Covid-19 e as repercussões na saúde mental: estudo de revisão narrativa de literatura

Fabiane Machado Pavani Aline Basso da Silva Agnes Olschowsky Christine Wetzel Cristiane Kenes Nunes Luíza Bohnen Souza Sobre os autores

ABSTRACT

Objective:

To identify the repercussions on mental health of groups and populations in the context of the new coronavirus pandemic.

Method:

Narrative review carired out in three databases, in March 2020, using the descriptors mental health and coronavirus. A total of 19 publications were analyzed, organized in a synoptic chart, containing type of publication, authors, country, sample, objective, and main results. From this analysis, two thematic axes emerged: identification of problems and vulnerable groups in mental health; and mental health interventions and actions.

Results:

The first axis showed manifestations of suffering - anguish, insomnia, anger, stress, fear. The second revealed the need to build government policies and general guidelines; production of information and communication; and mental health care practices.

Conclusions:

The repercussions on mental health in the population intensified with the pandemic, identifying vulnerable groups, and the need to build coping strategies and policies aimed at mental health during epidemics.

Keywords:
Coronavirus infections; Mental health; Coronavirus; Pandemics; Mental health services

RESUMEN

Objetivo:

Identificar las repercusiones en la salud mental de grupos y poblaciones dentro del contexto de la pandemia del nuevo coronavirus.

Método:

Revisión narrativa realizada en tres bases de datos, en marzo de 2020, utilizando los descriptores salud mental y coronavirus. Fueron analizadas 19 publicaciones, organizadas en un cuadro sinóptico, conteniendo: tipo de publicación, autores, país, muestra, objetivo y principales resultados. De ese análisis, emergieron dos ejes temáticos: identificación de problemas y grupos vulnerables en salud mental; e intervenciones y acciones en salud mental.

Resultados:

El primer eje evidenció manifestaciones de sufrimiento -- angustia, insomnio, rabia, estrés, miedo. El segundo reveló la necesidad de construcción de políticas gubernamentales y directrices; producción de informaciones y comunicación; y prácticas asistenciales en salud mental.

Conclusiones:

Las repercusiones en la salud mental se intensificaron con la pandemia, identificando grupos vulnerables y la necesidad de construir estrategias y políticas de afrontamiento en salud mental durante epidemias.

Palabras clave:
Infecciones por coronavirus; Salud mental; Coronavirus; Pandemias; Servicios de salud mental

RESUMO

Objetivo:

Identificar as repercussões na saúde mental de grupos e populações no contexto da pandemia do novo coronavírus.

Método:

Revisão narrativa realizada em três bases de dados, em março de 2020, utilizando os descritores saúde mental e coronavírus. Foram analisadas 19 publicações, organizadas em um quadro sinóptico, contendo: tipo de publicação, autores, país, amostra, objetivo e principais resultados. Dessa análise, emergiram dois eixos temáticos: identificação de problemas e grupos vulneráveis em saúde mental; e intervenções e ações em saúde mental.

Resultados:

O primeiro eixo evidenciou manifestações de sofrimento - angústia, insônia, raiva, estresse, medo. O segundo revelou a necessidade de construção de políticas governamentais e diretrizes gerais; produção de informações e comunicação; e práticas assistenciais em saúde mental.

Conclusões:

As repercussões na saúde mental na população se intensificaram com a pandemia, identificando-se grupos vulneráveis, e a necessidade de construção de estratégias e políticas de enfrentamento voltadas à saúde mental durante epidemias.

Palavras-chave:
Infecções por coronavírus; Saúde mental; Coronavírus; Pandemias; Serviços de saúde mental

INTRODUÇÃO

A pandemia da Coronavirus Disease (COVID-19), causada pelo novo coronavírus, é uma ameaça urgente e abrangente, cujas características clínicas e epidemiológicas ainda estão sendo documentadas11. Guan WJ, Ni ZY, Hu Y, Liang WH, Ou CQ, He JX, et al. Clinical characteristics of coronavirus disease 2019 in China. N Engl J Med. 2020;382(18):1708-20. doi: https://doi.org/10.1056/NEJMoa2002032
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-22. Wu Z, McGoogan JM. Characteristics of and important lessons from the coronavirus disease 2019 (COVID-19) outbreak in China: summary of a report of 72314 cases from the chinese center for disease control and prevention. J Am Med Assoc. 2020;1239-42. doi: https://doi.org/10.1001/jama.2020.2648
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. Além do seu alto potencial de contágio, gravidade clínica e letalidade, sabe-se que o espectro clínico da doença é muito amplo, variando de casos assintomáticos, sintomas respiratórios leves à pneumonia grave33. Carvalho PMM, Moreira MM, Oliveira MNA, Landim JMM, Rolim Neto ML. The psychiatric impact of the novel coronavirus outbreak. Psychiatry Res. 2020;286:112902. doi: https://doi.org/10.1016/j.psychres.2020.112902
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Por se tratar de uma doença com elevado grau de transmissibilidade, que requer medidas de controle e restrição de contato, diferentes organizações de saúde e do poder público, como World Health Organization (WHO), European Centre for Disease Prevention and Control (ECDC), têm recomendado medidas de isolamento para casos suspeitos, distanciamento social, fechamento de escolas e universidades, além de quarentena para toda a população, com o objetivo de reduzir os impactos dessa pandemia, diminuindo o pico de incidência e o número de mortes44. Brooks SK, Webster RK, Smith LE, Woodland L, Wessely S, Greenberg N, et al. The psychological impact of quarantine and how to reduce it: rapid review of the evidence. Lancet. 2020;395(10227):912-20. doi: https://doi.org/0.1016/S0140-6736(20)30460-8
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-55. Ferguson NM, Laydon D, Nedjati-Gilani G, Imai N, Ainslie K, Baguelin M, et al. Impact of non-pharmaceutical interventions (NPIs) to reduce COVID-19 mortality and healthcare demand. London: Imperial College London; 2020. doi: https://doi.org/10.25561/77482
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Mesmo consideradas cruciais para diminuir a probabilidade de contaminação, essas medidas podem acarretar implicações à saúde física e mental. Algumas pessoas que estão em distanciamento social e/ou quarentena podem apresentar sentimentos e emoções negativas - tédio, solidão, raiva, tristeza. Dessa forma, entende-se que a população, em geral, quando exposta ao risco de contaminação pelo novo coronavírus e a possibilidade de adoecimento, pode experimentar situações de vulnerabilidade que potencializam o desenvolvimento de problemas de saúde mental44. Brooks SK, Webster RK, Smith LE, Woodland L, Wessely S, Greenberg N, et al. The psychological impact of quarantine and how to reduce it: rapid review of the evidence. Lancet. 2020;395(10227):912-20. doi: https://doi.org/0.1016/S0140-6736(20)30460-8
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Diante da pandemia da COVID-19, de sua gravidade e das repercussões psicossociais que essa doença pode gerar, a atenção em saúde mental tem sido abordada como um dos desafios para o seu enfrentamento, pois o cuidado é direcionado, prioritariamente, às questões clínicas e científicas para o desenvolvimento da cura e/ou da recuperação dos órgãos e sistemas atingidos.

