Suscetibilidade de "híbridos" de Biomphalaria tenagophila à cepa LE (BH) do Schistosoma mansoni

Susceptibility of Biomphalaria tenagophila "hybrids" to the strain LE (BH) of Schistosoma mansoni

José Rabelo de Freitas Maria Beatriz Boschi Mairy Barbosa Loureiro dos Santos Sobre os autores

Resumos

"Híbridos" de Biomphalaria tenagophila provenientes dos cruzamentos de linhagens albinas de Belo Horizonte (BH) ou de Joinvile (SC), com melânicos de Cabo Frio (CF), do Taim (Ta) ou de Curitiba (PR), submetidos à infecção pela cepa do Schistosoma mansoni de Belo Horizonte (=LE), apresentaram os seguintes resultados: em F1, os "híbridos" TaSC, PRSC e CFTa exibiram taxas de 4,5%, 12,5% e 11,2% de suscetibilidade; em F2, todos os "híbridos" foram negativos e em F3, um exemplar albino, filho de (CFBH) ². TaBH se infectou com a LE. Dentre os controles, a B. glabrata apresentou taxas de 66,7 a 93,6% de suscetibilidade à LE e a B. tenagophila de Joinvile exibiu taxas de infecção de 17,1 e 33,3% pela cepa SJ; e os "híbridos" BHTa e BHCF, taxas de 6,0 a 53,8% também pela cepa SJ. Houve grande influência da linhagem materna nas taxas de suscetibilidade. Devido ao fato de descendentes do cruzamento de linhagens refratárias a LE (CF, Ta e BH), terem se infectado, é recomendado o uso de "híbridos" para a detecção de gens de suscetibilidade em tais linhagens. São ainda discutidas, a necessidade do uso de maior número de miracídios nos testes de infecção e a falta de relação entre a freqüência de contatos parasitas-hospedeiros e as taxas de infectividade. Considerando que estas dependem de características genéticas preexistentes na população, a cepa LE seria uma variedade genética (ou raça) distinta da cepa SJ, dotada de pouca aptidão em infectar as diversas populações de B. tenagophila, exceto a de Joinvile (SC).


Biomphalaria tenagophila "hybrids" originating from the crossing of albino strains from Belo Horizonte (BH) or from Joinvile (SC with melanic specimens from Cabo Frio (CF), Taim (Ta) or from Curitiba (PR), submitted to infection with Schistosoma mansoni (LE strain, Belo Horizonte, MG), presented the following results: in F1, TaSC, PRSC and CFTa "hybrids" showed susceptibility rates of 4.5%, 12.5%, and 11.2%, respectively; in F2, all "hybrids" were shown negative, and in F3, only one albino specimen (CFBH)². TaBH offspring was infected with LE strain. As far as controls were concerned, B. glabrata showed susceptibility rates of 66.7% and 93.6% to LE strain; B. tenagophila from Joinvile presented 17.1% and 33.3% to SJ strain, and BHTa and BHCF hybrids showed 6.0% to 53.8% to SJ strain too. It was noted a great influence of mother strain on susceptibility rates. Since the offsprings originating from crossing of unsusceptible strains to LE (CF, Ta and BH) were infected, the use of hybrids to defect susceptibility gens in such strains is discussed. Further, the necessity of the use of a greater number of miracidia in infection tests, and the lack of correlation between the frequency of host-parasite contacts and infectivity rates are discussed. Considering the fact that those infectivity rates are dependent on genetic characteristics, previously existing in the population, and not on the frequency of contacts, LE strain could be a genetic variety (or race) different from SJ strain, endowed with little ability to infect different populations of B. tenagophila, except for that from Joinvile (SC).


