Resumo
Resumo Este estudo teve como objetivo identificar as variáveis que influenciam a produção da avicultura de postura no estado do Amazonas entre os anos de 2000 e 2023. Foram utilizados dados secundários obtidos junto a instituições oficiais de pesquisa e assistência técnica, abrangendo indicadores produtivos e econômicos das microrregiões do estado. O modelo econométrico adotado foi do tipo log-log com dados em painel, permitindo estimar a elasticidade da produção de ovos em relação a fatores como número de produtores ativos, rendimento produtivo, renda média per capita e preço pago ao produtor. Os resultados indicaram que o número de produtores e o rendimento produtivo apresentaram efeitos positivos e significativos sobre a produção regional, enquanto o preço médio e a renda per capita mostraram variação limitada na explicação do modelo. Conclui-se que o desempenho da avicultura de postura no Amazonas está amplamente condicionado pela eficiência técnica e pela capacidade produtiva dos estabelecimentos, reforçando a necessidade de políticas públicas e estratégias de mercado voltadas à tecnificação e ao fortalecimento da produção local.
Palavras-chave:
Amazônia; análise econométrica; avicultura; economia da produção; produção de ovos
Abstract
Abstract This study aimed to identify the variables that influence egg poultry production in the state of Amazonas between 2000 and 2023. Secondary data were obtained from official research and technical assistance institutions, covering productive and economic indicators across the state’s micro-regions. The econometric model adopted was a log-log panel data model, allowing the estimation of the elasticity of egg production in relation to factors such as the number of active producers, production yield, average per capita income, and the price paid to producers. The results indicated that the number of producers and production yield had positive and significant effects on regional output, while average price and per capita income showed limited explanatory variation in the model. It is concluded that the performance of egg poultry farming in Amazonas is strongly conditioned by the technical efficiency and productive capacity of farms, reinforcing the need for public policies and market strategies aimed at promoting technological advancement and strengthening local production.
Keywords:
Amazon; econometric analysis; poultry farming; production economics; egg production
1 Introdução
Desde a década de 1980, com o advento da globalização, a expansão dos mercados trouxe mudanças significativas no ambiente macroeconômico mundial, impulsionando a competitividade do Brasil tanto no mercado interno quanto no setor de exportações, especialmente no setor de commodities (Mishkin, 2009). Nesse cenário, as unidades federativas da Amazônia Legal, que incluem os estados de Acre, Amazonas, Amapá, Pará, Rondônia, Roraima, Tocantins e partes do Maranhão e Mato Grosso, destacam-se pela sua baixa participação no Produto Interno Bruto (PIB) nacional, contribuindo com cerca de 5 a 10% do total (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, 2022). Esse percentual é significativamente inferior aos estados das regiões Sudeste e Sul, como São Paulo, Rio de Janeiro e Rio Grande do Sul, que apresentam uma participação econômica mais expressiva (Dauvergne & Farias, 2012; Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, 2022). Apesar disso, alguns estados como Pará, Amazonas e Mato Grosso destacam-se economicamente no cenário nacional, principalmente com atividades ligadas aos setores primário e industrial (Dauvergne & Farias, 2012; Martins et al., 2020).
Dentre os segmentos do setor primário, a avicultura tem papel historicamente relevante para o desenvolvimento da Amazônia Legal, tanto por gerar empregos quanto por suprir a crescente demanda por alimentos decorrente do êxodo populacional intensificado a partir da década de 1980, sobretudo de migrantes oriundos do Nordeste (Perz, 2000; Cruz et al., 2016; Sakamoto et al., 2020; Vilgiate, 2020). Segundo dados do Censo Agropecuário de 2017 (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, 2017), a Amazônia Legal abriga aproximadamente 54,918 estabelecimentos avícolas, o que corresponde a 1,9% do total nacional, com um plantel de mais de 113 milhões de aves, representando 8,3% das aves de corte e postura do Brasil. No contexto regional, tanto o Censo Agropecuário (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, 2017) quanto a Associação Brasileira de Proteína Animal (2025) apontam que os estados do Pará, Mato Grosso e Amazonas concentram a maior parte da produção, sendo que o Amazonas registra 36,670 propriedades com mais de 4,2 milhões de aves e produção anual estimada em 42 milhões de dúzias de ovos, o que equivale a cerca de 1% da produção nacional.
Historicamente, o desenvolvimento da avicultura no Amazonas confunde-se com o próprio processo de ocupação econômica e territorial da região, impulsionado inicialmente pela economia extrativista e políticas de integração nacional (Becker, 2005). As bases da avicultura amazonense remontam ao processo de imigração japonesa ocorrido nas primeiras décadas do século XX, onde estes imigrantes contribuíram significativamente para a introdução de sistemas agrícolas intensivos e diversificados, onde a criação de aves não se restringia apenas à produção de ovos e carne, mas também ao aproveitamento do esterco aviário como fertilizante orgânico destinado ao cultivo de hortaliças, frutíferas e pimenta-do-reino, consolidando o conceito hortifrutigranjeiro (Cruz et al., 2016). A colônia japonesa no Amazonas também contribuiu para a difusão de técnicas de manejo intensivo, organização produtiva e racionalização do uso da terra, aspectos que influenciaram diretamente a formação da produção avícola local (Cruz et al., 2016).
