RESUMO
Diante da efeméride, em 2025, dos 200 anos do Diário de Pernambuco e dos cem anos do Livro do Nordeste, publicação comemorativa do primeiro centenário da folha pernambucana, este artigo retorna ao livro do Diário para organizar informações a seu respeito e para situá-lo enquanto objeto que permite a devida identificação das sobreposições entre o pensamento freyriano, o Movimento Regionalista e a imprensa pernambucana, verificando, assim, algumas dimensões do processo de consolidação do Nordeste enquanto comunidade imaginada. Por meio da análise histórica e documental do livro, o estudo examina os objetivos intelectuais de Freyre, os traços modernistas e regionalistas da obra e o papel da imprensa e da elite letrada nordestina na construção simbólica do Nordeste.
PALAVRAS-CHAVE:
Regionalismo; Nordeste; imprensa
ABSTRACT
On the occasion of the 200th anniversary of the Diário de Pernambuco and the centenary of the Livro do Nordeste (Northeast Book) - a commemorative publication for the newspaper’s first centennial - this article revisits the publication to organize information about its origins and to situate it as an object through which to identify the overlaps between Freyrean thought, the Regionalist Movement, and the Pernambuco press, thereby revealing dimensions of the process of consolidating the Northeast as an imagined community. Through historical and documentary analysis, the study examines Freyre’s intellectual project, the modernist and regionalist features of the work, and the role of the press and the literate northeastern elite in shaping the symbolic construction of the Northeast.
KEYWORDS:
Regionalism; Northeast; press
Em 1925 o Diário de Pernambuco foi o primeiro jornal latino-americano a comemorar cem anos de existência (BARROS, 1985, p. 180), ocasião em que, a pedido da direção do jornal, uma série de comemorações foi organizada pelo seu então jovem colaborador Gilberto Freyre (1900-1987): uma exposição de móveis, joias, pratarias e porcelanas coloniais, dispostas no prédio do Diário; um catálogo ilustrado sobre a exposição; uma missa campal; uma festa com comidas e doces regionais; e a importante publicação do Livro do Nordeste (FREYRE, 2006a, p. 249). Diante da efeméride, em 2025, dos 200 anos da folha pernambucana e dos cem anos do livro comemorativo do seu primeiro centenário, este artigo retorna ao livro do Diário para organizar informações a seu respeito e para situá-lo enquanto objeto que permite a devida identificação das sobreposições entre o pensamento freyriano, o movimento regionalista e a imprensa pernambucana, verificando, assim, algumas dimensões do processo de consolidação do Nordeste enquanto comunidade imaginada (ANDERSON, 2008).
A imprensa brasileira surge tendo de vencer uma grande dificuldade: o analfabetismo da população. Esse e outros problemas não impediram que, ainda na época da colônia, diários e panfletos circulassem nos pequenos e grandes centros urbanos. Mas foi no período das lutas pela independência que a imprensa de oposição ganhou destaque (CAPELATO, 1994). Durante o século XIX, são os jornais com esse caráter panfletário que dão o tom geral da imprensa brasileira, servindo como plataformas midiáticas voltadas à divulgação de ideias. Destoando do modelo dominante, foi criada pelo tipógrafo Antônio José de Miranda Falcão, em 1825, uma folha diferenciada, o Diário de Pernambuco, que, em vez de privilegiar textos com tom notoriamente político, procurava veicular anúncios, produzir notícias e reportagens destinadas a informar os leitores sobre transações e acontecimentos cotidianos.
A primeira edição do Diário é publicada em 7 de novembro de 1825, com uma pequena introdução escrita por seu criador no espaço dos editoriais que sintetizava sua proposta:
Faltando nesta cidade assaz populosa um Diário de anúncios, por meio do qual se facilitassem transações, e se comunicassem ao público notícias que a cada um em particular podem interessar, o administrador da Tipografia Miranda e Companhia se propôs a publicar todos os dias da semana, exceto aos domingos somente, o presente Diário [...]. (apud JAMBO, 1975, p. 80).
Para que se tenha uma ideia do perfil inicial do Diário, em sua primeira edição apenas quatro notícias somavam-se aos anúncios publicitários: uma notícia social, a viagem do padre Penny ao Rio de Janeiro; outra, notícia internacional, falava da preparação dos franceses para invadir Cuba; e mais duas legítimas notas policiais: o sequestro de um garoto e o roubo de uma “burrinha castanha com filho de mesma cor” (JAMBO, 1975, p. 80).
Em 1831, Miranda Falcão passa o Diário para as mãos da firma Pinheiro & Faria. Quem assume a folha é o comendador Manuel Figueroa de Faria. Na administração de Figueroa, o Diário continua não sendo um jornal panfletário, embora tampouco seja mais uma folha prioritariamente dedicada a anúncios e serviços. Em março de 1901, é anunciado no jornal que uma próxima edição só sairia nos primeiros dias de abril, e que a folha contaria com uma reformulação. De fato, em abril, o Diário de Pernambuco reaparece nas ruas como propriedade do conselheiro Rosa e Silva (1857-1929), vice-presidente da República no governo de Campos Sales (1841-1913), e sob direção do jornalista e senador por Pernambuco Artur Orlando (1858-1916).
Com a eleição de Hermes da Fonseca (1855-1923) para a presidência em 1910, os militares ganharam força ante as antigas oligarquias agrárias. Nesse cenário, Rosa e Silva disputa o cargo de governador de Pernambuco com o general Dantas Barreto (1850-1931), ministro da Guerra do governo de Hermes da Fonseca3. Através de decisão do Congresso, Dantas Barreto é nomeado governador de Pernambuco; e diante do fracasso político de seu proprietário, em 1911 o Diário de Pernambuco encerra suas atividades.
Em 1913, o Diário é comprado pelo industrial e agricultor alagoano coronel Carlos Benigno Pereira de Lyra (1859-1924), voltando a circular. O edital de reaparecimento do jornal, em janeiro de 1913, indica uma mudança em seus rumos: comunica o desligamento com quaisquer compromissos assumidos pela política de seu antigo dono, o conselheiro Rosa e Silva, e a compra da empresa com todo o material e prédio pelo Coronel Carlos Lyra. Na fase dos Lyra, o velho jornal, contando com a inserção de novas tecnologias, ganha outro ritmo de vida: ampliou sua tiragem, renovou-se graficamente e investiu em um caráter mais jornalístico do que publicitário, mudança essa que já havia se iniciado na fase de Figueroa de Faria (JAMBO, 1975).
