Open-access Eugène Minkowski no Braisl: uma análise bibliográfica de artigos científicos1

Eugène Minkowski in Brazil: A bibliographic analysis of scientific articles

Eugène Minkowski au Brésil: une analyse bibliographique d’articles scientifiques

Eugène Minkowski en Brasil: un análisis bibliográfico de artículos científicos

Resumo

O artigo origina-se de uma pesquisa teórica de Mestrado, realizada por meio de uma Revisão de Literatura Integrativa (RLI), com o intuito de refletir sobre a presença do psicopatologista Eugène Minkowski no Brasil, uma das principais figuras do movimento inicial da psicopatologia fenomenológica. Adotou-se uma abordagem qualitativa, aplicando-se a RLI nas seguintes bases de dados: Scientific Electronic Library Online (SciELO), Periódicos Eletrônicos em Psicologia (PePsic), Biblioteca Virtual em Saúde (BVS) e Portal de Periódicos da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES), resultando na seleção de 41 artigos científicos. O objetivo central do artigo é discutir a referência a Minkowski e suas obras na produção científica brasileira, mediante a análise de categorias de estudos teóricos e empíricos. Argumenta-se que o panorama atual da recepção de Minkowski no Brasil abrange diferentes perspectivas de estudos, o que demonstra a elasticidade reflexiva teórica do autor. A revisão dos estudos teóricos e empíricos reafirma a relevância contínua de sua obra tanto para a Psicopatologia Fenomenológica quanto para a prática clínica em saúde mental.

Palavras-chave
Minkowski; Brasil; artigos científicos; psicopatologia fenomenológica


Abstract

This article originates from a theoretical Master’s research that was carried out via an integrative literature review that aimed to reflect on the presence of psychopathologist Eugène Minkowski in Brazil, one of the key figures in the early phenomenological psychopathology movement. This qualitative integrative literature review was carried out on the following databases: Scientific Electronic Library Online, Electronic Journals in Psychology, Virtual Health Library, and the Portal of Journals of the Coordination for the Improvement of Higher Education Personnel, resulting in the selection of 41 scientific articles. This study mainly aimed to discuss the references to Minkowski and his works in Brazilian scientific production by analyzing theoretical and empirical study categories. The current landscape of Minkowski’s reception in Brazil encompasses different approaches, showing the theoretical and reflective elasticity of his work. This review of theoretical and empirical studies reaffirms the continued relevance of his contributions to phenomenological psychopathology and clinical mental health practice.

Keywords
Minkowski; Brazil; translations; phenomenological psychopathology


Abstract

Cet article est isso d’une recherche théorique de master, réalisée au biais d’une revue intégrative de littérature (RIL), dans le but d’analyser la présence du psychopathologue Eugène Minkowski au Brésil, l’une des figures majeures de la psychopathologie phénoménologique. Une approche qualitative a été adoptée, appliquant la RIL aux bases de données suivantes: Scientific Electronic Library Online (SciELO), Périodiques Électroniques en Psychologie (PePsic), Bibliothèque Virtuelle en Santé (BVS) et le Portail des Périodiques de la Coordination pour l’Amélioration du Personnel de l’Enseignement Supérieur (CAPES), aboutissant à la sélection de 41 articles scientifiques. L’objectif central de l’article est d’examiner les références à Minkowski et à ses œuvres dans la production scientifique brésilienne, à travers l’analyse de catégories d’études théoriques et empiriques. On conclut que le panorama actuel de la réception de Minkowski au Brésil couvre différentes approches, ce qui démontre l’élasticité réflexive théorique de l’auteur. La revue des études théoriques et empiriques réaffirme la pertinence continue de son œuvre, tant pour la psychopathologie phénoménologique que pour la pratique clinique en santé mentale.

Mots-clés
Minkowski; Brésil; articles scientifiques; psychopathologie phénoménologique


Resumen

Este artículo se origina de una investigación teórica de maestría, realizada mediante una revisión integradora de literatura (RIL), con el objetivo de reflexionar sobre la presencia del psicopatólogo Eugène Minkowski en Brasil — una de las principales figuras del movimiento inicial de la psicopatología fenomenológica. Se adoptó un enfoque cualitativo, aplicando la RIL en las siguientes bases de datos: Scientific Electronic Library Online (SciELO), Periódicos Electrónicos en Psicología (PePsic), Biblioteca Virtual en Salud (BVS) y el Portal de Periódicos de la Coordinación para el Perfeccionamiento del Personal de Educación Superior (CAPES), lo que resultó en la selección de 41 artículos científicos. El objetivo central de este artículo es discutir la referencia a Minkowski y sus obras en la producción científica brasileña, mediante el análisis de categorías de estudios teóricos y empíricos. Se concluye que el panorama actual de la recepción de Minkowski en Brasil abarca diferentes enfoques, lo que demuestra la elasticidad reflexiva teórica del autor. La revisión de los estudios teóricos y empíricos reafirma la relevancia continua de su obra, tanto para la Psicopatología Fenomenológica como para la práctica clínica en salud mental.

Palabras clave
Minkowski; Brasil; Artículos científicos; psicopatología fenomenológica


Introdução

Para Eugène Minkowski (1966/1999):

A fenomenologia nos convida a “deter-nos” nos fenômenos para esclarecer suas características fundamentais. Antes de conhecer a origem, nós devemos saber o que eles são, quais são os elementos que aportam, cada um em sua especificidade, ao contexto geral da existência. A fenomenologia se coloca assim, de princípio, para além da perspectiva causal e nos coloca, ao mesmo tempo, ao abrigo das armadilhas de um psicologismo excessivo. (p. 456)

Segundo Pessotti (2004), Minkowski exibe uma decisiva adesão à Psicopatologia Filosófica, que escapa aos critérios de “verdade” da ciência. Minkowski (1885-1972) foi um psiquiatra e psicopatologista de origem russa, ascendido como um dos precursores da psicopatologia fenomenológica ao lado Karl Jaspers e Ludwig Binswanger, e desempenhou um papel crucial na introdução desse pensamento na França (Beauchesne, 1989; Holanda, 2001). Jeannine Pilliard--Minkowski (2019), em um relato pessoal sobre o pai, destaca a preocupação que Eugène atribuía a deixar um legado e contribuir para a compreensão da possibilidade do ser humano estar em harmonia com a vida. Ela também enfatiza a relevância de que outros autores dessem continuidade ao seu trabalho no campo da psicopatologia.