Outro evento histórico que contribuiu para a consolidação dessa atividade no Amazonas ocorreu entre as décadas de 1960 e 1970, com a criação da Associação de Crédito e Assistência Rural do Amazonas (ACAR-AM), posteriormente incorporada à Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural do Amazonas (EMATER-AM) e que no início dos anos 2000 deu lugar ao Instituto de Desenvolvimento Agrícola e Florestal Sustentável do Estado do Amazonas (IDAM) (Cruz et al., 2016). Todas estas instituições desempenharam papel fundamental na modernização da agricultura regional e na difusão de práticas de manejo voltadas a produção anima, principalmente à avicultura, suinocultura e pecuária leiteira (Cruz et al., 2011, 2016).
Todo esse contexto histórico evidencia a capacidade de adaptação dos produtores às condições climáticas e logísticas amazônicas, somada à crescente demanda por produtos alimentícios advinda da expansão do crescimento populacional local (Cruz et al., 2016; Cavalcante et al., 2024). Contudo, os altos custos de produção associados à dependência de insumos advindos de outras regiões, os problemas de infraestrutura e logística, e o nível tecnológico deficitário na maioria dos estabelecimentos ainda representam desafios significativos para esta cadeia produtiva (Abreu Filho et al., 2025). Estudos realizados em outras regiões do Brasil demonstram que a consolidação da avicultura de postura depende fortemente da existência de cadeias logísticas eficientes e políticas de incentivo tecnológico (Silva, 2015; Tremea & Silva, 2020). Contudo, a realidade amazônica ainda apresenta singularidades ambientais, geográficas e socioeconômicas que exigem adaptações específicas às condições regionais de infraestrutura, transporte e acesso aos mercados consumidores (Cruz et al., 2021; Pereira et al., 2022).
Apesar da relevância econômica e social da avicultura na Amazônia Legal, ainda há escassez de estudos que caracterizem de forma detalhada sua cadeia produtiva e abordem suas potencialidades e limitações específicas, especialmente no contexto da avicultura de postura no estado do Amazonas (Cruz et al., 2013, 2016; Cavalcante et al., 2024). Essa lacuna está associada, em grande parte, à insuficiência de dados regionais, dificultando a formulação de políticas públicas e estratégias de desenvolvimento voltadas ao fortalecimento da competitividade e da sustentabilidade da produção local (Cabral et al., 2023; Willerding et al., 2020; Medina & Cruz, 2021). O mapeamento, refinamento e análise das informações econômicas existentes é o primeiro passo de toda cadeia produtiva para iniciar o processo de organização, estruturação e, por conseguinte, aumento da produção e exploração de novos mercados consumidores (Fernandes, 2020; Santana et al., 2020; Cabral et al., 2023), algo que já fora verificado nos estados do Acre (Machado et al., 2017) e Rondônia (Santana et al., 2020; Pereira et al., 2022).
A partir dessas considerações, o presente estudo tem como objetivo geral identificar as variáveis que afetam a produção da avicultura de postura no estado do Amazonas, considerando as particularidades produtivas e econômicas das suas microrregiões entre os anos de 2000 e 2023. Para alcançar esse objetivo, foram realizados levantamentos e análises econométricas que permitiram compreender o comportamento das principais variáveis produtivas, tais como o número de produtores ativos, o tamanho do plantel, o rendimento produtivo, a renda média per capita e o preço pago ao produtor. A relevância científica deste estudo está em sua contribuição inédita para compreender a dinâmica produtiva da avicultura de postura no Amazonas, tema ainda pouco abordado na literatura. Ao identificar os principais fatores que influenciam a produção de ovos no Amazonas, a pesquisa amplia o estado da arte sobre cadeias agropecuárias em contextos tropicais de baixa tecnologia, abordando aspectos produtivos, econômicos e institucionais sob uma ótica regional. Os resultados preenchem uma lacuna existente nos estudos nacionais, tradicionalmente focados nas regiões Sul e Sudeste, e fornecem subsídios para políticas públicas e estratégias privadas voltadas ao fortalecimento e à sustentabilidade da produção local.
2 Fundamentação Teórica
A compreensão do comportamento produtivo e econômico da avicultura de postura no Amazonas requer o suporte de uma base teórica que explique a alocação de recursos, a eficiência produtiva e as interações institucionais entre os agentes da cadeia. Para tanto, este estudo ancora-se principalmente na Teoria da Produção Neoclássica, complementada pelos aportes da Nova Teoria Institucional da Organização Industrial (NEIO). A combinação dessas abordagens permite examinar tanto as decisões microeconômicas que determinam a eficiência técnica e econômica da atividade quanto os condicionantes institucionais e estruturais que moldam as relações de mercado e os mecanismos de coordenação entre produtores, fornecedores e consumidores.
A Teoria da Produção Neoclássica constitui um dos pilares centrais da economia da produção ao investigar como as firmas transformam insumos (capital, trabalho, tecnologia e recursos naturais) em produtos, buscando maximizar a eficiência e reduzir custos (Puu et al., 1970; Georgescu-Roegen, 1972; Appelbaum, 1978). Essa teoria estabelece que as empresas operam sob o princípio da racionalidade econômica, combinando fatores produtivos de modo a obter o máximo rendimento possível para um determinado nível de tecnologia e estrutura de custos. Nesse contexto, a função de produção, usualmente expressa de forma agregada como , onde K representa o capital e L o trabalho, descreve a relação entre insumos e produto e permite mensurar a produtividade marginal dos fatores, os retornos de escala e os rendimentos decrescentes, variáveis fundamentais para entender os resultados obtidos empiricamente na cadeia produtiva de ovos do Amazonas (Vasconcellos, 2015; Carvalho, 2015; Leite, 2023).
