Open-access No além do princípio de prazer: Édipo1

Beyond the pleasure principle: Oedipus

Au-delà du principe de plaisir: Œdipe

Más allá del principio del placer: Edipo

Resumo

Este artigo realiza uma leitura de “Além do princípio de prazer” para demonstrar que a centralidade do complexo de Édipo está ancorada na formulação da pulsão de morte. A segunda teoria das pulsões resulta do paradoxo da melancolia: a clivagem e introjeção do objeto mau. A pulsão de morte é esse ataque interno na ausência do objeto, transformando a melancolia no paradigma clínico da pulsão de morte, porque é nela que se observa a pura cultura da pulsão de morte. As duas pulsões, de vida e morte, nasceriam com a perda do objeto, representando o amor e ódio. O ponto de virada na simbolização da perda do objeto é o complexo de Édipo, que permite a perlaboração das experiências precoces de separação.

Palavras-chave:
Metapsicologia freudiana; pulsão de morte; complexo de Édipo; melancolia


Abstract

This article examines “Beyond the Pleasure Principle” to demonstrate that the centrality of the Oedipus complex is anchored in the formulation of the death drive. The second theory of drives results from the paradox of melancholia: the cleavage and introjection of the bad object. The death drive is this internal attack in the absence of the object, making melancholia the clinical paradigm of the death drive, since it is in melancholia that the pure culture of the death drive is observed. The two drives, life and death, are born with the loss of the object representing love and hate. The turning point in the symbolization of the loss of the object is the Oedipus complex, which allows the working though of early experiences of separation.

Keywords:
Freudian metapsychology; death drive; Oedipus complex; melancholia


Abstract

Cet article li “Au-delà du principe de plaisir” pour démontrer que la centralité du complexe d’Œdipe est ancrée dans la formulation de la pulsion de mort. La deuxième théorie des pulsions résulte du paradoxe de la mélancolie: le clivage et l’introjection du mauvais objet. La pulsion de mort est cette attaque interne en l’absence de l’objet, ce qui fait de la mélancolie le paradigme clinique de la pulsion de mort, car c’est là que s’observe la culture pure de la pulsion de mort. Les deux pulsions, de vie et de mort, naissent avec la perte de l’objet, représentant l’amour et la haine. Le tournant dans la symbolisation de la perte de l’objet est le complexe d’Œdipe, qui permet l’élaboration psychique des premières expériences de séparation.

Mots-clés:
Métapsychologie freudienne; pulsion de mort; complexe d’Œdipe; mélancolie


Resumen

Este artículo lee “Más allá del principio del placer” para demonstrar que la centralidad del complejo de Edipo está anclada en la formulación de la pulsión de muerte. La segunda teoría de las pulsiones resulta de la paradoja de la melancolía: la escisión y la introyección del objeto malo. La pulsión de muerte es este ataque interno en ausencia del objeto, lo que hace de la melancolía el paradigma clínico de la pulsión de muerte, porque es allí donde se observa el cultivo puro de la pulsión de muerte. Las dos pulsiones, vida y muerte, nacen con la pérdida del objeto, representando el amor y el odio. El punto de inflexión en la simbolización de la pérdida del objeto es el complejo de Edipo, que permite a elaboración psíquica de las primeras experiencias de separación.

Palabras clave:
Metapsicología freudiana; pulsión de muerte; complejo de Edipo; melancolía


“Foi em 12 de novembro de 1897; o Sol estava no ângulo leste; Mercúrio e Vênus em conjunção -.” Não, nenhum anúncio de nascimento começa mais assim. Foi em 12 de novembro, um dia dominado por uma enxaqueca no lado esquerdo, na tarde em que Martin se sentou para escrever um novo poema, na noite em que Oli perdeu seu segundo dente, que, após terríveis dores de parto das últimas semanas, dei à luz uma nova peça de conhecimento. (Masson, 1985, p, 278)

Teria sido mais ou menos dessa forma, como descrito na carta de 14 de novembro de 1897 de Freud para Fliess, que a segunda teoria das pulsões foi concebida? Ou a gestação da pulsão de morte percorreria toda a obra freudiana?

Uma inquietação acompanhava Freud pelo menos desde a década anterior à emergência da pulsão de morte, o que pode ser testemunhado nas “Minutas da Sociedade Psicanalítica de Viena”. Na sessão de 20 de abril de 1910, Freud afirma que “no suicídio, a pulsão de vida é superada pela libido” (Nunberg & Federn, 2019, p. 273). Na reunião seguinte, Freud aponta que o acesso ao complexo suicida reside na melancolia, “cuja natureza nos é atualmente desconhecida” (p. 280). Como esclarecer que a pulsão de vida, identificada nessa época com a autoconservação, seja subjugada? - “queríamos saber... se isso só pode acontecer com a ajuda de uma libido decepcionada ou se há renúncia do eu em afirmá-la por motivos que lhe são próprios” (p. 282). Em outras palavras, é possível compreender esse estado clínico conhecido como “melancolia” pela teoria da sexualidade até então existente, ou é necessário que algo intervenha no Eu?

A resposta será fornecida em “O Eu e o Id”, que é uma consequência direta de “Além do princípio de prazer”, como se fosse necessário acomodar a nova teoria pulsional dentro do aparelho psíquico, o que demandava uma nova topologia, também conhecida como teoria estrutural (Sulloway, 1979).

A segunda teoria das pulsões e a segunda topologia não foram as únicas novidades da década de 1920. Embora a prática clínica indicasse claramente o caráter absolutamente central do Édipo, essa noção não se encaixava muito bem no edifício teórico montado por Freud (Monzani, 1989/2014); foi somente em “Inibição, sintoma e angústia” que Freud organizou toda a psicopatologia em torno do Édipo e da castração.

Como explicar que o Édipo somente tenha adquirido o seu devido destaque na teoria psicanalítica depois da formulação da segunda teoria das pulsões e da segunda topologia, se a sua importância para a estruturação da sexualidade já era conhecida por Freud, fosse pela sua autoanálise, fosse pela análise de seus pacientes?

