Contaminação por enteroparasitas em hortaliças comercializadas nas cidades de Niterói e Rio de Janeiro, Brasil

Intestinal parasites contamination from vegetables comercialized in Niterói and Rio de Janeiro cities, Brazil

Vanessa C.L. Mesquita Cathia M.B. Serra Otílio M.P. Bastos Cláudia M.A. Uchôa Sobre os autores

Resumos

O objetivo deste estudo foi avaliar a contaminação por enteroparasitas em hortaliças consumidas cruas comercializadas nas cidades de Niterói e Rio de Janeiro. Foram estudadas 128 amostras de hortaliças3/4alface (Lactuca sativa) e agrião (Nasturtium officinale)3/4provenientes do comércio (supermercados, feiras-livre e quitandas) e de restaurantes tipo self-services. Apenas 6,2% das amostras apresentaram presença de estruturas parasitárias com morfologia semelhante as de espécies parasitas de animais. Foi encontrado presença de contaminantes como ácaros, ovos de ácaros, insetos, larvas de nematóides e protozoários ciliados em quase todas as amostras (96,1%), inclusive nas de restaurantes. Este alto percentual sugere a presença de risco de infecção, pois associado a esses agentes poderiam existir estruturas parasitárias infectantes para o homem.

Parasita intestinal; Hortaliças


The aim of this study was to evaluate the parasitological contamination of vegetables to be consumed raw and commercialized in Niteroi and Rio de Janeiro cities. We studied 128 samples of vegetables3/4lettuce (Lactuca sativa) and watercress (Nasturtium officinale)3/4from supermarkets, greengrocer shops and self-service restaurants. Only 6.2% of the samples were positive for parasitic structures with morphological aspects similar to those of animal parasites. We detected acharids, acharid eggs, insects, nematode larvae and ciliated protozoa in most of the samples (96.1%), including those from restaurants. This high percentage suggests a risk of human infection since parasite structures capable of infecting man may exist in association with these agents.

Intestinal parasite; Vegetables


ARTIGO

Contaminação por enteroparasitas em hortaliças comercializadas nas cidades de Niterói e Rio de Janeiro, Brasil

Intestinal parasites contamination from vegetables comercialized in Niterói and Rio de Janeiro cities, Brazil

Vanessa C.L. Mesquita, Cathia M.B. Serra, Otílio M.P. Bastos e Cláudia M.A. Uchôa

Resumo O objetivo deste estudo foi avaliar a contaminação por enteroparasitas em hortaliças consumidas cruas comercializadas nas cidades de Niterói e Rio de Janeiro. Foram estudadas 128 amostras de hortaliças ¾ alface (Lactuca sativa) e agrião (Nasturtium officinale) ¾ provenientes do comércio (supermercados, feiras-livre e quitandas) e de restaurantes tipo self-services. Apenas 6,2% das amostras apresentaram presença de estruturas parasitárias com morfologia semelhante as de espécies parasitas de animais. Foi encontrado presença de contaminantes como ácaros, ovos de ácaros, insetos, larvas de nematóides e protozoários ciliados em quase todas as amostras (96,1%), inclusive nas de restaurantes. Este alto percentual sugere a presença de risco de infecção, pois associado a esses agentes poderiam existir estruturas parasitárias infectantes para o homem.

Palavras-chaves: Parasita intestinal. Hortaliças.

Abstract The aim of this study was to evaluate the parasitological contamination of vegetables to be consumed raw and commercialized in Niteroi and Rio de Janeiro cities. We studied 128 samples of vegetables ¾ lettuce (Lactuca sativa) and watercress (Nasturtium officinale) ¾ from supermarkets, greengrocer shops and self-service restaurants. Only 6.2% of the samples were positive for parasitic structures with morphological aspects similar to those of animal parasites. We detected acharids, acharid eggs, insects, nematode larvae and ciliated protozoa in most of the samples (96.1%), including those from restaurants. This high percentage suggests a risk of human infection since parasite structures capable of infecting man may exist in association with these agents.