As epidemias anteriores - Síndrome Respiratória Aguda (SARS-CoV) (2002), Síndrome Respiratória do Oriente Médio (MERS-CoV) (2012), Gripe H1N1 (2009), Ebola (2014) e Zika (2015) -, embora apresentem características epidemiológicas, clínicas e patogênicas específicas, revelaram a necessidade de implementar medidas rápidas e conscientes para preservar a população. Também exigiram a elaboração de planos de resposta adequados para ajudar a minimizar os riscos ocasionados por essas doenças, as quais podem produzir impactos muito além das mortes que geraram. Assim, não pode ser desprezada a necessidade de medidas para reduzir as implicações psicossociais vivenciadas pela população em contextos de pandemias, reforçando a relevância no investimento de cuidados em saúde mental à medida que os sentimentos de ansiedade, angústia, medo e preocupação surgem em decorrência dessas experiências66. Huremović D. Social distancing, quarantine, and isolation. In: Psychiatry of pandemics: a mental health response to infection outbreak. Cham: Springer International Publishing; 2019. p. 85-94. doi: https://doi.org/10.1007/978-3-030-15346-5_8
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Logo, a pergunta que orientou este estudo foi: quais são as repercussões da pandemia da COVID-19 na saúde mental de grupos e populações no mundo? Diante disso, neste artigo, tem-se o objetivo de identificar as repercussões na saúde mental de grupos e populações no contexto da pandemia pelo novo coronavírus. Para responder ao objetivo do estudo optou-se pela realização de uma revisão narrativa de literatura, considerando-se que essa estratégia se mostra adequada para a sistematização de conhecimentos, fornecendo uma perspectiva abrangente e atualizada sobre determinado tema ainda pouco explorado, como a necessidade emergente de discussão sobre a pandemia do novo coronavírus.

Espera-se contribuir para o trabalho dos profissionais da saúde quanto à identificação/reconhecimento sobre os efeitos da pandemia pelo novo coronavírus na saúde mental das pessoas, considerando as particularidades de cada contexto e os diferentes grupos vulneráveis atingidos pela COVID-19, visando produzir respostas rápidas e efetivas alinhadas às necessidades do cenário brasileiro.

MÉTODO

Trata-se de um estudo de revisão narrativa da literatura, tendo como tema as repercussões na saúde mental de grupos e populações no contexto da pandemia pelo novo coronavírus. A revisão narrativa é caracterizada por uma análise crítica da literatura, sob o ponto de vista teórico ou contextual. Não há necessidade de estabelecer critérios ou sistematização na descrição e desenvolvimento de determinada pesquisa ou assunto, o que possibilita o conhecimento e discussão de novos temas e caminhos teórico-metodológicos, a partir de diversas fontes documentais, além da utilização da subjetividade dos pesquisadores para a seleção e interpretação das informações77. Grant MJ, Booth A. A typology of reviews: an analysis of 14 review types and associated methodologies. Health Info Libr J. 2009;26(2):91‐108. doi: https://doi.org/10.1111/j.1471-1842.2009.00848.x
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Neste estudo, ao se optar pela revisão narrativa considerou-se a necessidade de mapear o que se tinha produzido até o momento sobre a temática da saúde mental da população durante a pandemia da COVID19, devido a este fenômeno ser recente e emergente, e que não houvesse restrição ao tipo de publicação, pois a presença de publicações oriundas de pesquisas originais ainda é escassa.

A revisão narrativa não exige critérios explícitos e sistemáticos para a busca e análise das evidências, e as fontes de dados podem ou não ser predeterminadas ou específicas77. Grant MJ, Booth A. A typology of reviews: an analysis of 14 review types and associated methodologies. Health Info Libr J. 2009;26(2):91‐108. doi: https://doi.org/10.1111/j.1471-1842.2009.00848.x
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. Logo, nesta revisão a busca ocorreu em três bases eletrônicas: Medical Literature Analysis and Retrieval System Online (MEDLINE), Literatura Latino-Americana e do Caribe em Ciências da Saúde (LILACS) e PubMed, selecionadas a partir da experiência na sua utilização pelas autoras. Foram utilizadas as palavras-chave em português e seus correspondentes em inglês: saúde mental/mental health e coronavírus/coronavirus, de maneira equivalente nas três bases de dados, com os operadores booleanos “E/AND”, selecionados a partir da sua identificação nos sites dos Descritores em Ciência da Saúde/Medical Subject Headings (DeCS/MeSH). A pesquisa ocorreu no período de 25 a 31 de março de 2020. Nessa busca, não foram utilizadas limitações, como tipo de estudo, ano e idioma da publicação por se tratar de um contexto recente, ainda com poucas pesquisas finalizadas.

Os critérios de inclusão foram: publicações que apresentavam informações sobre a pandemia pelo novo coronavírus e da COVID-19, relacionadas à saúde mental. Já os critérios de exclusão foram: publicações com informações sobre as repercussões de saúde mental advindas de outras epidemias - a SARS e a MERS.

A Figura 1 apresenta o número de publicações encontrado e a sequência adotada até a inclusão daquelas consideradas para análise, conforme critérios de inclusão propostos.

Figura 1 -
Fluxograma das publicações incluídas na revisão. Porto Alegre, Rio Grande do Sul, Brasil.

Para garantir a identificação da relevância das produções foi realizada a leitura na íntegra das 19 publicações, com o objetivo de responder a questão norteadora deste estudo. A análise dos resultados ocorreu a partir da organização e da síntese das publicações em um quadro sinóptico, na plataforma drive/excel, conforme suas características: tipo de publicação, autores, país, amostra, objetivo e principais resultados. Após, prosseguiu-se a análise e a interpretação dos dados, com a leitura dessas sínteses e o agrupamento em temas semelhantes, resultando em dois eixos temáticos: identificação de problemas e grupos vulneráveis em saúde mental; e intervenções e ações em saúde mental.

RESULTADOS

As dezenove produções foram publicadas em 2020, e em todos os seus títulos mencionaram os termos: novo coronavírus ou a doença COVID-19; 79% (15) impactos, respostas ou resultados na saúde mental; e 63% (12) intervenções e estratégias de saúde mental. Em relação aos vínculos institucionais dos autores, foi observada a prevalência de vínculos com universidades: 89,4% (17); com instituições hospitalares: 42% (8) - e, destes, 75% (6) eram hospitais universitários; e vínculos com outras instituições: 37% (7), por exemplo, centros de pesquisa, laboratórios e serviços de saúde mental. A maioria, 73,6% (14), das publicações apresentou a China como país de origem da produção e/ou dos autores.

No Quadro 1 constam as informações das 19 publicações analisadas.

Quadro 1 -
Publicações distribuídas conforme título, tipo de publicação, país e vínculo institucional dos autores

Duas publicações são pesquisas originais, com abordagem quantitativa, estudos transversais e observacionais: uma (A3) realizada com 1.210 entrevistados de 194 cidades da China, e a outra (A8) com 1.257 profissionais de saúde, em 34 hospitais também na China. As demais produções consistiram em textos de relato de experiência (A6 e A2), revisão de literatura (A5 e A7), carta ao editor (A9 e A14), editorial (A11 e A13), correspondência (A1, A4, A10, A15, A16, A17 e A19) e comentários (A12 e A18). Observou-se ainda a prevalência do periódico The Lancet em 36% (7) das publicações (A1, A2, A10, A16, A17, A18 e A19).

O Quadro 2 apresenta os objetivos das 19 publicações.

