Pontederiaceae do litoral piauiense, Brasil

Pontederiaceae in the coastal region of Piauí, Brazil

Resumos

O presente estudo apresenta o tratamento taxonômico da família Pontederiaceae no litoral piauiense, contribuindo para o conhecimento da diversidade biológica do estado do Piauí. Foram identificadas cinco espécies distribuídas em três gêneros, Eichhornia Kunth, Heteranthera Ruiz & Pav. e Pontederia L. Eichhornia foi o mais representativo com três espécies, E. azurea (Sw.) Kunth, E. crassipes (Mart.) Solms e E. diversifolia (Vahl) Urb., enquanto Pontederia e Heteranthera estão representadas por uma espécie, P. cordata var. ovalis (Mart.) Solms e H. rotundifolia (Kunth) Griseb., respectivamente. Todas as espécies são nativas, mas não endêmicas da região. Três representam novas ocorrências para o estado. São apresentadas chave de identificação, descrições, ilustrações e informações sobre distribuição geográfica e habitat.

Biodiversidade do Piauí; Delta do Parnaíba; macrófitas aquáticas


The taxonomic treatment for the family Pontederiaceae in the coastal region of Piauí is presented as a contribution to knowledge of the biological diversity of the state. Five species were identified in three genera, Eichhornia Kunth, Heteranthera Ruiz & Pav. and Pontederia L. Eichhornia is represented by three species, E. azurea (Sw.) Kunth, E. crassipes (Mart.) Solms and E. diversifolia (Vahl) Urb., while Pontederia and Heteranthera are represented by a single species each, P. cordata var. ovalis (Mart.) Solms and H. rotundifolia (Kunth) Griseb., respectively. All species are native but not endemic to the region. Three species are new records for Piauí. Descriptions, illustrations and an identification key to the species are provided, together with information on their geographical distribution and habitats.

Aquatic macrophytes; biodiversity of Piauí; Delta do Parnaíba


ARTIGOS ORIGINAIS

Pontederiaceae do litoral piauiense, Brasil

Pontederiaceae in the coastal region of Piauí, Brazil

Hilda Cristina Evaristo NascimentoI,1 1 Autor para correspondência: ivanilzaandrade@hotmail.com ; Ivanilza Moreira de AndradeI,1 1 Autor para correspondência: ivanilzaandrade@hotmail.com ; Maria Francilene Souza SilvaI; Ligia Queiroz MatiasII

IUniversidade Federal do Piauí, Campus de Parnaíba, Herbário Delta do Parnaíba, Av. São Sebastião 2819, 64202-020, Parnaíba,PI, Brasil

IIUniversidade Federal do Ceará, Centro de Ciências, Depto. Biologia, Centro de Ciências, bl. 906, Campus do Pici, 60451-760, Fortaleza, CE, Brasil

RESUMO

O presente estudo apresenta o tratamento taxonômico da família Pontederiaceae no litoral piauiense, contribuindo para o conhecimento da diversidade biológica do estado do Piauí. Foram identificadas cinco espécies distribuídas em três gêneros, Eichhornia Kunth, Heteranthera Ruiz & Pav. e Pontederia L. Eichhornia foi o mais representativo com três espécies, E. azurea (Sw.) Kunth, E. crassipes (Mart.) Solms e E. diversifolia (Vahl) Urb., enquanto Pontederia e Heteranthera estão representadas por uma espécie, P. cordata var. ovalis (Mart.) Solms e H. rotundifolia (Kunth) Griseb., respectivamente. Todas as espécies são nativas, mas não endêmicas da região. Três representam novas ocorrências para o estado. São apresentadas chave de identificação, descrições, ilustrações e informações sobre distribuição geográfica e habitat.

Palavras-chave: Biodiversidade do Piauí, Delta do Parnaíba, macrófitas aquáticas.