O presente texto visa traçar um perfil panorâmico da presença de Eugène Minkowski no contexto brasileiro, por meio de uma análise de publicações científicas em periódicos que trazem à discussão sua figura e ideias. Para isso, utilizou-se uma metodologia de Revisão Integrativa de Literatura (RIL). A pesquisa justifica-se pela lacuna existente de estudos que abordem de forma direta o autor e suas obras, evidenciando a necessidade de compreender sua presença no Brasil, enfatizando seu legado e atualidade.

O objetivo principal é conhecer e apresentar os estudos que fazem referência a Minkowski, oferecendo uma análise que localiza e apresenta as publicações científicas que discutem seu pensamento no contexto brasileiro. Os dados relativos a esse levantamento são apresentados em dois momentos, um compilado quantitativo e uma discussão por categorias.

Método

Nesta pesquisa, adotou-se o método de Revisão Integrativa de Literatura (RIL), delineando a bibliografia a partir de artigos científicos disponíveis. Para isso, seguiu-se as seis etapas da RIL conforme identificadas por Mendes et al. (2008): a primeira consistiu na identificação do tema, aqui delimitado como as referências e menções a Minkowski no Brasil; a segunda etapa foi a definição dos critérios de inclusão e exclusão, os quais serão detalhados a seguir; a terceira etapa envolveu a determinação das informações a serem extraídas dos estudos selecionados; a quarta etapa compreendeu a avaliação dos estudos incluídos na revisão; a quinta etapa concentrou-se na interpretação dos resultados; e, por fim, a sexta etapa envolveu a realização da síntese do conhecimento. O método destaca-se por sua capacidade singular de sintetizar conhecimentos e integrar estudos-chave, superando a mera consolidação de dados ao oferecer uma abordagem integradora.

Utilizou-se as seguintes bases de dados: Scientific Eletronic Library Online (SciELO), Periódicos Eletrônicos em Psicologia (PePsic), Biblioteca Virtual em Saúde (BVS) e o Portal de Periódicos da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES). A escolha dessas bases foi feita em função do escopo da revisão ser dirigido para as publicações em periódicos brasileiros e no idioma português. Inicialmente, as buscas foram realizadas a partir do descritor Minkowski. Recorreu-se, posteriormente, às estratégias de buscas com os descritores, Minkowski AND Psicopatologia; Minkowski AND “Psicopatologia Fenomenológica”; Minkowski OR Psicopatologia; e Minkowski OR “Psicopatologia Fenomenológica”.

Procedimento

Na presente revisão foram incluídos artigos — escritos no idioma português e publicados no Brasil —, que tivessem como objeto ou fizessem discussão a respeito de Eugène Minkowski ou suas contribuições e ideias. Com isso, foram incluídos tanto trabalhos que fazem referência às obras de Minkowski quanto aqueles que o mencionam em suas referências bibliográficas, procurando, com isto, fazer um “mapeamento” de suas contribuições em nossa língua, restringindo-se — no escopo desse texto — apenas aos artigos publicados em periódicos científicos. Quanto aos critérios de exclusão, foram descartados inicialmente livros, capítulos de livros, monografias, resenhas, notícias e entrevistas. Foram excluídas igualmente as traduções de Minkowski, bem como teses e dissertações (que também são produtos da mesma pesquisa de mestrado mais ampla da qual este estudo deriva). Essa opção metodológica deveu-se ao fato de que as discussões contidas nessas outras produções (traduções e trabalhos acadêmicos) foram desenvolvidas em outros dois trabalhos específicos. Não foi adicionado recorte temporal durante as buscas. Os trabalhos foram selecionados seguindo os critérios de inclusão e exclusão; e — em seguida — feita a verificação se referenciavam o autor — Minkowski — no estudo. Após essa primeira etapa, foi feita uma filtragem dos trabalhos duplicados. Por fim, selecionados os trabalhos incluídos. O levantamento das publicações ocorreu no período de janeiro a abril de 2024.

Além dos textos com menção direta a Minkowski, incluímos duas traduções, por terem igualmente por objeto as ideias de Minkowski. São estas: a tradução de uma conferência de Jean-Marie Barthélémy, pronunciada por ocasião do I Congresso Brasileiro de Psicologia & Fenomenologia/III Congresso Sul Brasileiro de Fenomenologia, em agosto de 2013, e publicada em 2015; e a tradução de um artigo do reconhecido historiador da psiquiatria, German Berríos (2012), cujo tema — a psicopatologia da afetividade —transita entre vários nomes da psicopatologia, dentre eles, Minkowski. Ambos os artigos aparecem nas etapas preliminares da busca e correspondem aos critérios de inclusão.

O objetivo era mapear como as ideias de Minkowski têm sido discutidas e apropriadas no contexto específico da academia nacional. Dessa forma, ambos os textos foram considerados documentos relevantes para análise, pois sua publicação em revistas brasileiras os caracteriza como parte integrante desse diálogo local, refletindo o interesse e a interpretação desses conceitos no cenário psiquiátrico e psicológico do Brasil.

É importante salientar que não se exclui a possibilidade de existirem outros estudos que referenciem ou citem Eugène Minkowski. No entanto, a abordagem visa proporcionar um panorama específico; utilizando a RIL ao realizar a busca sobre Minkowski, oferece-se um recorte principal, embora não o único possível, dependendo da estratégia de busca adotada.

