Poemas

Poems

Dinha Maria Nilda de Carvalho Mota Sobre o autor

RESUMO

A seção Criação tem por objetivo publicar textos e materiais inéditos de escritores e/ou artistas, fotógrafos, desenhistas, além de documentos inéditos encontrados no Arquivo do IEB/USP. Neste número, são publicados seis poemas de Dinha (Maria Nilda de Carvalho Mota). Dinha é poeta, militante contra o racismo, integrante e cofundadora do selo independente Edições Me Parió Revolução e pós-doutora em Literatura e Sociedade (IEB/USP). É autora dos livros De passagem mas não a passeio(2006),Zero a zero - quinze poemas contra o genocídio da população negra(2015),Maria do Povo/María Pepe Pueblo(2019) eDiário do fim do mundo(2020), dentre outros. Em 2019, foi homenageada como patrona da Academia Estudantil de Letras2 2 Implementada em unidades escolares da rede municipal de São Paulo, incluindo as de ensino fundamental, a Academia Estudantil de Letras (AEL) “é uma autêntica Academia de Letras com as devidas adaptações para o público estudantil [...]. Dentro da dinâmica do projeto, são os próprios acadêmicos que escolhem um autor da literatura para representar na Academia” (SME/SP, s. d.). da EMEF Candida Dora Pretini, na cidade de São Paulo.

PALAVRAS-CHAVE:
Dinha (Maria Nilda de Carvalho Mota); poesia; literatura brasileira contemporânea

ABSTRACT

The Creation section has the objective of publish unpublished texts and materials by writers and/or artists, photographers, designers, as well as unpublished documents found in the USP IEB Archive. In this issue, six poems written by Dinha (Maria Nilda de Carvalho Mota) are published. Dinha is a poet, militant against racism, member and co-founder of the independent label Edições Me Parió Revolução and Post-Doctorate in Literature and Society (IEB-USP). She is the author of De passagem mas não a passeio(2006),Zero a zero - quinze poemas contra o genocídio da população negra(2015),Maria do Povo/María Pepe Pueblo(2019) andDiário do fim do mundo(2020), among others books. In 2019, she was honored as patron of the Student Academy of Letters EMEF Candida Dora Pretini, in the city of São Paulo.

KEYWORDS:
Dinha (Maria Nilda de Carvalho Mota); poetry; contemporary Brazilian literature

Tirar selfie é mais lisinho Ou: outras dopaminas Vontade mesmo é de escrever. Mas tirar selfie é mais lisinho. O prazer é instantâneo. Desde que seja vista (Curtidas são lambidas na tela da virilha e outras obscenidades pré e pós consentidas). Minuta no trem Vovozinha branca. Vendedor neguim. Ninguém nem atenção emprestou. Antes de ir, o recado a conversa escandalosamente alta: - Povo safado - Gosta de mentira - E de quem aluga criancinha. Minuta de silêncio Foi naquele lugar em que o menino ele foi alvejado que o protesto parou. As pretas e pretos fizeram uma minuta de homero contra o sadismo do imperador. Minuta de revolução Minha terapeuta e eu concluímos Que antes de morrer é preciso: Fazer uma árvore Plantar um livro Escrever um filho E Derrubar o sistema!! Meu amor é carrinho de rolimã Querida, querido, talvez eu não tenha explicado direito, durante o tempo em que seu colo era meu leito e minha pele seu cobertor, qual tipo de amor é o meu. Por isso lhe escrevo estes versos, póstumos e já quase fedendo a tédio salvo tanto perfume de flor que a gente fez bem em insistir e colher. Sabe, querido, querida, assim que notei o carrinho e desajeitada fui subindo a rua, puxando ele pela mão, eu tinha ciência de que o final da aventura era o meu corpo estilhaçado contra o outro morro. Querida, querido, quando eu tava já no alto, sem nenhuma chance nova de subir mais morro acima, eu olhei bem lá do alto da montanha e só vi o abismo. Mesmo assim eu quis descer. Querida, querido, quando enfim pus as mãos no controle e os pés no pedal sem freio e um frio percorreu minha espinha, foi parar na barriga e ali se gestou, eu sabia. E quando o sol, querida, querido, bateu bem nas minhas costas e minha sombra enorme desenhou-se toda torta no chão, eu também sabia. Certamente eu sabia, querido, querida, que o amor é queda digna e se esborrachar é sina. Mas eis que eu sou meio burra (ou cínica) E eis que eu não abro mão. Meu amor é na descida um carrinho de rolimã Alibabá e os quarenta poemas (Hoje o dia foi de cama. Não convém contar a dor que me tolheu os passos, porque ela envolve personagens que eu tenho evitado expor. Mas talvez valha a pena dizer que tem um ou quarenta poemas se formando bem debaixo das minhas costelas - ou das minhas tretas. Os pedaços deles ficam alfinetando, forçando dos lados e daqui a pouco vão rasgar a minha pele. Esses poemas deveriam estar no esôfago. Na ponta do cérebro, da língua, ou do lápis. Mas não. Querem crescer bem debaixo das costelas e nascer de parto cesariana. Nascer pelas minhas costas. Mas se eu pudesse escrever agora Só se) Eu faria um poema Que chovesse e não molhasse Esse meu peito ranheta Barco cinza em mar aberto Monstro covarde, apenas Nessa terra sem milagres Onde a caixa do peito bate Mas de tudo ela já sabe: Essa porra, esse cadáver, Nada disso vale a pena

Referência

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    Implementada em unidades escolares da rede municipal de São Paulo, incluindo as de ensino fundamental, a Academia Estudantil de Letras (AEL) “é uma autêntica Academia de Letras com as devidas adaptações para o público estudantil [...]. Dentro da dinâmica do projeto, são os próprios acadêmicos que escolhem um autor da literatura para representar na Academia” (SME/SP, s. d.SME/SP - Secretaria Municipal de Educação de São Paulo. Academia Estudantil de Letras. s. d. Disponível em: https://educacao.sme.prefeitura.sp.gov.br/ael. Acesso em: 20 maio 2021.
    https://educacao.sme.prefeitura.sp.gov.b...
    ).

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    06 Set 2021
  • Data do Fascículo
    May-Aug 2021

Histórico

  • Recebido
    20 Jun 2021
  • Aceito
    02 Ago 2021
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