Mal-estar e amor

Discomfort and love

Jorge W. F. Amaro

PONTO DE VISTA

Mal-estar e amor

Discomfort and love

Jorge W. F. Amaro

Professor associado permissionário do Departamento de Psiquiatria da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP), psicanalista pelo Instituto de Psicanálise da Sociedade Brasileira de Psicanálise

Endereço para correspondência

ABSTRACT

The author begins trying to elucidade the concept of love and sex. He affirms that love is a human function developed through millennium equally as language. The environment and cultural apprenticeship will develop love. Sex is an animal instinct equal of any other animal. Sex is always attached to pleasure. Love is attached to protection and to give confort to life in a broad sense (biological and sociological life). The most abstract and developed type of love is when people search to protect human rights, ecology and religious ecumenism in a broad sense.

Durante mais de meio século, fui influenciado pelos modelos de pensamento da história, da antropologia, da sociologia, da economia, da psicologia, da psicanálise, da teologia e da psiquiatria, entre várias outras disciplinas. Em meus artigos e livros, sempre referi estudiosos desses ramos do conhecimento para embasar meus pontos de vista, já que constituíam minha fonte de referência.

Ao completar três quartos de século, dei-me o direito de seguir meu próprio modelo de pensamento (que, repito, carrega muito da influência recebida desses autores, além de um pouco de minha própria experiência). Não há nada de novo, pois este é o velho transformado. Creio que, nesta fase de minha vida, posso dar-me o direito de expor, a partir de minha experiência, minha maneira de conceber mal-estar e amor. Usar sempre os velhos modelos institucionalizados pelo establishment é não desenvolver a "individuação", aqui entendida no sentido dado por Jung.

O termo "mal-estar" é empregado no sentido de estar o indivíduo no mundo sem crescimento humanístico, sem desenvolver o amor. Esse mal-estar pode se expressar tanto por comportamentos como por sintomas físicos, psíquicos, sociais e espirituais.

Nos textos clássicos e em alguns dicionários, o termo "espiritualidade" está associado à noção de divino, de religião e de Deus. Na minha acepção, espiritualidade é uma função humana, que promove as forças de vida contra os mecanismos destrutivos oriundos de fora ou de dentro do próprio homem, sem nenhuma ligação com o divino. Essa vida pode estar contida no próprio indivíduo, em seus entes queridos e amigos, assim como no interesse genuíno manifestado pelos aspectos universais da vida do planeta, motivo do apreço pela ecologia, por exemplo, pelos direitos humanos ou pelo ecumenismo religioso.

O conceito oposto à espiritualidade seria o de algo que promove a destruição e a morte. Essa morte pode ocorrer no contexto biológico, psicológico, espiritual e social.

O amor é uma função do amadurecimento humano. A criança necessita muito, porém, ainda não ama. Tem o potencial de desenvolver amor, que, se devidamente estimulado, brotará como uma flor; porém, se não for estimulado pelo meio ambiente, irá se deteriorar. Por isso, as pessoas imaturas necessitam, mas não amam. Amor é função exclusiva da parte amadurecida da personalidade e nada tem a ver com o conceito de sexo, como querem alguns autores. Assim como a linguagem surge inata, como potencial, e só se desenvolverá se estimulada pela cultura, o amor é também um potencial inato da humanidade, que pode se desenvolver pela influência do meio ambiente.

O homem maduro desenvolveu uma função neutra de observador e a curiosidade pelo conhecimento (componente científico da personalidade), que se contrapõem a outras áreas adultas e infantis de sua personalidade, dominadas por desejos, emoções e memórias que o induzem a pensar e a agir por estruturas aprisionantes.

A história, a antropologia, a psicologia, a psicanálise, a sociologia etc. forneceram informações de que a mente infantil do indivíduo permanece o resto de sua vida arquivada nos registros cerebrais, como um software enraizado no hardware. O cérebro mantém arquivos e programas que foram estruturados em épocas pretéritas, com recursos imaturos e irracionais. O amadurecimento construirá novos diretórios e arquivos que possibilitarão ao indivíduo observar e viver experiências e emoções de uma maneira diferente, portanto, com uma reação diferente. É importante salientar que os diretórios e os arquivos da mente primitiva são constituídos não só de experiências positivas e negativas do desenvolvimento inicial do indivíduo, mas também de um potencial do acervo humanístico que ele herdou do desenvolvimento do Homo sapiens. Há, pois, um inconsciente pessoal e um outro coletivo de características universais. É nesse sentido de inconsciente coletivo, de características universais, que será usado o termo "Eu". O termo "Ego" é usado no sentido psicanalítico (Superego, Id e Ego).

