Open-access Predição de risco e incidência de percepção sensorial tátil alterada em pacientes oncológicos durante quimioterapia 1

RESUMO

Objetivos:  Estimar a prevalência de percepção sensorial tátil alterada, identificar os fatores de risco e estabelecer modelo de predição de risco para seu desenvolvimento, em pacientes adultos, submetidos à quimioterapia antineoplásica.

Método:  Coorte histórica realizada a partir de informações obtidas em prontuários de 127 pacientes atendidos em uma unidade oncológica de um hospital privado de um município de Minas Gerais, Brasil. Os dados foram analisados por estatística descritiva, bivariada, com análise de sobrevida e multivariada por regressão de Cox.

Resultados:  Dos 127 pacientes analisados 57% desenvolveu percepção sensorial tátil alterada. As variáveis independentes que impactaram, de forma significativa e conjunta, com o tempo para ocorrência do desfecho foram: metástases óssea, hepática e de linfonodo regional, alcoolismo, quimioterapia paliativa e desconforto nos membros inferiores.

Conclusão:  A percepção sensorial tátil alterada foi um achado comum em pacientes adultos durante o tratamento quimioterápico, apontando para a necessidade da implementação de intervenções que visem identificar precocemente e prevenir ou tratar o problema.

Descritores:
Neoplasias; Quimioterapia; Síndromes Neurotóxicas; Percepção do Tato; Diagnóstico de Enfermagem

ABSTRACT

Objectives:  to estimate the prevalence of impaired tactile sensory perception, identify risk factors, and establish a risk prediction model among adult patients receiving antineoplastic chemotherapy.

Method:  historical cohort study based on information obtained from the medical files of 127 patients cared for in the cancer unit of a private hospital in a city in Minas Gerais, Brazil. Data were analyzed using descriptive and bivariate statistics, with survival and multivariate analysis by Cox regression.

Results:  57% of the 127 patients included in the study developed impaired tactile sensory perception. The independent variables that caused significant impact, together with time elapsed from the beginning of treatment up to the onset of the condition, were: bone, hepatic and regional lymph node metastases; alcoholism; palliative chemotherapy; and discomfort in lower limbs.

Conclusion:  impaired tactile sensory perception was common among adult patients during chemotherapy, indicating the need to implement interventions designed for early identification and treatment of this condition.

Descriptors:
Neoplasms; Drug Therapy; Neurotoxicity Syndromes; Touch Perception; Nursing Diagnosis

RESUMEN

Objetivos:  estimar la prevalencia de percepción sensorial táctil alterada, identificar los factores de riesgo y establecer un modelo de predicción de riesgo para su desarrollo, en pacientes adultos sometidos a quimioterapia antineoplásica.

Método:  estudio de cohorte histórica, realizado a partir de informaciones obtenidas de fichas médicas de 127 pacientes atendidos en unidad oncológica de un hospital privado, en municipio de Minas Gerais, Brasil. Los datos fueron analizados con estadística descriptiva, bivariada, con análisis de sobrevivencia y multivariado con la regresión de Cox.

Resultados:  de los 127 pacientes analizados, 57% desarrollaron percepción sensorial táctil alterada. Las variables independientes que causaron impacto de forma significativa, y conjuntamente con el tiempo para ocurrencia del resultado, fueron: metástasis ósea, hepática y de linfoma regional; alcoholismo; quimioterapia paliativa; e, incomodidad en los miembros inferiores.

Conclusión:  la percepción sensorial táctil alterada fue un hallazgo común en pacientes adultos durante el tratamiento quimioterápico, lo que apunta para la necesidad de la implementación de intervenciones que objetiven identificar precozmente y prevenir o tratar el problema.

Descriptores:
Neoplasias por Localización; Quimioterapia; Síndromes de Neurotoxicidad; Percepción del Tacto; Diagnóstico de Enfermería

Introdução

O adoecimento por câncer é problema de saúde pública de forte impacto, sendo a segunda causa de morte no Brasil1. O tratamento envolve intervenções para erradicação do tumor, entre elas a Quimioterapia Antineoplásica (QTA), que atua no ciclo e divisão celular, interrompendo a proliferação das células não seletivamente, causando toxicidade2.