Apresentação dos resultados

Somados os resultados preliminares das bases consultadas, um total de 7.410 trabalhos foram encontrados, fracionados da seguinte forma: 126 trabalhos na primeira pesquisa com o termo Minkowski, sendo 24 destes na SciELO, oito na PePsic, 46 na BVS, 48 no Periódicos da CAPES; 50 trabalhos na segunda pesquisa com a combinação dos termos Minkowski AND Psicopatologia, sendo encontrados quatro na SciELO, três na PePsic, 21 na BVS, 17 e cinco no Periódicos da CAPES; 10 trabalhos na terceira pesquisa com a combinação dos termos Minkowski AND “Psicopatologia Fenomenológica”, localizando um na SciELO, zero na PePsic, zero; zero na BVS e nove no Periódicos da CAPES; 6.860 estudos na quarta pesquisa com a combinação dos termos Minkowski OR Psicopatologia, localizando 1.857 na SciELO, 496 na PePsic, 1.755 na BVS, 2.752 no Periódicos da CAPES; por fim, 364 com a combinação dos termos Minkowski OR Psicopatologia Fenomenológica, sendo encontrados 39 na SciELO, 17 na PePsic, 56 na BVS, 252 no Periódicos da CAPES.

Na fase identificação, através da análise dos títulos e palavras-chave, 4.361 estudos foram excluídos por não estarem de acordo com o campo de estudo; 3.041 foram selecionados para fase de triagem; de acordo com os critérios de exclusão foram selecionados 2.003 e 1.925 foram excluídos após análise de critérios de inclusão. Em seguida, ao verificar se os estudos que referenciavam Minkowski, esse número foi reduzido para 78. Após eliminar os 37 duplicados, finalizou-se com a seleção de 41 artigos incluídos. As etapas de identificação, triagem e inclusão estão detalhadamente apresentadas na Figura 1.

Figura 1
Fluxograma das etapas do levantamento bibliográfico

Apresentação e discussão dos artigos selecionados

Os estudos a seguir serão apresentados em três momentos. Primeiro, em uma tabela (Tabela 1) contendo informações como autor, ano de publicação, periódico em que foram publicados e as obras referenciadas em cada pesquisa. Em seguida, procedeu-se à quantificação dos dados imediatos, cujos resultados são apresentados nas Figuras 2, 3 e 4. Por fim, a discussão foi estruturada em duas macrocategorias: Estudos Teóricos e Estudos Empíricos, permitindo uma análise mais clara e organizada dos achados.

Tabela 1
Artigos selecionados para Revisão Integrativa de Minkowski organizada por ano de publicação dos trabalhos e obras referenciadas
Figura 2
Quantificação de artigos por ano de publicação
Figura 3
Quantificação de artigos por publicação em periódicos brasileiros
Figura 4
Quantificação dos textos mais referenciados em artigos

No que concerne ao ano das publicações, dos 41 artigos incluídos, o ano de 2018 foi o período com maior número de publicações, totalizando cinco trabalhos, seguido pelos anos de 2006 com quatro e 2015, 2021 e 2023 com três. Os restantes dos anos, variaram entre uma e duas publicações (Figura 2). A concentração de publicações sobre Minkowski em anos específicos (como o pico em 2018) sugere que seu pensamento tem recebido atenção pontual, no cenário acadêmico brasileiro. Esse dado pode indicar que sua influência está mais vinculada a contextos específicos ou disponibilidade de traduções, apontando para a necessidade de maior sistematização nos estudos sobre sua obra.

Em relação aos periódicos, o maior número de publicações relacionadas à pesquisa em tela, é da Revista Latino-Americana de Psicopatologia Fundamental com nove publicações. A Revista da Abordagem Gestáltica, a Revista Psicopatologia Fenomenológica Contemporânea e o Boletim da Academia Paulista de Psicologia cada qual fizeram cinco publicações; em seguida, aparece a revista Psicologia: Teoria e Pesquisa com quatro publicações, os demais periódicos, oscilam entre duas e uma publicação.

Outro dado significativo, é em relação à análise referencial. Observa-se que a obra mais citada é Le temps vécu (de 1933), referenciada em 25 trabalhos, considerando o original e diferentes traduções. Em seguida, destaca-se a obra La Schizophrénie (de 1927), referenciada em 14 trabalhos, e o Traité de Psychopathologie (de 1966), referenciado em 13 trabalhos. Além disso, dois textos já traduzidos para o português apresentam uma frequência significativa: o texto Breves reflexões a respeito do sofrimento (aspecto pático da existência) (Minkowski, 1966), referenciado em 10 trabalhos e traduzido para o português em 2000; e Eugène Minkowski – Estudo psicológico e análise fenomenológica de um caso de melancolia esquizofrênica (Minkowski, 1923/1970b), citado em sete trabalhos e traduzido em 2019.

A categorização que foi possível realizar divide os artigos em dois agrupamentos: a) Estudos Teóricos (30 artigos) e b) Estudos Empíricos (11 artigos). Os Estudos Teóricos têm como objetivo conhecer ou proporcionar um espaço para discussão de uma temática ou questão, sem utilizar de pesquisa de campo, fundamentalmente a partir de uma reflexão com respeito a aspectos gerais ou específicos de determinada teoria. Já os Estudos Empíricos são aqueles que buscam fornecer compreensão, acréscimo ou comparação em determinado tema, utilizando dados coletados a partir de fontes diretas (pessoas), como estudos de casos ou acompanhamentos terapêuticos. A próxima subseção traz a análise das duas macrocategorias: estudos teóricos e estudos empíricos.

Estudos teóricos

No ano 2000, ao buscar uma base para o primeiro texto traduzido de Minkowski para o português, o autor Pereira apresenta um artigo sobre a biografia e contexto histórico de Minkowski, bem como sua influência notória na psicopatologia da época e sua crítica. Trata-se de um artigo cujo autor justifica a tradução do texto referente às considerações finais do Traité de psychopathologie, onde Minkowski (1966/1999) reflete sobre o sofrimento humano e seu aspecto pático.

