Análise temporal da variabilidade da freqüência cardíaca no estado basal em idosos chagásicos na forma indeterminada em área endêmica

Temporal analysis of cardiac frequency variability in basal condition in elderly chagasic subjects in indeterminate form in endemic área

Resumos

Com o objetivo de avaliar a função autonômica cardíaca em pacientes chagásicos residentes em área endêmica, foram avaliados, por meio da análise computadorizada da variabilidade da freqüência cardíaca, 28 pacientes idosos chagásicos na forma indeterminada, 28 pacientes idosos não-chagásicos e 28 adultos jovens. Todos os pacientes chagásicos realizaram eletrocardiograma, radiografia de tórax, estudo radiológico contrastado do esôfago e cólons e ecodopplercardiograma, sendo que os não-chagásicos deixaram de realizar apenas os exames contrastados. Não houve diferença estatisticamente significativa entre os grupos, quanto às dimensões sistólica e diastólica e função sistólica do ventrículo esquerdo. Não houve diferença estatisticamente significante entre os grupos, quanto à duração média do intervalo RR. Quanto à variância, desvio padrão, coeficiente de variação, e ao pNN50, houve diferença estatisticamente significante entre o grupo jovem e os idosos, mas não entre os grupos idosos. Concluímos que, no estado basal, os grupos idosos chagásicos e não-chagásicos não diferiram quanto à modulação autonômica cardíaca no domínio do tempo.

Doença de Chagas; Função autonômica cardíaca; Variabilidade da freqüência cardíaca; Análise temporal dos intervalos RR


With the aim of evaluating the cardiac autonomic function in elderly chagasic patients living in an endemic area, we evaluated, by using computadorized heart rate variability, 28 elderly chagasic with the indeterminate form, 28 elderly non chagasic and 28 young healthy control. In all patients we performed conventional eletrcardiogram, radiological investigation of thorax, and with contrast of esophagus and colons and echodopplercardiogram. Non chagasic patients did not perform only the exams with contrast. The sistolic ventricular funtion was preserved in all subjects. There was no statistically significant difference between the groups with regard to mean duration of RR intervals. Considering the variance, standard deviation, variation coeficient and pNN50 there was statistically significant difference between the young and elderly groups but no difference was found when the analysis was performed in each one separately for these temporal indexes. We conclude that, in basal condition, the groups of elderly chagasic and no chagasic subjects did not differ as much as the cardiac autonomic modulation in time domain.

Chagas'disease; Cardiac autonomic function; Heart rate variability; Temporal RR interval analysis


ARTIGO

Análise temporal da variabilidade da freqüência cardíaca no estado basal em idosos chagásicos na forma indeterminada em área endêmica

Temporal analysis of cardiac frequency variability in basal condition in elderly chagasic subjects in indeterminate form in endemic área

Luiz Antonio Pertili R. de ResendeI; Aldo César de Freitas CarneiroIII; Bruno Doriguetto Couto FerreiraIII; Raphael Antônio Gomes da SilvaIII; Valdo José Dias da SilvaII; Aluízio PrataI; Dalmo CorreiaI

IDepartamento de Clínica Médica e Curso de Pós-graduação em Medicina Tropical e Infectologia da Faculdade de Medicina do Triângulo Mineiro, Uberaba, MG

IIDepartamento de Ciências Biológicas da Faculdade de Medicina do Triângulo Mineiro, Uberaba, MG

IIIAcadêmicos do Curso de Medicina da Faculdade de Medicina do Triângulo Mineiro, Uberaba, MG

Endereço para correspondência

RESUMO

Com o objetivo de avaliar a função autonômica cardíaca em pacientes chagásicos residentes em área endêmica, foram avaliados, por meio da análise computadorizada da variabilidade da freqüência cardíaca, 28 pacientes idosos chagásicos na forma indeterminada, 28 pacientes idosos não-chagásicos e 28 adultos jovens. Todos os pacientes chagásicos realizaram eletrocardiograma, radiografia de tórax, estudo radiológico contrastado do esôfago e cólons e ecodopplercardiograma, sendo que os não-chagásicos deixaram de realizar apenas os exames contrastados. Não houve diferença estatisticamente significativa entre os grupos, quanto às dimensões sistólica e diastólica e função sistólica do ventrículo esquerdo. Não houve diferença estatisticamente significante entre os grupos, quanto à duração média do intervalo RR. Quanto à variância, desvio padrão, coeficiente de variação, e ao pNN50, houve diferença estatisticamente significante entre o grupo jovem e os idosos, mas não entre os grupos idosos. Concluímos que, no estado basal, os grupos idosos chagásicos e não-chagásicos não diferiram quanto à modulação autonômica cardíaca no domínio do tempo.

