Avanços em clínica neuropsiquiátrica

Reseña del libro Avanços em clínica neuropsiquiátrica

RESENHA

Avanços em clínica neuropsiquiátrica

Reseña del libro Avanços em clínica neuropsiquiátrica

Bruno Mendonça Costa

Psiquiatra, Doutor em Psiquiatria. Chefe, Departamento de Psiquiatria, Fundação Faculdade Federal de Ciências Médicas de Porto Alegre, RS

Correspondência

AVANÇOS EM CLÍNICA NEUROPSIQUIÁTRICA

Carlos Alberto Crespo de Souza

Porto Alegre, AGE, 2005.

Lançado em julho de 2005, o segundo livro do Prof. Dr. Crespo de Souza aborda novamente o tema de seus estudos e pesquisas sobre a neuropsiquiatria dos traumatismos craniencefálicos (TCE).

O livro, prefaciado pelo Prof. Dr. Marco Antônio Alves Brasil, ex-Presidente da ABP (2001-2004), é uma coletânea de artigos escritos pelo autor e publicados em diversas revistas nacionais e internacionais sobre o tema entre os anos de 2002 e 2004.

O livro possui 18 capítulos entre as suas 237 páginas, sendo que 16 desses capítulos correspondem aos artigos publicados, enquanto que os dois restantes dedicam-se aos comentários e à conclusão elaborados pelo colega gaúcho.

Como amostra, no capítulo 1, é levantada a questão sobre o que seja um trauma neurológico e um trauma psíquico, como se ambos fossem distintos. O caso estudado como exemplo identifica que também o sofrimento psíquico é registrado no cérebro. Por isso, o autor mostra que tanto as lesões chamadas de neurológicas como as lesões psíquicas são semelhantes, havendo poucos motivos para diferenciá-las tão fortemente numa compreensão dicotômica.

No capítulo 2, é descrita a dificuldade de diferenciação entre as síndromes pós-concussional e do estresse pós-traumático ocorridas em acidentes com veículos automotores, cada vez mais freqüentes. Novamente o autor, nesse capítulo, questiona até quando a medicina não valorizará as reações emocionais ou psíquicas existentes nesses traumas.

No capítulo 3, o autor investiga a história e registra a evolução do conhecimento sobre a relação entre a neurologia e a psiquiatria entre populações. Embora existam estudos recentes, muito ainda falta esclarecer, constituindo-se um tema aberto a novas e necessárias pesquisas.

No capítulo 4, é feito um questionamento intrigante: "Quem deve tratar transtornos psiquiátricos em pacientes neurológicos?". Ele possui um caráter mais provocativo, deixando as respostas aos leitores após suas reflexões a respeito. Logo a seguir, o capítulo 5 reporta-se à "síndrome do segundo impacto", uma nova entidade, grave, surgida em conseqüência de estudos mais recentes sobre as concussões cerebrais repetidas. Mais adiante, o capítulo 6 traz os novos conhecimentos sobre a relação entre os TCE e os transtornos de déficit de atenção/hiperatividade (TDAH), mostrando como os traumas cerebrais são freqüentes causas desses transtornos em crianças, sem que se estabeleça uma relação causal entre um e outro, e, possivelmente em razão disso, ficam abertas novas possibilidades de tratamento.

No capítulo 7, tendo como título "Psicoses pós-traumáticas", o autor investe na pesquisa de estudos sobre a relação entre os TCE e as psicoses. Como os serviços neurológicos e psiquiátricos são estanques, os neurologistas atendem os TCE, e os psiquiatras, as psicoses, sem que se comuniquem entre si. O resultado é que, na maioria das vezes, os psiquiatras não estabelecem uma relação de causa e de efeito com os traumas anteriormente ocorridos, determinando prejuízos aos pacientes.

Já no capítulo 8, sob o título "TCE e a síndrome de Tourette", o autor evidencia como, em determinados casos de TCE, há sintomas tidos como de tourettismo, ou seja, que se traduzem por manifestações clínicas semelhantes às que ocorrem na síndrome de Tourette propriamente dita.

