Conhecimentos de educadores de creches sobre alimentação infantil

Knowledge of educators from day care centers about infant feeding

Resumos

OBJETIVO: Avaliar o conhecimento das educadoras de creches sobre a alimentação nos primeiros anos de vida. MÉTODOS: Estudo transversal com 137 educadoras de oito creches do município de São Paulo, selecionadas no universo de 36 creches pertencentes à Coordenadoria de Santo Amaro, segundo critérios descritos a partir da metodologia proposta por Beghin. Para avaliar o conhecimento sobre alimentação das educadoras, foi construído e aplicado um questionário estruturado e pré-codificado com questões de múltipla escolha e "verdadeiro e falso" durante as reuniões mensais realizadas nas creches. No estudo das associações, utilizou-se o teste do qui-quadrado, selecionando variáveis com nível de significância p<0,05. RESULTADOS: A idade das educadoras variou de 19 a 66 anos, com mediana de 38 anos, sendo que 41,3% tinham curso superior completo. A mediana e o desvio padrão (dp) do número de erros nas questões dos subtemas aleitamento materno, aleitamento artificial, alimentação complementar e de todas as questões sobre alimentação foram respectivamente: 3 (dp=1,75); 2 (dp=0,87); 2 (dp= 0,96) e 7 (dp=2,65). CONCLUSÕES: Faz-se necessária a difusão dos programas de ação continuada e o aprimoramento de ações intersetoriais, envolvendo equipes multiprofissionais e creches locais, pois somente os conhecimentos incorporados na prática são insuficientes para promover boa alimentação e hábitos alimentares saudáveis para o crescimento e o desenvolvimento adequados das crianças atendidas.

conhecimento; alimentação; pré-escolar; cuidadores


OBJECTIVE: To assess daycare centers educators' knowledge on feeding during the first year of life. METHODS: Cross-sectional study comprising 137 educators from eight daycare centers of São Paulo city (Brazil) selected from the universe of 36 daycare centers linked to Santo Amaro Coordination. Selection was based on Beghin's methodology. In order to assess educators' knowledge on feeding a structured, previously codified and tested questionnaire was built with true/false and multiple choices questions and applied. Chi-square test was used to test association between selected variables, being significant p<0.05. RESULTS: Educators' ages ranged from 19 to 66, with a median of 38 years; 41.3% had completed university education. Regarding errors for questions on breastfeeding, artificial lactation, complementary feeding and the sum of all questions about infant feeding, the median and standard deviation (sd) were respectively: 3 (sd=1.75); 2 (sd=0.87); 2 (sd= 0.96) and 7 (sd=2.65). CONCLUSIONS: Continuous action programs and improvement of intersectorial actions involving multidisciplinary teams and local daycare centers are required, since solely the knowledge incorporated into practice is not sufficient to promote good feeding and healthy eating habits for the proper growth and development of the assisted children.

knowledge; feeding; child, child preschool; caregivers


ARTIGO ORIGINAL

Conhecimentos de educadores de creches sobre alimentação infantil

Knowledge of educators from day care centers about infant feeding

Elaine Emy ShimabukuroI; Mariana de Novaes OliveiraII; José Augusto de A. C. TaddeiIII

INutricionista, especialista em Saúde, Nutrição e Alimentação Infantil da Escola Paulista de Medicina da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp- EPM), São Paulo, SP, Brasil

IINutricionista, mestre em Ciências da Saúde pela Unifesp-EPM, São Paulo, SP, Brasil

IIIProfessor associado da disciplina de Nutrologia do Departamento de Pediatria da Unifesp-EPM, São Paulo, SP, Brasil

Endereço para correspondência

RESUMO

OBJETIVO: Avaliar o conhecimento das educadoras de creches sobre a alimentação nos primeiros anos de vida.

