Open-access Inovações tecnológicas na atenção primária para a gestão de situações de desastres: revisão de escopo

RESUMO

Objetivo:  Analisar a literatura científica acerca das inovações tecnológicas implementadas nos serviços da Atenção Primária à Saúde para a gestão de situações de desastres.

Método:  Revisão de escopo seguindo o referencial metodológico de Joanna Briggs Institute, realizada em novembro de 2024, nas bases LILACS (BVS), PubMed (NLM/NCBI), Web of Science, CINAHL (Ebsco), EMBASE (Elsevier) e IEEE Xplore. Foram incluídos artigos com relação entre Atenção Primária à Saúde, inovações tecnológicas e gestão de situações de desastres, e organizados no Rayyan®.

Resultados:  De 832 publicações, foram selecionados 58 estudos (predominantemente das Américas, entre 2021 e 2023). A análise destacou a telessaúde, a inteligência artificial e ferramentas inteligentes como inovações estratégicas na Atenção Primária à Saúde para a gestão de desastres. Essas tecnologias facilitaram a continuidade do cuidado tanto para necessidades específicas de desastres quanto para outros problemas de saúde, ampliando significativamente o acesso e reduzindo riscos. No entanto, permanecem desafios relacionados à inclusão digital, limitações de infraestrutura e ao equilíbrio entre tecnologia e cuidado centrado no ser humano.

Conclusão:  As inovações tecnológicas são ferramentas estratégicas na continuidade do cuidado e para mitigar riscos em desastres. Entretanto, ainda são necessários investimentos em infraestrutura, inclusão digital e políticas públicas sustentáveis.

Descritores:
Atenção primária à saúde; Gestão em saúde; Preparação em desastres; Gestão de ciência tecnologia e inovação em saúde; Tecnologia biomédica

ABSTRACT

Objective:  To analyze the scientific literature on technological innovations implemented in Primary Health Care services to manage disaster situations.

Method:  Scoping review following the methodological framework of the Joanna Briggs Institute. It was carried out in November 2024 on the LILACS (VHL), PubMed (NLM/NCBI), Web of Science, CINAHL (Ebsco), EMBASE (Elsevier) and IEEE Xplore databases. Articles related to Primary Health Care, technological innovations and disaster management were included and organized in Rayyan®. Data were analyzed using Bardin’s Content Analysis structured into thematic categories.

Results:  Out of 832 publications, 58 studies (predominantly from the Americas, 2021-2023) were selected. The analysis highlighted telehealth, artificial intelligence, and smart tools as strategic innovations in Primary Health Care for disaster management. These technologies facilitated care continuity for both disaster-specific needs and other health issues, significantly enhancing accessibility and reducing risk. Nevertheless, persistent challenges include digital inclusion, infrastructure limitations, and balancing technology with human-centered care.

Conclusion:  Technological innovations are strategic tools in the continuity of care and to mitigate risks in disasters. However, investments in infrastructure, digital inclusion and sustainable public policies are still needed.

Descriptors:
Primary health care; Health management; Disaster preparedness; Health sciences, technology, and innovation management; Biomedical technology

RESUMEN

Objetivo:  Analizar la literatura científica sobre las innovaciones tecnológicas implementadas en los servicios de Atención Primaria de Salud para la gestión de situaciones de desastres.

Método:  revisión de alcance siguiendo el marco metodológico del Instituto Joanna Briggs. Se realizó en noviembre de 2024, en las bases LILACS, PubMed, Web of Science, CINAHL, EMBASE e IEEE Xplore. Se incluyeron artículos que relacionaban Atención Primaria de Salud, innovaciones tecnológicas y gestión de situaciones de desastres, y fueron organizados en Rayyan®.

Resultados:  De 832 publicaciones, se seleccionaron 58 estudios (predominantemente de las Américas, entre 2021 y 2023). El análisis resaltó la telesalud, la inteligencia artificial y las herramientas inteligentes como innovaciones estratégicas en la Atención Primaria de Salud para la gestión de desastres. Estas tecnologías facilitaron la continuidad del cuidado tanto para necesidades específicas de desastres como para otros problemas de salud, mejorando significativamente el acceso y reduciendo riesgos. Sin embargo, persisten desafíos relacionados con la inclusión digital, las limitaciones de infraestructura y el equilibrio entre la tecnología y una atención centrada en la persona.

