Resumo
Este artigo analisa a tendência extremista da direita na atualidade como um dos principais desafios à luta de classes. O estudo propõe uma caracterização crítica da extrema-direita e do fascismo, para além do período histórico das décadas de 1920 e 1930, examinando suas determinações essenciais. A primeira parte revisa contribuições de clássicos que analisaram o fenômeno em seu surgimento, como Trótski, Zetkin, Mariátegui, Césaire, Benjamin e Gramsci, articuladas com interpretações contemporâneas de Renton, Konder e Mattei. A segunda parte avança na diferenciação conceitual entre fascismo, extrema-direita e direita, destacando o fascismo como movimento de massas com base ideológica reacionária, voltado à preservação da ordem capitalista. Por fim, são esboçadas relações entre fascismo, racismo e eugenia, considerando sua permanência histórica e função política no processo de reprodução do capital.
Palavras-chave:
fascismo; marxismo; luta de classes
Abstract
The article analyzes the current extremist trend of the right as one of the main challenges to the class struggle. The study proposes a critical characterization of the far right and fascism, going beyond the historical period of the 1920s and 1930s by examining their essential determinations. The first part reviews contributions from classical authors who analyzed the phenomenon at its emergence, such as Trotsky, Zetkin, Mariátegui, Césaire, Benjamin, and Gramsci, in dialogue with contemporary interpretations by Renton, Konder, and Mattei. The second part advances the conceptual differentiation between fascism, the far right, and the right, highlighting fascism as a mass movement grounded in a reactionary ideological base aimed at preserving the capitalist order. Finally, the article outlines the relationships between fascism, racism, and eugenics, considering its historical continuity and political function in the reproduction of capital.
Keywords:
Fascism; Marxism; class struggle
Introdução
Não há dúvidas, na quadra histórica atual, de que o avanço da extrema-direita representa um dos maiores desafios para a luta de classes. Essa força política reacendeu como movimento de massas de grande importância diante de um contexto de crise estrutural e sistêmica do capital.
A crise atual refere-se às próprias contradições da acumulação de capital, mas se estende a outras dimensões da vida social. Desde sua caracterização como crise estrutural e sistêmica, expressa também uma crise relativa ao modo de vida nessa sociedade, evidenciada como crise climática, ambiental, política, civilizatória e da própria reprodução do capital. Esse conglomerado de efeitos deletérios ao nosso modo de vida recolocou na agenda da luta de classes a necessidade de expor e enfrentar os limites da ordem regida pelo capital da única maneira possível, já explicitada no Posfácio da Segunda edição do Livro I de O Capital: através do revolucionamento desse modo de produção e da abolição de todas as classes sociais (Marx, 2017).
Neste artigo, temos por objetivo caracterizar, no campo das direitas, a extrema-direita e o fascismo. Para isso, realizamos uma revisão bibliográfica fundamentada no arcabouço teórico-metodológico do marxismo, com o intuito de ultrapassar a compreensão do fascismo como fenômeno restrito ao período histórico das décadas de 1920 e 1930 na Europa, para compreendê-lo desde uma perspectiva teórica, capturando seus determinantes essenciais. A partir dessa perspectiva, o texto contará com um grau de abstração que nos permite compreender o recente processo da “[...] história que se repete, ora como tragédia, ora como farsa” (Marx, 2011, p.14).
Na primeira parte do texto, apresentamos uma síntese dos principais apontamentos no campo do marxismo sobre o fascismo. Ainda que se some parcela dos trabalhadores e da pequena burguesia, há nesse conjunto amorfo1 que expressa o fascismo a defesa dos interesses dos capitalistas — conforme precisado por Marx (2017), que os identifica como personificação do capital. A revisão bibliográfica aqui desenvolvida reúne os apontamentos de Trotsky, Clara Zetkin, Mariátegui, Aimé Césaire, Walter Benjamin e Gramsci, em diálogo com abordagens recentes de David Renton, Leandro Konder e Clara Mattei.
