Open-access Freud, Lacan e Musil: A fantasia e a janela do fantasma1

Freud, Lacan, and Musil: The phantasy and the window of the phantom

Freud, Lacan et Musil: la fantaisie et la fenêtre du fantasme

Freud, Lacan y Musil: La fantasía y la ventana del fantasma

Resumo

Este artigo investiga diferenças entre a fantasia, como abordada por Freud, e o matema do fantasma, concebido por Lacan. Para tanto, apoiamo-nos, principalmente, nos textos “Bate-se numa criança”, de Freud, no Seminário Livro 14 e nos Escritos, de Lacan, assim como em uma leitura psicanalítica da novela O Jovem Törless, de Robert Musil. Conclui-se apontando para uma diferença fundamental: enquanto Freud pensa a fantasia como construção e transformação gramatical das posições de um alterego do observador posicionado fora da cena, Lacan nomeia de fantasma um enquadre lógico e uma estrutura com as suas próprias leis internas de transformação.

Palavras-chave:
Juventude; fantasia; matema do fantasma; Musil


Resumos

This study investigates differences between how Freud approached phantasy, and Lacan’s matheme of the phantasy. For that, we mainly base our research on the texts “A child is being beaten”, by Freud, in the Seminar Book 14, the Écrits by Lacan, and in a psychoanalytical reading of the novel The confusions of young Törless, by Robert Musil. This study concludes by pointing to a fundamental difference: while Freud thinks of phantasy as the construction and grammatical transformation of the positions of an alter ego of the observer positioned outside the scene, Lacan names a logical framework and a structure with its own internal laws of transformation as phantasy.

Key words:
Youth; phantasy; matheme of the phantasy; Musil

Abstract

Cet article recherche les différences entre la fantaisie, tel qu’elle est abordée par Freud, et le mathème du fantasme, conçu par Lacan. Pour ce faire, on s’appuie principalement, sur les textes “Un enfant est battu” de Freud, dans le Seminaire Livre 14 et sur les Écrits de Lacan, ainsi que sur une lecture psychanalytique du romain de Robert Musil, Les désarrois de l’élève Törless. En conclusion, on signale une différence fondamentale: tandis que Freud conçoit la fantaisie comme construction et la transformation grammaticale des positions d’un alter ego de l’observateur placé en dehors de la scène, Lacan apelle le fantasme l’encadrement logique et une structure dotée de ses propres lois internes de transformation.

Mots clés:
Jeunesse; fantaisie; mathème du fantasme; Musil


Resumen

Este artículo investiga las diferencias entre la fantasía, como la trata Freud, y el matema del fantasma, concebido por Lacan. Para ello, nos apoyamos, principalmente, en los textos, “Pegan a un niño” de Freud, en el como también en una lectura psicoanalítica de la novela Las tribulaciones del estudiante Törless, de Robert Musil. Se concluye señalando una diferencia fundamental: mientras Freud piensa la fantasía como construcción y transformación gramatical de las posiciones de un alter ego del observador posicionado fuera de la escena, Lacan nombra fantasma un encuadre lógico y una estructura con sus propias leyes internas de transformación.

Palabras clave:
Juventud; fantasía; matema del fantasma; Musil


Introdução

No Brasil, em meio a questões de tradução, ainda hoje encontramos, nos textos referentes ao nosso campo, o conceito de fantasme em Lacan com duas traduções: fantasma e fantasia (Abreu & D’Agord, 2021). Essa diferença de tradução poderia estar indicando, também, uma diferença conceitual? Este artigo se alinha com a proposta de Eidelsztein (2008), ao tensionar diferenças epistemológicas que requerem uma desambiguação entre conceitos lacanianos e freudianos.

Faz-se necessário, para tanto, revisitar tanto a fantasia, com os seus três tempos, tal como abordada por Freud, no texto “Bate-se numa criança”, como o matema do fantasma e suas operações lógicas, elaborados por Lacan (1960/1998b), em seu “Subversão do sujeito e dialética do desejo no inconsciente freudiano” como no Livro 14 do Seminário, A Lógica do fantasma (Lacan 1966-67/ 2017). Além dos estudos de Eidelsztein (2001, 2004, 2008, 2020, 2022).

Também nos valeremos da literatura, com a novela O jovem Törless, primeira obra de Robert Musil (1981). Para nossa leitura dessa obra que reúne aspectos de romance de formação em um contexto sociopolítico que antecipa o fascismo, contamos com as leituras precisas de Guggenberger e Rosenfield (2021), Gurski e Perrone (2021) e de Rosenfield (2012). Considerando, com Lo Bianco (2003), que o objeto, como causa e como resto, se faz presente por seus efeitos no discurso, a leitura da novela de Musil será nosso método para atualizar os conceitos psicanalíticos de fantasia e fantasma, nossos objetos de investigação.

O livro de Musil já teve aproximações à psicanálise ao ser associado aos “Três ensaios sobre a teoria da sexualidade” (Freud, 1905/2016b). Porém, os registros biográficos revelam que a novela foi escrita entre 1902 e 1905, ano em que os ensaios freudianos também eram publicados. Já em 1967, exatamente, no Seminário A lógica do fantasma, Lacan, após assistir ao filme baseado em Musil, refere:

(…) pour ceux qui ont lu ou vu au cinéma Les désarrois de l’élève Törless (…) je dirai que le statut de la réciprocité c’est ce qui fait la bonne assiette de ce collège des professeurs qui supervisent, et qui ne veut en somme rien savoir, n’avoir rien à toucher de cette atroce histoire, ce qui ne rend que plus manifeste que pour ce qui est de la formation (…) de la formation d’un individu mais tout spécialement d’un enfant (…) les éducateurs feraient mieux de s’enquérir quelles sont les meilleures voies qui lui permettent de se situer comme étant (…) de par son existence même (…) la proie des fantasmes de ses petits camarades, avant de chercher à s’apercevoir à quelle étape, à quel stade, il sera capable de considérer que le “je” et le “tu” sont réciproques.1 (Lacan, 1966-67, p. 81)

A formação de que nos diz Lacan (1966-67/2017): “a presa dos fantasmas de seus colegas de classe, antes de procurar se inteirar sobre qual etapa ou estágio, ele será capaz de considerar que o “je” e o “tu” são recíprocos” (p. 81; tradução nossa), dá-se no Internato Militar W., no império Austro-húngaro, no final do século XIX. Uma etapa de formação para um futuro na carreira militar, universitária ou serviço público, tal como era esperado pelas famílias de posses. Lá, encontramo-nos com os estudantes Törless e Basini, sob a influência de Beineberg e Reiting, também estudantes, dois anos mais velhos e que tinham prazer em obter favores forçados, manter os colegas de classe sob seu jugo, fazendo intrigas e fomentando o medo.

