Fatores associados à incoagulabilidade sangüínea no envenenamento por serpentes do gênero Bothrops

Risk factors associated with coagulation abnormalities in Bothrops envenoming

Resumos

Com o objetivo de conhecer fatores associados à incoagulabilidade sangüínea no envenenamento botrópico, foram obtidas informações de 2.991 prontuários médicos de pacientes atendidos no Instituto Butantan de 1981 a 1990. Associaram-se positivamente à incoagulabilidade sangüínea (p<0,05): picadas no final do ano e em extremidades dos membros inferiores; dor, edema e equimose local; hemorragia e choque; dose de antiveneno; tempo do acidente à chegada ao Instituto Butantan. Associaram-se negativamente à incoagulabilidade (p<0,05): tamanho de Bothrops jararaca; uso de torniquete; tempo entre a chegada ao Instituto Butantan e o início da administração do antiveneno. Não se associaram à incoagulabilidade (p>0,05): horário do acidente; presença de presa recém-deglutida no tubo digestivo da serpente; sexo e idade do paciente; ocorrência de bolha, necrose, abscesso e incisão local, amputação, insuficiência renal e óbito. Pode-se concluir que, embora a incoagulabilidade sangüínea apresente associação com manifestações precoces do envenenamento, não tem boa associação com a evolução clínica do paciente.

Bothrops jararaca; Coagulação sangüínea; Fatores prognósticos


This study aimed at assessing, in the envenoming by Bothrops, factors that are associated with blood incoagulability. Information was obtained from the charts of 2,991 patients admitted to Instituto Butantan, from 1981 to 1990. Factors positively associated with blood incoagulability (p<0.05) were: snake bite in the late months of the year; bites in the distal segments of the lower limbs; pain, edema, and bruising at the bite site; systemic bleeding and shock; dose of antivenom administered; time between bite and admission to Instituto Butantan. Size of the snake Bothrops jararaca; use of a tourniquet; and time between arrival to Instituto Butantan and start of the antivenom administration were negatively associated with blood incoagulability (p<0,05). Factors not associated with blood incoagulability (p>0.05) were: time of the bite; presence of recently swallowed prey in the snake gut; gender and age of the patient; blister, necrosis, and abscess at the bite site; occurrence of amputation, renal failure and death; presence of an incision at the bite site. We conclude that although blood incoagulability is associated with early manifestations of Bothrops envenoming, it is not associated with the clinical outcome.

Bothrops jararaca; Blood coagulability; Prognostic factors


ARTIGO

Fatores associados à incoagulabilidade sangüínea no envenenamento por serpentes do gênero Bothrops

Risk factors associated with coagulation abnormalities in Bothrops envenoming

Ricardo Borges de Oliveira; Lindioneza Adriano Ribeiro; Miguel Tanús Jorge

Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Uberlândia, Uberlândia, MG, Brasil

Endereço para correspondência

RESUMO

Com o objetivo de conhecer fatores associados à incoagulabilidade sangüínea no envenenamento botrópico, foram obtidas informações de 2.991 prontuários médicos de pacientes atendidos no Instituto Butantan de 1981 a 1990. Associaram-se positivamente à incoagulabilidade sangüínea (p<0,05): picadas no final do ano e em extremidades dos membros inferiores; dor, edema e equimose local; hemorragia e choque; dose de antiveneno; tempo do acidente à chegada ao Instituto Butantan. Associaram-se negativamente à incoagulabilidade (p<0,05): tamanho de Bothrops jararaca; uso de torniquete; tempo entre a chegada ao Instituto Butantan e o início da administração do antiveneno. Não se associaram à incoagulabilidade (p>0,05): horário do acidente; presença de presa recém-deglutida no tubo digestivo da serpente; sexo e idade do paciente; ocorrência de bolha, necrose, abscesso e incisão local, amputação, insuficiência renal e óbito. Pode-se concluir que, embora a incoagulabilidade sangüínea apresente associação com manifestações precoces do envenenamento, não tem boa associação com a evolução clínica do paciente.

Palavras-chaves:Bothrops jararaca. Coagulação sangüínea. Fatores prognósticos.