Carlos Lyra Filho, o herdeiro do terceiro dono do Diário de Pernambuco, foi diretor do jornal por mais de vinte anos e seu proprietário por cerca de sete anos. Foi ele quem incumbiu o então jovem colunista Gilberto Freyre de organizar as comemorações do centenário do Diário de Pernambuco, escolhendo-o, também em 1925, para representar o periódico no exterior e, posteriormente, assumir a direção do jornal4 (FREYRE, 2006a, p. 246). A fase dos Lyra, que colocou o Diário de Pernambuco entre os grandes jornais do país, termina em 1931 com a aquisição do já então secular jornal de Miranda Falcão por Assis Chateaubriand, que foi quem o incorporou à organização dos Diários Associados, uma das maiores corporações da história da imprensa no Brasil5.
Com introdução escrita pelo poeta, geógrafo e folclorista Mauro Mota (1911-1984) e prefácio de Gilberto Freyre - “Relendo a 1ª edição do Livro do Nordeste” -, o exemplar existente no Instituto de Estudos Brasileiros da Universidade de São Paulo (IEB/USP), com o qual trabalhamos, é fruto da segunda edição, fac-similar, do livro do Diário (FREYRE e outros, 1979). A primeira edição, de 1925, e a segunda, de 1979, se diferenciam quase exclusivamente pela qualidade do papel e pelo número de exemplares publicados. O Livro do Nordeste reaparece em 1979 por iniciativa do Arquivo Público Estadual de Pernambuco e foi organizado por Mauro Mota, então diretor do Arquivo Público (entre 1973 e 1983) e redator-chefe e diretor do Diário de Pernambuco.
O Livro do Nordeste contém 192 páginas, que medem aproximadamente 26,5 por 40 cm, e apresenta 35 artigos escritos por 27 colaboradores, aos quais se somam mais três ilustradores. Na edição de 1979, o livro conta com o acréscimo das páginas escritas por Mota e Freyre para introdução e prefácio, que aparecem antes da reprodução da capa original do livro, garantindo sua “fac-similaridade” também em relação ao número de páginas. As ilustrações aparecem em meio aos artigos, entre os parágrafos ou separando um texto do outro. O tamanho da publicação nos lembra o de uma página de jornal, remetendo o leitor à experiência de leitura desse tipo de material. A impressão da marca do Diário de Pernambuco no cabeçalho de todas as páginas do livro e toda a sua diagramação, de forma geral, corroboram a sensação de manuseio de um jornal. (Figura 1)
Artigo de Leite Oiticica publicado no Livro do Nordeste (FREYRE e outros, 1925). Ilustração: Manoel Bandeira. Edição disponível na Biblioteca do Instituto de Estudos Brasileiros da USP
De caráter descritivo e exploratório, são objetivos deste artigo: 1) delimitar o projeto intelectual do jovem Gilberto Freyre para as comemorações dos cem anos do Diário de Pernambuco em 1925; 2) verificar os traços regionalistas “e ao seu modo modernistas” do livro do Diário; 3) caracterizar a elite intelectual nordestina contemporânea à publicação do livro, compreendendo suas relações com a imprensa recifense, com a Faculdade de Direito do Recife e com as tensões políticas nacionais daquele início de século XX. A pesquisa a respeito do Livro do Nordeste foi iniciada há cerca de 15 anos, em 2007, enquanto projeto de iniciação científica de Renata Albuquerque6. Apesar de, na época, o trabalho ter sido apresentado em simpósio, o conteúdo do relatório não foi publicado à comunidade acadêmica por outros meios. Trata-se, portanto, da primeira publicação, no formato de artigo, dos dados coletados naquela pesquisa. Em 2024, às vésperas dos cem anos do livro do centenário, as autoras decidiram revisar os dados documentais coletados em 2007 e analisá-los a partir de um novo referencial teórico. Articulando as contribuições das ciências sociais e dos estudos em comunicação, o presente artigo foi escrito entendendo a pertinência da pesquisa sobre a história do pensamento social brasileiro e das suas interfaces com a comunicação social.
Além de oferecer um novo enquadramento teórico para a análise, as autoras também revisaram as referências bibliográficas, conferiram os dados primários coletados na pesquisa e redigitalizaram algumas das imagens do livro que ilustram o presente texto. Para isso, foi necessária uma nova visita ao Instituto de Estudos Brasileiros da USP, agora localizado no Espaço Brasiliana, no campus da Cidade Universitária da Universidade de São Paulo.
O artigo está organizado em cinco partes. Na primeira, apresentamos a trajetória intelectual e social vivida por Gilberto Freyre até a organização do Livro do Nordeste a fim de compreender quais eram as ideias que ele desejava apresentar em um livro que comemorava os cem anos de existência do Diário de Pernambuco, importante jornal da região. Na segunda, localizamos como o regionalismo nordestino se estabelece entre diversos outros movimentos regionalistas ante um cenário de oposição ao modernismo paulista. Em seguida, nos desdobramos sobre a relação entre elites intelectuais e políticas nordestinas e os órgãos de imprensa mais relevantes naquele contexto. O quarto tópico se preocupa em relacionar o movimento regionalista do Nordeste com os meios de comunicação de massa a partir do conceito de comunidades imaginadas proposto por Benedict Anderson (2008). Por fim, serão apresentadas as conclusões obtidas.
O jovem Freyre e os cem anos do Diário
Uma série de interesses, diálogos e experiências serviu de repertório para o projeto intelectual e estético de Gilberto Freyre em relação ao livro do Diário. Ao mesmo tempo que a publicação é, nesse sentido, um ponto de chegada para Freyre, ela também pode ser entendida como um ponto de partida para o desenvolvimento de um estilo de escrita e uma abordagem em relação ao Brasil que se consolidaram em suas grandes obras futuras. O regionalismo, a tradição cultural do Nordeste e a história do cotidiano, por exemplo, são temas que já aparecem nos artigos do jovem Freyre, que germinam no contexto da publicação do Livro do Nordeste (1925) e que se consolidam enquanto marca da sociologia freyriana em Casa-grande & senzala ([1933] 2006b). Conhecer essas referências, portanto, auxilia na compreensão da arquitetura do regionalismo do Nordeste, que, de acordo com Freyre (1996, p. XLIV), era “tradicionalista e, ao seu modo, modernista”.