A segunda parte da análise desdobra-se da primeira e expressa a compreensão de que o fascismo é um fenômeno que ultrapassa sua forma histórico-concreta, mas que não deve ser confundido com toda forma de ditadura burguesa, nem com a ação regular e articulada das direitas, tampouco com a tendência ao extremismo da própria direita — característica da extrema-direita. O fascismo apresenta traços próprios, gerais e específicos, identificados ao longo das análises de diversos autores no amplo campo do marxismo, mas também em sua continuidade histórica após a fase de surgimento, ascensão, ápice e derrocada nas décadas de 1920 a 1940. Sobre isso, faremos alguns apontamentos iniciais2 acerca da relação entre fascismo, eugenia e racismo. O fascismo, portanto, caracteriza-se como um movimento de massas que mobiliza politicamente a partir de um ideário no campo da direita, da ideologia dominante, particularizando-se em sua radicalidade e aspectos conservadores, mas que tem por finalidade manter a hegemonia das relações de sociabilidade a serviço da acumulação de capital.
O fascismo e sua caracterização desde a crítica marxista
Em O 18 brumário de Luíz Bonaparte, Marx (2011 [1852]) demonstra que a burguesia pode seguir com a República ou adotar um regime político mais rígido, desde que se mantenha a ordem material. A ascensão de regimes políticos mais ou menos rígidos possui relação direta com a intensidade da luta de classes frente ao aprofundamento das contradições do capitalismo — que se agrava em tempos de crise. Os desafios quanto à expansão e apropriação dos lucros pelos capitalistas, diante de uma superprodução incompatível com o subconsumo do conjunto dos trabalhadores, expressam as crises cíclicas do capitalismo (Marx, 2017).
A ascensão do fascismo na Europa nas décadas de 1920 e 1930 também ocorreu em cenário de crise, na sequência da Primeira Guerra Mundial (Mattei, 2023). Na crítica de Trotsky (2019, p. 61) aos reformistas, ele afirma que estes “[...] fecharam os olhos à natureza orgânica do fascismo como um movimento de massa surgido do colapso do capitalismo [...]”. A relação entre a ascensão do fascismo e o contexto de crise do capital é notória, assim como sua função de conter o movimento revolucionário dos trabalhadores.
O contexto de avanço da luta dos trabalhadores na Itália foi uma antessala importante à ascensão fascista, na medida em que a burguesia se viu ameaçada pela ação de perspectiva revolucionária via ocupação de fábricas e pelas experiências de gestão cooperada — em 1920, 27 mil hectares de 191 proprietários já estavam sob controle dos trabalhadores (Pericás, 2008). De acordo com os estudos de Mattei (2023), a austeridade adotada na década de 1920 tinha por objetivo agir contra o avanço das greves e dos movimentos de ocupação, servindo para invalidar suas reivindicações no contexto imediatamente posterior à Primeira Guerra Mundial. O conjunto de barreiras fiscais, monetárias e industriais serviu para salvaguardar as relações sociais capitalistas. Uma ideia importante nesse período, no campo da economia, foi a adesão à denominada “economia pura”3, segundo a qual a garantia da liberdade econômica estaria vinculada à necessidade de “[...] os países renunciarem às liberdades políticas, ou, no mínimo, colocá-las em segundo plano” (Mattei, 2023, p. 32)
A pequena burguesia, que Gramsci (2004 [1921-1926]) considera como a própria encarnação do fascismo, foi uma parcela da sociedade que registrou perdas materiais no contexto pós-guerra e de crise do capitalismo. Contudo, o conjunto da sociedade que aderiu ao fascismo e passou a compor o movimento de massas foi mais amplo. Do ponto de vista da legitimidade política, o fascismo, quando surgiu na Europa (principalmente Itália e Alemanha), incorporou, além da pequena burguesia, parcela importante do proletariado e do lumpemproletariado (Trotsky, 2019 [1930]; Renton, 2024). Registra-se uma elevação dos membros de 80.000 para 217.000 entre 1920 e 19214 nas fileiras do movimento fascista (Pericás, 2008). Já em 1923, eram mais de meio milhão somando-se às fileiras do fascismo italiano (Zetkin, 2019 [1923]).