Aplicada à realidade amazônica, essa teoria possibilita interpretar o modo como a produção de ovos é condicionada pela eficiência no uso dos recursos disponíveis. A atividade agrícola em grande parte da região amazônica é marcada por custos elevados com insumos e transporte, devido à dependência de matérias-primas importadas e à infraestrutura logística deficitária (Cruz et al., 2016; Cruz & Rufino, 2017). Assim, a busca por eficiência produtiva torna-se uma condição de sobrevivência para os produtores locais. A análise econométrica realizada neste estudo, ao considerar variáveis como tamanho do plantel, rendimento produtivo e número de produtores, reflete diretamente os princípios neoclássicos de otimização e racionalização dos fatores produtivos, conforme descrito por Pindyck e Rubinfeld (2014) e Varian (2023). Nesse sentido, produtores mais tecnificados e com maior capacidade de escala tendem a alcançar retornos crescentes, reforçando o papel da eficiência como determinante da competitividade regional.
Outro elemento-chave da Teoria da Produção diz respeito à influência da tecnologia e do conhecimento técnico na determinação da produtividade e dos custos médios de longo prazo (Alves, 2008). O avanço tecnológico, expresso em melhorias genéticas, nutrição animal e automação de processos, tende a deslocar a função de produção para níveis mais elevados de eficiência (Leite, 2023). No caso da avicultura amazonense, a adoção gradual de tecnologias adaptadas às condições tropicais e que consigam superar às limitações logísticas aproveitando-se de posições geográficas estratégicas pode explicar parte dos ganhos observados nas microrregiões mais produtivas (Solow, 2012; Cruz et al., 2016; Cavalcante et al., 2024). Assim, o arcabouço teórico neoclássico permite compreender que as diferenças regionais de produtividade decorrem não apenas da disponibilidade de insumos, mas também da capacidade tecnológica e gerencial de cada produtor em responder a restrições ambientais e econômicas locais (Solow, 2012; Dissanayake et al., 2022).
Complementarmente, para compreender as relações de mercado e as estruturas de coordenação presentes na cadeia produtiva da avicultura, este estudo recorre à NEIO, a qual amplia a análise neoclássica ao considerar a importância das instituições, dos contratos e dos custos de transação na formação e no desempenho dos mercados (Waldman & Jensen, 2012; Dissanayake et al., 2022). Essa abordagem reconhece que os mercados reais são imperfeitos e que as interações entre agentes são influenciadas por fatores como informação assimétrica, poder de barganha e estruturas contratuais (Waldman & Jensen, 2012). Na cadeia da avicultura amazonense, a dependência de insumos de outras regiões, os altos custos de transporte e a concentração da produção em poucos polos geográficos geram assimetrias que afetam a competitividade e a eficiência do setor (Medina & Cruz, 2021; Cabral et al., 2023). Assim, a NEIO fornece uma base teórica para compreender como esses fatores institucionais limitam ou favorecem a coordenação entre elos da cadeia e a formação de preços no mercado local (Lorne & Razzaque, 2023).
Sob a ótica institucional, a eficiência produtiva não depende apenas da racionalidade dos agentes econômicos, mas também da qualidade das instituições que regem as transações, como regras contratuais, infraestrutura pública e sistemas de apoio técnico e financeiro (Waldman & Jensen, 2012). No contexto da avicultura de postura no Amazonas, a fragilidade institucional manifesta-se na escassez de infraestrutura, na carência de políticas públicas contínuas e na dependência de mecanismos informais de comercialização (Cruz & Rufino, 2017; Willerding et al., 2020). A ausência de coordenação vertical eficiente, entre produtores, distribuidores e consumidores, eleva os custos de transação e reduz o incentivo ao investimento produtivo, com a integração de instrumentos teóricos da NEIO à análise econométrica realizada neste trabalho permitindo compreender como fatores não puramente produtivos interferem na eficiência econômica e na sustentabilidade da cadeia (Lorne & Razzaque, 2023).
Consequentemente, a combinação entre a Teoria da Produção Neoclássica e a Nova Teoria Institucional estabelece a base conceitual necessária para sustentar as análises empíricas deste estudo. Enquanto a primeira fornece os fundamentos para avaliar a eficiência e a elasticidade entre fatores produtivos (número de produtores, plantel, rendimento e renda média), a segunda explica os mecanismos de coordenação e as restrições institucionais que condicionam o funcionamento da cadeia produtiva regional. Integradas, essas abordagens oferecem uma compreensão abrangente do comportamento produtivo e mercadológico da avicultura de postura no Amazonas, permitindo interpretar os resultados econométricos sob uma ótica teórico-analítica consistente com as particularidades estruturais e socioeconômicas da Amazônia.
3 Metodologia
Os dados desta pesquisa são de natureza secundária e foram obtidos junto ao IDAM, órgão responsável pela coleta de informações do setor primário em todos os municípios do Amazonas, por meio de suas unidades locais e técnicos. Esses dados foram coletados anualmente mediante a aplicação de questionários aos produtores ativos da cadeia da avicultura de postura em todos os municípios amazonenses. O painel de dados resultante, balanceado e abrangendo informações completas para o período de 2000 a 2023, totalizou 216 observações para cada variável avaliada, correspondentes a 24 períodos anuais e as nove microrregiões definidas pelo IDAM, conforme ilustrado na Figura 1, considerando o acumulado anual de janeiro a dezembro em cada ano. Embora o IBGE tenha substituído oficialmente as microrregiões em 2017, o presente estudo adotou a regionalização operacional utilizada pelo IDAM para fins comparativos históricos.
Divisão territorial adotada pelo IDAM considerando a distribuição dos municípios junto às calhas dos rios. Fonte: Elaboração própria.
