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Sexo é maldição, ódio é amor

Ferreira, Nadiá Paulo. Malditos, obscenos e trágicos. 2013. Eduerj, Rio de Janeiro: 165 págs

O fio condutor de Malditos, obscenos e trágicos é o amor. Porém não se trata do amor idealizado, mas sim daquilo que ele comporta de paradoxal, da sua face maldita, obscena e trágica. É no estudo das obras literárias de Nelson Rodrigues, Gregório de Matos e Fernando Pessoa que este livro demonstra a afirmação freudiana de que os artistas já sabiam o que mais tarde a psicanálise veio revelar: a impossibilidade da relação sexual.

Seu título talvez esconda uma de suas características mais marcantes, pois trata-se de uma obra que preza pelo rigor teórico e por uma ampla articulação entre conceitos da psicanálise de Freud a Lacan. Subdividido em três capítulos, conduz o leitor a um passeio que se inicia com o estabelecimento de aspectos- -chave para a compreensão da teoria psicanalítica, e termina com as questões que podem ser levantadas a partir do estudo das obras e da vida dos três escritores.

O primeiro capítulo aborda a nossa sexualidade excêntrica e o modo como somos afetados por ela. Coloca em pauta os impulsos sexuais, sempre comportando a impossibilidade de uma satisfação absoluta, e o modo pelo qual os afetos também trazem essa marca. Estabelece a diferença entre o afeto e o significante ligado a ele, que por meio do recalque é afastado da consciência na tentativa de velar a experiência traumática com o real. A partir daí se dá o movimento de retorno do significante recalcado, surgindo no discurso do neurótico para ser novamente negado (denegação).

Nesse contexto surge o amor, como uma forma de responder ao trauma do sexo. “O que leva alguém a praticar um ato em nome do amor? Dar valor de signo ao amado. Signo de quê? De um ser. Aí está precisamente a origem do amor, onde o sexo não conta” (p. 35).

O segundo capítulo é dedicado à matriz masoquista do amor, que se expressa por meio do amor cristão e de seu aforismo ama teu próximo como a ti mesmo. Esse preceito instaura um ideal de Igualdade e retira do amor qualquer investimento sexual. Para levar a cabo tal ideal é preciso que a alteridade (Outro) se reduza à especularidade (outro), “que o próximo seja reduzido ao semelhante para que possa ser tomado como reflexo especular do próprio eu” (p. 51). Dessa forma, Fraternidade e Caridade surgem como os fundamentos do amor cristão visando abolir a diferença e substituir o desejo pelo amor divino. Essa abolição da diferença nos conduz a outro aforismo retirado dos ensinamentos de Cristo: olhai como crescem os lírios do campo: não trabalham nem fiam. Em termos psicanalíticos poderíamos dizer: olhai como crescem os lírios do campo: não desejam, apenas gozam. Se o preceito da substituição do desejo pelo amor divino ainda mantém o simbólico como mediador entre o real e o imaginário (R-S-I), o aforismo ensinado por Cristo introduz uma nova modalidade de amor que tem o imaginário como meio (R-I-S). “O ensinamento de Cristo convoca o gozo da alma (gozo do ser da significância) e o amor divino promete o gozo supremo...” (p. 55). O cristianismo, portanto, instaura um “império do gozo”, substituindo a falta como sinônimo de ausência pela falta com o significado de pecado, matriz do sentimento de culpa.

O último capítulo trata dos paradoxos do amor e do gozo a partir da vida e da escrita de Gregório, Nelson e Pessoa. Em Gregório de Matos vemos a ambivalência dos afetos, ora exaltando, ora recriminando o desejo e o gozo. Por um lado, vítima dos próprios impulsos sexuais e incapaz de resistir aos prazeres da carne, escreve poemas eróticos nos quais o amor se reduz ao desejo sexual. Por outro, comprometido com a moral religiosa e tomado por um intenso sentimento de culpa, abraça sintomaticamente a missão de denunciar a imoralidade, a mentira e a corrupção. Semelhante ambivalência entre virtude e vício, desejo e culpa, amor e ódio, aparece em vários personagens criados por Nelson Rodrigues, como por exemplo, Doroteia. Para ela o sexo é uma praga e sua beleza uma maldição, o que faz de seu corpo o culpado pelos seus anseios proibidos. Dividida entre agir conforme seu desejo e submeter-se ao desejo do Outro, encontra na morte de seu filho o gatilho para deslocar para o próprio corpo seu desejo inconsciente de punição. O filho morto, que representa o objeto amado como parte de si mesma, torna-se “sinônimo de sua própria morte como sujeito desejante” (p. 95).

Para Gregório e Nelson o sexo é um infortúnio, e as mulheres são símbolos amaldiçoados que “colocam o homem diante do próprio desejo e da insuficiência do gozo fálico” (p. 115). A divisão inerente à sexualidade comparece sempre sob a forma do inconfessado, do ignóbil e do obsceno. Já em Fernando Pessoa ela surge de uma forma mais literal, pela via de seus heterônimos. Por meio desse artifício ele coloca em cena os conflitos do eu para além de sua própria imagem. Em sua obra ortônima confessa que se sente múltiplo, e que por vezes se surpreende ao pensar e dizer coisas das quais discorda radicalmente, e que lhe causam grande mal-estar. A obra de Fernando Pessoa dá notícias do drama de um sujeito sustentado por um desejo sem objeto. Ele não sabe quem é, nem quantas almas tem, portanto se faz múltiplo. O amor não tem como função curar a dor de existir, mas corresponde a um enigma-a-mais que não pode ser decifrado.

  • Citação/Citation: Anjos, P.W. dos (2015, setembro). Sexo é maldição, ódio é amor. Resenha do livro Malditos, obscenos e trágicos.Revista Latinoamericana de Psicopatologia Fundamental,18(3), 563-565.
Editor do artigo/Editor: Profa. Dra. Sonia Leite

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    Jul-Sep 2015

Histórico

  • Recebido
    5 Fev 2015
  • Aceito
    19 Mar 2015
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