chocolates e confeitos; Fabricação de massas alimentícias; e outros produtos alimentícios ainda não especificados; ** Essa indústria não pode ser acompanhada ao longo do tempo devido à indisponibilidade de dados, sendo o percentual do VBP reportado aquele estimado no ano-base de 2008; *** Diz respeito à parcela do processamento dessas indústrias que é de fibras naturais. Fonte: resultados da pesquisa.

As produções de açúcar e de etanol variaram conforme os preços e a safra de cana, sem tendência clara no período. Entre 2010 e 2023, o açúcar se destacou apenas pelo recorde de 2023 (crescimento de 17,3% no VBP), já que, até 2022, seu valor estava 12% abaixo de 2010. Em 2023, os preços subiram devido à alta demanda internacional, escassez em outros países (Índia, Tailândia, UE) e priorização do etanol (Organization for Economic Co-operation and Development, 2023). Antes disso, os preços reais ficaram abaixo de 2010, com aumento significativo pontual apenas em 2016. As quedas entre 2010 e 2019 refletiram excesso de oferta global, influenciado, entre outros fatores, por subsídios nos países exportadores (Araújo & Araújo Sobrinho, 2020). No caso do etanol, o valor real da produção de etanol caiu 2,7%, mesmo com preços 9% acima de 2010, devido à redução de 11% na produção; embora o etanol tenha superado o açúcar se tomado como referência 2021 ou 2022, sua rentabilidade recuou, em 2023, com a queda dos preços (Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada, 2024). Ao contrário do açúcar, o preço do etanol manteve-se, em geral, acima do patamar de 2010, apesar de ter havido períodos de quedas significativas, especialmente entre 2011 e 2015, quando o congelamento dos preços da gasolina prejudicou o setor. Em 2016, a valorização ocorreu pela maior demanda por etanol anidro e priorização do açúcar.

Para a indústria de outros produtos alimentícios, após apresentar queda entre 2014 e 2016, o volume produzido apresentou tendência de avanço nos anos seguintes, com destaque para 2022. Embora tenha sentido a crise em menor intensidade que o restante da indústria de transformação, a indústria de fabricação de produtos alimentícios e bebidas, como um todo, também encolheu durante a recessão iniciada em 2014 (Serigati & Possamai, 2016). Por outro lado, durante a crise desencadeada pela pandemia, em 2020, essa indústria cresceu em volume e valor de produção; por se tratar de uma atividade essencial, a indústria teve que rapidamente se adaptar para adotar, rigorosamente, os protocolos de segurança e manter a produção, garantindo abastecimento (Associação Brasileira da Indústria de Alimentos, 2024). Nos dois anos seguintes, o avanço da vacinação e o retorno do setor de serviços, somados à demanda crescente por alimentos no Brasil e no mundo, impulsionaram a indústria de alimentos e bebidas no Brasil (Associação Brasileira da Indústria de Alimentos, 2024). A expansão dessa indústria, de modo geral, continuou em 2023, puxada também pela continuidade da retomada do food service e do varejo alimentar, em paralelo ao alívio dos custos industriais (Associação Brasileira da Indústria de Alimentos, 2024). Ressalta-se que, ao longo de todo o período, a produção de outros produtos alimentícios esteve acima do patamar de 2010.

A redução real do VBP da indústria de celulose e papel refletiu a consistente redução de produção de 2013 em diante; entre 2010 e 2023, a produção reduziu 9%, essa tendência refletiu a dinâmica para o papel, que representa a parcela majoritária do valor de produção da indústria. Diferentemente da celulose, que é majoritariamente exportada e depende da demanda internacional, o papel destina-se predominantemente ao mercado brasileiro (Indústria Brasileira de Árvores, 2024), e foi prejudicado pelas sucessivas crises econômicas que afetaram o país no período estudado, além da tendência já em andamento de substituição de parte dos veículos de comunicação e produtos impressos por mídias digitais e dispositivos de leitura eletrônicos (Indústria Brasileira de Árvores, 2024).

A Figura 6 também explicitou quedas importantes de VBP para as indústrias de bebidas, artigos do vestuário, fabricação de couro e calçados e fabricação de móveis de madeira. A análise individual do desempenho dessas indústrias mostrou que todas tiveram fortes quedas de produção, embora a redução tenha sido muito menos expressiva no caso da produção paulista de bebidas. Os volumes produzidos recuaram com mais intensidade, em geral, nos momentos da recessão econômica de 2014 a 2016, e após a chegada da pandemia de Covid-19, resultado similar ao geral da indústria de transformação brasileira e paulista.