Törless tinha um espírito atilado, mas a cultura vigente não lhe propiciava desenvoltura (Guggenberger & Rosenfield, 2021). Já Basini era belo, vaidoso e gastava mais do que podia. Virou o alvo predileto das ações dos colegas Beineberg e Reiting, sendo tratado como instrumento de diversão e objeto de torturas físicas e morais que culminavam em benefícios sexuais. Törless foi convidado a participar das reuniões nas quais os dois mais velhos conceberam os planos de tortura ao outro colega. Törless se coloca no lugar de observador, não participando ativamente dos atos praticados contra Basini.

A fantasia em Freud

Ao escrever “Bate-se numa criança”, Freud (1919/2016a), pretendendo esclarecer o mecanismo do masoquismo, acaba por lançar luz sobre os processos inconscientes que operam na formação das fantasias de espancamento. Para ele, essas representariam um resíduo de um processo ocorrido entre os dois e cinco anos de idade.

Essas fantasias conscientes, ligadas ao complexo de Édipo, sofrendo recalque, dividem-se em duas partes: uma inconscientizada e, outra, que permanece na consciência, transformada, obedecendo aos critérios das identificações aos gêneros feminino ou masculino. A parte inconsciente só será acessível à consciência por construção em análise.

A partir de relatos de pacientes adultos, Freud (1919/2016a) se dedica a uma fantasia específica e lhe dá como título “Bate-se numa criança”. O psicanalista considera três etapas na origem dessa fantasia em ambos os sexos. A fantasia surge e se conserva no campo da imaginação, seja na condição acessível à lembrança, seja estando sob recalque. Ou seja, uma construção com restos de lembranças, não uma cena que a criança assistiu. Nessa construção, destaca-se como característica que o narrador se situa como um espectador, mas também faz parte da cena através de um alterego. Ao campo da imaginação pertence a condição da cena “dada a ver”, que se desdobrará em três etapas gramaticais. Essa será a chave para definir a fantasia em Freud.

Da ideia geral “estão espancando uma criança”, originam-se as três fases, sendo a primeira consciente, aos moldes de relatos de cenas onde estão espancando uma criança. Nessas cenas, tanto quem apanha (a criança) quanto quem bate (o agressor, sempre um adulto) nunca é quem está relatando. Freud (1919/2016a) afirma, então, que essa fase não pode ser considerada nem masoquista, nem sádica. Salientamos, que, ao não estar nem no papel de quem sofre a ação de apanhar nem no papel do agressor, a cena é “dada a ver”. E quando quem relata se vê na cena, a cena continua a ser “dada a ver”, pois ele sempre é o espectador.

Quanto à figura do agressor, invariavelmente, é o pai ou substituto que entra em cena. Na construção de Freud (1919/2016a), a frase “O [meu] pai está batendo na criança” (p. 101) representa essa etapa, sendo já uma transformação da frase de saída: “O [meu] pai está batendo na criança que eu odeio” (p. 101), em que a parte final restou encoberta. A cena, a princípio, sem ligação com questões sexuais genitais, revela-se como uma transformação da frase “meu pai não ama essa outra criança, ele só ama a mim” (p. 103). Nesse momento, encontramos o jogo com as negações e reacomodações na sincronicidade dessas frases com: “Ele (o meu pai) só ama a mim, não a outra criança, pois ele está batendo nela” (p. 104). Na hipótese de Freud, esse devaneio está ligado ao trabalho do complexo de Édipo e corresponderia ao momento do amor incestuoso. Salienta-se que ao ligar a fantasia ao complexo de Édipo, Freud traz a discussão para o campo mítico, possível no campo da narrativa. Assim, adianta-se uma diferença de partida nos campos de teorização entre a escrita da fantasia em Freud como etapas gramaticais, e o fantasma exposto numa linguagem algébrica por Lacan.

A segunda fase é uma construção de Freud, funciona como uma hipótese teórica, talvez um axioma, sem necessidade de existência; no entanto, é a mais significativa de todas. Pode ser representada pela frase “Estou sendo surrada pelo meu pai” (Freud, 1919/2016a, p. 101). O psicanalista a supõe como uma etapa inconsciente da fantasia onde sobre ela agiu o recalque ao amor pelo pai, gerando o complexo de culpa e preservando o amor. No caso das meninas, seria o substrato da fantasia de espancamento e apresenta cunho masoquista. A pessoa que bate permanece a mesma, mas muda a que apanha, mostrando as seguintes transformações: “Não, ele não te ama, pois está batendo em você” (p. 105), onde “Meu pai me ama” converteu-se em “O meu pai me bate, estou apanhando do meu pai” (p. 105). Essa segunda fase permanece inconsciente.

Na terceira fase da fantasia de espancamento, Freud encontrou muitas semelhanças com a primeira, porém com caráter sádico manifesto. A fantasia é consciente, a pessoa que bate pode ser indeterminada ou carregar consigo os traços que caracterizam os substitutos do pai, como os professores, e a figura que apanha é um substituto da pessoa que cria a fantasia. Essa se encontra na posição de espectador, sem figurar na cena:

“Provavelmente estou olhando.” (...) A situação originalmente simples e monótona de apanhar pode experimentar as mais diversas variações e adornos, e o próprio apanhar pode ser substituído por castigos e humilhações de outra natureza. (Freud, 1919/2016a, p. 102)

Eis a fase na qual o espectador se dá a ver totalmente: “provavelmente estou olhando”.

