Resumo
Neste artigo, examino o humor dos anúncios inventados do The Wipers Times, jornal de trincheira britânico que circulou em Ypres, na Frente Ocidental, entre fevereiro de 1916 e dezembro de 1918, durante a Primeira Guerra Mundial. A pesquisa analisou todos os 157 anúncios publicados ao longo das 23 edições do jornal, organizados a partir de dois rótulos: Ofertas e Referentes. Essa classificação permitiu compreender como tais anúncios – falsos, sim, mas não mentirosos – mobilizavam a precariedade da vida nas trincheiras como elemento central de um humor que buscava transformar a dura realidade da guerra em paródia. Criando situações absurdas como forma de provocar o riso, mas sem negar ou apagar a experiência brutal das trincheiras, sustenta-se que esses textos podem ser interpretados à luz da teoria da incongruência, na medida em que produzem efeitos cômicos a partir do contraste entre a linguagem publicitária e o cotidiano extremo da guerra.
Palavras-chave
The Wipers Times
; Primeira Guerra Mundial; Jornais de Trincheira; Humor; Publicidade
Abstract
In this paper, I examine the humor of the fictitious advertisements published in The Wipers Times, a British trench newspaper that circulated in Ypres, on the Western Front, between February 1916 and December 1918, during the First World War. The research analyzed 157 advertisements published across the paper’s 23 issues, organized under two categories: Offers and Referents. This classification made it possible to understand how those fake – though not deceitful – ads mobilized the precariousness of trench life as central element of a humor that sought to turn the harsh reality of war into parody. By constructing absurd situations as a means of eliciting laughter—without denying or erasing the brutal and concrete experience of war—these texts can be interpreted considering incongruity theory, insofar as their comic effects emerge from the contrast between the language of advertising and the extreme realities of wartime life.
Keywords
The Wipers Times; First World War; Trench Newspapers; Humor Studies; Advertising
“Por que correr o terrível risco dos submarinos?” A pergunta é feita em um anúncio publicitário publicado na edição de 26 de fevereiro de 1916 do The Wipers Times.3 Nele, o jornal britânico destaca um incrível seguro de vida contra mortes causadas por submarinos alemães. Quem tiver interesse, informa a peça, pode contratá-lo em qualquer banca de jornal. À primeira vista, trata-se de um anúncio normal – mas surpreendentemente cômico quando nos damos conta de que tal apólice era oferecida às tropas terrestres que lutavam nas trincheiras da Bélgica, bem distantes do mar e dos U-Boats alemães.
O anúncio não foi um erro, e sim uma piada de um dos mais populares e criativos “jornais de trincheira” da Primeira Guerra Mundial.
Os jornais de trincheira eram periódicos produzidos por combatentes para outros combatentes e, mesmo no ambiente hostil da guerra, apresentavam um traço recorrente: o uso do humor. Por meio de paródias, exageros e distorções cômicas do cotidiano militar e civil, esses impressos ofereciam entretenimento e graça em zona de conflito frequentemente monótona e extenuante.
Desde que floresceu uma história social da Grande Guerra, no fim dos anos 1960 (CORREIA, 2014), os historiadores produziram estudos sobre imprensa, literatura e escrita epistolar, mas foi somente nos anos 1980 que os jornais de trincheira tornaram-se objeto de estudo meticuloso, com pesquisas voltadas para seus conteúdos e funções culturais (DU PONT, 2015; SEAL, 2016; NELSON, 2011; FULLER, 1991; AUDOIN-ROUZEAU, 1987). Parte dessa literatura enfatiza a noção de agência dos combatentes e a capacidade desses periódicos de produzir sentidos próprios sobre a guerra, ainda que muitas vezes privilegie o discurso jornalístico em detrimento de outras linguagens presentes nas páginas desses impressos – caso da publicidade. Nesse contexto, é pertinente perguntar de que modo o humor foi mobilizado nesses jornais e que funções ele desempenhou em relação ao front e às memórias do mundo civil anterior ao conflito.
Este artigo defende a hipótese de que os falsos anúncios do The Wipers Times constituem um espaço privilegiado para observar as operações humorísticas do jornal. Essas peças parodiam o discurso publicitário britânico e produzem efeitos cômicos por meio da incongruência entre a promessa comercial e a realidade da guerra. Ao recriar ficticiamente produtos, serviços e experiências ligadas ao cotidiano civil, os anúncios parecem reinscrever, em chave humorística, referências simbólicas de um mundo agora distante, sugerindo formas de agência e de ressignificação em meio às condições extremas do conflito. Assim, em vez de apenas descrever os temas dos anúncios, este trabalho busca compreender como a linguagem publicitária humorística contribuiu para articular relações entre guerra e não guerra, normalidade e exceção.
Na historiografia, o uso do humor em contextos de grande sofrimento tem sido identificado frequentemente como recurso de sobrevivência simbólica. Chaya Ostrower (2015), por exemplo, analisou diferentes categorias de “humor defensivo” durante o Holocausto. Uma delas, o gallows humor (“humor mórbido”), é compreendida como meio de reduzir a ansiedade diante da morte e de reforçar a coesão entre os oprimidos. “Os seres humanos são capazes de fazer piadas sobre a morte porque celebram o fato de estarem vivos”, observa a autora (OSTROWER, 2015, p. 191). Podemos inferir algo semelhante no que diz respeito ao humor dos jornais de trincheira da Primeira Guerra Mundial.
O objetivo geral do artigo, assim, é analisar a natureza do humor nesses anúncios, situando-o no interior da historiografia sobre jornais de trincheira e dos estudos sobre humor em contextos de crise. Ao examinar como esses textos parodiam práticas comerciais e mobilizam expectativas do mundo civil, pretende-se contribuir para a compreensão das funções culturais do humor no front, bem como ampliar o debate sobre as formas pelas quais combatentes produziram discursos próprios sobre sua experiência. O corpus do trabalho é composto por 157 anúncios publicados nas 23 edições do jornal. A compilação aqui utilizada foi editada e publicada pela editora Conway, do Reino Unido, em 2013.
Jornais de trincheira
Diferentemente dos jornais oficiais produzidos para os soldados, orientados pelo alto escalão militar com fins quase sempre propagandísticos, e da imprensa tradicional, feita por jornalistas de formação no ambiente da frente doméstica, os jornais de trincheira foram escritos, editados, impressos e distribuídos por combatentes para outros combatentes, nas trincheiras e em outras zonas da guerra. Embora encontrados entre os exércitos alemão e austríaco, eles foram mais comuns entre as forças Aliadas.