Na literatura, tem-se apontado associação entre a neurotoxicidade e o emprego de diversos fármacos, como os taxanes (docetaxel e paclitaxel), alcaloides da vinca (vincristina, vimblastina e vinorelbina), platinas (cisplatina, carboplatina e oxaliplatina) e inibidores do proteassoma (bortezomib)3. Suspeita-se que esses comprometam distintivamente estruturas importantes do Nervo Sensorial Periférico (NSP), como os mecanorreceptores, os microtúbulos, axônio e corpos do gânglio da raiz dorsal2,4.

Lesões no NSP debilitam a recepção, transmissão e resposta ao estímulo e, consequentemente, podem alterar a percepção sensorial tátil5-7. Tais achados são evidenciados na prática clínica.

A percepção sensorial tátil alterada pode ocasionar prejuízos aos indivíduos que a vivenciam, como quedas, sensação de formigamento e choques, dormência, dor nas mãos e pés, estresse e prejuízo à funcionalidade de membros8, tendo potencial para limitar a execução de Atividades de Vida Diária (AVD) e causar interrupção da QTA9. Destaca-se que o tratamento com QTA em pacientes oncológicos, associado ao alcoolismo, problemas nutricionais, Síndrome da Imunodeficiência Adquirida (SIDA) e uso de outras medicações neurotóxicas pode aumentar o risco para o desenvolvimento do problema.

Em pesquisas6,10-11, demonstra-se que a ocorrência da percepção sensorial tátil alterada varia entre 57 e 98% em pacientes oncológicos, durante o tratamento com QTA neurotóxica. No entanto, os fatores de risco para essa população ainda estão pouco esclarecidos.

Embora a percepção sensorial tátil alterada possa manifestar-se em pacientes oncológicos submetidos à QTA neurotóxica, pode, também, acometer indivíduos diabéticos e alcoólatras12. A NANDA Internacional (NANDA-I) não contempla diagnósticos que descrevam essa resposta humana.

Esse processo é essencial para que o enfermeiro identifique intervenções adequadas para o alcance de resultados positivos, como o controle da dor, manutenção da segurança e maximização da função física13-14.

Justifica-se o presente estudo pela necessidade de mais conhecimento acerca da percepção sensorial tátil alterada em pacientes adultos submetidos à QTA, determinação da sua incidência e fatores de risco. Esclarece-se que tal fenômeno é de interesse da área de enfermagem e a investigação do mesmo pode fornecer subsídios para implementação de práticas, baseadas em evidências, para prevenção e tratamento do problema.

Os objetivos, neste estudo, foram estimar a prevalência de percepção sensorial tátil alterada, identificar os fatores de risco e estabelecer modelo de predição de risco para seu desenvolvimento em pacientes adultos submetidos à QTA.

Método

Trata-se de estudo de coorte histórica, com análise de dados dos prontuários de pacientes atendidos, entre julho de 2006 e dezembro de 2013, quanto à exposição aos fatores de risco e o tempo desde o início da QTA até a ocorrência da percepção sensorial tátil alterada. O estudo foi conduzido em unidade oncológica de um hospital privado, de médio porte, localizado em um município de Minas Gerais, Brasil

Os critérios de inclusão foram: prontuários de indivíduos com idade igual ou superior a 18 anos e portadores de neoplasia maligna, que tenham tido indicação médica exclusiva de QTA neurotóxica. Foram excluídos do estudo os prontuários de pacientes com história prévia documentada de alterações na percepção sensorial tátil.

No período de estudo, foram analisadas as informações contidas nos prontuários de 253 pacientes admitidos e avaliados na unidade oncológica. Desses, foram excluídos 103 por não atenderem aos critérios de inclusão e cinco por não terem seus prontuários localizados, obtendo-se amostra final de 127 pacientes.