O matema do fantasma em Lacan

Como adiantado, Lacan fez uso da linguagem algébrica, pois esta não trata de conteúdo e sim de forma, para formalizar o matema do fantasma. Entendemos que os avanços científicos de Lacan sobre o campo aberto por Freud levaram a novas teorizações. Em relação à fantasia, Lacan fará contribuições em relação ao ponto central do tema que é o da relação do desejo com a Realidade (Eidelsztein, 2004). Já na década de 1950, tanto os elementos quanto a composição do matema estavam se referindo à fantasia como cena especular e o objeto estava situado no campo imaginário.

Aos poucos, Lacan vai acrescentando novas chaves de leitura para o matema (Ꞩ ◊ a). Já no Seminário, Livro 6, O desejo e sua interpretação (Lacan, 1958-59/2016), e em “Subversão do sujeito e dialética do desejo no inconsciente freudiano” (Lacan, 1960/1998b), a fórmula aparecerá no grafo (p. 831) para mostrar que o desejo é regulado pelo fantasma. No ano de 1966, Lacan (1962-63/2005) nos apresenta o fantasma como um marco, um enquadre lógico.

No escrito “Subversão do sujeito...” (Lacan, 1960/1998b), encontramos mais pistas acerca desse enquadre para o fantasma. Lacan se utiliza da palavra étoffe [estofo, material de que é feito], resgatada do estudo de Damourette e Pichon. Aqui, há a possibilidade de posicionar na língua francesa a pessoa tenue [trajada] e a pessoa étoffe, pelo uso dos pronomes átonos je, tu, il/elle ligados ao verbo e os pronomes tônicos moi, toi, lui/elle, independentes do verbo. A pessoa tenue fica reduzida ao gramatical, enquanto a pessoa étoffe, “exprime a noção de uma personalidade concreta completa, munida de caracteres essenciais e acessórios (...) [que] é falado (...) que fala (...)” (Ghilardi & D’Agord, 2018, p. 959) e se dirige aos outros, articulada ao Outro. Desse modo, a possibilidade do engano está colocada, de o outro ser tomado como se fosse o Outro. O sujeito étoffe está em relação, podendo ocupar o lugar tanto de sujeito como de objeto, sendo que um pode vir a ser o outro no processo de fala devido ao significante.

Digamos, para reavivar a metáfora de Damourette e Pichon sobre o eu gramatical, aplicando-a a um sujeito a que ela se destina melhor, que a fantasia [le fantasme] é propriamente o estojo [étoffe, estofo] daquele [Eu] que é primordialmente recalcado, por só ser indicável no fading da enunciação. (Lacan, 1960/1998b, p. 831)

Tanto no Seminário, Livro 9 (Lacan, 1961-62/2003) como no Seminário da Angústia (Lacan, 1962-63/2005), mesmo sem ainda ter estabelecido a lógica, Lacan já anunciava o fantasme como um enquadre que possibilita a cena. Ao chegar ao Seminário, Livro 14, Lacan (1966-67/2017) anuncia no título A lógica do fantasma.

Lacan pensou três formas de registro da realidade: o Real, o Simbólico e o Imaginário. Eles se encaixam ou se articulam? A construção do Esquema R é um modo de pensar a possibilidade do encaixe, situar cada um dos registros e como eles dão sustentação para o campo da Realidade.

No esquema R, o Real é encoberto pelo campo da Realidade, de marcado pelo enquadramento de letras: mi-MI entre o triângulo do Simbólico e do Imaginário. Esse enquadre possibilita a intersecção entre o Imaginário e o Simbólico, fazendo dele um campo sincrônico (no sentido lógico) onde podem desfilar o Sujeito barrado (Ꞩ) em suas relações com o objeto a. Desse desenvolvimento, feito no texto “De uma questão preliminar a todo tratamento possível da psicose” (Lacan, 1959/1998a), derivou mais tarde a apresentação da fórmula (Ꞩ ◊ a), como uma lógica. Vale lembrar que a noção de objeto a com que Lacan trabalha em 1966 já havia se alterado radicalmente. Enquanto nos primeiros anos de seu ensino o objeto estava ligado à ideia de pequeno outro e à imagem, passou à categoria matemática, objeto a, não mais um objeto imaginário, mas uma letra que faz a notação do que Lacan chama furo (trou) homólogo ao lugar êxtimo na estrutura topológica do toro. Entre 1961 e 1967, período que abarca os desenvolvimentos teóricos apresentados nos Seminários de 9 a 14, Lacan desenvolveu o conceito lógico de objeto a, o que levou à necessidade da longa nota de rodapé adicionada por ocasião da posterior publicação, em 1966, nos Escritos como já dito anteriormente. A letra, na álgebra, também, era uma forma de pensar o significante.

A seguir, apresentamos a representação do esquema R, conforme a Figura 1:

Figura 1.
Esquema R. Reimpresso de ‘De uma questão preliminar a todo tratamento possível da psicose’, por J. Lacan, 1959/1998a, p. 559. Direito autoral de Jorge Zahar.

Como assim desfilar o (Ꞩ) sujeito barrado? O sujeito barrado (Ꞩ) não é o assunto do inconsciente que se atualiza constantemente na fala sem nunca se realizar? O sujeito do inconsciente não é uma pessoa, nem a imagem que a pessoa tem de si mesma, trata-se de um assunto inconscientizado. O sujeito é suposto, ficção. Podemos tomar a metonímia, que Lacan usou tanto para desejo quanto para o objeto a, e aplicar ao sujeito. Pensando que a fala tem um desfile nessa banda de Möebius, o fantasma vai enquadrando a fala e o pensamento, é na fala que vai aparecer a fantasia e o fantasma.

O fantasma não é uma lente e sim um recorte inconsciente (Eidelsztein, 2004) que forma o modo como o assunto (Ꞩ) e o objeto a vão entrar em operação (≠ < > ∨ ∧), onde todas essas operações estão potencialmente presentes no modo da sincronia lógica. Esse enquadre lógico é que determinará que tipo de fantasia será, se perversa, o a ocupa o lugar antecedente ao losango (a ◊ Ꞩ), se neurótica, após o losango (Ꞩ ◊ a).