Segundo Stéphane Audoin-Rouzeau (1993), os primeiros exemplares surgiram no final de 1914, após a Batalha do Marne, quando a guerra de movimento se converteu em guerra de posição. O alemão Hohnacker neueste Nachrichten apareceu em 14 de setembro de 1914, mesma época em que já circulava o francês Le Petit Colonial. A partir de 1915, jornais dessa natureza se multiplicaram em diferentes frentes de batalha e permaneceram em alta até meados de 1916, impulsionados pelos momentos de ócio e pela desconfiança e insatisfação que muitos soldados tinham em relação à “imprensa oficial”.
Como esses jornais surgiram e circularam em contexto precário, não se pode dizer quantos realmente existiram. Até o momento, porém, a historiografia conseguiu identificar 107 jornais de trincheira nos exércitos britânicos e de seus domínios, 400 nos franceses, 100 nos alemães e pelo menos 50 entre os italianos. No exército belga, foram registrados 279 jornais de trincheira, 131 em neerlandês e 148 em francês (DU PONT, 2015).
Apesar do nome, os jornais de trincheira também eram produzidos na retaguarda, em cidades ocupadas e em centros de treinamento, quase sempre associados a regimentos e batalhões. Em inglês, eram conhecidos também como “diários de trincheira” (trench journal), “jornais dos soldados” (soldiers’ newspapers), “revistas de unidades” (unit magazines), “publicações de campo” (field publications), “jornais da linha de frente” (front-line papers), “jornalismo de trincheira” (trench journalism) e “imprensa de trincheira” (trench press). Em francês, o termo mais utilizado é journal de tranchée, enquanto em alemão, Schützengrabenzeitung. No italiano, o termo mais comum é giornali di trincea.
Como faziam poucas críticas diretas à guerra e ajudavam a aliviar o estresse da batalha, os jornais de trincheira costumavam receber menos censura do que outras publicações que circulavam no front. Eles falavam sobre a realidade local e imediata dos soldados. Suas pautas eram os ataques inimigos, as atrapalhadas dos oficiais, o novo cozinheiro da tropa e os ratos que devoravam cabos, refeições e o que mais estivesse ao seu alcance. Publicavam cartas, poemas, folhetins, cartuns e editoriais. Não eram feitos por jornalistas, embora pudesse haver entre seus redatores algum soldado com experiência na área editorial. Um número limitado deles foi preservado depois da guerra.
A periodicidade era incerta, já que dependiam de equipe, tinta, papel, máquinas e outros insumos gráficos que, em tempos de guerra, eram imprevisíveis ou mesmo inexistentes. Podiam ter vida curta, com uma solitária edição, até dezenas de números lançados ao longo de anos. Alguns eram vendidos, e o dinheiro arrecadado era utilizado para pagar os custos de produção, enquanto outros eram gratuitos. Uns tinham apenas frente e verso, enquanto outros tinham várias páginas. Havia os manuscritos e os impressos.
Se existe uma característica compartilhada pela maioria dos jornais de trincheira, é o humor. Eles eram debochados, irônicos e sarcásticos. O The Dead Horse Corner Gazette, do 4º batalhão canadense, informava em seu cabeçalho: “publicado quando possível”.4 O francês La Greffé Generale, produzido por soldados que tiveram os rostos desfigurados, trazia em seu cabeçalho a espirituosa frase “ria assim mesmo”, e dedicou seu primeiro exemplar a um dos pioneiros da cirurgia plástica, o cirurgião francês Hippolyte Morestin: “Àquele cuja ciência e dedicação nos deram esperança, dedicamos respeitosamente este número, a primeira manifestação da nossa nova alegria”.5
Jornais produzidos por soldados para outros soldados não foram um fenômeno particular da Primeira Guerra Mundial. Há registros de publicações com essas características entre russos e alemães já em 1812. Eles também foram produzidos durante o Levante dos Boxeres (1899-1901) e na Guerra dos Bôeres (1898-1902) (VAN DIJCK; DEMOOR; POSMAN, 2017). Durante a Guerra do Paraguai (1864-1870), os combatentes paraguaios produziram vários jornais voltados para seus companheiros, como El Centinela, publicado em 1867, e Canichuí, publicado entre 1867 e 1868 (SILVA, 2021).
Contudo, os jornais de trincheira da Primeira Guerra Mundial são singulares – porque maiores, mais sofisticados, mais sarcásticos, mais populares, de maior tiragem e mais numerosos. Devem isso às inovações da Segunda Revolução Industrial, que tornaram sua produção mais fácil e barata, e às transformações sociais e culturais do último quarto do século XIX, que introduziram a educação universal. Os soldados liam e escreviam mais na guerra, porque a cultura de leitura e da escrita fazia parte das suas vidas, muito mais do que ocorrera com seus pais e avós. Em 1800, cerca de 40% dos homens e 60% das mulheres na Inglaterra e no País de Gales sabiam ler e escrever. Por volta de 1900, esse número havia chegado a impressionantes 97% em ambos os gêneros (LLOYD, 2007).
Impressos ou manuscritos, as dificuldades eram muitas. Em diversas ocasiões, faltaram dinheiro, papel, tinta e maquinaria. Se uma peça quebrava, um número poderia atrasar-se indefinidamente. Se uma operação especial estivesse em curso, os editores e redatores que esperassem o momento adequado para voltar ao seu jornalismo de improviso. Também havia a questão financeira. Segundo André Charpentier, editor do La Bocho fage, era preciso ter cerca de 15 francos para lançar um jornal simples, o que correspondia, em média, a dois meses de pagamento de um soldado francês no início da guerra (AUDOIN-ROUZEAU, 1993). Outro obstáculo prático era a transitoriedade da equipe editorial. Seus membros poderiam, afinal, ser mortos, feridos, transferidos, presos ou licenciados.
Audoin-Rouzeau (1993) mostrou em suas pesquisas que a maioria dos redatores dos jornais franceses vinha da classe média e tinha ranques militares medianos. Mas, estando abertos à colaboração de qualquer soldado, é possível dizer que esses jornais representavam mais de uma classe social e de um posto hierárquico. Quanto aos leitores, a realidade era mais complexa. Cedric Van Dijck, Marysa Demoor e Sarah Posman (2017) reconhecem que, embora os jornais de trincheira fossem consumidos primariamente por combatentes do próprio regimento ou unidade, havia leitores secundários, como familiares, que recebiam cópias pelo correio, e bibliotecários da frente doméstica, que reconheciam o valor histórico desses jornais e se preocupavam em preservar suas edições.
O The Wipers Times
Certo dia de janeiro de 1916, o Capitão F.J. “Fred” Roberts, um engenheiro de 33 anos do 12º Batalhão Sherwood Foresters, da 24ª Divisão britânica em Ypres, na Bélgica, encontrou, durante uma ronda, o que restara de uma gráfica. O lugar estava destruído pela artilharia alemã, como quase tudo na cidade, e escombros tinham caído em cima do que um dia fora uma máquina impressora. “As letras tipográficas estavam espalhadas por toda a área”, lembra Roberts (1930, p.V).
