RESUMO
Introdução: O artigo analisa a produção acadêmica sobre o Caso Lava Jato (CLJ), desencadeado em 2014 a partir de operação homônima da Polícia Federal. Trata-se de pesquisa de caráter bibliométrico, orientada pelas seguintes perguntas: como esta produção intelectual está estruturada? Quem a produz? Como ela se difunde do ponto de vista geográfico e institucional? Quais são seus temas e autores centrais?
Materiais e métodos: Para responder a essas questões de pesquisa, examinamos um corpus textual formado por 119 artigos publicados em periódicos acadêmicos sobre o CLJ, selecionados em cinco bases bibliográficas: Scielo, Scopus, Portal de Periódicos da Capes, Google Acadêmico e ProQuest. Os procedimentos analíticos compreendem estatísticas de frequência com variáveis que permitem a caracterização dos artigos e seus autores, bem como análises de coocorrência e cocitação, que possibilitam a identificação dos principais debates e referenciais mobilizados pelos artigos.
Resultados: A produção sobre o CLJ está concentrada nas regiões Sudeste e Sul do Brasil. Embora haja dispersão entre instituições e periódicos que publicam sobre o tema, há convergência para algumas áreas acadêmicas, principalmente Direito, Administração, Interdisciplinar e Ciência Política. Constatou-se tendência à coautoria, com ligeira prevalência masculina na autoria dos artigos. O número de artigos produzidos sobre o CLJ aumentou até 2018, tendo diminuído desde então. A produção é multidisciplinar e fragmentada, sendo organizada por áreas acadêmicas/disciplinares que norteiam tanto os temas e abordagens predominantes, quanto autores de referência.
Discussão: O artigo apresenta uma abordagem inovadora ao analisar como a academia tratou o maior escândalo político da história recente do Brasil. Os resultados destacam os principais aspectos do caso enfatizados por diferentes áreas do conhecimento e identificam as referências mais utilizadas. A contribuição está na organização da literatura sobre o CLJ, apontando direções para pesquisas futuras, tanto para aprofundar questões já exploradas quanto para explorar lacunas no estado da arte sobre o tema.
Palavras-chave
Caso Lava Jato (CLJ); corrupção; produção acadêmica; bibliometria; análise de coocorrência; análise de cocitação
ABSTRACT
Introduction: This article looks at the academic work surrounding the Car-Wash Case (CWC), which began in 2014 with the homonymous Federal Police investigation. Using a bibliometric approach, the study seeks to explore several questions: How is this intellectual output structured? Who is producing it? How is it distributed geographically and institutionally? What are its main themes and prominent authors?
Materials and methods: To explore these research questions, we analyzed a corpus of 119 academic articles published on the Car-Wash Case, selected from five bibliographic databases: Scielo, Scopus, CAPES Journal Portal, Google Scholar, and ProQuest. Our analytical methods included frequency statistics, which used variables to characterize the articles and their authors, as well as co-occurrence and co-citation analyses to identify the main debates and references driving these researches.
Results: Academic production on the Car-Wash Case is primarily concentrated in the Southeast and South regions of Brazil. Although institutions and journals publishing on this topic vary, there is a noticeable convergence around several academic fields, particularly Law, Business, Interdisciplinary Studies, and Political Science. We found a trend toward co-authorship, with a slight predominance of male authors. The number of articles on the Car-Wash Case increased until 2018, after which it began to decline. The academic production is multidisciplinary and fragmented, with academic fields/disciplines organizing both the dominant themes and approaches as well as the key reference authors.
Discussion: We present an innovative approach in this article by examining how academia has responded to Brazil's largest political scandal in recent history. Our findings highlight the key aspects of the case emphasized across various fields of study and identify the most frequently cited references. The contribution of this article lies in organizing the academic literature on the Car-Wash Case and providing guidance for future research to deepen existing inquiries and explore shortcoming in the current state of knowledge on the topic.
Keywords
Car-Wash Case (CWC); corruption; academic production; bibliometrics; co-occurrence analysis; co-citation analysis
I. Introdução1
O Caso Lava Jato (CLJ) iniciou-se em março de 2014 com operação homônima da Polícia Federal que investigava crimes supostamente cometidos pelo proprietário de um posto de combustíveis de Brasília-DF. A partir daí, o CLJ desdobrou-se e atingiu proporções gigantescas, envolvendo numerosos agentes públicos, privados e partidários acusados de envolvimento em diversos crimes. Trata-se do escândalo de maior notoriedade na história brasileira recente, constituindo pedra angular da profunda crise político-institucional que assolou o país desde então, atraindo atenção imediata dos campos político, midiático e acadêmico.
A pesquisa não discute o caso em si, mas analisa a produção intelectual publicada sobre ele, sendo, portanto, um estudo de caráter bibliométrico cujo objetivo é caracterizar a produção acadêmica dedicada. O objetivo é responder às seguintes perguntas: como esta produção intelectual está estruturada? Quem a produz? Como ela se difunde do ponto de vista geográfico e institucional? Quais são seus temas e autores centrais?