A parcela dessa classe que atuava nos movimentos grevistas, nos sindicatos e espalhava o estalido revolucionário foi politicamente esmagada pelo fascismo italiano, que, em cerca de um ano de ação, se constituiu como movimento de massa; como partido em 1921, armado e atuante dentro e fora da lei, oposto ao liberalismo e à democracia, passando a ocupar o governo em 1922 (Pericás, 2008). Trotsky (2019, p. 64) qualificou-o como “[...] partido do desespero contrarrevolucionário [...]”, e Mariátegui (2008 [1921], p. 149) como “milícia civil antirrevolucionária [...]”, reação burguesa à possibilidade da ofensiva revolucionária, sendo “[...] a ação ilegal das classes conservadoras, temerosas da insuficiência da ação legal do Estado [...]. É a ação ilegal burguesa contra a possível ação ilegal socialista: a revolução”.
Segundo uma das mais consistentes análises marxistas sobre o fascismo, o informe que se tornou resolução redigida por Clara Zetkin (2019 [1923], p. 43)5, àquela altura dos eventos revolucionários e diante da URSS, apontava que a burguesia já não podia contar apenas com o Estado para garantir sua dominação: precisava de um instrumento de “[...] força extralegal e paramilitar [...]”. A pequena burguesia cumpriu importante papel na direção de “[...] serva do capitalismo, da propriedade agrária e agente da contrarrevolução” (Gramsci, 2004, p. 33).
Ao mesmo tempo, a oposição ao fascismo ascendeu e o conjunto de pessoas que se reivindicavam antifascistas era bastante amplo, incluindo “[...] liberais, conservadores, cristãos, anarquistas, feministas e inúmeros outros [...]” (Renton, 2024, p. 22). Contudo, foram os marxistas e a concepção denominada “enfoque dialético”6 que mais precisamente caracterizaram o fenômeno europeu. Essa visão identificou as similitudes gerais do fascismo: o cerceamento das liberdades, a definição de inimigos raciais e políticos, a intolerância extrema, a forma de movimento e partido de massas, a ofensiva antissocialista e antimarxista, a glorificação do militarismo e da guerra, entre outros aspectos. A partir dessa análise, estabelece-se uma compreensão que identifica tanto os traços gerais quanto as particularidades dos sistemas de governo fascistas (Renton, 2024).
Mariátegui (2008 [1921]) também analisa o movimento de capitulação de setores da direita ao fascismo, como liberais, defensores da democracia e grupos posicionados mais ao centro, que passaram a se associar ao filo-fascismo. Esse processo é observado nas eleições de 1924 na Itália, quando o fascismo conquistou importante vitória parlamentar. Os fascistas e Mussolini, já no poder e manifestando a intenção de garantir um programa “essencialmente antidemocrático”, obtiveram a rendição dos partidos democráticos e da própria câmara liberal-democrática, aprovando uma lei eleitoral que favoreceu a formação de um parlamento fascista. O regime fascista italiano, como afirma Gramsci (2004, p. 280), “[...] propôs destruir até mesmo aquele mínimo a que se reduzia entre nós o regime democrático”; objetivo prontamente alcançado pelo fascismo.
Apresentando-se como alternativa antissistema, o fascismo foi garantindo processualmente a unidade política necessária à sua continuidade. Entretanto, durante o fascismo italiano registrou-se o aumento da exploração dos trabalhadores, conforme dados de Mattei (2023). A intensificação da exploração elevou as taxas de lucro de 4,9% em 1920 para 8,3% em 1926. As medidas de austeridade de Mussolini aboliram o limite de 8 horas da jornada de trabalho, ampliando a mais-valia absoluta por meio da extensão das horas diárias. Assim, a queda de 4% no salário significou, na prática, uma retração salarial de 13%, considerando a relação entre remuneração e tempo de trabalho7. O período também registrou aumento de 30% da pobreza absoluta — contrapondo a tendência de redução da pobreza observada desde 1861 — e maior concentração de capital: a renda do 1% mais rico cresceu 9,6%, a do 0,1% aumentou 29% e a do topo 0,05% subiu 41% entre 1925 e 1930 na Itália. Nesse sentido, as políticas de austeridade contribuíram para a superação da crise em favor da dominância capitalista e dos privilégios de classe dos detentores do capital (Mattei, 2023). Em essência, a forma do Estado fascista garantiu a dominância política necessária para implementar medidas de austeridade em tempos de crise, reservando aos trabalhadores condições de vida cada vez piores.