Conclusión:  Las innovaciones tecnológicas son herramientas estratégicas para la continuidad del cuidado y para mitigar riesgos en desastres. Aún se requieren inversiones en infraestructura, inclusión digital y políticas públicas sostenibles.

Descriptores:
Atención primaria de salud; Gestión en salud; Preparación ante desastres; Gestión de ciencia tecnología e innovación en salud; Tecnología biomédica

INTRODUÇÃO

A Atenção Primária à Saúde (APS), principal porta de entrada dos usuários nos sistemas de saúde, desempenha um papel fundamental na qualidade da organização dos serviços e na coordenação do cuidado. Apesar dos avanços na cobertura da APS1, ainda existem lacunas importantes na gestão da saúde, como o financiamento público insuficiente, a falta de equipamentos, heterogeneidade no perfil dos profissionais, problemas na coordenação do cuidado, diferentes modelos de gestão, além de questões relacionadas à infraestrutura e à qualificação profissional, agravadas por desigualdades socioeconômicas. Esses desafios demandam inovação contínua nas políticas públicas e nas práticas de saúde, com investimentos na formação profissional, nas Tecnologias da Informação e Comunicação em Saúde (TICS) e em melhores condições de trabalho1.

Diante dos desafios enfrentados atualmente pelos sistemas de saúde em nível global, há uma crescente necessidade de fortalecer a APS, especialmente por meio de pesquisas que contribuam para a exploração e validação dos processos de inovação como um dos caminhos para promover a resiliência e melhorar a prestação de cuidados. Embora não apresentem uma solução única, esses estudos desempenham um papel fundamental na formulação de estratégias eficazes para atender às demandas complexas e em constante evolução da assistência à saúde em todo o mundo. Esses estudos devem promover mudanças na prestação de serviços à população e podem até levar a ajustes nas políticas de saúde, com o objetivo final de buscar melhorar a qualidade do cuidado prestada2.

As TICS, enquanto recursos estratégicos na gestão da APS em âmbito global, vêm evoluindo desde a década de 1960 e tiveram seu desenvolvimento acelerado após a pandemia de 2019, consolidando-se como instrumentos orientadores dos processos de avaliação, incorporação, disseminação, gestão e qualificação do cuidado aos usuários, além de impulsionar o desenvolvimento de pesquisas na área da inteligência artificial voltadas à melhoria dos processos de trabalho3-4.

O termo “inovação tecnológica em saúde” refere-se à aplicação do conhecimento científico e tecnológico para resolver problemas que impactam mudanças no diagnóstico, tratamento e prognóstico dos indivíduos atendidos, reduzindo custos, auxiliando profissionais e melhorando o processo de cuidado5. A assistência à saúde é compreendida como uma tecnologia e definida como a arte, a habilidade, o método ou a forma de prestar o cuidado. Assim, qualquer avanço ou adaptação que atenda às necessidades do indivíduo e de sua família é percebido e valorizado como inovação, uma vez que proporciona melhoria nas condições de vida e de saúde5-6.

Essas inovações são extremamente necessárias no campo da saúde e urgentes em situações de desastre. A frequência global de desastres que acabam resultando em emergências de saúde pública - afetando milhões de pessoas - evidencia essa realidade. A vulnerabilidade da sociedade a eventos climáticos extremos, bem como o surgimento de endemias e epidemias, aumentou significativamente, especialmente em decorrência da urbanização desordenada e da falta de planejamento adequado. As limitações das políticas públicas de saúde acabam por agravar os eventos e suas consequências7, evidenciando, assim, a necessidade de ações mais rápidas e eficientes.

A incorporação de inovações tecnológicas nos serviços de APS tem se mostrado essencial para a gestão eficaz de situações de desastre. A perspectiva do modelo Uma Só Saúde (One Health model) é especialmente relevante nesse contexto, pois reconhece a interdependência entre a saúde humana, animal e ambiental na prevenção e resposta a emergências de saúde pública, promovendo uma abordagem colaborativa e destacando a importância da inovação tecnológica facilitando a comunicação, o monitoramento e a tomada de decisão8.

