Open-access DIALÉTICA DA DEPENDÊNCIA NA HISTORIOGRAFIA LITERÁRIA DE ANTONIO CANDIDO (1970-1973)1

DIALECTICS OF DEPENDENCE IN ANTONIO CANDIDO’S LITERARY HISTORIOGRAPHY (1970-1973)

Resumo

Em “Literatura e subdesenvolvimento” (1970), Antonio Candido procurou entender, desde a crise do desenvolvimentismo, como a situação de “atraso” das sociedades latino-americanas figurava no campo da cultura, especialmente na literatura. Nossa hipótese é que, no ensaio, o subdesenvolvimento é visto como a condição de singularidade da periferia do capitalismo, não mais como etapa transitória da evolução sociohistórica calcada numa noção de tempo linear, progressivo e evolucionista que precede o desenvolvimento. Ao constatar que o “atraso” não é somente uma força contrária ao progresso, Candido traça os contornos da dialética da dependência que configura a própria formação da vida sociopolítica na América Latina.

Palavras-chave
Antonio Candido; Dependência; Historiografia Literária; Historiografia Brasileira; subdesenvolvimento

Abstract

In “Literatura e subdesenvolvimento” (Literature and Underdevelopment) (1970), Antonio Candido sought to understand, from the crisis of developmentalism, how the situation of “backwardness” in Latin American societies was reflected in the field of culture, especially in literature. Our hypothesis is that, in the essay, underdevelopment is seen as the singular condition of the periphery of capitalism, no longer as a transitory stage of socio-historical evolution based on a notion of linear, progressive and evolutionary time that precedes development. By noting that “backwardness” is not just a force that opposes progress, Candido outlines the dialectic of dependence that shapes the very formation of socio-political life in Latin America.

Keywords
Antonio Candido; Dependence; Literary Historiography; Brazilian Historiography; Underdevelopment

América Latina em sua literatura

Não somos europeus, nem americanos do Norte, mas, destituídos de cultura original, nada nos é estrangeiro, pois tudo o é. A penosa construção de nós mesmos se desenvolve na dialética rarefeita entre o não ser e o ser outro

(GOMES, Paulo Emílio Sales. Uma situação colonial?, 2016, p. 58).

O ano de 1970 é marcante na trajetória do crítico literário brasileiro Antonio Candido de Mello e Souza (1918-2017). A confecção do ensaio “Literatura e subdesarollo” selou de vez a aproximação de suas reflexões à porção hispânica da América Latina. No mosaico da obra do autor, esse texto é o culminar de um processo de deslocamento do olhar, ao colocar o Brasil em relação estreita com a constelação geopolítica latino-americana. Sua discussão, em síntese, parte de uma visão histórico-sociológica que procura analisar os contornos específicos da condição de subdesenvolvimento e “atraso” cultural, econômico e político dos países que sofreram o processo de colonização ibérica, indicando que essa herança colonialista e seu desdobramento — a lógica da dependência — são vetores importantes da ambientação intelectual e da formação da subjetividade dos escritores da região.

O texto foi lançado primeiro na França, no Cahiers d’Historie Mondiale, e depois na obra à qual se destinava de fato, América Latina en su Literatura, organizado por César Fernandez Moreno (1919-1985), em projeto financiado pela UNESCO. A propósito, na introdução do livro, intitulada “O que é América Latina”, Moreno salienta diversos aspectos importantes da publicação, sobretudo as disputas semânticas em torno do próprio conceito de “América Latina”.

Se nos aprofundarmos em busca das raízes desta ostensiva unidade [latino-americana], sua história subministra como primeira nota: sucessiva dependência do conjunto em relação a uma potência exterior. Primeiro, das monarquias ibéricas; quando elas caem, os ingleses e logo os norte-americanos erigirão às custas da América Latina seus impérios sucessores, já não no domínio político, mas econômico.

[...] E, a segunda, sua imersão na polaridade histórica mais forte da atualidade: o abismo que se abre entre os países ricos e os pobres; a oposição mais ampla que a anterior, mas não contraditória, com ela já que é ilustrada no conjunto das Américas, onde a anglo-saxã é a rica e a latina, a pobre

(FERNANDEZ MORENO, 1972, p. 9, [acréscimos meus]).

A anotação de Moreno indica alguns dos objetivos político-editoriais da obra coletiva: “problematizar o caráter dependente da condição latino-americana em relação à dominação colonial moderna, decorrente das expansões marítimas de Portugal, Espanha e França, no contexto da “primeira cascata de modernidade”, a partir do século XVI (GUMBRECHT, 1998). O momento caracterizou-se como sendo de construção de certa subjetividade ocidental calcada na oposição cartesiana entre sujeito/espírito, observador de primeira ordem e ator principal na produção do conhecimento, e objeto/materialidade (GUMBRECHT, 1998). Depois, objetivava-se investigar os contornos da dependência decorrente das relações observadas no contexto pós emancipações políticas, no que diz respeito às ingerências econômicas inglesas e estadunidenses na América Latina, já no período de solidificação do Imperialismo, no século XIX. Embora partisse desse ponto de vista – que delineava os contornos e componentes específicos da dominação geopolítica colonial –, o estudo patrocinado pela UNESCO, lembra o autor, deveria também ir além. Isto é, seria preciso tomar a América Latina como um todo integrado pelas suas formas políticas nacionais, verificar as posturas de resistência aos mecanismos de dominação e analisar a situação “contemporânea” da região (FERNANDEZ MORENO, 1972, p. 12-13).

Na seção que alocou a reflexão de Candido, intitulada “Literatura e sociedade”, Mario Benedetti publicou o texto “Temas y problemas”. A leitura do uruguaio, semelhante à do brasileiro, defende que, historicamente, a literatura latino-americana esteve “desorientada” pela dificuldade de repetir um processo de autoafirmação típico dos países europeus. De certa maneira, ressalta o autor, ela “chegou com atraso ao jogo da arte”, de maneira que sua preocupação constante foi, quase sempre, “colocar-se em dia”. Contudo, essa “situação de atraso” foi, paradoxalmente, um de seus “atrativos”, porque

Se a literatura europeia tinha completado e ultrapassado essa revolução, o jovem continente [a América Latina], por outro lado, ainda tinha de compreender e apropriar-se dessa diferença, algo que coincidiu, melhor do que no rígido academicismo dos classicistas, com as ansiedades da sua revolução política inacabada

(BENEDETTI, 1972, p. 354, [acréscimos meus]).

Benedetti ilustra como a “angústia” causada pela “incompletude da formação” levou os escritores latino-americanos a buscarem obsessivamente formas de compreender as nuances históricas da formação do continente, abandonando a ilusão teleológica da “superação do atraso” e tomando consciência das especificidades da posição periférica da América Latina. O gesto inaugural dessa percepção teria sido, na visão dele, a eclosão do modernismo, que congregou “elementos clássicos, românticos e autóctones” e teve “ressonâncias espanholas, francesas, inglesas e outras mais exóticas” (BENEDETTI, 1972, p. 355). Todavia, como não se tratava de uma literatura propriamente europeia, o escritor modernista, se apropriando conscientemente do repertório externo, estabelece intersecções com a finalidade de buscar seu próprio “desenraizamento” em relação às antigas metrópoles coloniais. Em outros termos: para Benedetti, a sensação de atraso fomentou a afirmação da diferença cultural.

Veremos, nesse artigo, como o ensaio de Candido tinha por objetivo entender, a partir desse debate de fundo sobre a crise do desenvolvimentismo, como a situação de dependência das sociedades latino-americanas em relação às dinâmicas do capitalismo global figurava no campo da cultura, especialmente na literatura. O ponto de partida do crítico é a identificação da coexistência, na virada do século XIX para o XX, de dois tipos de consciência que informavam o processo de criação dos escritores latino-americanos: a primeira, gestada no alvorecer da Independência e do Romantismo, era a “consciência amena do atraso” e se orientava pela adesão à tese do progresso como superação definitiva de todas as mazelas sociais. Subsidiada pela ideia de “país novo”, resgatou a percepção de que as Américas, pelo mito edênico da exuberância natural, eram lugares privilegiados para o florescimento da ideia de liberdade. A partir de 1870, contudo, e com mais força no contexto pós 1930, eclode também a “consciência catastrófica do atraso”, que ressalta a persistência trágica da pobreza, das desigualdades e do analfabetismo, ocasionados pela situação de dependência. Essa ambivalência aos poucos tornou-se um movimento dialético, cujo fundamento primordial é a manifestação da própria condição de dependência.

Desvantagens do subdesenvolvimento

O ensaio “Literatura e Subdesenvolvimento3”, como indica Anita Moraes (2015, p. 119), apresenta “todo um conjunto de termos como ‘classe dominante’, ‘grupos oprimidos’, ‘imposição cultural’, ‘países imperialistas’, ‘terceiro mundo’” que não figuravam em outros escritos”. No texto, Candido parte da hipótese apresentada por Mario Vieira de Mello (1912-2006) em Desenvolvimento e cultura: o problema do estetismo no Brasil (1963). Tomando como central o problema da conformação de uma consciência histórica no Brasil, Vieira identifica que até os anos 1930 predominava, no país, uma noção de “país novo” que colocava no futuro todas as expectativas de resolução dos problemas nacionais. Por isso, eram comuns, nos debates político-intelectuais da época, a proliferação e o uso contínuo de termos, conceitos e categorias como “progresso”, “devir”, “realizar-se”. Essa visão impulsionava e ampliava, até aquele momento, a imagem de uma nação pujante do ponto de vista de uma virtualidade, de um vir-a-ser, mas que ainda não tinha realizado todo o seu potencial de grandeza. Após os anos 1940, entretanto, essa imagem teria sido substituída por uma aceitação da condição de “país subdesenvolvido”, em que são mais destacadas as ideias de “pobreza” e “atrofia”, isto é, aquilo que “falta e não o que sobra”, momento em que o passado é percebido como uma continuidade voraz (MELLO apud CANDIDO, 1973, p. 8).

Candido ressalta que, no caso brasileiro, a consciência de “país novo”, fortemente atrelada ao contexto pós 1822, com a Independência, expressou-se, na literatura, a partir da surpresa, do interesse pelo exótico, do respeito pelo grandioso e da esperança quanto às possibilidades abertas para o futuro. Muito disso se devia à “ilusão paisagística” que escoava na continuidade da imagem da “grandeza natural” que se fazia presente já nos momentos iniciais da ocupação europeia, no século XVI. “A ideia de que a América constituía um lugar privilegiado se exprimiu em projeções utópicas, que atuaram na fisionomia da Conquista” (CANDIDO, 1973, p. 08), criando uma percepção “edênica” do Novo Mundo que, segundo ele, tinha a ver com aquilo que Pedro Henríquez Ureña (1884-1946) considerava como o deslumbramento e a exaltação que já se encontravam presentes na carta de Cristóvão Colombo, documento que teria inaugurado certa visão mais abrangente do continente pela ótica do europeu (HENRÍQUEZ UREÑA, 1925).