Quadro 2 -
Publicações distribuídas conforme objetivos

No Quadro 3 apresenta-se uma síntese dos resultados, considerando-se os eixos temáticos: identificação de problemas e grupos vulneráveis em saúde mental; e intervenções e ações em saúde mental.

Quadro 3 -
Publicações distribuídas conforme eixo temático e síntese dos resultados

No eixo temático Identificação de problemas e grupos vulneráveis em saúde mental, nas manifestações de sofrimento mental predominantes na população, foram relacionados angústia, insônia, raiva, estresse, medo extremo de doenças, medo de ser infectado por um vírus potencialmente fatal, sensação de impotência, comportamentos de irritabilidade e de risco à saúde - por exemplo, o aumento do uso de álcool e tabaco. Também foram relatados o desenvolvimento de transtornos de estresse pós-traumático, transtornos de ansiedade, depressão, diminuição da percepção de saúde na população em geral, como consequência do isolamento social, e impactos do sofrimento psíquico na saúde física, entre os quais problemas odontológicos.

As publicações que compõem esse eixo, apresentadas no Quadro 3, indicaram grupos específicos a serem considerados em relação a repercussões na saúde mental frente à pandemia: profissionais de saúde, pacientes com confirmação ou suspeita da COVID-19, trabalhadores e estudante imigrantes, mulheres, idosos, pessoas com comorbidades psiquiátricas prévias e/ou institucionalizadas, e pessoas entre 18 a 30 anos.

Referente ao eixo das intervenções e ações em saúde mental foram apontadas a necessidade de construção de políticas governamentais e diretrizes gerais para o atendimento de saúde mental em contextos de epidemia/pandemia; de produção de informações e comunicação; e práticas assistenciais em saúde mental, com ênfase na implementação de serviços com atendimento online.

DISCUSSÃO

O conceito de saúde mental é amplo e complexo, e não se trata somente da ausência de perturbação/problema/ manifestação de sofrimento mental, mas também é entendido como produto de múltiplas interações sociais, econômicas, biológicas, psicológicas, culturais. Todo o ser humano pode apresentar algum desconforto que tenha impacto na sua saúde mental, estando relacionado ao seu contexto de vida, e para se caracterizar como problema de saúde mental deve-se observar se a sua intensidade e frequência ameaçam o bem-estar do sujeito que o experiencia88. Alves AAM, Rodrigues NFR. Determinantes sociais e econômicos da Saúde Mental. Rev Port Saúde Pública. 2010;28(2):127-31. doi: https://doi.org/10.1016/S0870-9025(10)70003-1
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. Assim, considerando-se contextos e questões socioculturais, viver uma pandemia como a do novo coronavírus pode ter impacto significativo na saúde mental de grupos e populações.

Nesse sentido, foram identificados três eventos como colaboradores para manifestações de sofrimento mental (estresse, depressão, medo, ansiedade, insônia) durante o surgimento do novo coronavírus: a confirmação de que o novo coronavírus é transmitido entre humanos; a realização de medidas de isolamento como única forma, até o momento, de diminuir a disseminação da doença; e a confirmação, por parte da Organização Mundial de Saúde(OMS), de que a COVID-19 se configura uma pandemia99. Qiu J, Shen B, Zhao M, Wang Z, Xie B, Xu Y. A nationwide survey of psychological distress among Chinese people in the COVID-19 epidemic: implications and policy recommendations. Gen Psychiatry. 2020;33(2):e100213. doi: https://doi.org/10.1136/gpsych-2020-100213
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A identificação de grupos vulneráveis resulta do conceito de vulnerabilidade, o qual é entendido como a chance de exposição das pessoas ao adoecimento, decorrente de um conjunto de componentes individuais (risco biológico, resiliência psicológica), sociais (condições de gênero, econômicas, trabalho, relações) e programáticos (serviços, políticas), e também da maior ou menor disponibilidade de recursos protetivos para essas situações1010. Ayres JRCM, França Júnior I, Calazans GJ, Saletti Filho HC. O conceito de vulnerabilidade e as práticas de saúde: novas perspectivas e desafios. In: Czeresnia D, Freitas CM, organizadores. Promoção da saúde: conceitos, desafios, tendências. Rio de Janeiro: Fiocruz; 2003. p. 117-38. .

Nesse contexto, os profissionais de saúde foram citados nas produções como um grupo considerado vulnerável devido às diversas situações vinculadas ao trabalho em saúde: o alto risco de infecção pelo vírus, a pressão psicológica, excesso de trabalho, frustração, falta de material e equipamentos de segurança, isolamento dos familiares e falta de redes de apoio, e discriminação por serem trabalhadores da saúde1111. Kang L, Li Y, Hu S, Chen M, Yang C, Yang BX, et al. The mental health of medical workers in Wuhan, China dealing with the 2019 novel coronavirus. Lancet Psychiatry. 2020;7(3):e14. doi: https://doi.org/10.1016/S2215-0366(20)30047-X
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12. Xiang YT, Li W, Zhang Q, Jin Y, Rao WW, Zeng LN, et al. Timely research papers about COVID-19 in China. Lancet. 2020;395(10225):684-5. doi: https://doi.org/10.1016/S0140-6736(20)30375-5
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13. Bao Y, Sun Y, Meng S, Shi J, Lu L. 2019-nCoV epidemic: address mental health care to empower society. Lancet. 2020;395(10224):e37-8. doi: https://doi.org/10.1016/S0140-6736(20)30309-3
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14. Yang Y, Li W, Zhang Q, Zhang L, Cheung T, Xiang YT. Mental health services for older adults in China during the COVID-19 outbreak. Lancet Psychiatry. 2020;7(4):e19. doi: https://doi.org/10.1016/S2215-0366(20)30079-1
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-1515. Park JS, Lee EH, Park NR, Choi YH. Mental health of nurses working at a government-designated hospital during a MERS-CoV outbreak: a cross-sectional study. Arch Psychiatr Nurs. 2018;32(1):2-6. doi: https://doi.org/10.1016/j.apnu.2017.09.006
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Os períodos de desastres e epidemias se tornam desafiadores para os profissionais de saúde, pois esses experienciam situações e relações diferentes com a sociedade. Geralmente, os profissionais são visualizados como “super-heróis” que agregam valor e importância social; por outro lado, carregam o medo das falhas, do colapso do sistema de saúde, da aquisição da doença e o sofrimento moral que podem interferir na autonomia e tomada de decisões, tanto por pressões internas (capacidade de enfrentar o sofrimento) quanto externas (pressão hierárquica, comunicação, problemas organizacionais, falta de recursos e preparo)1616. Ornell F, Schuch JB, Sordi AO, Kessler FHP. Pandemic fear and COVID-19: mental health burden and strategies. Rev Bras Psiquiatr. 2020. doi: https://doi.org/10.1590/1516-4446-2020-0008
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No entanto, os considerados “super-heróis” também sofrem discriminação, e é um dos fatores de sofrimento emocional desses profissionais. A estigmatização de profissionais foi apontada em outras epidemias, estando relacionada ao fato de trabalharem diretamente com pacientes infectados por vírus transmissíveis no ambiente hospitalar, tornando-se fontes de contágio. Nesses casos, o foco da intervenção deve ser na direção da conscientização da sociedade mediante a formulação de estratégias de combate ao estigma e de orientação e cuidado aos profissionais de saúde, entre os quais os enfermeiros, para que possam vivenciar menos estresse, permitindo que se concentrem no cuidado de seus pacientes1515. Park JS, Lee EH, Park NR, Choi YH. Mental health of nurses working at a government-designated hospital during a MERS-CoV outbreak: a cross-sectional study. Arch Psychiatr Nurs. 2018;32(1):2-6. doi: https://doi.org/10.1016/j.apnu.2017.09.006
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Além dos profissionais de saúde, outro grupo identificado como vulnerável nas publicações analisadas é o de pacientes com confirmação ou suspeita da COVID-19, que podem apresentar manifestações de sofrimento mental em decorrência do isolamento/quarentena, da letalidade da infecção, dos sintomas da infecção e dos efeitos adversos do tratamento1212. Xiang YT, Li W, Zhang Q, Jin Y, Rao WW, Zeng LN, et al. Timely research papers about COVID-19 in China. Lancet. 2020;395(10225):684-5. doi: https://doi.org/10.1016/S0140-6736(20)30375-5
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Identifica-se que, além do medo por ter contraído a doença, a possibilidade de morte ou cura, há uma frequente discriminação, culpabilização e associação da identidade da pessoa ao vírus, e também uma fragilização da rede social de apoio, em decorrência do isolamento domiciliar ou hospitalar para seu tratamento. A OMS, em seu guia para cuidados em saúde mental durante a pandemia, aponta a importância de diminuir os estigmas vinculados às pessoas que adquiriram a doença, evitando utilizar os termos: “casos de COVID-19”, “vítimas”, “adoentados”, entendendo que essas pessoas têm uma história de vida, sendo assim, é relevante abordar narrativas e imagens positivas de sujeitos que se recuperam da doença, buscando fortalecer a autoestima do paciente e dos familiares1717. World Health Organization (CH) [Internet]. Geneva: WHO; c2020 [cited 2020 May 16]. Mental health and psychosocial considerations during the COVID-19 [about 1 screen]. Available from: Available from: https://www.who.int/publications-detail/WHO-2019-nCoV-MentalHealth-2020.1
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.