ABSTRACT

This study aimed at assessing, in the envenoming by Bothrops, factors that are associated with blood incoagulability. Information was obtained from the charts of 2,991 patients admitted to Instituto Butantan, from 1981 to 1990. Factors positively associated with blood incoagulability (p<0.05) were: snake bite in the late months of the year; bites in the distal segments of the lower limbs; pain, edema, and bruising at the bite site; systemic bleeding and shock; dose of antivenom administered; time between bite and admission to Instituto Butantan. Size of the snake Bothrops jararaca; use of a tourniquet; and time between arrival to Instituto Butantan and start of the antivenom administration were negatively associated with blood incoagulability (p<0,05). Factors not associated with blood incoagulability (p>0.05) were: time of the bite; presence of recently swallowed prey in the snake gut; gender and age of the patient; blister, necrosis, and abscess at the bite site; occurrence of amputation, renal failure and death; presence of an incision at the bite site. We conclude that although blood incoagulability is associated with early manifestations of Bothrops envenoming, it is not associated with the clinical outcome.

Key-words:Bothrops jararaca. Blood coagulability. Prognostic factors.

No Brasil, aproximadamente 90% dos acidentes por serpentes peçonhentas notificados são causados por Bothrops6.

O veneno botrópico causa lesão nos tecidos da região anatômica picada2 9 por ação de diversos componentes, tais como, fosfolipases8 10 e metaloproteinases1 29 47 52. Provoca inflamação3 30 35 e destruição8 11 12 35 36 desses tecidos, sendo também observado dano na parede de pequenos vasos sangüíneos32 33 36.

Na região anatômica picada ocorrem dor, edema, equimose, flictenas e necrose31 34 42 45. A destruição de tecidos e a inoculação de bactérias, juntamente com o veneno, podem levar à infecção e à formação de abscessos18 20 22. Distúrbios funcionais permanentes e até mesmo a perda do membro acometido podem ocorrer21 31 34 42. O distúrbio da coagulação é, provavelmente, a manifestação sistêmica mais comum que, às vezes, exterioriza-se clinicamente por sangramentos distantes dos ferimentos causados pelos dentes inoculadores42. O óbito ocorre em casos de envenenamentos graves em pacientes que apresentam insuficiência renal, respiratória e choque37. A maioria, entretanto, evolui para a cura sem seqüelas31 34 42.

Embora a alteração da coagulação ocorra precocemente, parece não apresentar boa associação com a destruição tecidual na região anatômica picada38 40. Isso levou à sua retirada dos critérios para a classificação quanto à gravidade do envenenamento, com o objetivo de se administrar dose adequada de soro5 6 19 51. Por outro lado, em alguns estudos, foi observada associação entre distúrbio da coagulação e evolução para manifestações locais como necrose e abscesso ou mesmo para o óbito34 37 43 48.

O presente estudo teve como objetivo conhecer fatores epidemiológicos e clínicos que se associam à ocorrência de incoagulabilidade sangüínea no envenenamento por serpentes do gênero Bothrops.

MATERIAL E MÉTODOS

Foram obtidos dados clínicos e epidemiológicos de 2.991 prontuários médicos de pacientes picados por serpentes do gênero Bothrops, atendidos no Hospital Vital Brazil (HVB) do Instituto Butantan (IB), no período de 1981 a 1990. O HVB-IB atende somente a pacientes picados por animais peçonhentos, possuindo equipe médica especializada e prontuários dirigidos para a obtenção de informações sobre essas intoxicações exógenas.

O diagnóstico do acidente botrópico baseou-se na epidemiologia, nas manifestações clínicas e laboratoriais e, quando possível, na identificação da serpente por técnico habilitado do Laboratório de Herpetologia do IB. Algumas serpentes foram submetidas a necropsia para verificação do conteúdo do tubo digestivo a fim de avaliar a presença de presa recém-deglutida.

Os pacientes foram agrupados entre aqueles que permaneceram com o sangue coagulável (Grupo C) e aqueles que apresentaram incoagulabilidade sangüínea (Grupo I).

A avaliação da coagulação foi feita à admissão dos pacientes no HVB e repetida horas após, caso necessário. Era realizada por observação de alguns mililitros de sangue coletados em seringa plástica, colocados em dois tubos de vidro limpos e secos, em banho-maria a 37ºC mas, às vezes, à temperatura ambiente. Enquanto um dos tubos era inclinado no sentido da posição horizontal, suave e periodicamente, com o objetivo de verificar se o sangue estava líquido e escorria por sua parede ou se havia coagulado, o outro tubo servia como controle do resultado obtido com o primeiro. Considerou-se como presença de sangue incoagulável a ausência de coagulação após a observação do sangue por 20 minutos49.