Key-words: Intestinal parasite. Vegetables.

As enteroparasitoses por possuírem ecossistema infectivo com mecanismos de infecção passivo oral e/ou ativo cutâneo, apresentam-se com distribuição cosmopolita, porém com possibilidade de variação na prevalência7. Geralmente, tanto em áreas rurais quanto urbanas dos países de terceiro mundo devido as baixas condições sanitárias, as parasitoses intestinais são amplamente difundidas, sendo as hortaliças citadas como um dos veículos de suas estruturas infectantes5 9. A principal forma de contaminação dessas hortaliças dá-se, principalmente, através da água contaminada por material fecal de origem humana, utilizada na irrigação das hortas ou ainda por contaminação do solo por uso de adubo orgânico com dejetos fecais2 4 8. A maioria dos trabalhos que avalia a contaminação de hortaliças por enteroparasitas, utilizam amostras de alface (Lactuca sativa), agrião (Nasturtium officinale) entre outras, por estas apresentarem grande difusão de consumo cruas, facilidade e quantidade de produção, bem como possibilidade de contaminação por água e solos poluídos4 6. Devido a estes fatos foi proposto avaliar qualitativamente a possível presença de estruturas parasitárias, infectantes para o homem, na alface e no agrião, em alguns bairros das cidades de Niterói e Rio de Janeiro, Brasil.

MATERIAL E MÉTODOS

Durante o período de abril a agosto de 1997 e de maio de 1998, foram colhidas 128 amostras de hortaliças de alguns bairros da cidade de Niterói e do Rio de Janeiro. Das 128 amostras, 118 foram de hortaliças provenientes de supermercados, feiras-livre e quitandas e 10 foram provenientes de restaurantes do tipo self-service. Destas amostras, 66 sendo 33 de alface (Lactuca sativa) variedade lisa e 33 de agrião (Nasturtium officinale) foram da cidade do Rio de Janeiro; 32 do bairro de Realengo, 32 do Méier e 2 de Madureira), e 52 sendo 26 de alface variedade lisa e 26 de agrião da cidade de Niterói; 8 do bairro de São Domingos, 18 do bairro de Icaraí, 16 do bairro de Santa Rosa, 8 do Centro e 2 de Neves. Nos diversos estabelecimentos comerciais as amostras foram adquiridas em dias diferentes. Todas as amostras provenientes de restaurantes foram colhidas em Niterói, sendo 8 de alface variedade lisa e 2 de agrião.

Cada amostra, para alface constitui-se por um pé, independente de peso ou tamanho e para agrião por um maço. As amostras provenientes do comércio foram acondicionadas, individualmente, em sacos plásticos novos e limpos e levadas ao laboratório onde foram mantidas sob refrigeração a 4oC. As amostras provenientes de restaurantes foram acondicionadas em recipientes de alumínio, próprios para o transporte de refeições, apresentando a quantidade de hortaliça equivalente a 100g.

Todo o material utilizado no processamento das amostras foi lavado com água e sabão neutro e depois com água destilada. Após a identificação das amostras, cada hortaliça foi desfolhada, individualmente, em recipientes plásticos e lavada com 700ml de água destilada, folha a folha. Esta água, após filtragem em tamis com gaze, foi transferida para dois cálices de fundo cônico para decantar por uma hora. Após este tempo, o sobrenadante foi descartado e os sedimentos dos cálices foram homogeneizados, sendo parte (cerca de 10ml) separada em tubos de centrífuga para realização da técnica de flutuação com solução de sacarose (Técnica de Sheater) baseado em Dubey1 e o restante utilizada no processamento da técnica de sedimentação espontânea, segundo Lutz3. Realizou-se a leitura de uma lâmina de cada técnica, sendo os resultados anotados em fichas individuais.