O planejamento de ações de saúde em emergências de saúde pública é essencial para a prevenção, preparo, resposta, mitigação e recuperação dos impactos9. A APS desempenha um papel fundamental em todas essas etapas, contribuindo significativamente para a redução de riscos10. Ao cumprir seu papel de organizadora da rede e articular o trabalho multiprofissional e intersetorial, a APS pode atuar como um importante ponto estratégico e de gestão para diferentes tipos de desastres, como no caso da pandemia de Covid-19.

O “Marco de Sendai”, adotado em março de 2015 e vigente até 2030, é o mais recente acordo das Nações Unidas para a redução significativa do risco de desastres, recomendando um conjunto e fundamentado com proposições e metas para as diferentes partes envolvidas11. Ademais, a Agenda de Saúde Sustentável para as Américas (2018-2030) reforça o compromisso dos países membros da OPAS com metas que abordam os desafios emergentes de saúde pública em níveis regional e nacional, em consonância com os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS). Isso inclui a implementação de planos estratégicos e políticas que garantam o acesso equitativo aos serviços de saúde, mesmo em situações de desastre12.

Assim, a gestão de desastres constitui um desafio central para os sistemas de saúde em todo o mundo, com a APS desempenhando um papel fundamental na linha de frente. A integração de tecnologias na APS fortalece o preparo e a resposta a desastres. A revisão da literatura científica sobre esse tema pode revelar inovações e boas práticas para o fortalecimento de políticas e estratégias de saúde. A abordagem do contexto da APS, com vistas ao planejamento de ações para equipes multiprofissionais que integrem a gestão de riscos, especialmente no âmbito da comunidade, contribui para a melhoria da saúde das populações, desde a prevenção à recuperação, considerando as diversas circunstâncias que envolvem as emergências em saúde pública10. Um estudo identificou lacunas no processo, incluindo dificuldades na protocolização da comunicação com a população, e entre os membros da equipe, recursos financeiros insuficientes, falta de conhecimento sobre as estratégias de planejamento existentes e protocolos de emergência por parte dos profissionais e falta de tempo para desenvolver estratégias com a população, formular planos, e realizar treinamentos. A evolução da percepção de risco pode se tornar base para a criação e desenvolvimento de intervenções bem-sucedidas na APS, facilitando a comunicação com a população13.

Os países da América Latina frequentemente enfrentam um grande número de desastres naturais e emergências de saúde pública, como epidemias, inundações e terremotos, que afetam de maneira desigual as comunidades marginalizadas. As experiências na região destacam a importância de abordagens baseadas na comunidade, da colaboração intersetorial e adaptação de soluções tecnológicas aos contextos locais14-15. No entanto, os desafios persistem, como identificado por estudos que destacam lacunas nas operações de desastres na APS -, incluindo dificuldades na padronização da comunicação com a população e entre os membros da equipe, recursos financeiros insuficientes, formação profissional limitada sobre protocolos de emergência e restrições de tempo e de pessoal para o desenvolvimento e implementação de estratégias e capacitações em nível comunitário.

Uma compreensão aprofundada de como as inovações tecnológicas estão sendo adotadas e adaptadas na APS em nível global é essencial para fundamentar políticas eficazes e fortalecer a gestão de riscos de desastres. Portanto, este estudo teve como objetivo analisar a literatura científica sobre inovações tecnológicas implementadas nos serviços de APS para a gestão de situações de desastre.

MÉTODO

Trata-se de uma revisão de escopo, conduzida de acordo com o referencial metodológico do Joanna Briggs Institute e as recomendações do PRISMA Extension for Scoping Reviews. O protocolo de pesquisa foi aprovado por dois revisores, ambos pesquisadores com experiência no tema e no método, a fim de garantir a aplicabilidade da questão na busca dos estudos. O protocolo foi registrado no Open Science Framework (OSF): https://osf.io/7s3qa/?view_only=d6d058b00c7b40a78a38f885ec94b834.

