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Avaliação da atividade antiparasitária do alopurinol, referente ao Trypanosoma cruzi, em sistema experimental que utiliza triatomíneos infectados

Evaluation of antiparasitic activity of allopurinol, against Trypanosoma cruzi, in experimental system using infected triatomines

Resumos

Foi avaliada a atividade antiparasitária do alopurinol, referente ao Trypanosoma cruzi, através de procedimento que depende da utilização de triatomíneos infectados. De acordo com a metodologia usada, o fármaco não eliminou o protozoário do tubo digestivo dos insetos. Não ocorreu, portanto, obtenção de novo subsídio para melhor entendimento da posição do alopurinol no contexto do tratamento etiológico da infecção pelo T. cruzi, porquanto ela continua em foco, se bem que eivada de divergências e contradições.

Trypanosoma cruzi; Alopurinol; Atividade no tubo digestivo de triatomíneos


The antiparasitic activity of allopurinol, against Trypanosoma cruzi, was evaluated by a procedure using infected triatomines. This methodology indicated that the drug was unable to eliminate the protozoa in the digestive tract of the insects. Therefore, further knowledge to improve our understanding of allopurinol in the context of the etiologic treatment of infection by T. cruzi was not acquired. Despite this finding the drug continues to be used, even though its performance appears to be full of divergences and contradictions.

Trypanosoma cruzi; Allopurinol; Activity in the digestive tract of triatomines


COMUNICAÇÃO

Avaliação da atividade antiparasitária do alopurinol, referente ao Trypanosoma cruzi, em sistema experimental que utiliza triatomíneos infectados

Evaluation of antiparasitic activity of allopurinol, against Trypanosoma cruzi, in experimental system using infected triatomines

Fábio Luís Carignani, Lúcia Maria Almeida Braz, Vicente Amato Neto e Eliana Rodrigues de Souza

ResumoFoi avaliada a atividade antiparasitária do alopurinol, referente ao Trypanosoma cruzi, através de procedimento que depende da utilização de triatomíneos infectados. De acordo com a metodologia usada, o fármaco não eliminou o protozoário do tubo digestivo dos insetos. Não ocorreu, portanto, obtenção de novo subsídio para melhor entendimento da posição do alopurinol no contexto do tratamento etiológico da infecção pelo T. cruzi, porquanto ela continua em foco, se bem que eivada de divergências e contradições.

Palavras-chaves: Trypanosoma cruzi. Alopurinol. Atividade no tubo digestivo de triatomíneos.

Abstract The antiparasitic activity of allopurinol, against Trypanosoma cruzi, was evaluated by a procedure using infected triatomines. This methodology indicated that the drug was unable to eliminate the protozoa in the digestive tract of the insects. Therefore, further knowledge to improve our understanding of allopurinol in the context of the etiologic treatment of infection by T. cruzi was not acquired. Despite this finding the drug continues to be used, even though its performance appears to be full of divergences and contradictions.

Key-words: Trypanosoma cruzi. Allopurinol. Activity in the digestive tract of triatomines.

Para tratamento da infecção devida ao Trypanosoma cruzi são usados hoje o benznidazol e o nifurtimox3 7 10. Se considerarmos a obtenção de cura sob o ponto de vista parasitológico esses fármacos propiciam bons resultados quando os pacientes estão na fase aguda da parasitose, mas os resultados são expressos em efetividade mediana e baixa quando vigentes etapas crônicas de pequena ou longa duração, respectivamente. Portanto, há necessidade de contar com medicamentos mais eficientes, sobretudo porque a imensa maioria dos acometidos por doença de Chagas é identificada quando já existe cronicidade de longa duração.

Dois compostos suscitaram esperanças: o D08970 (derivado bis-triazólico)13 e o MK-436 (nitroimidazólico)2. Contudo, investigações básicas mostraram que não podem ser administrados a seres humanos em virtude da possibilidade de promoverem expressivos efeitos adversos.

Além disso, sucedem referências às boas atividades antiparasitárias do alopurinol1 4 12, do cetoconazol5 e do itraconazol4, mas elas têm gerado discordâncias8 9 11.