Nossa hipótese é que a centralidade do Édipo está implícita no próprio “Além do princípio de prazer”. Para ler esse texto, apoiar-nos-emos na Tese de Monzani (1989/2014). Como num movimento pendular e espiralado, as ideias de Freud jamais são abandonadas, mas sofrem uma “progressiva redefinição, retificação ou explicitação” (p. 294). Dois autores, em particular, são utilizados por Monzani para trabalhar o conceito de pulsão de morte: Jacques Derrida e Jean Laplanche. Ambos serão empregados neste artigo para dar suporte à nossa interpretação, de que a pulsão de morte explica o mecanismo da melancolia: a clivagem e introjeção do objeto mau.

Dentro do princípio de prazer (I-II)

No primeiro capítulo de “Além do princípio de prazer” (APP), Freud (1920/2020) esclarece a sua intenção: oferecer uma explicação metapsicológica - uma explicação é chamada de metapsicológica quando concilia os pontos de vista topológico, dinâmico e econômico - para o significado das sensações de prazer e desprazer.

O pressuposto básico é de que “haveria um empenho do aparelho psíquico em manter a quantidade de excitação nele presente tão baixa quanto possível, ou ao menos constante” (p. 63). Reduzir a quantidade para o menor nível possível e manter a energia constante são duas metas diferentes. No primeiro caso, pode-se dizer que já há a introdução do princípio de nirvana, ou daquilo que no “Projeto...” (1950[1895]/2003) fora chamado de inércia, o zero de excitação. No segundo caso, trata-se do princípio da constância.

Não é verdade que o princípio de prazer domine o curso dos processos psíquicos: “Então, somente pode ser que na psique exista uma forte tendência ao princípio de prazer, à qual se opõem certas outras forças ou circunstâncias, de modo que o resultado final nem sempre possa corresponder à tendência ao prazer” (Freud, 1920/2020, p. 65).

Para as situações de inibição do princípio de prazer, existe um primeiro caso: o princípio de realidade. E um segundo: o recalcamento. Com o recalque, ocorre uma inversão do afeto. O que é prazeroso para um sistema pode ser desprazeroso para outro: “certamente qualquer desprazer neurótico é dessa espécie, é prazer que não pode ser sentido como tal” (p. 69). A maior parte do desprazer é devido à percepção, seja da pressão das pulsões insatisfeitas, seja daquilo que no exterior é reconhecido como perigoso.

Para concluir o primeiro capítulo, Freud diz que é a investigação da reação psíquica ao perigo externo que pode fornecer novo material. O que se depreende desse capítulo? Essencialmente, que a neurose não contradiz o princípio de prazer. O desprazer neurótico é como aquele de “O homem dos ratos”: “Em todos os momentos mais importantes do relato, percebe-se nele uma expressão facial composta de elementos muito peculiares, que somente posso interpretar como horror diante de seu prazer, ignorado por ele mesmo” (Freud, 1909/2021a, p. 347).

Portanto, o masoquismo ainda não foi contemplado. O masoquismo, do ponto de vista econômico, é enigmático: “Se a dor e o desprazer não mais constituem advertências, mas se tornam eles próprios as metas, o princípio de prazer fica paralisado; o guardião da nossa vida psíquica fica como que narcotizado” (Freud, 1924/2021d, p. 287). Para além do desprazer neurótico, que é de fato um prazer inconsciente, existe um desprazer não-neurótico, masoquista, que não atende ao princípio de prazer. Mas Freud não inicia o APP pelo masoquismo, e sim pelo perigo externo.

O segundo capítulo introduz a neurose traumática, assim como a diferença entre Schreck, Angst e Furcht. A angústia é apresentada como anti-traumática: “na angústia [Angst] há algo que protege contra o terror [Schreck]” (Freud, 1920/2020, p. 73). O masoquismo é admitido, então, pois a tendência realizadora de desejos do sonho, no caso dos neuróticos traumáticos, teria sido “abalada e desviada de seus propósitos, ou teríamos, necessariamente, de nos lembrar das enigmáticas tendências masoquistas do Eu” (p. 75).

Em seguida, o famoso “jogo do carretel” é mencionado. A criança, de um ano e meio, recebia elogios por ser bem-comportada:

Não perturbava os pais à noite, obedecia conscienciosamente às proibições de tocar em certos objetos e de entrar em determinados cômodos da casa e, acima de tudo, nunca chorava quando a mãe a deixava por horas, muito embora ela estivesse ternamente ligada a essa mãe que não apenas havia amamentado a criança pessoalmente, como também, sem qualquer ajuda alheia, havia cuidado dela e a amparado. (pp. 75-77; grifo nosso)

Jacques Derrida (1980/2007), com muita sensibilidade, capta uma acusação sutil de Freud a seu neto; este tinha ótimas relações com o mundo e, sobretudo, não chorava a ausência da mãe. Mas, “essa criança comportada passou a apresentar o hábito, às vezes incômodo” (Freud, 1920/2020, p. 77, grifo nosso), de um jogo:

Tudo o que essa excelente criança possui de bom (apesar de tudo), sua normalidade, sua calma, sua aptidão para suportar a ausência de sua filha (mãe) bem-amada sem medo e sem choro, tudo isso deixa pressagiar um custo. Tudo é muito construído, escorado, dominado por um sistema de regras e de compensações, por uma economia que vai aparecer, um instante depois, como sendo um mau hábito. Este último permite suportar o que os “bons hábitos” poderiam lhe custar. (Derrida, 1980/2007, p. 343)

Assim, o jogo do “fort (desapareceu, sumiu) - da (eis aqui, achô, chegô)” é esclarecido: “A interpretação da brincadeira estava clara, então. Ela estava associada com a grande realização cultural da criança, com a renúncia pulsional levada a cabo por ela (renúncia à satisfação pulsional), ao consentir, sem oposição, que a mãe fosse embora” (Freud, 1920/2020, p. 79). Ou, nas palavras de Derrida (1980/2007):

Os elementos da encenação foram assentados: a normalidade originária em relação com o seio bom, o princípio econômico exigindo que o distanciamento do seio (tão bem dominado, tão bem distanciado de seu afastamento) seja recompensado [surpayé] com um prazer suplementar e que um mau hábito reembolse, eventualmente com benefício, os bons hábitos, como por exemplo, as interdições de tocar em alguns objetos. (p. 343)

A grande conquista cultural, a renúncia pulsional, consiste na possibilidade de separar-se da mãe, recompensando-se através do jogo. Nas palavras do filósofo:

ao dispersar para longe seus objetos ou seu arsenal de brincar, a criança se separa não somente de sua mãe (como ele o dirá mais adiante, e até mesmo de seu pai) mas também, e em primeiro lugar, do complexo suplementar constituído pelo seio materno e por seu próprio pênis, deixando, porém não deixando, por muito tempo, seus pais reunirem, cooperarem para reunir, se reunir embora não por muito tempo, para reunir o que ele tem vontade de dissociar, afastar, separar, embora não por muito tempo. (p. 345)

O jogo abarca, então, o complexo de castração e a tentativa de dominar, por meio da pulsão de apoderamento, aquilo que foi vivido passivamente, a saber, a separação.