Outro grupo com grande vulnerabilidade em saúde mental na pandemia são as pessoas com transtorno mental, as quais podem apresentar intensificação do sofrimento associado às condições de readaptação e de descontinuidade do tratamento diante do afastamento social, ou da quarentena1414. Yang Y, Li W, Zhang Q, Zhang L, Cheung T, Xiang YT. Mental health services for older adults in China during the COVID-19 outbreak. Lancet Psychiatry. 2020;7(4):e19. doi: https://doi.org/10.1016/S2215-0366(20)30079-1
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,1818. Zhu Y, Chen L, Ji H, Xi M, Fang Y, Li Y. The risk and prevention of novel coronavirus pneumonia infections among inpatients in psychiatric hospitals. Neurosci Bull. 2020;36(3):299-302. doi: https://doi.org/10.1007/s12264-020-00476-9
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. Essa é uma preocupação também visualizada no contexto brasileiro, em que se pode sugerir uma mudança drástica nas formas de organização da Rede de Atenção Psicossocial (RAPS). Esses serviços funcionam com características de promover encontros, atividades coletivas, e que visem ao acolhimento, à escuta e construção de vínculo entre profissionais e usuários, além de espaços de convivência dentro e fora das instituições, por exemplo, existem os grupos de diálogo, trocas de saberes, geração de renda, entre outros1919. Ministério da Saúde (BR). Portaria Nº 3.088, de 23 de dezembro de 2011. Institui a Rede de Atenção Psicossocial para pessoas com sofrimento ou transtorno mental e com necessidades decorrentes do uso de crack, álcool e outras drogas, no âmbito do Sistema Único de Saúde. Diário Oficial da União. 2011 dez 26 [cited 2020 May 16];148(247 Seção 1):230-2. Available from: Available from: https://pesquisa.in.gov.br/imprensa/jsp/visualiza/index.jsp?data=26/12/2011&jornal=1&pagina=230&totalArquivos=320
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. Pressupõe-se que a experiência da pandemia tenha exigido uma reinvenção dos profissionais, serviços e pessoas com transtornos mentais, os quais, a partir de agora, deverão realizar intervenções de maneira diversa e criativa, que podem ser através do acompanhamento em consultas individuais pela internet e criação de grupos de forma virtual, a fim de garantir a continuidade do cuidado em saúde mental frente às recomendações de distanciamento e isolamento social.

O gênero e idade também surgem como uma das questões vinculadas ao aumento da vulnerabilidade em saúde mental. Observa-se que as mulheres apresentaram maior sofrimento e impacto psicológico do que os homens e maior possibilidade de desenvolver o estresse pós-traumático99. Qiu J, Shen B, Zhao M, Wang Z, Xie B, Xu Y. A nationwide survey of psychological distress among Chinese people in the COVID-19 epidemic: implications and policy recommendations. Gen Psychiatry. 2020;33(2):e100213. doi: https://doi.org/10.1136/gpsych-2020-100213
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,2020. Wang C, Pan R, Wan X, Tan Y, Xu L, Ho CS, et al. Immediate psychological responses and associated factors during the initial stage of the 2019 coronavirus disease (COVID-19) epidemic among the general population in China. Int J Environ Res Public Health. 2020;17(5):1729. doi: https://doi.org/10.3390/ijerph17051729
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-2121. Jiang X, Deng L, Zhu Y, Ji H, Tao L, Liu L, et al. Psychological crisis intervention during the outbreak period of new coronavirus pneumonia from experience in Shanghai. Psychiatry Res. 2020;286:112903. doi: https://doi.org/10.1016/j.psychres.2020.112903
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, e pessoas entre 18 e 30 anos obtiveram maior score para o sofrimento psíquico durante a pandemia99. Qiu J, Shen B, Zhao M, Wang Z, Xie B, Xu Y. A nationwide survey of psychological distress among Chinese people in the COVID-19 epidemic: implications and policy recommendations. Gen Psychiatry. 2020;33(2):e100213. doi: https://doi.org/10.1136/gpsych-2020-100213
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. É possível refletir sobre o caso das mulheres no contexto brasileiro, principalmente nas idades apontadas pelos estudos, podendo confrontar com situações de machismo e violência sofridas antes da crise pandêmica, que podem se intensificar no momento atual, impactando na saúde mental feminina. Alguns exemplos são o aumento da violência na quarentena, a sobrecarga de trabalho doméstico e de cuidados com doentes, e também a diminuição de contatos e vínculos com redes de apoio e escuta2222. Bevilacqua PD. Mulheres, violência e pandemia de coronavírus [Internet]. Belo Horizonte: Instituto René Rachou, Fiocruz Minas; 2020 [cited 2020 May 16]. Available from: Available from: http://www.cpqrr.fiocruz.br/pg/artigo-mulheres-violencia-e-pandemia-de-coronavirus/
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.