Na apresentação descritiva dos dados, a produção anual da avicultura de postura em cada microrregião do Amazonas foi expressa em termos percentuais em relação à produção total (em milhões de unidades) de cada ano avaliado, conforme a divisão territorial proposta. O número de produtores ativos nessa cadeia produtiva foi mensurado em valores absolutos, assim como o tamanho do plantel de aves (em milhares de unidades). O rendimento produtivo percentual foi calculado com base na proporção de ovos produzidos em relação ao plantel total ao longo de 365 dias, permitindo avaliar a eficiência da atividade em cada microrregião.
Para a elaboração do modelo econométrico log-log (1), foram utilizados esses dados, além das informações de renda per capita (PIB per capita municipal) obtidas junto à Secretaria de Desenvolvimento, Ciência, Tecnologia e Inovação do Estado do Amazonas (SEDECTI-AM). Os dados foram organizados em um painel balanceado, abrangendo nove microrregiões e 24 observações temporais (2000-2023) para cada variável independente. Ressalta-se que os dados de renda per capita e preço médio pago ao produtor foram deflacionados pelo IPCA, tendo como ano-base 2023, a fim de expressar os valores em termos reais. A renda média microrregional foi calculada por meio da média ponderada das rendas municipais para a microrregião, utilizando a população residente como fator de ponderação, de modo a assegurar coerência entre as escalas municipal e microrregional.
Onde:
lnY = logaritmo natural da produção de ovos (em milhões de unidades).
lnProd = logaritmo natural do nº de produtores ativos na atividade (em nº absolutos).
lnAnim = logaritmo natural do nº de animais alojados na atividade (em nº absolutos).
lnRen = logaritmo natural da renda média per capita dos municípios (em R$/habitante/ano).
lnRendProd = logaritmo natural do rendimento produtivo da atividade (em %).
lnPre = logaritmo natural do preço médio pago ao produtor (em R$/ovo).
Obs.: O subscrito i representa o i-ésimo produto e t o tempo (anos) e os β são os parâmetros estimados pelo modelo de regressão econométrica.
O modelo proposto baseou-se na análise de dados em painel, a qual permite observar simultaneamente as variações espaciais e temporais das unidades analisadas, combinando informações de corte transversal (microrregiões) e séries temporais (anos). Essa abordagem é adequada para estudos aplicados à economia da produção, pois possibilita captar efeitos específicos de cada unidade e controlar a heterogeneidade não observada (Wooldridge, 2005; Gujarati & Porter, 2011). A estimação econométrica foi conduzida no software Gretl (Gnu Regression, Econometrics and Time-series Library, versão 2023), considerando três modelos de referência: o modelo pooled (estimado por Mínimos Quadrados Ordinários - MQO), o modelo de efeitos fixos e o modelo de efeitos aleatórios. Para definir o modelo mais adequado, aplicaram-se os testes de Chow, Breusch-Pagan e Hausman, com nível de significância de 5%, conforme as recomendações de Gujarati & Porter (2011).
A multicolinearidade foi avaliada por meio dos Fatores de Inflação da Variância (VIF), considerando o valor crítico de VIF > 10 como indicativo de colinearidade excessiva (Wooldridge, 2005). A heterocedasticidade foi verificada pelo teste de White, também a 5% de significância. Adicionalmente, realizou-se a inspeção da matriz de correlação entre as variáveis para assegurar a consistência do modelo. Por se tratar de um modelo do tipo log-log, os coeficientes estimados representam elasticidades, isto é, variações percentuais na produção de ovos em resposta a uma variação de 1% na variável explicativa correspondente (Gujarati & Porter, 2011). Essa estrutura permite interpretar diretamente a sensibilidade da produção às mudanças nos fatores produtivos e econômicos analisados. Considerando o risco de endogeneidade, decorrente da possível causalidade reversa entre variáveis produtivas (como número de produtores e rendimento produtivo), utilizou-se o teste de Hausman-Wu para detectar a presença desse problema, não sendo este verificado neste estudo. Esses procedimentos asseguraram a consistência, eficiência e robustez dos resultados econométricos, permitindo avaliar de forma precisa as relações entre os fatores produtivos e a variação da produção de ovos nas microrregiões do estado do Amazonas ao longo do período de 2000 a 2023.
4 Resultados e Discussão
Os resultados apresentados a seguir derivam de estimativas originais obtidas a partir dos dados do IDAM (2000-2023), tratados segundo o modelo econométrico descrito na seção anterior. Sempre que pertinente, esses resultados são comparados a evidências de outros estudos para contextualização teórica e regional. Primeiramente, a avaliar os resultados da produção anual de ovos da avicultura de postura no Amazonas (Tabela 1, Figura 2), é possível observar um comportamento instável ao longo da série histórica, com momentos de alta e baixa a depender do ano avaliado. Essa instabilidade pode estar relacionada a fatores como variações nos custos de insumos, condições climáticas adversas, oscilações na demanda de mercado e desafios logísticos característicos da região amazônica, problemáticas geralmente comuns em cadeias agrícolas nessa região (Cruz et al., 2016; Dias & Carvalho, 2017; Willerding et al., 2020; Medina & Cruz, 2021; Cabral et al., 2023). Nesse cenário, observou-se ainda uma concentração significativa da produção na microrregião Rio Negro/Solimões, com esta microrregião apresentando a maior produção do estado. Outras microrregiões que também apresentaram destaque produtivo em períodos pontuais da série histórica avaliada foram Médio Amazonas, Alto Solimões e Baixo Amazonas.