Por sorte, um sargento do regimento havia trabalhado na vida civil, como gráfico, e disse ao capitão, interessado em fazer uso da impressora para produzir um jornal, que poderia consertar o equipamento se tivesse dois ajudantes. O pedido foi atendido e dias depois a promessa foi cumprida – a rotativa voltara à vida.
Roberts assumiu o cargo de editor do jornal e escolheu como subeditor o Tenente J.H. “Jack” Pearson, seu amigo e também engenheiro, de 29 anos. Segundo Roberts, havia tinta e papel. Só faltava uma coisa: escrever. E foi isso que eles fizeram. “Como nenhum de nós era escritor, escrevíamos qualquer coisa que nos viesse à mente. Pequenos incidentes da vida cotidiana no Saliente se transformavam em anúncios ou pequenos parágrafos” (ROBERTS, 1930, p.v). Assim nasceu o The Wipers Times (doravante Wipers), que circulou de forma irregular no setor britânico de Ypres entre 12 de fevereiro de 1916 e o Natal de 1918. Com exceção do último número, todos foram impressos em Ypres, próximo à frente. O nome do jornal é uma piada interna: os britânicos não conseguiam pronunciar corretamente o nome do município belga de Ypres.
No total, foram publicadas 23 edições do jornal durante a guerra, sob seis nomes diferentes: The Wipers Times (4 edições); The New Church Times (4 edições); The Kemmel Times (1 edição); The Somme Times (1 edição); The B.E.F. Times (11 edições); The Better Times (2 edições). A razão de tantas mudanças tem a ver com segurança: em dezembro de 1916, a censura militar britânica proibiu todos os jornais de trincheira de usarem em seus títulos ou subtítulos nomes de cidades que estavam na zona de batalha.
É difícil identificar a autoria dos textos, já que poucas seções eram assinadas. E mesmo quando havia autoria, eram usados pseudônimos. Assinavam cartas, por exemplo, autores como Amante da Decência e Um Amante do Ar Fresco. Uma notável exceção foi Gilbert Frankau, que viria a se tornar um poeta muito conhecido na Inglaterra do pós-guerra. Frankau publicou diversos poemas no Wipers, sempre utilizando o próprio nome.
Roberts foi a grande mente criativa por trás do Wipers. Era ele quem assinava os editoriais e, até onde se sabe, os anúncios e, muito possivelmente os classificados e as cartas dos leitores, se não todas, pelo menos algumas delas. Esses conteúdos mais curtos e rápidos o ajudavam, como editor-chefe, a compor mais facilmente os espaços em branco das páginas. Segundo Henry Williamson (1973), Roberts não tinha experiência prévia em jornalismo, mas nunca demonstrou falta de habilidade na montagem gráfica das editorias. Mesmo sem provas tipográficas para montar as páginas, ele conseguia organizá-las apenas com “ocasionais sinais de derrota” (WILLIAMSON, 1973, p.xiii). E mesmo quando estava cansado, conseguia ser criativo quando sobrava espaço, pensando em soluções como: “Aluga-se este espaço” e “Fique de olho aqui” (WILLIAMSON, 1973, p.xiii).
Distribuição do Wipers por ano - a concentração de edições ocorre em 1916, ano da maior batalha enfrentada pelos soldados britânicos, a Batalha de Somme
Os dois primeiros números do Wipers foram rodados na máquina original, em Cloth Hall, antigo prédio medieval belga destruído pela artilharia alemã. A máquina, lembra Roberts, tinha de rodar uma página por vez, pois eles não tinham os tipos das letras “y” e o “e” na quantidade em que era preciso para escrever todos os textos. Enquanto a impressão acontecia, um sargento ficava de prontidão na porta do prédio. Às vezes, tiveram que parar tudo e assumir posição de combate (WILLIAMSON, 1973, p.xvi).
O primeiro número teve 12 páginas rodadas em preto e branco e foram feitas 100 cópias dele, que rapidamente se esgotaram. A demanda era alta devido ao boca a boca e ao repasse das cópias para outros setores. “Se soubéssemos o que viria depois, teríamos impresso 300”, destacou Roberts alguns anos mais tarde (ROBERTS, 1930, p.vi). Os números dois, três e quatro duplicaram sua tiragem, alcançando 200 cópias.
Tudo podia ser piada no Wipers, até mesmo o preço de capa. O primeiro número custou 20 francos, um valor exagerado para a época. No editorial, um Roberts espirituoso agradece à sua “equipe remunerada” e dá os “pêsames” aos que pagaram o valor. “Pelo menos, eles terão o consolo de saber que os recursos foram destinados a uma causa nobre”, sugerindo, em seguida, que o dinheiro das vendas iria beneficiar uma instituição de caridade.6 Já os números dois e três tiveram preços ainda maiores: 100 e 200 francos, respectivamente. Brincando com a lei de oferta e procura, os editores alegaram que o brusco aumento ocorrera devido ao intenso bombardeio ocorrido na região após o lançamento do número de estreia – o papel, diante do imprevisto, ficou mais caro.7
No número 4, o preço de capa caiu para apenas 50 centavos – dessa vez, havia, supostamente, papel em demasia no mercado.8 Já os números 5 e 6 foram lançados por 5 e 10 francos, respectivamente, e todas as edições seguintes, até a final, em dezembro de 1918, custaram 1 franco cada. A esse preço, podemos supor que o Wipers foi realmente vendido, mas, como não há livros de contabilidade, essa é apenas uma hipótese.
As seções
Embora algumas seções tenham aparecido ocasionalmente, muitas mantiveram regularidade. Em Correspondência, os “leitores” reclamavam de serviços básicos, desde o estado de conservação das estradas até a iluminação pública, como se vivessem em suas cidades nos tempos de paz. As cartas dos leitores eram endereçadas ao editor e começavam com o tratamento honorífico Sir. Quem as assinava? A Love of Nature, Pro Bono Público e Well Wisher são alguns dos autores. Em uma delas, Tempus Fugit faz a seguinte queixa: “há alguns dias, o relógio da torre da igreja em Wipersham não tem recebido a atenção necessária ao seu bom funcionamento. Esse descuido fez com que muitos dos trabalhadores de nossa pequena vila perdessem seus trens matinais para Messines”.9
Em uma edição da seção dos Classificados, procura-se cortadores de arame farpado, com ótimas oportunidades para “jovens afiados”, e homens fortes para trabalhar como vigias, dando-se preferência a ex-pugilistas.10 Em outra edição, o classificado busca “bom jardineiro, mas que seja capaz também de dirigir carros, limpar botas, cuidar de bebês, afiar piano e extrair dentes”, em uma ironia à exigência desmedida imposta aos soldados.11
Os poemas abundavam e estavam distribuídos em diferentes partes do jornal. Os autores – muitos dos quais anônimos – escreviam versos misturando lirismo e crítica, zombando de comandantes, da censura militar, da burocracia dos batalhões ou das más condições de vida no front, embora essas críticas fossem quase sempre bastante discretas, nunca peremptórias. Em “Ratos”, poema não assinado, um autor carente de ideias diz:
Quero escrever um poema, embora eu não tenha ainda um tema,
“Ratos” não são coisas para se fazer uma elegia,
ainda que eles preencham os meus momentos de despertar,
e quando as bombas estrelares brilham suavemente,
são esses os ratos que passam as horas da meia-noite comigo.12
Uma das mais criativas seções do Wipers era um folhetim à moda eduardiana – uma paródia muito bem-humorada de Sherlock Holmes, personagem universalmente conhecido do escritor britânico Arthur Conan Doyle. Nessa publicação, dividida em cinco capítulos, “Herlock Sholmes” é um tresloucado detetive que atua na frente de batalha. Ele é viciado em um pulverizador de cloro muito utilizado nos ataques químicos com gás, o veromel spray, e conta com a “ajuda” do assistente Hotsam. Ambos vivem situações absurdas na frente de batalha, repletas de mistérios, bebidas e espiões alemães.