Com esse gesto, Candido se distanciou de um argumento bastante específico apresentado por Sérgio Buarque de Holanda em Visão do Paraíso (1959). Na obra em questão, o historiador procura matizar a questão do “imaginário da conquista” presente na empreitada colonial ibérica. Segundo ele, os espanhóis, mais “modernos” e mais afeitos à cultura renascentista, criaram uma idealização mitológica sobre o território da América; enquanto isso, os portugueses, mais “realistas” e “pedestres”, ainda atrelados às tradições medievais, narraram a empreitada no Novo Mundo a partir de elementos mais plausíveis e verossímeis em relação às visões paradisíacas (HOLANDA, 1959).

Na leitura própria de Candido, a diferenciação entre Brasil e América Hispânica é substituída por uma generalização do argumento de que toda a empreitada colonial se baseou na construção de uma narrativa que combinava grandiosidade, natureza, paraíso, mito e utopia e que, portanto, esse discurso consolidou-se como um artificio ideológico importante para a construção do projeto de dominação europeu nas Américas (CANDIDO, 1973). Interessante notar, desse modo, como o crítico já esboçava uma aproximação entre a condição brasileira e a história do restante do continente.

Tanto é assim que, segundo ele, no período após as emancipações políticas do século XIX emergiu, no esteio dessa imagem “edênica”, uma visão de que toda a América Latina era terra predestinada à liberdade e lugar de consumação dos “destinos do homem ocidental”.

Esse estado de euforia foi herdado pelos intelectuais latino-americanos, que o transformaram em instrumentos de afirmação nacional e em justificativa ideológica. A literatura se fez linguagem de celebração e terno apego, favorecida pelo Romantismo, com apoio na hipérbole e na transformação do exotismo em estado de alma. O nosso céu era mais azul, as nossas flores mais viçosas, a nossa paisagem mais inspiradora que a de outros lugares [...]

(CANDIDO, 1973, p. 8)

Como consequência, produziu-se uma literatura que, ao ressaltar com otimismo o “exotismo americano”, acabava por “compensar”, a partir da supervalorização dos aspectos regionais, as condições de atraso material e a debilidade das instituições.

Um dos pressupostos ostensivos ou latentes da literatura latino-americana foi esta contaminação, geralmente eufórica, entre a terra e a pátria, considerando-se que a grandeza da segunda seria uma espécie de desdobramento natural da pujança atribuída à primeira.

(CANDIDO, 1973, p. 9, grifo do autor).

Candido identifica que, na virada do século, essa relação causal entre “terra bela” e “pátria grande”, que produzia uma imagem eufórica do país, foi totalmente contaminada pela emergência de uma nova “consciência crítica catastrófica do atraso e do subdesenvolvimento”, em especial no contexto pós anos 1930, que evidenciou questões como a pobreza dos solos, as técnicas arcaicas de produção, a miséria das populações do campo e da cidade, a violência endêmica e a “incultura paralisante” (CANDIDO, 1973).

A visão que resulta é pessimista quanto ao presente e problemática quanto ao futuro, e o único resto de milenarismo4 da fase anterior talvez seja a confiança com que se admite que a remoção do imperialismo traria, por si só, a explosão do progresso. Mas, em geral, não se trata mais de um ponto de vista passivo. Desprovido de euforia, ele é agônico e leva à decisão de lutar, pois o traumatismo causado na consciência pela verificação de quanto o atraso é catastrófico suscita reformulações políticas. [...] Daí a disposição de combate que se alastra pelo continente, tornando a ideia de subdesenvolvimento uma força propulsora, que dá novo cunho ao tradicional empenho político dos nossos intelectuais

(CANDIDO, 1973, p. 9, grifo nosso).

Essas reflexões sobre o “atraso” se delinearam de forma bastante arguta em Leon Trotsky (1879-1940), no começo do século XX, em reflexões sobre a situação socioeconômica da Rússia à época. Ao analisar as condições de possibilidade de uma revolução socialista no país, buscou ressaltar que a “característica marcante e mais estável da história da Rússia é o ritmo lento de seu desenvolvimento, com atraso econômico, primitivismo das formas sociais e o decorrente baixo nível cultural” (TROTSKY, [1930] 1959, p. 1). As “desvantagens do atraso”, assim, incluíam fatores como a falta de desenvolvimento industrial, o baixo nível de educação da população, a escassez de uma classe trabalhadora apta ao trabalho industrial e a predominância da agricultura de baixa produtividade.

Além disso, Trotsky ([1930] 1985) confrontou o que considerava a perspectiva etapista e evolucionista do stalinismo, segundo a qual a remoção das estruturas sociais pré-capitalistas só seria possível por meio de uma revolução nacional-burguesa, antessala da revolução socialista. Apropriando-se da perspectiva de Lênin sobre o desenvolvimento desigual do capitalismo no plano internacional, Trotsky defendeu a ideia de que havia uma combinação entre progresso e atraso, entre moderno e arcaico, de modo que o percurso histórico dos países em condição “colonial” e “semicolonial” era todo ele atravessado pelas demandas do “centro modernizado”. Esse é o germe da perspectiva que, anos depois, vai ser chamada de “dependentista”.

Na América Latina, esse debate tomou fôlego enorme no campo do pensamento social, econômico, político e cultural após a 2ª Guerra Mundial, sobretudo, e de forma mais acabada a partir dos anos 1950, em meio às discussões sobre os dilemas do subdesenvolvimento. Trata-se da emergência daquilo que John Pocock (2003) chamou de “idiomas compartilhados”, momento em que, na perspectiva histórica sincrônica, conceitos e categorias linguísticas encontram-se disponíveis aos autores de determinadas narrativas, que se utilizaram dessas ferramentas (langue) para enunciar seus discursos (parole) e inscrevê-los no debate público. Como indica Luiz Werneck Vianna, no caso brasileiro havia se disseminado, dentre outras questões, o sentimento de que o país ainda estava por fazer-se, dadas as contradições sociais e os problemas históricos não resolvidos. À luz de um modelo de desenvolvimento europeu, alguns autores evidenciavam os dilemas do subdesenvolvimento e aludiam, também, às “desvantagens do atraso” (VIANNA, 1988).

Nessa seara aparece, com bastante destaque, a Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (CEPAL), liderada à época por Raúl Prebisch (1901-1986) e Celso Furtado. Criada em 1948 pela Organização das Nações Unidas (ONU), foi a responsável por lançar um novo olhar para a condição social latino-americana a partir de uma leitura ao mesmo tempo dualista e estruturalista. Em primeiro lugar, o pensamento cepalino inicial, na década de 1950, como indica Claudia Wasserman (2017), apontava a coexistência de setores pré-capitalistas (arcaicos) e capitalistas (modernos) na sociedade brasileira e latino-americana. Com esses dois “conjuntos opostos”, tinha-se uma incompatibilidade social interna às nações do continente que levava à impossibilidade de crescimento e desenvolvimento, isto é, à estagnação na condição de subdesenvolvimento e atraso.

Já em 1967, Furtado começa a organizar o argumento dependentista para reinterpretar a situação latino-americana. Em Teoria e política do desenvolvimento econômico, o economista identifica uma assimetria estrutural na lógica centro-periferia que se desenhou historicamente na economia mundial. Por isso, identifica que o subdesenvolvimento era, acima de tudo, um subproduto do desenvolvimento – uma condição historicamente determinada pelo desenrolar do capitalismo europeu. Essa percepção não era de todo inédita, dado que Caio Prado Júnior, em 1945, no clássico Formação do Brasil Contemporâneo, já havia apontado a natureza propriamente “subalterna” da inserção brasileira na lógica do capitalismo mercantil mundial no período das colonizações, a partir do século XVI. Em A Revolução Brasileira (1966), o autor defende que, como consequência dessa “inscrição subalterna”, a subordinação da economia nacional ao comércio internacional levou o país à condição histórica de dependência.

De volta a Furtado, o autor afirma que essa condição de dependência é a chave para se compreender a caracterização do mundo do subdesenvolvido, no contexto desta geopolítica global, através da persistente imagem da “deformação”, representada, em geral, na visão binária que opõe o atrasado e o moderno (FURTADO, 1967). Na mesma edição da revista Argumento em que o texto de Candido foi publicado no Brasil, Furtado arremata essa questão em um artigo intitulado “O mito do desenvolvimento e o futuro do terceiro mundo”: essa ilusão criada em torno do “mito desenvolvimentista” subsumiu a própria consciência dessa assimetria estrutural que existe entre “países periféricos” e “países centrais” (FURTADO, 1973).

É possível dizer, então, que os próprios impasses e dilemas enfrentados pelas múltiplas estratégias econômicas e políticas da primeira metade do século XX, em especial após os golpes militares no Cone Sul, levaram os intelectuais a um questionamento dos pressupostos básicos das teses desenvolvimentistas até então hegemônicas na reflexão sobre as relações entre o atraso e o moderno, entre centro e periferia, entre local e universal no Brasil e na América Latina (BRESSER-PEREIRA, 2010: 21). Em geral, essas novas reflexões passaram a explorar melhor a noção de dependência e o caráter singular das sociedades da chamada “periferia do capitalismo”.

Um dos primeiros gestos críticos dessa visão “dependentista” foi produzido por André Gunder Frank, no artigo The Development of Underdevelopment (1966). O autor procurou mostrar que as teses puramente desenvolvimentistas incorriam num erro crasso: acreditar que as marcas do “atraso” latino-americano são resquícios pré-capitalistas que poderiam ser removidos e superados com a voga do progresso.

Também se acredita que o subdesenvolvimento atual de um país pode ser entendido como produto ou reflexo exclusivamente de suas próprias características ou estruturas econômicas, sociais e culturais. Entretanto

“a investigação histórica demonstra que o subdesenvolvimento contemporâneo é em grande medida o produto histórico de relações econômicas e de outros tipos, passadas e atuais, que o país satélite subdesenvolvido manteve e mantém com os países metropolitanos hoje desenvolvidos”

(GUNDER FRANK, 1966, p. 2)

Gunder Frank ressalta aquilo que, como vimos acima, Celso Furtado, em 1967, considerou uma assimetria estrutural entre o centro e periferia do capitalismo global. Para o autor, a colonização europeia no século XVI deu início à empreitada capitalista na América Latina, e a condição de subdesenvolvimento do continente é um desdobramento direto dessa exploração mercantil. Ou seja, teria ocorrido um desenvolvimento do subdesenvolvimento, para utilizar os termos próprios da reflexão de Frank (1966).