Antes de assumir uma posição mais estável como colaborador no Diário de Pernambuco, Freyre passou os primeiros anos de sua juventude viajando e estudando no exterior, primeiro nos Estados Unidos (1918-1922) e depois na Europa (1922-1923). Após a conclusão de seus estudos na Universidade de Baylor e na Universidade de Colúmbia, Freyre partiu para a Europa atraído pela experiência universitária inglesa e pelos autores e grupos regionalistas da França e Espanha (FREYRE, 1979d). Por meio das anotações sobre aquele período, inicialmente feitas em seu diário pessoal e posteriormente publicadas por ele em livro (FREYRE, [1975] 2006a), pode-se constatar que, durante sua viagem pela Europa, o jovem escritor buscava caracterizar os cidadãos dos países pelos quais passava, traçando seu perfil, comparando suas gentes e os seus costumes. Vemos nessa atitude a preocupação com o registro de potencialidades culturais, influência nítida da antropologia de Franz Boas (2004), com a qual entrou em contato em Nova York, e marca do regionalismo que viria a promover. Para Larreta e Giucci (2007, p. 12), naquele período Freyre fortalece uma linha de pensamento muito sua, em que “o nacional e o regional integram o mesmo horizonte de reflexão”.
Freyre já era um colaborador do Diário de Pernambuco desde seus tempos de graduação nos Estados Unidos. O autor frequentou o curso de ciências jurídicas e sociais na Universidade de Baylor, Texas, entre os anos de 1918 e 1921, quando atuava como colunista com a sua coluna Da Outra América (FREYRE, 1979d). Os artigos publicados na coluna eram comentários críticos sobre as experiências que Freyre vivenciava no exterior e, sobretudo, suas reflexões acerca da sociedade norte-americana, do Brasil, da língua portuguesa, dos costumes nordestinos e norte-americanos. De acordo com Mello (1979), a coluna também publicava algumas notas sobre os livros lidos por Freyre, os autores que admirava, os museus que visitava, as personalidades que conhecia, as aulas que frequentava, entre outros tópicos.
Note-se que naqueles textos Freyre reinventa, de certo modo, a escrita jornalística brasileira do início do século XX. Diferentemente do que era publicado à época, seus artigos tinham um tom crítico e, ao mesmo tempo, eram dotados de um tom pessoal, como se fossem cartas escritas a parentes e amigos que tinham ficado no Brasil. É reinventada, também, a forma de caracterizar o Brasil e a cultura brasileira: uma abordagem que se inicia na coluna, se desenvolve no Livro do Nordeste e toma forma completa em Casa-grande e senzala ([1933] 2006b). Ao nos encontrarmos com o Livro do Nordeste, portanto, estamos diante de um projeto intelectual que iria amadurecer ao longo da trajetória do autor e caracterizar sua forma de compreender e explicar o Brasil.
Além da coluna no Diário de Pernambuco, colaboração mantida quase ininterruptamente em todo o período no exterior, durante sua estada em Baylor, Freyre escreveu para a Revista do Brasil, periódico paulista de propriedade de Monteiro Lobato; e para a El Estudiante, de Michigan, feita para estudantes da América Latina e da qual era diretor. Ainda aos 19 anos, destacava-se, assim, como uma figura promissora da cena recifense: a partir das notas de seu diário sabemos que, em 1919, França Pereira lhe escreve comunicando a eleição do jovem estudante como sócio correspondente da Academia Pernambucana de Letras (FREYRE, 2006a).
Tendo terminado os estudos na Universidade de Baylor, em 1920 Gilberto Freyre chega a Nova York e ingressa na Universidade de Colúmbia, aproximando-se de referências como Boas, Giddins, Moore, Hayes, Zimmerm e Seligman (FREYRE, 2006a). Naquele período em Nova York, as matérias que Gilberto Freyre enviava ao Diário de Pernambuco enfatizavam o cotidiano da cidade norte-americana, descrevendo sua vida no exterior, debatendo as conferências dadas por intelectuais famosos, comentando a sociedade industrial e os eventos culturais, como óperas, teatros, mostras etc.
Em 1922 o sociólogo defende sua dissertação de mestrado, intitulada Social life in Brazil in the 19th century. Nascia aí o primeiro estudo sobre a família brasileira. Essa tese antecipa alguns dos interesses do autor, que seriam desenvolvidos nos seus textos publicados no Livro do Nordeste e em sua obra mais importante, Casa-grande & senzala: a formação da sociedade brasileira do ponto de vista da vida privada e familiar.
Em 1923 Gilberto Freyre retorna ansioso e saudoso para sua terra natal, o Recife. É recebido com grande expectativa, como promessa do despontar enquanto importante intelectual da região. Aparece na cena pública, entretanto, não como sociólogo ou antropólogo, mas como crítico cultural: seus trabalhos não eram compreendidos como textos acadêmicos ou puramente jornalísticos e tinham como característica tratar das cidades e das suas culturas com uma linguagem quase literária. É a essa linguagem inovadora que Monteiro Lobato atribui um sentimento de desconfiança por parte dos intelectuais que receberam o autor na cena pernambucana. “A desconfiança”, justifica Lobato (1991, p. IX), “vinha de ser tudo aquilo muito amável e límpido - ou muito caseiro”. O amável, o límpido e o caseiro em seu texto, marcas do seu estilo inovador e polêmico, o acompanhariam ao longo de sua trajetória, marcando sobretudo Casa-grande & senzala (1933), obra que é toda escrita em uma mistura de literatura e sociologia.