A estratégia PICo foi utilizada para apresentar o problema de pesquisa, sendo: P (população): profissionais de saúde ou gestores de APS, I (intervenção/interesse): inovações tecnológicas implementadas, Co (contexto): gestão de situações de desastre. Assim, formulou-se seguinte a questão de pesquisa: Quais são as evidências disponíveis sobre as inovações tecnológicas implementadas na APS para a gestão de situações de desastre?

As buscas nas bases de dados foram realizadas em novembro de 2024 nas bases LILACS (BVS), PubMed (NLM/NCBI), Web of Science, CINAHL (Ebsco), EMBASE (Elsevier) e IEEE Xplore, utilizando os seguintes termos (palavras-chave e descritores ou Descritores em Ciências da Saúde - DeCS/MeSH) com os operadores booleanos “AND” e “OR”, conforme apresentado no Quadro 1.

Quadro 1-
Apresentação das bases de dados, estratégias de busca e número total de publicações.

Os critérios adotados para esta revisão estão detalhados no Quadro 2. Os artigos duplicados nas bases de dados foram considerados apenas uma vez.

Quadro 2-
Critérios adotados para inclusão e exclusão de estudos

Para a seleção inicial de títulos e resumos, foi utilizada a ferramenta Rayyan Qatar Computing Research Institute (Rayyan® QCRI), que facilitou a automatização do processo de revisão, incluindo a identificação de duplicatas, além de proporcionar alto nível de usabilidade e eficácia na seleção por meio da opção de duplo cegamento entre os revisores. Um fluxograma PRISMA foi construído para representar todo o processo de busca e seleção de artigos e documentos nas bases de dados16. O fluxograma PRISMA foi construído com o auxílio do site17: https://estech.shinyapps.io/prisma_flowdiagram/.

Para minimizar possíveis vieses de seleção, o processo foi conduzido de forma dupla e independente por dois pesquisadores. Nos casos em que não houve consenso, um terceiro pesquisador (principal) foi consultado. Os artigos selecionados foram, então, lidos na íntegra e analisados com base em uma matriz de avaliação que considerou as recomendações do Joanna Briggs Institute (JBI): Dados de mensuração bibliométrica (autor; ano de publicação; periódico; e país onde a pesquisa foi conduzida); Caracterização dos estudos primários (tipo de estudo); Resposta à questão de pesquisa (em forma descritiva, com posterior agrupamento dos estudos em categorias); e Nível de evidência. Foi adotada a classificação em sete níveis de evidência18: Nível 1 (N1): Revisão sistemática ou meta-análise de ensaios clínicos randomizados; Nível 2 (N2): Ensaios clínicos randomizados; Nível 3 (N3): Ensaios clínicos sem randomização; Nível 4 (N4): Estudos de coorte e caso-controle; Nível 5 (N5): Revisão sistemática de estudos descritivos e qualitativos; Nível 6 (N6): Estudos descritivos ou qualitativos; Nível 7 (N7): Opinião de especialistas.

Os estudos selecionados foram organizados em uma tabela contendo: referência do artigo; objetivo; tipo de estudo; principais resultados em resposta à questão de pesquisa; nível de evidência.

No que se refere aos aspectos éticos e autorais, foi mantido o registro de todas as etapas da revisão, respeitando-se as ideias e definições dos autores, preservando a autenticidade dos artigos e assegurando a autoria e a citação nas referências de acordo com as normas de direitos autorais. Os pesquisadores declaram que não há conflito de interesses que possa influenciar a interpretação dos resultados.

Os achados foram organizados e a análise de dados foi conduzida por meio da Análise de Conteúdo, conforme proposto por Bardin19, estruturada em três fases: pré-análise, exploração do material e tratamento dos resultados, inferência e interpretação. Em consonância com os objetivos da revisão, foram adotadas categorias temáticas. Essa abordagem possibilitou uma interpretação sistemática e coerente dos resultados, assegurando fidelidade às informações originais e ao escopo do estudo.