MÉTODOS: Estudo transversal com 137 educadoras de oito creches do município de São Paulo, selecionadas no universo de 36 creches pertencentes à Coordenadoria de Santo Amaro, segundo critérios descritos a partir da metodologia proposta por Beghin. Para avaliar o conhecimento sobre alimentação das educadoras, foi construído e aplicado um questionário estruturado e pré-codificado com questões de múltipla escolha e "verdadeiro e falso" durante as reuniões mensais realizadas nas creches. No estudo das associações, utilizou-se o teste do qui-quadrado, selecionando variáveis com nível de significância p<0,05.

RESULTADOS: A idade das educadoras variou de 19 a 66 anos, com mediana de 38 anos, sendo que 41,3% tinham curso superior completo. A mediana e o desvio padrão (dp) do número de erros nas questões dos subtemas aleitamento materno, aleitamento artificial, alimentação complementar e de todas as questões sobre alimentação foram respectivamente: 3 (dp=1,75); 2 (dp=0,87); 2 (dp= 0,96) e 7 (dp=2,65).

CONCLUSÕES: Faz-se necessária a difusão dos programas de ação continuada e o aprimoramento de ações intersetoriais, envolvendo equipes multiprofissionais e creches locais, pois somente os conhecimentos incorporados na prática são insuficientes para promover boa alimentação e hábitos alimentares saudáveis para o crescimento e o desenvolvimento adequados das crianças atendidas.

Palavras-chaves: conhecimento; alimentação; pré-escolar; cuidadores.

ABSTRACT

OBJECTIVE: To assess daycare centers educators' knowledge on feeding during the first year of life.

METHODS: Cross-sectional study comprising 137 educators from eight daycare centers of São Paulo city (Brazil) selected from the universe of 36 daycare centers linked to Santo Amaro Coordination. Selection was based on Beghin's methodology. In order to assess educators' knowledge on feeding a structured, previously codified and tested questionnaire was built with true/false and multiple choices questions and applied. Chi-square test was used to test association between selected variables, being significant p<0.05.

RESULTS: Educators' ages ranged from 19 to 66, with a median of 38 years; 41.3% had completed university education. Regarding errors for questions on breastfeeding, artificial lactation, complementary feeding and the sum of all questions about infant feeding, the median and standard deviation (sd) were respectively: 3 (sd=1.75); 2 (sd=0.87); 2 (sd= 0.96) and 7 (sd=2.65).

CONCLUSIONS: Continuous action programs and improvement of intersectorial actions involving multidisciplinary teams and local daycare centers are required, since solely the knowledge incorporated into practice is not sufficient to promote good feeding and healthy eating habits for the proper growth and development of the assisted children.

Key-words: knowledge; feeding; child, child preschool; caregivers.

Introdução

No Brasil, a implantação de creches ocorreu na década de 1920 por iniciativa de instituições filantrópicas com o objetivo de combater a pobreza e a mortalidade infantil e, para isso, adotou uma perspectiva médico-higienista(1). Inicialmente, as creches estiveram vinculadas ao atendimento da população de baixa renda, desenvolvendo trabalho de cunho assistencial, voltado à alimentação, higiene e segurança física das crianças, isolando-as de meios perniciosos(2,3). A introdução ao sistema educativo foi conduzida pelas teorias da privação cultural em meados de 1970, baseada nos princípios da educação compensatória, considerando a criança sempre em falta às condições básicas e a creche como compensadora das deficiências biopsicoculturais(1,4).

Atualmente, qualidades como ser mãe, gostar de criança e/ou ser mulher cedem lugar a propostas mais elaboradas de profissionalização, que objetivam instrumentalizar o educador para desenvolver nas crianças aspectos cognitivos, afetivos e sociais, mediante ações e atividades problematizadoras e integradas a outros profissionais, voltadas à faixa etária de zero a seis anos(5). Entretanto, ainda existem grandes variações na formação e capacitação profissional dos trabalhadores responsáveis pelo atendimento direto às crianças nesses locais. Pode-se justificar este fato devido à presença de diferentes denominações adotadas pela Secretaria Municipal de Educação de São Paulo: auxiliar de desenvolvimento infantil (aquelas que não têm formação específica) ou professora de desenvolvimento infantil (as que têm formação específica e foram aprovadas em concurso)(6).