ABSTRACT

The taxonomic treatment for the family Pontederiaceae in the coastal region of Piauí is presented as a contribution to knowledge of the biological diversity of the state. Five species were identified in three genera, Eichhornia Kunth, Heteranthera Ruiz & Pav. and Pontederia L. Eichhornia is represented by three species, E. azurea (Sw.) Kunth, E. crassipes (Mart.) Solms and E. diversifolia (Vahl) Urb., while Pontederia and Heteranthera are represented by a single species each, P. cordata var. ovalis (Mart.) Solms and H. rotundifolia (Kunth) Griseb., respectively. All species are native but not endemic to the region. Three species are new records for Piauí. Descriptions, illustrations and an identification key to the species are provided, together with information on their geographical distribution and habitats.

Key words: Aquatic macrophytes, biodiversity of Piauí, Delta do Parnaíba.

Introdução

Pontederiaceae compreende cerca de nove gêneros e 33 espécies, distribuídas em três tribos: Eichhornieae (Eichhornia Kunth e Monochoria C.), Heteranthereae (Eurystemon Alexander, Heteranthera Ruiz & Pav., Hydrothrix Hook. f., Scholleropsis H. Perrier e Zosterella Small) e Pontederieae (Pontederia L. e Reussia Endl.) (Cook 1998; Graham et al. 1998; Simpson & Burton 2006). Apresenta distribuição pantropical, com muitos membros ocorrendo principalmente na região Neotropical e poucas espécies registradas para o norte e sudeste do Canadá, sul e sudeste da Argentina. Outras espécies são encontradas no Sul da África, Madagascar, Sudeste da Ásia e Austrália (Simpson & Burton 2006). No Brasil ocorrem cinco gêneros (Eichhornia, Heteranthera, Hydrothrix, Pontederia, Reussia) e 19 espécies, das quais duas endêmicas: Hydrothrix gardneri Hook.f. e Pontederia triflora (Seub.) G. Agostini, D. Velásquez & Velásquez (Amaral 2012; Gastal Júnior 1999).

Levantamentos florísticos constituem importante fonte de dados para a conservação, bem como para a exploração racional dos recursos e das áreas naturais ainda existentes. Levantamentos sobre a família Pontederiaceae no Brasil foram realizados para Santa Catarina (Castellanos 1967); Rio Grande do Sul (Irgang et al. 1984); Mato Grosso do Sul (Pott & Pott 1997, 1999; Rocha et al. 2007); Mato Grosso (Sanches et al. 2000); Rio de Janeiro (Bove et al. 2003) e Minas Gerais (Trovó & Gomes-Silva 2010). Para a Região Nordeste, Pontederiaceae é citada apenas em levantamentos mais abrangentes ou de floras aquáticas (França et al. 2003; Matias et al. 2003; Neves et al. 2006; Henry-Silva et al. 2010; Lyra-Lemos et al. 2010, Sobral-Leite et al. 2010).

O Delta do Parnaíba e seus cordões arenosos formam um sistema estuarino complexo associado às lagoas costeiras e campos inundados (Martins & Coutinho, 1981). Mas, apesar de sua importância para a manutenção da biodiversidade, o Delta do Parnaíba não consta entre os importantes sítios internacionais anotados pela Convenção sobre Áreas Alagadas de Ramsar (Kingsford 1997; Ramsar 2010). Este trabalho teve como objetivo identificar os táxons de Pontederiaceae que ocorrem no litoral piauiense, fornecendo informações sobre a flora desta extensa área alagada. Esperamos que os resultados possam auxiliar o desenvolvimento de estratégias para manejo e uso sustentável dos recursos naturais desta região.

Material e Métodos

Os espécimes analisados foram provenientes de coletas mensais realizadas durante o período de julho de 2010 a outubro de 2011 nos municípios do litoral piauiense (Cajueiro da Praia, Ilha Grande, Luis Correia e Parnaíba), além de material depositado nos herbários EAC, HUVA e TEPB (acrônimos segundo Holmgren et al. 1990).

O Piauí, com sua faixa litorânea de 66 km de extensão, faz divisa com o Maranhão, na Barra das Canárias, e segue pela Ilha Grande de Santa Isabel, passando pelo farol e praia da Pedra do Sal, até a Barra da Timonha - na foz do rio São João da Praia, na divisa com o Ceará. O litoral Piauiense abrange os municípios de Cajueiro da Praia, Ilha Grande do Piauí, Luís Correia e Parnaíba, ocupando uma área de aproximadamente 571.071 km2. O clima é quente e úmido, com chuvas de verão e temperaturas médias anuais em torno de 26ºC e totais pluviométricos em média 1.200 mm (Rizzini 1997; Fernandes 2000; Zickel et al. 2007).