Para garantir a homogeneidade conceitual em relação à “inovação tecnológica” e “soluções digitais”, adotou-se uma definição ampla, considerando a inovação tecnológica em saúde como a aplicação do conhecimento científico e tecnológico para a resolução de problemas práticos. Dentro dessa definição, soluções digitais - como telessaúde, modelos matemáticos, inteligência artificial e sistemas de gestão da informação - são consideradas manifestações contemporâneas de inovação. A estratégia de busca empregou descritores amplos e específicos, permitindo a inclusão de diversos tipos de intervenções digitais em saúde. Durante a seleção dos estudos, o principal critério foi se a tecnologia representava uma abordagem inovadora voltada à melhoria do cuidado ou da gestão na APS em situações de desastre. Isso permitiu que as diversas ferramentas identificadas fossem agrupadas por temas, garantindo a coerência analítica ao longo da revisão.

RESULTADOS

Das 832 publicações inicialmente identificadas, dois revisores independentes analisaram os títulos e resumos de acordo com critérios predefinidos, selecionando 125 artigos para revisão completa do texto. Após avaliação detalhada quanto à relevância e elegibilidade, 58 estudos foram incluídos na amostra final. O guia PRISMA (Preferred Reporting Items for Systematic Reviews and Meta-Analyses) foi utilizado para descrever o provesso de busca e a seleção dos estudos (Figura 1).

Figura 1 -
Fluxograma da busca nas bases de dados.

Os estudos identificados foram provenientes na maioria de países das Américas (n=36), incluindo Estados Unidos (n=26), Brasil (n=5) e Canadá (n=5). Em termos de delineamento/tipo do estudo, a maioria empregou abordagens quantitativas (n=43), sendo prevalentes os tipos coorte (n=14) e transversal (n=13). Os demais consistiram em abordagens de métodos mistos (n=3) e qualitativas (n=12), incluindo pesquisa descritiva (n=6), relatos de experiência (n=3) e estudos de caso (n=3). Em relação ao período de publicação, houve predominância de estudos publicados em 2021 (n=19) e 2023 (n=18), evidenciando o crescente interesse pelo tema nos últimos anos. A síntese dos artigos identificados está detalhada no Quadro 3.

Quadro 3-
Síntese dos artigos identificados na revisão.

A análise dos artigos resultou em três categorias temáticas, apresentadas no Quadro 4.

Quadro 4-
Categorias temáticas dos estudos analisados na revisão de escopo.

DISCUSSÃO

Tema 1: Inovações tecnológicas para a gestão do cuidado na APS durante situações de desastre

A análise da revisão de escopo destacou 22 artigos que investigaram inovações tecnológicas para o gerenciamento do cuidado na APS durante situações de desastre, em que o foco principal foi a pandemia de Covid-19 (n=21).

Nesse contexto, a telessaúde emergiu como uma inovação crucial para o manejo de casos suspeitos ou confirmados de Covid-19. Os estudos descreveram a telessaúde como a utilização de plataformas virtuais20,36,38,45,47, linhas telefônicas e aplicativos de mensagens móveis como WhatsApp e SMS29,45,59,66,73. Estudos56,59,66 demonstraram a adaptabilidade dessas ferramentas pré-existentes para novos usos durante a pandemia, aproveitando o amplo acesso a dispositivos móveis, o que garantiu a flexibilidade da telemedicina, principalmente para pacientes impossibilitados de participar de consultas por vídeo. Além disso, a telessaúde ajudou a limitar a exposição do paciente a outras pessoas, resultando na redução das taxas de casos, hospitalizações e mortalidade36,66.

Quanto ao uso de ferramentas inteligentes e inteligência artificial, sistemas inovadores foram desenvolvidos, como o CoSMoS, um sistema de monitoramento de sintomas automatizado por robôs, desenvolvido na Malásia que utilizava a plataforma de mensagens Telegram37; aplicativos de triagem e rastreamento na África do Sul70; e modelos matemáticos na Turquia simulando cenários de surtos67. Nos Estados Unidos, um algoritmo identificou pacientes mais vulneráveis a complicações graves da Covid-19, utilizando dados demográficos e de condições crônicas27. No Brasil, a inteligência artificial espacial otimizou recursos para a campanha nacional de vacinação contra a Covid-1963, enquanto na Itália foi criada uma árvore de decisão baseada em deep learning para aprimorar a triagem e prever a necessidade de hospitalização de pacientes com Covid-1964.