Nos últimos anos, o Ministério da Educação (MEC) tem oferecido publicações para auxiliar a fase de transição das creches para o âmbito educacional. O MEC lançou, em 2005, o Programa de Formação Inicial para Professores em Exercício na Educação Infantil, habilitando em magistério para a educação infantil cerca de 40 mil professores que se dedicavam ao trabalho com crianças de zero a seis anos, sem ter cursado ou concluído o ensino médio(4,7). Com a grande difusão das creches em nossa sociedade, estão sendo transferidas para estas instituições as atribuições, antes da família, de desenvolver hábitos alimentares saudáveis. Atualmente, no Estado de São Paulo são 366.986 matrículas, sendo 55% apenas municipais(8).

No entanto, além de desenvolver processos educativos, a creche também precisa oferecer alimentação equilibrada tanto quantitativa como qualitativamente, proporcionando educação alimentar e nutricional às crianças e suas famílias, amenizando as situações de insegurança alimentar e promovendo o desenvolvimento e o crescimento infantil(9). As práticas alimentares adequadas devem ser adotadas nos primeiros anos de vida, sendo esse o período no qual os hábitos alimentares se estabelecerão e perdurarão pela adolescência e idade adulta(10-15).

Vários estudos realizados no Brasil demonstraram que a introdução precoce de alimentos complementares aumenta a morbimortalidade infantil como conseqüência de menor ingestão dos fatores de proteção existentes no leite materno, além de ser uma importante fonte de contaminação para as crianças(10,11). Contudo, ainda não há na literatura estudos que avaliem o conhecimento das educadoras de creches sobre a alimentação infantil, por isso é indispensável que esse profissional tenha conhecimentos sobre a alimentação, assegurando e contribuindo para o bom desenvolvimento e crescimento das crianças. Além disso, os educadores devem atuar como multiplicadores, transmitindo seus conhecimentos para os pais das crianças atendidas.

Assim, pode-se perceber que, apesar das políticas e incentivos para a adoção de alimentação saudável nas creches, faltam esclarecimentos e ensinamentos voltados tanto para as educadoras sem formação específica como para aquelas com formação específica em pedagogia, já que não consta na grade curricular matéria específica sobre alimentação infantil(16). Apesar das Diretrizes Curriculares Nacionais para o curso de graduação em Pedagogia (15/05/2006), no Artigo 5º, exigir que o egresso do curso esteja apto a compreender, cuidar e educar crianças de zero a cinco anos, de forma a contribuir para o seu desenvolvimento nas dimensões, entre outras, física, psicológica, intelectual e social, faz-se necessário conhecer a alimentação infantil para atingir essa meta(16). Neste contexto, o objetivo deste trabalho foi avaliar o conhecimento das educadoras de creches públicas e filantrópicas sobre a alimentação nos primeiros anos de vida.

Métodos

Esse trabalho faz parte do "Projeto Crecheficiente"(17) cujo objetivo é capacitar, aperfeiçoar e atualizar os educadores de creches quanto aos cuidados de saúde e nutrição oferecidos aos lactentes e avaliar a aquisição de conhecimentos a respeito das atividades desenvolvidas pelos educadores.

O estudo foi realizado junto às creches pertencentes à subprefeitura de Santo Amaro, no município de São Paulo, abrangendo 36 creches: 16 diretas (prédio e funcionários contratados pela prefeitura) e 20 indiretas (prédio da prefeitura e funcionários contratados pela instituição filantrópica que administra a creche). Destas, visitaram-se oito creches diretas e dez indiretas, considerando a facilidade de transporte e acesso às suas dependências. Após contatos telefônicos e visitas a essas instituições, quatro creches diretas e quatro indiretas foram selecionadas, segundo critérios descritos a partir da metodologia proposta por Beghin(18). Priorizaram-se os seguintes critérios, em ordem decrescente de valor: maior número de lactentes (crianças de zero a 24 meses), maior número de educadoras, ausência de intervenção de educação em saúde anterior, segurança na execução da pesquisa e presença de regras de admissão que garantissem o atendimento apenas às famílias de baixa renda, consideradas aquelas com até dois salários mínimos per capita por mês.