Bibliometria é o campo de estudos que objetiva caracterizar a produção bibliográfica usando técnicas estatísticas (Yang et al., 2020). Inicialmente voltada ao estudo de livros, atualmente a bibliometria investiga qualquer formato bibliográfico e inclui a análise de atributos da comunicação científica (Borgman & Furner, 2002).
O objeto empírico deste trabalho são artigos de periódicos sobre o CLJ das seguintes bases bibliográficas: Scielo, Scopus, Portal de Periódicos da Capes, Google Acadêmico e ProQuest. A escolha dessas bases deu-se tanto em função de sua abrangência, quanto da disponibilidade de metadados necessários à operacionalização do estudo.
O artigo tem quatro partes, além desta introdução. A primeira traz uma breve caracterização do CLJ. A segunda volta-se à metodologia da pesquisa, inicialmente com uma exposição dos conceitos e da trajetória da bibliometria, seguida da descrição das técnicas de coleta e análise dos dados. A seguir, apresentam-se e discutem-se os resultados mediante: (i) caracterização geral da produção sobre o CLJ; (ii) análise de coocorrência de termos, complementada por breve revisão de conteúdo do corpus; e (iii) análise de cocitação de autores referenciados. As considerações finais apresentam as conclusões da investigação e indicam possíveis desdobramentos da pesquisa.
II. O Caso Lava Jato
O CLJ herdou o nome de uma operação da Polícia Federal (Operação Lava Jato) que investigou o empresário Carlos Habib Chater, dono de um posto de combustíveis em Brasília, acusado de cometer os crimes de evasão de divisas e lavagem de dinheiro. Juntamente com outros três doleiros (Alberto Youssef, Nelma Kodama e Raul Srour), investigados inicialmente em operações diferentes e paralelas, Chater foi alvo da primeira fase da operação, deflagrada em 17 de março de 2014. Desde então, e até agosto de 2020, período coberto por este trabalho, o caso avolumou-se, marcando a história recente do país2.
Na primeira instância da Justiça Federal, o caso desdobrou-se em três estados: Paraná, Rio de Janeiro e São Paulo. A Justiça Federal do Paraná tratou, sobretudo, de denúncias sobre crimes que teriam sido cometidos:
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na Petrobras, por diretores da empresa, por agentes do setor privado que forneciam bens e serviços à empresa, por agentes ligados a partidos políticos que indicavam diretores para a empresa e arrecadavam recursos para suas agremiações e para si mesmos, e por operadores financeiros que cuidavam do fluxo ilegal de recursos entre os demais agentes envolvidos, dentre os quais se destaca Alberto Youssef, alvo da primeira fase do Caso Lava Jato;
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por ex-senadores integrantes de Comissões Parlamentares de Inquéritos (CPIs) incumbidas de investigar irregularidades na Petrobras. Os senadores teriam recebido propina para proteger empreiteiros nas investigações; e
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por empresas e agentes públicos ligados a obras e concessões rodoviárias no Paraná.
A Justiça Federal do Rio de Janeiro cuidou de denúncias de crimes que teriam sido cometidos por agentes privados, públicos ou partidários em numerosas frentes:
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durante a construção da usina de Angra 3, sob responsabilidade da Eletronuclear, subsidiária da Eletrobras;
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em diversas atividades do governo do estado do Rio de Janeiro na gestão do ex-governador Sérgio Cabral, por exemplo, nas áreas de transporte, administração penitenciária, saúde, esporte, urbanização de favelas e educação;
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em diversas atividades da Secretaria Municipal de Obras do Rio de Janeiro;
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na escolha da cidade do Rio de Janeiro como sede das Olimpíadas de 2016;
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em órgãos do governo federal, como a Receita Federal do Brasil; órgãos do governo estadual, como a Receita Estadual do Rio de Janeiro; e outros órgãos do poder público neste estado, como a Assembleia Legislativa e o Tribunal de Contas do Estado;
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em atividades de empresas pertencentes a Eike Batista;
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em fundos de pensão como o Postalis (Correios) e Serpros (Serpro);
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no sistema FECOMERCIO-RJ, que inclui órgãos como SESC-RJ e SENAC-RJ; e
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no fornecimento de produtos ao hospital federal Instituto Nacional de Traumatologia e Ortopedia (INTO).