Existe, certamente, um ganho de prazer na brincadeira, a vingança. Não só dirigida à mãe, mas também ao pai, para quem dizia no jogo:

“Vá para a gue(rr)a!” Na época, haviam lhe contado que seu pai ausente se encontrava na guerra, e ela não sentia a sua falta de forma alguma, mas mostrava, pelos indícios mais evidentes, que não queria ser perturbada em sua posse exclusiva da mãe. (Freud, 1920/2020, p. 81)

A criança comportada,

durante esse longo período em que esteve sozinha, havia encontrado um meio de se fazer desaparecer. Ela havia descoberto sua imagem em um espelho que chegava quase até o chão e então agachava-se de modo a que a imagem no espelho desaparecesse [fort war]. (p. 79; grifo nosso)

O garoto é parte de seu Spielzeug (brinquedo): “a criança se identifica com a mãe, pois ela desaparece como ela e a faz retornar com ela” (Derrida, 1980/2007, p. 354). Trata-se da elaboração da ausência da mãe mediante a identificação com ela.

E surge uma dúvida a Freud: se a elaboração psíquica de algo “impressionante, para se apoderar disso plenamente, pode manifestar-se de maneira primária e independentemente do princípio de prazer” (Freud, 1920/2020, p. 83). Esse “algo impressionante” não é uma alusão ao susto (Schreck) e à falta de preparação para a angústia (Angstbereitschaft)? Em contrapartida, o jogo representaria a tentativa das crianças de se tornarem “senhoras da situação” (p. 83).

Já que é possível elaborar psiquicamente num registro prazeroso o que é em si desprazeroso, Freud conclui o segundo capítulo com a afirmação de que essas situações “não dão testemunhos da eficácia de tendências que estão além do princípio de prazer, isto é, de tendências que seriam mais primevas que ele e independentes dele” (p. 85; grifo nosso).

O Édipo para além do princípio de prazer (III)

O terceiro capítulo de APP retoma aspectos técnicos de “Lembrar, repetir e perlaborar” (Freud, 1914/2021b) e três formas de esquecimento são aludidas. A primeira diz respeito ao recalcamento de cenas e vivências, com a sua frequente substituição por lembranças encobridoras. A segunda reporta-se ao fantasiar, aos sentimentos e processos internos, em contraposição à primeira forma de esquecimento, relacionada a acontecimentos. E existe um terceiro tipo: “Para um tipo especial de vivências extremamente importantes, que fazem parte dos primórdios da infância e que à sua época foram vividas sem compreensão, mas que a posteriori encontraram compreensão e interpretação, geralmente não se consegue evocar uma lembrança” (p. 154).

O mecanismo do a posteriori está imbrincado com o trauma, com a noção de que existe uma primeira cena cuja compreensão só ocorre num segundo tempo. É isso que fizera Laplanche e Pontalis (1964/2002) compararem o esquema freudiano do a posteriori com o mecanismo psicótico da forclusion (preclusão). O que não é admitido no simbólico (o precluído) retorna no real (sob a forma da alucinação). Essa não-simbolização corresponde ao primeiro tempo descrito por Freud (1914/2021b). O a posteriori, esse delay na compreensão, exige uma hipótese sobre a modalidade de registro da cena, pois, embora produza um efeito contínuo sobre o sujeito, não é passível de recordação nem mesmo depois da construção na análise.

E, o que não pode ser lembrado, é então atuado, é repetido numa forma que não é simbólica. O que se repete? - “Essa reprodução que surge com uma fidelidade indesejada tem sempre como conteúdo uma parte da vida sexual infantil, portanto do complexo de Édipo e de seus prolongamentos” (Freud, 1920/2020, p. 87; grifo nosso).

A compulsão à repetição “também traz de volta aquelas experiências do passado que não contêm nenhuma possibilidade de prazer e que mesmo naquela época não puderam ser satisfações, nem mesmo de moções pulsionais recalcadas desde então” (p. 91). Ou seja, devemos procurar no complexo de Édipo algo que contraria o princípio de prazer e que instala a compulsão à repetição.

O jogo do carretel, a incrível capacidade do bom menino de elaborar a separação da mãe, deparou-se com um contratempo:

Quando a criança tinha 5 anos e 9 meses a mãe morreu. Agora que ela realmente “tinha desaparecido” [fort (o-o-o) war], o garotinho não mostrava nenhum luto por ela. Por outro lado, havia nascido nesse intervalo uma segunda criança, o que lhe havia despertado o mais forte ciúme. (p. 81; grifo nosso)

De maneira sútil, o trauma foi introduzido nessa nota de rodapé. O garoto, até então, buscava dominar a situação, elaborar psiquicamente as separações, inclusive o ciúme pelo irmão rival. Contudo, quando a mãe falece, não há luto. O trauma interrompe a elaboração.

O primeiro florescimento da vida sexual infantil estava destinado ao declínio [Untergang] em consequência da incompatibilidade de seus desejos com a realidade e pela insuficiência do estágio evolutivo infantil. Ele pereceu então sob as circunstâncias mais desagradáveis, em meio a sensações profundamente dolorosas. A perda de amor e o fracasso deixaram atrás de si, como cicatriz narcísica, um prejuízo permanente da autoestima. (p. 91)

Aqui, Narciso e Édipo estão unidos. O termo Untergang é o mesmo que o utilizado em “O declínio [Untergang] do complexo de Édipo” (Freud, 1924/2021c). Aquilo que interrompe o Édipo é uma ferida narcísica. Não há, então, a concepção de um estágio narcísico que, quando superado, desemboca no Édipo. O que queremos sublinhar é que: no centro do Édipo está a problemática narcísica. Por mais que o neto de Freud tenha vivido algo que possa ser avaliado como traumático, no caso, o falecimento precoce da mãe, a ferida narcísica não é restringida a esse acontecimento excepcional e contingente, mas é universalizada no Édipo.