Desde o início da história da humanidade, constata-se por relatos históricos e textos sagrados religiosos a existência de sentimentos que se manifestam como funções emocionais próprias do espírito humano, como inveja e gratidão; egoísmo e generosidade; vingança e perdão; intolerância e tolerância; renúncia e submissão; fidelidade e infidelidade; arrogância e humildade; onipotência-onisciência-onipresença e relativismo; pulsões de destruição e de construção; impulsividade e contenção; fidelidade na busca de um bem maior e mais abrangente e busca de um prazer imediato, mesmo em detrimento da fidelidade na busca de um bem maior e mais abrangente.

Os animais apresentam o instinto maternal, pelo qual a fêmea cuida e protege seus filhotes. Pesquisadores observaram que ratas virgens, postas em gaiola com ratos recém- nascidos, não se comportavam com maternagem e muitas vezes canibalizavam os recém-nascidos. Aplicando injeções de oxitocina nas ratas virgens, elas mudavam o comportamento e ofereciam maternagem para os recém-nascidos. O substractum da maternagem tem componentes instintivos e bioquímicos. É o lado imanente da maternagem. Com ela, inicia-se o desenvolvimento de certas funções, como tolerância, renúncia, fidelidade etc.

No ser humano, essa maternagem é usada não só para um recém-nascido, mas também para os aspectos imaturos e irracionais da criança que existe dentro de cada um. Nessas condições, não estaria só a serviço do instinto e da perpetuação da espécie, mas também do desenvolvimento do lado transcendente do ser humano, de seu amadurecimento espiritual e do amor. É a mais simples forma de amor, pois é um amor pessoal. Por esse amor, a mãe renuncia muitas vezes às necessidades próprias para cuidar do recém-nascido; perdoa sua irracionalidade; é fiel ao seu objetivo etc. Numa relação adulto e adulto, é necessário que essa maternagem esteja presente para que ambos possam ser continentes das crianças recíprocas, ajudando-as a crescer para manter a vida do relacionamento, e possam entrar em contato com a verdadeira intimidade do par em relação.

É comum ouvir-se a expressão "foi fazer amor" como sinônimo de relação sexual. Do meu ponto de vista, sexo nada tem a ver com amor e nada tem a ver com a verdadeira intimidade. Amor é o resultado de todas as funções já enumeradas: tolerância, humildade, gratidão, generosidade, noção de limites (um não à onipotência); capacidade de ser continente da criança que existe dentro de cada um etc. Sexo é um impulso biológico que induz o indivíduo a se aproximar do sexo oposto e a obter prazer (na origem animal do homem, há também raízes na perpetuação da espécie). Intimidade é a possibilidade de dois seres humanos entrarem em contato com a criança e a sua estruturação dentro da própria cabeça e da cabeça de seu interlocutor. Há casais que viveram juntos por muitos anos e não conheciam intimamente as crianças recíprocas. Não tiveram intimidade. A grande maioria dos conflitos reside aí. A curiosidade e a necessidade de observar são funções existentes no homem desde seu nascimento. A criança usa essas funções a serviço do prazer e do desejo e, posteriormente, da memória de suas experiências. Nessas condições, por falta de uma observação neutra, sem desejos e memória, a estruturação dos valores, dos sentimentos e de sua forma de sentir e pensar está contaminada pelo método usado.

A memória e o desejo derivam da experiência adquirida pelos sentidos; são evocações de sentimentos de prazer ou dor, promovendo formulações e teorias a serviço do prazer ou do desprazer. A disciplina dessas funções promove a liberdade da função de observação.

A criança continua a existir dentro do adulto. Por isso, em uma relação a dois, para haver verdadeira intimidade, é necessário descobrir como essa estruturação foi feita, e os dois adultos em relação, com muito diálogo e muita maternagem, devem se ajudar reciprocamente a diminuir a parte imatura da personalidade de cada um.

No mito de Narciso, a mensagem é de que o amor incondicional, sem limite, onipotente, destrói nossa personalidade, nossa identidade, nossa individuação e até nossa vida. É uma patologia que o ser humano tem de combater para proteger o verdadeiro amor, saudável, que é voltado para o outro ser humano e também para si mesmo. Ao amar o próximo, deve-se simultaneamente proteger o amor que se tem para consigo mesmo. Narciso representa pessoas narcísicas, para as quais toda a verdade, todo o bom, todo o conhecimento estão em si mesmos, e o outro deve existir somente para admirá-los e servi-los de forma submissa. Os narcísicos gozam com suas próprias idéias e não desfrutam prazer na interação humanística. Muitas vezes, alguns dogmas religiosos pregam o amor incondicional. No meu ponto de vista, é uma patologia para quem vive na realidade do mundo de hoje.