A paisagem litorânea piauiense é formada pelo predomínio de sedimentos Quaternários compondo três unidades geomorfológicas: faixa de praia e dunas, planície flúvio-marinha e planície fluvial. Há também a formação Terciária dos tabuleiros costeiros e os Maciços Residuais dos Granitos de Chaval (Chaves et al. 2007). A vegetação tem influência marinha (restingas e dunas), flúvio-marinha (manguezais e campos salinos) e fluvial (comunidades aluviais). Tais formações predominam na paisagem e dividem espaço com outras formações arbóreas, como os tabuleiros litorâneos, a caatinga e o cerrado (Fernandes 2000; Veloso et al. 1991).

Os espécimes coletados foram herborizados seguindo a metodologia de Haynes (1984) e depositados no herbário TEPB, EAC e HDELTA. As formas biológicas foram classificadas segundo Irgang & Gastal Júnior (1996). A identificação foi realizada a partir de literatura específica (Lowden 1973; Sanches et al. 2000; Moretti 2003) e comparação com materiais previamente identificados e revisados por especialistas. As espécies foram descritas e ilustradas de maneira convencional utilizada em taxonomia. Os nomes dos táxons foram atualizados de acordo com o banco de dados do IPNI (The International Plant names Index) e WCSP (World Checklist of Selected Plant Families).

Resultados e Discussões

Foram identificadas cinco espécies pertencentes aos gêneros Eichhornia, Heteranthera e Pontederia. Eichhornia foi o mais representativo com três espécies, E. azurea (Sw.) Kunth, E. crassipes (Mart. ) Solms e E. diversifolia (Vahl) Urb. Heteranthera e Pontederia estão representados por uma espécie H. rotundifolia (Kunth) Griseb. e P. cordata var. ovalis (Mart.) Solms, respectivamente. Todas as espécies são nativas e não endêmicas. Com exceção de E. crassipes e H. rotundifolia, todas as espécies são novos registros para o estado do Piauí.

A análise de material dos herbários e da literatura revelou poucos registros de E. diversifolia tanto para o estado do Piauí, quanto para outros estados. É possível que esta espécie seja rara ou esteja ameaçada de extinção em virtude da destruição de seus habitats. Por outro lado, é possível que a lacuna de conhecimento e registros das mesmas sejam devido ao baixo esforço de coleta. Estudos taxonômicos com Pontederiaceae são ainda escassos no Brasil. Atualmente, na Região Nordeste são reconhecidos seis gêneros e 10 espécies (Amaral 2012).

O número de espécies encontradas na área de estudo evidencia a notada baixa diversidade de Pontederiaceae quando comparado com os números registrados em outros trabalhos realizados em lagoas e rios no Brasil.No checklist das macrófitas de Pernambuco, as Pontederiaceae estão representadas por 10 espécies, o maior número de espécies já registrado para o Nordeste (Sobral-Leite et al. 2010). Espécies ocorrentes em Pernambuco e na área deste estudo foram: Eichhornia crassipes, E. diversifolia e Pontederia cordata var. ovalis. França et al. (2003) registraram número menor de espécies (três) em açudes de uma região do semi-árido da Bahia. Este registro foi corroborado mais tarde por Henry-Silva et al. (2010).

Os gêneros Eichhornia, Heteranthera e Pontederia também foram registrados para o Pantanal onde há maior diversidade de espécies (11 espécies). Com exceção de H. rotundifolia, todas as demais espécies identificadas para o litoral piauiense ocorrem no Pantanal, mais as seguintes: E. meyeri A. G. Schultz, H. limosa (Sw.) Willd., H. multiflora (Griseb.) Horn, P.cordata var. lancifolia (Muhl.) Torrey, P. rotundifolia L.f., P. subovata (Seubert) Lowden. e P. triflora (Seubert) Agostini, D. Velásquez & J. Velásquez (Pott & Pott 1997).