Por sua vez, a Justiça Federal de São Paulo incumbiu-se de denúncias de crimes que teriam sido cometidos por agentes públicos, privados ou partidários:
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em obras do Metrô de São Paulo e da empresa Desenvolvimento Rodoviário S.A. (DERSA), ambos controlados pelo governo estadual de São Paulo, e em obras da Empresa Municipal de Urbanização (EMURB) e da Secretaria de Infraestrutura e Obras, ambas do governo municipal de São Paulo;
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em contratações do Ministério do Planejamento, Orçamento e Gestão, do Governo Federal; e
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por figuras públicas como os ex-presidentes Luiz Inácio Lula da Silva (PT, 2003-2010; 2022-2026) e Michel Miguel Elias Temer Lulia (MDB, 2016-2018), os senadores tucanos José Serra e Paulo Bauer, três ex-prefeitos do município paulista de São Carlos (Newton Lima Neto, PT, 2001-2008; Oswaldo Baptista Duarte Filho, PT, 2009-2012; e Paulo Roberto Altomani, PSDB, 2013-2016), e outras pessoas ligadas a essas figuras públicas.
A segunda instância da Justiça Federal reviu as decisões de primeira instância no CLJ. Assim, os TRFs 2, 3 e 4 julgaram respectivamente, em grau de recurso, as decisões da primeira instância da Justiça Federal do Rio de Janeiro, de São Paulo e do Paraná.
O STJ, por sua vez, julgou os recursos do CLJ que chegaram àquele órgão e tomou procedimentos referentes às autoridades com foro por prerrogativa de função naquela corte, como os governadores do Acre, de Minas Gerais, do Tocantins e do Rio de Janeiro, e um conselheiro do Tribunal de Contas dos Municípios do Estado da Bahia.
Por fim, o Supremo Tribunal Federal (STF) também julgou recursos do CLJ que lá chegaram e tomou procedimentos relativos às autoridades com foro por prerrogativa de função na Suprema Corte. Uma extensa lista de deputados, senadores, ministros e o então presidente Temer. Os ex-presidentes Lula e Dilma também foram incluídos em denúncias apresentadas ao STF contra o “quadrilhão do PT”. Do mesmo modo, outras pessoas sem foro no STF foram incluídas em denúncias apresentadas à Suprema Corte quando foram denunciadas conjuntamente com autoridades com foro no órgão de cúpula do poder judiciário.
III. Metodologia
III.1. Bibliometria
A bibliometria emprega análise quantitativas e métodos estatísticos para caracterizar a produção intelectual (Yang et al., 2020), seja de maneira abrangente, do campo científico-acadêmico como um todo, seja de segmentos recortados deste campo, como, por exemplo, disciplinas, temas etc. Trata-se, portanto, de área especializada inserida no campo mais amplo da Ciência da Informação, aproximando-se, assim, das áreas congêneres da cientometria e da infometria.
A cientometria volta-se ao estudo quantitativo dos dados científicos visando, principalmente, ao planejamento e à avaliação de políticas científicas. Já a infometria, de desenvolvimento mais recente, aplica técnicas bibliométricas e cientométricas para estabelecer o estado-da-arte dos diferentes campos do conhecimento (Santos & Kobashi, 2009; Urbizagastegui, 2016).
O embrião do que seria conhecido como bibliometria pode ser encontrado no século XIX, quando já havia estudos voltados à catalogação da produção científica produzida até então. Todavia, segundo Santos & Kobashi (2009), é a partir da primeira metade do século XX que o campo se sistematiza, ainda sob o nome de bibliografia estatística, quando autores como Hulme (1923), Lotka (1926), Zipf (1932), Bradford (1934) e Otlet (1934) propõem diferentes modelos estatísticos e métricas para analisar a produção bibliográfica, para identificar produtos e autores de maior impacto. No mundo anglo-saxão, o vocábulo bibliometria seria proposto somente em 1969 por Pritchard (Boustany, 1997 apud Santos & Kobashi, 2009). A área é fortemente impulsionada pelas tecnologias de armazenamento e gerenciamento de dados e informações. Tal impulso aconteceu em vários países nas três últimas décadas do século XX3.
O Brasil acompanhou o desenvolvimento da área e, já em 1970, implantou um programa de mestrado em Ciência da Informação no então Instituto Brasileiro de Bibliografia e Documentação (IBBD) - atual Instituto Brasileiro de Informação em Ciência e Tecnologia (IBICT) -, em cujo âmbito, segundo Alvarado (1984), a partir da disciplina “Processamento de Dados na Documentação”, produz-se uma “febre pela bibliometria”, que subsidia o extenso balanço da produção bibliométrica no país entre 1972 e 1983 apresentado pelo autor. Nos anos 1980, reduziu-se o interesse na área, que é retomado nos anos 1990 e intensificado nos anos 2000, constituindo, atualmente, campo disciplinar que se consolida no país (Araújo, 2006; Medeiros & Vitoriano, 2015; Urbizagastegui, 2016).
A bibliometria caracteriza a produção intelectual respondendo a questões do tipo: como a produção está estruturada? Quais são seus temas e autores centrais? Como a produção se difunde do ponto de vista geopolítico e institucional, ou seja, onde ela é produzida e consumida?