A cidade que recebe Gilberto Freyre, no entanto, não corresponde às suas expectativas. Em meio a um período de decadência política, consequência direta da implementação da República no país e do declínio econômico resultante da queda na exportação de açúcar provocada pela Primeira Guerra Mundial, Recife já não é a mesma aos olhos do autor. Sua frustração com a cidade natal reforça sua convicção sobre a necessidade de preservar as tradições regionais. Em carta a Monteiro Lobato, datada de abril de 1923, Freyre expressa seu desagrado com os novos edifícios e residências, que, além de possuírem poucas árvores, lhe parecem sem caráter (LARRETA; GIUCCI, 2007, p. 220). No ano seguinte, em artigo publicado no Diário de Pernambuco, ele denuncia a morte do pitoresco de Recife e declara sentir-se como um estrangeiro em sua própria terra. (Figura 2)
Ilustração do Arco de Bom Jesus, em Recife, de autoria de Manoel Bandeira, reproduzida no Livro do Nordeste (FREYRE e outros, 1925). Legenda da imagem original: Gilberto Freyre. Edição disponível na Biblioteca do Instituto de Estudos Brasileiros da USP
A volta ao Brasil está também marcada por muitas críticas direcionadas a sua figura e ao seu trabalho. Em seu diário, registra: “é incrível o número de artigos e artiguetes aparecidos nestes poucos meses contra mim” (FREYRE [1975] 2006a, p. 186). Continua colaborando no Diário de Pernambuco, mas no geral encontra muita resistência ao seu tradicionalismo, sobretudo em função das palavras de ordem difundidas a partir da Semana de Arte Moderna de São Paulo. Os ecos do modernismo de São Paulo, levados para o Recife por intermédio de Joaquim Inojosa, culminam em uma disputa pela liderança intelectual da região7. Inojosa, que estivera no Theatro Municipal de São Paulo em 1922, retorna ao Recife naquela mesma época. Defendendo as ideias modernistas do grupo paulistano, tinha como porta-voz o Jornal do Commercio. A defesa feita por Freyre ao tradicionalismo e ao regionalismo logo foi classificada como conservadora e ressentida, o que alimenta uma demarcada oposição entre as propostas dos dois escritores.
Vimos, então, como, logo nos primeiros meses após seu retorno ao Brasil, Freyre propagou a ideia de um projeto que valorizasse a tradição regional, ideia que aparece em seus trabalhos de juventude. Tal projeto se materializa após quase dois anos de trabalho com a publicação do Livro do Nordeste, em novembro de 1925, que sintetiza de maneira original a proposta de um grupo, que começa a tomar forma mais acabada com a fundação do centro regionalista. Freyre concebeu e organizou esse livro, sistematizou-o, por assim dizer; encomendou textos, selecionou artigos do Diário de Pernambuco para serem republicados, escolheu os ilustradores do livro e os anúncios publicitários que nele apareceriam.
Regionalismo tradicionalista
A década de 1920 no país esteve marcada por diversos movimentos artístico-culturais afinados com a renovação estética moderna ou modernista. Além da célebre Semana de 1922, que tem lugar em São Paulo, explodem movimentos correlatos, embora com acentos diversos, em Minas Gerais, Rio Grande do Sul, Rio Grande do Norte e Pernambuco. O I Congresso Regionalista do Nordeste, por exemplo, aconteceu em 1926, organizado por Gilberto Freyre. A bibliografia, com raras exceções, tende a acentuar a oposição entre o modernismo paulista e os movimentos ocorridos em outros estados, geralmente classificados como regionalistas. No caso do regionalismo pernambucano, esse esforço de diferenciação se destaca ainda mais, sendo comum à sua caracterização como antípoda do modernismo paulista. Era um esforço notório do próprio Freyre, nesse sentido, reafirmar o caráter “ao seu modo modernista” do regionalismo tradicionalista pernambucano. (Figura 3)
Primeira publicação de “Evocação do Recife”, de Manuel Bandeira, no Livro do Nordeste (FREYRE e outros, 1925). Edição disponível na Biblioteca do Instituto de Estudos Brasileiros da USP
Moema Selma d’Andrea (1992), por exemplo, tece considerações a respeito das relações do grupo modernista com o grupo regionalista e, embora polarize na análise os dois movimentos, não os toma como incomensuráveis. A autora indica que “por trás dessa bipolarização de culturas está o confronto das forças dominantes que compunham, naquele momento, o cenário nacional” (D’ANDREA, 1992, p. 13). A oposição entre os dois momentos - o da Semana de Arte Moderna de 1922 e o do Congresso Regionalista de 1926 - se faz presente no interior da cena pernambucana, e não é possível ignorá-la. Na imprensa pernambucana de meados da década de 1920 é possível encontrar marcas das influências desses dois grupos, com Joaquim Inojosa representando o modernismo paulista em Recife, e Gilberto Freyre liderando o movimento “regionalista, tradicionalista e, ao seu modo, modernista”.
É necessário apontar ainda que, a despeito de um esforço de distinção e de polarização entre o modernismo paulista e o regionalismo pernambucano, essa polarização, além de não ser tão intensa como pode parecer à primeira vista, esconde uma lógica que é interessante desvendar, tomando como apoio outro tipo de análise do modernismo. Em Na trilha do Jeca (2003), por exemplo, Enio Passiani segue uma linha argumentativa para pensar a relação de Monteiro Lobato com os modernistas paulistas, que tomaremos emprestada para pensar a relação de Inojosa com Gilberto Freyre. A base de seu argumento é que a classificação de Lobato como pré-modernista é utilizada para diferenciá-lo e afastá-lo dos “verdadeiros” modernistas, criando uma falsa ruptura entre os personagens e os dois momentos. Trata-se, assim, da mobilização de um sistema classificatório que pode ser considerado um recurso político da geração que busca se legitimar no campo através da deslegitimação da geração anterior (PASSIANI, 2003, p. 45). Embora, no caso de Pernambuco, não se trate de duas gerações, é possível considerar a necessidade de polarização, por parte de Joaquim Inojosa e boa parte da crítica (BARROS, 1985; AZEVEDO, 1984), igualmente como um recurso argumentativo que não aprofunda os laços complexos que Freyre e os modernistas partilhavam. Assim, as classificações “regionalista” e “tradicionalista”, menos do que descrever conteúdos específicos, funcionam como termos relacionais e, fundamentalmente, como categorias de acusação para delimitar os espaços distintos e opostos, o do tradicional e o do moderno.