Tratamento taxonômico

Pontederiaceae Kunth in F. A. H. A. Humboldt, A. J. A. Bonpland & C. S. Kunth, Nova Gen. Sp. 1: fol. 211 ed. 4: 265. 1816

Ervas aquáticas, rizomatosas ou estoloníferas, flutuantes a emersas, raro submersas, caules esponjosos. Folhas geralmente alternas e espiraladas, ao longo do caule ou mais ou menos basais, simples, inteiras, com venação paralela a palmada, invaginantes na base; estípulas ausentes. Inflorescência determinada, mas frequentemente parecendo racemo ou espiga, às vezes parecendo lateral, associada com duas brácteas, raro uniflora. Flores bissexuais, radiais a bilaterais, com frequência apresentando tristilia. Tépalas 6, vistosas, variavelmente conatas, imbricadas, as tépalas adaxiais do verticilo interno com freqüência diferenciadas. Estames geralmente seis; filetes adnatos ao tubo do perianto, com frequência apresentando comprimentos desiguais; anteras deiscentes por fenda ou poros; grão de pólen com um ou dois sulcos. Carpelos 3, conatos, ovário súpero com placentação axial, ocasionalmente parietal com placenta intrusiva, às vezes com dois lóculos estéreis; estigma capitado a 3-lobado; óvulos um a numerosos por lóculo; nectários frequentemente presentes nos septos do ovário. Fruto cápsula loculicida, utrículo ou noz, rodeado por uma porção persistente do tubo periântico.

Chave para identificação para os táxons de Pontederiaceae do Delta do Parnaíba, Piauí 1. Plantas com flores azuis a lilases; ovário trilocular; fruto cápsula com numerosas sementes. 2. Folhas sésseis ou pecioladas, planta multiflora, flor com seis estames. 3. Planta com folhas lanceoladas, espatuladas, ovadas ou reniformes, inflorescência com mais de 10 flores, escapo floral 11-70 cm compr. 4. Lâmina foliar espatulada, tépalas internas com margem fimbriada ......... ..................................................................1.1. Eichhornia azurea 4'. Lâmina foliar reniforme, tépalas internas com margem inteira .............. .............................................................1.2. Eichhornia crassipes 3'. Planta com folhas cordatas, inflorescência com duas a três flores, escapo 1,1-2,2 cm compr. ........................................1.3. Eichhornia diversifolia 2'. Folhas pecioladas, planta uniflora, flor com três estames ............................. .................................................................2.1. Heteranthera rotundifolia 1'. Plantas com flores alvas; ovário unilocular; fruto utrículo ................................. ...............................................................3.1. Pontederia cordata var. ovalis

1. Eichhornia Kunth, Enum. Pl. 4: 129. 1843.

Plantas anuais ou perenes, flutuantes livres a enraizadas. Caules flutuantes a eretos, rizomatosos a estoloníferos. Folhas sésseis formando uma roseta basal ou alternas ao longo do caule; folhas pecioladas flutuantes ou emersas, cordadas, cordado-lanceoladas, oval-acuminadas obovadas, orbiculares elípticas. Inflorescência espiciforme a paniculada. Flores tubulares, zigomorfas, coloração azul a roxo. Tépalas oblongo-lanceoladas, glandular-pubescentes, com margens inteiras ou fimbriadas. Androceu com seis estames, sendo os três superiores mais curtos que os três inferiores. Estilete pubescente a piloso-glandular, homostílico ou heretostílico. Fruto cápsula loculicida, sementes numerosas.

Eichhornia é um gênero nativo de regiões tropicais e subtropicais da América, com uma espécie (E. diversifolia) também na África tropical, diferente de Pontederia que é gênero exclusivamente americano (Dahlgren et al. 1985).