Palavras-chaves: Doença de Chagas. Função autonômica cardíaca. Variabilidade da freqüência cardíaca. Análise temporal dos intervalos RR.

ABSTRACT

With the aim of evaluating the cardiac autonomic function in elderly chagasic patients living in an endemic area, we evaluated, by using computadorized heart rate variability, 28 elderly chagasic with the indeterminate form, 28 elderly non chagasic and 28 young healthy control. In all patients we performed conventional eletrcardiogram, radiological investigation of thorax, and with contrast of esophagus and colons and echodopplercardiogram. Non chagasic patients did not perform only the exams with contrast. The sistolic ventricular funtion was preserved in all subjects. There was no statistically significant difference between the groups with regard to mean duration of RR intervals. Considering the variance, standard deviation, variation coeficient and pNN50 there was statistically significant difference between the young and elderly groups but no difference was found when the analysis was performed in each one separately for these temporal indexes. We conclude that, in basal condition, the groups of elderly chagasic and no chagasic subjects did not differ as much as the cardiac autonomic modulation in time domain.

Key-words: Chagas'disease. Cardiac autonomic function. Heart rate variability. Temporal RR interval analysis.

A doença de Chagas acomete cerca de 5 milhões de pessoas no Brasil, sendo que 50% dos indivíduos chagásicos em área endêmica possuem a forma indeterminada7 11 14. Essa forma da doença de Chagas pode permanecer silente por tempo indefinido ou evoluir, num período de 10 a 20 anos, para uma das formas clínicas definidas da doença, com estimativa de taxa de conversão anual de cerca de 2 a 5%6. O provável efeito da seleção natural tem permitido que indivíduos chagásicos, com menor grau de dano cardíaco, orgânico ou funcional, sobrevivam por mais tempo e alcancem idades mais avançadas. Nos últimos anos, tem-se observado aumento na população de chagásicos idosos4. O fato de que as formas graves da cardiopatia chagásica levam a maior número de mortes prematuras, o impacto do controle da transmissão vetorial da doença e a melhoria nas condições de vida da população promoveram um aumento relativo da população chagásica idosa em áreas endêmicas como na cidade de Água Comprida. Estudos sobre a função autonômica cardíaca em pacientes chagásicos não idosos têm sido realizados por vários pesquisadores4 8 9, assim como estudos em indivíduos idosos não-chagásicos1 3 5.

Estes dados epidemiológicos, aliados a fatores como a necessidade de maiores esclarecimentos sobre aspectos fisiopatológicos e evolutivos da forma indeterminada da doença de Chagas e à ausência de estudos sobre a função autonômica cardíaca em idosos chagásicos em área endêmica, motivou-nos a realizar esta pesquisa.

MATERIAL E MÉTODOS

Estudamos 84 indivíduos moradores da cidade de Água Comprida, MG, área endêmica para doença de Chagas, divididos em três grupos: 28 pacientes idosos chagásicos com a forma indeterminada, 28 idosos não-chagásicos e 28 adultos jovens (idade entre 20 e 40 anos). Definiu-se como idoso o indivíduo com idade mínima de 60 anos. Consideramos como portador da forma indeterminada, aquele paciente que apresentava reação sorológica positiva para Trypanosoma cruzi (duas técnicas diferentes), ausência de sinais e sintomas relacionados à doença, eletrocardiograma convencional de 12 derivações normal e estudo radiológico do tórax, esôfago e cólons normais12. Os indivíduos não-chagásicos apresentavam reação sorológica negativa em três técnicas diferentes. Os indivíduos idosos foram pareados segundo gênero, e idade, aspectos epidemiológicos e atividade física. A idade mediana para os idosos chagásicos foi de 67,5 anos (60 a 83 anos), para os idosos não-chagásicos de 67,5 anos (60 a 95 anos) e para o grupo jovem de 28 anos (20 a 40 anos). Os grupos idosos apresentavam 16 indivíduos do sexo masculino e 12 do sexo feminino enquanto o grupo jovem constituía-se de 15 indivíduos masculinos e 13 femininos. Não houve diferença estatística entre os grupos quanto ao sexo. Não houve diferença estatisticamente significativa, entre os grupos, quanto ao índice de massa corporal. Os dados referentes ao peso, altura e índice de massa corporal são mostrados na Tabela 1.