Como a bibliometria responde a essas questões? Assim como indivíduos de uma população caracterizam-se por atributos socioeconômicos e demográficos - gênero, renda, escolaridade, idade etc. - identificados em um censo, por exemplo, mas também por atributos relacionais4, cada produto intelectual possui diversos atributos: título, autor(es), resumo, palavras-chave, local da produção, local de publicação, entre outros. A autoria também apresenta atributos: gênero, nacionalidade, qualificações acadêmicas, filiação institucional etc. Todos esses atributos compõem metadados que, reunidos em um banco único, permitem a aplicação de técnicas quantitativas para descrever e analisar o conjunto da produção e os inter-relacionamentos entre os textos e seus referenciais.
Os estudos bibliométricos nas ciências sociais brasileiras mostram-se menos interessados nas métricas de estatística bibliográfica - alvo da Ciência da Informação - e mais na caracterização da produção, empregando métodos como estatísticas de frequência, descritiva e inferencial, além da análise de redes sociais. Campos et al. (2017) utilizam bibliometria para analisar o conteúdo da Revista Dados em seus primeiros 50 anos. Clemente (2015) o faz para identificar os diversos sentidos do conceito de cidadania na produção acadêmica brasileira. Em trabalho semelhante, Horochovski et al. (2019), além de identificar as abordagens temáticas e metodológicas e os principais referenciais teóricos sobre democracia deliberativa, buscam os principais centros de produção e divulgação do conhecimento sobre o tema no Brasil. Codato et al. (2020) analisam as características da produção em Ciência Política na América Latina a partir dos principais periódicos da região.
III.2. Procedimentos de coleta e análise dos dados
Para a obtenção do corpus documental deste artigo, fizemos buscas em cinco bases bibliográficas (Scielo, Scopus, Portal de Periódicos da Capes, Google Acadêmico e ProQuest), de produtos publicados entre 2014 e 12 de agosto de 2020, empregando, como termos de busca, as expressões “Lava Jato”, “Car Wash” ou “Autolavado”, no campos Título, Resumo e/ou Assunto. Este procedimento resultou, inicialmente, em 883 produtos. Como critérios/filtros de inclusão/exclusão, circunscrevemos artigos disponíveis de periódicos acadêmicos com ISSN. Após aplicação dos filtros, 224 artigos foram baixados em formato PDF, sendo 15 da Scielo, 24 da Scopus, 46 do Portal de Periódicos Capes, 111 do Google Acadêmico e 28 da ProQuest.
Após eliminação de repetições, obtivemos um corpus final (vide Referências) com 119 artigos analisados neste trabalho. Para entender como a busca foi realizada, e seus resultados, são necessários alguns esclarecimentos:
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As buscas em diferentes campos (Título, Resumo e/ou Assunto) deveram-se a diferenças nas interfaces das bases pesquisadas.
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Artigos disponíveis são tanto aqueles de acesso livre quanto os de acesso restrito, porém obteníveis via instituição (USP e Periódicos Capes). Artigos de acesso restrito e não obtidos nas referidas instituições, em número bastante reduzido (apenas dois), não entraram no corpus.
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A considerável redução entre os resultados da busca inicial e os arquivos efetivamente baixados explica-se, não apenas pela eliminação de trabalhos que não eram artigos acadêmicos (incluindo teses, dissertações e livros), mas também pela existência de artigos sobre efeitos da atividade de lavagem de automóveis, especialmente em língua inglesa.
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As repetições mencionadas referem-se à presença dos mesmos artigos em bases diferentes.
As análises foram realizadas sobre os metadados dos artigos, com os quais construímos as variáveis da pesquisa, apresentadas nas próximas seções conforme os resultados são exibidos. As bases bibliográficas não são, contudo, homogêneas na apresentação dos metadados. Havia, por exemplo, um conjunto de dados imprescindível, porém indisponível na maioria dos artigos, qual seja, suas referências bibliográficas. Nesses casos, empregou-se o software de análise de conteúdo Tagette, que oferece, entre outras funcionalidades, a criação de etiquetas (tags) e codificações e sua marcação manual sobre um corpus textual, inclusive em .pdf, sem necessidade de conversões de formato. Estabeleceu-se, então, uma tag “ref.bib” e marcou-se cada uma das autorias das bibliografias referenciadas nos artigos.
Após as marcações, exportou-se, via Tagette, uma planilha com duas colunas: Id.artigo e ref_bib. Com o suplemento Power Query do Excel, juntou-se esta planilha com aquela que continha os demais metadados, usando-se a coluna Id.artigo, presente em ambos os arquivos, como chave primária. Com isso, montou-se o banco de dados com todas as variáveis necessárias à pesquisa.
Este conjunto de procedimentos seguiu o fluxograma (Figura 1) e o protocolo (Quadro 1).
IV. Resultados e discussão
IV.1. Características gerais da produção
Na caracterização bibliométrica do corpus descrevem-se aspectos como perfil dos autores, locais/centros onde os artigos são produzidos e publicados; periódicos que os recepcionaram, incluindo suas áreas; autores e filiações institucionais etc. Ou seja, retrata-se quem produz, quem publica e onde o faz.