Em 2001, Holanda apresenta um ensaio sobre a Antropologia da Psicopatologia, traçando uma perspectiva crítico-histórica, em que a psicopatologia é vista como um fenômeno contextualizado, e que está inserido na construção das mentalidades específicas da cultura Ocidental. Esse autor localiza Minkowski enquanto marco epistemológico da Psicopatologia Fenomenológica. No ano seguinte, Campos (2002) discorre sobre os aspectos clínicos e psicopatológicos do conceito de alucinação em Merleau-Ponty, trazendo duas citações pontuais em relação a Minkowski: uma enquanto precursor da tradicional Psiquiatria Existencial, outra para defender que a temporalidade é o aspecto mais característico da existência referenciando a obra O tempo vivido (Minkowski, 1933/1973).

Com o objetivo de contextualizar a produção de Minkowski e a tradução do texto “A noção de perda com contato vital com a realidade e suas aplicações em psicopatologia” (Minkowski, 2004), Pereira (2004) elabora o artigo “A perda do contato vital com a realidade na esquizofrenia, segundo Eugène Minkowski”. Situando o leitor sobre o posicionamento de Minkowski perante a ciência de sua época e defendendo sua estrutura de pensamento, Pereira pontua: “contrário a todo reducionismo objetivista dos fenômenos psíquicos, o método fenômeno-estrutural de Minkowski baseava-se no encontro mais próximo possível com o humano” (p. 127).

Minkowski deixa claro sua perspectiva da Psicopatologia como sendo uma psicologia do patológico e não uma patologia do psicológico, evidenciando a tarefa da Psicologia como sendo a de prover uma descrição das formas singulares de estar-no-mundo (Pereira, 2004). A figura principal do texto é a recém-concebida esquizofrenia, fenômeno estudado e observado por Minkowski de forma muito próxima. Segundo o texto revisado, “Minkowski pretende demonstrar que a perturbação esquizofrênica se baseia na ruptura radical com o mundo humano, com o laço social” (Pereira, 2004, p. 129).

Ainda em 2004, Abreu e Silva Neto traz a discussão sobre a atualidade da obra de Minkowski para o século XXI, com estudo que confere o delineamento sobre o impacto de Minkowski para a Psicopatologia e, consequentemente, para a Psicologia. Abreu e Silva Neto (2004) conclui que:

A obra de Minkowski está voltada inteiramente para a tarefa de construção de uma psicopatologia fenomenológica, e nela é apresentada e desenvolvida uma abordagem rigorosa e radical do método fenomenológico existencial; rigorosa no sentido de Husserl e radical enquanto proposta de realização do abandono do pensamento geométrico da ciência em favor de uma perspectiva alternativa e complementar que trata do caráter expressivo e de significação dos fatos (...) (p. 60)

Em 2005, Moreira et al. analisam os conceitos de Umwelt, Mitwelt e Eigenwelt, assim como os de corporeidade e temporalidade, enquanto constitutivos de uma existência inautêntica no caso de Ellen West, acompanhado por Binswanger. Além disso, referenciam os textos de Minkowski como complemento para reflexão sobre tempo e sofrimento. Já em 2009, Costa & Medeiros estudam a perspectiva fenomenológica do tempo vivido em Minkowski. Para tanto, eles fazem um retorno a Agostinho de Hipona e Bergson, conceitualizando a ideia de tempo assimilado ao espaço e tempo vivido, caracterizando as estruturas temporais presente, passado e futuro propostas por Minkowski, referenciando as obras Il tempo vissuto (1933/1965) e La esquizofrenia: psicopatologia de los esquizóides y los esquizofrênicos (1927/1980).

Moreira & Bloc (2012) realizam uma breve revisão histórica das manifestações da psicopatologia do transtorno bipolar, bem como sua evolução, discutindo o diagnóstico do transtorno na atualidade, trazendo dados epidemiológicos; e, discorrendo sobre o tempo vivido, dando subsídios para refletir sobre a temporalidade na melancolia e na mania. Embora apoiados em Minkowski, embasam-se mais especificamente em Binswanger (1960/2005) em seu livro Melancolie e manie.

Ainda nas pesquisas em psicopatologia, Marmorato (2012) conduz seus estudos sobre a hiperatividade apoiado na obra Le temps vécu (1933/1995) de Minkowski, para pensar a temporalidade vivida, oferecendo meios para uma compreensão de aspectos próprios através do Método Fenomenológico e dos conceitos de atividade e espera dispostos na obra. O fenômeno vital que contrasta com a atividade, situando-se no mesmo plano que ela, é a espera. Enquanto a atividade move o indivíduo em direção ao futuro, na espera o indivíduo experimenta o tempo de forma contrária. Nessa espera, vê o futuro se aproximar e aguarda que esse futuro (previsto) se torne presente.

Ampliando as discussões, Puchivailo et al. (2013), apoiam-se na teoria de Minkowski e Jaspers para discutir a desinstitucionalização italiana do pensamento de Franco Basaglia por intermédio do retorno à Psicopatologia Fenomenológica para uma compreensão da saúde mental. Lembrando que, para a Psicopatologia Fenomenológica,

(...) a “loucura” é compreendida enquanto modo de estar no mundo, não errado ou doentio, mas apenas como mais uma forma de se estar em relação com o mundo. Desconstrói-se, deste modo, a noção de “normalidade”, enquanto padrão absoluto que define os “desvios mórbidos” da vida mental. (Puchivailo et al., 2013, p. 236)

Faizibaioff e Antúnez (2015) buscam apresentar a noção de pessoal (ou vivido) na Psicopatologia Fenômeno-Estrutural de Minkowski. Para isso, expõem aspectos biográficos e metodológicos, além de duas vinhetas clínicas descritas pelo próprio Minkowski. O objetivo é resgatar a dimensão fenomenológica e interpessoal como uma ferramenta terapêutica e diagnóstica na clínica contemporânea, sublinhando a importância do aspecto vivido na compreensão e tratamento de pacientes, concluindo que:

Minkowski, como se pode depreender, não viveu apenas para reproduzir, senão para criar, transformar, propor e acessar as essências da vida. Chamou a atenção à afetividade e ao sentimento do clínico-examinador, não como produto que pode deturpar a compreensão do fenômeno, mas, inversamente, enquanto um meio de acesso privilegiado à compreensão do humano. Este humano que, mesmo no âmbito da investigação científica, está feito para buscar o humano. (p. 55)

Werneck Filho (2015) apresenta uma discussão breve sobre duas grandes influências filosóficas para Minkowski (Bergson e Husserl), buscando uma articulação do pensamento desses filósofos com a clínica fenomenológica proposta por Minkowski. A conceituação fenomenológica da psicopatologia e a legitimação do jeito de ser de pacientes são componentes essenciais do legado de Minkowski, o qual o autor considera ser de extrema relevância clínica.