Participação percentual de cada microrregião na produção da avicultura de postura do Amazonas no período de 2000 a 2023.
Produção anual (em milhões de unidades) de ovos nas microrregiões do Amazonas de 2000 a 2023. Legenda: ARN = Alto Rio Negro. ASL = Alto Solimões. BAM = Baixo Amazonas. JUR = Juruá. JSJ = Jutaí/Solimões/Juruá. MAD = Madeira. MAM = Médio Amazonas. PUR = Purus. RNS = Rio Negro/Solimões. Fonte: Elaboração própria a partir dos dados do IDAM.
A concentração da produção de ovos no Amazonas na microrregião de Rio Negro/Solimões pode ser explicada pelo fato de essa microrregião abrigar o município de Manaus, capital do Estado e maior metrópole da região Amazônica (Cruz et al., 2016). Manaus concentra grande parte da população, dos recursos financeiros e das estruturas mercadológicas e logísticas do estado (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, 2022), o que cria um forte atrativo econômico para a instalação de granjas voltadas à avicultura de postura, localizadas principalmente na zona rural da capital e em municípios da sua região metropolitana, que orbitam geograficamente em torno de Manaus. Essa proximidade favorece tanto a aquisição de insumos quanto o escoamento da produção, fatores decisivos para a competitividade da cadeia produtiva. No aspecto econômico e produtivo, três pontos primordiais explicam essa concentração: (1) a geolocalização dos municípios que compõem essas microrregiões, que abrangem cerca de 50% da população do estado e, por efeito, o maior mercado consumidor potencial; (2) a presença de melhor infraestrutura para aquisição de insumos e acesso aos mercados consumidores, com destaque para as rotas terrestres e fluviais, que facilitam o transporte e a comercialização; e (3) os incentivos governamentais e políticas públicas concentrados nessa microrregião pela sua importância econômica e social (Cruz et al., 2016; Tremea & Silva, 2020; Cavalcante et al., 2024; Abreu Filho et al., 2025).
Ao analisar o panorama geral da produção de ovos no Estado do Amazonas, observa-se um expressivo desnivelamento entre a contribuição da microrregião de Rio Negro/Solimões e a das demais microrregiões, resultado de diversos gargalos estruturais que limitam a expansão desta cadeia produtiva tal qual também ocorre em outras cadeias agropecuárias. Entre os principais entraves destacam-se os problemas de fornecimento de energia elétrica na região Norte (Cruz et al., 2016), as questões ambientais e os impactos das mudanças climáticas que afetam diretamente a Amazônia (Malhi et al., 2008; Marengo et al., 2018), e a ausência de uma rede acessível de laboratórios especializados em análises patológicas e nutricionais (Cruz et al., 2016). Somam-se a esses fatores os elevados custos de produção decorrentes da dependência de insumos importados (Cruz et al., 2016; Cruz & Rufino, 2017), a carência de uma ampla rede de assistência técnica pública e especializada voltada a pequenos e médios produtores (Cruz et al., 2013, 2016), a deficiência em infraestrutura adequada de armazenagem de grãos para formação de estoques (Cruz et al., 2016; Cruz & Rufino, 2017; Andrade et al., 2023) e as dificuldades de acesso a insumos durante o período de entressafra (Andrade et al., 2021, 2023). Esses fatores combinados reforçam a necessidade de políticas integradas voltadas à superação desses obstáculos e à promoção de uma expansão mais equilibrada da avicultura de postura no estado.
Outro fator que influencia a dinâmica da produção de ovos no Amazonas é a saturação da própria cadeia produtiva, já que, ao atender plenamente a demanda interna, a avicultura de postura no Amazonas enfrenta limitações para expandir a produção decorrentes do baixo potencial de crescimento do consumo per capita, das restrições logísticas e sanitárias que dificultam a comercialização interestadual e dos elevados custos logísticos que encarecem o processo produtivo e reduzem a competitividade (Abreu Filho et al., 2025). Esse fenômeno resultou em um cenário em que o crescimento da produção não se traduz necessariamente em maiores lucros para os produtores, pois a oferta se iguala ou até supera a demanda, muitas vezes pressionando os preços para baixo (Carvalho, 2015). Com base nas teorias econômicas da produção, isso tende a dificultar novos investimentos na modernização e ampliação da capacidade produtiva (Puu et al., 1970; Georgescu-Roegen, 1972; Appelbaum, 1978), fato que pode ser observado nos valores totais registrados ano após ano na Tabela 1, que há algum tempo permanecem dentro de uma faixa relativamente bem definida. Além disso, Manaus, que por um longo período figurou entre os cinco maiores municípios produtores de ovos do Brasil (Cruz et al., 2016), já se encontra fora do ranking dos dez maiores há mais de cinco anos (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, 2017, 2022; Associação Brasileira de Proteína Animal, 2025).
Os resultados desta pesquisa também indicaram que o número de produtores ativos na cadeia da avicultura de postura apresentou tendência de crescimento ao longo do período analisado (2000-2023), com destaque para as microrregiões de Rio Negro/Solimões, Médio Amazonas e, em anos mais recentes, Alto Solimões (Tabela 2). Esse comportamento sugere um processo gradual de ampliação da base produtiva regional, com a entrada de novos produtores, em sua maioria operando em micro e pequena escala produtiva. Destaca-se, entretanto, que a avicultura de postura, seguindo uma tendência nacional, apresenta um nível relativamente mais elevado de tecnificação quando comparada a outras cadeias produtivas primárias instaladas na Amazônia (Silva, 2015; Dias & Carvalho, 2017; Tremea & Silva, 2020; Willerding et al., 2020). Em outras palavras, enquanto a maioria das outras cadeias do setor primário amazônico apresentam maior dependência de mão-de-obra ou de volume de produtores ativos (Dias & Carvalho, 2017; Cabral et al., 2023), a capacidade de produção da avicultura, tanto no Amazonas quando no Brasil, é mais dependente do nível de adoção de tecnologias, do manejo eficiente e do aproveitamento de economias de escala.