Quanto ao gênero da autoria, há predominância masculina. Os homens são 126 (60,6%) dos 208 autores dos artigos, seguindo a tendência geral da produção do conhecimento científico na qual ainda há predominância masculina em diversas áreas, porém com tendência de aumento da participação das mulheres e equilíbrio entre os gêneros nas últimas décadas (Elsevier & Agência Bori, 2024).
No que se refere aos países das instituições dos autores, predominam pesquisadores(as) filiados(as) a instituições de ensino e pesquisa brasileiras. A Tabela 1 mostra os países quando tal identificação foi possível.
A produção é geograficamente concentrada. Nos casos em que a informação está disponível, três estados do Sudeste Brasileiro e um do Sul - São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais e Paraná - abrangem 65% dos autores (Tabela 2). Tal dinâmica não ocorre na distribuição institucional. Alguns centros têm algum destaque - UFSC, UERJ, FGV, UFPR e USP -, porém cada um deles abrange apenas cerca de cinco por cento dos autores cuja filiação institucional foi identificada.
Após atingir o pico em 2018, o número de artigos começa a cair em 2019 (Figura 2), assinalando um esfriamento do interesse acadêmico pelo CLJ. Tal esfriamento coincide com a eclosão do caso Vaza Jato, no qual a agência de notícias The Intercept Brasil revelou trocas de mensagens entre atores jurídicos (juízes e procuradores) envolvidos no caso, com fortes indícios de irregularidades em suas condutas.
A dispersão da produção é ainda maior quanto ao destino. Os 119 artigos distribuem-se em 108 diferentes periódicos. Nenhum se destaca, embora a Revista Brasileira de Ciências Criminais e a Revista de Contabilidade e Organizações sejam as que mais publicaram (com quatro e três artigos, respectivamente).
A maioria dos artigos (67, ou 56,3%) é publicada em coautoria. O português é o idioma de mais de três quartos dos artigos, seguido, com algum destaque, pela língua inglesa (lembrando que parte dos textos em língua estrangeira está presente em periódicos brasileiros), conforme apresenta a Tabela 3, que também mostra as áreas do conhecimento das revistas onde os artigos foram publicados. Apesar de o CLJ constituir objeto multidisciplinar, interpelado por pesquisadores de diferentes especialidades, constata-se alguma concentração nas áreas de produção, especialmente Direito; Administração Pública e de Empresas, Ciências Contábeis e Turismo; Interdisciplinar; e Ciência Política e Relações Internacionais5.
A Figura 3 mostra que as mulheres e homens que escreveram os artigos distribuem-se de maneira uniforme entre as áreas do conhecimento, exceção feita às áreas de Comunicação e Informação e Linguística e Literatura, nas quais a presença feminina relativa é significativamente maior.
IV.2. Análise de coocorrência
A segunda parte das análises utilizou técnicas de análise relacional para verificar como os artigos do corpus articulam-se entre si, formando possíveis comunidades epistêmicas e temáticas. Inicia-se pela análise de coocorrência (Clemente et al., 2021; Santos et al., 2017), que examina elementos dos artigos como palavras-chave, resumos, títulos, textos, para localizar temas correlatos, áreas e sentidos epistemológicos da produção. Optou-se, aqui, por utilizar as palavras dos resumos dos artigos, com as quais se identificaram clusters, mediante o algoritmo de modularidade da Análise de Redes Sociais (ARS), presente no software Gephi.
A análise exigiu procedimentos de normalização dos textos. O primeiro foi traduzir resumos em língua estrangeira para o português. A seguir, eliminaram-se as stopwords, expressões como artigos, verbos, pronomes, preposições etc. que não compõem propriamente o conteúdo dos textos, cumprindo a função de conectar seus termos-raiz. Nessa fase, suprimiram-se também termos genéricos e/ou sem função semântica específica, como operação e lava-jato (presentes, por óbvio, em praticamente todos os resumos), Brasil, brasileiro(as) etc.
Finalmente, com o software OpenRefine e o suplemento Fuzzy Lookup do Excel, efetuou-se a desambiguação de termos para uniformizar a grafia de palavras que, para os propósitos da pesquisa, têm o mesmo significado dentro do corpus. Por exemplo, a palavra “colaboração”, aparece tanto no singular quanto no plural, para efeitos analíticos assume valor único - “colaboração(ões)”.