O tipo de ocupação evidenciou determinados grupos com maior vulnerabilidade em saúde mental frente à pandemia. Nesse sentido, os estudantes foram apontados como tendo um impacto psicológico ao surto e níveis mais altos de estresse, ansiedade e depressão. Isso pode estar interligado às idades com maior score indicadas e à incerteza do futuro, pois todas as escolas e universidades foram fechadas em função do vírus2020. Wang C, Pan R, Wan X, Tan Y, Xu L, Ho CS, et al. Immediate psychological responses and associated factors during the initial stage of the 2019 coronavirus disease (COVID-19) epidemic among the general population in China. Int J Environ Res Public Health. 2020;17(5):1729. doi: https://doi.org/10.3390/ijerph17051729
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Identificou-se também que os trabalhadores imigrantes, em especial os domésticos, apresentaram maior nível de sofrimento, devido às dificuldades de acesso aos serviços de saúde, ao risco de perda do emprego, à falta de acesso ao material de proteção e à informação devido às barreiras do idioma de origem99. Qiu J, Shen B, Zhao M, Wang Z, Xie B, Xu Y. A nationwide survey of psychological distress among Chinese people in the COVID-19 epidemic: implications and policy recommendations. Gen Psychiatry. 2020;33(2):e100213. doi: https://doi.org/10.1136/gpsych-2020-100213
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,2323. Liem A, Wang C, Wariyanti Y, Latkin CA, Hall BJ. The neglected health of international migrant workers in the COVID-19 epidemic. Lancet Psychiatry. 2020;7(4):e20. doi: https://doi.org/10.1016/S2215-0366(20)30076-6
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Quando se abordam situações de saúde mental e grupos vulneráveis é necessário apontar que, no contexto brasileiro, não se enfrenta somente a urgência de uma pandemia, mas também a perpetuação de uma violência estrutural, a qual se potencializa enquanto ameaça à sobrevivência da população. Embora a COVID-19 não diferencie classe social, e seu contágio seja democrático, as taxas de mortalidade de doenças infectocontagiosas não o são, e diferentes grupos estão sujeitos a diferentes riscos. Isto porque, em nossa sociedade, há grande desigualdade social, pobreza, desemprego, pessoas vivendo nas ruas, em favelas, e população de imigrantes.

É pertinente destacar o caso dos imigrantes - grupos em situação de vulnerabilidade também no contexto brasileiro - pois, de maneira geral, eles não possuem políticas ou diretrizes específicas, e já ocorrem dificuldades no seu acesso à rede de saúde pública, e, consequentemente, à da saúde mental. Entre as questões que podem aumentar a vulnerabilidade desses grupos frente à pandemia estão as suas características culturais diferenciadas, a dificuldade de falar a língua do país onde vivem, a falta de documentação, as formas de trabalho, e as fragilidades do sistema em acolhê-los2424. Guerra K, Ventura M. Bioética, imigração e assistência à saúde: tensões e convergências sobre o direito humano à saúde no Brasil na integração regional dos países. Cad Saúde Coletiva. 2017;25(1):123-9. doi: https://doi.org/10.1590/1414-462x201700010185
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Por seguinte, observa-se que as publicações estudadas apresentam a experiência em países que já vivenciaram, em sua história recente, outras epidemias virais, como a SARS-CoV em 2002 e a MERS-CoV em 20122525. Chan-Yeung M. Severe acute respiratory syndrome (SARS) and healthcare workers. Int J Occup Environ Health. 2004;10(4):421-7. doi: https://doi.org/10.1179/oeh.2004.10.4.421
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-2626. Batawi S, Tarazan N, Al-Raddadi R, Al Qasim E, Sindi A., AL Johni S, et al. Quality of life reported by survivors after hospitalization for Middle East Respiratory Syndrome (MERS). Health Qual Life Outcomes. 2019;17(1):101. doi: https://doi.org/10.1186/s12955-019-1165-2
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. Isso pode favorecer certo acúmulo de conhecimento e experiência, que possibilita dar respostas mais rápidas na direção de uma proposição de atendimento a crises psicológicas nessa pandemia.

No que tange à criação de ações e intervenções para agir diante de situações de vulnerabilidade na saúde mental, evidencia-se a criação e a implementação de políticas e diretrizes gerais para o atendimento às pessoas, nas crises psicológicas relacionadas à pandemia99. Qiu J, Shen B, Zhao M, Wang Z, Xie B, Xu Y. A nationwide survey of psychological distress among Chinese people in the COVID-19 epidemic: implications and policy recommendations. Gen Psychiatry. 2020;33(2):e100213. doi: https://doi.org/10.1136/gpsych-2020-100213
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,1313. Bao Y, Sun Y, Meng S, Shi J, Lu L. 2019-nCoV epidemic: address mental health care to empower society. Lancet. 2020;395(10224):e37-8. doi: https://doi.org/10.1016/S0140-6736(20)30309-3
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,2727. Liu S, Yang L, Zhang C, Xiang YT, Liu Z, Hu S, et al. Online mental health services in China during the COVID-19 outbreak. Lancet Psychiatry. 2020;7(4):e17-8. doi: https://doi.org/10.1016/S2215-0366(20)30077-8
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, destacadas como uma importante e prioritária ação de gestão nacional de saúde pública nos países1111. Kang L, Li Y, Hu S, Chen M, Yang C, Yang BX, et al. The mental health of medical workers in Wuhan, China dealing with the 2019 novel coronavirus. Lancet Psychiatry. 2020;7(3):e14. doi: https://doi.org/10.1016/S2215-0366(20)30047-X
https://doi.org/10.1016/S2215-0366(20)30...
,1313. Bao Y, Sun Y, Meng S, Shi J, Lu L. 2019-nCoV epidemic: address mental health care to empower society. Lancet. 2020;395(10224):e37-8. doi: https://doi.org/10.1016/S0140-6736(20)30309-3
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. Essas ações devem considerar as experiências dos profissionais que estão na linha de frente2828. Ho CS, Chee CY, Ho RC. Mental health strategies to combat the psychological impact of COVID-19 beyond paranoia and panic. Ann Acad Med Singapore. 2020 [cited 2020 May 16];49(3):155‐60. Available from: Available from: https://www.annals.edu.sg/pdf/49VolNo3Mar2020/V49N3p155.pdf
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, o curso da doença e o contexto do tratamento (por exemplo, isolado em casa, enfermaria de isolamento comum, unidade de terapia intensiva)2929. Duan L, Zhu G. Psychological interventions for people affected by the COVID-19 epidemic. Lancet Psychiatry. 2020;7(4):300-2. doi: https://doi.org/10.1016/S2215-0366(20)30073-0
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Há uma preocupação sobre a continuidade das medidas de afastamento social e que durem por um longo período no mundo, podendo causar também um surto de casos de saúde mental. Entende-se que, acompanhada das medidas protetivas, está a necessidade de mudanças nos estilos de vida da população e que essas transformações refletem uma readaptação na vida pessoal, econômica, social e cultural das pessoas. Dessa forma, a implementação precoce de políticas e ações voltadas às demandas relacionadas à saúde mental devem considerar as experiências práticas, os dados científicos e epidemiológicos, as diferentes fases da epidemia, os contextos e as especificidades de cada grupo vulnerável.

No Brasil, surgem maiores desafios na implementação dessas políticas voltadas à saúde mental, considerando-se que elas têm sido pouco discutidas pelos governos. Isso pode estar relacionado às fragilidades na execução de ações voltadas à manutenção de cuidados básicos na crise, como a testagem, acompanhamento e tratamento dos casos clínicos, e também as políticas de auxílio econômico e social na emergência da pandemia. A visão sociocultural do problema sanitário deve incluir a importância do tema na agenda das políticas públicas, conforme preconizam os países que apresentaram as primeiras experiências, por exemplo a China.