Com relação aos processos de gestão como estratégia para fomentar a inovação em situações de desastre na APS, estudos enfatizam a organização dos serviços e o treinamento de profissionais para responder efetivamente a emergências de saúde. Esses estudos destacam a importância do treinamento de profissionais de saúde32,69 em manejo de casos, implementação de medidas preventivas, uso adequado de equipamentos de proteção individual, manuseio seguro de amostras diagnósticas e apoio psicológico aos pacientes. Além disso, os estudos destacam a importância da educação pública pelas equipes de APS durante as consultas, com o uso de mídias sociais, plataformas online, ligações telefônicas e materiais educativos para disseminação de informações confiáveis32,70.

Outras estratégias identificadas como eficazes durante a pandemia de Covid-19 incluem: ampliação da força de trabalho da APS38,62; integração de recursos para uso regional eficiente38,62; incorporação da saúde digital na prestação de serviços38,59,62,69; desenvolvimento e implementação de procedimentos operacionais padronizados70 e guias de teleconsulta62; mobilização da APS para vigilância e diagnóstico de casos, prestação de cuidado comunitário e realização de campanhas de vacinação59,69-70; manutenção de equipes altamente capacitadas e experientes em emergências de saúde pública62. Os agentes comunitários de saúde foram apontados como recursos indispensáveis ​​na entrega de suprimentos e no acompanhamento contínuo dos pacientes69.

Ademais, um estudo sobre desastres naturais75 ressaltou a importância crítica da distinção entre as fases de gestão de emergências: preparação, resposta e recuperação. O estudo enfatizou o apoio a programas de atenção domiciliar para auxiliar equipes e pacientes durante desastres naturais, incluindo visitas telefônicas e a rápida retomada do cuidado aos pacientes.

Na área de Enfermagem, as inovações tecnológicas ampliam o escopo da prática profissional, possibilitando o monitoramento remoto, a educação em saúde, a coordenação de equipes multiprofissionais e as atividades de vigilância epidemiológica. No entanto, elas exigem preparo para lidar com plataformas digitais, avaliação crítica dos algoritmos utilizados e defesa da inclusão dos princípios éticos da profissão na governança dessas tecnologias25,39,45,49. O reconhecimento da liderança da enfermagem, especialmente dos agentes comunitários de saúde na APS69, evidencia a necessidade de articulação entre a formação técnico-científica, o reconhecimento profissional e a participação ativa na definição e implementação de soluções digitais, a fim de garantir o cuidado centrado na pessoa e a redução das desigualdades.

Tema 2: Inovações tecnológicas e tecnologias para o manejo de outras condições de saúde na APS durante situações de desastre

Esta categoria incluiu 33 artigos que examinaram o uso ampliado da telessaúde para o manejo de diversas emergências de saúde pública, como a pandemia de Covid-19. Ficou evidente que as TICs, rapidamente implementadas durante a pandemia, foram essenciais para a manutenção da qualidade da assistência à saúde, especialmente em meio às restrições físicas impostas21,25,34,42,57,77.

A telessaúde foi amplamente utilizada em diferentes tipos de consultas, especialmente em casos de condições crônicas como hipertensão52 e diabetes mellitus23,52,58,69,72, permitindo o manejo dessas condições durante e após as emergências de saúde pública (23.

Os pesquisadores também detalharam o uso da telessaúde para pacientes idosos31,33, ressaltando a necessidade de melhorar a segurança do cuidado por meio de investimentos em infraestrutura e políticas de capacitação. As informações sobre privacidade dos usuários e os benefícios da telessaúde foram destacados como essenciais33.

Inovações no uso de tecnologias da internet para comunicação e consultas remotas foram exploradas, incluindo consultas telefônicas30, plataformas web e aplicativos móveis de saúde (mHealth)24,74. Essas tecnologias facilitam a coleta e a transmissão de dados de saúde do paciente, como histórico de saúde e dados biométricos, e se integram a dispositivos conectados, como medidores de pressão arterial e glicosímetros, fornecendo às equipes de APS dados cruciais para a tomada de decisões24.