Após a normalização, utilizaram-se as palavras dos resumos dos artigos das diferentes áreas para construir uma rede bimodal, ou seja, com dois tipos de nós, no caso, as palavras dos resumos ligadas pelas áreas acadêmicas dos artigos que as empregam (Figura 4). Os nós que representam as palavras estão dimensionados pelo grau ponderado de entrada, ou seja, o número de artigos que as citam em seus resumos. Cada par de palavra e área forma uma aresta, cuja espessura varia conforme o número de artigos de determinada área que mencionam aquela palavra. Os rótulos correspondentes às palavras estão em letras minúsculas e os correspondentes às áreas, em maiúsculas. Na Figura 4, foram incluídas apenas as palavras citadas por pelo menos cinco artigos, ou seja, com grau ponderado maior ou igual a 5. Destacam-se, como termos mais citados, os seguintes: processo(s) (mencionado por 44 artigos), corrupção (42), política (39), investigação(ões) (33), federal (28), empresa(s) (23), econômico(as), jurídico(s) e público (21), estado (20), Dilma-Rousseff, escândalo(s) e poder (19).
A mesma figura também mostra o resultado da aplicação do cálculo de modularidade (resolução 1.0), com o qual foi possível identificar clusters, ou seja, comunidades de áreas e palavras mais próximas entre si. Com isso, foi possível distinguir seis agrupamentos representados por diferentes cores no grafo. O Quadro 2 descreve os clusters identificados na Figura 4.
Complementando a análise de coocorrência de termos, apresentamos agora uma breve revisão do corpus dos artigos selecionados, conforme os clusters identificados na Figura 4. Um agrupamento claramente identificado, em verde, à esquerda do grafo, é o de palavras mais mobilizadas pelos 35 artigos da área do direito.
O que mais chamou a atenção dos estudiosos do direito foram os acordos de delação premiada celebrados com réus do CLJ. Tais acordos foram submetidos à análise crítica, apontando-se problemas potenciais como seletividade na escolha dos réus beneficiados, violação de requisitos legais como a voluntariedade da adesão e a verossimilhança dos fatos delatados, e uso impróprio de prisões preventivas para forçar acordos deste tipo (Bottino, 2016; Rodrigues et al., 2020; Canotilho & Brandão, 2017; Matos Filho, 2017; Viégas & Murad, 2017; Alves, 2018; Cipriano & Neves, 2018; Matos, 2018; Gonçalves & Moreira, 2018; Sá, 2018; Wermuth & Dalla Zen, 2020; Santoro, 2020). Rodrigues & Arantes (2020) abordaram os acordos de colaboração premiada sob outra perspectiva, argumentando que sua celebração foi estimulada a partir do momento em que o STF, sob impacto do CLJ, passou a admitir a execução da pena após condenação em segunda instância. Os acordos de leniência celebrados com empresas envolvidas no CLJ também se tornaram objeto privilegiado da produção bibliográfica no campo do direito (Leite & Gonçalves, 2020; Souza & Oliveira, 2015; Alves, 2018)6.
O procurador Carlos Fernando dos Santos Lima, agente diretamente envolvido no CLJ, publicou texto sobre o surgimento do caso, seus resultados, as causas de seu êxito e suas lições para o combate à corrupção (Lima, 2019). Entretanto, mais numerosas são as obras da área que levantam a questão da suspeição e da parcialidade dos operadores do direito envolvidos no CLJ, bem como da ilegalidade e da arbitrariedade de diversos atos praticados por esses agentes, ou ainda dos problemas decorrentes de agirem sob influência da opinião pública, de convicções ideológicas ou de interesses políticos (Svistun, 2017; Andreassa Jr., 2018; Chiari et al., 2018; ávila & Roque, 2019; Baptista, 2020; Carvalho & Ferreira, 2020).
Destacam-se, ainda, textos de inspiração institucionalista que veem no modelo político e eleitoral brasileiro as raízes de escândalos de corrupção como o CLJ (Figueiredo, 2018) ou que analisam o efeito do caso sobre as relações entre os poderes executivo e legislativo no presidencialismo de coalizão brasileiro (Katz, 2018; Paffarini, 2020).
A área também focaliza temas como a colaboração jurídica internacional deflagrada pelo CLJ (Bechara et al., 2019; Chaves & Oliveira, 2019); os vínculos e as redes criminais reveladas pelo escândalo (Salamanca et al., 2018); o crime de lavagem de dinheiro como elemento central no CLJ (Maragno & Borba, 2019); a caracterização da Petrobras como uma empresa “too big to fail”, derivando-se daí a necessidade de conciliar a punição dos responsáveis pela corrupção na empresa com a preservação desta (Andrade & Souza, 2016); o uso da “emendatio libelli” no CLJ, ou seja, da permissão dada ao juiz pelo artigo 383 do Código Processual Penal para atribuir definição jurídica diversa ao fato descrito na denúncia, bem como o impacto deste instituto sobre nulidades na imputação criminal (Gloeckner, 2016); os desafios que escândalos como o CLJ colocam à realização do estado democrático de direito na modernidade periférica (Mendes & Ferreira, 2017); o incentivo do CLJ à adoção de programas de “compliance” concorrencial nas empresas (Ragazzo, 2018), bem como ao uso de “performance bonds”7 na contratação de obras públicas, objetivando-se garantir a execução dessas obras (Nunes & Lehfeld, 2018); e os votos da 8ª. Turma do TRF-4, instância de apelação dos recorrentes das decisões tomadas pelo juízo da 13ª. Vara Federal de Curitiba, na qual foram julgadas muitas denúncias do caso (Nery, 2018).