Também é nessa direção que, no mesmo ano de 1966, Fernando Henrique Cardoso e Enzo Faletto apresentaram publicamente Dependência e Desenvolvimento na América Latina, escrito originalmente como um relatório para a mesma CEPAL. Certamente, dentre as obras citadas essa foi a que gerou maior impacto na discussão proposta por Candido, dada a proximidade uspiana existente entre os dois. No texto, os autores buscaram

Esclarecer alguns pontos controvertidos sobre as condições, possibilidades e formas do desenvolvimento econômico em países que mantêm relações de dependência com os polos hegemônicos do sistema capitalista, mas, ao mesmo tempo, constituíram-se como Nações e organizam Estados Nacionais que, como todo Estado, aspiram à soberania

(CARDOSO & FALETTO, 1966, p. 7).

Cardoso e Faletto pretendiam mostrar, a partir do exame da especificidade da situação latino-americana, os componentes social e político do nosso processo de desenvolvimento. A ideia era superar o que eles chamavam de abordagem “estruturalista”, típica da primeira fase da CEPAL, cujo conceito de subdesenvolvimento era preenchido mais com os aspectos estruturais econômicos dos elementos que compunham essa situação de atraso. Segundo os autores, pretendia-se buscar “uma compreensão global e dinâmica das estruturas sociais, ao invés de olhar apenas para dimensões específicas do processo social.” Para tanto, opunham-se

à tradição acadêmica que concebia a dominação e as relações socioculturais como ‘dimensões’, analiticamente independentes entre si, e em conjunto independentes da economia, como se cada uma delas correspondesse a esferas separadas da realidade. Neste sentido, acentuamos a natureza sociopolítica das relações econômicas de produção

(CARDOSO e FALETTO, 2008, p. 5-6).

Os autores defendem que a análise da vida social latino-americana deveria partir do pressuposto de que existem estruturas globais – fruto do comportamento coletivo dos humanos – que são relativamente estáveis, mas não imutáveis. Com isso, apesar de duradouras, essas estruturas estão em constante transformação pela própria lógica do movimento histórico. Por ‘movimento’ podemos entender, na visão de Cardoso e Faletto, sobretudo os conflitos e as lutas entre as classes. No caso especificamente latino-americano, as estruturas baseavam-se em relações de desigualdade e exploração, garantidos através de mecanismos de autoperpetuação da própria lógica assimétrica. Em síntese: a situação de dependência da América Latina decorre tanto da organização geopolítica global, como também dos movimentos sociopolíticos internos ao próprio continente (CARDOSO e FALETTO, 1966).

Também no debate interno ao campo cultural essas discussões tiveram ressonância importante. Ferreira Gullar, no livro Vanguarda e subdesenvolvimento, escrito em 1969, vai propor um debate sobre o caráter potencialmente revolucionário da arte na América Latina. Para o autor, as relações internacionais, mediadas pelo Imperialismo, estabeleceram uma dinâmica de troca desigual entre o local e o global, impondo à periferia do capitalismo a condição de dependência e subordinação. Decorre disso uma série de fatores sociais que, como não poderia deixar de ser, impactam o campo artístico e a produção estética, tais como a fome, a miséria, a desigualdade etc. Mergulhada nessa relação desigual, a arte latino-americana permaneceu, por muito tempo, seduzida pelos modelos artísticos e culturais estrangeiros sem considerar suas próprias condições e contextos locais (GULLAR, 1969).

Por todas essas menções, cabe considerar que o ensaio de Candido se inscreve no horizonte analítico desse mosaico de novas interpretações do Brasil e da América Latina que, como mostra João Hernesto Weber (1997), a partir da segunda metade da década de 1960, colocou em pauta o debate sobre a ideia de dependência – em todas as suas dimensões.

Os anos 1960-1970 foram um período de grande efervescência intelectual no subcontinente, alimentado pela espiral de radicalização política que se seguiu à Revolução Cubana de 1959, à crise do desenvolvimentismo que caracterizara a década precedente e a onda de golpes cívico-militares que se abateu, em especial sobre os países do Cone Sul. Contexto em que, ainda que já tivesse uma trajetória relativamente antiga na região, o termo ‘dependência’ ganhou um novo status teórico como conceito- chave para reinterpretar a formação histórico-social dos países latino-americanos

(KAYSEL e MUSSI, 2017, p. 3)

É ancorado nessas contendas de fundo que o ensaio de Candido buscou identificar, inicialmente, as próprias condições de existência da literatura em meio a esse cenário de atraso e subdesenvolvimento, que se expressa, por exemplo, no drama do analfabetismo e da “debilidade cultural” na América Latina. Esses traços, para ele, atuam na consciência do escritor e na natureza da criação poética. Até por isso, no contexto da consciência amena do atraso, mais fortemente ao longo do século XIX, parte dos escritores imbuiu-se do espírito da “ideologia ilustrada”. Segundo Célia Pedrosa,

Assumida por intelectuais e escritores na época da consciência amena do atraso, ela [ideologia ilustrada] justificava a crença de que a instrução traz automaticamente os benefícios que garantem a humanização e o progresso; legitimava sua auto-identificação com os valores cultos metropolitanos e seu consequente distanciamento da realidade nacional; e finalmente implicava numa compreensão do analfabetismo e da debilidade cultural, bem como dos meios para saná-los, de todo desarticulado da questão sócio-política da dominação imperialista, da exploração econômica e da dependência cultural

(PEDROSA, 2001, p. 5 [acréscimos meus])

Por isso, acreditava-se que a instrução formal seria capaz de humanizar os homens e garantir o progresso da sociedade. Para Candido, essa “imaginação pedagógica” é recorrente no pensamento latino-americano: em Domingo Faustino Sarmiento (1811-1888), por exemplo, o “predomínio da civilização sobre a barbárie tinha como pressuposto uma urbanização latente, baseada na instrução”; na visão continental de Andrés Bello (1781-1865), pensava-se uma indissociabilidade entre visão política e projeto pedagógico; e no caso de Rómulo Gallegos (1884-1969), em que a resistência ao golpe militar venezuelano de 1948 se deu também através da difusão das luzes e da criação de uma literatura repassada de mitos da instrução redentora (CANDIDO, 1973, p. 13). O mais simbólico dos casos seria o de Manoel Bonfim (1868-1932), autor de A América Latina: males de origem (1905), em cuja obra haveria uma análise sofisticada da situação de atraso latino-americana, atrelada ao prolongamento do estatuto colonial, traduzido na persistência do poder das oligarquias e do imperialismo estrangeiro. No fim, contudo, ao invés de uma proposta de transformação estrutural da sociedade como objetivo final, Bonfim adere à tese de que apenas a instrução seria capaz de resolver os problemas sociais candentes. Trata-se de um caso claro do que Candido considerou como a “ilusão ilustrada”, fruto da ideologia da fase de consciência esperançosa do atraso.

Candido considera, em suas leituras, que essa perspectiva se desdobra em outras visões otimistas, como a de que a América Latina seria também “a pátria do livro e da instrução”, manifesta no poema “O livro e a América” (1870), de Castro Alves.

Talhado para as grandezas,
P’ra crescer, criar, subir,
O Novo Mundo nos músculos
Sente a seiva do porvir.
[...]
Filhos do sec’lo das luzes!
Filhos da Grande nação!
Quando ante Deus vos mostrardes,
Tereis um livro na mão:
O livro — esse audaz guerreiro
Que conquista o mundo inteiro
Sem nunca ter Waterloo…
(ALVES, 1870, s/p)

O poema fala do encontro entre o livro e um espaço fecundo para o desenvolvimento da instrução: a América. A função da leitura é não somente construir formas de saber, mas também a construção de modos de sociabilidade não-violentos, diferentes daqueles tipicamente europeus – por isso o destaque dado à “batalha de Waterloo”, conflito ocorrido no contexto da expansão napoleônica no começo do XIX. É o legado do Século das Luzes que está em jogo e o “Novo Mundo”, talhado para as grandezas, seria a seiva do porvir da liberdade.

A questão do “esclarecimento” foi analisada por Candido também no texto “Perversão da Aufklarung” (2002), produzido em forma de discurso pronunciado no II Encuentro de Intelectuales por la Soberanía de los Pueblos de Nuestra America, realizado em Havana, em 1985. O crítico identifica que com a Independência, consolidada ao largo do continente no século XIX, a crença de que a instrução traria a libertação do povo latino-americano passou a ser articulada em torno de uma finalidade ideológica clara:

Fechar e restringir a iniciação na cultura intelectual, bem como o seu uso social e político. De ideal ilustrado, teoricamente universal e altruísta, ele se tornou em boa parte um saber de classe e de grupo, um instrumento de dominação que serviu por sua vez para segregar o povo e mantê-lo em condição inferior pela privação do saber

(CANDIDO, 2002, p. 321).

No fundo, porém, segundo ele, o desejo pelo esclarecimento era uma “visão ilusória”, fruto da ideologia da fase de “consciência esperançosa do atraso”. Diante da “debilidade” e da dificuldade com o drama do analfabetismo e da falta de instrução das massas, os intelectuais teriam produzido uma visão “deformada” de sua própria posição ante a incultura dominante. O crítico aciona Alfred Weber (1868-1958) e a ideia de “intelligentsia socialmente desvinculada” (WEBER, 1970) para falar desse letrado que, embora mergulhado na cultura de determinado contexto, persegue certa autonomia relativa com vistas à produção de enunciados discursivos minimamente apartados de alguns interesses políticos imediatos. Em outros termos, Candido identificou que esse intelectual, ao considerar a média da população “inferior, ignorante e incorrigível”, cria uma ilusão compensadora: a fantasia de que a história, per si, seria redentora e que o progresso de tipo europeu removeria todo resquício de arcaísmo que persistia do passado colonial.