Duas características que marcam essas indústrias, que apresentaram os piores desempenhos econômicos no período no contexto do agronegócio de São Paulo, são a dependência do mercado doméstico e a produção de produtos relativamente menos essenciais e de maior valor agregado (em comparação às indústrias que produzem alimentos). Segundo Franco (2020), imediatamente após a chegada da pandemia, os segmentos mais afetados da indústria de transformação foram Vestuário, Veículos Automotores e Couros e Calçados. Segundo a autora, o choque foi duplo: queda da demanda e queda da oferta devido à necessidade de fechamento de fábricas, fazendo com que esses segmentos operassem com menos de 25% da sua capacidade total em abril de 2020. A continuidade do fraco desempenho da indústria de vestuários em 2022 e 2023, conforme análise de Prado (2023), resultou em juros altos, elevado endividamento das famílias brasileiras e inflação dos preços dos artigos de vestuário no varejo. No caso do setor têxtil-vestuarista e de calçados, assim como da indústria de móveis, menciona-se também o impacto negativo sobre a produção industrial da forte competição com produtos da China, especialmente em momentos de maior valorização cambial (Brasil, 2015); também, conforme Prado (2023), a participação dos importados no consumo nacional de roupas foi de 13% em 2021, 18,5% em 2022 e 22% em 2023.

Por fim, como mostrado na Figura 6, as indústrias da pecuária, com exceção da preparação de couro e calçados de couro já mencionada, tiveram bom desempenho na comparação entre 2010 e 2023 e contribuíram positivamente para o resultado agregado do segmento agroindustrial. Essas dinâmicas foram influenciadas pela valorização dos preços das carnes, iniciada quando a demanda chinesa aumentou devido à PSA, conforme já discutido.

As análises descritas nessa seção evidenciaram o desempenho modesto do agronegócio paulista, reflexo de oscilações conjunturais de preços, crises setoriais e transformações estruturais nas cadeias produtivas. Mesmo em um contexto de crescimento da agropecuária nos anos mais recentes – impulsionado por choques positivos de preços e expansão de algumas culturas – a retração da agroindústria e a estagnação de segmentos com alta dependência do mercado doméstico limitaram o avanço do setor como um todo.

5 Conclusões

Os resultados discutidos, no presente estudo, demonstram que o agronegócio de São Paulo mantém destaque e proeminência no contexto do agronegócio nacional e da economia paulista, evidenciando sua característica mais marcante: estar baseado, sobretudo, nos segmentos “fora da porteira”. Mesmo no campo, a força do agronegócio paulista ainda esteve sobretudo nas atividades vinculadas ao capital agroindustrial: cana, laranja e bovinocultura de corte; no entanto, a soja e o amendoim, culturas mais orientadas para as exportações, ganharam importante espaço na agropecuária de São Paulo. Na agroindústria, o PIB se associou, principalmente, às indústrias sucroenergética, do abate e preparação de produtos da carne, de celulose, papel e produtos de papel e de outros produtos alimentícios; em sequência, também foram destaques as indústrias de bebidas, de moagem e fabricação de produtos amiláceos, de laticínios e do café.

Mesmo mantendo destaque em 2023, os números do PIB do agronegócio de São Paulo demonstraram pouca expansão ao longo dos últimos treze anos, embora com intensas oscilações anuais. Entre 2010 e 2023, o PIB cresceu 1,81% em termos de renda real; cabe considerar anos de excelente desempenho, como 2016 e 2023, como reflexo, principalmente, de situações pontuais ligadas ao clima que causaram picos de preços. O volume do PIB do agronegócio de São Paulo cresceu 3,4% entre 2010 e 2023, um avanço baixo, tendo em conta que, no mesmo período, o agronegócio nacional cresceu 19,1%, a economia brasileira cresceu 14,7% e a economia paulista avançou 7,7%.

A produção do agronegócio paulista foi impactada negativamente principalmente pela estagnação e/ou declínio de agroindústrias mais atreladas ao mercado doméstico, que sofreram importantes quedas de demanda diante das sucessivas crises no país no período, como as indústrias de papel, bebidas, vestuários, calçados e móveis. Além disso, a indústria do açúcar, que está entre as principais geradoras de PIB no agronegócio do estado, enfrentou, em diversos momentos, superprodução global do produto, com forte impacto negativo nos preços. No caso do etanol, o desempenho também foi prejudicado por instabilidades na política energética do país. Por fim, também se registrou baixo desempenho produtivo das principais atividades agrícolas do agronegócio estadual, com estagnação para a cana e declínio para a laranja, afetadas por crises diversas de clima, pragas e doenças, e preços pouco atrativos.