Um estudo identificou a telessaúde como um recurso eficiente para populações vulneráveis. Por exemplo, constatou-se que populações em situação de rua mantiveram uso expressivo de serviços de saúde remotos, mesmo com acesso limitado às tecnologias da informação35. A telessaúde também foi fundamental para a continuidade do cuidado de condições agudas sensíveis à APS28, entre pacientes com infarto agudo do miocárdio tratados em domicílio76, ou em casos de embolia pulmonar tratados sem hospitalização43.

Os serviços programáticos de APS, incluindo pediatria40 e saúde mental22,39,53,73, também se beneficiaram da telessaúde, permitindo a continuidade do cuidado e do apoio em saúde mental mesmo no período pós-pandemia. Isso ampliou as oportunidades de cuidado para pacientes que, de outra forma, poderiam não comparecer a consultas presenciais, como populações vulneráveis de maior risco, incluindo idosos, gestantes53, e pacientes residentes em áreas rurais39,71,73. Modelos de triagem em telepsiquiatria foram desenvolvidos para mitigar necessidades em saúde mental, especialmente em áreas com escassez de profissionais71.

A telessaúde provou ser um recurso eficiente para grupos profissionais como os serviços de fonoaudiologia na APS44, possibilitando atendimento remoto e ampliando o acesso para pacientes em regiões com escassez de profissionais especializados, garantindo a continuidade do atendimento necessário. Um estudo49 que explorou o uso da telessaúde por terapeutas ocupacionais, destacou o desenvolvimento e a implementação de novos programas, bem como a expansão de iniciativas existentes tanto em contextos de desastres quanto no cotidiano da APS.

Nos processos de gestão, as inovações incluíram a reorganização dos fluxos de trabalho para garantir o cuidado preventivo e o gerenciamento de doenças crônicas usando canais presenciais e digitais24. Também foram propostos novos modelos analíticos para otimizar o sistema de atenção primária à saúde e avaliar o fluxo de pacientes50, juntamente com estratégias de gestão focadas na centralidade do paciente e na colaboração interprofissional60. O desenvolvimento de sistemas de gestão da informação de saúde pública61 e de protocolos, especialmente em tratamentos com opioides integrados à APS durante situações de desastre65, foram outras frentes de inovação observadas.

As avaliações de satisfação com o uso da telessaúde indicaram que pessoas idosas e aquelas com menor nível de escolaridade podem necessitar de suporte adicional para se beneficiarem dessas tecnologias, resultando em níveis mais baixos de satisfação48,68. Também houve relatos de satisfação com a implementação de prescrições eletrônicas68. A efetividade da telessaúde foi maior quando já existiam relações clínicas prévias entre profissionais e pacientes no contexto da APS46,51. Um estudo mostrou que a telessaúde não aumentou o número de consultas de acompanhamento nem superou o número de consultas presenciais, sendo muitas vezes considerada uma alternativa eficaz às consultas presenciais, dependendo das necessidades médicas específicas55.

Tema 3: Potencialidades e desafios das inovações tecnológicas para a gestão de desastres na APS

As inovações tecnológicas demonstraram diversas potencialidades, como a acessibilidade proporcionada pela telessaúde, beneficiando especialmente pacientes vulneráveis e aqueles localizados em áreas remotas de atendimento em saúde30. Essa ferramenta ajudou não apenas a reduzir a exposição dos pacientes durante emergências de saúde pública, como também a proteger os profissionais30,59.

Estas transformações estão diretamente alinhadas com as diretrizes internacionais, como a Estratégia Global de Saúde Digital da OMS (2020-2025), que enfatiza o papel da tecnologia no fortalecimento de sistemas de saúde resilientes e inclusivos. Além disso, estruturas como o Marco de Sendai para a Redução do Risco de Desastres e a agenda do Escritório das Nações Unidas para a Redução do Risco de Desastres (UNDRR) reforçam a importância da governança digital, da integração intersetorial e do envolvimento da comunidade para uma resposta eficaz a emergências, especialmente em contextos de vulnerabilidade.

