Contaminação de canteiros da orla marítima do Município de Praia Grande, São Paulo, por ovos de Ancylostoma e Toxocara em fezes de cães

Contamination of public gardens along seafront of Praia Grande City, São Paulo, Brazil, by eggs of Ancylostoma and Toxocara in dogs feces

Resumos

Avaliou-se a contaminação dos canteiros da orla marítima de Praia Grande, SP, Brasil, por ovos de Ancylostoma e Toxocara, em amostras de fezes de cães. Do total das amostras analisadas, 45,9% estavam contaminadas por ovos de Ancylostoma e 1,2% com ovos de Toxocara.

Ancylostoma; Toxocara; Fezes; Cães; Larva migrans


Contamination of the lawns and flower beds along the seafront of Praia Grande, SP, Brazil, by eggs of Ancylostoma and Toxocara in fecal samples of dogs was evaluated. Of the total samples analyzed, 45.9% were contaminated with Ancylostoma eggs and 1.2% with Toxocara eggs.

Ancylostoma; Toxocara; Feces; Dogs; Migrans larvae


COMUNICAÇÃO COMMUNICATION

Contaminação de canteiros da orla marítima do Município de Praia Grande, São Paulo, por ovos de Ancylostoma e Toxocara em fezes de cães

Contamination of public gardens along seafront of Praia Grande City, São Paulo, Brazil, by eggs of Ancylostoma and Toxocara in dogs feces

João Manoel de CastroI, II; Sérgio Vieira dos SantosI; Nabor Alves MonteiroII

IUniversidade Paulista, São Paulo, SP

IIUniversidade Guarulhos, Guarulhos, SP

Endereço para correspondência

RESUMO

Avaliou-se a contaminação dos canteiros da orla marítima de Praia Grande, SP, Brasil, por ovos de Ancylostoma e Toxocara, em amostras de fezes de cães. Do total das amostras analisadas, 45,9% estavam contaminadas por ovos de Ancylostoma e 1,2% com ovos de Toxocara.

Palavras-chaves:Ancylostoma. Toxocara. Fezes. Cães. Larva migrans.

ABSTRACT

Contamination of the lawns and flower beds along the seafront of Praia Grande, SP, Brazil, by eggs of Ancylostoma and Toxocara in fecal samples of dogs was evaluated. Of the total samples analyzed, 45.9% were contaminated with Ancylostoma eggs and 1.2% with Toxocara eggs.

Key-words:Ancylostoma. Toxocara. Feces. Dogs. Migrans larvae.

A contaminação de praças públicas por fezes de cães constitui um problema de Saúde Pública, devido à possibilidade de transmissão de zoonoses, especialmente a larva migrans visceral (LMV) e a larva migrans cutânea (LMC), causadas por Toxocara e Ancylostoma, respectivamente2. Nos últimos anos, no Brasil, contamos com apenas alguns levantamentos isolados sobre o grau de contaminação com ovos de Ancylostoma e Toxocara em áreas públicas e alguns em áreas de recreação escolares, entretanto, todos demonstram um potencial risco de transmissão desses agentes a população humana2 5 10 11.

Epidemiologicamente, é relevante considerar que o Município de Praia Grande é uma estância balneária turística do litoral sul do Estado de São Paulo, cuja população é bastante flutuante devido fluxo de turistas que visitam a cidade nos finais de semana ou férias escolares. Os turistas costumam viajar com seus cães e levá-los para passear no calçadão da orla marítima, onde os animais utilizam os canteiros para defecar e urinar, sem que os proprietários recolham as fezes. Adultos e crianças costumam utilizar os canteiros do calçadão para limpar os pés de areia ou mesmo sentar ou deitar para descansar. O objetivo do presente trabalho foi avaliar a ocorrência de agentes de larva migrans em fezes de cães coletadas de canteiros da orla marítima de Praia Grande através da freqüência de isolamento de ovos de Ancylostoma e Toxocara.