Número de produtores atuantes na cadeia da avicultura de postura nas microrregiões do Amazonas no período de 2000 a 2023.
Essa menor dependência de mão de obra para a operacionalização da cadeia produtiva tende a concentrar a atividade em um número reduzido de produtores com maior escala operacional, especialmente nas microrregiões mais estruturadas, como Rio Negro/Solimões, onde se observam plantéis mais numerosos e rendimentos produtivos superiores à média estadual. Nesse contexto, a teoria da produção sustenta que a elevação da capacitação produtiva e tecnológica, expressa pela adoção de infraestruturas modernas, manejo aprimorado, práticas de gestão eficientes e uso de tecnologias voltadas à automação e à nutrição das aves, permite manter ou ampliar a produção sem a necessidade de um aumento proporcional no número de produtores ativos (Vasconcellos, 2015; Carvalho, 2015; Leite, 2023). Esse cenário reforça o processo de concentração produtiva em unidades de maior porte, que conseguem otimizar recursos, reduzir custos e alcançar níveis superiores de eficiência e produtividade (Kushnir, 2022).
A análise do quantitativo de aves alojadas (Tabela 3) e dos rendimentos produtivos médios (Tabela 4) confirma essa tendência de concentração da produção observada anteriormente, evidenciando que a maior parte do efetivo amazonense de aves está concentrada na microrregião de Rio Negro/Solimões, com participação relevante do Médio Amazonas e, mais recentemente, do Alto Solimões, bem como essas principais microrregiões produtoras mantiveram os maiores rendimentos produtivos do Amazonas, com destaque para os últimos anos, nos quais apresentaram resultados superiores a 50%. Essa dinâmica reforça a ideia de que a expansão e a manutenção da produção de ovos no Amazonas, assim como ocorre em outros centros da avicultura brasileira, dependem menos do número de produtores e mais da eficiência operacional e logística, onde a proximidade com os mercados consumidores, a disponibilidade de insumos e o acesso a uma infraestrutura logística eficiente tornam-se fatores decisivos para a continuidade do crescimento produtivo, mesmo diante de oscilações no número de produtores ativos. Sob essa perspectiva, políticas públicas e iniciativas privadas voltadas ao fortalecimento da competitividade da cadeia produtiva devem priorizar ações que promovam a capacitação técnica dos produtores, o acesso a crédito para modernização das estruturas produtivas e o incentivo à adoção de práticas sustentáveis e economicamente viáveis, contribuindo assim para a redução de custos, o aumento da eficiência e a consolidação da avicultura de postura como atividade estratégica para o desenvolvimento regional (Silva, 2015; Cruz et al., 2016; Tremea & Silva, 2020).
Plantel de aves alojadas na cadeia da avicultura de postura nas microrregiões do Amazonas no período de 2000 a 2023.
Rendimento produtivo da cadeia da avicultura de postura nas microrregiões do Amazonas no período de 2000 a 2023.
Ao analisar o modelo econométrico (Tabela 5) obtido a partir dos dados da cadeia produtiva em conjunto com os dados de renda per capita em cada município presente em cada microrregião (que considerou os dados de Produto Interno Bruto (PIB) per capita) e os dados de preço médio pago ao produtor, observou-se que este modelo foi significativo no geral (p<0,05), com as variáveis integrantes construindo um modelo que expressa a realidade da cadeia produtiva da avicultura de postura no Amazonas. Neste modelo, rejeitou-se a hipótese nula (p<0,01) para todos os testes aplicados, indicando que o melhor modelo de dados em painel foi o de efeitos fixos. Do mesmo modo, pode-se perceber que o modelo estimado não possui heterocedasticidade identificada, e nem autocorrelação positiva ou negativa.
Modelo econométrico referente a produção geral de ovos no Amazonas no período de 2000 a 2023.
Das variáveis avaliadas, aquela que apresentou maior influência sobre a produção de ovos no Amazonas foi o nº de animais, ou seja, o volume de plantel disponível para postura, com um coeficiente de 1,112 indicando que um aumento de 10% no plantel resulta em um aumento de 11,12% na produção, mantendo outras variáveis constantes. Nesse mesmo sentido, também foi observado que o rendimento produtivo é crucial para a produção de ovos no Amazonas, com um coeficiente de 1,073 indicando que um aumento de 10% no rendimento resulta em um aumento de 10,73% na produção, mantendo outras variáveis constantes. Esses resultados econométricos reforçam ainda mais as observações apontadas na análise descritiva, destacando a importância dos investimentos em tecnologias e práticas de manejo para melhorar a produtividade da cadeia da avicultura de postura, o que pode impulsionar significativamente a atração dos produtores para a atividade e, consequentemente, aumentar a produção local (Shundalov, 2022; Dupas et al., 2023). No entanto, é importante que esses avanços sejam sustentáveis economicamente a médio e longo prazo e que a fronteira de comércio se expanda em ritmo sincronizado com a fronteira de produção a fim de fomentar a cadeia e não permitir que ela entre em estagnação (Dupas et al., 2023).