No entanto, surgiram desafios, como a inclusão digital, uma vez que pacientes mais idosos ou com menor nível de escolaridade podem necessitar de maior apoio para acessar essas inovações48,54. Limitações técnicas, como a falta de equipamentos e de infraestrutura adequada para videoconferência (como acesso à internet de banda larga), também foram apontadas24,26, levando, em alguns casos, os pacientes a preferirem consultas de telessaúde apenas com áudio53,56.

Outro ponto destacado é a capacidade limitada dessas tecnologias de substituir completamente o contato humano em consultas, o que restringe a realização de exames físicos detalhados e impacta a construção de um vínculo terapêutico30,45. Como resultado, algumas ferramentas digitais, como sistemas de monitoramento remoto e aplicativos de saúde estão mudando as interações dos pacientes com os profissionais da APS, levando à redução de custos24.

Por outro lado, a telessaúde também pode afetar a dinâmica de trabalho das equipes de saúde, intensificando a realização de múltiplas tarefas e exigindo uma avaliação cuidadosa da carga de trabalho41,45. Também é importante abordar as barreiras linguísticas e de comunicação para melhor integrar diversas comunidades e pacientes com deficiência24. Portanto, as políticas públicas devem incentivar e fortalecer essas inovações, com apoio contínuo à aprendizagem e à adaptação estrutural das equipes de APS, bem como às demandas culturais, enfrentando efetivamente as desigualdades de acesso entre áreas rurais e urbanas25,39,45,49.

É importante que a força de trabalho da enfermagem atue a integração dos padrões éticos da profissão no projeto, gestão e governança de soluções tecnológicas, alinhando-se às diretrizes globais de agências como a Organização Mundial da Saúde (OMS) e a Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS)25,39,45,49.

CONCLUSÃO

Apesar da expansão e do impacto positivo das inovações tecnológicas na APS durante situações de desastre, especialmente evidente durante a pandemia de Covid-19, ainda existem lacunas importantes. As limitações de acesso digital, as desigualdades socioeconômicas e as barreiras de comunicação ainda restringem o alcance e a efetividade dessas soluções, particularmente em contextos de vulnerabilidade.

No âmbito da prática, recomenda-se que os gestores de saúde priorizem a expansão da infraestrutura digital, a promovam a educação profissional continuada e a adoção de estratégias inclusivas para minimizar a exclusão digital. O fortalecimento dos processos de gestão e a adaptação dos fluxos de atendimento às realidades locais também são essenciais para uma maior integração e resposta rápida da APS durante emergências.

No que diz respeito às políticas públicas, há uma necessidade urgente de marcos regulatórios que garantam o uso seguro, ético e eficaz das tecnologias digitais e que promovam a colaboração intersetorial para enfrentar os determinantes sociais subjacentes às desigualdades em saúde digital.

As pesquisas futuras devem priorizar estudos longitudinais e comparativos sobre o impacto das tecnologias digitais na APS, análises de custo-efetividade e investigações sobre experiências dos usuários e estratégias para superar barreiras contextuais.

Em resumo, as inovações digitais são ferramentas estratégicas para fortalecer a resiliência e a equidade da APS. O avanço das políticas públicas e das pesquisas nessa área é essencial para garantir que o sistema de saúde se torne mais inclusivo, preparado e responsivo a futuras emergências.

Agradecimentos

Este trabalho teve apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa e Inovação do Estado de Santa Catarina (FAPESC), Chamada nº 20/2024 - Programa FAPESC de Fomento à Pós-Graduação nas Instituições de Ensino Superior do Estado de Santa Catarina - Bolsas de Pós-Doutorado. Manuscrito integra o projeto de pesquisa "Promoção da saúde e qualificação dos profissionais que atuam em desastres: estudo misto interventivo" financiado pelo Edital Universal da FAPESC, Termo de Outorga Nº: 2024TR002332.

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Editado por

  • Editor associado:
    Jaqueline Calafate
  • Editor-chefe:
    João Lucas Campos de Oliveira

Disponibilidade de dados

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Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    27 Mar 2026
  • Data do Fascículo
    2026

Histórico

  • Recebido
    25 Abr 2025
  • Aceito
    18 Dez 2025
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