A ocorrência de cada variável nos grupos C e I foi comparada pelo teste do qui-quadrado. A sazonalidade foi avaliada segundo a distribuição dos acidentes em cada bimestre. Quando necessário, foi utilizado o teste exato de Fisher. O nível de significância adotado foi de 5%.

RESULTADOS

O mês de ocorrência do acidente mostrou associação com a incoagulabilidade sangüínea (Figura 1). Esta ocorreu em 48,7%, 44,3%, 48,2% e 47,2% dos pacientes picados, respectivamente, nos horários das 00:00h às 06:00, das 06:00h às 12:00, das 12:00h às 18:00 e das 18:00h às 24:00 (p>0,05). Mediam mais do que 40 centímetros de comprimento 52,5% das serpentes que picaram os pacientes do grupo C e 36,3% das que picaram aqueles do grupo I (p<0,05). Obteve-se informação sobre a presença de presas recém-deglutidas no tubo digestivo de 111 serpentes que picaram pacientes do grupo C e de 94 daquelas que picaram os do grupo I. Havia presas em 9% das primeiras e em 9,6% das últimas (p>0,05). Eram do sexo masculino 76,1% dos pacientes do grupo C e 74,9% dos do grupo I (p>0,05). A incoagulabilidade sangüínea ocorreu em 50,5%, 47,3%, 45,5%, 46,0%, 44,6%, 45,9% e 47,5% dos pacientes, respectivamente, com 0 a 9, 10 a 19, 20 a 29, 30 a 39, 40 a 49, 50 a 59 e 60 ou mais anos de idade (p>0,05). A incoagulabilidade sangüínea foi mais freqüente entre pacientes picados no pé ou tornozelo (p<0,05) (Figura 2). Dor, edema, equimose, bolha, necrose e abscesso ocorreram em, respectivamente, 92%, 91,8%, 48,8%, 12,3%, 14,6%, 9,2% dos pacientes do grupo C e em 99,4% (p<0,05), 99,4% (p<0,05), 64,3% (p<0,05), 14,3% (p > 0,05), 15,9% (p > 0,05), 10,8% (p > 0,05) daqueles do grupo I. Sangramento sistêmico, choque, insuficiência renal e óbito, ocorreram em, respectivamente, 5,3%, 0,3%, 1,1%, 0,2% dos pacientes do grupo C e em 19,8% (p<0,05), 1% (p<0,05), 1,5% (p>0,05), 0,1% (p>0,05) daqueles do grupo I. Evoluíram para amputação do membro acometido 0,4% dos pacientes do grupo C e 0,8% daqueles do grupo I (p>0,05). Houve uso de torniquete em 41,4% dos pacientes do grupo C e em 36,7% daqueles do grupo I (p<0,05). A realização de incisão local ocorreu em 3,9% dos pacientes do grupo C e em 3,4% daqueles do grupo I (p>0,05). Incoagulabilidade sangüínea foi menos comumente detectada nos pacientes atendidos muito precocemente ou muito tardiamente (Figura 3). Receberam soro dentro de uma hora após o atendimento no HVB, 71,7% dos pacientes do grupo C e 83,1% daqueles do grupo I (p<0,05). Os pacientes do grupo C receberam também doses menores de soro do que aqueles do grupo I (Figura 4).

DISCUSSÃO

Serpentes do gênero Bothrops de pequeno porte, em relação àquelas de grande porte, costumam possuir veneno com maior atividade coagulante7 23 46 por ativar mais intensamente os fatores II e X7 23. Conforme dados do presente estudo e de estudos anteriores28 31 39 41, a ocorrência de incoagulabilidade sangüínea é também mais comum no envenenamento causado pelas serpentes de pequeno porte. Estas, quando da espécie B. jararaca, causam acidentes, que, proporcionalmente às de grande porte, ocorrem mais no final do que no início do ano41. Isso pode explicar a associação positiva entre acidentes nos últimos meses do ano e incoagulabilidade sangüínea. A ausência de associação entre o horário do acidente e a incoagulabilidade sanguínea é coerente com a falta de dados biológicos que sugiram essa possibilidade.