O que se repete, na transferência, da desilusão infantil, não atende ao princípio de prazer: “Nada disso podia propiciar prazer naquela época” (Freud, 1920/2020, p. 93). Para Freud, a evidência mais contundente da existência de um além do princípio de prazer é a transferência: “No caso do analisando, ao contrário, fica claro que a compulsão em repetir na transferência os acontecimentos do período infantil de sua vida ultrapassa o princípio de prazer de todas as maneiras” (p. 129).

Sob a forma de um destino “daimoníaco”, é possível “supor que realmente exista na vida anímica uma compulsão à repetição que sobrepuja o princípio de prazer. Estaremos agora também inclinados a relacionar a essa compulsão os sonhos dos neuróticos acidentários e o impulso da criança para a brincadeira” (p. 97). Compulsão à repetição: do trauma da guerra ao brincar.

Do terceiro capítulo, é possível sumarizar alguns pontos importantes. Primeiro, que a compulsão à repetição “nos parece mais originária, mais elementar e mais pulsional do que o princípio de prazer por ela deixada de lado” (p. 99). E, em segundo, que a compulsão à repetição, embora mais primordial que o princípio de prazer, é, ainda assim, inaugurada pelo recalque: “a compulsão à repetição deve ser atribuída ao recalcado inconsciente” (p. 89). Não há um pulsional anterior ao recalque, portanto. Por mais que Freud diga que: “Quase toda a energia que preenche o aparelho provém das moções pulsionais inatas” (p. 67), quando propõe um além do princípio de prazer, conclui que o que se repete é o recalcado.

E o que é recalcado, então? Aparentemente, o Édipo. Mais precisamente, o que está no além do princípio de prazer é o dano narcísico que provocou o declínio do complexo de Édipo. Em “O declínio do complexo de Édipo” (Freud, 1924/2021c), constata-se que as experiências de separação encontram algum tipo de elaboração a posteriori com o complexo de castração:

A Psicanálise revalorizou dois tipos de experiência, dos quais nenhuma criança é poupada e através dos quais ela deve estar preparada para a perda de partes muito estimadas do corpo: a retirada do seio materno, de início temporariamente e depois definitivamente, e a separação diariamente exigida do conteúdo do intestino. Mas nada é percebido sobre essas experiências se efetivarem devido à ameaça de castração. Só depois que foi feita uma nova experiência é que a criança começa a contar com a possibilidade de uma castração... A observação que finalmente rompe a sua descrença é a do genital feminino... Assim, a perda do próprio pênis se torna imaginável, e a ameaça de castração obtém seu efeito a posteriori. (pp. 261-262)

O menino vivencia, desde o nascimento, experiências de separação. Contudo, mantém, no seu pênis, a esperança de reunificação com a mãe (Freud, 1926/2014). É somente quando a criança é confrontada com a alteridade dos sexos, que, então, a castração produz o seu efeito a posteriori, resultando numa dolorosa desilusão. Portanto, é como se o Édipo fosse o simbolizante das experiências precoces de separação, enquadrando-as nessa construção que é a castração.

Nesse texto altamente especulativo, quando se fala do mais primordial, chega-se no Édipo - o primordial.

O sexual (IV-V)

É a partir do quarto capítulo de APP que Freud se arrisca numa especulação extremada. De essencial, retoma a ideia de uma proteção contra estímulos, presente desde o “Projeto...” (Freud, 1950[1895]/2003). Quando ocorre um evento traumático,

o princípio de prazer é, de início, colocado fora de ação. A inundação do aparelho anímico por grandes quantidades de estímulo não pode mais ser detida; o que ocorre é bem mais o surgimento de outra tarefa, a de dominar o estímulo, de ligar psiquicamente as quantidades de estímulo que irromperam, para levá-las, depois, à liquidação. (Freud, 1920/2020, pp. 113-115)

A dor é caracterizada pelo rompimento da barreira de proteção, e a reação da psique é a de produzir um enorme contrainvestimento, empobrecendo todos os demais sistemas psíquicos. O que está além do princípio de prazer é a Bindung (ligação), essa tentativa de dominar o investimento que flui livremente. É o caso dos sonhos dos neuróticos traumáticos, que “procuram recuperar o domínio sobre o estímulo por meio do desenvolvimento da angústia, cuja omissão tornou-se a causa da neurose traumática” (pp. 119-121). E essa é uma função do aparelho psíquico que “sem contradizer o princípio de prazer, é, contudo, independente dele e parece mais primitiva do que o propósito do ganho de prazer e da evitação de desprazer” (p. 121).

Desde o “Projeto...” (Freud, 1950[1895]/2003), existe uma distinção entre o sistema de percepção e o de recordação que não reside numa diferença de essência entre os neurônios, mas da quantidade com a qual eles têm de lidar em razão da sua localização. O que tornaria permeáveis os neurônios responsáveis pela percepção, é que as quantidades “de estímulo chegadas da periferia externa sobre os neurônios seriam de uma ordem mais elevada que aquelas da periferia interna do corpo” (p. 183). O traumático viria, essencialmente, do mundo exterior, que é “a origem de todas as grandes quantidades de energia” (p. 183).

Em APP, Freud (1920/2020) se vê pressionado a teorizar um outro trauma, análogo àquele que é provocado por estímulos externos. No quarto capítulo, de fato, o único trauma mencionado é aquele que se origina de fora, que rompe a barreira de proteção, mobilizando a energia pulsional.

No quinto capítulo, existe um salto metapsicológico presente desde o primeiro parágrafo, relativo a um traumatismo que vem de dentro. Na verdade, isso já tinha sido tematizado no ano anterior, em “Introdução à psicanálise das neuroses de guerra”, com a noção de um “inimigo interno”, a libido (Freud, 1919/2010b, p. 388).

Se só há traumatismo quando ocorre a ruptura da barreira de proteção, como estímulos endógenos poderiam ser traumáticos? O traumatizante deveria supor, necessariamente, um primeiro tempo, que é externo, o tempo da implantação. Contudo, em Freud existe uma transposição analógica: “Trata-se de pensar a neurose traumática como análoga ao traumatismo corporal e as psiconeuroses como análogas às neuroses traumáticas” (Monzani, 1989/2014, p. 169).