Os participantes tiveram os prontuários analisados na admissão, a cada ciclo de QTA, ou seja, mensalmente, e ao final do protocolo de QTA proposto ou na ocorrência do desfecho. Foram utilizados dois instrumentos para a coleta de dados. O primeiro, de admissão, contendo informações sociodemográficas e clínicas, tratamentos oncológicos prévios e sintomatologia da percepção sensorial tátil alterada. O segundo, para documentação das avaliações subsequentes que correspondiam às respostas do paciente, a cada início do ciclo de QTA, e contemplavam dados clínicos e fatores de risco para o desenvolvimento do problema em estudo3,5-8,15-16. Ressalta-se que as informações foram obtidas a partir das evoluções médica e de enfermagem contidas nos prontuários.

A variável dependente foi o tempo desde a admissão do paciente, ou seja, início da QTA, até a ocorrência do desfecho, percepção sensorial tátil alterada. As variáveis independentes3,5-8,15-16 foram: doença oncológica de base; estadiamento; alcoolismo Diabetes Mellitus; dados da QTA, como protocolo, dose, diluição, acesso venoso usado, medicamentos em uso, toxicidades, alterações cutâneas, aspectos neurotóxicos sensoriais (neuropatia sensorial, parestesia e disestesia) estabelecidos pelo Common Toxicity Criteria of Adverse Events (CTCAE)17 e aspectos sensoriais abordados no Questionário de Neurotoxicidade Induzida por Antineoplásicos (QNIA)9.

Destaca-se que o QNIA, traduzido e validado para o português do Brasil11, abrange a ocorrência de mudanças neurológicas nos membros superiores e inferiores, bem como a capacidade da pessoa para realizar AVD durante a QTA.

Os dados foram lançados em programa Epi Info, versão 3.5.1, sendo realizada dupla digitação para verificação da consistência dos dados. Em sequência, foram exportados para o Statistical Package for the Social Sciences (SPSS), versão 19.0, para tratamento e análise.

Foi realizada análise descritiva, com obtenção de frequências simples, medidas de tendência central (média e mediana) e medida de variabilidade (Desvio-Padrão - dp). A incidência (incidência global e densidade de incidência) de percepção sensorial tátil alterada e dos fatores de risco foi determinada.

A análise bivariada foi realizada para verificação de associação dos possíveis fatores de risco com o tempo até a ocorrência do desfecho, empregando-se os testes de qui-quadrado e t de Student. Com isso, obteve-se a relação entre cada variável independente e a variável desfecho (tempo até ocorrência de percepção sensorial tátil alterada), sendo medida a força de associação pelo Hazard Ratio (HR), considerando-se o Intervalo de Confiança (IC) de 95%.

Para identificação das covariáveis pesquisadas que exerceram influência sobre o tempo de acompanhamento até o desfecho, utilizou-se o modelo de regressão de Cox. Variáveis cujo valor de p foi ≤0,25 na análise bivariada foram incluídas no modelo de análise multivariada. O ajuste global do modelo foi realizado por meio do teste da razão de verossimilhança18.

O presente estudo está em conformidade com a Resolução 466/12, a qual dispõe sobre a pesquisa com seres humanos. O projeto obteve Parecer favorável do Comitê de Ética e Pesquisa (CAAE - 192666113.7.0000.5149).

Resultados

Entre os 127 prontuários de pacientes avaliados, 73 apresentaram percepção sensorial tátil alterada. A incidência global foi de 57% no período do estudo, correspondendo à taxa de incidência de três casos para cada 1.000 pacientes, variando de dois a quatro, com 95% de confiança.

A maioria (62%) era do sexo feminino, média de idade de 55 anos (dp±16 anos). Dos 127 pacientes, 53% eram brancos, 73% eram casados, 58% possuíam até o ensino médio completo e 50% eram do lar ou aposentados.