Já foi considerado que quando uma serpente pica após ter-se alimentado ou picado outra vítima, inocula menos veneno4 e em picadas por Crotalus viridis observou-se o contrário14. No presente estudo, em que pese o pequeno número de casos avaliados, não se observou associação positiva ou negativa entre alteração da coagulação e a presença de presa recém deglutida no tubo digestivo das serpentes.

O volume sangüíneo e o peso corporal variam com o sexo e a idade, sendo maior nos homens e menor nas mulheres e crianças13. Assim, haveria maior quantidade de veneno inoculado, proporcionalmente ao volume sangüíneo, no caso de mulheres e, sobretudo, crianças, em relação aos homens. Como, no presente estudo, não se observou associação entre sexo ou idade dos pacientes e incoagulabilidade sangüínea, pode-se pensar, conforme observado para Crotalus viridis15, na possibilidade das serpentes regularem a quantidade de veneno a ser inoculada de acordo com o tamanho do animal agredido.

Espécimes de Bothrops de grande porte picam porções mais altas dos membros inferiores com maior freqüência do que as menores e causam alterações da coagulação em suas vítimas menos freqüentemente28 31 39 41. Isso pode ser a explicação para a maior ocorrência de incoagulabilidade sangüínea em pacientes picados nas extremidades dos membros inferiores em relação àqueles picados acima do tornozelo.

Poucos pacientes que procuram assistência médica devido a picada apresentam-se sem dor e edema e, dentre esses, em muitos, talvez sequer tenha havido inoculação da peçonha. Pacientes sem dor e edema talvez não tenham apresentado alteração da coagulação porque, na realidade, não foram envenenados. Isso dificulta a interpretação da associação positiva de dor e edema com incoagulabilidade sangüínea.

Embora os sangramentos locais e até sistêmicos, decorrentes do envenenamento botrópico, tenham sido relacionados à ação das hemorraginas16 24 25 26 27 47 53, é possível que a associação positiva encontrada de incoagulabilidade sangüínea com equimose e sangramento sistêmico tenha explicação no fato da primeira manifestação favorecer a ocorrência das demais.

Foi encontrada associação significativa entre atividades coagulante e necrotizante, ao se comparar venenos de várias espécies de Bothrops2, entretanto, essa associação não foi pesquisada para serpentes jovens em relação às adultas e já é conhecido que serpentes pequenas causam, em suas vítimas, maior freqüência de distúrbios da coagulação, enquanto serpentes grandes, maior freqüência de lesão tecidual local28 31 39 41. Justifica-se, assim, a ausência de associação entre bolha e necrose com incoagulabilidade sangüínea, observada no presente estudo, o que corrobora resultados de estudo realizado no Triângulo Mineiro34. Por meio de análise multivariada, entretanto, associação independente, embora fraca, foi observada43.

A ausência de associação da incoagulabilidade sangüínea com abscesso, verificada no presente estudo, tem a mesma explicação da não associação com necrose. A necrose dos tecidos favorece o aparecimento de infecções, com formação de abscessos19 20 22. Como a amputação é resultado justamente da ocorrência de necrose e/ou infecção, da mesma forma, não se observou associação da sua ocorrência com a incoagulabilidade sangüínea, o que corrobora dados anteriores21. Vale ressaltar, entretanto, que um outro estudo mostrou ocorrência de associação de incoagulabilidade com abscesso34.

A associação positiva da incoagulabilidade sangüínea com a ocorrência de choque, encontrada no presente estudo, a não ser pelo maior volume de veneno inoculado e conseqüente maior gravidade do envenenamento em todos os seus aspectos, não tem explicação clara. A ausência de associação com insuficiência renal, por sua vez, corrobora a idéia de que a coagulopatia, devida a envenenamento por serpentes, costuma levar a exuberantes alterações laboratoriais e poucas repercussões clínicas54.

A existência de associação entre óbito e incoagulabilidade sangüínea37 não foi confirmada pelo presente estudo, mas o número de óbitos estudados não foi suficiente para essa avaliação.