Embora a prioridade aqui não seja analisar no detalhe a incomensurabilidade atribuída aos dois movimentos em questão, é possível pelo menos anunciar a aproximação existente entre eles pela leitura da edição comemorativa do Diário de Pernambuco. A presença de Manuel Bandeira no Livro do Nordeste é um exemplo, entre outros, das fortes ligações entre os movimentos. Figura de proa do modernismo paulista e amigo pessoal de Gilberto Freyre (FREYRE, 2006a), Bandeira é um desses elementos de ligação entre “modernismo” e “regionalismo”.
Em prefácio à quarta edição do Manifesto regionalista, Sérgio Moacir de Albuquerque (1967, p. 13) aponta que qualquer manifesto atinge sua validade a partir do momento em que deixa transparecer a mentalidade em contexto: “haverá que corresponder perfeitamente às solicitações da época em que foi formulado” . Nesse sentido, é possível identificar o Livro do Nordeste como uma primeira versão do Manifesto regionalista freyriano, lançado no ano seguinte à publicação do livro do Diário, durante o Congresso Regionalista de 1926.
O movimento regionalista que se consolidava na década de 1920 também era tradicionalista, nos termos de seu idealizador. Era um movimento de resgate dos valores regionais e tradicionais do Nordeste, mas que não implica na defesa da expansão desses valores para o resto do país; defendia a articulação das regiões, a administração da União através da percepção das diferenças culturais das regiões, pois delas, segundo Freyre “é que, sociologicamente, o Brasil é feito, desde seus primeiros dias. Regiões naturais a que se sobrepõem regiões culturais” (FREYRE, 1967, p. 32).
Em 1924, com o envolvimento de Freyre na fundação do Centro Regionalista do Nordeste, o desenho de um movimento regionalista-tradicionalista se institui de fato. Em sua reunião inicial estavam presentes o jornalista paraibano Odilon Nestor, Gilberto Freyre, Alfredo Moraes Coutinho e Antônio Inácio. O Centro não tinha sede própria, e as reuniões aconteciam semanalmente na casa de Odilon Nestor. O programa do Centro Regionalista foi apresentado por Moraes Coutinho na segunda reunião e aprovado por consenso. Nele constavam cinco propostas visando unificar, exaltar e promover os interesses, elementos e inteligências do Nordeste (LARRETA; GIUCCI, 2007). Todos esses pontos que compunham o programa do Centro reaparecem no Livro do Nordeste, o que nos permite afirmar que as preocupações de Freyre com o regionalismo e as tradições culturais do Nordeste certamente não surgiram apenas em 1926. Por exemplo, a Semana das Árvores, 1924, é organizada a partir de um tema que já era preocupação de Freyre desde seus artigos na coluna Da Outra América do Diário de Pernambuco: a arborização das cidades.
Em seguida à realização da Semana das Árvores, o Centro Regionalista inicia a organização do I Congresso Regionalista do Nordeste, que aconteceu de 7 a 11 de fevereiro de 1926. O Congresso aconteceu em Recife; a sessão de abertura realizou-se no salão nobre da Faculdade de Direito de Recife, e foi dirigida por Odilon Nestor, então presidente do Centro Regionalista. Moraes Coutinho foi o orador oficial e tratou de apresentar as linhas gerais do movimento regionalista: a distinção entre regionalismo e separatismo, a falsa dicotomia entre regionalismo e nacionalismo cosmopolita, o potencial criativo da valorização da tradição e a irrealidade que para eles constituía a federação (LARRETA; GIUCCI, 2007).
Recife se modernizava nos anos 1920, como apontam, por exemplo, Souza Barros (1985) e Antonio Paulo Rezende (1997). A cidade não foi apenas um pano de fundo para o surgimento do regionalismo tradicionalista, figurando em primeiro plano como componente da cena intelectual da época. A alteração da paisagem urbana é ponto fundamental de comentários de Gilberto Freyre e de seu grupo sobre o Nordeste. A defesa da arquitetura tradicional, herança dos colonizadores portugueses, se faz pelo entendimento das particularidades de uma cidade tropical: ao Recife, cidade que “só falta derreter-se sob o sol forte”, servem antes as ruas estreitas e casas com grossas paredes do que as modernas e largas avenidas ou os arranha-céus cheios de vidro, que acabavam potencializando o calor tropical com que “o bom Deus ora nos favorece ora nos castiga” (FREYRE, 1967, p. 39-40). (Figura 4)
Vista do Recife, de Manoel Bandeira, ilustra o texto de Annibal Fernandes no Livro do Nordeste (FREYRE e outros, 1925). Edição disponível na Biblioteca do Instituto de Estudos Brasileiros da USP
No Recife dos anos 1920, a antiga arquitetura tradicional, os mocambos, as ruas estreitas e os casarões coloniais aparecem como empecilho ao projeto modernizador dos administradores municipais8. Segundo José Tavares Correia Lira (1996, p. 297), as ideias de Freyre encontram nesse cenário a oportunidade de se desenvolverem em “doutrina de combate”, de maneira propositiva, não se limitando a reagir à criticada modernização que, de acordo com Freyre, acabava por descaracterizar aquilo que a região tinha de melhor: seus traços culturais tradicionais.
A problemática da interpretação plástica do Nordeste já era trabalhada por Freyre em seus artigos de juventude. Em maio de 1925, ele publica um artigo no Diário de Pernambuco intitulado “A propósito de artes retrospectivas”, anunciando a necessidade de artistas que tivessem como inspiração a paisagem da região9; no Livro do Nordeste, também de 1925, além de retomar o tema no artigo “A pintura no Nordeste”, apresenta uma proposta pictórica que, de várias maneiras, dá respostas ao projeto artístico plástico que Freyre defende: no livro do centenário a paisagem regional é caracterizada igualmente de maneira plástica, cultural, social e política. Os desenhos e gravuras presentes no livro são na sua maioria de Manoel Bandeira; mas o livro também conta com desenhos de Joaquim do Rego Monteiro -“Estilização de mamoeiro” e “Impressão do Recife Novo” - e de Joaquim Cardozo - “Estilização de Caju”.