Trata-se de estudo transversal, inicialmente com 146 educadoras, das quais, nove foram excluídas por terem pedido demissão da instituição ou transferidas para outras creches. Foram estudadas, 137 educadoras, com perda amostral de 6,6% .

Para avaliar o conhecimento sobre alimentação das educadoras, foi construído e aplicado um questionário estruturado e pré-codificado com questões de múltipla escolha e "verdadeiro e falso". O questionário continha 23 questões sobre alimentação baseadas no conteúdo do Manual Crecheficiente, subdivididas em três subtemas: aleitamento materno, aleitamento artificial e alimentação complementar, com 11, cinco e sete questões, respectivamente(19). Para digitação do questionário foram atribuídas as notas: zero para acerto e um para erro, portanto, quanto maior o número de erros maior a nota final da educadora. Tomando por base esta nota, foram definidas as medianas como pontos de corte para construção dicotômica das variáveis. Para obter os dados pessoais das educadoras, aplicou-se uma ficha de identificação estruturada e pré-codificada, abordando variáveis socioeconômicas, demográficas, ambientais e experiência materna.

Os dados foram coletados de abril a junho de 2007, nas reuniões mensais realizadas nas creches, denominadas Paradas Pedagógicas, nas quais se discutem temas relacionados ao cuidado e educação das crianças com o objetivo de desenvolver, aprimorar e avaliar as atividades colocadas em prática na rotina das creches.

Após a coleta, os dados foram transcritos com dupla digitação e posterior validação no programa Epi-Info 2000(20). O ponto de corte para dicotomização, quando consideradas as 23 questões, foi mais de sete erros. Quando analisados separadamente os subtemas do instrumento de avaliação com 11, cinco e sete questões, os pontos de corte foram, respectivamente, mais de três, dois e dois erros. Realizaram-se a seguir análises de consistência e estatística descritiva univariada e bivariada. No estudo das associações, utilizou-se o teste do qui-quadrado, selecionando variáveis com nível de significância p<0,05(21).

Este estudo foi iniciado após sua aprovação pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade Federal de São Paulo e os termos de consentimento livre e esclarecido foram assinados pelos educadores após o esclarecimento sobre o teor da pesquisa.

Resultados

A idade das educadoras variou de 19 a 66 anos, com mediana de 38 anos. Entre elas, o tempo de trabalho nas creches incluídas no estudo variou de menos de um até 26 anos, sendo que 47,1% trabalharam em outras creches anteriormente.

Das 137 educadoras, 41,3% tinham o curso superior completo, 26,1% o ensino superior incompleto e 28,3% cursaram o segundo grau com magistério. Somente algumas educadoras tinham o segundo grau completo sem magistério (0,7%) ou o primeiro grau completo (1,4%). A renda mensal da família das educadoras variou de R$564,00 a R$15.000,00, com variação do salário bruto de R$540,00 a R$3.415,00.

As educadoras, em sua maioria, erraram 25 a 50% (seis a 12 questões) das 23 questões do tema alimentação. A mediana de erros e o desvio padrão (dp) dos subtemas aleitamento materno, aleitamento artificial, alimentação complementar e de todas as questões foram, respectivamente: três (dp=1,75), dois (dp=0,87), dois (dp= 0,96), sete (dp=2,65). Dentro dos subtemas, as questões com maior porcentagem de erros foram: higiene da mãe durante a amamentação (79,0%), verificação da temperatura do leite na mamadeira (87,7%) e primeiro alimento a ser oferecido na introdução dos novos alimentos (68,8%).