1.1. Eichhornia azurea (Sw.) Kunth, Enum. Pl. 4: 129. 1843. Figs. 1a-b; 3a-b

 

 

Planta flutuante fixa, ca. 70 cm compr. Folhas emersas, glabras, pecíolo não inflado 9-15 cm compr., cilíndrico, esponjoso; bainha 2-7 × 1,2-3 cm; lâmina foliar 3-3,4 × 12,6-14,2 cm, cartácea, espatulada, base atenuada, ápice agudo, margens inteiras. Escapo 11,2-13,5 cm compr.; brácteas espatuladas 2-4,2 × 1,2-1,7 cm. Inflorescência espiga, glabra, 18 a 26 flores. Flores azuladas, guia de néctar mais intensamente azulado em um terço na porção próxima. Tépalas pilosas, as internas fimbriadas 1,3-2,1 cm compr. Estames 6, com até 1 cm compr., concrescidos às tépalas, inseridos na parte superior do tubo da corola, anteras oblongas. Gineceu 2,1-2,9 cm compr.; ovário 4-6 mm, estilete 1,7-2 cm, piloso, heterostílico; estigma tripartido e pubescente. Fruto 1,6-1,9 cm compr. Semente ca. 2 mm, achatada lateralmente, apiculada, creme.

Material examinado: Cajueiro da Praia, Boa Vista, 31. VIII. 2011, fl., M.F. Silva et al. 38 (TEPB).

Material adicional: Campo Maior, Açude do Urum, 20.V.2008, fl., F.O. Pires et al. 88 (EAC); Campo Maior, 25. IV. 2004, fl., L.P. Felix 25 (EAC). PARÁ: Rio, 11.XI.1987, fl., H.A. Beck, et al. 405 (EAC); BAHIA: Barra, Margem Rio Grande, 11.V.2003, fl., V. Gomes32551 (EAC).

Eichhornia azurea foi encontrada em campos alagados e em lagos de várzea. Segundo Moretti et al. (2003),esta espécie está associada a abundância de macroinvertebrados que ficam distribuídos entre seus ramos ou na área de superfície foliar. Difere de E. crassipes pelas tépalas pilosas com margens fimbriadas, enquanto E. crassipes apresentam margens inteiras (Sanches 2000). Segundo Amaral (2012) a espécie é nativa e não endêmica, ocorre na região Norte (RR, AP, PA, AM, TO, RO), Nordeste (MA, CE), Centro-Oeste (MT, MS), Sudeste (MG, SP, RJ) e Sul (SC, RS), na Amazônia, Caatinga, Cerrado, Mata Atlântica e, Pantanal. Este é o primeiro registro para o estado do Piauí.

1.2. Eichhornia crassipes (Mart.) Solms, in A. DC. & DC., Monogr. Phan. 4: 527. 1883. Figs. 1c-d, 3c-d.

Planta flutuante livre ou fixa, ca. 80 cm de altura em águas rasas. Folha 6,8-7 × 11,5-12 cm, reniforme, ápice arredondado, base cuneada, cartácea, margem inteira; pecíolo 4-11,0 × 1,4-26,3 cm compr., inflado, cilíndrico, esponjoso. Inflorescência espiga, de 10 a 26 flores; escapo 35-70 cm compr. Flores lilases, ca. 2,7 cm compr. Tépalas 6, 2,3-3,3 cm compr., a superior com guia de néctar vináceo com centro amarelo, margens inteiras. Estames 6, filetes pilosos, anteras oblongas. Gineceu 1-3,1 cm compr.; ovário 0,5-7 cm compr., estilete piloso 0,7-2,8 cm compr., tripartido. Fruto 1,7-2 cm compr. Semente 1 mm, creme.

Material examinado: Parnaíba, Antigo do Braço do Rio Igaraçu, 31.VIII.2011, fl. e fr., H.C.E.Nascimento 132 (TEPB); Parnaíba, Capinzal, 29.IV.2011, fl., H.C.E. Nascimento 100 (TEPB); Parnaíba, Capinzal, 29.IV.2011, fl., H.C.E. Nascimento 105 (TEPB); Parnaíba, Lagoa do lava jato, 29.VIII.2011, fl., H.C.E.Nascimento123 (TEPB); Parnaíba, Antigo do Braço do Rio Igaraçu, 31.VIII.2011, fl., H.C.E. Nascimento 133 (TEPB); Parnaíba, Capinzal, 29.IV.2011, fl., H.C.E. Nascimento 109 (TEPB);Parnaíba, Capinzal, 29.IV.2011, fl. e fr., H.C.E. Nascimento 91 (TEPB). Parnaíba, Ilha das Batatas, 20. IX. 1987, fl., M.G.M. Arraias 6080 (TEPB).