No começo do quinto capítulo, Freud reconhece que a falta de barreiras para os estímulos pulsionais é da “maior importância econômica”, pois tem como consequência que “muitas vezes ocasionem perturbações econômicas que podem ser equiparadas às das neuroses traumáticas” (Freud, 1920/2020, p. 125; grifo nosso).

Enquanto antes supunha-se que eram apenas os estímulos externos que, ao romper a proteção contra estímulos, poderiam ser traumáticos, agora, a conjectura seria que “as moções que se originam das pulsões não obedeçam ao processo nervoso do tipo ligado, mas ao do livremente móvel que pressiona para descarga” (p. 125). E o aparelho teria, então, a tarefa de “ligar a excitação das pulsões que afetam o processo primário. O fracasso dessa ligação provocaria uma perturbação análoga à da neurose traumática” (p. 127; grifo nosso). A grande questão é: o que deixa o aparelho refém dessa energia desatada?

Desde a correspondência entre Freud e Fliess (Masson, 1985, p. 104), até “Inibição, sintoma e angústia”, percorre a obra freudiana a noção de uma “dor interna, psíquica” (Freud, 1926/2014), consequência do “forte investimento com anseio [Sehnsuchtbesetzung] no objeto que faz falta (perdido)” (p. 122). Ou seja, é a perda do objeto e o trabalho de luto dele decorrente que deixam o aparelho psíquico numa situação econômica análoga à de um traumatismo físico; mas permanece a questão inicial deste artigo, se a teoria da sexualidade é suficiente, ou se é necessário que algo intervenha no Eu.

Em certo sentido, constata-se que as pulsões sexuais agem à revelia do princípio de prazer, uma vez que demandam do aparelho psíquico um trabalho de ligação que deve ser assegurado antes que o princípio de prazer se instale. Já no primeiro capítulo, quando Freud (1920/2020) tinha apresentado as pulsões sexuais como difíceis de “educar” (p. 67), que sobrepujam o princípio de realidade, em detrimento de todo o organismo, Derrida (1980/2007) identificou o que estava no subterrâneo desse texto, que existe algo que se espreita no interior da sexualidade e que prepara o terreno para a pulsão de morte:

se há uma especificidade das “pulsões sexuais”, ela resulta desse caráter selvagem, rebelde, “dificilmente educável”, indisciplinável. Essas pulsões tendem a não se submeter ao princípio de realidade. Mas o que isso quer dizer se este último não é outra coisa senão o princípio do prazer? O que isso quer dizer senão que o sexual não se deixa ligar ao prazer, ao gozo? (p. 316)

Em “Três ensaios...”, Freud (1905/2016b) havia destacado a grande adesividade (Haftbarkeit) ou suscetibilidade à fixação das primeiras impressões, cuja consequência seria a de “levar de modo compulsivo à repetição [zwangartig auf Wiederholung]” (p. 170). Se no fundamento do aparelho psíquico Freud situa a monotonia perversa, então a compulsão à repetição, que o levará a formular a pulsão de morte, não está no coração da sua teoria da sexualidade?

A pulsão de morte e a melancolia (V-VII)

O quinto capítulo de APP tem continuidade com a caracterização da compulsão, que adquire um caráter “daimoníaco”, isto é, que subjuga o princípio de prazer. Em “O infamiliar”, no ano anterior, a compulsão à repetição já tinha sido apresentada como imanente às pulsões, conferindo esse caráter “daimoníaco” a certos aspectos da vida anímica (Freud, 1919/2019).

E o que é mais primordial que o princípio de prazer é a Bindung, ligação - é no fracasso da ligação, na sua falha, que surge a compulsão à repetição. Segundo Monzani (1989/2014), existem três linhas de interpretação desse fenômeno: alguns acreditam que a compulsão à repetição está a serviço da ligação; para outros, tal como é o caso de Laplanche, a compulsão à repetição seria a tentativa de ligar a própria pulsão de morte; por último, tenta-se atribuir a compulsão à repetição ao caráter “daimoníaco” da pulsão de morte.

Para relacionar o pulsional à compulsão à repetição, em APP, a pulsão sofreu uma redefinição: “Uma pulsão seria, portanto, uma pressão inerente ao orgânico animado para reestabelecer um estado anterior” (Freud, 1920/2020, p. 131). Toda vida orgânica teria uma natureza conservadora, no sentido de ser orientada para uma regressão, a saber, em direção ao inorgânico. E, assim, chega-se ao objetivo da vida: “tudo o que é vivo morre por razões internas, retorna ao inorgânico, então só nos resta dizer: A meta de toda vida é a morte, e, remontando ao passado: O inanimado esteve aqui antes do vivo” (p. 137).

Se as pulsões são conservadoras, adquiridas historicamente e orientadas para a regressão, logo, a evolução orgânica não deve ser atribuída às pulsões, mas a uma influência externa. Ao menos para o surgimento das pulsões, não há como não recorrer a uma força exterior: “Houve um dia em que as propriedades do vivente foram despertadas na matéria inanimada pela influência de uma força ainda inteiramente inconcebível” (p. 137).

O impasse é o seguinte: no “Projeto...”, Freud (1950[1895]/2003) desenvolve dois modelos, um mecânico e um biológico. O princípio de inércia dá o motivo para o movimento reflexo. A tendência originária à inércia, contudo, é uma “ficção” (Freud, 1911/2010a, p. 112), porque nenhum organismo sobreviveria se fosse impelido, sem freios, à descarga absoluta. A inércia é um princípio mortuário - levada às últimas consequências, provocaria a morte. Um impulso vital não é cogitado. Ora, então como o organismo sobrevive?

É preciso lembrar que o estado primordial do narcisismo só é possibilitado por “um período de desamparo e de cuidados, durante o qual suas necessidades prementes são satisfeitas por agentes externos” (Freud, 1915/2017, p. 65). Adicionalmente, o modelo mecânico se revela insuficiente, na medida em que o aparelho deve permitir o armazenamento de energia para possibilitar a ação específica. Entra em consideração a “necessidade da vida” (Freud, 1950[1895]/2003, p. 177), de forma que o modelo biológico, como num deus ex machina, surge para salvar o aparelho que funcionava de acordo com um princípio mortuário, a inércia. Quem zela pelo organismo é o Eu, cuja função é explicitada: “se existir um eu, ele tem de inibir processos psíquicos primários” (p. 201). Logo, o “ambiente” e o Eu trabalham a favor da sobrevivência do organismo.