Flutuavam, com ou sem consciência de culpa, acima da incultura e do atraso, certos de que estes não os poderiam contaminar nem afetar a qualidade do que faziam. Como o ambiente não os podia acolher intelectualmente senão em proporções reduzidas, e como os seus valores radicavam na Europa, para lá se projetavam, tomando-a inconscientemente como ponte de referência e escala de valores, considerando-se equivalentes ao que havia lá de melhor

(CANDIDO, 1973, p. 13)

A “incultura geral”, dessa maneira, teria produzido uma fragilidade social importante em toda a vida intelectual, interferindo diretamente na qualidade das obras na América Latina. Além disso, teria sido decisiva na abertura às influências estrangeiras, que, se entendidas à luz das noções de atraso e de subdesenvolvimento, desembocam no debate sobre a dependência cultural. Isto que foi considerado por Candido uma “penúria”, ou seja, as condições de possibilidade de emergência de produtos estéticos no contexto periférico latino-americano, teria feito com que os escritores do continente se voltassem para os padrões metropolitanos e europeus, desenvolvendo uma espécie de “aristocratismo alienante” que se reflete, sobremaneira, no uso de línguas estrangeiras na criação literária.

A condição de subdesenvolvimento que decorre da colonização e do colonialismo é lida por Candido, à primeira vista, como negatividade e desvantagem. Foi ela quem produziu e ampliou, antes de tudo, um mito do exotismo americano, base fundamental da percepção considerada ingênua da vida social. Além disso, teria feito eclodir a ideologia do progresso, a partir da qual acreditava-se que a superação do atraso seria um horizonte natural e automaticamente alcançável por meio do projeto desenvolvimentista. Por fim, alimentou, no âmbito cultural, ora uma ingenuidade cosmopolita de incorporação acrítica de tudo que é produto estético, literário e artístico europeu, ora a rejeição ou subtração nacionalista do repertório externo com vistas à produção de uma cultura “genuína”.

Christian Lynch (2013) considera que, naquele contexto, a sensação de um atraso atávico assolava parte da intelectualidade brasileira. Representada sobretudo pela agonia em relação à recorrência das catástrofes políticas, sociais e econômicas, foi essa sensação, nos anos 1960, entretanto, que ajudou a desestabilizar a adesão apaixonada desses intelectuais à panaceia da ideologia do progresso e das teses do desenvolvimento. Para Candido, tratava-se da consolidação, no espaço público, de uma nova consciência crítica, que no campo da cultura apresentou-se como uma forma específica de lidar com o próprio subdesenvolvimento: nem “ressentimento apocalíptico”, nem “idealismo compensatório” (CHIAPPINI, 2011, p. 16), nem recusa ativa, nem aceitação passiva.

Desde os anos 1930, ao abandonar a “amenidade”5, a curiosidade e o encanto pelo pitoresco e pelo homem rústico, a literatura passa a cumprir “papel desmistificador” e, aos poucos, acaba por dissolver aquela consciência de “país novo” totalmente atrelada à euforia do progresso e do desenvolvimento (CANDIDO, 1973). Esse gesto representa uma espécie de antecipação, no âmbito estético, disso que bem posteriormente, com mais força após os anos 1960, se tornou tópica para alguns intelectuais do continente: o atraso é, por si só, uma condição específica das zonas periféricas do capitalismo, não um estágio histórico; portanto, como não pode ser removido ou ultrapassado pelo desenvolvimento, as sociedades da América Latina deveriam criar um caminho específico para a formação e a solidificação de sua própria vida social.

O lado oposto e outros lados do atraso

A inevitabilidade da influência exercida pelas metrópoles na América Latina desde o período das ocupações coloniais, momento em que se adotou o “transplante forçado do europeísmo” e criou-se um “vínculo placentário” com o “Velho Mundo”, passou a ser vista por Candido (1973) como “dependência cultural”. Para ratificar a hipótese, dá o exemplo da atitude nativista, que se certificou da condição de dominação, mas não abandonou o repertório externo:

[...] nunca se viu os diversos nativismos contestarem o uso das formas literárias importadas, pois seria o mesmo que se oporem ao uso dos idiomas europeus que falamos. O que requeriam eram a escolha de temas novos, de sentimentos diferentes. Levado ao extremo, o nativismo (que neste grau é sempre ridículo, embora sociologicamente compreensível) teria implicado em rejeitar o soneto, o conto realista, o verso livre associativo

(CANDIDO, 1973, p. 16).

Essa dependência, vista como desdobramento de um longo processo de colonização, contudo, leva à visão de que a cultura latino-americana é também uma forma particular e específica de participação e contribuição para o universo cultural mais amplo, que transborda os limites nacionais e continentais, permitindo a circulação de experiências e valores (CANDIDO, 1973). Em outros termos, Candido identificou que, na literatura latino-americana do século XX, diversos escritores abandonaram as ilusões do progresso redentor e da superação definitiva do subdesenvolvimento, acertaram-se com a “sensação de atraso” e incorporaram, como marca sócio-histórica da periferia do capitalismo, os universos rural e agrário em suas imaginações literárias, além de rejeitar o modelo de “cópia” da cultura europeia.

O crítico identifica que figuras como Lezama Lima (1910-1976), Alejo Carpentier (1904-1980) e Vargas Llosa (1936-2025) buscaram se insubordinar frente à apropriação acrítica da matéria e da forma externa europeia. Essa insubmissão, realizada no momento de consolidação da consciência catastrófica do atraso, apontava para uma tentativa de atacar a dependência e trazia como marca congênita a produção de obras de primeira ordem influenciadas também por exemplos nacionais anteriores, não só por modelos externos. O estabelecimento de uma “causalidade interna” que possibilita a ligação entre autores e obras nacionais e continentais na América Latina permitiu também, na visão de Candido, a construção de modos de apropriação criativa do próprio repertório importado no campo da cultura (CANDIDO, 1973).

A questão da tradição foi amplamente discutida por Candido, de fato, na Formação da literatura brasileira (1959). Segundo ele, quando se tem “a formação da continuidade literária, – espécie de transmissão da tocha entre corredores, que assegura no tempo o movimento conjunto, definindo os lineamentos de um todo”, desenha-se, também, “uma tradição, no sentido completo do termo, isto é, transmissão de algo entre os homens”, assim “formando padrões que se impõem ao pensamento ou ao comportamento, e aos quais somos obrigados a nos referir, para aceitar ou rejeitar. Sem esta tradição não há Literatura” (CANDIDO, 1959, p. 24 [Acréscimo meu]).

O primeiro exemplo mais acabado desse procedimento seria, na visão de Candido, o modernismo brasileiro dos anos 1920, que tanto é descendente direto das expressões artísticas nacionais do passado quanto é fruto imediato da potência das vanguardas europeias daquela época, alterando fortemente o tratamento dos temas, problemas e dilemas que se apresentavam à consciência do escritor. Na perspectiva de Candido, há no modernismo um embate entre uma influência da “modernidade à europeia” e uma espécie de “vontade de poder dionisíaca” (NIETZSCHE, 2008) do material local da vida periférica, que busca criar um terreno para que as potências criadoras do ser artístico floresçam6. Nessa percepção, Mário de Andrade (1893-1945) e Oswald de Andrade (1890-1954) teriam construído literaturas que, em geral, investiam no desejo de autonomia e autoafirmação da localidade em relação ao espaço europeu, sem mergulhar na ilusão de uma cultura absolutamente “pura” e “genuína”, impoluta em relação aos desdobramentos do colonialismo (CANDIDO, 1973, p. 17).

Não se trata, por isso, de uma expressão cultural “ingênua”, com um argumento de fundo nacionalista e isolacionista, a que chamamos, grosso modo, de “protecionismo cultural”. Candido adverte

Sabemos, pois, que somos parte de uma cultura mais ampla, da qual participamos como variedade cultural. E que, ao contrário do que supunham por vezes ingenuamente os nossos avós, é uma ilusão falar em supressão de contatos e influências. Mesmo porque, num momento em que a lei do mundo é a inter-relação e a interação, as utopias da originalidade isolacionista não subsistem mais no sentido de atitude patriótica, compreensível numa fase de formação nacional recente, que condicionava uma posição provinciana e umbilical

(CANDIDO, 1973, p. 18).

O que ele pretende destacar é menos a busca por um fundo nacional e autêntico presente nessas literaturas e mais a relação entre produto estético, temário local e tradições nacionais, em uma autoconsciência da necessidade de se recusar a importação mecânica do repertório europeu. Nessa mesma direção, algum tempo depois Roberto Schwarz (1987), buscando exaurir o argumento, revisitou a tese de que existem duas experiências importantes na vida intelectual na América Latina: de um lado, o caráter postiço, inautêntico e imitativo da cultura, correspondente àquilo que Candido considera a “fase amena do atraso”. A partir da clássica sentença de Machado de Assis, segundo a qual “o influxo externo é que determina a direção do movimento”, considera que esse mal-estar gera um sentido de inadequação, uma contradição entre a realidade local dos países do continente e o prestígio ideológico dos países que nos serviriam de “modelo” pela centralidade na geopolítica mundial (SCHWARZ, 1987, p. 30).

Em decorrência disso, teria surgido uma outra atitude igualmente problemática. Schwarz (1987) considerou que, diante dessa sensação de deslocamento, algumas expressões culturais buscaram caminhar, com a mesma ilusão, na direção oposta, ou seja, tentaram “não reproduzir a tendência metropolitana para alcançar uma vida intelectual mais substantiva”, culminando na busca por um “um fundo nacional genuíno, isto é, não-adulterado”, de onde brotaria a matéria necessária para a formação da cultura nacional (SCHWARZ, 1987, p. 32). Esse traço se desenha como a permanência da “consciência amena do atraso”, só que em chave oposta, deslocando o afã pela adesão total à tese da necessidade de “cópia do espírito europeu” para uma espécie de “utopia isolacionista” de caráter essencialista.

Essa orientação aparece tanto na produção literária “nacionalista”, como também na teoria social brasileira, como é o caso de algumas perspectivas presentes no Instituto Superior de Estudos Brasileiros (ISEB), em especial na reflexão de Alberto Guerreiro Ramos (1915-1982) sobre a redução sociológica, “método destinado a habilitar o estudioso a praticar a transposição de conhecimentos e de experiências de uma perspectiva para outra”, inspirado pela consciência de que “existe uma perspectiva [tipicamente] brasileira”, posto que “toda cultura nacional é uma perspectiva particular” (RAMOS, 1996, p. 42, [acréscimos meus]).