Material adicional: ALAGOAS: Piraçubuçu, Fazenda Batinga, 3.V.1983, fl. R.F.A. Rocha 536. (TEPB); Batalha, Parque Ambiental Paquetá, 18.III.2006, fl. L. Oliveira 21 (TEPB). CEARÁ: Iguatu, Lagoa do Saco, 14.V.2011, fl., L.R.O. Normando 116 (EAC); Iguatu, Lagoa do Baú, 30.VI.2010, fl., J.R.A. Paiva & L.Q. Matias 04 (EAC).

O pecíolo inflado e a tonalidade lilás da flor desta espécie dependem da quantidade de nutrientes do ambiente onde as populações se desenvolvem (Sanches 2000). Foi encontrada nas margens de rios, igarapés e lagoas temporárias eutrofizadas, tendo sido registrada anteriormente por Sousa (2010) para o litoral piauiense. Devido ao seu rápido crescimento, tendem a formar uma cobertura homogênea sobre a lâmina dos sistemas aquáticos. Entretanto, pode ser utilizada como ferramenta importante na restauração de sistemas hipereutróficos onde o crescimento pode ser controlado mecanicamente (Meerhoff et al. 2002). É relatado o uso em tratamento de efluente, de curtume de peles de tilápias e em artesanato em um Distrito do Pantanal (Chaguri 2010), como alimento para o peixe-boi e como fertilizante vegetal ou em biodigestores na produção de biogás como fonte alternativa de energia em substituição ao gás derivado de petróleo (Albuquerque 1981).

É nativa e não endêmica. Registrada para a Região Norte (AM), Nordeste (MA, PE, BA), Centro-Oeste (MT, DF, MS), Sudeste (SP), Sul (PR, SC), com ocorrência na Amazônia, Cerrado e Mata Atlântica (Amaral 2012).

1.3. Eichhornia diversifolia (Vahl) Urb., Symb. Antill. 4: 147. 1903. Figs. 1e-i; 3e-f

Planta flutuante fixa, ca. 20 cm compr. Bráctea 3-4 cm, espatulada. Folhas submersas, 0,5-0,7 × 0,2-0,8 cm, lineares, glabras, cartáceas, ápice agudo, base atenuada, margem inteira; folhas emergentes cordiformes, ápice obtuso, base cordada, margem inteira; pecíolo 3,7-7 × 0,3-1 cm compr., cilíndrico, esponjoso; bainha 0,4-2,4 × 0,6-4,1 cm. Inflorescência espiga, glabra; escapo 1,1-2,2 cm compr.; brácteas espatuladas 1,7-1,9 × 0,5-0,7 cm. Flores 2-3; pedicelo 0,7-1,7 cm compr.; tépalas azuis, zigomorfas, guias de néctar amarelos em um terço da porção proximal. Estames 6, ca. 1,0 cm compr., concrescidos às tépalas, inseridos na parte superior do tubo da corola, anteras oblongas. Gineceu 2,1-2,4 cm compr.; ovário 0,5-0,6 cm compr., estilete piloso 1,5-1,7 cm compr., heterostílico; estilete com estigma tripartido, pubescente. Fruto cápsula 1,5-1,7 cm compr. Semente ca. 2 mm, com cristas longitudinais, marrons.

Material examinado: Cajueiro da Praia, Boa Vista, 14.V.2011, fl. e fr., L. Araújo 98 et. al. (TEPB); Parnaíba, Boa Hora, Margem do Rio Longá, 14.IV.1999, fl. e fr., R.A. França (TEPB).

Espécie encontrada em lagoa temporária, somente na estação chuvosa. Distingue-se das demais espécies por apresentar duas a três flores e por folhas de forma ovadas, orbiculares ou reniformes com base cordata nas emergentes e lineares e membranáceas nas submersas (Sanches et al. 2000).