Do total dos pacientes, 77% provinha da oncologia clínica, com diagnósticos de câncer do trato gastrointestinal (28,3%), de desordens hematológicas malignas (24,4%), ginecológicas (22,8%), pulmonares (12,6%), de outros sistemas corpóreos (9,4%) e sítios primários desconhecidos (2,5%). À admissão, verificou-se que 51% dos pacientes apresentaram metástase à distância, ou seja, estadiamento IV. A partir desse nível, a QTA é definida como tratamento paliativo2. Os sítios de metástase mais comuns foram o fígado (13%), cadeia de linfonodos regional (11%), pulmão (10%) e peritônio (9%). A maioria (80%) dos pacientes era virgem de tratamento com QTA e o tratamento anterior mais presente foi o cirúrgico, predominando a linfadenectomia (57%) e a ressecção tumoral (47%).

Verificou-se que o objetivo do tratamento de QTA predominante foi o paliativo (61%), e o acesso vascular periférico foi o mais utilizado (62%) para administrar a QTA. Os efeitos tóxicos mais comuns registrados foram: náusea (57%), toxicidade hematológica (49%), alterações orais (48%), neuropatia (46%) e fadiga (30%).

Dos aspectos sensoriais obtidos com a aplicação do QNIA, predominaram relatos de formigamento (42%), dormência (40%), dor em queimação (20%), desconforto (49%) e sensação de peso nos Membros Inferiores (MMII) (23%). Em relação aos Membros Superiores (MMSS), os pacientes relataram principalmente disestesia (44%) e parestesia (43%), desconforto (48%), dor em queimação (44%) e sensação exagerada ao toque (14%).

Os pacientes informaram ainda sensibilidade diminuída (54%), ausência/diminuição do tato (44%), sensação de pisar em areia (21%), ferroada ou pontada nos MMII (19%) e anestesia (18%). Alguns pacientes referiram necessidade de auxílio para deambular (13%) e outros relataram dificuldades para desempenhar atividades manuais (12%).

Na análise bivariada, foram obtidas variáveis que apresentaram significância estatística (p≤0,25) com o tempo até a ocorrência de percepção sensorial tátil alterada. Foram elegíveis para a análise multivariada 80 variáveis, das quais 33 apresentaram significância estatística (p<0,05), apresentadas na Tabela 1.

Tabela 1
Variáveis com associação com o tempo até ocorrência de percepção sensorial tátil alterada. Coronel Fabriciano, MG, Brasil, 2006-2013

Obteve-se, a partir da análise multivariada, modelo de predição de risco para a percepção sensorial tátil em pacientes adultos submetidos à QTA (Tabela 2). Observa-se que, dentre os fatores identificados, as metástases óssea, hepática e de linfonodo regional, alcoolismo, quimioterapia paliativa e desconforto dos MMII impactaram de forma significativa e conjunta no tempo até a ocorrência de percepção sensorial tátil alterada.

Tabela 2
Modelo de predição de risco com o tempo até ocorrência de percepção sensorial tátil alterada. Coronel Fabriciano, MG, Brasil, 2015

Discussão

A percepção sensorial tátil alterada é problema de cunho subjetivo, ou seja, para sua detecção é necessário que o paciente verbalize os sintomas, o que é altamente recomendado durante a assistência de pacientes oncológicos submetidos à QTA neurotóxica11. Na população estudada, 57% dos pacientes apresentaram percepção sensorial tátil alterada e reportaram queixas de desgaste físico em função do tratamento, incluindo parestesia em mãos e pés, desconforto nos MMSS, ausência ou diminuição do tato e hipoestesia, sendo amplamente apoiadas na literatura5-9,11. Identificou-se, na literatura, taxas de percepção sensorial tátil alterada entre 51 e 98%6-7,10-11, a depender do tipo de fármaco envolvido.