No texto de Mussolini (2019 [1932]) que introduz o fascismo, este é caracterizado como uma “doutrina”, um modo de ser, apresentado em dimensão espiritual e religiosa, que subsidia as ações e práticas políticas de seus adeptos e sua organização como movimento de massas. Assim, o fascismo também se apresenta como perspectiva moral e ética. Mariátegui (2008 [1921], p. 201) contrapõe essa visão ao afirmar que “[...] o fascismo não é uma doutrina; é um movimento. Por mais esforço que tenha feito, não conseguiu traçar um programa nem uma via claramente fascista.” O suposto anúncio de ser uma nova filosofia, de expressar um novo Estado com novo conteúdo, é parte da aparência desse movimento. Clara Zetkin (2019 [1923]) reconhece que o fascismo apresenta particularidades em cada país, mas destaca dois traços essenciais daquele período — que se repetem na atualidade: “[...] [1] um programa revolucionário fraudulento, que se liga de forma extremamente esperta com os humores, interesses e necessidades de amplas camadas sociais; [2] e o uso do violento e brutal terror.”
No texto As armas do futuro, Walter Benjamin (2013 [1925]) identifica uma sequela espiritual no fascismo proveniente das aventuras de D’Annunzio8 e do movimento artístico e literário fundado por Marinetti na Itália nos anos de 1909 e 1910: o futurismo. O futurismo exaltava a maquinaria, as transformações da eletricidade, a indústria, os automóveis, as grandes metrópoles, as armas e a capacidade bélica. Esses elementos formaram parte do ideário social que alimentou o fascismo.
Apresentando-se como supostamente neutro no campo político, o fascismo subordinava os interesses à nação. Nesse ínterim, “[...] a luta de classes é firmemente rejeitada” (Zetkin, 2019 [1923], p. 51) e, conforme declarado oficialmente à época, o fascismo defendia “[...] Deus, a nação e o primeiro-ministro” (Zetkin, 2019 [1923], p. 52). O patriotismo fascista baseava-se também na ideia de mito, sustentado “na fé, na paixão”, como mencionou Mussolini, opondo ideologicamente a nação italiana às demais nações após a Primeira Guerra Mundial, mistificando os conflitos relativos aos interesses de classe no capitalismo. A concepção nacionalista difundida pelo fascismo na Itália esteve vinculada ao processo histórico de organização tardia da unidade nacional, reivindicada pela valorização da “nação mito”, sustentada em concepções de superioridade racial de um povo sobre outro.
Um diálogo presente nas análises de Renton (2024), em consonância com o clássico Discurso sobre o Colonialismo de Aimé Césaire (1955) e com as análises de Gramsci sobre a ascensão fascista, evidencia a linha de continuidade entre o fenômeno do fascismo e a relação colonial e racista estabelecida entre países europeus e os continentes africano e asiático — incluindo também a América Latina e o Caribe, que, nos termos de Galeano (2024), mantêm “suas veias abertas” aos interesses do capital.
Conforme afirmou Césaire (1955), o colonialismo deve ser compreendido para além do período de organização das relações econômicas mundiais, sendo considerado em sua continuidade nas relações entre os povos já nos marcos da consolidação do capitalismo mundial. Trata-se, sobretudo, do processo de subordinação econômica, política e social ao qual ficaram submetidos continentes inteiros, como a América Latina e a África. Césaire (1955, p. 14) apresenta uma das mais fundantes relações entre fascismo e racismo ao afirmar que “[...] valeria a pena revelar ao burguês muito distinto, muito humanista, muito cristão do século XX que, sem que ele se dê conta, ele tem um Hitler dentro de si [...]”. O autor explicita a natureza racista presente no fascismo, tanto entre seus críticos quanto entre seus adeptos, ao afirmar que “[...] no fundo, o que ele [o burguês] não pode perdoar a Hitler não é o crime em si, o crime contra o homem, não é a humilhação do homem como tal, é o crime contra o homem branco [...]”.