O Wipers publicou ainda colunas de notícias esportivas, cupons de desconto, contos, relatos do cotidiano e esquetes. Houve seções de falsos correspondentes, manifestos e cartas. Our Matrimonial Column era a coluna de “classificados amorosos”. Nela, oficiais descreviam suas qualidades a fim de conseguir um encontro romântico. Things We Want to Know listava perguntas sarcásticas, absurdas ou provocativas, apresentadas como se fossem dúvidas genuínas do redator, mas que, na verdade, serviam somente para fazer piada com oficiais incompetentes ou reclamações relacionadas à vida cotidiana do entrincheirado. “Quem é que faz esse barulho infernal de corneta às 2 da manhã?”.13
Uma coluna marcante do Wipers foi a Violet’s Chronicle of Fashion (And Other Matters). Assinada por Violet, ela estreou em 3 de julho de 1916 e pôde ser vista em vários outros números. Dedicada ao mundo da moda, a coluna chamou atenção por seu tom espirituoso e pretensamente refinado. Em sua primeira participação, Violet explicou que sua missão dali em diante seria instruir os soldados britânicos sobre o meio Fashion:
Pois bem, cá estou eu, pronta para conduzi-los alegremente pela Avenida da Moda, também por todos os tipos de caminhos fascinantes ao longo do trajeto. Explicar os caprichos da Moda a um público de puros machos não é tarefa fácil; a ignorância deles sobre as sutilezas das roupas gera muitas dificuldades.14
Em 2023, o pesquisador Robert St. John Smith revelou que Violet’s Chronicle of Fashion não foi escrita por um oficial britânico barbado, como muitos supunham, mas por Dorothy Violet Hall (1881-1962), escritora da cidade inglesa de Nottingham. Smith investigou a coluna e descobriu, por meio de um registro fotográfico publicado em 1928 na revista londrina Tatler, de grande circulação, que Hall, colaboradora da revista inglesa, foi a real autora de Violet’s Chronicle of Fashion. Smith sublinha que Violet pode ter sido a única pessoa não combatente e mulher a escrever no jornal (SMITH, 2023).
Os anúncios: volume, formatos e visuais
Em 23 edições, o Wipers publicou 157 anúncios publicitários, média de sete por número. Essas peças estão distribuídas de forma padronizada: aparecem na primeira página, antes mesmo do editorial, e, depois, nas páginas finais. Assim, o leitor sempre inicia e encerra a leitura do jornal com eles. É a única seção, além do Editorial, que marca presença em todas as edições. Os anúncios são também os elementos gráficos mais chamativos e não deixam dúvida quanto ao seu caráter fictício e humorístico.
Para delimitar o espaço de cada bloco publicitário, os editores utilizaram filetes, que são as linhas usadas no design gráfico para separar as seções de um jornal. Dentro de cada anúncio também são usados filetes, mas de menor densidade, usados para separar um anúncio do outro e as informações secundárias, como endereços, textos, slogans, testemunhos, preços e informações locais. Dessa forma, basta que o leitor dê uma rápida olhada para jornal para identificar no Wipers o que é e o que não é anúncio.
A frequência multimodal não é alta – eles são apenas retangulares ou quadrados. Os grandes ocupam metade de uma página, enquanto os pequenos ocupam ¼. Para pesquisadores acostumados a análises semióticas, os anúncios do Wipers podem ser frustrantes, pois são predominantemente textuais. Não há fotografias, e as raras ilustrações são pequenas. A variação visual ocorre em termos de fonte, pontuação (como exclamação), realces tipográficos (como negrito e itálico), fios (sobretudo linhas), capitalização, call to action e pequenos símbolos gráficos (especialmente no último ano do jornal).
Metodologia
A pesquisa iniciou-se com a leitura integral dos anúncios publicados nas 23 edições do Wipers. Nesta primeira etapa metodológica, o maior desafio foi a linguagem da fonte. Os textos do Wipers são repletos de trocadilhos, referências culturais e expressões próprias dos combatentes. Após a guerra, algumas dessas gírias até foram incorporadas à linguagem civil, mas a maioria permaneceu restrita àqueles que tomaram parte naquele contexto militar. Expressões como Whizz-Bang, por exemplo, designavam, de modo onomatopeico, o som descendente dos projéteis da artilharia alemã antes de explodirem nas trincheiras aliadas. Há relatos de que mesmo os leitores contemporâneos do jornal nem sempre compreendiam integralmente as mensagens publicadas, como lembrou Gilbert Frankau ao afirmar que os “anúncios ainda são uma alegria para aqueles de nós que conseguem decifrar seus enigmas” (FRANKAU apud WILLIAMSON, 1973, p. xii).
Para lidar com essa dificuldade, foi necessário recorrer a dicionários temáticos britânicos da Primeira Guerra Mundial. Utilizou-se como referência The Daily Telegraph Dictionary of Tommie’s Songs and Slangs, 1914–1918, de John Brophy e Eric Partridge, obra que reúne expressões, canções e gírias utilizadas pelos soldados britânicos no conflito.
A segunda etapa consistiu em criar dois rótulos para analisar cada anúncio: Oferta e Referente. A Oferta é aquilo que a peça publicitária está anunciando – podendo tratar-se de um produto, de um serviço, do negócio de uma empresa ou de uma novidade formulada sob forma comercial. Em linguagem direta, trata-se daquilo que está sendo vendido. Já o Referente é o elemento da realidade bruta das trincheiras, como a lama, os bombardeios ou a precariedade da vida militar, que serve de base para se fazer piada.15
Cada peça publicitária do jornal possui uma única Oferta, isto é, um produto, uma empresa, uma loja, um serviço ou uma novidade – tudo inventado.16 Contudo, uma mesma Oferta pode reaparecer em diferentes anúncios ao longo das edições do jornal. É por essa razão que, embora tenham sido identificados 157 anúncios nas 23 edições analisadas, eles dizem respeito a apenas 78 Ofertas. Já os Referentes têm lógica distinta: uma peça publicitária do jornal pode conter mais de um aspecto da realidade do front.