No capítulo 9, com o título "O fenômeno da apoptose nos TCE", há uma apreciação desse fenômeno pouco conhecido por nós psiquiatras. Seu conhecimento é bastante importante, mormente para quem atende crises alucinatórias ou de agitação no pós-trauma imediato, pela possibilidade de que se prolongue a morte celular.

O capítulo 10, denominado "TCE e Alzheimer", possui um aspecto mais especulativo, pois há evidências de que pessoas que sofreram traumas cerebrais podem ficar mais predispostas a desenvolver a doença de Alzheimer na posteridade, principalmente se houver um componente genético associado, a APOE-4.

O capítulo 11 desenvolve o tema "TCE e disfunções sexuais", algo pouco estudado pela medicina. De acordo com as pesquisas, usualmente, essa área não é investigada pelos médicos que atendem seus pacientes, resultando prejuízos a eles. O texto é relevante, pois as alterações na sexualidade podem implicar em graves conseqüências pós-trauma, com comportamentos geradores de inúmeras circunstâncias desagradáveis, inclusive de natureza legal.

No capítulo 12, com o nome de "Rivastigmina no tratamento de déficits de memória após TCE grave: revisão bibliográfica e relato de caso", o autor mostra um caso atendido por ele que obteve excelente recuperação em sua memória musical, totalmente bloqueada após o trauma sofrido. Vale a pena ler.

O capítulo 13 faz uma revisão dos TCE em crianças e adolescentes, com dados de pesquisas muito recentes, realizadas entre os anos de 2002 e 2004. Consideráveis avanços nessa área são registrados, e medidas profiláticas de determinadas seqüelas de traumatizados cerebrais desde o seu nascimento poderão resultar desses estudos.

O capítulo 14 dedica-se a um outro aspecto pouco estudado: "As conseqüências deletérias de longo prazo dos traumatismos craniencefálicos e seu desconhecimento pelos médicos e pela sociedade".

Os capítulos 15 e 16 diferenciam-se dos demais por trazerem alterações cerebrais promovidas por outros fatores que não os traumas externos.

No capítulo 15, é descrito o caso de uma paciente que foi atendida no Serviço de Interconsulta da Santa Casa de Porto Alegre com quadro de psicose tirotóxica. O texto ilustra as significativas dificuldades para que seu diagnóstico fosse estabelecido. A raridade da situação é bem documentada e evidencia a importância do Serviço de Interconsulta, com a participação da psiquiatria, num acompanhamento interdisciplinar.

O capítulo 16, que tem como título "Déficits variados após lesões neurológicas bacterianas ou virais: implicações clínicas, periciais e psicossocias", preocupou-se em mostrar como as deficiências cognitivas derivadas de lesões neurológicas bacterianas ou virais, igualmente como nos TCE, são indevidamente consideradas pelos peritos, de uma maneira geral, e pelos neurologistas. Trata-se de mais um capítulo que merece leitura e reflexão, pelas repercussões psicossociais resultantes dessa desconsideração.

Finalmente, nos capítulos 17 e 18, o autor faz inúmeras reflexões sobre os dados colhidos em seus estudos e pesquisas, enfatizando que: "Impõe-se, sim, a renovação dos conceitos e atitudes diante desses novos conhecimentos, que necessitam ser integrados para o benefício dos pacientes traumatizados cerebrais com repercussões psiquiátricas".

Concluindo, o livro Avanços em clínica neuropsiquiátrica é mais uma contribuição significativa à psiquiatria e à medicina brasileira pelo ineditismo do que revela, trazendo ao nosso conhecimento aspectos até então pouco ou nada estudados.

Após sua leitura e análise, concluo que se trata de uma obra que merece ser lida, refletida e incorporada por todos nós.

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    22 Ago 2006
  • Data do Fascículo
    Dez 2005
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