Dentre as variáveis que apresentaram associação significativa (p<0,05) com o tempo até a ocorrência de percepção sensorial tátil alterada, e que predispõem o paciente a maior risco para o desenvolvimento do desfecho em questão (HR≥1), pesquisadores5-11,19 apontam como possíveis fatores de risco o uso da oxaliplatina, o surgimento da Neuropatia Sensorial Periférica (NSP), relato de desconforto nos MMII e MMSS na presença de gelo, parestesia, disestesia, desconforto periférico, ausência/diminuição do tato e da sensibilidade e dificuldade em realizar atividades manuais.

No presente estudo, as variáveis apontadas como fatores que predispõem pacientes oncológicos submetidos à QTA a menor risco para o desenvolvimento do desfecho estudado foram: QTA paliativa, uso do acesso venoso periférico para administrar a QTA, sexto ciclo de quimioterapia e uso de carboplatina. Esses resultados divergem dos presentes na literatura, os quais sugerem relação entre o surgimento de sintomas de percepção sensorial tátil alterada em pacientes sob QTA paliativa, como parestesia e disestesia, e o efeito acumulativo das doses dos fármacos empregados6,9,11.

Destaca-se, no presente estudo, o uso da oxaliplatina (HR=1,63, p=0,049), análogo à platina de terceira geração, comumente usada em pacientes com câncer de cólon. Essa promove neurotoxicidade, levando a perda ou alterações sensoriais importantes, como diminuição da percepção do tato9. Nesse sentido, os enfermeiros devem estar atentos para a inclusão da avaliação da integridade da função sensorial e informações sobre mudanças na função tátil e proprioceptiva, no plano de cuidados de enfermagem dos pacientes que recebem oxaliplatina20.

A neuropatia sensorial induzida pela QTA, principalmente a de grau um, foi identificada como um dos principais fatores de risco para percepção sensorial tátil alterada, (HR=6,45, p<0,001). Porém, em estudo10 recente, evidenciou-se que a sensação tátil deficiente foi preditora da neuropatia periférica induzida pela quimioterapia, em pacientes que receberam oxaliplatina para tratamento do câncer colorretal.

No presente estudo, as queixas de ausência e diminuição do tato manifestadas pelos pacientes surgiram como importante fator de risco a ser identificado quando a percepção sensorial tátil alterada estiver presente, o que reflete danos causados a estruturas essenciais ao recebimento e transporte do impulso elétrico, os quais podem ser provocados pela QTA. A interrupção desse é a característica principal da neuropatia sensorial induzida pela QTA, toxicidade causada basicamente por axôniopatia5-6,9. Com tais resultados, é possível inferir que o paciente, submetido à QTA neurotóxica, frequentemente experimenta a neuropatia sensorial induzida pela QTA e que o distúrbio tátil é a resposta do indivíduo a essa toxicidade.

No que se refere à carboplatina, os resultados se assemelham ao apresentado na literatura. Essa platina é conhecida por possuir menor potencial de neurotoxicidade21. Sintomas neurológicos só ocorrem quando a QTA é administrada em altas doses, em paciente idoso, associada a um taxane ou em indivíduos com exposição prévia a outro fármaco com efeitos neurotóxicos3.

Na análise multivariada, seis covariáveis mostraram significância estatística (p<0,05) para o tempo até a ocorrência da percepção sensorial tátil alterada, sendo as de menor risco (HR<1) as metástases ósseas e de linfonodos regionais, além da QTA paliativa e as de maior risco (HR>1), o relato de alcoolismo, desconforto nos MMII e metástase hepática.

Segundo consta na literatura6,9,11, o objetivo da QTA paliativa é aumentar a qualidade de vida dos pacientes metastáticos. Entretanto, eles se tornam espoliados e politratados, aumentando o risco para efeitos tóxicos cumulativos e, portanto, podem apresentar respostas mais intensas. Apesar da associação estatística significativa encontrada, mais estudos são necessários para se avaliar se há relação causal direta entre o surgimento de metástases e o desenvolvimento do desfecho, uma vez que se pode inferir que pacientes com perfil clínico mais severo apresentaram menor risco para percepção sensorial tátil alterada.