Essa atitude, na leitura de Candido, arrefeceu justamente no momento de eclosão da consciência catastrófica do atraso, onde essa ingenuidade é substituída por uma visão mais matizada da realidade que rodeia o intelectual e o escritor. Ao encarar com mais objetividade e serenidade o problema das influências externas, vendo-as como vinculação normal no plano da cultura, o recorrente paradoxo desenhado na formação nacional como herança do colonialismo, expresso na tensão entre local e universal, vai se diluir para dar lugar a uma atitude de maturidade, muito menos afeita à tese das ambiguidades brasileiras (campo x cidade, litoral x interior etc.). Em outros termos, a análise não se restringiu à constatação de que o subdesenvolvimento está ligado à negatividade, à falta, à atrofia e à profusão de problemas sociais, culturais e econômicos. À emergência da “consciência catastrófica do atraso” corresponde uma postura intelectual que enxerga na cultura latino-americana uma série de traços positivos que tornam o continente algo específico e singular na dinâmica mundial (CANDIDO, 1973). Com a erupção da “consciência agônica do atraso”, essa ingenuidade é substituída por uma visão mais matizada.

Com efeito, quanto mais se imbui da realidade trágica do subdesenvolvimento, mais o homem livre que pensa se imbui da inspiração revolucionária, - isto é, o desejo de rejeitar o jugo econômico e político do imperialismo e de promover a modificação das estruturas internas, que alimentam a situação do subdesenvolvimento

(CANDIDO, 1973, p. 18).

Um exemplo ilustrativo mobilizado por Candido é La Ciudad y los Perros (1963), de Mario Vargas Llosa, que parte da tradição do “monólogo interior” característico nas poéticas de Virginia Woolf (1882-1941), William Faulkner (1897-1962), James Joyce (1882-1941) e Marcel Proust (1871-1922). Há uma fecundação cultural entre, de um lado, as formas literárias exógenas, tomadas como empréstimo cultural; e, de outro, os problemas singulares da historicidade local. A fórmula de Vargas Llosa, para o crítico, opta por não apelar à imitação ou à reprodução mecânica do que está dado no cenário europeu, mas sim pelo compartilhamento de recursos comuns às experiências coloniais para construir uma literatura original. O crítico também menciona o exemplo da literatura cubana, país considerado por ele “vanguarda da América Latina contra o subdesenvolvimento”, que tem em figuras como Alejo Carpentier, Cabrero Infante e Lezama Lima, uma poética fortemente vinculada à experimentação estética, sem descuidar-se do dado latino-americano (CANDIDO, 1973).

Por isso é possível falar que Candido identificou a oposição entre uma literatura ingênua do século XIX, ligada à consciência amena do atraso, apegada ao ufanismo e ao pitoresco, e uma literatura de vigor já imbuída da “consciência dilacerada do atraso”, que emerge com mais força no século XX. Henrique Gaio (2017) compreendeu essa oposição como uma apropriação candidiana do repertório crítico schilleriano. Por “ingênua” entende-se uma expressão literária mais instintiva e natural ligada às identidades nacionalistas do século XIX, que justamente tentavam se desvencilhar da matéria importada em nome da exposição de uma localidade “pura” e, às vezes, essencializada, ainda que se utilizassem de uma forma literária e uma linguagem marcadamente europeias, desenhando, desde já, um paradoxo. Na virada do século, entretanto, algumas tendências já indicavam a tentativa de substituir esse procedimento de traço romântico por um gesto mais reflexivo e complexo em relação às “importações literárias” de tópicas temáticas.

O termo “maturidade”, no ensaio de Candido, se refere a uma atitude poética cuja consequência, no plano prático, é a consolidação de uma literatura aberta tanto à capacidade de inovação no plano da expressão quanto ao desígnio de lutar nos âmbitos econômico e político contra a persistência da dependência (CANDIDO, 1973). Sai de cena, com isso, a afirmação da originalidade essencial, no sentido de um particularismo peculiar desconectado do mundo à volta, que leva a atitudes que reforçam o pitoresco e o servilismo cultural, e surge com mais força uma nova expressão literária.

A partir dos movimentos estéticos do decênio de 1920; da intensa consciência estético-social dos anos 1930-1940; da crise de desenvolvimento econômico e do experimentalismo técnico dos anos recentes, começamos a sentir que a dependência se encaminha para uma interdependência cultural [...]. Isto não apenas dará aos escritores da América Latina a consciência da sua unidade na diversidade, mas favorecerá obras de teor maduro e original, que serão lentamente assimiladas pelos outros povos, inclusive os dos países metropolitanos e imperialistas

(CANDIDO, 1973, p. 18-19, grifos meus).

Dessa forma, na fase de consciência do subdesenvolvimento, marcadamente no século XX, parte da literatura latino-americana não hesitaria mais entre uma aceitação indiscriminada do afluxo externo e o mito da originalidade essencialista, marcas peremptórias da ideologia desenvolvimentista em suas vertentes nacionalista (localista) ou liberal (cosmopolita). Misturam-se os impulsos de cópia e rejeição que, se antes eram vistos como fundamentalmente contraditórios, acabam se tornando complementares.

Atraso que estimula a cópia servil de tudo quanto a moda dos países adiantados oferece [...]. Atraso que propõe o que há de mais peculiar na realidade local, insinuando um regionalismo que, ao parecer afirmação da identidade nacional, pode ser na verdade um modo insuspeitado de oferecer à sensibilidade europeia o exotismo que ela desejava, como desfastio; e que assim se torna forma aguda da dependência na independência. Com a perspectiva atual, parece que as duas tendências são solidárias e nascem da mesma situação de retardo ou subdesenvolvimento

(CANDIDO, 1973, p. 20).

Candido ressalta que nas regiões “subdesenvolvidas”, os países de herança colonial e de condição periférica, o problema do “atraso” invade o campo da consciência e da sensibilidade do escritor, propondo e sugerindo tópicas literárias. O crítico considera que, em países desenvolvidos, as representações do campo no romance funcionam apenas como moldura para tratar de problemas urbanos. Já nos países “atrasados”, especialmente na América Latina, essas representações atuam como força importante no plano da criação estética. Embora na fase de “consciência de país novo” a dimensão “regional” apareça como “pitoresco” ou aspecto decorativo, no século XX, na fase da consciência catastrófica do subdesenvolvimento, essa condição acaba funcionando como uma espécie de presciência da crise, abrindo a possibilidade de expansão de um “regionalismo documentário”7 que leva, posteriormente, ao sentido de urgência e ao empenho político na luta pela superação desse subdesenvolvimento (CANDIDO, 1973, p. 21).

Ainda que a partir de um determinado momento do século XX a literatura regionalista não fosse considerada mais a forma hegemônica de expressão poética nacional, pelo que se convencionou considerar seu caráter potencialmente alienante, interessa ao argumento do ensaio examinar exatamente o prolongamento da mesma realidade básica que o possibilitou. No momento da consciência eufórica, desenhada com mais força no século XIX em meio às independências, o regionalismo enquanto elemento pitoresco era considerado a “verdade literária”. Já no momento de estruturação da consciência do subdesenvolvimento, após 1930, o regionalismo se imiscui no que foi chamado de “romance social”, “indigenismo” ou “romance do Nordeste”.

O que os caracteriza, todavia, é a superação do otimismo patriótico e a adoção de um tipo de pessimismo diferente do que ocorria na ficção naturalista. Enquanto esta focalizava o homem pobre como elemento refratário ao progresso, eles desvendam a situação na sua complexidade, voltando-se contra as classes dominantes e vendo na degradação do homem uma consequência da espoliação econômica, não do seu destino individual [...]. O peso da consciência social atua por vezes no estilo como fator positivo, dando lugar à procura de interessantes soluções adaptadas à representação da desigualdade e da injustiça

(CANDIDO, 1973, p. 23).

No caso brasileiro, tal regionalismo, que para Candido se inicia no interior do Romantismo, foi geralmente considerado uma tendência literária secundária ou uma expressão subliterária. Valorizou-se mais, quase sempre, a chamada “ficção urbana”, que em diversas situações, na economia interna das obras, não aderia à caracterização comum do “pitoresco” rural. Em Machado de Assis, ressalta ele, esse afastamento em relação ao regionalismo que narra o campo evidenciou a fragilidade do simples descritivismo da “cor local”. Foi só a partir dos anos 1930, exatamente na fase de elaboração e consolidação da consciência catastrófica do atraso, que essas mesmas tendências regionalistas, longe de desaparecerem, foram “sublimadas e transfiguradas pelo realismo social” (CANDIDO, 1973, p. 21).

É bastante curioso notar que, no conjunto das reflexões produzidas pelos intelectuais brasileiros na virada do século XIX para o início do XX, algumas figuras destacam-se por uma espécie de “elogio” de nosso atraso. Mesmo em meio às dinâmicas de modernização, alguns pensadores identificavam o Brasil como um país de vocação agrária, refratário ao progresso urbano-industrial, portanto singular e específico na dinâmica da economia global. “Para essa interpretação, o Brasil é o país essencialmente agrícola, é o país cheio de riquezas naturais e de cordialidade, mas tropical e mestiço, portanto, inferior” (BRESSER-PEREIRA, 1982, p. 272).

É o caso de Alberto Torres (1865-1917), que identificou na condição rural do país não a marca de um “retardamento sócio-histórico” frente aos países desenvolvidos, mas a própria “condição natural” de nossa formação. Até por isso, Torres (1978) defendia que, no contexto da modernização do Brasil, no início do século XX, o melhor caminho seria apostar na vocação agrícola e construir uma nação de pequenos proprietários, gerando um tipo de produção econômica diversificada que contribuiria para a construção da identidade nacional baseada na solidariedade do povo.

A introdução do moderno, atrelado nesse caso à industrialização e à urbanização, era identificada por Torres como o responsável por produzir uma ordem artificial, capaz de gerar instabilidade e de disseminar o gosto pelo luxo e pela frivolidade na sociedade, o que, no caso brasileiro, seria particularmente problemático, haja vista a dificuldade de consolidação plena de uma coesão social no país. Assim, vinculado a um agrarismo que buscava romper com a dependência do país em relação ao exterior, superando as influências coloniais e monárquicas, o autor via na ênfase da agricultura a chave para garantir a soberania nacional brasileira. O caminho à modernidade burguesa-urbano-industrial seria a fonte de desintegração, além de negar a própria “natureza” da condição histórica do Brasil, uma sociedade, em essência, agrária (TORRES, 1978).

Essa era a visão, aliás, presente em Parceiros do Rio Bonito (1954), estudo sobre culturas tradicionais paulistas e a transformação dos seus meios de vida no século XX. No texto, Candido explorou as mudanças nos costumes do caipira diante da expansão econômica capitalista. Com o choque entre o “moderno” e as tradições rurais, à cultura caipira restava a integração no novo sistema ou a anomia do isolamento. Embora lutasse por sua sobrevivência, a dimensão rural acabaria sendo incorporada pela força da lógica urbano-industrial (CANDIDO, 2010). O universo regional, representado pelo “rural”, “agrário” ou “rústico”, em tese seria superado pela lógica avassaladora do progresso, da modernização e da urbanização.