No mito de Édipo, vários códigos nos informam funções humanísticas globais. Assim, a Esfinge, que propõe enigmas, é um aspecto do próprio ser humano que necessita descobrir os enigmas dos aspectos formais e aparentes da relação humana, os quais possuem, em seu conteúdo, informações preciosas para o desenvolvimento humanístico do homem. Se, de um lado, o aspecto imanente aprisiona o indivíduo aos instintos, às necessidades animais básicas, de outro, seu lado transcendente o impele a buscar no conhecimento uma maior libertação (e nunca total libertação) de seu lado imanente. As pessoas que por ali passavam, uma após a outra, eram devoradas pelo monstro. As pessoas representam o lado mais universal do homem, que será destruído se ele não aperfeiçoar o conhecimento e decifrar os enigmas e os códigos de sua mente primitiva.

A descrição do Ego como representante do indivíduo e do Eu como representante de seu componente universal já foi exaustivamente feita por diferentes autores. O Ego, em seu componente imanente, leva o homem a buscar a própria satisfação (de características pessoais). O Eu, em seu componente transcendente, também leva o indivíduo a buscar satisfação (de características universais). O caminho do meio é a possibilidade de integrar essas duas necessidades, e quando, na encruzilhada da incompatibilidade, não for possível essa integração, a hierarquia de valores de cada um dará a opção. Como o bom ou o bem absoluto é uma entidade virtual, potencial e nunca atual e real, o indivíduo precisa de um bom ou bem operacional, que seria um bem ou bom relativo, porém, maior em contraste com um bem menor, também relativo, no entanto, atual. A noção de bem operacional deve ser empregada como um conceito operacional, usado como parâmetro provisório para uma pesquisa, com valor relativo, portanto, e destituído de significado absoluto.

A consciência e a admissão de que esse bom ou bem maior (evidentemente em relação a um bem menor) são de natureza relativa, e não absoluta, lhe conferem o potencial de mudança, de reformulações e aperfeiçoamento. Proponho, então, o seguinte modo de pensar: "Nos inúmeros e diferentes momentos das encruzilhadas na vida, em que o bem maior e o bem menor se apresentam ao indivíduo, é necessária a intransigente fidelidade ao bem maior. Ao constatar o erro da escolha do então aparente bem maior, é necessária a intransigente fidelidade à coragem de retroagir, assumindo a dor do tempo perdido, para novamente iniciar o caminho da busca do bem maior perdido e não estagnar a corrente da evolução".

A psicanálise clássica enuncia que há sempre uma repressão de impulsos pulsionais. Tanto a pulsão sexual quanto a pulsão da agressividade têm de ficar reprimidas. Tudo isso a serviço de um ideal de ego. A sublimação é vista como um mecanismo de troca de objetivo sexual original por outro, muitas vezes de valor socialmente mais elevado, considerado mais nobre. A constituição inata de cada um determinaria o quanto este indivíduo poderá sublimar. Em meu modo de pensar, a repressão não é só de impulsos pulsionais, que ofenderiam o ideal do ego e daí a necessidade de repressão. Há, concomitantemente, a repressão de necessidades mais universais, que já existem em potencial e ainda não foram desenvolvidas. A consciência prematura da destruição dessas necessidades mais universais poderia desencadear sentimentos de culpa com profundas necessidades de autodestruição, uma vez que perdoar é uma das funções do amor, que pode ainda não estar desenvolvido.