O texto filosófico de Sass (2017) apresenta a aproximação e apropriação entre Filosofia, Psicopatologia e Psicologia com estudo que busca reconstituir momentos do diálogo entre Bergson, Janet e Minkowski, revelando que o primeiro foi lido atentamente pelos outros dois e que a escrita de ambos expressa esse reconhecimento. A área da Psicopatologia mostrou-se interessada pelas investigações de Bergson, e o referido filósofo acompanhou os avanços nesse campo do saber, que entrecruza as ciências, a psique e a reflexão filosófica. No ano seguinte, Souza e Moreira (2018) discutem a “Compreensão da experiência da depressividade na tradição da psicopatologia fenomenológica”, apoiados no pensamento de Arthur Tatossian e nas contribuições da Psicopatologia Fenomenológica, que é onde aparece a citação a Minkowski.

Defendendo uma proposta coerente entre Psicopatologia e Fenome-nologia reivindicada por Jaspers e Minkowski, Messas e Fukuda (2018) esclarecem que o objetivo da ciência psicopatológica não se resume à exploração aprofundada das vivências transtornadas, o que permite ao profissional clínico a ampliação do campo no qual exerce sua atuação terapêutica. Seu objeto não são apenas as experiências psicopatológicas ou, simplesmente, os transtornos mentais. Os autores oferecem um detalhamento metodológico da vertente dialético-essencialista.

Santos et al. (2018) discutem a medicalização da existência a partir das ideias de Merleau-Ponty, referenciando também Minkowski. Os autores citam Minkowski, em complemento a Merleau-Ponty, para abordar a noção de sofrimento. Enquanto Minkowski compreende o sofrimento como inerente à vida, inserindo-o no movimento existencial, Merleau-Ponty afirma que o sofrimento existencial pertence à ordem da percepção. Essa dualidade de perspectivas permite aos autores refletirem sobre como o sofrimento é vivido e interpretado, questionando a tendência contemporânea de medicalizar experiências que são intrínsecas à condição humana.

Explorando a fronteira de aproximação entre pensadores, Yasoshima e Messas (2018) defendem a existência de uma convergência entre Foucault e Binswanger. Os autores argumentam que, apesar das diferenças teóricas, há pontos de contato entre as reflexões de Foucault sobre poder, saber e subjetividade e a abordagem fenomenológica de Binswanger, centrada na existência e na experiência humana. Nesse contexto, citam Minkowski como um marco epistemológico da tradição da Psicopatologia Fenomenológica.

Guimarães-Fernandes et al. (2019) apresentam um trabalho com o objetivo de explorar a histeria pela descrição em Psicopatologia Fenomenológica, com foco na característica da sua espacialidade. Discutindo os conceitos de espaço claro e espaço escuro, sintonia e esquizoidia explorados por Minkowski na obra Le temps vécu (1933). Ceron-Litvoc e Messas (2019) analisam a temporalidade no primeiro ano de vida, visando delinear uma colaboração inicial sobre as condições de possibilidade da Fenomenologia do desenvolvimento infantil, com base na noção de temporalidade vivida no primeiro ano de vida, utilizando os conceitos da Psicopatologia Fenomenológica-Estrutural apoiados na Teoria do Desenvolvimento de Piaget e na ideia de temporalidade da Psicopatologia Fenomenológica, destacando a obra Le temps vécu de Minkowski (1933).

Gozé et al. (2019) referenciam o livro La schizophrénie para destacar Minkowski como um participante fundamental do movimento pioneiro da Psicopatologia Fenomenológica, principalmente pelo conceito de “perda de contato vital com a realidade”. O estudo visa apresentar a Fenomenologia como base epistemológica e ética tanto para o movimento desalienista da Psicoterapia Institucional na França, quanto para a Reforma Psiquiátrica no Brasil. Os autores refletem sobre como a Fenomenologia pode servir como fundamento para a prática de profissionais da saúde mental inseridos no contexto de políticas públicas de saúde mental.

Pita e Moreira (2020) descrevem a influência que Kraepelin, Bleuler e Bergson tiveram sobre Minkowski para discutir a esquizofrenia numa perspectiva clínica. Segundo os autores, “a fenomenologia da esquizofrenia fundamentada por Minkowski enquanto perda do contato vital com a realidade é um passo adiante e uma evolução do conceito de demência precoce, ao ser definida como o transtorno gerador dessa patologia” (p. 8).

Souza et al. (2020) utilizam a obra Le temps vécu (Minkowski, 1933) para explorar a ideia de vivido, apoiando-se no conceito de devir. Por meio de um estudo teórico, os autores investigam as condições que possibilitam o surgimento dos mundos vividos (psico)patológicos, adotando a perspectiva de uma Fenomenologia Clínica da Ambiguidade. Eles destacam que a perda da comunicação vital com o mundo, característica das alterações corporais, a dessincronização da experiência temporal, o espaço vazio e sem significações e o prejuízo na relação dialética Eu-Outrem constituem o eixo central que sustenta esses mundos vividos. Esses elementos são ilustrados por meio dos modos de funcionamento presentes na depressão melancólica e na esquizofrenia.