Assegurada a abissal diferença ideológica entre Candido e Torres, voltemos ao argumento do crítico: na visão dele, é possível identificar que os escritores contemporâneos da América Latina, ainda que rejeitassem a pecha de “regionalistas”, tinham de conviver com a persistência da força desta dimensão “regional”, mesmo que ela não atuasse mais como tendência impositiva ou requisito prioritário da expressão da consciência nacional. Na reflexão apresentada em “Literatura e subdesenvolvimento”, o crítico observou que, na verdade, esse universo “agrário” e “rural” permaneceu vivo mesmo com o avançar dos projetos de modernização levados à cabo no continente no século XX. É exatamente por isso que, na literatura latino-americana moderna, isto é, no “superregionalismo”, a dimensão “regional” não pôde simplesmente ser ultrapassada ou superada; antes, ela foi assimilada como traço sui generis de nossa vida social, de modo que foi introduzida tomada como marca congênita de nossa condição periférica e fermento para a criação poética.

Ao constatar esse estado, os escritores, na visão de Candido, operam com uma “desprovincianização da consciência literária” (ARANTES, 1997, p. 29), cuja marca poética é a busca pela inventividade técnica, a partir da qual estas regiões identificadas como “atrasadas” poderiam se transfigurar, ultrapassando a recorrente caracterização pitoresca e transformando-se em matéria de universalidade.

Descartando o sentimentalismo e a retórica; nutrida de elementos não-realistas, como o absurdo, a magia das situações; ou de técnicas antinaturalistas, como o monólogo interior, a visão simultânea, o escorço, a elipse - ela implica não obstante em aproveitamento do que antes era a própria substância do nativismo, do documentário social.

(CANDIDO, 1973, p. 24).

Como desdobramento da explosão dessa consciência agônica do atraso, no século XX, Candido considerou que emergiu uma produção literária que ele vai chamar de super-regionalista ou transregionalista. Em geral, ela se caracteriza por um “esforço de universalizar a região”, ou seja, em tratar os problemas específicos de algumas matérias “nativistas” (local, rural, campo, sertão) a partir de dilemas e sentimentos universais e de “problemas metafísicos”.

Isto levaria a propor a distinção de uma terceira fase, que se poderia (pensando em surrealismo, ou super-realismo) chamar de super-regionalista. Ela corresponde à consciência dilacerada do subdesenvolvimento e opera uma explosão do tipo de naturalismo, que se baseia na referência a uma visão empírica do mundo; naturalismo que foi a tendência estética peculiar a uma época onde triunfava a mentalidade burguesa e correspondia à consolidação das nossas literaturas

(CANDIDO, 1973, p. 24).

O crítico considerou que o melhor exemplo dessa literatura é a prosa de ficção do romance de Guimarães Rosa (1908-1967), mas também enxerga esses traços em outros escritores:

Não se exigirá mais, como antes se exigia explícita ou implicitamente, que Cortázar cante a vida de Juan Moreyra, ou Clarice Lispector explore o vocabulário sertanejo; mas não se deixará igualmente reconhecer que, escrevendo com requinte e superando o naturalismo acadêmico, Guimarães Rosa, Juan Rulfo, Vargas Llosa praticam em suas obras, no todo ou em parte, tanto quanto Cortázar ou Clarice Lispector no universo dos valores urbanos, uma espécie nova de literatura que ainda se articula de modo transfigurador com o próprio material do nativismo

(CANDIDO, 1973, p. 24).

Quando mencionamos o impacto da reflexão de Cardoso e Faletto na argumentação de Candido, é exatamente a esse ponto que nos referimos. Embora estejam presentes os mecanismos estruturais de autoperpetuação da condição de dependência nas sociedades da periferia do capitalismo, os dois autores ressaltaram que, pari passu, abrem-se possibilidades de mudança social.

As estruturas sociais impõem limites aos processos sociais e reiteram formas estabelecidas de comportamento. Contudo, geram também contradições e tensões sociais, abrindo possibilidades para movimentos sociais e ideologias de transformação. As análises não só devem explicitar as restrições estruturais que reforçam os aspectos reiterativos da reprodução da sociedade, mas também delinear as oportunidades de mudança, enraizadas no próprio interesse social e nas ideologias criadas pelo desenvolvimento de uma determinada estrutura. Neste processo, os grupos e classes sociais subordinadas, assim como os países dominados, tentam contra-atacar os interesses dominantes que sustentam as estruturas de dominação

(CARDOSO e FALETTO, 2008, p. 7).

Candido, Cardoso e Faletto, guardadas as respectivas diferenças temáticas, aproximaram-se na medida em que visualizaram na situação de dependência não a estruturação de uma sociedade cristalizada e imóvel, na qual a cultura, por extensão, seria apenas uma repercussão dessa lógica de dominação rígida. Antes, observaram que a dependência produz, também, contradições que abrem espaço à subversão e à insubordinação. O maior exemplo disso seria a literatura que Candido chama de super-regionalista: diante da “situação de atraso” decorrente da dependência, o superregionalismo apropriou-se da matéria típica da realidade sócio-histórica latino-americana e produziu um objeto cultural disruptivo, capaz inclusive de subverter a própria tradição estética hegemônica no continente, além de circular nos espaços do centro do capitalismo.

Equilíbrio de antagonismos

Gabriel Lima (2020, 2022) considera que “Literatura e subdesenvolvimento” de Candido é devoto do repertório da ideologia desenvolvimentista, que supostamente desejava um “desfecho positivo para a marcha da história”. Para Lima, inclusive, a categoria “super-regionalismo” presente nos textos, embora funcionasse como tentativa de conciliação da matéria regional às técnicas narrativas do moderno romance europeu, não se ajustaria ao caso de alguns dos próprios escritores do continente mencionados pelo crítico, como José Maria Arguedas, “pois nele a tensão entre narrativa moderna e cultura local se apresenta em grau de irreconciliação” (LIMA, 2020, p. 41).

Se tomássemos a Formação como objeto de análise, certamente essa percepção faria sentido. Como mostra Grinor Rojo (2018), nesse livro o desenvolvimento literário brasileiro rumo ao amadurecimento se daria num processo linear em que a integração em pé de igualdade com as tradições metropolitanas seria a finalidade.

Chegamos assim a ser ‘mais’, porém só na medida em que formos ‘mais como o outro’, como aquele que fez as coisas antes e estabeleceu o padrão e o roteiro que deveria ser seguido, em suma, o outro que é o farol da plenitude. É [...] a ‘teoria do desenvolvimento’, mas em aplicação estrutural

(ROJO, 2018, p. 163).

Podemos nos apoiar também na argumentação de Paulo Franchetti (2018), para quem o valor da Formação estaria exatamente no otimismo quanto à formação da sociedade brasileira e de nosso sistema literário, cujo final feliz se daria em dois atos: “o monólogo de Machado de Assis” e “a festa modernista”. Acontece, porém, que Candido e outros intelectuais brasileiros acabaram experimentando

a desilusão com o projeto civilizador da burguesia ilustrada, em aliança com a aristocracia do café, devido ao apoio dado por esses mesmos grupos ao golpe militar de 1964. O que o golpe lhes teria mostrado de forma indubitável é que estava sendo traçado um caminho muito diferente para a modernização brasileira, que agora se revelava poderoso e capaz de se impor de modo brutal: o modelo de um país periférico, modernizado em função e dentro dos limites estabelecidos pelos países centrais. Ou seja, a modernidade que o país buscara ao longo da sua história terminava por ser uma modernidade relativa, exigida pelo capital internacional e por ele também controlada

(FRANCHETTI, 2018, p. 329-330).

É por isso que, na nossa visão, “Literatura e Subdesenvolvimento” se vincula menos à tópica desenvolvimentista e mais às hipóteses gerais do pensamento dependentista.

Candido, ao adotar a literatura latino-americana como patamar analítico, aproximava-se, nesse sentido, da redução potencial implícita na ‘teoria da dependência’: a sua análise transcendia o campo restrito da literatura produzida no âmbito do Estado nacional brasileiro, ou mesmo o da literatura dos diferentes estados nacionais do continente, para situá-las no contexto abrangente do subdesenvolvimento e dependência que marcariam a condição de toda a literatura latino-americana. Assim procedendo, Candido obviamente inseria a literatura brasileira num corpus e sistema literário ampliado – a ‘literatura latino-americana’ –, unificado pelas vicissitudes da dependência

(WEBER, 1997, p. 149).

Desse modo, a literatura super-regionalista não se caracteriza pela subsunção das diferenças que homogeneíza artificialmente a realidade, de modo que, em alguns casos, seja impossível conciliar as diferenças. O que o ensaio nos apresenta é a hipótese de que a transformação paulatina da realidade histórica e da consciência crítica latino-americana entre fins do século XIX e meados do XX possibilitou a acomodação, em “equilíbrio de antagonismos8”, das disparidades fundamentais da formação social do continente, representadas no fenômeno literário a partir de técnicas linguísticas, dispositivos narrativos, temas e enredos.

Em outros termos, o que antes era visto como inconciliável agora equilibra-se em uma dialética cuja síntese, o super-regionalismo, é a expressão maior do caráter dependente da cultura da América Latina. Superadas as ilusões mais imediatas das teorias do desenvolvimento, que tomavam o regional como marca perene do atraso, a constatação da inviabilidade da completude do processo de modernização à moda europeia coloca para Candido a questão da complementaridade e da coexistência da dualidade estrutural latino-americana, no limite a nossa marca de singularidade na geopolítica global. Para ser mais preciso: a marca fundamental da vida dependente baseia-se na constante busca pela conciliação dos antagonismos.

Cabe dizer que, para Candido, a persistência dramática da situação de subdesenvolvimento, com traços patentes de analfabetismo e pobreza material, não criou uma espécie de “deserto cultural”, como as teses da “teoria da modernização”, sobretudo a ideologia desenvolvimentista de corte historicista e evolucionista, poderiam supor; antes, levou à emergência de uma espécie de consciência crítica do subdesenvolvimento, impulsionando uma literatura super-regionalista que pôs em equilíbrio o local e o universal, isto é, que uniu ao temário regional uma linguagem transfiguradora e moderna para além do regionalismo tradicional (CANDIDO, 1973). Na poética de figuras como Manuel Bandeira (1886-1968), Guimarães Rosa (1908-1967), Oswaldo de Andrade (1890-1954), Mário de Andrade (1893-1945), Alejo Carpentier (1904-1980), Lezama Lima (1910-1976), dentro outros, encontra-se uma recusa à representação documentária do real e uma abertura à invenção linguística e fabuladora (CANDIDO, 1973). Ainda que, nas obras desses autores, o cenário seja marcadamente “local”, os dilemas são universais, considerou o crítico. E é nesse “equilíbrio de antagonismos” que reside não uma operação de regressão, subsunção ou subtração, mas uma forma específica de relação cultural.