Os desenhos de Manoel Bandeira desenvolvem o cotidiano recifense, e, como ressaltado por Freyre no prefácio da segunda edição, são de feitio mais clássico, nos transportando ao Recife da época. São majoritariamente retratos de igrejas, de casarões e de avenidas, mas alguns retratam castiçais, frutas, rendas, igrejas, engenhos de açúcar e seus escravos, e tudo o quanto pareceu necessário para dar vida aos textos. A cidade vai sendo representada e, por meio dela, o Nordeste é traduzido plasticamente aos leitores, que podem passear pelas ruas de Recife através dos desenhos de Bandeira. As ilustrações feitas pelo ilustrador pernambucano foram baseadas em fotografias tiradas por Ulisses Freyre, irmão de Gilberto. Os desenhos aproximam-se do Nordeste, tomando-o como inspiração, e aproximam-se do objeto de inspiração ao não se limitarem à pura descrição e documentação da paisagem (LIRA, 1996).
A imprensa nordestina
Além de antecipar as tendências e características do Movimento Regionalista que se consolidou no Nordeste nas décadas seguintes, a análise do Livro do Nordeste também torna possível entrever as estreitas relações entre as elites intelectuais e políticas e os órgãos de imprensa mais importantes da época: além do Diário de Pernambuco, há A Província, o Jornal Pequeno, o Jornal do Comércio, A Tribuna etc.; todos afinados com as propostas políticas das elites que tomavam fôlego na década de 1920 para contestar a ordem da República Velha.
Investigar a posição dos colaboradores do Livro do Nordeste no universo intelectual de Recife, em 1925, é um passo necessário para compreender tanto o tipo de trabalho que Gilberto Freyre desejava produzir quanto o impacto que pretendia gerar. Um esboço da trajetória intelectual dessas figuras revela as articulações e escolhas feitas por Freyre no momento da organização da obra, evidenciando seu posicionamento no campo intelectual da época. Seguimos, assim, a sugestão de Capelato (1994), que propõe que uma análise histórica da imprensa deve considerar os sujeitos que a produzem como agentes sociais conscientes e situados historicamente. Nas palavras da autora, “a categoria abstrata imprensa se desmistifica quando se faz emergir a figura de seus produtores como sujeitos dotados de consciência determinada na prática social” (CAPELATO, 1994, p. 21).
Tal motivo explicita, então, a necessidade recuperar a trajetória dos colaboradores do Livro do Nordeste. Ao retornar dos Estados Unidos em 1923, Gilberto Freyre se articula com diferentes intelectuais para refletir sobre as relações entre o regionalismo e o modernismo brasileiros (REZENDE, 2007). Quando Freyre convida determinados intelectuais para escreverem artigos ou republica textos já veiculados no Diário de Pernambuco, ele não apenas valoriza suas ideias, mas também destaca posições específicas no interior do campo intelectual do Nordeste da época.
Freyre empenhou-se em reunir, no livro, “aquilo que a região possuía de melhor e mais representativo intelectual e culturalmente” (JAMBO, 1975, p. 255), justificando a presença de escritores de quase todos os estados nordestinos. Além de nomes consagrados de Pernambuco, colaboraram com o livro os alagoenses Leite Oiticica e Moreno Brandão; os paraibanos Odilon Nestor, Ademar Vidal e Coriolano Medeiros; os potiguares Eloy de Souza e Henrique Castriciano; o cearense Thomaz Pompeu Sobrinho; e o piauiense Octavio de Freitas. A presença de figuras oriundas de outros estados evidencia a centralidade de Recife como polo econômico, político e cultural da região - papel reforçado pela importância da Faculdade de Direito, que atraía estudantes e futuros intelectuais de todo o Nordeste. Assim, embora centrado em Pernambuco, o Livro do Nordeste projeta o estado como eixo de irradiação cultural e intelectual para a região, buscando construir uma imagem regional coesa.
Além dos nordestinos, o livro contou com contribuições de intelectuais estrangeiros com os quais Freyre manteve vínculos intelectuais, como Fidelino de Figueiredo, crítico português com quem Freyre colaborou no Correio da Manhã, e Francis Butler Simkins, historiador estadunidense conhecido de Freyre desde o período em que estudaram juntos na Universidade de Colúmbia. O convite a esses colaboradores revela também as conexões internacionais que Freyre buscava mobilizar para dar ao projeto maior densidade e prestígio.
Dessa forma, compreender quem foram os colaboradores do Livro do Nordeste nos ajuda a perceber as disputas simbólicas que atravessavam a produção cultural e intelectual da época. Mais do que uma antologia comemorativa, o livro se apresenta como um esforço consciente de consolidação de uma identidade regional a partir de um recorte específico, promovido por Gilberto Freyre, que já então se movia estrategicamente no campo das ideias e dos projetos políticos para o Nordeste.
Feyre atua como um editor ou curador do Livro do Nordeste, identificando as figuras proeminentes de diferentes estados do Nordeste e organizando suas contribuições para compor o Livro do Diário, algumas delas republicadas e outras feitas a seu pedido, sendo, portanto, publicadas em primeira mão. As colaborações contidas no livro são diversas: textos, desenhos e anúncios. Esse conjunto variado garante a originalidade intelectual e pictórica do Livro do Nordeste, possibilitando o fortalecimento de uma jornada rumo ao redescobrimento da região, agora pensada como Nordeste. A expressão “Nordeste”, afirma Freyre (1967, p. 28) no Manifesto regionalista, define uma realidade histórica e social, mesmo naquele momento em que ela não tinha sido tratada cientificamente como realidade política e geográfica .
A imaginação do Nordeste
A construção da identidade regional nordestina, especialmente no início do século XX, não pode ser compreendida sem considerar o papel central da imprensa como mediadora de discursos culturais e políticos. Nesse contexto, o Diário de Pernambuco ocupa posição destacada como espaço de circulação de ideias e como instrumento ativo na formulação de um imaginário coletivo em torno da Região Nordeste. A publicação do Livro do Nordeste simboliza um momento crucial dessa atuação, funcionando não apenas como um projeto editorial, mas como uma estratégia intelectual para consolidar um sentimento de pertencimento regional. Essa dinâmica pode ser analisada à luz da teoria das comunidades imaginadas, de Benedict Anderson (2008), que oferece arcabouço conceitual para compreender como a identidade regional é construída social e simbolicamente, em especial por meio da imprensa.