Considera-se necessário que os governos criem diretrizes gerais para organização, implementação e monitoramento das políticas públicas voltadas à saúde mental durante o período pandêmico. Sendo assim, os estudos recomendam a capacitação dos profissionais dos diferentes níveis de atenção (primária, secundária, terciária) envolvidos no enfrentamento à COVID-19, para que eles possam conhecer e desenvolver estratégias de promoção e assistência também em saúde mental aos pacientes, pois se compreende que, no período de tratamento do vírus, esses profissionais são os principais em proximidade com as pessoas que contraíram a doença1212. Xiang YT, Li W, Zhang Q, Jin Y, Rao WW, Zeng LN, et al. Timely research papers about COVID-19 in China. Lancet. 2020;395(10225):684-5. doi: https://doi.org/10.1016/S0140-6736(20)30375-5
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,2828. Ho CS, Chee CY, Ho RC. Mental health strategies to combat the psychological impact of COVID-19 beyond paranoia and panic. Ann Acad Med Singapore. 2020 [cited 2020 May 16];49(3):155‐60. Available from: Available from: https://www.annals.edu.sg/pdf/49VolNo3Mar2020/V49N3p155.pdf
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-2929. Duan L, Zhu G. Psychological interventions for people affected by the COVID-19 epidemic. Lancet Psychiatry. 2020;7(4):300-2. doi: https://doi.org/10.1016/S2215-0366(20)30073-0
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. Para organizar essas diretrizes é indicado que sejam orientadas por pesquisas científicas, de modo que a alocação de recursos promova o desenvolvimento de tratamentos mais adequados que envolvam questões de saúde mental2727. Liu S, Yang L, Zhang C, Xiang YT, Liu Z, Hu S, et al. Online mental health services in China during the COVID-19 outbreak. Lancet Psychiatry. 2020;7(4):e17-8. doi: https://doi.org/10.1016/S2215-0366(20)30077-8
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28. Ho CS, Chee CY, Ho RC. Mental health strategies to combat the psychological impact of COVID-19 beyond paranoia and panic. Ann Acad Med Singapore. 2020 [cited 2020 May 16];49(3):155‐60. Available from: Available from: https://www.annals.edu.sg/pdf/49VolNo3Mar2020/V49N3p155.pdf
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-2929. Duan L, Zhu G. Psychological interventions for people affected by the COVID-19 epidemic. Lancet Psychiatry. 2020;7(4):300-2. doi: https://doi.org/10.1016/S2215-0366(20)30073-0
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Referente à produção de informações e à comunicação, avalia-se a necessidade do conhecimento por parte da população leiga dos possíveis problemas de sofrimento mental a que estará exposta em função da pandemia, das possibilidades de atendimento e de estratégias para o seu enfrentamento. Nessa direção, é relevante a produção de informações que possibilitem a identificação precoce dos sinais e sintomas, pelos serviços psicossociais existentes e das estratégias para lidar com estresse e outros problemas psicológicos, através da produção de manuais de saúde mental, cartilhas sobre serviços de atendimento e o uso de redes sociais que ajudem a eliminar o estigma associado à epidemia1313. Bao Y, Sun Y, Meng S, Shi J, Lu L. 2019-nCoV epidemic: address mental health care to empower society. Lancet. 2020;395(10224):e37-8. doi: https://doi.org/10.1016/S0140-6736(20)30309-3
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,2828. Ho CS, Chee CY, Ho RC. Mental health strategies to combat the psychological impact of COVID-19 beyond paranoia and panic. Ann Acad Med Singapore. 2020 [cited 2020 May 16];49(3):155‐60. Available from: Available from: https://www.annals.edu.sg/pdf/49VolNo3Mar2020/V49N3p155.pdf
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29. Duan L, Zhu G. Psychological interventions for people affected by the COVID-19 epidemic. Lancet Psychiatry. 2020;7(4):300-2. doi: https://doi.org/10.1016/S2215-0366(20)30073-0
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-3030. Park SC, Park YC. Mental health care Measures in response to the 2019 novel coronavirus outbreak in Korea. Psychiatry Investig. 2020;17(2):85-6. doi: https://doi.org/10.30773/pi.2020.0058
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O acesso à informação requer algumas estratégias que considerem grupos específicos: informações em formato diagramático ou de áudio, e em linguagem simples, para aqueles sem formação educacional2020. Wang C, Pan R, Wan X, Tan Y, Xu L, Ho CS, et al. Immediate psychological responses and associated factors during the initial stage of the 2019 coronavirus disease (COVID-19) epidemic among the general population in China. Int J Environ Res Public Health. 2020;17(5):1729. doi: https://doi.org/10.3390/ijerph17051729
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, e em vários idiomas, considerando-se os imigrantes2323. Liem A, Wang C, Wariyanti Y, Latkin CA, Hall BJ. The neglected health of international migrant workers in the COVID-19 epidemic. Lancet Psychiatry. 2020;7(4):e20. doi: https://doi.org/10.1016/S2215-0366(20)30076-6
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e idosos que podem ter acesso limitado a serviços de internet e smartphones1414. Yang Y, Li W, Zhang Q, Zhang L, Cheung T, Xiang YT. Mental health services for older adults in China during the COVID-19 outbreak. Lancet Psychiatry. 2020;7(4):e19. doi: https://doi.org/10.1016/S2215-0366(20)30079-1
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. Observou-se que a maior satisfação com as informações de saúde foi associada à menor vulnerabilidade em saúde mental1212. Xiang YT, Li W, Zhang Q, Jin Y, Rao WW, Zeng LN, et al. Timely research papers about COVID-19 in China. Lancet. 2020;395(10225):684-5. doi: https://doi.org/10.1016/S0140-6736(20)30375-5
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,2020. Wang C, Pan R, Wan X, Tan Y, Xu L, Ho CS, et al. Immediate psychological responses and associated factors during the initial stage of the 2019 coronavirus disease (COVID-19) epidemic among the general population in China. Int J Environ Res Public Health. 2020;17(5):1729. doi: https://doi.org/10.3390/ijerph17051729
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,2828. Ho CS, Chee CY, Ho RC. Mental health strategies to combat the psychological impact of COVID-19 beyond paranoia and panic. Ann Acad Med Singapore. 2020 [cited 2020 May 16];49(3):155‐60. Available from: Available from: https://www.annals.edu.sg/pdf/49VolNo3Mar2020/V49N3p155.pdf
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O acesso a esclarecimentos sobre a COVID-19 também diminui a ansiedade e o sofrimento causados pela desinformação. Isso pode ser propiciado através de livros, cartilhas de prevenção à COVID-19, palestras, entre outros2727. Liu S, Yang L, Zhang C, Xiang YT, Liu Z, Hu S, et al. Online mental health services in China during the COVID-19 outbreak. Lancet Psychiatry. 2020;7(4):e17-8. doi: https://doi.org/10.1016/S2215-0366(20)30077-8
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,3131. Xiang YT, Yang Y, Li W, Zhang L, Zhang Q, Cheung T, et al. Timely mental health care for the 2019 novel coronavirus outbreak is urgently needed. Lancet Psychiatry. 2020;7(3):228-9. doi: https://doi.org/10.1016/S2215-0366(20)30046-8
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. Destaca-se a importância de informações aos pacientes com COVID-19 e seus familiares sobre o progresso e atualizações do estado de saúde que surgem como estratégias educativas e preventivas de saúde mental. Deve ser incentivada a interação entre o paciente e sua família, através de tecnologias de comunicação virtual, a fim de diminuir o isolamento social.

