CARTA AO EDITOR
A relação entre a não adesão ao tratamento e falsas crenças de pacientes bipolares e seus familiares
The relationship between non-adherence to treatment and false beliefs of bipolar patients and their families
Karina de Barros PellegrinelliI; Mireia C. RosoI; Ricardo Alberto MorenoII
IPrograma de Transtornos Afetivos (GRUDA), Departamento e Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (IPq-HCFMUSP)
IIDiretor do GRUDA, Departamento e Instituto de Psiquiatria do HCFMUSP
A baixa adesão à medicação entre os pacientes bipolares é conhecida e é um fator importante no insucesso do tratamento de alguns casos. A percepção do paciente a respeito da doença e da importância da medicação influencia na sua adesão1. Sendo assim, quanto mais informados sobre a doença, como ela se manifesta, os tratamentos disponíveis e sua importância para se obter estabilização do quadro clínico, mais aumenta a adesão ao tratamento, levando a melhor desfecho2,3.
Fatores psicossociais como personalidade, estilo cognitivo, presença de emoção expressa na família, eventos vitais estressantes e suporte emocional também parecem contribuir em 25% a 30% nas alterações no curso da doença, influenciando na recuperação sintomática e na qualidade de vida4,5. A baixa adesão ao tratamento medicamentoso ainda é o fator responsável pelo maior número de recaídas. A literatura evidencia que os fatores mais relacionados à baixa recuperação sintomática e funcional são não adesão6, presença de sintomas entre episódios7, uso de antipsicóticos, baixo funcionamento pré-mórbido, comorbidade com transtorno de personalidade8 e prejuízo cognitivo relacionado com o transtorno do humor9.
Nos últimos anos, muitos pesquisadores têm se dedicado a avaliar os motivos da baixa adesão ao tratamento, não apenas no que diz respeito ao transtorno bipolar, mas em relação a doenças crônicas em geral. Um estudo feito com pacientes japoneses com doenças crônicas identificou, entre outros tópicos, que a baixa adesão à medicação está associada a crenças pessoais a respeito da doença, não valorização da relação de confiança com o médico, maior valorização dos possíveis efeitos colaterais da medicação e pouca compreensão de sua necessidade10.
Bowskill et al.5, em 2007, avaliaram 223 pacientes membros do Manic Depression Fellowship (MDF), e aqueles que reportaram baixa adesão à medicação tiveram alta insatisfação com a informação fornecida; já os que reportaram alta adesão tiveram baixa insatisfação com a informação. Isso parece demonstrar a associação entre a informação correta e a boa adesão.
Sendo assim, é importante que a psicoeducação associada ao tratamento do transtorno bipolar (TB) inclua não apenas a informação sobre a doença e seu tratamento, mas leve em consideração as crenças inadequadas dos pacientes que podem atrapalhar na assimilação da informação prestada e consequentemente atrapalhar na adesão ao tratamento e na obtenção de bons resultados. Por isso, o Programa de Transtornos Afetivos do IPq-HCFMUSP realizou um estudo-piloto acerca das principais crenças errôneas dos pacientes e familiares presentes em seus Encontros Psicoeducacionais abertos. Para isso, foi elaborado um questionário que consistia de 32 afirmações (verdadeiras e falsas) a respeito da doença, de seu tratamento, da importância da família e da prevenção de recaídas. Os sujeitos participantes do estudo foram instruídos a atribuir a cada afirmação o critério de verdadeira (V) ou falsa (F). Sessenta e dois sujeitos participaram do estudo. Os resultados demonstraram que 40% dos sujeitos têm crenças errôneas a respeito da natureza biológica da doença, da importância do apoio da família e dos efeitos da medicação.
As principais crenças errôneas levantadas foram:
1. O TB é um problema psicológico.
2. O tratamento medicamentoso pode comprometer a vida do paciente mais do que melhorá-la (relação risco x benefício)
.3. O TB é emocional, e não biológico.
4. O TB não é um transtorno mental ou uma doença médica.
5. A medicação, além de causar dependência, é prejudicial.
6. A família tem um papel prejudicial no tratamento.
7. A cura é possível.
Essas crenças foram semelhantes às encontradas em outros estudos6,5,1,11 com portadores de doenças mentais e crônicas.
Os resultados deste estudo levantam algumas questões importantes a respeito do tipo de informação que precisa ser dada ao paciente e seus familiares a fim de melhorar a adesão ao tratamento:
(a) É importante o esclarecimento a respeito da natureza biológica do TB a fim de separar fatores biológicos dos sociais que podem ser gatilhos para um novo episódio12.
(b) Deve ficar clara a ausência de evidência de cura do transtorno, mas a possibilidade de controle dele, como em doenças crônicas em geral. Essa informação pode frustrar pacientes e familiares quando eles percebem que o tratamento é para a vida toda, mas, a partir da aceitação desse fato e havendo uma relação de cumplicidade e confiança entre médico, psicoterapeuta e paciente, o tratamento torna-se mais eficiente.
(c) A família deve ser incluída e orientada desde o início, a fim de que sua participação no tratamento, no controle de recaídas e na melhora da comunicação possa favorecer a manutenção da estabilidade.
(d) Finalmente, é fundamental que se ressalte e esclareça a importância do tratamento farmacológico para a obtenção de bons resultados e os possíveis efeitos colaterais da medicação, bem como as alternativas para amenizá-los.
Esses são pontos cruciais não só para melhorar a compressão da doença e seu tratamento, garantindo maior adesão, mas também para diminuir o estigma e o preconceito que ainda afetam os portadores desse transtorno e seus familiares.
Recebido: 15/10/2009
Aceito: 2/12/2009
Referências bibliográficas
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