Anderson (2008) propõe que a nação é uma construção cultural, resultado da produção simbólica compartilhada por indivíduos que, embora não se conheçam pessoalmente, se percebem como parte de uma mesma comunidade. A possibilidade de imaginar a nação historicamente se dá pela correlação entre as ideias de fraternidade, poder e tempo. A fraternidade estabelece a ideia de um “nós” que independe das hierarquias e desigualdades existentes na realidade, sobrepondo-se à individualidade e criando um senso de coletividade naturalizado. O poder não seria apenas uma força impositiva, mas uma capacidade de moldar a percepção da realidade, de criar identidades e legitimar narrativas, utilizando mecanismos discursivos, institucionais e tecnológicos para imaginar e solidificar comunidades. O tempo seria uma cadeia de causas e efeitos medida pelo relógio e pelo calendário. Em suma, o autor explora como a fraternidade é o motor emocional que liga os membros de uma comunidade imaginada; o poder é o mecanismo que a molda e a define; e o tempo é a dimensão fundamental onde essas comunidades são concebidas e se desenvolvem.
Anteriormente, o domínio de três concepções culturais fundamentais sobre a mentalidade humana impedia a imaginação da nação: a primeira seria que uma língua escrita sagrada oferecia acesso privilegiado à verdade ontológica, fundamentando grandes comunidades transcontinentais unidas por signos, não por sons. A segunda concepção rejeitada foi a de que a sociedade deveria organizar-se em torno de centros elevados, como monarcas que governavam por “graça cosmológica”, fazendo com que os deveres de lealdade fossem hierárquicos, e o senso de pertencimento, difuso. Por fim, a noção de temporalidade em que cosmologia e história se confundiam foi sendo abandonada em favor de uma concepção de tempo linear e quantificável, que permite a simultaneidade transversal dos eventos e a construção de uma história contínua.
O lento declínio dessas convicções, impulsionado por transformações econômicas e pelo desenvolvimento dos meios de comunicação de massa, levou à busca por uma nova forma de unir fraternidade, poder e tempo. É nesse cenário que emerge o que Anderson chamou de “capitalismo editorial”, elemento que catalisou essa busca, permitindo que as pessoas pensassem sobre si mesmas e se relacionassem de formas inovadoras. O setor editorial foi uma das primeiras formas de empreendimento capitalista, buscando incansavelmente mercados, como é próprio desse modelo de produção. O capitalismo editorial seria, então, a convergência entre o capitalismo e a tecnologia de imprensa sobre a diversidade da linguagem humana, e o desenvolvimento da imprensa como mercadoria seria a chave para a criação de ideias revolucionárias sobre simultaneidade, possibilitando comunidades do tipo “horizontal-secular, transtemporais” (ANDERSON, 2008).
Os romances e jornais mostraram-se, então, os meios técnicos ideais para representar o tipo de comunidade imaginada a que corresponde uma nação, promovendo o que o autor chama de leitura simultânea - o ato de saber que milhares de pessoas estão lendo o mesmo conteúdo ao mesmo tempo, compartilhando um horizonte comum de referências e expectativas. Assim, a imprensa se mostraria como instrumento central na formação das identidades coletivas modernas. É nesse contexto que buscamos situar o Nordeste enquanto “comunidade imaginada” catalisada pela publicação do Livro do Nordeste e pelo próprio Diário de Pernambuco.
Primeiramente, faz-se necessário estabelecer o paralelismo entre os conceitos de nação e região, que, para Albuquerque Júnior (2011), são impossíveis de serem pensados separados. O autor ainda afirma que o Nordeste não é uma entidade natural ou eterna, mas uma invenção histórica e cultural que surge no final da década de 1910. Da mesma forma que as nações são imaginadas, o Nordeste é uma produção imagético-discursiva, com fronteiras e características atribuídas por meio de discursos e práticas sociais. A imprensa pernambucana, juntamente com obras literárias e sociológicas, desempenhou um papel crucial na consolidação da identidade regional nordestina, não apenas refletindo uma realidade preexistente, mas ativamente a construindo e a moldando. A leitura diária de notícias, descrições e debates sobre a região fez com que um público que não se conhecia diretamente se organizasse socialmente em uma comunidade dotada de um senso de camaradagem horizontal.
O Diário de Pernambuco se destacou como um dos maiores palcos para o debate de ideias sobre a região, contribuindo para a cristalização da imagem do Nordeste enquanto região (LIRA, 1996). O periódico serviu também como um veículo para a reação regionalista contra a hegemonia do centro-sul e o modernismo paulista (ALBUQUERQUE JÚNIOR, 2011). O jornal não apenas reportava, mas também ativamente construía e legitimava a identidade nordestina. A influência do Diário de Pernambuco era tal que, em 1925, ele é quem publica o Livro do Nordeste organizado por Gilberto Freyre, considerado o primeiro ensaio do programa regionalista ao se contrapor aos manifestos modernistas (D’ANDREA, 1992).
O Livro do Nordeste é um marco na constituição da memória e identidade nordestinas. A obra reúne textos sobre temas como cultura popular, economia, literatura, folclore e história, compondo um mosaico que procura definir o “espírito nordestino”. Essa operação cultural está profundamente alinhada com a lógica das comunidades imaginadas de Anderson (2008): trata-se de criar uma narrativa coletiva, coesa e compartilhada, a partir de fragmentos diversos, selecionados e organizados estrategicamente.
Albuquerque Júnior (2001) aponta que foi por meio da imprensa e de romances que se consolidou uma imagem regional articulada em oposição a um “Sul” imaginado e desenvolvido, mas também em defesa de uma tradição cultural própria. O Livro do Nordeste, nesse processo, atuou como espaço de difusão, debate e legitimação desse projeto.
Reflexões finais
O presente trabalho considera o livro do centenário como uma espécie de manifesto regionalista, praticamente contemporâneo à fundação do Centro Regionalista e ao I Congresso organizado por esse Centro. Nesse sentido nos cabe demonstrar que o Livro do Nordeste compartilha dos fundamentos que balizaram o movimento de 1926, liderado por Gilberto Freyre. Consideramos, então, o movimento de 1926 como revolucionário por apresentar uma proposta inovadora reivindicando a tradição e o regionalismo; por apresentar o Nordeste como região cultural, por redescobrir essa região a partir de novos ângulos de análise. Nas palavras de Sérgio Moacir de Albuquerque (1967, p. 10): “revolucionário, no sentido de se atirar dura e inteligentemente de encontro a certas tendências preconceituosas, existentes nos diversos ramos da atividade criadora brasileira”.