Na direção da comunicação e informação, o enfrentamento das repercussões da pandemia na saúde mental das pessoas ainda é um problema novo para os diferentes países e a ampla disseminação de experiências alcançará os objetivos de comunicar descobertas oportunas e cruciais à comunidade científica internacional, além de divulgar essas informações para os profissionais de saúde na linha de frente3131. Xiang YT, Yang Y, Li W, Zhang L, Zhang Q, Cheung T, et al. Timely mental health care for the 2019 novel coronavirus outbreak is urgently needed. Lancet Psychiatry. 2020;7(3):228-9. doi: https://doi.org/10.1016/S2215-0366(20)30046-8
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Do mesmo modo, estratégias de mídia social podem ser usadas para promover a saúde mental e reduzir o estigma por meio de intervenções on-line. As informações podem ser mais eficazes se entregues em formato de vídeo, se compartilhadas em mais de uma mídia, se incluírem experiências pessoais, algum humor no conteúdo, e mais detalhes sobre tipos e formas de tratamento3232. Martini T, Czepielewski LS, Baldez DP, Gliddon E, Kieling C, Berk L, et al. Mental health information online: what we have learned from social media metrics in BuzzFeed’s Mental Health Week. Trends Psychiatry Psychother. 2018;40(4):326-36. doi: https://doi.org/10.1590/2237-6089-2018-0023
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A capacidade de se comunicar com o público é considerada crucial para reduzir as incertezas3333. Sim M. Psychological trauma of Middle East Respiratory Syndrome victims and bereaved families. Epidemiol Health. 2016;38:e2016054. doi: https://doi.org/10.4178/epih.e2016054
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, e a disseminação de informações falsas - as fake news - tem sido um grande problema citado pelos autores dos artigos analisados. Informações falsas quanto à doença, tratamento e medidas a serem tomadas geram medo, insegurança e sofrimento. Frente a esse problema, no Brasil, algumas medidas vêm sendo implementadas, entre as quais as iniciativas de órgãos governamentais e da mídia, disponibilizando, em suas páginas na internet, um link específico para validar informações e evitar fakenews relacionadas à COVID-193434. Ministério da Saúde (BR) [Internet]. Brasília, c2020 [cited 2020 May 16] Novo Coronavírus: Fake News; [about 1 screen]. Available from: Available from: https://www.saude.gov.br/component/tags/tag/novo-coronavirus-fake-news
https://www.saude.gov.br/component/tags/...
-3535. Portal G1 de Notícias [Internet]. Rio de Janeiro: Globo Comunicação e Participações; c2000-2020 [citado 2020 maio 16]. Fato ou fake: Coronavírus; [about 1 screen]. Available from: Available from: https://g1.globo.com/fato-ou-fake/coronavirus/
https://g1.globo.com/fato-ou-fake/corona...
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Em relação às práticas assistenciais em saúde mental, destaca-se a implantação de serviços de atendimento on-line para diversos grupos, em toda a China, 24 horas, e em todos os dias da semana1313. Bao Y, Sun Y, Meng S, Shi J, Lu L. 2019-nCoV epidemic: address mental health care to empower society. Lancet. 2020;395(10224):e37-8. doi: https://doi.org/10.1016/S0140-6736(20)30309-3
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,2020. Wang C, Pan R, Wan X, Tan Y, Xu L, Ho CS, et al. Immediate psychological responses and associated factors during the initial stage of the 2019 coronavirus disease (COVID-19) epidemic among the general population in China. Int J Environ Res Public Health. 2020;17(5):1729. doi: https://doi.org/10.3390/ijerph17051729
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-2121. Jiang X, Deng L, Zhu Y, Ji H, Tao L, Liu L, et al. Psychological crisis intervention during the outbreak period of new coronavirus pneumonia from experience in Shanghai. Psychiatry Res. 2020;286:112903. doi: https://doi.org/10.1016/j.psychres.2020.112903
https://doi.org/10.1016/j.psychres.2020....
,2727. Liu S, Yang L, Zhang C, Xiang YT, Liu Z, Hu S, et al. Online mental health services in China during the COVID-19 outbreak. Lancet Psychiatry. 2020;7(4):e17-8. doi: https://doi.org/10.1016/S2215-0366(20)30077-8
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,2929. Duan L, Zhu G. Psychological interventions for people affected by the COVID-19 epidemic. Lancet Psychiatry. 2020;7(4):300-2. doi: https://doi.org/10.1016/S2215-0366(20)30073-0
https://doi.org/10.1016/S2215-0366(20)30...
,3131. Xiang YT, Yang Y, Li W, Zhang L, Zhang Q, Cheung T, et al. Timely mental health care for the 2019 novel coronavirus outbreak is urgently needed. Lancet Psychiatry. 2020;7(3):228-9. doi: https://doi.org/10.1016/S2215-0366(20)30046-8
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. As intervenções on-line de saúde mental são cada vez mais importantes para fornecer acesso e apoiar a eficácia do tratamento de saúde mental3636. Chikersal P, Belgrave D, Doherty G, Enrique A, Palacios JE, Richards D, et al. Understanding client support strategies to improve clinical outcomes in an online mental health intervention. In: CHI’20: Proceedings of the 2020 CHI Conference on Human Factors in Computing Systems; 2020 Apr 25-30; Honolulu, United States of America. New York: ACM; 2020 [cited 2020 May 16]. Paper 214. Available from: Available from: https://www.derekrichards.ie/wp-content/uploads/2020/02/FINAL.CHI2020_Supporter_Client_Interactions-6.pdf
https://www.derekrichards.ie/wp-content/...
. A necessidade de isolamento social transformou as estratégias on-line em possibilidades centrais para esse atendimento, implementadas principalmente pelos serviços de saúde mental e pelas universidades mediante a realização de grupos e consultas com diferentes abordagens, além da disseminação de técnicas que podem ser autoadministradas sem a presença do profissional.