Nesse sentido, o inaceitável seria que se “[...] aplicou à Europa procedimentos colonialistas que até então eram reservados exclusivamente aos árabes da Argélia, aos coolies da Índia e aos negros da África”. Essa concepção de nação e de patriotismo, difundida pelo fascismo, tem por fundamento as teses de superioridade racial, que foram o sustentáculo do colonialismo e mantiveram seu ideário na conformação do capitalismo mundial. Na mesma linha, as análises de Clóvis Moura (2020) tratam da ascensão do nazismo e do fascismo na Europa e evidenciam como esse processo influenciou a reestruturação de políticas eugênicas no Brasil. A própria Liga da Higiene Mental difundiu posições ideológicas vinculadas ao arianismo e ao pressuposto da superioridade racial entre brancos e não brancos.
Dessa forma, as concepções relativas à caracterização do fascismo pelos marxistas se evidenciam nas análises de todos esses autores, com pontos de encontro muito importantes entre eles, no que se refere: ao fascismo como movimento político de massas; à propaganda aparentemente antissistema; à base social majoritariamente da pequena burguesia, mas reunindo também camadas da classe trabalhadora; à identificação da importância da imprensa na difusão e mobilização; à relevância da arte, com exaltação da maquinaria e da guerra; à herança do pensamento colonialista e do racismo como fundamentos do fascismo; à concepção de nação difundida pelo fascismo; ao fato de se apresentar como alternativa à crise do capitalismo; ao anticomunismo frente à ofensiva revolucionária; ao antimarxismo; à piora concreta das condições de vida dos trabalhadores; à agenda moral e conservadora em relação às questões de gênero; e à compreensão da existência de aspectos particulares, mas também gerais desse fenômeno.
Direita, extrema-direita e fascismo
Na quadra histórica recente, mesmo após a aprovação de tratados internacionais de direitos humanos, temos acompanhado a volta dessa força política reorganizada, seja através de partidos, seja como movimento de massas. Ela se apresenta sob forma particular na atualidade, vinculando-se novamente ao contexto de aprofundamento da crise do capital, que é também uma crise política, ecológica e social — caracterizada por autores marxistas como crise estrutural (Carcanholo; Nakatani, 2015; Mészáros, 2011) ou sistêmica (Herrera, 2015).
A particularização do fascismo no campo da direita pode ser compreendida a partir das análises de Leandro Konder (1977), que destaca ser o fascismo uma espécie de seu gênero: a direita. Regimes políticos mais autoritários, inclusive fascistas, contribuem para fazer avançar políticas de austeridade necessárias em contexto de crise, período em que se acirram as disputas pela riqueza socialmente produzida. É nesse cenário que o fascismo reacende e retoma sua concepção nacionalista e “patriótica”, repetindo a história “como tragédia ou como farsa”, como bem retomou Casimiro (2020).
Embora se apresente como antissistema e aparente expressar uma alternativa radicalizada à crise e a seus efeitos deletérios, na realidade a tendência fascista atual apresenta características como: mobilização e movimento de massas ofensivos da direita; continuidade e redesenho das ideias de supremacia racial, de uma nação e povo como superiores a outros; alternativa política extremista a serviço dos interesses do capital; legitimação de novas e velhas formas de exploração do trabalho, com piora concreta das condições de vida dos trabalhadores; uso da propaganda midiática e dos aparatos tecnológicos de comunicação contemporâneos; agenda conservadora contra a população LGBTQIAPN+ e contra as mulheres; fortalecimento da propaganda e perseguição política aos considerados comunistas e marxistas; proposta antissistema falaciosa, que, em rigor, busca aprofundar o capitalismo e, por consequência, suas contradições.
Quanto ao aspecto racial, a eugenia e o racismo foram pilares na estruturação da sociedade capitalista europeia e subsidiaram materialmente a transição do feudalismo para o capitalismo, ao longo do período de colonização. A expropriação da riqueza socialmente produzida na América Latina, por meio da exploração do trabalho escravizado de povos retirados da África, constituiu a base econômica desse período (Moura, 2020). Esse longo processo de expropriação sustentado no racismo fez com que elementos de ordem racial também estruturassem o capitalismo como modo de produção mundial. Isso se revela nas desigualdades raciais presentes no interior da própria classe trabalhadora.