Na Tabela 1 encontram-se os dados analisados da ficha de identificação, com o maior número de erros de acordo com a mediana de todas as questões sobre alimentação. Pôde-se verificar que as educadoras que terminaram o ensino superior completo erraram menos questões, comparadas às que não terminaram ou que apresentam menor grau de escolaridade.

Com relação ao subtema aleitamento materno (Tabela 2), as variáveis escolaridade e renda mensal apresentaram significância estatística. Constatou-se que as educadoras com menor grau de escolaridade e renda mensal inferior ou igual a R$2.500,00 erraram mais questões sobre alimentação infantil.

Observando o subtema alimentação complementar (Tabela 3), as seguintes variáveis apresentaram significância estatística: escolaridade, idade, tempo de trabalho total em creches e presença de filhos. As educadoras com menor grau de escolaridade, idade acima de 38 anos, com filhos e com tempo maior ou igual a cinco anos de experiência profissional em creches apresentaram mais erros no questionário. Nesse subtema, obteve-se a maior significância estatística, o que representa uma menor chance dos dados colhidos estarem errados.

No subtema aleitamento artificial, nenhuma variável mostrou significância estatística, demonstrando, no geral, que as educadoras não apresentavam muito conhecimento sobre fórmulas infantis, diluição do leite de vaca, uso de engrossantes, higienização e verificação da temperatura da mamadeira.

Em síntese, a variável escolaridade apresentou significância estatística nas análises, reforçando que quanto maior o grau de escolaridade, maior o conhecimento das educadoras sobre o tema alimentação infantil. Vale ressaltar que, no quadro dos subtemas trabalhados, as questões com maior porcentagem de acertos foram: quando a mãe é muito magra não produz leite mais fraco (96,4%), a mãe não deve fortalecer o leite de vaca com farinhas (88,4%) e a melhor opção para ser oferecida como sobremesa são as frutas (99,3%).

Discussão

Vários trabalhos científicos vêm demonstrando uma variação na idade das educadoras e tal fato também pode ser notado nesse estudo(22-24). Veríssimo, Rezende e Fonseca(25) e Rapoport(26) encontraram diferenças na idade das participantes de 23 a 42 anos (média: 32 anos) e de 20 a 61 anos (mediana: 35 anos), respectivamente. Por outro lado, os resultados aqui encontrados mostraram um aumento do grau de escolaridade das educadoras, quando comparados aos de pesquisas anteriores(6,25). Demonstrando a relevância desse dado, obteve-se uma boa porcentagem de acertos nas questões sobre alimentação.

Diante dos resultados, nota-se que grande parte das educadoras (41,3%) terminou o ensino superior e poucas apresentaram o segundo grau completo sem magistério ou o primeiro grau completo (2,1%), o que nos leva a refletir que ainda há um grande caminho a ser percorrido até atingir o patamar recomendado na lei quanto à formação profissional dos educadores de creche. Percebe-se significativa melhora em relação aos anos anteriores, pois somente seis a 25% das educadoras apresentavam o ensino superior completo, realçando assim os resultados finais, pois quanto menor o grau de escolaridade, menos conhecimento as educadoras mostram sobre a alimentação infantil(6,25,26).

Para estabelecer parâmetros de qualidade e condições dignas de assistência à criança pequena, é necessária uma ação mais consciente e comprometida ética e politicamente, respeitando os critérios para um bom atendimento em creches, que vão desde a qualificação profissional dos educadores em questão até os Direitos Fundamentais das Crianças, as Diretrizes Curriculares para a Educação Infantil, as Resoluções CEB nº 1/2 e os Subsídios para Credenciamento e Funcionamento de Instituições de Educação Infantil(27-30).