Já em relação aos profissionais de saúde, as produções sugerem estratégias relacionadas ao reconhecimento dos impactos da pandemia pela COVID-19 relacionadas ao trabalho; a realização da triagem clínica regular para depressão, ansiedade e suicídio3131. Xiang YT, Yang Y, Li W, Zhang L, Zhang Q, Cheung T, et al. Timely mental health care for the 2019 novel coronavirus outbreak is urgently needed. Lancet Psychiatry. 2020;7(3):228-9. doi: https://doi.org/10.1016/S2215-0366(20)30046-8
https://doi.org/10.1016/S2215-0366(20)30...
; o fortalecimento do apoio logístico; o estabelecimento de um sistema de turnos, possibilitando o descanso e revezamento; a criação de plataformas on-line com orientações para os pacientes, visando diminuir a pressão sobre as equipes de saúde1111. Kang L, Li Y, Hu S, Chen M, Yang C, Yang BX, et al. The mental health of medical workers in Wuhan, China dealing with the 2019 novel coronavirus. Lancet Psychiatry. 2020;7(3):e14. doi: https://doi.org/10.1016/S2215-0366(20)30047-X
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Avalia-se que ações de proteção à saúde mental dos profissionais de saúde são um componente importante nas medidas de saúde pública, exigindo especial atenção às mulheres que são enfermeiras e trabalhadores da linha de frente3737. Lai AL, Millet JK, Daniel S, Freed JH, Whittaker GR. The SARS-CoV fusion peptide forms an extended bipartite fusion platform that perturbs membrane order in a calcium-dependent manner. J Mol Biol. 2017;429(24):3875-92. doi: https://doi.org/10.1016/j.jmb.2017.10.017
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, devendo também reduzir o risco de infecções entre os profissionais e sua exposição ao estresse e trauma. Outra ação é identificar grupos de alto risco para intervenções precoces - estudantes e idosos - com base em informações sociodemográficas, priorizando os esforços a fim de evitar eventos extremos, como suicídio e comportamento impulsivo1414. Yang Y, Li W, Zhang Q, Zhang L, Cheung T, Xiang YT. Mental health services for older adults in China during the COVID-19 outbreak. Lancet Psychiatry. 2020;7(4):e19. doi: https://doi.org/10.1016/S2215-0366(20)30079-1
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,2020. Wang C, Pan R, Wan X, Tan Y, Xu L, Ho CS, et al. Immediate psychological responses and associated factors during the initial stage of the 2019 coronavirus disease (COVID-19) epidemic among the general population in China. Int J Environ Res Public Health. 2020;17(5):1729. doi: https://doi.org/10.3390/ijerph17051729
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-2121. Jiang X, Deng L, Zhu Y, Ji H, Tao L, Liu L, et al. Psychological crisis intervention during the outbreak period of new coronavirus pneumonia from experience in Shanghai. Psychiatry Res. 2020;286:112903. doi: https://doi.org/10.1016/j.psychres.2020.112903
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,2929. Duan L, Zhu G. Psychological interventions for people affected by the COVID-19 epidemic. Lancet Psychiatry. 2020;7(4):300-2. doi: https://doi.org/10.1016/S2215-0366(20)30073-0
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,3838. Shigemura J, Ursano RJ, Morganstein JC, Kurosawa M, Benedek DM. Public responses to the novel 2019 coronavirus (2019‐nCoV) in Japan: mental health consequences and target populations. Psychiatry Clin Neurosci. 2020;74(4):281-2. doi: https://doi.org/10.1111/pcn.12988
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. Em relação aos trabalhadores imigrantes, sugere-se o suporte informativo e social durante a epidemia e a priorização de ações de saúde pública voltadas a esse grupo, garantindo que sua saúde não seja negligenciada2323. Liem A, Wang C, Wariyanti Y, Latkin CA, Hall BJ. The neglected health of international migrant workers in the COVID-19 epidemic. Lancet Psychiatry. 2020;7(4):e20. doi: https://doi.org/10.1016/S2215-0366(20)30076-6
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De maneira geral, a utilização de medidas de prevenção ao contágio do novo coronavírus, como evitar o compartilhamento de utensílios, higiene das mãos e usar máscaras, independente da presença ou ausência de sintomas, foram associadas a níveis mais baixos no impacto psicológico. Embora a OMS enfatize que as máscaras são eficazes somente quando usadas em combinação com outras estratégias de prevenção, o uso delas pode oferecer benefícios psicológicos potenciais, proporcionando uma sensação de segurança2020. Wang C, Pan R, Wan X, Tan Y, Xu L, Ho CS, et al. Immediate psychological responses and associated factors during the initial stage of the 2019 coronavirus disease (COVID-19) epidemic among the general population in China. Int J Environ Res Public Health. 2020;17(5):1729. doi: https://doi.org/10.3390/ijerph17051729
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Por fim, as publicações consultadas apontam pesquisas e experiências sobre a importância de não negligenciar a saúde mental no contexto do novo coronavírus. É essencial que as vivências de outros países sejam consideradas para a criação de políticas e ações relativas à saúde mental na sociedade brasileira.

CONCLUSÃO

Nas repercussões na saúde mental provocadas pela pandemia do novo coronavírus, identificou-se o surgimento e/ou a intensificação de diversas manifestações de sofrimento mental, como ansiedade e depressão, principalmente entre os grupos vulneráveis. Entre esses grupos destaca-se o de profissionais de saúde que atuam na linha de frente no enfrentamento da COVID-19, necessitando de estratégias que lhes proporcionem maior segurança: o fornecimento de EPIs adequados, além da oferta de espaços de escuta e acolhimento. Somam-se a esses grupos os trabalhadores imigrantes, pessoas diagnosticadas ou com suspeita de COVID-19, além daquelas com comorbidades clínicas e psiquiátricas prévias.

Da mesma forma, observou-se a emergência na construção de estratégias voltadas para saúde mental como parte importante dos protocolos e diretrizes no enfrentamento de epidemias e pandemias. Uma comunicação clara e confiável também deve ser incorporada nas intervenções para acompanhar o ritmo crescente da expansão da COVID-19. Com isso, a tecnologia digital é considerada uma aliada para o cuidado em saúde mental nesse contexto de pandemia, por meio da oferta de espaços terapêuticos por aplicativos ou salas de atendimento virtual.

Por outro lado, este estudo também possibilitou incitar, ainda mais, a histórica discussão sobre as desigualdades sociais no Brasil, pois apontou as tecnologias digitais e on-line como principais recursos utilizados e sugeridos para o cuidado em saúde mental durante a pandemia. Isto porque, se até mesmo o acesso à moradia, à água e à higiene são privilégios de uma parcela da população brasileira, como esperar que a internet, o telefone ou outras tecnologias possam ser acessadas para o cuidado em saúde mental?

Referente às possíveis contribuições para a enfermagem, o artigo pode auxiliar para que o enfermeiro esteja atento à importância de identificar/reconhecer os efeitos da pandemia pelo novo coronavírus na saúde mental das pessoas, considerando as particularidades e diversidades de cada contexto e de diferentes grupos vulneráveis. A partir disso também aponta possibilidades na direção do desenvolvimento de novas formas de intervenção em saúde mental. Destaca-se o atendimento on-line como uma potente ferramenta a ser implementada pela enfermagem em epidemias/pandemias, pela exigência do distanciamento social ou quarentena, mas também enquanto uma possibilidade de sua continuidade para além desse momento. As dificuldades e desafios de superação impostos para o cuidado em saúde mental, em uma crise dessa proporção, podem trazer importantes contribuições à comunidade científica da enfermagem, mediante a necessidade de se reinventar e produzir novos conhecimentos. Ainda ressalta-se a necessidade de a enfermagem assumir uma posição em defesa da constituição de políticas governamentais e diretrizes específicas em saúde mental enquanto prioridade pelos seus formuladores.

Como fator limitante deste estudo está o fato de haver poucas pesquisas científicas sobre o impacto da pandemia pelo novo coronavírus na saúde mental da população, devido à novidade do tema. Com isso, e como contribuição desta revisão, há a necessidade de investimentos em pesquisas e no desenvolvimento de intervenções e ações de saúde mental em epidemias no contexto brasileiro.

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Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    26 Mar 2021
  • Data do Fascículo
    2021

Histórico

  • Recebido
    19 Jun 2020
  • Aceito
    22 Set 2020
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