As influências externas obrigam o sobrevivente a desvios cada vez maiores e a rodeios cada vez mais complicados para alcançar a meta da morte. Nada leva Freud a crer, por enquanto, que a vida venha de dentro; ela é imposta do exterior.

Em uma nota de rodapé, Freud (1920/2020) faz alusão a um texto de Ferenczi, chamado “O desenvolvimento do sentido de realidade e seus estágios”, que está em plena conformidade com o APP.

Se seguirmos este raciocínio até o fim, será preciso considerar a existência de uma tendência para a inércia ou para a regressão, dominando a própria vida orgânica; a tendência para a evolução, para a adaptação etc. dependeria, pelo contrário, unicamente de estímulos externos. (Ferenczi, 1913/2011a, p. 60)

No final da década de 1920, em “A criança mal acolhida e sua pulsão de morte”, Ferenczi (1929/2011b) destaca a importância libidinal desse ser humano próximo para a sobrevivência da criança: “Eu queria apenas indicar a probabilidade do fato de que crianças acolhidas com rudeza e sem carinho morrem facilmente e de bom grado” (p. 58). A inércia fica subentendida, enquanto a fraqueza do impulso vital é reafirmada:

A “força vital” que resiste às dificuldades da vida não é, portanto, muito forte no nascimento; segundo parece, ela só se reforça após a imunização progressiva contra os atentados físicos e psíquicos, por meio de um tratamento e de uma educação conduzidos com tato. (pp. 58-59)

Um sistema fechado tende ao caos, de modo que a vida só pode triunfar com uma energia externa, tal como a Terra precisa do Sol. Em Freud e em Ferenczi, a tendência originária é em direção ao zero; quem a modifica é o exterior, ao proporcionar uma força vitalizante que não é inata.

O traumatismo é constitutivo e indissociável do desamparo, pois um mundo interno persecutório dificilmente não produziria uma bola de neve, retroalimentando-se num círculo vicioso. Sem apelar para um outro, como um organismo solipsista modificaria a realidade por ele mesmo criada? Nessa conjuntura, o Eu só adquire sua coerência quando remetido ao narcisismo parental. Agora, se o traumatismo não é constitutivo, então a psicopatologia pode praticamente prescindir de uma teoria pulsional; tudo recai nas falhas ambientais, que são contingenciais.

Uma inversão ocorre em APP. O Eu, antes representante dos interesses vitais, torna-se um serviçal da morte, desde que os rodeios para a morte são assegurados pelas pulsões conservadoras, as “pulsões do Eu (de morte)” (Freud, 1920/2020, p. 151). Estas pulsões estariam

destinadas a assegurar ao organismo seu próprio caminho para a morte e a manter afastadas quaisquer outras possibilidades de retorno ao inorgânico que não sejam as imanentes... O que resta é que o organismo só quer morrer à sua maneira; mesmo que esses guardiães da vida foram originariamente os serviçais da morte. (p. 139)

Até o momento, parece que apenas existe a pulsão de morte. Então, Freud interrompe: “Mas, ponderemos, isso não pode ser assim!” (p. 139).

Se, anteriormente, Freud defendera a oposição das pulsões sexuais às pulsões do Eu ou de vida, agora, se as pulsões de morte são as do Eu, então são as pulsões sexuais ou Eros que terão de opor-se à morte. Contra a morte da substância viva trabalham as células germinativas, o que ocorre por meio da fusão com outra célula “semelhante a ela e no entanto diferente dela” (p. 141). Essas constituem o grupo das pulsões sexuais, “as verdadeiras pulsões de vida” (p. 143), as “pulsões sexuais (de vida)” (p. 151). O propósito de Eros seria o de “agrupar o orgânico em unidades cada vez maiores” (p. 149), de manter “unido tudo o que é vivo” (p. 169), de “pressionar uma em direção à outra as partes da substância viva e mantê-las unidas” (p. 197).

Era para ser a pulsão de morte a grande descoberta de APP. Porém, ao acompanhar a construção do raciocínio de Freud, constata-se que a pulsão de morte tem a precedência, o que contraria a benevolente ilusão de uma pulsão de aperfeiçoamento. Mas “isso não poder ser assim!”. O problema é que, enquanto a origem da pulsão de morte parece evidente, a origem de Eros permanece misteriosa: “qual acontecimento importante no curso do desenvolvimento da substância é repetido pela reprodução sexuada ou por seu precursor, a cópula de dois indivíduos entre os protozoários?” (pp. 149-151).

Para colocar suas crenças à prova, Freud apela à ciência biológica. Contudo, não recorre à biologia como um cientista recorre a um experimento. Além dos termos fisiológicos e químicos já pertencerem a uma “linguagem figurativa”, “a insegurança de nossa especulação atingiu um alto grau pela necessidade de fazer empréstimos da ciência biológica. A biologia é, verdadeiramente, um reino de possibilidades ilimitadas” (p. 195). Na teoria freudiana, o lugar da biologia é no arsenal metapsicológico.

As menções às pesquisas de Weismann, Woodruff, Maupas e Calkins servem para corroborar a tese de que a morte não é uma aquisição tardia dos organismos, porque isso contrariaria o capítulo anterior de APP, e da importância de uma intervenção exterior: “se deixado por sua própria conta, o infusório morre de uma morte natural, em virtude da imperfeição da eliminação dos produtos de seu próprio metabolismo; mas no fundo, talvez morram também todos os animais superiores pela mesma incapacidade” (p. 163).

As pulsões de vida ou sexuais operariam neutralizando, em parte, as pulsões de morte. As células germinais têm uma conduta absolutamente narcísica, porque precisam de libido para a sua atividade grandiosamente construtiva posterior; por isso concentram libido em si. No entanto, talvez seja possível dizer, no mesmo sentido, que seriam “igualmente narcísicas as células das neoplasias malignas que destroem o organismo” (p. 169). Ora, se é a libido que serve tanto para as atividades construtivas, quanto para a formação de tumores, então Freud não estaria aludindo a um narcisismo mortífero?