O fascismo, vinculado e sustentado no racismo e na eugenia, é pouco explicitado nas análises contemporâneas sobre o fenômeno. No entanto, trata-se de um elemento crucial para compreender a tendência à fascistização, tanto hoje quanto outrora.
Com a ascensão recente do fascismo, parte da esquerda mundial tardou na análise adequada do fenômeno e no chamado à mobilização antifascista. A esquerda mostrou-se desatenta aos ataques racistas, xenofóbicos, misóginos e nacionalistas desse projeto (Lowy, 2021). Parte dela ainda tende a homogeneizar a direita como uma unidade imprecisa, sem considerar os aspectos de disputa intraclasse burguesa9 e seu processo de hegemonia interna.
Assim como na quadra histórica do fascismo europeu (ou fascismo clássico), a extrema-direita em ascensão foi diferenciada da direita e do fascismo. Mariátegui (2008 [1921], p. 201) fez menção a uma extrema-direita exatamente no contexto do germe do fascismo, ao afirmar que o L’Idea Nazionale era um “órgão [de imprensa] da extrema-direita”.
Concretamente, a direita se organiza em todo o mundo, como evidenciam pesquisas sobre a ação dos aparelhos privados de hegemonia, tais como institutos e organizações não governamentais da burguesia. Estes atuam como difusores da ideologia liberal10, defendendo o livre mercado e atacando o comunismo e suas experiências concretas (por exemplo, Cuba).
Ainda que não tenha se constituído, na quadra histórica recente, um Estado fascista propriamente característico desse regime, como movimento de massas o fascismo volta a contar com uma base social da pequena burguesia, insatisfeita com suas perdas diante da crise do capitalismo, somando-se a ela parcela importante da classe trabalhadora. Em nossa concepção, há aspectos ideológicos que sustentam o fascismo como movimento de massas, arraigados na radicalização política do próprio liberalismo. O traço violento do Estado capitalista sempre esteve presente nas várias formas de regimes políticos, inclusive na democracia burguesa (Fernandes, 2019). Esse aspecto não impede a tendência atual de enrijecimento dos regimes políticos no capitalismo. O fascismo se apresenta, então, como forma particular, sempre que o “braço violento” precisa impor-se de maneira mais explícita.
Em nossa análise, há particularidades que diferenciam a direita em geral de sua tendência ao extremismo em conjunturas específicas e da conformação de movimentos fascistas — estes tendem à radicalidade da direita e vislumbram a ocupação do Estado (via pleito eleitoral ou não). Como movimento, essa tendência ganha capilaridade e adesão social, tendo como lastro de sua expansão a ação organizada da própria direita através dos aparelhos privados de hegemonia, que difundem o pensamento liberal e promovem ações de formação de quadros em seu campo político. Esse conjunto de elementos presentes na sociedade atual, em um contexto de crise do capital, pode subsidiar a conformação de governos sustentados por movimentos de massas fascistas, por essa perspectiva política ou por discursos mais autoritários, voltados à radicalização das políticas de austeridade. Essa compreensão não deve mistificar nossa radicalidade na luta de classes frente ao avanço desse fenômeno na contemporaneidade. A unidade necessária nas lutas para enfrentar o fascismo deve ocorrer no campo da esquerda, aglutinando partidos, experiências de transição, governos de esquerda e movimentos nacionais e internacionais que possam contrapor essa força política. Conforme afirmaram Trotsky (2019) e Zetkin (2019 [1923]), esse é um aprendizado histórico de suma importância nas lutas da nossa classe.
A face extremista da direita se evidencia em conjunturas específicas. O fascismo como movimento de massas é uma dessas expressões. Além dele, as ditaduras na América Latina e no Caribe, ao longo das décadas de 1950 a 1980, conforme explicou Mandel (1976), não se constituíram em Estados fascistas, mas demonstraram como a direita pode se radicalizar, aliar-se à burguesia internacional — no caso latino-americano — e recorrer a mecanismos de guerra contra a luta dos trabalhadores, para salvaguardar o status quo do capital.