Apolo, o deus da verdade, é a expressão de um código, de um símbolo que representa as verdades e os bens mais universais da humanidade, que deverão ser decifrados para proteger a vida, o desenvolvimento humanístico e espiritual do ser humano, de modo que este não fique aprisionado por seu lado imanente. O relato do drama de Édipo, apresentado como uma fatalidade, apenas mostra o lado imanente do homem, que, muitas vezes, inconscientemente, na busca de um prazer mais imediato, destrói nesse caminho valores mais elevados, incompatíveis naquele contexto social e histórico, com aquele prazer. Não se trata exclusivamente de prazer sexual, mas de qualquer prazer ou desejo incompatíveis com valores mais universais e que poderão, se atuados, promover destruições graves. A felicidade aparente de Édipo e Jocasta durante os primeiros anos era o que se chama de defesa maníaca (segundo o conceito psicanalítico de defesa maníaca), em que os valores humanísticos mais universais estão inconscientes e a destrutividade, negada. Ao aperfeiçoar o bom e o bem por meio da psicanálise, o indivíduo corre riscos, pois o desvendar da verdade lhe mostra, dia a dia, que ele corrompe valores mais elevados por egoísmo, narcisismo, rivalidade, infidelidade aos bens mais universais, vício de adesão à necessidade do gozo mais imediato, intolerância, inveja, sede de vingança etc., correndo o risco, como referido, de ter de enfrentar a culpa pela destruição desses valores mais elevados. A praga que dizimava a população de Tebas seriam os valores mais elevados morrendo. A culpa provocada pela consciência dessa destruição pode tornar-se insuportável para o indivíduo (suicídio de Jocasta e autocegamento de Édipo). O ser humano tem de desenvolver a capacidade de perdoar-se, e, lenta e progressivamente, a possibilidade de, ao conscientizar-se desses enigmas e da destruição desses valores mais elevados, neutralizar a necessidade de castigar-se e consertar os rumos de sua vida. Às vezes, um analisando, de maneira altaneira e arrogante, como o fez Édipo, quer saber toda a verdade. Se não estiver preparado com poderosas forças de humildade, perdão, renúncia ao perfeccionismo estéril, poderá criar muitos mecanismos de autocastigo. A verdade é que, nas mais profundas entranhas do ser humano, estão valores universais que necessitam ser desenvolvidos, como é o caso, por exemplo, da difícil tarefa do respeito aos direitos humanos, à ecologia do planeta e ao ecumenismo religioso.

Há casos em que a alienação em relação a esses valores mais universais do Eu deixa-os ocultos e há uma inflação nos valores do Ego (como, por exemplo, nas personalidades paranóides), trazendo como resultado a estagnação do crescimento humanístico.

Citarei apenas um caso clínico para ilustrar meu ponto de vista sobre as afirmações contidas neste artigo.

Trata-se de um profissional liberal, recém-formado, sem filiação a nenhuma religião, que se apresenta à análise com queixas de pensamentos obsidentes, que surgem quando se aproxima de manchas pretas, negras, presentes no chão por onde deve passar. Não pisa nelas, pois a idéia obsidente é de que sua mãe morreria. Pula o espaço onde está a mancha preta. Não pode pisar nesses espaços, pois a angústia que o persegue é a de que sua mãe morreria. Racionalmente, não acredita muito nessa idéia, porém, emocionalmente, sente o perigo e tem de se desviar da mancha preta. Outra queixa é que apresentou crises esporádicas de impotência sexual, embora todos os exames médicos o considerem normal e saudável sobre esse ponto de vista. Refere também aversão por coroas de flores roxas, que lhe lembravam a presença da morte. Embora educado em família cristã, não se filiava a nenhuma religião institucionalizada.

Pesquisadores da história das crenças e das idéias religiosas já apontaram que, desde os primórdios da humanidade, o ser humano apresenta duas formas de conceber o mundo: a sagrada e a profana. Na forma profana, o ser humano se relacionava com a natureza de maneira natural e simples. Na forma sagrada, a natureza, o espaço, a coisa em si, se transformam qualitativamente, sendo vividos com poderes sobrenaturais. Diante do sagrado, uma complexidade estrutural aparece, como mitos, ritos, símbolos, figuras divinas etc. Essa função de sagrado está situada em um determinado momento histórico e social. O sagrado revela a função transcendente no homem. Na Bíblia, encontramos alusão ao espaço sagrado: "Não te aproximes daqui, disse o Senhor a Moisés, descalça as sandálias porque o lugar onde te encontras é uma terra sagrada".

As funções do sagrado e da onipotência do pensamento foram descritas e observadas pela história da civilização, pelas pesquisas sobre as crenças e as idéias religiosas e também pela psicanálise, pela antropologia etc.

Neste caso clínico, observa-se uma forma rudimentar de elaborar as funções de sagrado e da onipotência do pensamento. O espaço natural do chão, com manchas pretas, torna-se qualitativamente diferente, pois representa para o analisando um espaço sagrado, que não pode ser pisado, sob pena de um mal muito grande ocorrer (sua mãe morreria). De outro lado, sua onipotência de pensamento atribui ao espaço profano e inocente o poder de levar sua mãe à morte. O rito se estabelece ao andar de maneira sistemática, evitando o contato com as manchas pretas. Não pisando na mancha preta, salva sua mãe da morte. O bandido é a mancha preta e o mocinho é o analisando. Em psicanálise, é uma posição esquizoparanóide, com uso maciço de identificações projetivas. Seu lado de herói, que salva a mãe da morte, já era uma forma inconsciente de desenvolver suas forças de vida e seus valores mais universais reprimidos. Ao mesmo tempo, suas necessidades mais imanentes, principalmente suas pulsões de morte, de destruição, também estavam reprimidas da consciência e projetadas na inocente mancha preta.