Além disso, autores apontam que as metástases possivelmente podem exercer efeito compressor nas terminações nervosas periféricas, o que pode resultar em alterações táteis, como parestesia, disestesia e até a completa perda do tato22.

Em relação ao alcoolismo, o consumo abusivo do álcool, associado ao uso de substâncias neurotóxicas, possui efeito deletério conhecido no sistema nervoso periférico, ocasionando piora na evolução do paciente durante o tratamento5. Nesse sentido, é necessária vigilância aumentada, por parte da equipe de enfermagem, com pacientes que abusam do consumo de álcool durante o uso de QTA neurotóxica.

O desconforto nos MMII (HR=3,56) foi apontado como um dos fatores para maior risco de percepção sensorial tátil alterada. O uso de substâncias neurotóxicas, durante a QTA, pode resultar em danos às longas fibras e causar sintomas, inicialmente nos MMII, interferindo, inclusive, na capacidade de deambular, como é apontado nos resultados de estudos5-7,10-11, conduzidos com pacientes em tratamento com essas substâncias.

Os fatores de risco para o desfecho identificados neste estudo estão relacionados às condições clínicas dos pacientes, aspectos do câncer e do tratamento com QTA. Embora a equipe de enfermagem não possa mudar tais fatores, podem ser adotadas estratégias para a identificação precoce da percepção sensorial tátil alterada, bem como ser implementadas medidas preventivas, a fim de se evitar maiores prejuízos.

O modelo obtido foi considerado válido para descrever a relação existente entre o tempo até a ocorrência da percepção sensorial tátil alterada e os fatores de risco associados, além de permitir antecipar quais pacientes oncológicos apresentam risco de percepção sensorial tátil alterada durante a QTA. Nesse sentido, sua determinação pode apontar a implementação de cuidados de enfermagem para sua prevenção ou tratamento.

Apesar de se demonstrar, neste estudo, a evidência de percepção sensorial tátil alterada em pacientes oncológicos, durante a QTA, há de se considerar as limitações inerentes à utilização de dados em prontuários e à necessidade de estudos multicêntricos, e em diferentes populações, para o estabelecimento da validade externa do mesmo.

Conclusão

A partir dos resultados encontrados, é possível verificar que a percepção sensorial tátil alterada é evento comum em pacientes adultos oncológicos submetidos à QTA potencialmente neurotóxica, com destaque para a utilização do fármaco oxaliplatina.

Após a análise bivariada e etapa de ajuste da análise multivariada, dentre os fatores demográficos e clínicos identificados, os que permaneceram como melhores preditores para o fenômeno estudado foram: metástases óssea, hepática e de linfonodo regional, alcoolismo, quimioterapia paliativa e desconforto nos MMII.

Evidencia-se que a QTA pode provocar efeitos adversos e tóxicos. Dessa forma, o presente estudo contribui para o esclarecimento acerca da percepção sensorial tátil alterada em pacientes com câncer submetidos à QTA, além do estabelecimento de seus fatores de risco. Reconhecer precocemente os fatores de risco para o problema e implementar intervenções, visando identificar, prevenir ou tratar o mesmo, pode impactar diretamente a diminuição de sintomas de desconforto e os danos sensoriais que limitam a realização de atividades diárias e comprometem a qualidade de vida.

Os resultados apresentados neste estudo colaboram, conjuntamente com outros, para que a percepção sensorial tátil alterada seja considerada pelo Comitê de Desenvolvimento de Diagnósticos da NANDA-I como diagnóstico de enfermagem passível de retorno à taxonomia.

Referências bibliográficas

  • 1
    Artigo extraído da dissertação de mestrado “Percepção sensorial tátil perturbada em pacientes oncológicos sob quimioterapia: análise da literatura e validação clínica”, apresentada à Universidade Federal de Minas Gerais, Belo Horizonte, MG, Brasil.

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    2017

Histórico

  • Recebido
    17 Fev 2017
  • Aceito
    30 Ago 2017
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