Lacan esclarece que o plano da Realidade só funciona sob a condição de estar obturado pela tela do fantasma. Pois, o plano da Realidade no esquema R está pensado em um plano projetivo. O único corte válido no esquema é miMI, como a semitorção de uma banda de Möebius. Esse campo se torna o lugar tenente do fantasma e o corte fornece sua estrutura (Figura 2).

Figura 2.
A identificação, Lição de 6/6/1962. Reimpresso de Le seminaire: L’Identification, por J. Lacan, 1961-62, p. 9. Recuperado de http://staferla.free.fr/S09/S09.htm

Como pode ser observado, na figura 2, tem-se um cross-cap (o gorro cruzado ou mitra episcopal) cujo corte é a linha de um oito invertido. Esse corte extrai o objeto a e, pelo mesmo corte, é possível visualizar uma Fita de Möebius. Lacan usa o corte em uma superfície topológica chamada (crosscap) exatamente para explicitar a estrutura do fantasma.

Anteriormente, no esquema R, a extração do objeto a permitia que as bordas do campo da Realidade se mantivessem fechadas de modo que o infinito fosse imaginarizável e simbolizável através dos objetos que viessem a vestir o objeto a.

Assim, o objeto a era concebido como “a marca da falta” que se inscreveu como furo entre o Imaginário e o Simbólico.

Portanto, é como representante da representação na fantasia [no fantasma], isto é, como sujeito originariamente recalcado, que o Ꞩ, S barrado do desejo, suporta aqui o campo da realidade, e este só se sustenta pela extração do objeto a que, no entanto, lhe fornece seu enquadre. (Lacan, 1959/1998a, p. 560)

A extração do objeto a é o próprio corte em oito interior, como vemos no cross-cap, ao fazer o corte, restam dois objetos lógicos: o objeto a e a fita de Möebius, esta última como o efeito do corte, isto é, o sujeito barrado. Lacan, também através da topologia, mostrou o corte como modo de pensar o sujeito do inconsciente, sem espaço o dentro “ou” o fora, que seria o caso de uma esfera, mas como uma superfície em que o dentro e o fora estejam em continuidade. Se fizermos a experiência de passar o dedo pela linha média da fita, a percorreremos fazendo uma volta inteira. Apliquemos essa ideia à fala e podemos pensar o desfile dos significantes por essa fita, em que o sujeito do inconsciente, o assunto, desliza metonimicamente entre o outro e o Outro em torno de uma falta, representada pelo objeto a, na busca de apreendê-lo, sem nunca realizar a apreensão, pois ele sempre desliza, como um resto na divisão harmônica. Ou seja, o sujeito barrado e o objeto a estão em uma relação que o fantasma enquadra.

O fantasma poderia ser lido de três modos: a) como uma tela, isto é, uma “tela de projeção que dá a ver; b) um véu que oculta e c) como um enquadre da realidade” (Eidelsztein, 2001, p. 243), uma janela que delimita um campo. Eidelsztein propõe ler o matema (Ꞩ ◊ a) como o sujeito S destacado do objeto a, se for tomado como uma homologia à estrutura do cross-cap ou ao plano projetivo. O (◊) é também a notação da janela que a extração do objeto a torna possível:

(...) permite situar a fantasia [o fantasma] como desejo do Outro. Então encontramos seus dois termos como que fragmentados: um no obsessivo, na medida em que ele nega o desejo do Outro, formando sua fantasia [seu fantasma] para acentuar a impossibilidade do esvaecimento do sujeito, e outro no histérico, na medida em que nele o desejo só se mantém pela insatisfação que lhe é trazida ao se furtar ali como objeto. (Lacan, 1960/1998b, p. 838)

Eidelsztein (2001, 2004, 2008, 2022) nos oferece algumas chaves de leitura para compor a noção de matema do fantasma, com as quais podemos formular a ideia de que Lacan constrói um apoio para a clínica das neuroses no fantasma, como uma clínica do intervalo ou da pergunta, e um apoio para a clínica das psicoses na teoria dos nós borromeanos formulada nos anos seguintes. A clínica do intervalo pressupõe a operação de extração do objeto a considerando a topologia de superfícies. Isto é, o que se extrai de um cross-cap quando corta pela borda de uma fita de Möebius que estaria inscrita nesse cross-cap. Nesse corte, o sujeito barrado será comparado ao percurso do corte, e o objeto a ao que o corte contorna. Na clínica das psicoses se presume que não houve extração do objeto a, portanto não se constituiu a pergunta “Che vuoi?”, nem se organiza o enquadre do fantasma que faria cessar o movimento orientado pelo desejo do Outro, como vemos na Figura 3:

Figura 3.
Grafo 3 e Grafo Completo: quadratura do fantasma. Reimpresso de “Subversão do sujeito e dialética do desejo no inconsciente freudiano”, por J. Lacan, (1960/1998b, p. 829).2 (Direito autoral de Jorge Zahar)

Lacan fez uma leitura crítica da função de triangulação freudiana no complexo de Édipo, e o reverte nos moldes do quadrângulo propiciado pelo instrumento do grafo. É a inscrição da falta que faz surgir o desejo, como mais além da demanda, isso é, como determinante da demanda. A pergunta se formula em (A) e se realiza em (A), mas se articula pelo sujeito (Eidelsztein, 2022). Essa pergunta particular é possível por ter operado a função do complexo de Édipo: “Para Lacan, a problemática do símbolo fálico e a função do pai no complexo de Édipo repercute no sujeito como uma pergunta, e essa pergunta será — fundamentalmente — a pergunta pelo sexo e pela vida” (Eidelsztein, 2022, p. 147).

Törless encontra-se, por sua juventude e por sua condição humana, enredado no enigma sobre o sexo e a vida, no fantasma. E, aqui se requer diferenciar a perspectiva de Freud e de Lacan. Para Freud, o sexo e a vida estão no campo do natural. O natural e a natureza humana, para Lacan, são fatos de discurso. Quando Lacan nomeia o humano de falasser, mostra que o sexo e a vida estão mediados pela linguagem.