RESULTADOS

Os resultados obtidos das amostras estudadas estão apresentados na Tabela 1. Das 128 amostras estudadas apenas 8 (6,2%), apresentaram estruturas parasitárias como oocistos de coccídios e ovos estrongiliformes com morfologia semelhante a das espécies parasitas de animais, porém sempre em quantidades reduzidas. Não foram encontrados cistos de protozoários ou ovos de helmintos parasitas do homem. Tanto nas amostras originárias do comércio quanto nas amostras provenientes de restaurantes foram encontrados contaminantes representados por ácaros, ovos de ácaros, insetos, larvas de nematóides e protozoários ciliados. A presença de estruturas parasitárias foi detectada na maioria dos casos através da técnica de Sheater, embora a técnica de Lutz tenha apresentado menor número de resultados negativos, quando comparada a técnica de Sheater na detecção de contaminantes. A técnica de Sheater apresentou 27 (21,1%) amostras negativas, ao passo que a técnica de Lutz apresentou 2 (1,6%) amostras negativas, quando comparou-se a leitura das duas lâminas. Apenas 5 (3,9%) amostras de hortaliças, sendo todas de agrião apresentaram-se negativas pelas duas técnicas.

DISCUSSÃO

No presente estudo, nas 128 amostras de hortaliças encontrou-se um baixo nível de contaminação por estruturas parasitárias ¾ 3,9% (5/128) para alface e 2,3% (2/128) para agrião ¾ ao contrário do citado por Silva et al9 que encontraram, no Rio de Janeiro, uma positividade de 21,4% (47/220) e de Oliveira e Germano6 que encontraram, em São Paulo, 32% (16/200) para alface lisa e 66% (33/200) para o agrião. Esta baixa positividade possivelmente indica uma melhoria na qualidade de higiene no plantio, irrigação, armazenagem e distribuição, uma vez que tanto nas amostras oriundas do comércio quanto nas amostras provenientes de restaurantes a positividade foi reduzida ou nula. Das hortaliças avaliadas, apenas cinco amostras de agrião foram totalmente negativas pelas duas técnicas, o que discorda das observações de Oliveira e Germano6, onde o agrião destacou-se como a hortaliça de maior índice de positividade.

Apesar de terem sido detectadas poucas estruturas parasitárias, em 123 (98,1%) amostras foram encontrados contaminantes de origem biológica, o que evidenciou a habilidade das técnicas no encontro dessas estruturas. Ambas as técnicas utilizadas apresentaram eficiência, embora a técnica de Sheater tenha apresentado maior número de amostras negativas para os contaminantes, talvez por se tratarem de estruturas mais pesadas (ovos de ácaros, ácaros, insetos, larvas). Esta diferença sugere que para obter-se maior eficiência em qualquer diagnóstico parasitológico para contaminação fecal, torna-se ideal o uso de pelo menos duas técnicas com fundamentos diferentes.

Em relação às amostras oriundas de restaurantes self-service detectou-se contaminantes em todas as amostras (10), indicando falha na higienização ou no acondicionamento nos balcões de exposição ao público. Em sete amostras foram encontrados larvas e protozoários de vida livre sugerindo lavagem deficiente ou contaminação através do manuseio como sugerem Silva et al9. Tal detecção poderia representar risco de infecção, pois associado a estes agentes poderiam existir estruturas parasitárias infectantes para o homem.

Disciplina de Parasitologia, Departamento de Microbiologia e Parasitologia do Instituto Biomédico da Universidade Federal Fluminense, Niterói, RJ.

Endereço para correspondência: Drª Claudia Maria Antunes Uchôa. R. Prof. Hernani de Mello 101/2º andar, São Domingos, 24210-130 Niterói, RJ. Tel: 55 21 620-0623. Fax: 55 21 620-5266.

E-mail: uchoa@radnet.com.br.

Recebido para publicação em 12/8/98.

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Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    13 Jun 2000
  • Data do Fascículo
    Ago 1999

Histórico

  • Recebido
    12 Ago 1998
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