Para estudar a função autonômica cardíaca, empregou-se protocolo experimental aplicado pela primeira vez nesta área por Correia4. Utilizou-se para o registro eletrocardiográfico um polígrafo Datagraph Model 76102-B e um conversor analógico-digital A/D-DI-194 com freqüência de amostragem de 240Hz. O registro do ECG foi feito na posição CM5 pelo tempo de 5 minutos com o paciente em repouso em decúbito dorsal. Para a análise computadorizada, utilizamos software cedido pelo Professor Alberto Malliani da Universidade de Milão. O sistema forneceu índices estatísticos temporais paramétricos de primeira ordem, derivados do periodograma dos intervalos RR.

Este estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Faculdade de Medicina do Triângulo Mineiro (FMTM). As diferenças foram consideradas estatisticamente significativas quando p<0,05. Para a comparação entre os três grupos dos valores temporais utilizou-se a ANOVA de um fator, seguida pelo teste de comparação múltipla de Tukey ou pelo teste de Dunn. Todas as análises estatísticas foram realizadas empregando-se o software Sigmastat for Windows 2.0.

RESULTADOS

Todos os indivíduos realizaram eletrocardiograma e ecodopplercardiograma. Os eletrocardiogramas apresentaram-se normais ou com alterações inespecíficas e discretas da repolarização ventricular. Na Tabela 2 estão descritos os resultados do estudo ecodopplercardiográfico. Não houve diferença estatisticamente significativa, entre os grupos, quanto às dimensões sistólica e diastólica e função sistólica do ventrículo esquerdo.

Foram analisados os seguintes índices temporais: intervalo RR médio, variância, desvio padrão, coeficiente de variação, porcentagem das diferenças maiores que 50ms entre intervalos RR adjacentes (pNN50), raiz quadrada da média da soma dos quadrados das diferenças sucessivas dos intervalos RR (RMSSD)2 9 13. Não houve diferença estatisticamente significante, entre os grupos, quanto à duração média do intervalo RR. Observou-se quanto à variância, desvio padrão, coeficiente de variação e pNN50, diferença estatisticamente significante entre o grupo jovem e os idosos, mas não entre estes. Estes dados são mostrados na Tabela 3 e Figura 1.

DISCUSSÃO

A doença de Chagas teve uma significativa redução na morbidade e mortalidade precoce com o controle da transmissão vetorial e conseqüente diminuição de reinfecções. Este fato tem propiciado crescente aumento da população de idosos chagásicos com menor grau de dano cardiovascular7.

Não encontramos estudos sobre a análise da função autonômica cardíaca em pacientes idosos chagásicos com a forma indeterminada em áreas endêmicas.

Ao realizarmos à análise temporal da função autonômica cardíaca, observamos que, no estado basal, não houve diferença estatisticamente significativa entre os grupos, ou seja, todos apresentavam, em repouso, freqüências cardíacas equivalentes. Jesus8 obteve resultado semelhante ao analisar chagásicos indeterminados não idosos e grupo controle não-chagásico. Já a variância foi maior no grupo jovem, em relação aos grupos idosos, mostrando que com a idade, ocorre um decréscimo da variabilidade global da freqüência cardíaca. Resultado semelhante foi observado por O'Brien e cols10, ao estudarem idosos não-chagásicos. Evidenciamos, também, que o índice pNN50, que avalia mudanças rápidas da variabilidade da freqüência cardíaca foi significativamente inferior nos grupos idosos, em relação ao grupo jovem, sugerindo comprometimento da modulação parassimpática com o envelhecimento. Não observamos diferença significante, entre os dois grupos idosos, quanto a estes índices temporais, indicando que esta perda da modulação vagal pode estar associada à senilidade. Analisados em conjunto, estes dados reforçam os muitos estudos que colocam a forma indeterminada da doença de Chagas como benigna a médio prazo e podemos inferir que, ao menos nesta coorte de área endêmica, a infecção pelo T. cruzi por período prolongado de tempo, não causou dano importante à função ventricular esquerda e disfunção autonômica cardíaca.

Recebido para publicação em 16/12/2002

Aceito em 6/12/2003

Auxílio financeiro do CNPq, processo nº 476458/01-3 e da FAPAMIG CDS-522/01

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  • Endereço para correspondência
    Prof. Luiz Antônio Pertili R. de Resende
    Deptº de Clínica Médica. Curso de pós-graduação em Medicina Tropical e Infectologia
    Caixa Postal 118, 38001-970 Uberaba, MG
    Fax: 55 34 3318-5279.
    E-mail:

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    26 Fev 2004
  • Data do Fascículo
    Dez 2003

Histórico

  • Aceito
    06 Dez 2003
  • Recebido
    16 Dez 2002
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