É nativa e não endêmica. Registrada para o Norte (PA, TO, AC), Nordeste (MA, CE, PB, PE), Centro-Oeste (MT, GO) e Sudeste (MG, RJ). Ocorre na Amazônia, Caatinga, Cerrado e Mata Atlântica (Amaral 2012). A espécie está sendo registrada pela primeira vez para o estado do Piauí.

2. Heteranthera Ruiz & Pav. Fl. Peruv. Prodr.: 9. 1794.

Plantas anuais ou perenes. Folhas submersas lineares ou emergentes ovadas, elípticas, reniformes a orbiculares; pecíolo nunca inflado. Inflorescência uniflora a multiflora, séssil ou pedunculada. Flores zigomorfas. Perigônio hipocrateriforme, tépalas lineares a lanceoladas, as três externas mais estreitas do que as internas, margem inteira. Androceu com três estames, dimórficos, pilosos a glabros; filetes pilosos ou glabros; anteras heteromorfas. Ovário unilocular; estilete glabro-pubescente. Fruto cápsula.

Heteranthera distingue-se de Eichhornia e Pontederia por apresentar inflorescências unifloras a multifloras e possuir apenas três estames (Sanches et al. 2000).

2.1. Heteranthera rotundifolia (Kunth) Griseb., Cat. Pl. Cub.: 252. 1866. Figs. 2a-e; 3g-h

 

Planta emergente, ca. 20 cm compr. Folha emersa, cartácea, 1,2-2,5 × 0,8-1,6 cm, oval, cordiforme a subcordadas, base cordada, ápice variando de obtuso a arredondo, margem inteira; pecíolo 3,2-8,4 × 0,3-0,8 cm, cilíndrico, oco; bainha 0,2-0,5 cm compr. Inflorescência uniflora; escapo 1,5-4,8 cm compr.; bráctea linear 1,2-1,9 × 0,4-0,5 cm. Flor 1,2-3,1 × 0,5-1,5 cm, glabra; tépalas 1,8-2,9 cm compr., azuis, guia de néctar amarelo em um terço da porção proximal, apêndices laterais amarelos na tépala mediana superior. Estames 3, concrescidos às tépalas na base, anteras linear-lanceoladas. Gineceu 0,9-2,6 cm, ovário 0,8-1,1 cm compr., pluriovulado, placentação central axial, estilete glabro, 0,8-1,2 cm, estigma tripartido. Fruto 1,3-2,1 cm compr. Semente 0,5-1 mm, com cristas longitudinais, marrom brilhante.

Material examinado: Cajueiro da Praia, Boa Vista, 21.IV.2012. fl. e fr., S. M. G. Carneiro et al. 34 (TEPB); Canto Grande, 20.IV.2012. fl. e fr., S. M. G. Carneiro et al. 35 (TEPB).

Heteranthera rotundifolia é uma espécie estreitamente relacionada à H. limosa (Sw.) Willd., tanto que Correll & Correll (1972) não identificaram caracteres vegetativos que as pudessem diferenciar. Estudos organogênicos conduzidos por Horn (1988) indicaram que plântulas de H. rotundifolia possuem pecíolos flexíveis e caules alongados, enquanto que em H. limosa os pecíolos são rígidos mesmo quando submersos e raramente desenvolvem caules alongados. Nós observamos que os apêndices laterais amarelos na tépala mediana é um caráter importante para distinguir H. rotundifolia de H. limosa.

É nativa, não endêmica e registrada para o Nordeste (MA, PI, BA) e Sudeste (SP, RJ), ocorrendo na Mata Atlântica (Amaral 2012).

3. Pontederia Linnaeus, Sp. Pl. 1: 288. 1753.

Plantas perenes ou anuais, enraizadas, flutuantes ou emergentes. Caule submerso. Folhas sésseis submersas, formando uma roseta basal, flutuantes ou emergentes cordadas, lanceoladas, ovais, oval-cordadas, reniformes, sagitadas. Inflorescência em espiga. Perigônio zigomorfo tubular, alvo, azul e róseo; tépalas oblongas, lanceoladas, ovada-elípticas, elípticas, glandular-pubescentes ou pilosas quando emersas. Androceu com seis estames, heterodínamos. Carpelos originalmente 3 unidos, 2 abortados e 1 fértil, unilocular, 1 óvulo. Fruto utrículo ou aquênio.