A descoberta, depois de ter oposto as pulsões sexuais às pulsões do Eu, foi de que: “Uma parte das pulsões do Eu foi reconhecida como libidinal” (p. 173). Inicialmente, formulou-se uma incompatibilidade entre a representação sexual e o Eu. Em seguida, com a primeira teoria das pulsões, constatou-se que as pulsões do Eu teriam uma energia própria, o interesse. Porém, não havia exatamente um conflito entre a libido e o interesse, apenas no interior da sexualidade, nos destinos da libido: objetal e narcísica.

Então, em APP, para que o dualismo sobrevivesse, foi necessário que “no Eu estejam em ação outras pulsões além das pulsões libidinais de autoconservação” (p. 175). As pulsões libidinais do Eu podem estar conectadas “a outras pulsões do Eu ainda desconhecidas por nós” (p. 175). Em suma:

surgiu uma nova oposição entre pulsões libidinais (do Eu e de objeto) e outras que devem ser estabelecidas no Eu e que talvez possam ser evidenciadas nas pulsões de destruição. A especulação converte essa oposição naquela entre pulsões de vida (Eros) e pulsões de morte. (p. 197)

Se as pulsões de destruição são pulsões não libidinais que atuam no Eu, por que será então que, ao contrário da libido e do interesse, essa energia da pulsão de morte permaneceu no anonimato?

Em “O mal-estar na cultura”, Freud (1930/2021e) insiste que: “O nome de libido pode novamente ser utilizado para as manifestações de força de Eros, para distingui-las da energia da pulsão de morte” (p. 374). Em nota de rodapé, acrescenta: “Podemos enunciar a nossa concepção atual mais ou menos na seguinte proposição: em qualquer manifestação pulsional a libido está envolvida, mas nem tudo dessa manifestação é libido” (p. 374).

Apesar de Edoardo Weiss e Paul Federn terem proposto um nome para essa energia, o primeiro Destrudo, e o último Mortido (Weiss, 1935), Freud jamais os implementou. E, enquanto Freud deu o nome de “Eros” para a pulsão de vida, nunca chamou a pulsão de morte de “Thanatos”, um termo que se tornou corriqueiro na literatura pós-freudiana, introduzido precocemente por Stekel, em 1909 (Jones, 1957). E mais, por que, pouco antes, Freud atribuiu à própria libido a produção de tumores no organismo?

Partimos, diz Freud (1920/2020), dessa oposição das pulsões de vida e pulsões de morte. E, em seguida, lamenta a dificuldade de fazer remontar o segundo dualismo pulsional a uma segunda polaridade, a do amor (ternura) e ódio (agressão), tal como, na primeira teoria das pulsões, a polaridade era a da fome e amor. Na sua “Carta a Einstein”, já não há mais motivo para lamúria: “O senhor pode ver que [a doutrina das pulsões] é apenas a transfiguração teórica da oposição entre o amar e o odiar” (Freud, 1933[1932]/2021f, p. 434).

Mas o ódio é uma inovação que justifique a formulação da segunda teoria das pulsões apenas em 1920?

Não é de hoje1que reconhecemos um componente sádico da pulsão sexual... Ele emerge também como pulsão parcial dominante em uma dessas organizações que chamei de “pré-genitais”. Mas como fazer derivar de Eros, conservador da vida, a pulsão sádica que tem como meta o prejuízo do objeto? Será que não cabe supor que esse sadismo seja, afinal, uma pulsão de morte que foi pressionada para fora do Eu por influência da libido narcísica, de modo que ela só apareça no objeto? Depois ela passa a servir à função sexual; no estágio de organização oral da libido, o apoderamento amoroso ainda coincide com a aniquilação do objeto; mais tarde a pulsão sádica se separa e, finalmente, no estágio do primado genital, ela assume, com o propósito de reprodução, a função de lidar com o objeto sexual até o ponto em que a realização do ato sexual exigir. (Freud, 1920/2020, pp. 177-179; grifo nosso)

Para tornar inofensivo os efeitos da pulsão destrutiva, sob a influência da libido narcísica, é defletida para o exterior, recebendo o nome a partir de então de “pulsão de destruição”, “pulsão de empoderamento”, “vontade de poder” (Freud, 1924/2021d, p. 292). A parte dessa pulsão que foi transposta para fora resulta no sadismo propriamente dito, enquanto a que permanece no organismo é ligada libidinalmente com ajuda da coexitação, derivando no masoquismo erógeno.

De acordo com “O mal-estar na cultura”, o que o APP possibilitou, a partir de “especulações sobre o início da vida, bem como de paralelos biológicos”, foi chegar à conclusão de que seria necessário que houvesse “além da pulsão de conservar a substância vivente e de aglomerá-la em unidades cada vez maiores, outra pulsão, oposta a ela, que ansiaria por dissolver essas unidades e por reconduzi-las ao estado primordial, inorgânico” (1930/2021e, p. 371). Enquanto as manifestações de Eros eram suficientemente evidentes e ruidosas, supunha-se que as pulsões de morte trabalhavam em silêncio. Então, Freud acrescenta: “O que nos levou mais longe foi a ideia de que uma parte da pulsão se voltaria contra o mundo exterior e daí viria à luz como pulsão para a agressão e para a destruição” (p. 372). E mais: “Essa pulsão de agressão é o derivado e o principal representante da pulsão de morte que encontramos ao lado de Eros, que com ele divide o domínio do mundo” (p. 376). Se a manifestação pulsional não se resume à libido, se existe uma outra pulsão cuja meta não é a satisfação sexual, mas a destrutividade, então a inferência metapsicológica é que seu objetivo último seja o retorno ao inorgânico. Porém, subjacente à especulação metapsicológica existe um fenômeno clínico: o sadomasoquismo (quando não é dominado pelo prazer e pela sexualidade).

Reconheço que no sadismo e no masoquismo sempre tivemos diante de nossos olhos as manifestações, fortemente aliadas ao erotismo, da pulsão de destruição voltadas para o exterior e para o interior, mas não entendo mais como pudemos ignorar a ubiquidade da agressão e da destruição não eróticas, e deixar de lhe conceder o devido lugar na interpretação da vida. (É que a sede de destruição voltada para dentro, quando não está eroticamente colorida, quase sempre foge à percepção.) (p. 373; grifo nosso)

Se algo convence Freud da existência de pulsões não libidinais atuando no Eu é a autodestruição, e o paradigma clínico da atuação desse sadomasoquismo não erótico é a melancolia. No Supereu do melancólico opera a “pura cultura”2 da pulsão de morte (Freud, 1923/2011, p. 66). Essa também era a posição de um contemporâneo de Freud, Federn, que acreditava que numa melancolia pura seria encontrado um impulso mortífero puro (Federn & Rezek, 1932).