Berrios (2012) argumenta que a afetividade, historicamente subordinada à concepção ocidental do ser humano, levou a uma visão persistente da doença mental como um distúrbio exclusivo do intelecto. Embora psiquiatras do século XIX tenham tentado contestar essa ideia, suas tentativas foram limitadas pelas dificuldades conceituais em definir comportamentos afetivos e pela redundância terminológica resultante. O autor apresenta uma crítica a Minkowski, referenciando a obra Traité de psychopathologie (1966/1999), destacando que, apesar de seu objetivo de desenvolver uma Psicopatologia Fenomenológica, acabou por produzir uma caracterização quase mecanicista dos transtornos de humor. Segundo ele, Minkowski descreveu os sintomas como resultantes de fraqueza, inibição, disjunção, disritmia e imaturidade da faculdade afetiva, refletindo uma visão reducionista da afetividade na Psicopatologia. O que soa um tanto contraditório, já que o movimento da Psicopatologia Fenomenológica surge como crítica aos modelos mecanicista e cientificista da época.

Nolasco e Freitas (2021) constroem uma investigação fenomenológica em Minkowski para pensar o tempo, sofrimento e ímpeto vital. Através de um estudo teórico a partir do texto Estudo psicológico e análise fenomenológica de um caso de melancolia esquizofrênica (Minkoswski, 2004), concluindo, em relação à temática, que a noção de tempo sobre a qual Minkowski se debruça auxilia em possíveis reflexões sobre o mundo que habitamos, contribuindo para pensar o seu adoecimento.

Monteiro et al. (2022) discutem a abordagem contemporânea do autor italiano Giovanni Stanghellini sobre a esquizofrenia, destacando como ele reflete e expande o conceito de senso comum de Wolfgang Blankenburg na Psicoterapia dessa condição. Eles citam Minkowski, especificamente no texto La schizophrénie: psychopathologie des schizoïdes et des schizophrènes (1927), para evidenciar a influência seminal desse autor na compreensão da esquizofrenia. A análise de Stanghellini é contextualizada dentro dessa tradição, enriquecendo o diálogo sobre as bases fenomenológicas e metodológicas no tratamento da esquizofrenia.

Bloc e Moreira (2016) realizam uma revisão teórica das principais obras de Minkowski, Binswanger, Tellenbach e Tatossian, publicado em inglês com resumo em português. O objetivo é discutir a experiência da temporalidade na depressão, referenciando a obra Le temps vécu (1933/1995) de Minkowski. A inclusão de Minkowski no título sublinha a importância de suas contribuições para a compreensão fenomenológica da depressão, complementada pelas perspectivas dos demais.

Silva (2023) apoia-se em Minkowski e Paul Ricoeur para produzir uma revisão de literatura narrativa, visando pensar como a prática musical pode atuar em casos de morte social, resgatando o contato vital do indivíduo a partir de suas lembranças, referenciando várias obras de Minkowski. Tamura e Messas (2023) apresentam uma proposta de trabalho para discutir a contribuição de Eugène Minkowski e Ludwig Binswanger para se pensar a entidade nosológica “esquizofrenia”, salientando que Minkowski entende a esquizofrenia como perda do contato vital com a realidade, em que há falta de sintonia com o ambiente.

Paião e Antunez (2024) apresentam um estudo que busca ampliar a compreensão sobre o tempo vivido e a depressão durante o período da pandemia da doença do coronavírus (COVID-19). Para nortear suas reflexões, os autores se basearam nas obras de Minkowski, destacando sua abordagem do tempo que ultrapassa a dimensão quantitativa, explorando-a como uma experiência subjetiva e existencial. Segundo os autores, Minkowski, ao estudar profundamente o tempo vivido, oferece uma perspectiva para além do cronológico, podendo contribuir para analisar como a pandemia afetou a percepção temporal e o sofrimento psíquico, especialmente em casos de depressão. O estudo utiliza essa fundamentação teórica para investigar as transformações na experiência do tempo durante esse período crítico.

A trajetória dos estudos teóricos revisados evidencia a amplitude e a atualidade do pensamento de Eugène Minkowski no campo da psicopatologia fenomenológica. Como evidenciado pelos estudos de Pereira (2000, 2004), Holanda (2001) e Campos (2002), seu legado reside na crítica contundente ao reducionismo objetivista e na defesa de uma psicologia do patológico, que busca compreender as formas possíveis de estar-no-mundo. Essa abordagem, definida por Abreu e Silva Neto (2004) como “rigorosa e radical”, centra-se no “contato vital com a realidade”, conceito-chave que, segundo Pita e Moreira (2020), representou um avanço evolutivo na compreensão da esquizofrenia, entendida não como um déficit intelectual, mas como uma ruptura no laço social e uma dessincronização da experiência temporal, conforme explorado por Souza et al. (2020) e Marmorato (2012). Portanto, a atualidade do pensamento de Minkowski, salientada por Abreu e Silva Neto (2004) e confirmada por investigações recentes como as de Paião e Antunez (2024) e Bloc e Moreira (2016), revela-se na pertinência de seus conceitos para a clínica contemporânea. Seja para refletir sobre o sofrimento humano e a temporalidade, seja para fundamentar uma prática clínica ética, como propõem Gozé et al. (2019) e Faizibaioff e Antúnez (2015), sua obra oferece um acesso privilegiado à dimensão vivida da existência. Apesar de críticas pontuais, como a de Berrios (2012), o núcleo de seu método, ou seja, encontro com o humano, permanece como uma ferramenta vital para desconstruir normatividades, conforme apontado por Puchivailo et al. (2013), e para ampliar a compreensão dos modos (psico)patológicos de ser, garantindo que a pessoa, em seu modo de ser, permaneça no centro da investigação e do cuidado em saúde mental e no cuidado em fazer pesquisa. Os autores citados, cada qual em seu recorte, convergem para a centralidade de noções como tempo vivido, contato vital com a realidade, sofrimento e modo de ser-no-mundo, que configuram os eixos fundamentais da proposta fenomenológico-estrutural.