Gênero heterostílico como Eichhornia, sendo que Pontederia parviflora Alexander é a única espécie homostílica dentro do gênero. Apresenta plasticidade fenotípica, com suas estruturas vegetativas e reprodutivas variando em comprimento e formato. Desta forma, embora descritas diversas variedades, atualmente são aceitas duas, P. cordata L. var. cordata e P. cordata L. var. ovalis (Mart.) Solms. (Horn 1987, Faria & Amaral 2005). Na área estudada ocorre a variedade P. cordata L. var. ovalis. Esta diferencia-se da Pontederia cordata var. cordata, especialmente quanto a inflorescência congesta, pedúnculo densamente piloso e o perigônio alvo.

3.1. Pontederia cordata var. ovalis (Mart.) Solms in A. DC. & C. DC., Monogr. Phan 4:533. 1883. Figs. 2f-h; 3i-j .

Planta emergente, ca. 90 cm de altura. Caule ereto com 59-80 cm de compr. Folhas emergentes, lanceoladas, ápice obtuso, base oblonga, cartácea, 9,5-20 × 5-9,9 cm; pecíolo 7-40 × 0,6-1,7 cm, cilíndrico, esponjoso; bainha 11-20 cm de compr. Inflorescência espiga, pilosa, 60-140 flores, ca. 4,5 cm; pedúnculo 2-3 cm compr., pubescente com tricomas tectores de 5 mm compr.; escapo 13,5-25 cm compr.; bráctea espatulada, 4-7,1 cm compr. Flores dispostas em grupos de 3-7 ao longo da raque, tépalas alvas com calosidades amarelas no labelo, 3-5 mm. Estames 6, brancos com anteras marrons, 3 filetes ca. 3,5 mm compr. e 3 ca. 8 mm compr., anteras oblongas. Gineceu 6-8 mm compr., estilete 1-5 mm de compr., ovário 2-3 mm compr. Fruto utrículo, 0,9-1 cm compr., oblongo ovado com cristas longitudinais ornamentadas com projeções em ganchos. Semente ca. 4 mm, marrom.

Material examinado: Ilha Grande, Ilha do Urubu 15.IX.2011, fl. e fr., H.C.E. Nascimento 130 (TEPB); Cipoal, 15.IX.2011, fl. e fr., H.C.E. Nascimento 131 (TEPB). Parnaíba, Delta do Parnaíba, 22.V.2002, fl. e fr., L.Q. Matias, 359 (EAC).

Pontederia cordata var. ovalis foi encontrada em lagoas temporárias e igarapés, constituindo populações persistentes em ambientes sazonais e com ampla variação da lâmina d'água. Perfil ecológico semelhante foi registrado por Penha et al. (1988) no Pantanal Mato-grossense, cujas populações apresentam hábito de vida variável e situadas em diferentes gradientes de inundação que compreenderam ambientes permanentemente alagados e periodicamente secos. Os autores também observaram que houve o pico de produção de sementes na cheia, o qual pode maximizar a dispersão de sementes pela água.

A espécie é nativa, não endêmica do Brasil, registrada para o Nordeste (MA, PB e BA), Centro-Oeste (MG, MS), Sudeste (MG, SP) e Sul (GS), ocorrendo na Caatinga, Mata Atlântica e Pantanal (Amaral 2012).

Agradecimentos

Agradecemos ao CNPq, o suporte financeiro para o projeto Biodiversidade de Macrófitas Aquáticas do Delta do Parnaíba (processo no. 503494-2009-7), ao Sistema de Autorização e Informação em Biodiversidade (ICMBio-SISBIO) e à equipe do projeto, o auxílio nos trabalhos de campo e ao Dr. Simon Mayo do Royal Botanic Gardens, Kew, a revisão do abstract.

Artigo recebido em 07/08/2012

Aceito para publicação em 01/03/2013

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Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    11 Nov 2013
  • Data do Fascículo
    Set 2013

Histórico

  • Recebido
    07 Ago 2012
  • Aceito
    01 Mar 2013
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