O falasser do Lacan está só no campo da linguagem, e a vida não, o campo do sexual é fora do campo do significante, o significante não é natural, não há um significante equivalente ao sexo. Não tem equivalência entre o que é significante e natureza, guardadas as diferenças entre Lacan e Saussure (2006, p. 80), este já dizia que o significante não faz referência a uma coisa no mundo, mas a um conceito.

Quando dizemos sujeito desejante, é bom ter presente que não se trata do desejo pessoal de cada um, pois que a proposta de Lacan ao desenvolver o matema do fantasma, desde a construção dos grafos e esquemas, é para mostrar que o desejo é não sabido.

O objeto é estruturalmente indiferente, o que marca essa condição é tomá-lo como letra, objeto a, um modo de dizer “causa de desejo”. O que o fantasma faz? Investe o objeto a como um objeto privilegiado no discurso do Outro, em substituição e ocultamento do furo como causa do desejo no “momento de um fading ou eclipse do sujeito, estreitamente ligado à Spaltung ou fenda que ele sofre por sua subordinação ao significante” (Lacan, 1960/1998b, p. 830). Isto é, a alienação e a separação, representadas pelo símbolo da punção.

A questão do desejo é que o sujeito evanescente anseia por ser reencontrado graças a uma espécie de encontro com esta coisa milagrosa definida pelo fantasma. Em seu esforço, ele é sustentado pelo que chamo o objeto perdido (que mencionei no início: uma coisa tão terrível para a imaginação). Aquilo que se apresenta e mantém aqui, e que em meu vocabulário chamo de objeto a, é bem conhecido pelos psicanalistas, já que todo psicanalista se funda na existência desse objeto peculiar. Mas a relação desse sujeito barrado com esse objeto (a) é a estrutura com a qual sempre se encontra o fantasma, com a qual o fantasma sustenta o desejo, enquanto o desejo é somente aquilo que tenho chamado a metonímia de toda significação. (Lacan, 1966 como citado em Trapani, 2001, p. 6; tradução da autora)

A ideia de que o inconsciente é discurso do Outro pode ser lida junto com o título da conferência de Lacan em Baltimore: o sujeito em imisção de alteridade (Lacan, 1966).

A fantasia e a janela do fantasma em O jovem Törless

Gurski e Perrone (2021) analisam a novela O jovem Törless como retrato de uma época na qual a sociedade sente a perda dos ideais humanistas como sustentação do sistema de educação, que foram substituídos pela socialização instrumental. Uma lógica instrumental mediava os gestos violentos entre os alunos, e a impassibilidade dos professores, o desconhecimento do que se passava, era seu correlato.

O grande Outro é o campo dos discursos, e é onde se situam os discursos vigentes. O orfanato comparece como um sistema educacional em transformação frente às mudanças de época na juventude de Musil. Faz-se palco do romance de formação, recolhe as marcas desse período vital conturbado e violento aos jovens, num império em decadência. Nessa narrativa ficcional da sociedade é possível perceber, entre outros, o que Lacan nomeou como discurso do mestre, discurso histérico e o discurso universitário. Esses discursos, escritos abaixo em linguagem algébrica, com letras em determinada ordem, de modo que ao lhe ser aplicado um quarto de giro, muda o discurso. Discursos, que na teoria de Lacan (1969-70), sustentam o mundo e são anteriores à experiência humana. Discurso é laço social.

Figura 4.
Fórmulas de discursos.

No laço social, conforme a fórmula do discurso do mestre, o fantasma sustenta a relação Ꞩ1 ⇒ S2. No discurso do mestre, há apropriação de um saber-fazer, mas não há produção de saber. Para haver essa produção, se faz necessária a operação de um quarto de giro (Lacan, 1969-70) e o acionamento do discurso histérico.

A instrumentalização do outro aparece, na novela de Musil, pela forma como os jovens Beineberg e Reiting, tomam para si a tarefa de educar o colega Basini, tomando-se como senhores de Basini. Eles nada querem saber, somente dar sequência a seu projeto. Beineberg e Reiting estão enganchados no discurso do mestre, identificando-se ao lugar do senhor que se apropria de algo daquele que é colocado no lugar de escravo por algum traço de sua existência. É seu modo de se situar frente ao grande Outro. Respondem com o fantasma de educador onde Basini é capturado. Mesmo assim, Basini estava no engano de que ia ser protegido ao tomar os colegas como amigos e submeter-se ao fantasma de educação, vestido por aqueles a quem considerava seus amigos. A ideia do engano é o ponto-chave para pensar em que consistia sua submissão e participação. Törless se inquietava procurando desvendar o enigma da posição de Basini. Törless pode fazer o giro discursivo de passar do discurso do mestre ao discurso histérico — dividido — ele questiona o saber do professor de matemática, coloca em dúvida o saber dos pais sobre como lidar com os acontecimentos. Percebe a limitação das ideias e do alcance dos métodos e onde os colegas veem glória, Törless vê apenas brutalidade.

Com Freud e Lacan, sabemos que o ideal educativo diz de um impossível. Ora, negar um impossível é sustentar que há um universo de discurso, que o ideal ainda está vivo, que há garantias, ou seja, haveria um Outro do Outro. É do furo no universo de discurso, na impossibilidade de ter garantias com o discurso científico que podemos fazer uma leitura do contexto histórico dessa obra de Musil. Os dois estudantes torturam um colega para testar os limites do ser humano. Basini é tomado pelo fantasma educativo e científico dos colegas. No modelo da desumanização, proposto pela educação militarizada da época, o outro pode ser violentado com a justificativa do objetivo de educar. Podemos considerar, por outro lado, que tanto Beineberg e Reiting são presas do fantasma do ideal educativo e instrumental. Considerando o conceito de imisção do sujeito pela alteridade, o fantasma está no campo do Outro, mas o sujeito está em imisção de alteridade, o sujeito e o Outro estão misturados.