É importante ressaltar que há uma inflexão no período; de 2019 em diante, a tendência foi de crescimento, embora a taxas insuficientes para reverter o cenário anterior de queda. Na agropecuária, as principais atividades de São Paulo tiveram aumentos importantes de valor de produção a partir desse período. Na agroindústria, os preços aceleraram entre 2019 e 2021, e a produção também voltou a crescer; essa mudança de tendência refletiu uma sequência de acontecimentos, iniciando pela PSA na China, que influenciou positivamente a pecuária de 2019 em diante, dentro e fora da porteira. Somaram-se a isso alguns desdobramentos da pandemia de Covid-19, com aumentos de demanda diante do auxílio emergencial e das compras realizadas por receio de escassez e, posteriormente, com a retomada da economia e do food service, com uma demanda em certa medida represada e com fortes políticas em diversos países de estímulo ao poder de compra; a desvalorização cambial também impactou positivamente o setor exportador do agronegócio paulista. Por fim, o período também foi marcado por problemas climáticos e relacionados a pragas e doenças no Brasil e em países concorrentes de São Paulo no mercado internacional, o que reforçou a tendência altista dos preços – novamente, com impactos positivos na produção.

O presente estudo, ao fornecer uma base empírica detalhada, regionalizada e comparativa para o agronegócio paulista, contribui para ampliar o entendimento sobre o atual papel regional do agronegócio e suas dinâmicas produtivas. Sob a ótica de políticas públicas, os resultados aqui discutidos, ao permitirem identificar as principais cadeias do agronegócio paulista, bem como seus comportamentos perante cenários de choques de produção e preços, favorecem direcionamentos mais assertivos de políticas setoriais.

Em termos de perspectivas, sendo o PIB do agronegócio de São Paulo pautado em grande medida nas atividades agroindustriais; em um primeiro momento, o potencial de crescimento depende da recuperação da economia brasileira e do poder de compra da população. Nos médio e longo prazos, a capacidade de geração de valor pelo agronegócio do estado pode ser potencializada por avanços competitivos dos setores agroindustriais, os que possibilitem a exportação, assim como por avanços no campo da bioenergia, em que o estado possui vantagens competitivas, tanto devido à sua liderança na produção de cana-de-açúcar quanto a seu robusto parque industrial.

Apêndice A Classificação do agronegócio de São Paulo e coeficientes de identificação e abertura