Um exemplo para ilustrar a metodologia adotada: no anúncio que divulga o Hotel Ramparts, a Oferta é o próprio hotel fictício, apresentado ao leitor como estabelecimento luxuoso e “sob nova direção”; os Referentes, por sua vez, são a Precariedade e a Destruição no front, mobilizadas de modo paródico pelo texto. Com base nessa metodologia, do total de 157 anúncios, identificaram-se 78 Ofertas e 82 Referentes.17 Para tornar a análise mais precisa, as Ofertas foram agrupadas em 14 categorias, evidenciando os principais eixos simbólicos e materiais explorados pelo humor do Wipers.
A tabulação das Ofertas e dos Referentes possibilitou a elaboração de gráficos, cloud tags e tabelas que tornaram mais claros os padrões de repetição, as associações temáticas e as preferências humorísticas dos redatores-combatentes.
Do que falam os anúncios?
Das 14 categorias de Ofertas representadas no gráfico 3, Entretenimento e cultura, com 38 anúncios (24,2% do total), é a mais recorrente no jornal. São peças publicitárias que mencionam espetáculos, filmes, teatro de variedades, musicais e óperas. Um dos espetáculos em cartaz no Cloth Hall chama-se Bouncing Bertha. O nome é uma paródia do canhão alemão Grande Bertha, um dos armamentos mais destrutivos da guerra.18 Outro anúncio, do Menin Cinema, promove o filme Inferno, descrito como um “trabalho colossal” de “50 mil artistas”,19 enquanto a Exposição de 1916 prometia ao leitor “efeitos cênicos dos Fritz”, gôndolas nas trincheiras e fogos de artifício.20 O mesmo humor é encontrado no anúncio do show GOOD-BYE-EE-E, WE MOS-COW, em cartaz no mesmo Cloth Hall. Trata-se de uma paródia da iminente saída do Império Russo da guerra. A primeira parte do título alude à canção popular britânica Good-bye-ee, de 1917, sobre a despedida de soldados enviados ao front. Já a segunda parte soa, quando pronunciada, em inglês, we must go (“nós devemos ir”), mas, graficamente, evoca a cidade de Moscou.21
Por que falar tanto de filmes, shows e espetáculos nas trincheiras? Esses anúncios parecem organizar, de modo irônico e debochado, às vezes crítico, um conjunto de referências que coloca em contraste vida e morte, civilização e barbárie. A recorrência de elementos ligados à cultura entre os falsos produtos, empresas, serviços e avisos sugere que esse universo simbólico ocupava um lugar central no imaginário dos redatores e combatentes. Ainda que não se possa afirmar com certeza que a cultura era aquilo de que esses soldados mais sentiam falta, é possível reconhecer, na escolha desses temas, um esforço de reconstrução simbólica do cotidiano interrompido pela guerra. Os espetáculos fictícios, assim, funcionariam como encenações irônicas e nostálgicas dos prazeres da vida civil, reelaborados sob as condições extremas do front.
Boa parte dos jovens soldados britânicos em Ypres ainda vivia os primeiros vínculos afetivos da vida adulta e estava inserida em uma sociedade que os acostumara a uma ampla oferta de lazer. Em cidades como Londres, Manchester ou Livepool, as ruas e avenidas eram repletas de cartazes, letreiros e placas de neon anunciando todo tipo de apresentação de artistas nacionais e estrangeiros, tanto nos tradicionais teatros quanto nos novos e modernos, inaugurados naqueles primeiros anos do século XX. O Wipers emulou essa atmosfera cultural ao inventar várias casas de shows. Foi esse o caso do The Spanbroekmolen Opera House, do The Contalmaison Opera House, do Lillies Lecture Hall, do The Fosse Theatre of Varieties e do The Fossileum. Também foi muito marcante no jornal o The “New Church” Hippodrome, inspirado na febre dos hipódromos de Londres. “O magnífico e equipado music-hall será reaberto na próxima segunda-feira. Completamente redecorado e sem economizar nos gastos”, dizia o anúncio do Wipers.22
A guerra, assim, podia ter suspendido o mundo da cultura e do entretenimento para os combatentes britânicos, mas ela não foi capaz de romper o vínculo emocional que esses soldados mantinham com aquele mundo. Eles continuavam imaginando a vida que haviam deixado para trás e podemos supor, pelo uso contínuo das referências nos anúncios do Wipers, que seus redatores desejavam algum retorno àquela normalidade.
A categoria Educação e conhecimento, em segundo lugar no levantamento, com 21 anúncios (13,4%), Jogos, em quinto lugar, com 11 anúncios (7,0%), e Turismo e lazer, em 11º lugar, com 6 anúncios (3,8%), revelam a recorrência de referências a práticas e valores associados à vida civil anterior ao conflito. Esse conjunto reforça a hipótese de que os produtos e serviços fictícios do Wipers exploravam, de forma irônica, os contrastes entre o cotidiano burguês e as condições extremas dos campos de batalha. O anúncio da “Bélgica adorável”, que apresenta um resort de luxo em meio a “belos cenários e circuitos que vão te fazer entender o que é uma viagem”, é exemplar dessa operação simbólica: a reconstrução paródica de um mundo de conforto, estabilidade e prazer que a guerra havia interrompido ou interditado. Somadas à categoria Entretenimento e cultura, essas três categorias totalizam 76 anúncios, correspondentes a 48,4% do corpus analisado.
Mas nem todas as referências dos redatores estavam ligadas à vida pregressa. A realidade imediata da guerra também era cheia de carências e ausências. Muitas peças anunciavam máquinas, botas, abrigos, seguros de vida, cortadores de arame, remédios, tônicos, curas e tratamentos. Os soldados-redatores – e possivelmente seus leitores – queriam itens que tornariam sua vida de combatente mais simples ou menos arriscada.