Foram colhidas 257 amostras de fezes de cães, com aspecto de não ressecadas, de canteiros de duas extremidades do calçadão da orla marítima do município de Praia Grande, Estado de São Paulo, Brasil, no período de agosto de 2001 a julho de 2002. Durante os meses de primavera e verão, foram colhidas 129 amostras, sendo, 49 amostras colhidas no Canto do Forte e 80 amostras colhidas entre Cidade Ocian e Vila Mirim. Durante os meses de outono e inverno foram colhidas 128 amostras, sendo, 44 amostras colhidas no Canto do Forte e 84 amostras colhidas entre Cidade Ocian e Vila Mirim. O percurso percorrido para coletar as amostras do Canto do Forte foi cerca de quatro vezes menor que o percurso percorrido para coletar as amostras de Cidade Ocian e Vila Mirim.

As amostras foram colhidas com auxílio de sacos plásticos individuais, armazenadas em isopor com gelo reciclável e encaminhadas ao laboratório onde foram mantidas sob refrigeração até o momento do processamento pelo método de Willis — Mollay8.

O percentual total de freqüência de ovos de Ancylostoma e Toxocara, independente do local de coleta e da estação do ano, encontra-se representado na Figura 1.


Aplicando-se o teste de significância da diferença de duas proporções, verificou-se que as diferenças encontradas nas analises das fezes colhidas nos meses de primavera/verão e outono/inverno das duas localidades, não são estatisticamente significantes (p = 0,01), conforme demonstra a Tabela 1. Das amostras colhidas durante os meses de primavera/verão no Canto do Forte, 46,9% (23/49) foram positivas para ovos de Ancylostoma e nenhuma (0/49) foi positiva para ovos de Toxocara. Nesta mesma localidade, nos meses de outono/inverno, 50% (22/44) foram positivas para Ancylostoma e nenhuma (0/44) foi positiva para ovos de Toxocara. Das amostras colhidas durante os meses de primavera/verão entre Cidade Ocian e Vila Mirim, 51,2% (41/80) foram positivas para ovos de Ancylostoma e nenhuma (0/80) foi positiva para ovos de Toxocara. Nesta mesma localidade, nos meses de outono/inverno, 38,1% (32/84) foram positivas para Ancylostoma e 3,6% (3/84) foram positivas para ovos de Toxocara.

Procurou-se analisar a freqüência de ocorrência de ovos de Ancylostoma e Toxocara em amostras de fezes de cães e não em amostras de solo como é freqüentemente realizado por diversos autores 4 5 10 11. Ao proceder a analise das fezes, indiretamente pode-se prever a possibilidade de contaminação do solo, conforme sugerem Araújo et al2, que avaliaram a contaminação de praças públicas de Campo Grande, Mato Grosso do Sul, por ovos de Toxocara e Ancylostoma em fezes de cães.

Muitos autores têm procurado avaliar o grau de contaminação de solos de ambientes públicos apenas por ovos de Toxocara, sendo menor o interesse pela contaminação ambiental por ovos ou larvas de Ancylostoma, ficando este geralmente restrito a ocorrência em escolas1 5 10. Da mesma maneira, se desconhecem dados sobre a prevalência de LMC em atendimentos clínicos no Brasil, sendo somente publicados alguns poucos casos de surtos em escolares1 9. A alta freqüência de ocorrência de amostras de fezes positivas para Ancylostoma neste trabalho, concorda com diversos autores que estudaram a prevalência de parasitas em fezes de cães em diversas regiões do país3 6 7. Esse fato somado à reconhecida alta infectividade das larvas de Ancylostoma, sugere que a ocorrência de LMC em nosso meio deve ser alta, porém negligenciada pela Saúde Pública.

A ocorrência de ovos de Toxocara encontrados nas amostras de fezes analisadas neste trabalho foi baixa, discordando da prevalência encontrada por diversos autores que analisaram amostras de solo de praças públicas no Brasil2 4 11. Essa discordância pode ser devido à elevada resistência ambiental dos ovos de Toxocara, que por possuírem parede espessa protegem a larva infectante, permitindo seu acúmulo no solo por longos períodos.