ARTIGOS ORIGINAIS

Suscetibilidade de "híbridos" de Biomphalaria tenagophila à cepa LE (BH) do Schistosoma mansoni(1 (1 ) Trabalho parcialmente financiado pelo CNPq (Proc. 222-8-093/80) )

Susceptibility of Biomphalaria tenagophila "hybrids" to the strain LE (BH) of Schistosoma mansoni

José Rabelo de FreitasI; Maria Beatriz BoschiII; Mairy Barbosa Loureiro dos SantosI

IDepartamento de Biologia Geral, Instituto de Ciências Biológicas — UFMG. Belo Horizonte — MG — Brasil. Bolsista do CNPq

IIBolsista do CNPq

RESUMO

"Híbridos" de Biomphalaria tenagophila provenientes dos cruzamentos de linhagens albinas de Belo Horizonte (BH) ou de Joinvile (SC), com melânicos de Cabo Frio (CF), do Taim (Ta) ou de Curitiba (PR), submetidos à infecção pela cepa do Schistosoma mansoni de Belo Horizonte (=LE), apresentaram os seguintes resultados: em F1, os "híbridos" TaSC, PRSC e CFTa exibiram taxas de 4,5%, 12,5% e 11,2% de suscetibilidade; em F2, todos os "híbridos" foram negativos e em F3, um exemplar albino, filho de (CFBH) 2. TaBH se infectou com a LE. Dentre os controles, a B. glabrata apresentou taxas de 66,7 a 93,6% de suscetibilidade à LE e a B. tenagophila de Joinvile exibiu taxas de infecção de 17,1 e 33,3% pela cepa SJ; e os "híbridos" BHTa e BHCF, taxas de 6,0 a 53,8% também pela cepa SJ. Houve grande influência da linhagem materna nas taxas de suscetibilidade. Devido ao fato de descendentes do cruzamento de linhagens refratárias a LE (CF, Ta e BH), terem se infectado, é recomendado o uso de "híbridos" para a detecção de gens de suscetibilidade em tais linhagens. São ainda discutidas, a necessidade do uso de maior número de miracídios nos testes de infecção e a falta de relação entre a freqüência de contatos parasitas-hospedeiros e as taxas de infectividade. Considerando que estas dependem de características genéticas preexistentes na população, a cepa LE seria uma variedade genética (ou raça) distinta da cepa SJ, dotada de pouca aptidão em infectar as diversas populações de B. tenagophila, exceto a de Joinvile (SC).

SUMMARY

Biomphalaria tenagophila "hybrids" originating from the crossing of albino strains from Belo Horizonte (BH) or from Joinvile (SC with melanic specimens from Cabo Frio (CF), Taim (Ta) or from Curitiba (PR), submitted to infection with Schistosoma mansoni (LE strain, Belo Horizonte, MG), presented the following results: in F1, TaSC, PRSC and CFTa "hybrids" showed susceptibility rates of 4.5%, 12.5%, and 11.2%, respectively; in F2, all "hybrids" were shown negative, and in F3, only one albino specimen (CFBH)2. TaBH offspring was infected with LE strain. As far as controls were concerned, B. glabrata showed susceptibility rates of 66.7% and 93.6% to LE strain; B. tenagophila from Joinvile presented 17.1% and 33.3% to SJ strain, and BHTa and BHCF hybrids showed 6.0% to 53.8% to SJ strain too. It was noted a great influence of mother strain on susceptibility rates. Since the offsprings originating from crossing of unsusceptible strains to LE (CF, Ta and BH) were infected, the use of hybrids to defect susceptibility gens in such strains is discussed. Further, the necessity of the use of a greater number of miracidia in infection tests, and the lack of correlation between the frequency of host-parasite contacts and infectivity rates are discussed. Considering the fact that those infectivity rates are dependent on genetic characteristics, previously existing in the population, and not on the frequency of contacts, LE strain could be a genetic variety (or race) different from SJ strain, endowed with little ability to infect different populations of B. tenagophila, except for that from Joinvile (SC).

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Recebido para publicação em 21/3/1984.

  • (1
    ) Trabalho parcialmente financiado pelo CNPq (Proc. 222-8-093/80)
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    (1 ) Trabalho parcialmente financiado pelo CNPq (Proc. 222-8-093/80)

    Datas de Publicação

    • Publicação nesta coleção
      26 Out 2012
    • Data do Fascículo
      Fev 1985

    Histórico

    • Recebido
      21 Mar 1984
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