Um outro aspecto a considerar é uma lembrança do personagem Törless. Essa lembrança inaugura estados mentais que conduzem à cena sem que ele possa acessar a lembrança. Ela apenas se insinua. Está associada a sons e à impossibilidade de formar uma imagem. Ao final da novela, revela-se a lembrança de sons provindos de trás da folhagem para onde se dirigiu a babá. Era esse enigma que Törless perseguia na figura de Basini e suas relações com os demais colegas. O que se passava entre eles nas noites em que Törless ouvia os ruídos noturnos dos jovens deixando o dormitório discretamente? A situação de terceiro excluído se revelou na cena com a babá e o marcou pelo desejo de saber.

Ao abordar os personagens da novela com a teoria de Freud, podemos dizer que Törless se identifica a Basini, colocado no lugar feminino, como objeto de amor dos mais velhos, ao mesmo tempo que repudia a ideia. Reiting e Beineberg passam a ocupar o lugar de substitutos dos professores e, em última instância, dos pais de Törless. Na chegada ao internato, os pais reconhecem em Reiting e Beineberg uma tutoria para Törless, enquanto Basini não contou com a palavra de um pai que demandasse proteção a ele. O temor de que a agressão instituída se volte contra ele faz com que Törless não possa denunciar o roubo nem os agressores e não tem autoridade para suspender a violência. Törless está num espaço intermediário, dentro e fora da cena, fica como espectador.

Para Freud (1919/2016a), a primeira fase da fantasia é incestuosa e na segunda fase opera um recalque do qual resulta o sentimento de culpa. Esse converte a fantasia em masoquista como um substituto regressivo da relação incestuosa. Freud flexiona a fantasia gramaticalmente em três tempos, e como chave de leitura nos permite pensar o que se passou com Törless. Há duas lembranças patogênicas reveladas ao final da novela. Uma da babá que o deixa sozinho e some entre as folhagens e, a outra, de quando bem pequeno ter certeza de ser uma menina, sobre a qual lhe era impossível falar. Na novela, acompanhamos o desenrolar da busca de reconhecimento de seus lugares na narrativa dos outros por parte dos personagens, como objetos de amor válidos, cada um referente à própria história familiar, que marca sua existência no coletivo.

Como já destacamos, Lacan se perguntava, a partir dessa novela de Musil: Como é possível se situar como sendo, pela própria existência, fisgado no fantasma dos colegas? [La proie des fantasmes]

(...) d’un enfant, les éducateurs, avant de chercher à s’apercevoir à quelle étape, à quel stade, il sera capable de considérer que le je et le tu sont réciproques, feraient mieux de s’enquérir de quelles sont les meilleures voies qui lui permettent de se situer comme étant, de par son existence même, la proie des fantasmes de ses petits camarades. (Lacan, 1966-67/2023, p. 169, lição de 1/2/1967)

Ampliamos o escopo da pergunta considerando a questão da captura no fantasma de um outro, tomado no lugar do Outro, isto é, em relação com a alienação como resposta no particular. Questionamos, numa posição psicanalítica advertida: como é possível não ser capturado pelo Outro?

Figura 5.
Quadro da Divisão do Sujeito.

Acima o quadro da divisão do sujeito, apresentado durante o Seminário A Angústia (Lacan, 1962-63/2005), onde podemos visualizar que os elementos do matema do fantasma estão do lado do Outro (A). O sujeito em imisção de alteridade será, portanto, a chave de leitura para esse matema.

Se acompanharmos Lacan na construção do conceito de grande Outro, perceberemos que, para cada conjunto de aspectos, o autor dedica uma forma de notação. O A como o tesouro inesgotável dos significantes, implica que não é um universo fechado. Voltemos aos estudos matemáticos do personagem Törless. Esse personagem encarna a busca pelo acesso às camadas de discursos, atento aos enigmas constituídos pelo alcance de seus semelhantes a áreas do discurso que ele não apreende mais do que indícios. Esses indícios se convertem em traços, marcas que exigem um “ponto atrás”, um enganchar em algo já conhecido para arremeter à possibilidade interpretativa que o leve adiante. O grande Outro discursivo sustenta infinitos bastidores, os marcos, a partir dos quais se delimita a janela para o pouco de realidade possível. Isto é, “toda a substância do fantasma, mas que é também, talvez, toda a realidade que podemos aceder” (Lacan, 1965-66, p. 256).

Com Törless, vamos acompanhando o trabalho do jovem para inserir o corpo, os pensamentos, a percepção e os outros na atualização da cena da vida. É um trabalho contra a opacidade do Outro. É conquista de subjetividade através de escolhas simples e de escolhas forçadas (Lacan, 1964/1988). O desejo é, na teoria de Lacan, inacessível. Pode-se dizer algo sobre o desejo ao ler as voltas da demanda em torno do objeto a, também, inacessível, pois dele só podemos identificar os substitutos, sempre depois do dito etc.

Em O jovem Törless, destacamos o olhar como um representante do objeto a para leitura do matema do fantasma, o olhar, “esse objeto que tem o privilégio de ir ao Outro como tal” (Lacan, 1965-66, p. 255) na medida em que está nessa situação de fenda e que “justifica a existência da tela (écran)” (p. 255). Desse modo, a tela, o enquadre, oferece anteparo e amparo. Anteparo, pois recebe, encobre e aglutina imagem a qual Lacan chama de Realidade, amparo pois faz parar a queda infinita do caos, criando os momentos finitos das inscrições do sujeito na cena.

Diante disso, perguntamos: Basini é capturado no fantasma de educador dos colegas? Cada um dos personagens é capturado no fantasma, e cada um responde de forma particular. Basini goza do temor. Ora Törless se identifica com Basini, como pessoa delicada, e ora tem raiva de Basini e se identifica com os agressores, pois julga Basini vil. O Sujeito capturado no fantasma do outro pode ser Törless. A divisão está em Törless, o foco é nele. É narrado como o personagem que está a par do que se passa, tem alta densidade, diferentemente dos demais. Algo que lhe falta, a delicadeza, a inferioridade, e algo referente ao abjeto, que ele não sabe o que é, captura-o. Mas ele não tortura Basini, tudo se passa no pensamento. Os torturadores se acham certos, sentem-se numa missão. Basini poderia fugir, mas não o faz. Podemos ler que Basini teria sido capturado pelo fantasma educativo dos colegas, pois ele é aquele que porta uma marca de fragilidade em um contexto discursivo em que a virilidade é relacionada à força física, visto que a narrativa se passa em uma escola militar. É nesse sentido que Lacan nos diz que é por sua própria existência que a criança se torna a presa do fantasma dos colegas.