  • Endereço para correspondência
    Prof. João Manoel de Castro
    Rua dos Camarés 24
    02068-030 São Paulo, SP, Brasil
    e-mail:
  • Recebido para publicação em 21/9/2004

    Aceito em 13/12/2004

    • 1. Araújo FR, Araújo CP, Werneck MR, Górski A. Larva migrans cutânea em crianças de uma escola em área do Centro-Oeste do Brasil. Revista de Saúde Pública 34:84-85, 2000.
    • 2. Araújo FR, Crocci AJ, Rodrigues RGC, Avanhaez JS, Miyoshi MI, Salgado FP, Silva MA, Pereira ML. Contaminação de praças públicas de Campo Grande, Mato Grosso do Sul, Brasil, por ovos de Toxocara e Ancylostoma em fezes de cães. Revista da Sociedade Brasileira de Medicina Tropical 32: 581-583, 1999.
    • 3. Castro ES, Mattos MJT, Bastos CD. Gastrenterites parasitárias em cães atendidos na clínica hospitalar da UFRGS. Revista Brasileira de Medicina Veterinária 23:76-77, 2001.
    • 4. Coelho LMDPS, Dini CY, Milman MHSA, Oliveira SM. Toxocara spp eggs in public squares of Sorocaba, São Paulo state, Brazil. Revista do Instituto de Medicinal Tropical de São Paulo 43:189-191, 2001.
    • 5. Corrêa GLB, Moreira WS. Contaminação do solo por ovos de Ancylostoma spp em praças públicas, na cidade de Santa Maria, RS, Brasil. Revista da Faculdade de Zootecnia Veterinária e Agronomia de Uruguaiana 2/3: 15-17,1995/1996.
    • 6. Côrtes VDA, Paim GV, Alencar Filho RA. Infestação por ancilostomídeos e toxocarídeos em cães e gatos apreendidos em vias públicas, São Paulo (Brasil). Revista de Saúde Pública 22:341-343, 1988.
    • 7. Gennari SM, Kasai N, Pena HFJ, Cortez A. Ocorrência de protozoários e helmintos em amostras de fezes de cães e gatos da cidade de São Paulo. Brazilian Journal of Veterinary Research and Animal Science 36:00-00, 1999 (p. 0-0, Available from World Wide Web, 2005).
    • 8. Hoffmann RP. Diagnóstico de parasitismo veterinário. Sulina, Porto Alegre, 1987.
    • 9. Lima WS, Camargo MCV, Guimarães MP. Surto de larva migrans em uma creche de Belo Horizonte, Minas Gerais (Brasil). Revista do Instituto de Medicina Tropical de São Paulo 26:122-124, 1984.
    • 10. Nunes CM, Pena FC, Negrelli GB, Anjo CGS, Nakano MM, Stobbe NS. Ocorrência de larva migrans na areia de áreas de lazer das escolas municipais de ensino infantil, Araçatuba, SP, Brasil. Revista de Saúde Pública 34:656-658, 2000.
    • 11. Santarém VA, Sartor IF, Bergamo FMM. Contaminação, por ovos de Toxocara spp., de parques e praças públicas de Botucatu, São Paulo, Brasil. Revista da Sociedade Brasileira de Medicina Tropical 31:529-532, 1998.

    Endereço para correspondência Prof. João Manoel de Castro Rua dos Camarés 24 02068-030 São Paulo, SP, Brasil e-mail: jmcastro.vet@uol.com.br

    Datas de Publicação

    • Publicação nesta coleção
      30 Mar 2005
    • Data do Fascículo
      Abr 2005

    Histórico

    • Aceito
      13 Dez 2004
    • Recebido
      21 Set 2004
    Sociedade Brasileira de Medicina Tropical - SBMT Caixa Postal 118, 38001-970 Uberaba MG Brazil, Tel.: +55 34 3318-5255 / +55 34 3318-5636/ +55 34 3318-5287, http://rsbmt.org.br/ - Uberaba - MG - Brazil
    E-mail: rsbmt@uftm.edu.br