Estudos empíricos

Em 2006, Bastos publicou um estudo sobre tempo, idade e cultura, a partir de relatos de idosos em acompanhamento clínico, contribuindo para reflexões acerca da Psicopatologia da depressão em idosos. O estudo foi dividido em três artigos, com publicações subsequentes. O primeiro abordou a relação entre temporalidade e cultura, enquanto o segundo e o terceiro focaram na temporalidade na Medicina. Para embasar suas discussões, Bastos recorreu à obra Le temps vécu (1933/1995), pontuando o conceito de tempo em psicopatologia, e ao Traité de psychopathologie (1966/1999), utilizando-o como referência para refletir sobre a prática psiquiátrica nos estudos de caso de sua pesquisa.

Ainda em 2006, Leal et al., a partir da descrição de situações vividas por usuários de um CAPS, analisaram brevemente as consequências da hegemonia da Psicopatologia descritiva no desenho das intervenções realizadas nesses Serviços. Os autores discutiram se a Psicopatologia do ser social poderia ser uma ferramenta para a construção de um cuidado que vise promover a autonomia possível, permitindo que pacientes vivam em comunidade. Em sua reflexão, citam Minkowski como um marco no desenvolvimento da Psicopatologia, reconhecendo sua contribuição.

Antúnez e Santoantonio (2008) trabalham com estudos de casos sob o ponto de vista da análise fenômeno-estrutural, apresentando a perspectiva e o trabalho de Françoise Minkowska, grande estudiosa do método de Rorschach. Para tanto, os autores acompanham e analisam o caso de uma jovem diagnosticada com Transtorno de Personalidade Borderline, na ótica da análise fenômeno-estrutural e as avaliações psicológicas como o próprio método de Rorschach, TAT e WAIS-III, referenciando aos escritos de Minkowska e às principais obras de Minkowski.

Em 2009, Melo et al. discutiram o caso de uma mulher de 40 anos diagnosticada com transtorno de personalidade borderline, conforme a Classificação Estatística Internacional de Doenças e Problemas Relacionados à Saúde (CID-10 – OMS, 2017). A partir dessa experiência clínica concreta, os autores propuseram uma reflexão sobre as concepções da Psicopatologia Fenomenológica Existencial, utilizando o pensamento de Minkowski para analisar o sofrimento associado a essa condição. O estudo buscou compreen-der a vivência subjetiva da paciente, destacando a importância de uma abor-dagem que vá além dos critérios diagnósticos tradicionais, explorando as dimensões existenciais e temporais do sofrimento humano.

Para fomentar a discussão sobre umas das principais temáticas estudadas por Minkowski, Faizibaioff e Antúnez (2014) empreendem um resumo da primeira parte de O tempo vivido (1933/1973), denominada “Ensaio sobre o aspecto temporal da vida”. Os autores visaram ilustrar as ideias de Minkowski e demonstrar sua fecundidade para pensar a prática do Acompanhamento Terapêutico (AT), consequentemente a clínica e a psicopatologia. Concluíram que há necessidade de dar-se um passo atrás, visando resgatar o outro lado do tempo, o tempo do devir, que o revela como fenômeno e atenta para as vantagens diagnósticas e terapêuticas, apresentadas e testemunhadas no enquadre do AT.

Barthélémy (2015) discute a prática psicoterapêutica, bem como a relação médico/paciente, apoiado no método fenômeno-estrutural proposto por Minkowski. Isso, por comportar, segundo o autor “(...) eixos de orientação de um rigoroso e surpreendente frescor visionário, mesmo transpostos à nossa situação contemporânea onde sua pertinência se faz ainda mais sentir” (p. 145). Ainda destacamos que Barthélémy utiliza como base um dos artigos de Minkowski, intitulado “Psychiatrie, psychothérapie, relations avec le malade et le grand public”, publicado em 1953 nos Annales médico-psychologiques. É partindo dessa circunstância e apoiando-se nela que o autor escreve:

A orientação terapêutica representa então somente um prolongamento de um comportamento fenômeno-estrutural com ambição prioritariamente e mais largamente compreensiva. Sem ser um de seus objetivos, ela se integra espontaneamente ao processo de aproximação centrado sobre a especificidade da pessoa. (p. 148)

Evangelista (2016) tece discussões para a prática de psicoterapeuta baseado na Daseinsanalyse (ou Psicologia Fenomenológico-Existencial) com pacientes psiquiátricos/as. Ele revisita a história da Fenomenologia na Psiquiatria, destacando o caso de um paciente descrito por Minkowski, a partir da supervisão de uma clínica-escola de psicologia, diferenciando a Psiquiatria, a Psicopatologia e a Psicoterapia. Evangelista (2016) afirma “o que interessa ao psicoterapeuta não é psicopatologia e, sim, a relação terapêutica” (p. 64). No mesmo ano, França (2016) realiza uma pesquisa-ação coletando dados em um hospital-dia sobre Acompanhamento Terapêutico de Grupo (ATG) como uma alternativa em saúde mental. A Psicopatologia Fenômeno-Estrutural de Minkowski é usada para entender como cada participante da atividade vivencia o tempo e o espaço. O autor conclui que é importante expandir a discussão acadêmica sobre o ATG nas perspectivas quantitativa e qualitativa. Novos estudos quantitativos podem oferecer dados concretos sobre o perfil do ATG e sua prática.

Chaim et al. (2020), traz um estudo empírico fundamentado na Psicopatologia Fenomenológica onde foram utilizados instrumentos como: questionário de dados sociodemográficos e clínicos, e roteiro de entrevista semiestruturada para analisar mães de crianças com TEA. Os resultados das entrevistas foram submetidos à construção de categorias temáticas, segundo a Metodologia de Giorgi e, posteriormente, foram correlacionados com as categorias existenciais de Augras. A referência a Minkowski aparece como pano de fundo para uma leitura da Psicopatologia Fenomenológica.

No ano de 2021, Perches e Antunéz apresentam um trabalho a partir do acompanhamento do processo diagnóstico e psicoterápico de dois casos. Um paciente com diagnóstico de depressão e outro com diagnóstico de ansiedade, analisados por um ano a partir do método fenômeno-estrutural de Minkowski, apoiados no teste de Rorschach do ponto de vista clínico, como estudado por Minkowska.