O alopurinol coibe reativação da infecção pelo T. cruzi em enfermos tratados por meio de transplante de coração e imunodeprimidos1. Também, através de modelo experimental baseado em camundongos infectados pelo T. cruzi verificou-se capacidade no sentido de inativar formas tripomastigotas12. Ainda mais, investigação levada a efeito com o intuito de avaliar a efetividade desse medicamento na terapêutica de enfermos na fase crônica da doença de Chagas, pôde ser comprovada cura parasitológica em 44% dos componentes da casuística4.

Afigura-se necessário, portanto, procurar estipular de maneira mais categórica a real utilidade do alopurinol, em virtude das contradições antes lembradas. Por isso, decidimos efetuar outra especulação acerca do assunto, utilizando metodologia idealizada no Laboratório de Parasitologia do Instituto de Medicina Tropical de São Paulo6. Segundo essa tática, triatomíneos que albergavam o T. cruzi nutriram-se em camundongos que receberam a droga submetida à apreciação.

Utilizamos 60 exemplares de Triatoma infestans, estando os insetos no quarto estádio. Quarenta encontravam-se parasitados pelo T. cruzi, tendo adquirido a protozoose ao se alimentarem em camundongos infectados pelo protozoário.

Constituímos três Grupos de animais: a) composto por 20 insetos infectados, que sugaram camundongos que haviam recebido, 30 minutos antes, por meio de sonda, 30mg/kg de alopurinol ("Zyloric® - Glaxo Wellcome); b) com 20 insetos infectados que não sugaram camundongos; c) formado por 20 insetos não infectados, que sugaram camundongos que receberam o alopurinol, conforme referido a propósito do Grupo A.

A dose do fármaco ficou estipulada com base na empregada por Almeida1. A demarcação dos 30 minutos decorreu do conhecimento segundo o qual nesse momento sucede elevada quantidade do medicamento no sangue, em seguida à absorção.

Dez dias depois do repasto examinamos as fezes dos triatomíneos que, decorrido outro período igual, sacrificamos para analisar todo o conteúdo intestinal a fim de procurar detectar a presença do T. cruzi.

Quanto aos resultados, registramos as seguintes verificações: Grupo A) 15 triatomíneos positivos e cinco negativos; Grupo B) 15 positivos e cinco negativos; Grupo C) todos os insetos vivos.

Como decorrência do exposto, é viável deduzir que não se processou atividade antiparasitária no tubo digestivo do hemíptero, pelo menos de acordo com a metodologia escolhida. Talvez a participação de outras variáveis, por exemplo relacionadas com dose ou momento da sucção, propiciasse resultado diverso, mas de qualquer forma pareceu-nos válido registrar a ineficácia que apuramos.

Tanto em A, como em B, cinco insetos figuraram como negativos. Não é fácil explicar isso, que quiçá tenha dependido de circunstâncias ligadas aos exames ou de fases nas quais tem lugar mais efetivo encontro do parasita. Não obstante, as idênticas e elevadas positividades corroboram a dedução acerca da ineficácia do alopurinol que antes registramos.

Então, não alteramos a posição do fármaco no contexto do tratamento etiológico da infecção pelo T. cruzi. Ela continua em foco, se bem que eivada de divergências e contradições.

Por fim, lembramos que a técnica que usamos pode ser tida como confiável, porquanto em pesquisa anterior revelou atividade parcial do benznidazol6.

Laboratório de Parasitologia do Instituto de Medicna Tropical de São Paulo e Laboratório de Investigação Médica Parasitologia do Hospital das Clínicas, da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, SP, Brasil.

Endereço para correspondência: Prof. Vicente Amato Neto. Av. Dr. Enéas de Carvalho Aguiar 500, 05403-000 São Paulo, SP, Brasil.

Fax: 55 11 852-3622.

e-mail: amatonet@usp.br

Recebido para publicação em 30/8/99.

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Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    17 Jan 2001
  • Data do Fascículo
    Dez 2000

Histórico

  • Recebido
    30 Ago 1999
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