Open-access Cogitar possível futuros para a psicanálise

Picking future possibilities for psychoanalysis

Em um momento que não poderia ser mais oportuno, é lançada no Brasil a tradução do livro Rumo a uma Psicanálise Emancipada: Reatar com a Subversão, de Laurie Laufer (2025), que compõe uma série de textos da autora. O conjunto dessa reunião enseja cogitar uma psicanálise que, situada no presente da sua prática, revisita a sua história para então vislumbrar para si alguns futuros possíveis.

Organizada em três seções principais, a obra opera um tipo de mediação. No seu primeiro momento, ela atualiza as principais participações dos movimentos trans*-pós-feministas1 no campo psicanalítico ao longo da história — com especial atenção para a conjuntura francesa dos últimos 70 anos.

Laufer faz isso por um estilo que produz aberturas aos modos de leitura de textos consagrados no meio psicanalítico, levando a uma interpretação destes que é mais atenta ao seu contexto. Como seu argumento mostra de maneira direta, bem-humorada e perspicaz, os espíritos dos tempos tanto freudiano quanto lacaniano são atravessados, desde suas origens e ao longo dos seus percursos, por felizes interferências que interpelam certas premissas relacionadas ao âmbito do gênero e da sexualidade. Conforme vemos ao longo do caminhar de uma leitura, tais interferências ficam presentes de maneira às vezes mais, às vezes menos nítidas nos ditos e escritos de autoras e autores de renome no campo.

Nesse sentido, o que opera Laufer pode ser entendido como um tipo de genealogia da história da psicanálise. Tal definição corrobora a inspiração nos dizeres e métodos de Michel Foucault, que é nitidamente reconhecida pela própria autora a partir do segundo momento do livro. Retomando o entendimento da psicanálise como uma erotologia, conforme entende Jean Allouch (2010), a aliança da autora aos métodos de Foucault acontece para cogitar uma prática que escuta, sem estabelecer de antemão a relação entre os modos de subjetivação, o diagnóstico e as origens do sofrimento de quem narra a sua história.

Tais vias ensejam uma psicanálise situada, inspirada também pelo conceito de saberes situados, de Donna Haraway (1995), cujas direções se percebem mais materialmente a partir do terceiro momento do livro. Aqui se mostram alguns outros lados da mediação que dissemos operar o livro de Laufer. Se, no primeiro momento, a autora se volta a retomar textos lacanianos e freudianos de maneira a dar a ver as interferências do seu contexto, no terceiro momento essa retomada serve para orientar as direções para além desses textos, inclusive no sentido de apontar os limites da sua situação histórica.

Pelo que enseja o verbo reinventar, Laufer olha para a importância de reformular os conceitos e a prática psicanalíticos com a ajuda dos estudos e dizeres LGBTQI+OC2. Assim, o terceiro momento funciona como um movimento de “mãos à obra” do que se pergunta já no momento anterior: “como pensar uma posição de analista que esteja inserida nas normas de uma época e seja simultaneamente capaz de produzir as condições de emergência de um pensamento que as desconstrua?” (p. 116).

Com essa pergunta, a emancipação que a autora propõe no título do livro se atualiza por duas vias. Por um lado, ela coloca a premência de se cogitarem os meios para uma emancipação do sujeito em análise; por outro, ela indica caminhos para que a própria psicanálise possa se emancipar de certas tradições e fazeres cristalizados no passado.

Algo dessa proposta se evidencia por um modo de escrita assumido por Laufer que parece deliberadamente ambivalente. Ao passo que sua retórica se produz de forma um tanto quanto objetiva, sem rodeios, o encadear de seus argumentos se dá de maneira a encorajar uma conversa, então mais organizada a partir de perguntas do que pelo oferecer de respostas prontas.

Isso, aliado ao uso de termos acessíveis ao grande público, propicia que mesmo a pessoa mais iniciante nos problemas da psicanálise possa acompanhar um raciocínio e, ao mesmo tempo, logre formular suas próprias colocações e observações a partir da leitura. Assim, no lugar de induzir “uma nova mestria”, a retórica abre espaço para que, com algumas ferramentas que ela própria oferece, se produza uma emancipação.

É necessário realçar o mérito desse estilo, principalmente se considerarmos a sutileza e complexidade que envolvem alguns conceitos psicanalíticos – e, ainda, a maneira obtusa como alguns textos, ao invés de reatar ou desembaraçar os nós desses conceitos, parecem deliberadamente dificultar a sua apropriação da parte de um público menos ambientado nos jargões e nos jogos de palavras freudianos e lacanianos.

Nesse sentido, o texto de Laufer pode servir como propulsor de um tipo de reação aos modos de mestria típicos de alguns círculos psicanalíticos. Essa forma, mais afim às aberturas do que aos xeque-mates, permite perceber a disposição do texto lauferiano a pensar uma psicanálise orientada para o futuro. É reconhecendo o “perpétuo princípio de inquietude, de questionamento, de crítica e de contestação daquilo que, por outro lado, pôde parecer adquirido”, que Foucault (1999, p. 517) confere aos modos psicanalíticos, que a psicanálise emancipada de Laufer enseja um ir além: além de certos preconceitos e modos de operar de outros tempos que podem persistir — de forma inócua, prejudicial e anacrônica – nos manejos e nas conceitualizações psicanalíticas do contemporâneo.

A proposta é ressonante com as apostas de futuro que se identificam no presente do território brasileiro. Por exemplo, quando constatamos os movimentos emancipatórios de coletivos psicanalíticos que se organizam de maneira situada; seja a partir da demanda específica de certos territórios ou para visibilizar pautas que merecem mais reconhecimento.

Que, com a ajuda do argumento de Laufer, a psicanálise ensaie mais futuros fora do armário e, na composição com outros lugares, epistemes e perspectivas, reconheça e formule a sua própria monstruosidade. Abracemos as incertezas que envolvem essa aposta.

  • 1
    Em uma nota de rodapé a autora explica que o uso do asterisco nessa expressão é uma tentativa de incluir as diferentes identidades que, associadas, interpelam os quadros binários de sexo e de gênero
  • 2
    Com as letras OC, não tão usuais nessa sigla, a autora procura mencionar as pessoas não brancas, ou of color, comumente menos representadas na fração branca e rica de alguns círculos LGBTQI+.

Referências

  • Allouch, J. (2010). A psicanálise: uma erotologia de passagem Companhia de Freud.
  • Foucault, M. (1999). As palavras e as coisas Martins Fontes.
  • Haraway, D. (1995). Saberes localizados: a questão da ciência para o feminismo e o privilégio da perspectiva parcial. Cadernos Pagu, 5, 7-41.
  • Laufer, L. (2025). Rumo a uma psicanálise emancipada: reatar com a subversão Criação Humana.
  • Editor do artigo/Editor:
    Marta Regina de Leão D’Agord

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    24 Ago 2026
  • Data do Fascículo
    2026

Histórico

  • Recebido
    15 Jan 2026
  • Aceito
    25 Jan 2026
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