Na novela, uma cena que pode corresponder ao que se refere Lacan, quando diz da leitura da condição do outro por sua própria existência mesma, é:

O contato com o príncipe tornou-se para Törless fonte de um refinado prazer psicológico. Fez desabrochar nele aquela compreensão do ser humano que nos possibilita reconhecer outra pessoa pelo tom de voz, pela maneira de segurar um objeto, até pelo timbre do seu silêncio ou a postura com que se coloca num determinado espaço; em suma, por toda uma maneira quase imperceptível mas peculiar de alguém existir — isso que envolve o cerne, o que é palpável e abordável, como a carne acomodada em torno do esqueleto, coisas que podem ser apreciadas de forma tão nítida que permitem intuir a personalidade do outro. (Musil, 1981, p. 12)

Em Musil (1981), trata-se da leitura do outro pelos seus gestos, postura, silêncios, olhares, que funcionam como um manto, um estofo (étoffe), que permite a leitura pelo discurso do Outro. No caso da novela de Musil, esse Outro é confundido com o discurso hegemônico. Assim, lido pelo discurso do poder, Basini, pela ausência de sinais viris, aliada à suspeita de roubo, é marcado como uma exceção. O lugar de exceção foi trabalhado por Freud (1913/1980) em seu mito do pai idealizado e exceção em “Totem e tabu” como figura que “estaria de posse daquilo que ao sujeito falta” (Souto, 2013, p. 20). Isto é, àquele que pode tudo não reconhece lei nem falta. Nesse sentido, a lei se aplica a todos, com exceção dele.

Lacan (1962-63/2005), no Seminário Livro 10, articulava a estrutura do fantasma “à função da moldura, da janela” (p. 309), o que indica uma mediação ao incomensurável. Ele já está usando noções aritméticas de extração e divisão, mas uma leitura lógico-matemática da falta ocorrerá a partir do Seminário Livro 14 (1966-67/2017). Qual o objeto que sempre faltou? O objeto a. Por que não há universo do discurso? Porque no campo do Outro também há falta. Nunca vai haver uma igualdade entre objeto e sujeito, sempre há um resto. Beineberg e Reiting são personagens que não representam subjetividades divididas. Ou seja, para eles há apenas o discurso hegemônico. Törless está dividido e em posição de quem não sabe, e o desconhecido o acossa.

Na composição perversa (a ◊ Ꞩ) onde o a se inscreve no lado do sujeito (Je) ainda não constituído (Lacan, 1963-63/2005), em relação com o desejo sádico (ds) e o Sujeito barrado (Ꞩ) situado do lado do Outro, o que se busca, mais do que o sofrimento do outro, é a angústia.

Basini aproveita a fantasia dos colegas para obter o que lhe interessa, a amizade e seus benefícios, incluindo as descobertas sensuais. Esse personagem aceita a explicação de Beineberg de que, se bate nele após as práticas amistosas, poderá pensar que Basini é um objeto desprezível; do contrário, teria que se deparar com a ideia de que Basini é um homem, e o pensamento de ter intimidades com um homem, lhe seria insuportável. Nesse sentido, esse personagem representaria uma forma de não divisão subjetiva.

Basini diz a Törless que o ocorrido entre ele e os colegas apenas “acontece”. Seja no tocante à sensualidade, seja expressa no modo de uma sexualidade genital levada à realização, seja no modo das violências físicas ou psicológicas.

Na novela, percebemos o movimento que há entre os personagens para se posicionar frente às demandas. A demanda a ser decifrada, a cada vez, implica as relações com o semelhante e com o mais além, isto é, com aquilo que é suposto na demanda. E, estando na leitura/escuta do intervalo, podemos pensar que Törless está constantemente tensionado a interpretar a demanda advinda do campo do grande Outro, como sua própria mensagem recebida de forma invertida. Procura suas respostas ao ver as cenas que se desenrolam em torno de si e se desespera ao escutar as respostas vindas dos colegas Basini, Beineberg, Reiting, do professor de matemática, além das obtidas através das cartas aos pais, pois elas não são equivalentes.

As demandas do discurso vigente se particularizam para cada um dos personagens. O que cada um faz com elas? Em geral, Basini, Beineberg e Reiting agem. Törless formula perguntas desde o início até o final da novela. Particularizar a pergunta fazendo furo no universal, é um modo de dizer que não há universo do discurso. A psicanálise vem a mostrá-lo, precedido pela literatura:

Pois nossa vida se resume apenas em colocar marcos e pular de um a outro, diariamente, passando por cima de mil segundos de morte. De certa forma só vivemos nos pontos de repouso. Por isso, temos um medo tão ridículo da morte definitiva, pois ela é o lugar sem marcos, o abismo imensurável no qual despencamos, na verdade, ela é a negação absoluta dessa maneira de viver. (Musil, 1981, p. 166)

Musil apresentou uma teoria sobre o pensamento e os marcos da Realidade, à qual chamou “o mal saltitante”, onde situou o intervalo entre pensamento e sensações como um abismo, de onde espocam, do nada e simultaneamente, outros diferentes. “Se prestarem atenção, podem até sentir, entre dois pensamentos, um instante em que tudo é absoluta escuridão. Esse instante, uma vez apreendido é para nós o mesmo que a morte” (Musil, 1981, pp. 165-166). Foi na fala de Beineberg, enquanto tentava hipnotizar Basini, que o autor apresentou a teoria.