Na atualidade, está nítida a tendência ao extremismo da direita em todo o mundo. Essa força política tem reascendido e escalonado em nível mundial através de partidos de extrema-direita, fascistas, da mobilização e da conformação em movimentos de massas. Diante da crise do capital — que é também ecológica, social e política —, as contradições do capitalismo tendem a se avolumar, intensificando a luta de classes. Assim como ocorreu no período do chamado fascismo clássico, observa-se o crescimento do campo político da direita mais extremista, que processualmente se radicaliza, numa tendência à fascistização.
No lado oposto, esse processo exige da classe trabalhadora esforços de reorganização das lutas, com uma concepção de estratégia e táticas radicalmente críticas à acumulação de capital e que apontem para outro projeto societário. Desse modo, a esquerda deverá apresentar a alternativa antissistêmica ao cenário da crise atual, não repetindo os erros do passado, conforme criticou Mariátegui (2008 [1921], p. 199), ao afirmar que “[...] o fascismo mobilizou [...] todas suas forças legais e extra-legais, a oposição quase não dispôs de meios de organização e nem de propaganda”.
Considerações finais
Neste artigo, tivemos por objetivo caracterizar, em nível mais geral, a direita, a extrema-direita e o fascismo. Para isso, realizamos um retorno aos clássicos do marxismo e recuperamos aspectos identificados por eles na ocasião do surgimento do fascismo. Na primeira parte do texto, apresentamos uma síntese com os principais apontamentos no campo marxista sobre o tema. Já na segunda parte da análise, evidenciamos a compreensão de que o fascismo é um fenômeno que ultrapassa sua forma histórico-concreta, devendo ser diferenciado da direita em geral e não confundido com a extrema-direita.
Nossa compreensão é que, diante da crise do capitalismo, há uma tendência em curso de acirramento da luta de classes. A partir desse movimento político, a direita mais moderada — inclusive aquela que defende a democracia liberal — tende ao extremismo e a ser absorvida pelo campo da extrema-direita. O fascismo apresenta características próprias, gerais e específicas, situadas no tempo e no espaço. Assim, ainda que não tenha se conformado um Estado fascista na atualidade, sua retomada como movimento, sustentada nos elementos que evidenciam seu lastro histórico, tende a ser a expressão mais nítida do processo de radicalização das direitas na luta de classes.
Iniciamos neste texto algumas reflexões acerca da relação entre fascismo, eugenia e racismo. Essa relação aparece nas análises de Aimé Césaire, Gramsci e Clara Zetkin, sendo retomada nos estudos de David Renton. O fascismo também é citado nos estudos sobre o racismo no Brasil de Clóvis Moura. Entretanto, as análises recentes no campo do marxismo pouco estabelecem esse diálogo, o qual é indispensável para compreender a ascensão fascista contemporânea, haja vista a volta de Donald Trump nos EUA em 2025 e as medidas anti-imigrantes implementadas desde o primeiro mês de governo, inclusive de forma ilegal.
Concluímos, com base nesse referencial, que o fascismo se caracteriza como um movimento de massas que mobiliza politicamente a partir de um ideário no campo da direita, da ideologia dominante, particularizando-se em sua radicalidade e aspectos conservadores, mas que tem por finalidade manter a hegemonia das relações de sociabilidade a serviço da acumulação de capital. Como contraponto, a esquerda deve seguir se organizando e buscando diálogo para a unidade, retomando suas organizações e sua perspectiva de defesa de uma ordem social superior ao capitalismo e suas contradições — apresentando-se como alternativa antissistêmica. Assim, em acordo com Gramsci (2004, p. 289), “o dilema ‘fascismo ou democracia’ pode assim converter-se num outro: ‘fascismo ou insurreição proletária’”.
Notas
Agradecimentos
Ao Núcleo em Movimentos e Práticas Sociais (NEMPS) da UFES e ao Grupo Trabalho e Orientação (GTO) da UFF.
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Referências
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