Quanto ao preço pago ao produtor, mesmo que este também represente um impacto positivo sobre a produção de ovos no Amazonas, o que caracteriza um efeito inelástico, pois a cada 10% de aumento no preço pago ao produtor gerará um aumento inferior a 1% (0,73%) nesta produção. Em outras palavras, mesmo que os produtores recebam mais dinheiro por sua produção, isso não leva a um aumento significativo na quantidade de ovos produzidos. Isso evidencia que o preço pago ao produtor não é o principal fator motivador para o aumento da produção de ovos no Amazonas, possivelmente devido à característica estrutural da cadeia produtiva local, que opera com margens de lucro estáveis e previsíveis.
A análise dos dados demonstra que a produção de ovos no Amazonas apresenta maior sensibilidade a variáveis técnicas, como o rendimento produtivo das aves e o tamanho do plantel, do que a variações conjunturais de preço. Essa relação indica que a dinâmica produtiva da cadeia é fortemente condicionada por fatores estruturais e de eficiência interna, e não por estímulos de mercado de curto prazo. Embora os preços médios pagos ao produtor tenham mostrado oscilações ao longo da série histórica, a produção manteve relativa estabilidade, o que sugere baixa elasticidade da oferta, típica de atividades com alto custo fixo operacional e investimentos duradouros em instalações, equipamentos e manejo alimentar. Entre os principais componentes de custo observados estão a ração e os insumos energéticos, que, segundo Cruz et al. (2016) e Cruz & Rufino (2017), representam mais de 70% do custo total da atividade no contexto amazônico. Dessa forma, mesmo diante de variações favoráveis no preço do produto, os produtores enfrentam restrições para expandir a capacidade produtiva, em razão da dependência de insumos externos, da infraestrutura limitada e da escassez de mão de obra qualificada para operação de sistemas tecnificados (Sapsford & Balasubramanyam, 1994; Basu & Nag, 2020).
Em outra perspectiva, a influência do número de produtores ativos sobre a produção apresentou um comportamento negativo, onde cada 10% de aumento no número de produtores representa uma redução de cerca de 0,47% na produção de ovos no Amazonas, com esse resultado representando uma característica particular dessa cadeia produtiva. Cabe destacar que o sinal negativo obtido nesta variável contraria a expectativa teórica de correlação positiva entre número de agentes produtivos e volume de produção (Carvalho, 2015; Kushnir, 2022). Esse resultado pode estar relacionado a uma pequena endogeneidade, decorrentes da simultaneidade entre oferta e entrada de produtores na atividade, especialmente pequenos produtores com menor capacidade produtiva, ou sugerir um processo de fragmentação da produção no Amazonas, uma vez que pode indicar a entrada de novos produtores de pequena escala com menor eficiência técnica ou menor acesso a tecnologias de ponta, o que reduz a produção marginal média por estabelecimento (Varian, 2023). Institucionalmente, esse achado pode refletir os desafios da Nova Economia Institucional no contexto amazônico, onde a falta de coordenação e assistência técnica capilarizada impede que o aumento no número de agentes se traduza em ganhos diretos de escala, ou seja, esses novos produtores, operando em menor escala e com menos acesso a tecnologias modernas enfrentam dificuldades para alcançar a eficiência dos grandes produtores estabelecidos, impactando negativamente a produção média (Pindyck & Rubinfeld, 2014).
Quanto aos resultados para a variável renda, primeiramente, observa-se que esta é uma medida relevante do nível de riqueza de uma população. No caso do modelo encontrado, o fato de a renda da população local apresentar um impacto negativo, em que cada aumento de 10% na renda resulta em uma redução de cerca de 0,08% na produção de ovos, indica uma influência muita pequena dessa variável na produção. Esse efeito pode estar relacionado à migração tecnológica e à modernização das cidades ao longo do território amazonense. Nas microrregiões que abrigam os municípios com maior PIB per capita do estado, há, naturalmente, uma predileção por atividades mais voltadas à produção de bens com maior valor agregado, em detrimento das atividades do setor primário e da produção de bens de menor valor agregado. Assim, à medida que a renda per capita dos municípios e das microrregiões às quais pertencem aumenta, a produção de produtos do setor primário, como os ovos, tende a diminuir, devido à migração da mão de obra para cadeias produtivas que oferecem maior nível de remuneração.
Além disso, outro ponto a considerar é que, no caso do Amazonas, o estado tende a apresentar uma renda per capita abaixo da média nacional (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, 2022), com problemas consideráveis de distribuição desigual de renda que implicam em uma concentração desproporcional de riqueza nos grandes centros urbanos, principalmente Manaus e os municípios que a circundam. E trazendo isso para a análise produtiva deste estudo, essa baixa renda per capita no Amazonas poderia de uma certa forma limitar o acesso dos produtores, especialmente os de pequeno porte, a insumos, equipamentos e tecnologias, como já fora citado anteriormente, o que naturalmente poderia reduzir a sua produção de ovos ou mesmo desestimulá-los a permanecer na atividade.
Essas relações observadas na análise do modelo econométrico são também corroboradas na análise da matriz de correlação dessas variáveis (Tabela 6), onde vemos que a produção de ovos apresenta alta correlação positiva com o número de animais (0,96) e com o rendimento produtivo (0,81), confirmando que o aumento do plantel e a eficiência na produção são fatores diretamente associados ao crescimento da produção. A relação moderada entre a produção e o número de produtores (0,70) reforça a ideia de que, embora o número de produtores possa estar associado à produção em escala, essa variável isolada tem um efeito negativo na eficiência média, como observado no modelo econométrico. A renda per capita dos municípios apresenta uma correlação moderada (0,46) com a produção, sugerindo que, embora contribua para o entendimento das dinâmicas de mercado, essa variável não é tão determinante quanto o plantel e o rendimento produtivo. Por outro lado, o preço médio pago ao produtor possui uma correlação mais baixa (0,33) com a produção, o que indica que ele exerce um papel secundário no aumento direto da produção, provavelmente influenciando mais a sustentabilidade econômica da atividade do que o volume produzido.