É ainda Albuquerque (1967, p. 7) que enfatiza que qualquer manifesto de importância deve problematizar as questões que lhe forem contemporâneas e, ainda, que cada geração deve escolher os objetivos que pretende alcançar, além dos meios para alcançá-los. Encontramos essas características no Livro do Nordeste: a valorização das tradições regionais e a defesa do regionalismo não só foram tomadas como bandeiras, mas também despertaram o desenvolvimento de uma série de novos olhares sobre o Nordeste: o que aprecia a renda, a culinária, a vida dos estudantes, os engenhos de açúcar, a música, o teatro regional etc. Novas perspectivas e sensibilidades, portanto, reinventaram, de modo articulado, uma série de traços culturais e costumes que estavam se extinguindo dado o acelerado processo de modernização.
Após um período de formação no exterior, marcado, como vimos, por diálogos e pelo aprendizado com figuras díspares, Gilberto Freyre retorna ao Brasil trazendo na bagagem marcas e orientações que não eram habituais para as elites nacionais, mais acostumadas ao aprendizado na Europa do que nos Estados Unidos. Ao voltar, no entanto, a cidade do Recife se apresenta aos olhos do jovem autor de forma contraditória: combinando os novos edifícios e a arquitetura moderna com a imponente presença dos rios e das pontes tradicionais recifenses. É nesse contexto de retorno ao país e de reinserção na cena política e intelectual, da qual ele já participa à distância, que o sociólogo organiza o Livro do Nordeste em 1925. Na liderança do projeto, reúne um conjunto de autores e de artigos diversificados, que ele compõe na edição com ajuda da experiência gráfica de José Maria de Albuquerque - diretor da Revista do Norte. A edição comemorativa, mais do que uma homenagem à velha folha pernambucana, aparece aos olhos dessa pesquisa como uma espécie de manifesto regionalista, antes mesmo que um movimento se organizasse com esse nome, e que agora comemoraria seu primeiro centenário.
Além disso, os artigos de Gilberto Freyre em particular desenvolvem tópicos que já despontavam nos artigos que o jovem Freyre enviava ao Diário de Pernambuco desde os 18 anos, como a vida familiar, o tradicionalismo e o resgate dos valores regionais, antecipando ainda problemáticas que reapareceriam amadurecidas nas obras da década de 1930 do autor.
Freyre deixa assim transparecer nas páginas da edição comemorativa o seu projeto intelectual, que se fortalece em seguida com a realização do I Congresso Regionalista do Nordeste, em 1926, e ganha novos contornos e projeção ampliada com Casa-grande & senzala, em 1933. Tais fatores se encontram em consonância com a ideia de Anderson (2008) de comunidades imaginadas: o Livro do Nordeste, juntamente com diversas outras peças jornalísticas, literárias e sociológicas, consolida a região como produção discursiva a partir de práticas da própria sociedade.
Referências
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- REZENDE, Antonio Paulo. As múltiplas cidades de Calvino e Freyre. In: FREYRE, Gilberto . Guia prático, histórico e sentimental da cidade do Recife São Paulo: Global Editora , 2007.
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3
Rosa e Silva era apoiado pelas forças políticas de Pernambuco, e Dantas Barreto, pelas tropas do Exército. Depois das eleições, o Diário de Pernambuco anuncia a vitória de Rosa e Silva, despertando um período de intensos conflitos de rua entre “rosistas” e “dantistas”, a paralisação dos bondes, o fechamento dos cinemas e das lojas, que teve como estopim um tiroteio que se espalhou por várias ruas de Recife e teve como alvo principal o Diário de Pernambuco, propriedade de Rosa e Silva. A intervenção do governo federal é solicitada, e o Congresso anuncia que Dantas Barreto é o legítimo governador do Estado (NASCIMENTO, 1970).
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4
Embora essa informação conste no diário de Freyre, publicado com o título de Tempo morto e outros tempos (2006a), nas páginas do mesmo diário só encontramos informações de que, em 1926, Freyre se tornou redator-chefe do Diário de Pernambuco.
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5
O paraibano Assis Chateaubriand foi criador e diretor da maior cadeia de imprensa do Brasil: os Diários Associados. Tal cadeia contava com quatro jornais, entre eles o Diário de Pernambuco, 36 emissoras de rádio, 18 estações de televisão, agência de notícias, várias revistas e uma editora.
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“O Livro do Nordeste (1925): imprensa e expressões regionalistas” (Relatório de Iniciação Científica, 2008), de Renata Albuquerque, sob orientação de Fernanda Arêas Peixoto, do Departamento de Antropologia da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (DA/FFLCH/USP).
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7
A respeito das tensões entre o grupo modernista e o grupo regionalista, conferir o livro de Neroaldo Pontes de Azevedo, Modernismo e regionalismo: os anos 20 em Pernambuco (1996).
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“Recife era uma velha cidade cheia de ruas estreitas e casas sem conforto, as obras do porto conseguiram renovar rapidamente uma pequena parte, que é hoje um contraste com os “mucambos” que povoam os mangues, e, o que talvez seja pior, a casaria velha e condensada que cobre o bairro de São José, e não é rara nos bairros de Recife, Santo Antônio, Boa Vista e Santo Amaro” (MEDEIROS, 1926, p. 326 apud LIRA, 1996, p. 297). Nota-se nessa passagem do médico Amaury de Medeiros, retirada de Saúde e assistência: doutrinas, experiências e realizações (Recife, Imprensa Oficial, 1926), a imagem negativa da paisagem tradicional do Recife à qual Freyre iria reagir em “doutrina de combate”, como sugere José Tavares Correia de Lira.
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“Trata-se de reunir matéria sugestiva, plástica, estimulante da imaginação: capaz de ser continuada através de novas palavras ou de novos arranjos criadores” (FREYRE, 1979b, p. 160).
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ALBUQUERQUE, Renata; PIVETTA, Gabriela Madureira. Livro do Nordeste (1925): Gilberto Freyre, regionalismo e imprensa. Rev. Inst. Estud. Bras. (São Paulo), n. 95, 2026, e10807.
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