Embora alguns autores considerem que não haja dados convincentes de que o torniquete possa retardar a absorção do veneno53, se isso for possível, a demora que acarretaria na difusão do veneno para os tecidos a jusante e para a corrente sangüínea, entre os pacientes em uso de torniquete poderia propiciar que fossem tratados com a soroterapia específica e ter o veneno neutralizado antes mesmo do sangue tornar-se incoagulável. Isso explicaria o fato daqueles que usaram torniquete terem apresentado menor freqüência de incoagulabilidade sangüínea. Esses resultados, não autorizam o incentivo ao uso do torniquete pois, no envenenamento botrópico, esse procedimento está associado à ocorrência de necrose e abscesso na região anatômica picada40 43.

A associação entre incoagulabilidade sangüínea e uso de maiores doses de soro deve-se a que, no período em que os pacientes do presente estudo foram atendidos, recomendava-se maior dose de soro nos pacientes com sangue incoagulável50. Posteriormente, em um estudo realizado em área de predomínio de B. jararaca, não foi encontrada maior proporção de sangue incoagulável nos pacientes que apresentaram má evolução do envenenamento na região da picada38. A incoagulabilidade sangüínea foi, então, retirada dos critérios de classificação quanto à gravidade desses acidentes, com vistas a se determinar a dose de soro a ser administrada51. Além disso, doses de soro antibotrópico poliespecífico, significativamente menores do que as que vinham sendo preconizadas e usadas no HVB, mostraram-se suficientes para o tratamento dos distúrbios da coagulação de pacientes com envenenamento botrópico leve ou moderado em área de predominância de B. jararaca17. Ausência de associação entre incoagulabilidade sangüínea e gravidade do envenenamento na região anatômica picada pode ser explicada pelo fato do envenenamento por serpentes de menor comprimento estar mais freqüentemente associado a alterações da coagulação e aquele por serpentes de maior comprimento com danos teciduais locais41.

Segundo Rosenfeld, a difusão do veneno botrópico para a circulação sangüínea e a coagulopatia resultante da ação de seus componentes são geralmente graduais, de tal forma que, em muitos acidentes, a incoagulabilidade surge dentro de uma ou mais horas após a picada44 45. Assim, nas primeiras horas após o acidente, quanto maior o intervalo de tempo decorrido entre a picada e o atendimento, maior a possibilidade dos pacientes terem chegado ao hospital já com o sangue incoagulável, o que talvez possa justificar a associação positiva existente entre esse intervalo de tempo e a presença de incoagulabilidade sangüínea. Diferentemente, a existência de associação entre incoagulabilidade sangüínea e precocidade na administração do soro poliespecífico, após o atendimento, provavelmente se deve à preocupação do médico com a gravidade do envenenamento ou com um sangramento que tenha advindo.

Conclui-se que, no envenenamento por serpentes do gênero Bothrops, a incoagulabilidade sangüínea é mais comum quando o acidente ocorre nos últimos meses do ano, quando as picadas ocorrem nos segmentos distais dos membros inferiores e quando a serpente, se é B. jararaca, é de pequeno porte. Associa-se também a manifestações precoces do envenenamento botrópico, tais como, ocorrência de dor, edema, equimose, sangramento sistêmico e ao choque. Entretanto, não se associa à evolução clínica, no que se refere à ocorrência de bolha, necrose, abscesso, amputação, insuficiência renal e óbito, não se prestando, portanto, como bom indicador da evolução tardia do envenenamento. Pacientes que fazem uso de torniquete e que procuram tratamento mais precocemente desenvolvem incoagulabilidade sangüínea com menor freqüência.

AGRADECIMENTOS

Ao CNPq, pelo apoio financeiro, e à equipe de médicos e funcionários do Hospital Vital Brazil, pela assistência prestada aos pacientes.

Recebido para publicação em 22/7/2002

Aceito em 22/8/2003

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  • Endereço para correspondência
    Prof. Miguel Tanús Jorge. Deptº de Clínica Médica/FM/UFU
    Av. Pará 1720, Campus Umuarama, 38400 902, Uberlândia, MG, Brasil
    Tel: 34 3218-2224; Fax 34 3218-2349
    E-mail:

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    17 Fev 2004
  • Data do Fascículo
    Dez 2003

Histórico

  • Aceito
    22 Ago 2003
  • Recebido
    22 Jul 2002
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