Um dos mais criativos e ácidos anúncios do jornal, na categoria Equipamentos e utilidades, apresenta um objeto híbrido: o guarda-chuva-alicate, que evitaria que o soldado, debaixo de chuva e vento, dentro ou próximo da perigosa Terra de Ninguém, pegasse um resfriado ao cortar o arame farpado, tarefa das mais perigosas e ingratas do front, já que precisava chegar muito próximo da linha inimiga. “Presenteie o seu amigo soldado. Nós sabemos do que ele precisa”, diz o texto do anúncio.23
Os redatores e os combatentes não esperavam ter, concretamente, este objeto, que só existia mesmo no mundo da imaginação. O que o anúncio faz é jogar com uma crítica sutil: o soldado desejava equipamentos seguros, adequados e úteis, a começar pelo próprio cortador de arame, item de queixa recorrente entre os britânicos. Há muitos exemplos desse tipo de queixa na literatura da Primeira Guerra Mundial. O soldado George Sherston, por exemplo, protagonista semi biográfico de Siegfried Sassoon em Memórias de um oficial de infantaria, vivia maldizendo os cortadores de arame de sua companhia “por sua estúpida falta de corte”. Por isso, antes de retornar ao front, após um breve período de licença, ele passou numa loja do Exército e comprou um par de cortadores com manoplas revestidas de borracha, “que pareciam quase bons demais para o front”. Para Sherston, a compra justificava-se: “além dos cortadores de arame e da pistola, todos os outros apetrechos de trincheira pareciam supérfluos” (SASSON, 2014 [1930] p.65).
A lógica do guarda-chuva-alicate é parecida com a do anúncio da Staples, uma loja de artigos especializados para o dia a dia nas trincheiras da Frente Ocidental. Ela vende água, enfeites, sacos de areia, arames farpados e obstáculos para a prática de esportes. Tudo em liquidação de verão. O anúncio traz um “testemunho não solicitado” de um cliente regular identificado apenas como Mother: “o saco de areia que consegui de vocês me ajudou mais do que qualquer outra coisa a entender do que a Bélgica é feita”.24
Em alguns casos, é possível ver como a ideia de escassez rende o humor de crítica. Um anúncio da edição de 17 de abril de 1916, na categoria Vestimentas, acessórios e cuidados, vendia culotes para os soldados que escutavam o grito de over the top! (“para cima”, ou “avante”), uma das mais temidas ordens da guerra.25 “Esteja na moda e pareça um soldado”. O soldado, assim, que mal tinha calças, deveria estar sempre adequadamente vestido para realizar tarefas insanas e inúteis ordenadas por seus superiores.26
Esses indícios de carências e desejos aparecem nos diversos formatos e linguagens presentes no jornal, mas assumem maior intensidade na forma dos anúncios publicitários. Isso não é acidental: a publicidade é uma linguagem que atua precisamente sobre aquilo que falta – ela desperta, estimula e organiza o desejo. Ao adotá-la como uma de suas principais formas de comunicação, o Wipers ofereceu aos seus leitores uma possibilidade de dar vazão às angústias e frustrações da vida no front. Os anúncios eram fictícios, mas seu valor não residia na mentira e sim, na verdade emocional e material que evocavam.
A esta altura, cumpre lembrar uma distinção crucial entre propaganda e publicidade. Se a primeira quer divulgar ideias, doutrinas e posicionamentos, para convencer o consumidor a aderir a uma visão de mundo ou crença, a segunda quer criar desejos ou mobilizar aqueles pré-existentes no imaginário. A publicidade é considerada por muitos uma “falsificação da realidade”. Mas, no Wipers, o que a linguagem publicitária faz é subverter a realidade.
Por que era possível rir dos anúncios?
A resposta a essa pergunta nos leva aos Referentes. Nos gráficos 5 e 6, a seguir, pode-se observar quais foram os elementos da realidade que mais serviram como ponto de partida para gerar o humor dos anúncios. O primeiro aspecto que se destaca é o humor autorreferente: os redatores zombavam da própria desgraça, transformando em piada os dramas e as dificuldades do front. O tema vida na trincheira aparece em 26 anúncios, o que mostra como o cotidiano do combatente, apesar de ser fonte de sofrimento, podia ser utilizado para provocar efeitos de comicidade – “rir da própria desgraça”.
Cavar trincheiras era uma tarefa extenuante e perigosa. Munidos de pás e sacos, os soldados tinham de enfrentar a dor nos braços e superar problemas que iam desde a artilharia inimiga, sempre atenta às movimentações à sua frente, quanto à topografia. Um anúncio publicado no número de 29 de maio de 1916 oferecia a consultoria de engenheiros, decoradores e empresas escavadeiras para a abertura e construção de abrigos nas trincheiras. A empresa teria reputação ilibada e acumulado experiência nos campos da França, de Flandres e de Galípoli. “Compre um de nossos abrigos – ninguém deveria estar sem um deles”.27 A abertura de abrigos aqui é anunciada como se fosse um serviço contratado para a troca da fiação elétrica de casa ou a construção de uma piscina no quintal. É essa situação absurda que nos faz rir nesta peça, e que muito provavelmente fez rir muitos soldados que recebiam ordens de cavar ou fortificar trincheiras. Rimos porque é a aplicação de um espírito non-sense uma enorme mazela da Grande Guerra.
Um anúncio publicado em 1º de dezembro de 1916 oferecia botas e casacos impermeáveis. “As últimas novidades em casacos de trincheira”, dizia o texto.28 O humor nasce do contraste entre desejo e realidade: o soldado sonhava com roupas que o protegessem da chuva e do frio, mas as que usava eram de algodão, isto é, pesadas e encharcadas de água, dificultando os movimentos, favorecendo o mofo e a infecção de feridas. Mais uma vez, uma situação impossível é transformada em matéria-prima para o riso.
Já em outro exemplo, também de dezembro de 1916 e incluído em Vida na trincheira, o leitor é convidado a comprar um presente para um colega de front: o Vermolet, uma engenhoca que combinava máscara antigás e gaita de boca, permitindo ao soldado continuar tocando música mesmo durante um ataque químico alemão.29 O soldado não precisaria mais renunciar a seu passatempo preferido no cotidiano da trincheira “apenas” porque houve um ataque de gás!
O segundo Referente, Destruição no front, presente em 20 anúncios, refere-se ao cenário de desolação causado por bombas, tiroteios, tanques e explosões de minas, que deslocavam grandes quantidades de solo, fumegavam as árvores, criavam enormes crateras, logo alagadas pela chuva, e, claro, desafiavam a sobrevivência dos soldados. Em um anúncio de março de 1916, vemos a publicidade de uma loja de mudas de plantas chamada The Poplar. A peça publicitária diz: “Pare, pare, pare! Agora que a primavera está chegando, você precisa de sombra. E nós estamos prontos para oferecer ao público 250 milhões de mudas de álamos, essa planta exuberante, prolífica e sombrosa”.30 A ironia aqui está no impossível: a guerra foi devastadora para a natureza, com grande mortandade de animais e plantas. A dimensão dessa destruição está dada no número de mudas que The Poplar anuncia: somente 250 milhões seriam capazes de recuperar o que foi destruído pela força da artilharia.