Segundo Campos(31), seria importante que os cursos de Pedagogia proporcionassem uma flexibilidade, de forma que os futuros professores pudessem montar seu próprio currículo a partir de um módulo básico e de disciplinas especializadas que os preparassem para o trabalho, conforme a faixa etária escolhida. Os professores que desejassem mudar de nível de ensino poderiam retornar ao curso de formação somente para aquelas disciplinas especializadas, relacionadas à nova faixa etária de crianças com as quais querem trabalhar(31). Com essa metodologia, o profissional iria dedicar maior tempo de estudo e aprendizado à faixa etária específica de seu interesse. Assim, na educação infantil, poderia ser acrescida matéria específica sobre alimentação de crianças de zero a seis anos, já que nessa fase a criança aprende e adquire hábitos alimentares que perdurarão pelo resto de sua vida.

Em relação à experiência profissional, quem apresentou mais de cinco anos de trabalho em creches errou mais questões, demonstrando que as educadoras mais antigas têm menor conhecimento. Esse fato também foi observado em outros trabalhos científicos, os quais, ao avaliar o conhecimento de trabalhadoras de creches e seus cuidados a crianças com infecção respiratória aguda, encontraram que 69% das educadoras tinham experiência superior a dez anos e, mesmo assim, apresentavam pouco conhecimento sobre o tema(6).

Analisando o tema alimentação por meio das 23 questões, a variável "presença de filhos" não apresentou significância estatística. Houve, contudo, menor porcentagem de erros entre as educadoras com filhos, comparadas às que não tinham filhos, indicando que ser mãe pode influenciar positivamente nos conhecimentos sobre o tema, talvez por sua vivência anterior. No que se refere ao aleitamento materno, as educadoras sem filhos erraram mais questões do que as que tinham filhos, apontando novamente a experiência vivenciada como um fator positivo, todavia não suficiente para garantir práticas adequadas.

O subtema alimentação complementar demonstra o resultado da rotina das educadoras em suas respectivas creches, pois todas trabalham com crianças na faixa etária em que há a transição à introdução de novos alimentos. É necessário um enfoque maior sobre o tema alimentação, pois, mesmo que as educadoras trabalhem com o assunto em sua rotina, muitas vezes os conhecimentos e as práticas não são coerentes, indicando a necessidade de maior conhecimento para não causar futuros distúrbios ou transtornos alimentares nas crianças.

Os resultados revelaram que as educadoras possuem conhecimentos associados às suas próprias concepções e se baseiam em costumes, valores e crenças sedimentados em experiências e situações vivenciadas, podendo prejudicar a prestação de cuidados no coletivo em relação à alimentação das crianças(32). Pôde-se observar tal fato nas questões com maior porcentagem de erros, quando as educadoras demonstraram achar que a melhor maneira de verificar a temperatura do leite na mamadeira seria encostando o bico no dorso da mão e pingando algumas gotinhas, enquanto o correto seria envolver as mãos em torno do utensílio. O mesmo ocorreu na questão do primeiro alimento a ser oferecido quando da introdução dos novos alimentos, item no qual as educadoras apontaram como correto o suco de laranja lima, mas se sabe que pode ser oferecido à criança qualquer tipo de fruta e não necessariamente a laranja lima(19).

Vale ressaltar a necessidade de um maior número de estudos que abordem a avaliação do conhecimento da alimentação infantil por educadoras de creches, já que não se encontrou trabalhos científicos sobre o tema. Apesar das limitações inerentes aos estudos de natureza qualitativa com procedimento amostral não probabilístico, os resultados dessa pesquisa evidenciam, mais uma vez, que somente os conhecimentos incorporados na prática são insuficientes para promover boa alimentação e hábitos alimentares saudáveis para o crescimento e desenvolvimento adequados das crianças atendidas. Assim, é de extrema importância que haja difusão de programas de ação continuada e aprimoramento de ações intersetoriais, envolvendo as equipes multiprofissionais e as creches locais.

Recebido em: 14/12/2007

Aprovado em: 29/6/2008

Fonte financiadora: Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) processo nº 2006/02597

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Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    02 Out 2008
  • Data do Fascículo
    Set 2008

Histórico

  • Aceito
    29 Jun 2008
  • Recebido
    14 Dez 2007
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