Desde o início de sua psicopatologia, sua intenção, seu objetivo, era nobre, ou seja, preservar a vida de sua mãe. O problema é que os meios utilizados não favoreciam a finalidade, pois colocar fora de si suas forças de morte – a incapacidade de tolerar frustrações, o egoísmo, a violência, a inveja etc. – impediam-no de atingir seus objetivos. Por outro lado, cortar o vínculo, não pisar, era um meio irracional e patológico de proteger a mãe. Assim também cortar o vínculo por meio de crises de impotência, ao se relacionar sexualmente com figuras femininas, era um meio irracional, que provocava sofrimento a si próprio pela vivência de incapacidade sexual e pela impossibilidade de desfrutar uma sexualidade normal.

Com o desenvolvimento da análise, ficou claro que o problema não era sexual, não era orgânico, mas apenas falta de desenvolvimento do único antídoto eficiente: o amor. Não havia desenvolvido ainda funções como tolerância à frustração, generosidade, renúncia em favor de um bem maior, gratidão, humildade etc. A repressão não era apenas da consciência de suas pulsões de morte, mas também de suas necessidades mais universais, do amor pessoal e do amor mais universal. Somente combater a repressão dos impulsos de morte levará um indivíduo a ser um sociopata quanto à sua conduta. A repressão perde sua necessidade quando surge o amor. Quando há amor, ele serve como elemento moderador e neutralizador de forças de morte presentes no indivíduo.

No caso clínico, podemos observar: 1) o bem e o mal estão separados (posição esquizoparanóide), sendo o bem identificado com o analisando e o mal com a mancha preta; 2) a mente do analisando sente que é onipotente para transformar as inocentes manchas pretas em depositárias das pulsões de morte e destruição; 3) cortar o vínculo, não estabelecer vínculo, foi o método encontrado pelo analisando para evitar o contato com sua parte imatura e destrutiva; 4) ao sacralizar um espaço profano, ao dar-lhe uma qualidade diferente e sobrenatural, o analisando já estava tentando elaborar, de maneira primitiva, as funções de sagrado e de sobrenatural; 5) os ritos por ele usados de pular as manchas pretas, de não pisar nelas, bem como o corte do vínculo ofereciam, por meio desses rituais, um apaziguamento da culpa, que lhe causava sofrimento (culpa persecutória — castigando-se); 6) não havia uma verdadeira reparação e uma integração (culpa depressiva).

A mente primitiva usa o prazer como antídoto de experiências de frustração e morte. A mente amadurecida usa o amor como antídoto. Nós, psicoterapeutas, temos o dever de, como parteiros da alma, ajudar o analisando a parir seus potenciais mais universais, que, em geral, estão reprimidos. Combater exclusivamente as forças destrutivas que estão reprimidas da consciência e que se expressam por sintomas somáticos e psíquicos, apenas tentando enfraquecer a repressão, sem concomitantemente desreprimir as forças construtivas universais, poderá levar o indivíduo a condutas sociopatas.

A história nos mostrou que a humanidade, após ter consciência de momentos de elevada autodestruição, como foi na Primeira e na Segunda Guerras Mundiais, esboça uma tentativa de buscar o interesse comum e mais universal dos povos. Criaram-se, assim, a Liga das Nações, após a Primeira Guerra Mundial, e a Organização das Nações Unidas, após a Segunda Guerra Mundial. A intenção seria promover a paz entre os povos e regular a vida internacional. Teoricamente, a intenção era buscar interesses comuns e valores mais universais. Na prática, os valores individuais, a incapacidade de atingir o interesse comum, o não-desenvolvimento de valores mais universais têm demonstrado a falência desse objetivo.

Nós, psicoterapeutas, não podemos mudar o grande mundo sociológico, porém, podemos, numa relação em escala minúscula, estimular, na relação psicoterápica, o desenvolvimento desses valores mais universais, pois somente por seu intermédio atingiremos a possibilidade de promover interesse comum, paz, respeito às diferenças, convivência e, caso não seja possível, pelo menos uma coexistência pacífica.

Recebido: 20/02/2006

Aceito: 25/08/2006

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Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    31 Jan 2007
  • Data do Fascículo
    2006
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