Também nesta categoria estão as vendas de terreno. Um desses anúncios é o de uma imobiliária que vende terrenos em Ypres com residências subterrâneas prontas para morar. “Excelente terreno para automobilismo. Pesca e tiro excelentes. Nenhuma oferta razoável será recusada”, diz o texto.31 Outro anuncia, com ironia, a venda de um terreno na Colina 60 – iluminada, fresca e revigorante, com excelente vista da histórica de Ypres.32 A área da Colina 60, como se sabe, era uma das mais atingidas pelos bombardeios alemães. Ou seja, aqui o anúncio parte da destruição do front para gerar o humor.
Outro Referente que aparece na lista dos mais frequentes é Aparência do soldado. Há inúmeros anúncios que oferecem serviço de barbeiro e de lojas que, ao vender casacos, botas, luvas e chapéus, prometem deixar o soldado com aparência civilizada e impecável para a guerra. Um anúncio da fictícia alfaiataria Howfield & Caulett chama o leitor-consumidor para ver os ternos de verão da loja. “Seja o mais parecido com a gente, pois as roupas é que fazem o cavalheiro”.33 O humor é possível neste caso, porque, para o soldado, embora sua aparência importasse para si, era algo do qual ele era forçado a abdicar. Roupas encardidas, sujas de terra, botas rasgadas e em tamanhos inapropriados. Quase tudo no que se referia a conforto e cuidado estava defasado e desajustado.
Por limitações de espaço e tempo, não é possível examinar profundamente todos os Referentes, mas cabe fazer uma menção ao último Referente do gráfico anterior, Consumo de bebida alcoólica. A primeira vez que um anúncio do Wipers menciona bebida alcoólica é em julho de 1916 – um espetáculo chamado “Mais uma bebida não nos fará mal”. Mas eles se tornam comuns a partir de 1917, e só vão aumentando, sinalizando como a questão do alcoolismo se tornara ponto de atenção entre os britânicos.
As autoridades britânicas, inclusive, vinham se preocupando com o problema há algum tempo. Em 1915, o então Primeiro-Ministro David Lloyd George declarou: “estamos lutando contra a Alemanha, a Áustria e a Bebida, e, pelo que posso ver, o maior desses inimigos mortais é a bebida” (PHILLIPS, 2014 p.242). Mesmo assim, contraditoriamente, o país continuava fornecendo grandes quantidades de rum para seus soldados. “Ao final de novembro de 1915, após dezesseis meses de guerra, os britânicos já haviam enviado um quarto de milhão de galões de rum para suas tropas na França” (PHILLIPS, 2014, p.242). Segundo Rod Philips (2014), a bebida era usada como estimulante e ração extra dada às tropas antes de escutarem o grito de Over the top! “Como a maioria dos homens já estava em estado de alerta para o ataque iminente, o álcool tendia a aguçar os sentidos, em vez de embotá-los”, lembra um soldado (PHILLIPS, 2014, p.242).
Para os redatores, isso não impedia que se fizesse humor. Uma das bebidas anunciadas no Wipers, oferecida em um fictício bar norte-americano, promete agradar a todos os gostos e anestesiar a realidade. “A bebida mais rápida já inventada, garantia de cura para o pessimismo, o otimismo, manias e sedes crônicas”, diz o texto. Outra peça, numa edição de abril de 1917, falava de um livro que prometia ao comprador o hábito de beber em apenas três dias. “Se você conhece alguém que não bebe, envie o meu livro, Confissões de um escravo da bebida – como se tornar um especialista”.34
Paródia e absurdo: produzindo a incongruência
A análise dos Referentes evidencia duas características muito comuns dos anúncios. A primeira é que o humor dos anúncios do Wipers está assentado, em sua maioria, na ideia de paródia, esse antigo gênero de humor que imita, de maneira cômica, uma obra, um autor ou um gênero, com a intenção de provocar riso, reflexão ou crítica. A paródia mantém certos elementos reconhecíveis do original, mas os exagera, distorce ou ressignifica, criando um novo sentido para a realidade. A paródia não é um traço exclusivo dos anúncios. Outras seções do jornal operam a partir dela. É o que vemos, por exemplo, nas histórias de Herlock Sholmes, que parodia os textos do famoso personagem de Arthur Conan Doyle. Mas é nos anúncios que a paródia é mais rápida e facilmente assimilável, porque as peças publicitárias são mais curtas, mais visuais e a sua linguagem, sempre muito apelativa, oferece muitas opções de gatilho.
Os anúncios parodiam situações, mas parodiam, antes de tudo, a própria linguagem publicitária da época. O Wipers a simula no formato, na redação, no apelo emocional e nos conceitos de venda. Na era eduardiana, a propaganda nos jornais britânicos caracterizava-se por um visual denso, com abundância de texto, poucas imagens e linguagem muitas vezes direta e explicativa. Era comum que os anúncios apelassem à autoridade científica, à moral vitoriana ou à inovação tecnológica para legitimar o consumo. Havia forte presença de marcas de remédios patenteados, sabonetes, roupas, tabaco e produtos para o lar, além de propagandas de lazer e viagens. Os jornais diários e semanais serviam como veículos centrais para atingir a classe média emergente, reforçando valores de respeitabilidade, progresso e ordem – o Wipers manipula completamente esses signos e apelos de consumo em seu favor. Um meio de educar o público sobre o que era moderno, saudável ou desejável.
A outra característica é que os anúncios partem quase sempre, como vimos, de situações absurdas ou insólitas. É preciso observar, entretanto, que essas peças não produzem esse absurdo a partir de situações afastadas da realidade. Não são absurdas porque mencionam um cachorro falante, um Minotauro ou um disco voador. São absurdas porque elas levam a não guerra para a guerra, o convencional para o não convencional, fingindo normalidade, e esse deslocamento das coisas subverte a realidade dos combatentes.
Os efeitos cômicos da paródia e do absurdo são reforçados por duas estratégias sofisticadas dos redatores do Wipers. Em primeiro lugar, eles transformaram firmas, escritórios, hotéis e casas de espetáculos em personagens que aparecem de forma recorrente, não porque lhes faltasse criatividade, mas porque as repetições produziam duas coisas que eram raras na guerra: intimidade e estabilidade. Um desses personagens é o Cloth Hall, assim como o Menin Gate Cinema e o The New Church Hippodrome. Em vários anúncios, o leitor do Wipers encontrava prêmios e disputas da Mammoth Competition, ou exposições promovidas por uma mesma galeria de arte chamada Munique.
A segunda estratégia é a circularidade desses personagens – eles são móveis. Estão presentes em poemas, notícias, editoriais e cartas aos leitores. A história de Herlock Shlomes se passa em Cloth Hall. O Hotel Ramparts, com seu jardim de inverno e instalações elétricas, disponível para receber hóspedes em férias de verão, é mencionado em Notas casuais do Wipers: “o departamento culinário do Hotel Ramparts está temporariamente fora de ação, e a cozinha de emergência está em uso. Isso não deve desencorajar hóspedes de se instalar nesta fina e antiga hotelaria”.35 Essa intertextualidade interna produz a sensação de um universo vivo, amplo e com sistema próprio de significação.