Em síntese, os estudos empíricos revisados demonstram a notória fecundidade e atualidade do método fenômeno-estrutural de Eugène Minkowski para a prática clínica contemporânea, transcendendo a teoria psicopatológica e se consolidando como uma ferramenta para repensar a prática diagnóstica e terapêutica. As pesquisas de Bastos (2006) e França (2016) ilustram a aplicação direta de conceitos como o tempo vivido em contextos específicos desde a depressão em idosos até as dinâmicas de grupo no Acompanhamento Terapêutico, confirmando a pertinência da abordagem minkowskiana para compreender a experiência do sofrimento. Essa transposição para a prática é teorizada por Barthélémy (2015), que defende que a orientação terapêutica surge como um prolongamento natural de uma postura compreensiva centrada na especificidade da pessoa, um princípio colocado em ação nos estudos de caso de Melo et al. (2009) e Perches e Antunéz (2021). Portanto, o legado de Minkowski mostra-se particularmente vital para contribuir nas intervenções em saúde mental, oferecendo um contraponto à hegemonia da psicopatologia descritiva criticada por Leal et al. (2006). A integração entre a análise fenômeno-estrutural e instrumentos clínicos, como o Rorschach, tal como desenvolvido por Françoise Minkowska e aplicado por Antúnez & Santoantonio (2008) e Perches e Antunéz (2021), evidencia a potência de uma abordagem que articula a ciência fenomenológica com ferramentas práticas. Compreende-se que a obra de Minkowski fornece um eixo de orientação de “surpreendente frescor visionário”, como afirmou Barthélémy (2015), permitindo que o clínico acesse a dimensão singular do vivido e promova, assim, um cuidado em saúde mental mais ético, personalizado e sintonizado com a complexidade da existência humana.

Considerações finais

O estudo em tela buscou delinear um cenário de Minkowski para a reflexão sobre psicopatologia no Brasil, e aponta para diferentes escalonamentos de estudo possíveis, o que reflete a elasticidade reflexiva do autor. A revisão dos estudos teóricos e empíricos sobre a obra de Minkowski evidencia sua relevância contínua para a psicopatologia fenomenológica e a prática clínica em saúde mental.

No entanto, é notório que, em alguns estudos, as citações a Minkowski e suas obras sejam, muitas vezes, breves e pontuais, sem um desdobramento conceitual ou teórico mais aprofundado. Como é possível perceber nas discussões, o autor e sua obra são frequentemente referenciados como um marco histórico ou para apontamentos conceituais específicos, sem uma exploração detalhada de suas ideias.

A relevância dos trabalhos de Minkowski é conhecida e, ainda que seja compreensível que muitos desses estudos não o tenham como tema central, surge um questionamento: qual é o intuito de tantas referências a Minkowski e suas obras, se poucos estudos se dedicam a explorá-las de maneira metódica e sistemática? Parece relevante essa aparente contradição, o que sugere a necessidade de uma maior investigação teórica e conceitual sobre o legado de Minkowski, de modo a buscar entender essa lacuna. Talvez uma resposta parcial seja a escassez de traduções da obra de Minkowski para o português. Consequentemente, isso aponta para outra lacuna a ser considerada, qual seja, o acesso às suas obras.

Embora o levantamento inclua apenas 41 artigos, o que, por um lado se reconhece a necessidade de outros tipos de revisões, por outro, essa amostra já oferece um vislumbre das pesquisas no Brasil que utilizam Minkowski como referencial teórico. Esse levantamento aponta para a relevância de Minkowski na abordagem de diversas temáticas, mas também para lacunas emergentes, destacando a importância de ampliar o escopo das pesquisas para obter uma compreensão mais abrangente de sua influência no contexto acadêmico brasileiro.

À medida que a pesquisa avança, a integração de uma postura mais humana tem potencial de oferecer abordagens cada vez mais eficazes, que consideram verdadeiramente o modo de ser de cada indivíduo. Assim, Eugène Minkowski e sua obra emergem como fio condutor que une a singularidade da experiência humana à Ciência, abrindo caminhos para possibilitar uma prática mais holística no campo da Saúde.

O que este estudo aponta — e que vem a ser corroborado por outras leituras, como as de teses e dissertações (objeto de outro estudo), por exemplo — é que Minkowski ainda permanece uma presença um tanto à margem no cenário geral do que se compreende por psicopatologia fenomenológica. Aliás, a esse respeito, observa-se ainda um desenvolvimento relativamente tímido sobre o tema, com poucas referências; todavia, promissor, pelo fato de conhecer produções cada vez mais recentes — como temos, por exemplo, a partir da tradução de Além do racionalismo mórbido, do próprio Minkowski (2019), ou em publicações como Tamelini e Messas (2022); ou em pesquisas como a de Jardim (2025) —, o que pode indicar aberturas e descobrimentos tanto para o legado de Minkowski, quanto de outros autores do campo da psicopatologia fenomenológica. Esperamos, com o presente estudo, estar contribuindo com indicações para que novas pesquisas que tomem a figura e as ideias de Minkowski possam eventualmente surgir.

  • 1
    Este trabalho é fruto de uma dissertação de mestrado intitulada Entre fenomenologia e psicopatologia: a presença de Eugene Minkowski no Brasil, realizada no Programa de Pós-graduação em Psicologia da Universidade Federal do Paraná – UFPR e defendida em março de 2025 na própria instituição, com auxílio de uma bolsa CAPES-DS.

Disponibilidade de Dados de Pesquisa:

Não se aplica.

  • Financiamento/Funding:
    Este trabalho recebeu apoio da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nivel Superior – Capes (Brasília, DF, Br.) / This work is supported by Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nivel Superior – Capes (Brasília, DF, Br.)

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  • Editores do artigo/Editors:
    Paulo Antonio de Campos Beer, Wilson Franco

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    24 Ago 2026
  • Data do Fascículo
    2026

Histórico

  • Recebido
    13 Jul 2025
  • Aceito
    16 Dez 2025
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