Esse momento distinto do pensamento de Candido marca a confluência entre a revisão dos pressupostos desenvolvimentistas e a atenção aos “impasses da dependência” (MOTA, 1978, p. 45) e aos desdobramentos do colonialismo. Essa dependência, contudo, a despeito da perpetuação de desajustes e descompassos nas sociedades periféricas, não colocou os escritores latino-americanos em condição de inferioridade e esterilidade; antes, acabou fortalecendo a própria atitude apropriativa em relação ao repertório externo e a inventividade estética.

Claudio Lomnitz considera que, na década de 1960, as teorias da dependência

insistiam na coprodução do desenvolvimento e do subdesenvolvimento e, portanto, na contemporaneidade da América Latina em relação à metrópole. Em outras palavras, a teoria da dependência subvertia o marco evolutivo das teorias do desenvolvimento insistindo que o desenvolvimento não era o futuro do subdesenvolvimento; em vez disso, era seu “gêmeo malvado”. As nações dependentes não eram versões mais jovens das grandes potências capitalistas; eram igualmente velhas e constituíam a fonte perene de seu poder. O intercâmbio desigual e as economias extrativistas mantinham a dependência dos países dependentes

(LOMNITZ, 2016, p. 67).

A constatação dessa assimetria estrutural, analisada do ponto de vista da cultura, é o traço de distinção apresentado pela reflexão de Candido no ensaio aqui dissecado, mas também em outros textos produzidos por ele (e por outros intelectuais) a partir da segunda metade dos anos 1960. Para João Hernesto Weber (1997, p. 21), esse contexto “é o tempo da leitura dialética, a dialetizar as relações entre metrópole e periferia, entre diferenças de classe, raça e regiões na própria periferia, entre ‘infraestrutura’ e ‘superestrutura’, entre ‘cultura dominante’ e ‘cultura dominada’. Longe da hipótese funcionalista e integracionista dos anos 1940-1950, Candido identificou nesse momento uma dialética da dependência na experiência social latino-americana, marcada especialmente pela literatura “transregionalista”, que, mesmo com a persistência dramática da sensação de debilidade e com as “condições francamente proibitivas da dependência” (ARANTES, 1997, p. 33), foi capaz de criar “obras de primeira ordem” do ponto de vista da qualidade e da originalidade, preocupadas tanto em recusar a imitação servil quanto o nativismo e o regionalismo primários. O “atraso”, para Candido, passa a ser mais que uma etapa transitória em um tempo linear, progressivo e evolucionista; é como um fermento que potencializa a singularidade da própria condição periférica nacional e continental.

assistimos, em ‘Literatura e subdesenvolvimento’, à releitura, realizada por ele próprio, da Formação: a visão de uma literatura nacional homogênea, integrada ao Ocidente, dava lugar, nos anos setenta, à visão dos descaminhos, dos descompassos, das descontinuidades até, da inserção das literaturas da América Latina nas zonas de influência das literaturas metropolitanas

(WEBER, 1997, p. 145).

Falamos em “releitura” porque, como mostra Celso Lafer (1979, p. 75), a Formação se preocupou especialmente com “o significado da elaboração da ordem”, isto é, com a função social dos momentos decisivos da literatura brasileira na construção de valores que justificaram a criação da “civilização brasileira”. Em outros termos, e pensando junto de Grinor Rojo (2018, p. 163), imbricavam-se, na formação social brasileira, a panaceia do desenvolvimento e a evolução progressiva do sistema literário que nos integraria ao Ocidente: “a literatura brasileira chegaria a ser plena ao cabo de um processo de crescimento durante o qual ela se fortaleceria até adquirir um caráter definido, quando então estaria incorporada como um ramo estimável [...] à árvore maior da literatura ocidental.”

A partir da década de sessenta, relendo a história cultural brasileira e latino-americana, Candido já não se apresentava embebido da ânsia pela chegada ao ponto de culminância da possível harmonia do sistema literário e da formação nacional. Se do ponto de vista metodológico a “dialética de dois gumes” da literatura brasileira presente em Literatura e Subdesenvolvimento lembra o movimento da Formação, na medida em que novamente se ressalta “a literatura brasileira como síntese de tendências universalistas e particularistas” (CANDIDO, 2000, p. 23), o argumento do ensaio identifica que essa síntese, porém, não seria a estabilização poética moderna. O que ocorre no superregionalismo é o aparecimento de disfunções, desordens e da anomia que perpassa o dependente universo cultural (e literário) da América Latina.

Nesse sentido, inclusive, o que se afirma em Literatura e Subdesenvolvimento é que a anomia é o único nomos possível nos quadros da dependência, do atraso, do subdesenvolvimento. Longe estamos, portanto, da visão positiva que perpassa Formação, em que se analisava justamente a integração ‘afortunada’ da literatura brasileira aos padrões cultos (e ‘disciplinados’, se se recordar o neoclassicismo) da Europa. Em Literatura e Subdesenvolvimento encontramo-nos na contramão de Formação: a integração ao Ocidente é vista pelo seu reverso, isto é, pelos descaminhos que apresenta, dada a dependência”

(WEBER, 1997, p. 141, grifos meus).

Na percepção de Candido, a “atmosfera opressiva do atraso”, manifesta de forma reiterada pela persistência do analfabetismo, da debilidade cultural e da atrofia social, produziu uma “consciência do subdesenvolvimento”, cujos efeitos, na formação cultura brasileira, foram decisivos (à época). Com isso, emergiu a literatura super-regionalista cujo traço mais marcante é a representação dialética das dimensões espaço-temporais latino-americanas antes entendidas como assimétricas: local-universal, nacional-cosmopolita, urbano-rural, dentre outros. A partir da análise dessa literatura, cujo produto estético de vigor e original aflora em meio à persistência dramática da “sensação de debilidade”, o crítico brasileiro desfaz o olhar positivo presente em Formação da literatura brasileira, qual seja, o de que a qualidade evolutiva da obra artística brasileira dependeria, também, do desenvolvimento socioeconômico linear do país.

O deslocamento crítico produzido pelo ensaio é que o conceito de subdesenvolvimento é esvaziado de sua semântica historicista/evolucionista, ligada à ideologia desenvolvimentista, no interior da qual era pensado como uma etapa que prefigurava o progresso e a “civilização”, e passa a definir os contornos específicos e singulares da formação e das sociedades periféricas brasileira e latino-americana. De posse de uma “consciência crítica realista”, não mais iludida com os imperativos do progresso, o que antes eram considerados os grandes impasses, paradoxos ou incongruências da formação – as assimetrias entre urbano e rural, centro e periferia, local e universal, por exemplo – passam a ser lidos agora como o nomos latino-americano.

É possível perceber, desse modo, que a perenidade da “situação de atraso” brasileira e latino-americana, simbolizada pelas condições de “debilidade cultural” e “atrofia social”, funciona também como fermento para a emergência de uma literatura super-regionalista que, na recusa à linguagem documentária e ao realismo obsessivo, mistura tanto a “cor local” quanto aspectos da “textura da alma de todos os homens”, criando uma espécie de “romance metafísico”. Em “Literatura e subdesenvolvimento”, assim, o crítico apresentou a problemática do atraso em íntima relação com o caráter dependente da América Latina. O subdesenvolvimento é visto como a condição de singularidade da periferia do capitalismo, não mais como etapa transitória da evolução sociohistórica calcada numa noção de tempo linear, progressivo e evolucionista que precede o desenvolvimento. Ao constatar que o atraso não é somente uma força contrária ao progresso, Candido traçou os contornos da dialética da dependência gestada já no seio da empreitada colonial e desdobrada nas vivências sociopolíticas contemporâneas da América Latina.

1

Artigo não publicado em plataforma preprint. Todas as fontes e bibliografias utilizadas são referenciadas. O texto é um desdobramento da tese de doutorado intitulada Colonialismo, dependência e alegorias do Brasil na historiografia literária de Antonio Candido (1960-1973), defendida no Programa de Pós-graduação em História Social da Cultura da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro – PUC-Rio, em 2023. O presente trabalho foi realizado com apoio da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior – Capes – Brasil (Processo 88887.342233/2019-00).

3

Utilizaremos a versão traduzida para o português publicada na revista Argumento, em 1973, pouco tempo depois da confecção do ensaio.

4

Célia Pedrosa (2001, p. 2) ressalta que o termo milenarismo, nesse contexto, representa “expressão utilizada para definir as diversas formas de pensamento utópico, isto é, de crença na possibilidade de realização futura de uma situação humana e social idealmente perfeita.”

5

Na visão de Célia Pedrosa (2001, p. 2), trata-se de um “traço básico da literatura regionalista produzida na fase da consciência amena do atraso, associado ao exotismo e ao pitoresco” que “consiste na representação superficial e harmonizante das relações humanas e sociais em grupos marcados pelo atraso, pela miséria e pela incultura”.

6

Em 1946, Candido escreveu um ensaio intitulado “O portador” (2013), no qual colocou-se em defesa do caráter disruptivo das ideias nietzschianas, que para ele possibilitariam uma nova concepção plena do humano em meio ao “vendaval moderno”, à época representado pelos autoritarismos do nazismo, do fascismo, do stalinismo e, no caso brasileiro, do Estado Novo varguista.

7

Em nota de pé de página, descreve: “Uso aqui o termo ‘regionalismo’ à maneira da nossa crítica, que abrange toda a ficção vinculada à descrição das regiões e dos costumes rurais desde o Romantismo; e não à maneira da maioria da crítica hispano-americana moderna, que geralmente o restringe às fases compreendidas mais ou menos entre 1920 e 1950” (CANDIDO: 1973, p. 21).

8

No sentido de Gilberto Freyre (1933): a maneira como tensões, dilemas, conflitos e dualidades que compõem a formação brasileira, mesmo que antagônicas, coexistem sem que se dissolva o tecido social e a nação. No caso de Candido, o equilíbrio que se apresenta é entre formação social precária e a modulação de um produto cultural, estético e literário de fôlego – o superregionalismo.