Os historiadores do humor vem, há muitas décadas, examinando aquilo que desencadeia o riso, a graça, a comicidade. Ao analisar os falsos anúncios do jornal neste trabalho, é possível notar que seu efeito cômico não se baseia prioritariamente em ataques morais ou políticos – característica típica da sátira –, mas em operações paródicas que deslocam o discurso comercial britânico para o contexto extremo das trincheiras. Nesse sentido, o humor do Wipers aproxima-se menos de uma crítica satírica direta e mais de uma reconfiguração cômica do universo pré-guerra, reconstruído sob a lógica do que, no estudo do humor, se chama de teoria da incongruência. Segundo esta teoria o riso resultaria do choque entre expectativa e realidade. Essa formulação teórica, associada a autores como Immanuel Kant e Arthur Schopenhauer, entende o riso como produto da colisão inesperada entre duas ideias incompatíveis (LEITE, 2018; SALIBA, 2017). Tal escolha não elimina as críticas políticas – elas apenas não são o gatilho humor, o que explicaria, ao menos em parte, a própria continuidade da publicação, jamais proibida pela censura.
Os soldados sempre decodificavam o humor do Wipers, riam de todas as piadas e sublimavam suas dores e anseios por meio da leitura do jornal? Não necessariamente, e nem cabe, no escopo deste trabalho, tirar conclusões dessa natureza. A análise aqui desenvolvida não se volta para a recepção efetiva do periódico nem para seus eventuais efeitos psicológicos sobre os leitores, o que exigiria um estudo de recepção complexo e talvez inviável diante das fontes disponíveis. O foco recai, antes, sobre as estratégias discursivas mobilizadas pelos redatores. Assim, os limites interpretativos deste trabalho situam-se no plano dos efeitos produzidos pelo próprio discurso dos anúncios e naquilo que eles permitem inferir sobre as escolhas e operações simbólicas de seus autores.
No Wipers, o humor nasce da incongruência entre a promessa publicitária e a impossibilidade de sua realização. O anúncio de um tônico milagroso é potencialmente engraçado não porque tenha servido como descarga emocional, mas porque encena o absurdo de imaginar que qualquer produto poderia resolver os males do front. A linguagem otimista e comercial da publicidade, deslocada para um cenário marcado pela escassez e pela violência, produz um contraste que sustenta o efeito cômico. Essa operação é o que abre possibilidades para a ressignificação simbólica da guerra. Ainda que não se possa avaliar a sua função subjetiva entre os soldados, é possível observar que, em termos discursivos, os anúncios subvertem o cotidiano. É uma reinvenção crítica do real e de seu vocabulário, não a sua negação, reforçando a ideia de Elias Thomé Saliba de que o humor, na incongruência, “nasce da dualidade essencial entre a percepção e a representação do mundo” (SALIBA, 2017, p.15).
Ainda segundo Saliba, partindo da teoria da incongruência, Arthur Koestler compreendeu o humor a partir do conceito de “bissociação”, isto é, o encontro entre dois sistemas de referência autônomos, coerentes em si mesmos, mas logicamente incompatíveis. Para o autor, não se trata de um mero contraste, mas de um deslocamento cognitivo abrupto que obriga o sujeito a transitar entre enquadramentos distintos, reorganizando o sentido da situação cômica.
No caso do Wipers, isso é reforçado por uma operação estrutural: os personagens dos anúncios circulam entre diferentes seções do jornal, reaparecem em colunas, cartas ou editais fictícios e constroem um universo autorreferencial. Essa reciclagem cômica e autorreferencial constrói um universo interno coeso e constante. O leitor reconhece figuras recorrentes e ri não apenas da piada isolada, mas do acúmulo de situações improváveis em que os personagens se envolvem.
Essa operação paródica permite – e esta é a grande chave defendida neste trabalho – compreender os falsos anúncios publicitários como parte de um processo mais amplo de reconstrução simbólica do cotidiano, mediada pela linguagem publicitária, mais até do que pela jornalística. Ao simular produtos, serviços e experiências ligadas à vida urbana britânica anterior ao conflito, os redatores do Wipers criaram um espaço ficcional onde a lógica comercial continuava operando, ainda que de forma distorcida. Personagens recorrentes, referências cruzadas entre seções e a reciclagem de situações cômicas contribuíram para a construção de um universo autorreferencial, reforçando a impressão de continuidade narrativa.
Considerações finais
A historiografia sobre jornais de trincheira costuma reconhecer o humor como um traço recorrente desses periódicos, mas privilegia frequentemente o discurso jornalístico (principalmente), epistolar ou literário. Ao concentrar-se na linguagem publicitária parodiada, este artigo procura ampliar esse campo de análise, sugerindo que o humor não apenas comentava a guerra, mas também reelaborava sentidos e emulava desejos presentes no mundo civil da propaganda. Em outras palavras, a força humorística do Wipers – e possivelmente de outros jornais de trincheira – parece residir menos no jornalismo em sentido convencional e mais na subversão da linguagem publicitária. Isso não significa dizer que o jornalismo não seja marcante nessa experiência editorial. Notícias e reportagens podem ser raras no Wipers, mas a forma jornalística permanece como moldura: na organização das seções, nos modos de leitura e na própria materialidade do periódico. Assim, o Wipers configura-se como um jornal cuja estrutura realmente remete à imprensa tradicional da época, mas no qual o discurso publicitário parodiado ocupa posição central.
A propaganda já é tema consolidado na historiografia do conflito: cartazes, postais, pinturas, canções e até brinquedos e jogos foram amplamente mobilizados na frente doméstica para apresentar a guerra como justa, necessária e moralmente defensável. Um dos marcos desse campo é o estudo clássico de Harold Lasswell, Propaganda Technique in the World War (1927), no qual o autor analisou como diferentes linguagens visuais e textuais foram utilizadas para moldar a opinião pública e sustentar o moral nacional. Contudo, quando deslocamos o olhar para espaços como os jornais de trincheira, torna-se evidente que a propaganda não se limita a estratégias oficiais de persuasão. No Wipers, ela surge parodiada, reapropriada e ressignificada pelos próprios combatentes, escapando às interpretações mais simplificadoras.
Interrogar os anúncios do Wipers é, portanto, investigar como combatentes mobilizaram a linguagem humorística da publicidade para articular relações entre guerra e não guerra, escassez e abundância, perigo e normalidade. Em meio à desordem, os anúncios do jornal criaram, mesmo que por alguns instantes, outra ordem possível – na qual, mesmo sob fogo cruzado, ainda se poderia rir.
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Fonte: GM1914 - The First World War in Greater Manchester.
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