Há um paradoxo de base na melancolia, pois o Eu deveria introjetar aquilo que é prazeroso e expulsar o que é desprazeroso. Porém, na melancolia, o objeto perdido é clivado e introjetado como um objeto mau, que passa a assediar o Eu. Segundo Fairbairn (1943/1994), o que entra na categoria da pulsão de morte freudiana são essas relações masoquistas do Eu com objetos maus internalizados. É também por isso que Laplanche (1980[1970--1973]/2006) afirma que o principal perigo contra o qual a mãe protege é a própria mãe. A mãe protege desse inimigo interno que se origina na sua ausência.

Se não há registro da morte no inconsciente, como pode existir uma pulsão que anseie o inorgânico? A confusão está em não distinguir dois níveis: o ontogenético e o filogenético. O retorno ao inorgânico diz respeito ao nível filogenético da pulsão, enquanto a morte, no nível ontogenético, recebe outra compreensão:

A angústia de morte, na melancolia, admite apenas uma explicação: o Eu abandona a si mesmo por sentir-se odiado e perseguido pelo Super-eu, em vez de amado (...) Vê-se desamparado de todos os poderes protetores e deixa-se morrer. Esta é, aliás, a mesma situação que subjaz ao primeiro grande estado de angústia, o do nascimento, e à angústia infantil da nostalgia [Sehnsucht-Angst], a da separação da mãe protetora. (Freud, 1923/2011, p. 73)

Além dos fatores constitucionais subjacentes a uma melancolia, Abraham (1924/1927) menciona outros dois. O primeiro é uma grave ferida ao narcisismo infantil, provocada por sucessivas decepções amorosas. E o segundo é que a primeira decepção amorosa tenha ocorrido antes da superação dos desejos edipianos. O Édipo é, portanto, esse ponto de virada na simbolização da perda do objeto. O que está na raiz tanto da angústia de morte, como da angústia moral, é a castração.

Quanto ao nível filogenético, tal como a pulsão de morte, é necessário fazer remontar a pulsão de vida a uma necessidade de restabelecer um estado anterior. Para Freud (1920/2020), é perturbador que não se possa provar para as pulsões sexuais o mesmo caráter de compulsão à repetição que permitiu detectar as pulsões de morte.

E, se para a pulsão de morte Freud recorreu à biologia, no caso da pulsão de vida, Freud se serve do Banquete, de Platão (2016), com destaque para a seguinte passagem: “desde que a nossa natureza se mutilou em duas, ansiava [póthous] cada um por sua própria metade e a ela se unia” (p. 79; grifo nosso). Na tradução alemã utilizada por Freud (1920/2020), encontra-se Sehnsucht, que também pode ser traduzido por “saudade”.

A suposição seria de que, no momento de sua animação, a substância viva foi desmembrada, “rasgada” (zerissen) (p. 191) - e é dessa imagem de uma castração que teria se originado a saudade, o anseio para a reunificação, coincidindo essa separação originária com o momento da animação. As duas pulsões nasceriam nesse momento mítico: a que anseia reencontrar o objeto, fundir-se a ele novamente, e a que procura a “equiparação das tensões químicas, isto é, à morte” (p. 183). Traduzindo: a perda do objeto resulta em duas atitudes afetivas opostas: o amor e o ódio.

Considerações finais

A vida começa com uma perda, uma separação a partir da qual a substância desperta, se anima. Esse desmembramento é condição para o anseio por fusionar-se com a parte segregada - um desejo que impele para a longevidade. Mas a força motriz do aparelho psíquico não serve a esse mestre, a perpetuação da vida, mas a um princípio, o de prazer.

A meta do princípio de prazer, informa Freud (1920/2020) no capítulo VII do APP, é a extinção da excitação; ou seja, está a serviço da atitude psíquica que nasce junto com a saudade do objeto perdido: o ódio.

Na melancolia, o ódio encontra o seu ápice: o suicídio. Desamparado, o refúgio do Eu contra a vida, contra a saudade, é a morte. Esta é a verdadeira eternidade com o objeto, aquela que o desejo apenas postergava para alcançar. Inanimado, o Eu mata a saudade e recupera a plenitude; depois do longo rodeio, o Eu pode, finalmente, repousar no estado originário.

Disponibilidade de Dados de Pesquisa:

Não se aplica

  • 1
    O presente trabalho é fruto da pesquisa de doutorado intitulada Fazendo Laplanche trabalhar: o livro não escrito de Monzani, desenvolvida pelo primeiro autor, sob orientação da segunda autora, com financiamento da CAPES (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior), e defendida no Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo, em 24/05/2024.
  • 1
    A agressividade já não era atribuída às pulsões sexuais, mas à autoconservação. Quando, no entanto, se constatou que a autoconservação era libidinal, então o ódio pôde ser compreendido pelo narcisismo. Essa teoria recaía no monismo pulsional; era necessário, para que o ódio se mantivesse fora da sexualidade, uma nova teoria das pulsões.
  • 2
    Única passagem da obra de Freud que se refere a uma expressão pura da pulsão de morte. Essa posição é atenuada em outras passagens: “a autodestruição da pessoa também não pode se realizar sem uma satisfação libidinal” (Freud, 1924/2011d, p. 301) e “Mas mesmo lá onde ela surge sem propósito sexual, incluindo a mais cega fúria de destruição, não podemos ignorar que a sua satisfação está conectada a um gozo narcísico extraordinariamente elevado” (Freud, 1930/2021e, pp. 374-375).
  • Financiamento/Funding:
    Trabalho realizado com apoio da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior - CAPES / Work carried out with the support of Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior - CAPES.

Referências

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  • Editores do artigo/Editors:
    Paulo Antonio Beer, Ronaldo Manzi Filho

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    05 Dez 2025
  • Data do Fascículo
    2025

Histórico

  • Recebido
    13 Fev 2025
  • Revisado
    11 Jun 2025
  • Aceito
    30 Jul 2025
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