Outro agrupamento nítido, em laranja à direita no grafo, reúne as palavras mais frequentes nos 25 artigos das áreas de ciência política e relações internacionais, sociologia, economia e saúde coletiva, ou seja, ciências sociais ou áreas próximas deste campo científico.
Neste cluster, o tema mais destacado foi o CLJ como catalisador da crise política que resultou no impeachment da presidenta Dilma Rousseff em 2016 (Bonalumi & Manzo, 2016; Bastos, 2017; Seitenfus, 2017; Domingues, 2017; Almeida, 2019; Pinto et al., 2019; Veiga et al., 2020; Carvalho & Palma, 2020) e na implosão do establishment político, tendo como consequência a ascensão de uma “nova direita”, liderada por Jair Bolsonaro (Gallego et al., 2017; Santos & Tanscheit, 2019), e trazendo riscos para o futuro da democracia brasileira (Ribeiro et al., 2016; Avritzer & Marona, 2017; Nunes & Melo, 2017; Menezes, 2018).
Outro objeto que recebeu grande atenção neste cluster foram os operadores jurídicos do CLJ. De um lado, tais agentes são submetidos a estudos de prosopografia que focalizam seus perfis sociobiográficos e carreiras profissionais (Oliveira et al., 2017). De outro lado, há um conjunto de artigos nos quais predomina uma visão crítica acerca da atuação política e jurídica desses atores, (i) problematizando-se o abuso da delação premiada (Lima & Mouzinho, 2016), (ii) comparando-se sua atuação à dos operadores do caso italiano “Mãos Limpas”, por recorrerem a instrumentos similares que, por um lado, facilitam o alcance de resultados imediatos (delações, disputa pela opinião pública e aproximação entre polícia, ministério público e juiz), mas que, por outro lado, deixam consequências negativas por violar direitos dos acusados, ou por contrariar a divisão de tarefas essencial para a boa operação do sistema de justiça (Kerche, 2018), e (iii) destacando-se a campanha pública por eles promovida em defesa de controversas medidas de combate à corrupção (Almeida, 2019).
Destacam-se, ainda, quatro temáticas distintas. Primeiramente, os desdobramentos do CLJ em governos subnacionais brasileiros, em outros países da América Latina e no governo pós-petista de Michel Temer (Wesche & Zilla, 2017). Em segundo lugar, o impacto econômico do CLJ sobre o setor de construção pesada (Campos, 2019) e sobre a própria Petrobras (Ceppi & Pereyra Doval, 2020). Em terceiro lugar, a interpretação do CLJ mediante diferentes abordagens analíticas, como a perspectiva sociológica de Fernando Henrique Cardoso (Brito, 2017) ou a perspectiva da teoria econômica austríaca da escolha pública (Muramatsu & Scarano, 2019). E, em quarto lugar, a abordagem da mídia sobre o CLJ, focalizando a cobertura francamente favorável à operação pelos jornais Gazeta do Povo (Athanásio, 2017) e Folha de S. Paulo (Alves & Geraldini, 2019), ou o impacto da cobertura de revistas como Carta Capital, época, Istoé e Veja sobre a opinião pública quanto a temas como percepção da corrupção, confiança nas instituições e avaliação do governo (Baptista, 2018). Esta última temática, relativamente residual nos artigos deste cluster, adquire proeminência nos trabalhos pertencentes aos clusters de comunicação e linguística, como será mostrado adiante.
No meio do grafo, em azul, aparece um terceiro cluster de palavras mais associadas aos 23 artigos das áreas de administração e engenharia. Nessas áreas, os papers concentram-se em torno de seis temas principais: primeiramente, trata-se do efeito do CLJ sobre a Petrobras, como um choque externo que afeta o “projeto pré-sal” (Elbeling, 2016), impactando o valor da empresa no mercado de capitais (Vilela et al., 2019) e destacando as falhas e as necessidades de aprimoramento dos sistemas de auditoria e de governança corporativa da empresa, para que os casos de desvios de recursos possam ser identificados e combatidos tempestivamente (Duarte Jr., 2016; Alves & Martins, 2018; Souza & Faria, 2020).