Atividade do agronegócio Atividade da MIP % no agronegócio Aberturas adicionais Fontes
Atividade do agronegócio (CNAE 2.0) CNAE 2.0 Atividade na MIP Código MIP
SEGMENTO DE INSUMOS
Fertilizantes e corretivos de solo 2012 e 2013 Produtos químicos 0311 33,3% - PIA e RAIS
Defensivos agrícolas 2051 Defensivos agrícolas 0314 94,4% - PIA e RAIS
Alimentos para animais 1066 Beneficiamento de produtos vegetais 030126 100,0% 31,7% PIA e RAIS
Medicamentos para uso veterinário 2122 Produtos farmacêuticos 0313 6,8% - PIA e RAIS
Máquinas e equipamentos agropecuários 283 Máquinas e equipamentos, inc. manutenção 0324 8,6% - PIA e RAIS
Outros insumos* - - - - - -
SEGMENTO PRIMÁRIO (AGROPECUÁRIA)
Agricultura e floresta** 011 a 014 e 02 Agricultura, silvicultura, exploração florestal 0101 100% - -
Pecuária, pesca e aquicultura** 015, 017 e 03 Pecuária e pesca 0102 100% - -
SEGMENTO AGROINDUSTRIAL
Torrefação e moagem de café** 108 Indústria do café 030125 100% - -
Fabricação de sucos 1033 Beneficiamento de produtos vegetais 030126 100% 14,8% PIA e RAIS
Fabricação de conservas 1031 e 1032 30,3%
Moagem e prod. amiláceos (exceto rações) 106 exceto 1066 54,9%
Fabricação de óleos vegetais** 104 Fabricação de óleos vegetais 030130 100% - -
Fabricação e refino de açúcar** 107 Indústria de açúcar 030129 100% - -
Fabricação de etanol** 193 Álcool 0310 100% - -
Bebidas 111 Outros produtos alimentares 030131 100% 41,5% PIA e RAIS
Panificações, biscoitos e bolachas 1091 e 1092 18,9%
Fab. derivados do cacau, choc., confeitos 1093 11,5%
Fabricação de massas alimentícias 1094 5,4%
Fabricação de outros produtos alimentícios 1095 a 1099 22,6%
Fabricação de produtos do fumo** 12 Produtos do fumo 0302 100% - -
Fab. produtos têxteis (de fibras naturais) 13*** Têxteis 0303 61,0% - PIA
Fab. artigos do vestuário (de fibras naturais) 14*** Artigos do vestuário e acessórios 0304 65,0% - MIP 2009
Fabricação de produtos de madeira** 16 Produtos de madeira - exclusive móveis 0306 100,0% - -
Fabricação de móveis de madeira 3101 Móveis e produtos das indústrias diversas 0334 70,8% - PIA e RAIS
Fab. celulose, papel e produtos de papel** 17 Celulose e produtos de papel 0307 100% - -
Fabricação de couro e calçados de couro 15*** Artefatos de couro e calçados 0305 71,5% PIA e RAIS
Abate de bovinos 1011 Abate de animais 030127 100% 66,4% PIA, PPM e Cepea
Abate de suínos 1012 parte 5,0%
Abate de aves 1012 parte 27,1%
Fabricação de pescados 1020 1,5%
Fabricação de laticínios** 105 Indústria de laticínios 030128 100% - -
SEGMENTO DE AGROSSERVIÇOS
Agrosserviços**** - Comércio 0601 14,98% - -
Transporte, armazenagem e correio 0701 14,98% - -
Serviços de informação 0801 14,98% - -
Interm. fin., seguros e previd. complementar 0901 14,98% - -
Atividades imobiliárias e aluguéis 1001 14,98% - -
Serviços de manutenção e reparação 1101 14,98% - -
Serviços de alojamento e alimentação 1102 14,98% - -
Serviços prestados às empresas 1103 14,98% - -
Adm. pública e seguridade social 1203 14,98% - -
  • *
    Todas as atividades industriais (exceto agroindustriais) que realizam vendas para a agropecuária são computadas parcialmente no segmento de insumos, com parcelas de vinculação definidas pela participação das vendas da atividade que se destinam à agropecuária nas suas vendas totais. ** Nesses casos, não foram feitos procedimentos, com identificação direta na MIP. *** Não é possível, na estrutura da CNAE 2.0 de classes, identificar exatamente os produtos dessas indústrias que são de base natural. **** Aplica-se o coeficiente de 14,98%, sendo 14,7% referentes à parcela via DFD e 0,28% referentes à realocação do PIB dos serviços calculado no segmento de insumos.
  • Disponibilidade de dados:

    Os dados da pesquisa estão disponíveis sob consulta.

    • 1
      No caso da agroindústria, como o CI aumentou 12% em termos reais, acima do pequeno crescimento de 4,5% do VBP, o PIB decresceu 8,3% como já visto na Tabela 2.
    • Como citar:
      Castro, N. R., Fachinello, A. L., Almeida, F. M. S., & Silva, A. F. (2026). O Agronegócio Paulista: caracterização e desempenho do PIB entre 2010 e 2023. Revista de Economia e Sociologia Rural, 64, e298583. https://doi.org/10.1590/1806-9479.2026.298583
    • Suporte financeiro:
      Os resultados utilizados para elaboração do estudo fazem parte de projeto apoiado financeiramente pela Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (FIESP).
    • Aprovação do conselho de ética:
      Não se aplica.
    • Classificação JEL:
      Q11; Q13; E01.

    6 Referências

    Editado por

    • Editor associado:
      Gustavo Inácio de Moraes

    Datas de Publicação

    • Publicação nesta coleção
      17 Ago 2026
    • Data do Fascículo
      2026

    Histórico

    • Recebido
      07 Jul 2025
    • Aceito
      22 Jun 2026
    Creative Common - by 4.0
    Este é um artigo publicado em acesso aberto (Open Access) sob a licença Creative Commons Attribution (https://creativecommons.org/licenses/by/4.0/), que permite uso, distribuição e reprodução em qualquer meio, sem restrições desde que o trabalho original seja corretamente citado.
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