Matriz de correlação das variáveis integrantes do modelo econométrico referente a produção da avicultura de postura no Amazonas no período de 2000 a 2023.
5 Conclusões
Os resultados deste estudo confirmam que a avicultura de postura no Amazonas consolidou-se como uma atividade essencial para o abastecimento regional de ovos e para o fortalecimento da segurança alimentar e do desenvolvimento socioeconômico do estado. A produção encontra-se fortemente concentrada na microrregião do Rio Negro/Solimões, onde fatores como a proximidade com o mercado consumidor de Manaus, a infraestrutura logística relativamente mais desenvolvida e a presença de políticas de incentivo econômico têm favorecido a expansão e a competitividade da atividade.
A análise econométrica demonstrou que o tamanho do plantel e o rendimento produtivo são as variáveis mais determinantes para o aumento da produção de ovos, indicando que os ganhos de produtividade estão diretamente associados ao investimento em genética, manejo, nutrição e tecnologia. Por outro lado, o número de produtores apresentou relação inversa com a produção, sugerindo que o crescimento do número de agentes produtivos, quando acompanhado por baixa escala e baixo nível tecnológico, tende a reduzir a eficiência média da cadeia. Esse comportamento evidencia um processo de concentração produtiva em estabelecimentos tecnificados, capazes de otimizar recursos e alcançar maior eficiência econômica. E apesar do potencial produtivo identificado, os custos elevados de insumos e transporte, agravados pela dependência de matérias-primas oriundas de outras regiões, continuam a limitar a competitividade da avicultura amazonense frente a outros polos produtores do país. Soma-se a isso a carência de políticas públicas contínuas de apoio técnico, crédito rural e infraestrutura adequada para armazenagem e beneficiamento de grãos, o que compromete a sustentabilidade da atividade, sobretudo para pequenos e médios produtores.
Diante desse cenário, torna-se imprescindível a implementação de políticas estruturantes voltadas à capacitação técnica, modernização produtiva e integração cooperativa dos produtores, de modo a estimular ganhos de escala e reduzir custos operacionais. Tais políticas devem priorizar programas de assistência técnica permanente, linhas de crédito subsidiadas para modernização de granjas e incentivos à instalação de indústrias regionais de esmagamento de soja e beneficiamento de milho, tanto no Amazonas quanto em estados vizinhos como Rondônia, visando reduzir a dependência de insumos importados e aumentar a autossuficiência regional na produção de rações. A saturação do mercado interno constitui outro desafio a ser enfrentado. Nesse contexto, a reabertura e manutenção da BR-319 podem representar uma oportunidade estratégica para reduzir custos logísticos, facilitar o escoamento da produção e ampliar o acesso a novos mercados. Ainda que a exportação direta de ovos enfrente barreiras sanitárias e econômicas, há perspectivas de inserção futura em mercados vizinhos, mediante investimentos em infraestrutura sanitária, certificação e rastreabilidade.
Por fim, ressalta-se que os resultados deste estudo devem ser interpretados à luz das características inerentes às bases secundárias utilizadas e ao escopo analítico adotado. Embora a abordagem empregada permita identificar associações consistentes e relevantes para a compreensão da dinâmica produtiva da avicultura no Amazonas, algumas variáveis estruturais relacionadas a custos operacionais, logística e fatores regionais específicos não puderam ser incorporadas ao modelo. Ainda assim, os achados obtidos apresentam coerência com evidências reportadas na literatura e contribuem para ampliar o entendimento sobre os condicionantes da cadeia avícola regional. Estudos futuros poderão aprofundar essas análises por meio da incorporação de dados primários, especificações complementares e estratégias econométricas adicionais, permitindo maior refinamento das estimativas e expansão das evidências sobre os gargalos e potencialidades do setor.
Recomenda-se ainda que pesquisas futuras aprofundem a viabilidade do uso de resíduos agroindustriais regionais, como subprodutos da fruticultura amazônica e resíduos da piscicultura, na formulação de rações alternativas, reduzindo custos e fortalecendo sinergias entre diferentes cadeias produtivas. Ademais, o estímulo à pesquisa agropecuária voltada à automação, digitalização e sustentabilidade energética dos sistemas produtivos poderá consolidar a avicultura de postura amazonense como um setor competitivo, sustentável e tecnicamente alinhado às demandas do futuro agropecuário da Amazônia.
Disponibilidade de dados:
Os dados da pesquisa estão disponíveis sob consulta.
Agradecimentos
Nada a declarar.
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Como citar:
Abreu Filho, H. R., Gomes, M. F. S., Rufino, J. P. F., & Oliveira, A. T. (2026). A cadeia produtiva da avicultura de postura no Amazonas (Brasil): uma análise produtiva e econométrica. Revista de Economia e Sociologia Rural, 64, e294102. https://doi.org/10.1590/1806-9479.2026.294102
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Suporte financeiro:
Nada a declarar.
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Aprovação do conselho de ética:
Não se aplica.
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Classificação JEL C33, D24, Q13
06 Referências
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Editor associado:
Carlos Eduardo de Freitas Vian