Considerações finais

Este trabalho se insere no campo das pesquisas psicanalíticas e, também, por isso, assumimos um movimento de busca constante da precisão dos conceitos no modo work in progress, pois no campo da linguagem não há definitivo. Nossos movimentos, aqui apresentados, foram instigados por uma provocação de Lacan (Como é possível ser fisgado no fantasma do outro?); pelos estudos de Eidelsztein, que propõe uma desambiguação dos conceitos de fantasia de Freud e fantasma em Lacan, para além de problemas de tradução, e pela leitura-escuta da novela de Musil. Eidelsztein (2022) propõe que o fantasma tem uma função muito maior na teoria e na clínica de Lacan do que a fantasia inconsciente teve como apoio à clínica das neuroses para Freud. Assim, a questão que provocou este estudo foi colocada em suspensão e partiu-se em busca das bases dos conceitos de fantasia e de matema do fantasma. Nesse movimento, o achado a ser destacado, “a posição do espectador fora da cena”, na fantasia em Freud, se situa no campo da imaginação e pertence à consciência, enquanto o matema do fantasma de Lacan supõe a estrutura lógica do enquadre ao pouco de realidade que os humanos podem acessar, pois habitam a linguagem.

Na novela de Musil, a criança é usada como meio para a realização instrumental do fantasma de educação. É a ideia de que o outro pode ser violentado, desde que se alcance o objetivo de educar.

Lacan (1966-67/2023) faz uma crítica ao método pedagógico centrado nos processos conscientes da psicologia do desenvolvimento e no estatuto da reciprocidade para ensinar as regras da moralidade, pois fica limitado às relações imaginárias do comportamento social, entre pequenos outros, portanto fora do campo do Outro. Sugere a pergunta/leitura sobre os processos inconscientes que entram em operação e fazem com que a criança venha a se situar como sendo a presa dos fantasmas dos coleguinhas, por sua própria existência, isto é, onde as relações estão tomadas no campo do Outro. O que Lacan propõe como sendo inconsciente, está estruturado como linguagem e se faz discurso do Outro, onde se funda o sujeito do inconsciente (S), a partir da operação de alienação (Lacan, 1964/1988). Desde esse momento, o sujeito está em imisção de Outridade (Lacan, 1966; Trapani, 2001), isto é, o sujeito está misturado ao grande Outro.

Os alunos do internato estão nessa condição de sujeito étoffe quando portam traços que dão a ler seus lugares. Basini é órfão de pai, isso é próprio da existência do Basini. Os colegas querem educar Basini pelo linchamento, eliminando a fala que é o apelo à justiça, substituindo-a pelo fazer com as próprias mãos. Embora essa negação, as leis da linguagem se impõem. Os seres falantes estão sempre tomando o outro pelo Outro, e nisso reside seu engano, pois o Outro veste o outro com seus fantasmas, que cabe ao outro ler para situar-se. O que Lacan chama de Realidade é o prêt-à-porter do fantasma (Lacan, 1966-67/2023, p. 16; Lacan 1966-67, versão Staferla, p. 9). Na novela, no fantasma “ser um educador”, cada um dos personagens se situou de modo particular.

O que Lacan (1966; Trapani, 2001) chama de sujeito mítico coincide com o sujeito do gozo, ao qual a lei do princípio do prazer oferece limite. O vivente encontra-se sob a pressão do gozo, e a barreira será dada pelo prazer/ desprazer. A estrutura do fantasma permite fazer a leitura do que se passa entre os viventes nas relações do desejo do Outro, o Sujeito marcado pela barreira e o objeto a. Na novela, testemunhamos os personagens encarnando o embate, forçando a barreira para deteriorá-la e acessar o gozo proibido, através da desumanização, e o personagem Törless encontra no prazer/ desprazer a força para restabelecer a barreira ao gozo. Todos estão de algum modo envolvidos nisso. Mas, como sair da armadilha do fantasma do outro?

Retomando a fantasia em Freud, podemos considerar que a cena imaginária da fantasia constrói a cena com um roteiro que gira em torno do objeto de amor, imaginário. Em Lacan, trata-se do enquadramento do fantasma, onde o objeto está em outro estatuto, já não é o objeto de amor, mas o objeto da demanda em geral, isto é, a própria demanda é esvaziada, não há um objeto que lhe corresponda. O fantasma tem a função de obturar a falta do objeto a, que marca o lugar de causa do desejo, mesmo sem sê-lo, pois o desejo não tem uma causa, é interdito do gozo. O objeto a é impossível de encontrar, pois ele é lógico e não ôntico. No grafo do desejo, quando Lacan desenhou pela primeira vez a fórmula do fantasma, ele colocou um vetor do desejo ao fantasma, dizendo que o que nos é acessível é o fantasma e não o desejo.

Agradecimentos:

À Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Instituto de Psicologia, PPG Psicanálise e Cultura, por propiciar o espaço parta a pesquisa científica.

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(...) para aqueles que leram ou assistiram no cinema “As perplexidades do aluno Törless” (...) eu diria que o estatuto da reciprocidade é o que faz a boa posição desse colégio de professores orientadores, que, no fundo, nada querem saber, nem nada tocar nessa atroz história que manifesta, mais do que a questão da formação de um indivíduo, mas muito especialmente de uma criança (...) os educadores fariam melhor em se perguntar quais são as vias privilegiadas que permitem a ela se situar como sendo (...) por sua própria existência (...) a presa dos fantasmas de seus colegas de classe, antes de procurar avaliar em qual etapa ou estágio ela será capaz de considerar que o “eu” e o “tu” são recíprocos. (tradução nossa).

2

Quadratura do Fantasma. Grafo completo: (B831 – F817.png – Figuras Escritos https://drive.google.com/file/d/1r1VftnvYzS5Bix3qZ_or6qRxfup2o55d/view?usp=share_link. LATESFIP – Laboratório de Teoria Social, Filosofia e Psicanálise – Universidade de São Paulo. Criado por Roberto Mendonça 19 outubro de 2019. Último acesso em 22 mar.2023.

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Este artigo é uma elaboração a partir da dissertação de mestrado, intitulada A captura no fantasma do outro: Lacan leitor de Musil, defendida no Programa de Pós-Graduação em Psicanálise: Clínica e Cultura do Instituto de Psicologia, Serviço Social e Comunicação Humana da Universidade Federal do Rio Grande do Sul – UFRGS, Porto Alegre, RS, em 22 de maio de 2023.

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    13 Jan 2025
  • Data do Fascículo
    2024

Histórico

  • Recebido
    15 Ago 2023
  • Revisado
    03 Jun 2024
  • Aceito
    05 Jul 2024
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