Referências Bibliográficas

  • ALVES, Castro. Espumas fluctuantes, poesias Bahia: [s.n.], 1870.
  • CANDIDO, Antonio. Formação da Literatura Brasileira: momentos decisivos (1750- 1880) 2 volumes. São Paulo: Livraria Martins Editora, 1959.
  • CANDIDO, Antonio. Literatura e subdesarollo. In: MORENO, Fernández César. América Latina en su literatura México: Siglo XXI, pp. 335-353, 1972.
  • CANDIDO, Antonio. Literatura e subdesenvolvimento. Argumento São Paulo: Paz e Terra, n. 1, 1973, p. 6-24.
  • CANDIDO, Antonio. O Portador. Diário de São Paulo, 1946.
  • CANDIDO, Antonio. Os parceiros do Rio Bonito. Estudo sobre o caipira paulista e a transformação dos seus meios de vida. Rio de Janeiro: Ouro sobre azul, [1964] 2010.

Bibliografia

  • ARANTES, Paulo. Providências de um crítico literário na periferia do capitalismo. In: ARANTES, Otília Beatriz Fiori; ARANTES, Paulo Eduardo. Sentido da formação: três estudos sobre Antonio Candido, Gilda de Mello e Souza e Lúcio Costa Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1997, pp. 7- 66.
  • ARANTES, Paulo; ARANTES, Otília. O sentido da formação Rio de Janeiro: Paz e terra, 1997.
  • BENEDETTI, Mario. Temas y problemas. In: MORENO, Fernández César. América Latina en su literatura México: Siglo XXI, 1972.
  • BRESSER-PEREIRA, Luiz Carlos. As três interpretações da dependência. Perspectivas: Revista de Ciências Sociais, v. 38, 2010.
  • BRESSER-PEREIRA, Luiz Carlos. Seis interpretações sobre o Brasil. Dados, v. 25, n. 3, p. 269306, 1982.
  • CANDIDO, Antonio. Formação da literatura brasileira: momentos decisivos Belo Horizonte: Itatiaia, 2000.
  • CANDIDO, Antonio. Perversão da Aufklärung. In: Textos de intervenção São Paulo: Duas Cidades: Editora, v. 34, pp. 320-327, 2002.
  • CARDOSO, Fernando Henrique, FALETTO, Enzo. Dependência e desenvolvimento na América Latina Rio de Janeiro: Zahar, 1970.
  • CARDOSO, Fernando Henrique, FALETTO, Enzo. Repensando dependência e desenvolvimento na América Latina. In: Economia e movimentos sociais na América Latina Rio de Janeiro: Centro Edelstein de Pesquisa Social, 2008. pp. 4-20.
  • CHIAPPINI, Ligia. Do subdesenvolvimento à interdependência: as duas pontas do nó. Revista do Instituto de Estudos Brasileiros, n. 53, p. 13-30, 2011.
  • EWBANK, Alice de Oliveira. No fio da comparação: estudo do movimento crítico de Antonio Candido Dissertação (mestrado) – UFRJ/IFCS/Programa de Pós-Graduação em Sociologia e Antropologia, Rio de Janeiro, 2014.
  • FERNÁNDEZ MORENO, César. América Latina en su literatura México: Siglo XXI. 1972.
  • FRANCHETTI, Paulo. Antonio Candido e a conciência do atraso. Signótica, v. 30, n. 3, p. 318-345, 2018.
  • FREYRE, Gilberto. Casa-Grande & Senzala Rio de Janeiro: Maia & Schmidt, 1933.
  • FURTADO, Celso. O mito do desenvolvimento e o futuro do Terceiro Mundo. Argumento São Paulo: Paz e Terra, nº 1, pp. 46-53, 1973.
  • FURTADO, Celso. Teoria e política do desenvolvimento econômico São Paulo: Cia. Editora Nacional, 1967.
  • GAIO, Henrique Pinheiro Costa. Por uma historiografia literária sentimental: formação e modernidade em Antonio Candido. História da Historiografia, v. 1, pp. 162- 177, 2017.
  • GIMENES, Max Luiz; LIMA, Gabriel Cordeiro. A radicalização política de Antonio Candido nos anos 1970 In: 44º Encontro Nacional da Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Ciências Sociais (ANPOCS), 2020. Anais do 44º Encontro Anual da ANPOCS, 2020.
  • GOMES, Paulo Emílio Sales. Uma situação colonial?. Comunicação apresentada na Primeira Convenção Nacional da Crítica Cinematográfica, São Paulo, 12 a 15 de novembro de 1960. Nota de Ruy Gardnier. Contracampo – revista de cinema, n. 15. Disponível em: <http://www.contracampo.com.br/15/umasituacaocolonial.htm>. Acesso em: 12/02/2023.
    » http://www.contracampo.com.br/15/umasituacaocolonial.htm
  • GULLAR, Ferreira. Vanguarda e subdesenvolvimento. Ensaios sobre Arte, v. 3, 1969.
  • GUMBRECHT, Hans Ulrich. Atmosfera, Ambiência, Stimmung: sobre o potencial oculto da literatura Tradução Ana Isabel Soares. Rio de Janeiro: Contraponto; Editora PUC Rio, 2014.
  • GUMBRECHT, Hans Ulrich. Modernização dos sentidos São Paulo: Ed. 34, 1998.
  • GUNDER FRANK, André. The development of underdevelopment. Monthly Review, vol. 18, nº 4, sep. 1966.
  • HENRÍQUEZ UREÑA, Pedro. La utopía de América. Buenos Aires: La Plata Estudiantina, 1925.
  • HOLANDA, Sergio Buarque de. Visão do paraíso: os motivos edênicos no descobrimento e colonização do Brasil São Paulo: FFCL/USP, 1959.
  • KAYSEL, André; MUSSI, Daniela. Populismo, classe e nação: Francisco Weffort e a teoria da dependência (1967-1972) In: Anais do 9º Congresso Latino-Americano de Ciência Política (ALACIP), 2017.
  • LAFER, Celso. Antonio Candido. Esboço de figura: Homenagem a Antonio Candido São Paulo: Duas Cidades, p. 73-88, 1979.
  • LIMA, Gabriel dos Santos. A teoria desenvolvimentista do “superregionalismo” em Antonio Candido e o caso Arguedas. Revista Criação & Crítica, n. 26, p. 40-54, 2020.
  • LIMA, Gabriel dos Santos. Relendo” Literatura e Subdesenvolvimento”. Revista Entrecaminos, v. 4, n. 1, p. 203-211, 2020.
  • LIMA, Gabriel dos Santos. Romance modernista e consciência Catastrófica: Relendo “Literatura e Subdesenvolvimento”, de Antonio Candido 2022. Tese (Doutorado em Teoria Literária e Literatura Comparada) - Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2021.
  • LOMNITZ, Claudio. Tiempo y dependencia em la América Latina. In: La nacion desdibujada. 2. ed. Barcelona: Malpaso, 2016.
  • LYNCH, Christian Edward Cyril. Por que pensamento e não teoria?: a imaginação político-social brasileira e o fantasma da condição periférica (1880-1970). Dados, v. 56, n. 4, p. 727-767, 2013.
  • MELLO, Mario Vieira de. Desenvolvimento e cultura: o problema do estetismo no Brasil São Paulo: Nacional, 1963.
  • MOTA, Carlos Guilherme. Ideologia da cultura brasileira (1933-1974): pontos de partida para uma revisão histórica 4ª ed. São Paulo: Ática, 1978.
  • NIETZSCHE, Friedrich. A vontade de poder Trad. de Marcos Sinésio e Francisco José. Rio de Janeiro: Contraponto, 2008.
  • PEDROSA, Celia. Introdução crítica a Literatura e subdesenvolvimento, de Antonio Candido. In: BERND, Zilá (Org.). Antologia de textos fundadores do comparatismo literário interamericano. Porto Alegre, 2001. Disponível em: http://www.ufrgs.br/cdrom Acesso em: 18/12/2022.
    » http://www.ufrgs.br/cdrom
  • POCOCK, John. Linguagens do ideário político Tradução de Fábio Fernandez. São Paulo:Edusp, 2003.
  • PRADO JUNIOR, Caio. A Revolução Brasileira São Paulo: Brasiliense, 1966.
  • PRADO JUNIOR, Caio. Formação do Brasil contemporâneo São Paulo: Livraria Martins Editora, 1942.
  • RAMOS, Alberto Guerreiro. A redução sociológica Rio de Janeiro: Ed. UFRJ, 1996.
  • ROJO, Grínor. Ángel Rama, Antonio Candido y los conceptos de sistema y tradición en la teoría crítica latinoamericana moderna. Caligrama, Belo Horizonte, n. 12, p. 7-33, 2007.
  • SCHWARZ, Roberto. Nacional por subtração. In: Que horas são?: ensaios São Paulo: Companhia das Letras, 1987.
  • TORRES, Alberto. A Organização Nacional São Paulo: Editora Nacional, [1914] 1978.
  • TROTSKY, Leon. A revolução permanente 2ª edição. São Paulo: Kairós, [1930] 1985.
  • TROTSKY, Leon. The Russian Revolution: The Overthrow of Tsarism and The Triumph of the Soviets DUPEE, F. W. (org.). Garden City/New York: Doubleday Anchor, [1930] 1959.
  • WASSERMAN, Cláudia. A Teoria da Dependência: do nacional-desenvolvimentismo ao neoliberalismo Editora FGV, 2017.
  • WEBER, Alfred. História Sociológica da Cultura São Paulo: Mestre Jou, 1970.
  • WEBER, João Hernesto. A nação e o paraíso: a construção da nacionalidade na historiografia literária brasileira Editora da UFSC, 1997.
  • WERNECK VIANNA, Luiz. “Vantagens do moderno, vantagens do atraso”. Presença– Revista de Cultura e Política. n. 12, 1988, p.146-162.

Contato

Rua Francisco Portela, 1470 24435-005 – São Gonçalo – Rio de Janeiro – Brasil cairosbarbosa@gmail.com

Editores responsáveis

Miguel Palmeira e Stella Maris Scatena Franco

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    27 Jun 2025
  • Data do Fascículo
    2025

Histórico

  • Recebido
    10 Jul 2024
  • Aceito
    18 Dez 2024
location_on
Universidade de São Paulo, Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Departamento de História Av. Prof. Lineu Prestes, 338, 01305-000 , Tel.: (55 11) 3091-3701 - São Paulo - SP - Brazil
E-mail: revistahistoria@usp.br
rss_feed Acompanhe os números deste periódico no seu leitor de RSS
Ir para o topo Reportar erro