Em segundo lugar, aborda-se o efeito do CLJ sobre as empresas privadas envolvidas no escândalo. Esta parte da literatura explora, por exemplo, o impacto do caso sobre a rentabilidade das empresas e seu valor no mercado de capitais (Araújo et al., 2018; Pereira et al., 2018). Um dos artigos propõe um caso de ensino a partir da história da “Construtora Maciel”, empreiteira imaginária envolvida no CLJ e que enfrenta o desafio de resgatar sua credibilidade e imagem institucional, além de reter e motivar seus funcionários (Motta & Corá, 2019). A literatura trata, ainda, de relatórios produzidos pelas companhias abertas participantes do esquema, destacando-se a importância de auditoria contábil externa sobre os relatórios financeiros das empresas (Ribeiro & Martins, 2016) e submetendo-se os relatórios de “guidance” dessas empresas à análise crítica (Arantes et al., 2019).
Dentre as organizações privadas envolvidas no escândalo, a atenção da literatura concentrou-se sobre a maior delas: o grupo Odebrecht. Assim, a terceira vertente da literatura aponta a contradição entre a cultura organizacional da empresa e seu comportamento efetivo no escândalo (Morales & Morales, 2019) e estuda a corrupção organizacional no interior do grupo, a partir dos acordos de colaboração premiada de seus executivos (Rodrigues & Barros, 2020).
O quarto tema tratado pela literatura é o efeito do CLJ na economia. De um lado, mensuram-se os prejuízos econômicos causados pelos crimes revelados na operação judicial (Sallaberry et al., 2020); de outro, avaliam-se os efeitos do caso na redução do investimento e do crescimento da economia brasileira (Padula & Albuquerque, 2018).
O impacto do CLJ no trabalho de órgãos públicos é o quinto assunto de destaque. Castro & Ansari, (2017) analisam o contexto que empoderou os agentes públicos envolvidos na Lava Jato em seus esforços de combate à corrupção. Oliveira Jr. (2018) procura mostrar como o CLJ deflagrou um conflito entre a Polícia Federal e o Ministério Público por competências de investigação. Signor, Love Belarmino & Olatunji (2020) propõem um método para evitar conluios em licitações, elaborado a partir das investigações do caso.
A cobertura da mídia sobre o CLJ também despertou o interesse dos pesquisadores dessas áreas, consistindo na sexta temática explorada nos trabalhos. Medeiros & Silveira (2017) mostram como o jornal Folha de S. Paulo e a revista Veja construíram o discurso sobre o escândalo político em torno da Petrobras. Gomes & Medeiros (2018) exploram o conflito de visões sobre este escândalo entre as revistas Veja e Carta Capital. Seefeld & Rese (2020) discutem como as revistas Veja, Carta Capital e Exame produziram narrativas sobre os papeis dos agentes envolvidos no CLJ.
Por fim, três artigos dessas áreas abordam o CLJ com enquadramentos mais específicos. Gonçalves & Andrade (2019) propõem uma interpretação do caso a partir dos conceitos durkheimeanos de fato social e anomia. Maragno et al. (2019) exploram a rede de vínculos que ligam entre si os indivíduos acusados pelas denúncias do Ministério Público Federal. Fernandes et al. (2019) situam o CLJ num contexto mais amplo de rejeição da política e de suas instituições, que remonta às manifestações de 2013, passa pelo impeachment de Dilma Rousseff e desemboca na eleição de Jair Bolsonaro como presidente da república.
Na parte inferior esquerda do grafo situa-se um agrupamento de palavras mais associado aos 16 artigos de duas áreas da CAPES: interdisciplinar e antropologia. Esses artigos podem ser divididos em cinco abordagens principais8.
A abordagem econômica prepondera em parte dos trabalhos, voltados, sobretudo, às empresas privadas atingidas pelo CLJ. Alguns artigos focalizam o grupo Odebrecht, discorrendo sobre o processo de internacionalização da empresa na América Latina, desde os anos 1980 até o governo Lula (Moura, 2019) e avaliando o impacto do CLJ sobre os resultados da organização, a partir da análise de suas demonstrações contábeis (Marzzoni & Souza, 2020). O texto de Andrade et al. (2020) aponta a contradição entre o discurso de responsabilidade social corporativa de empreiteiras envolvidas no CLJ e suas práticas de gestão tributária a partir dos conceitos de “hipocrisia organizada” e “fachada organizacional”. Outras questões econômicas aparecem no trabalho de Pahnke (2018), para quem a raiz do escândalo de corrupção revelado pelo CLJ está no modelo neoextrativista predominante nas indústrias brasileiras exportadoras de matérias-primas, e no trabalho de Ikeda Jr. et al. (2018), que exploram o impacto negativo da redução do investimento ocasionada pelo CLJ em áreas do estado do Rio de Janeiro (município de Itaguaí e o bairro de Santa Cruz, na capital do estado).
Outros artigos são marcados pela abordagem jurídica, tais como o do então juiz Sérgio Moro (2018), protagonista do CLJ, que descreve os achados e resultados do caso, e defende que o caso oferece lições que podem ser aproveitadas em outros esforços de combate à corrupção; o de Palharini & Silva (2018), que constitui análise quantitativa e qualitativa dos acordos de colaboração premiada celebrados no CLJ; e o de Cavalcante (2018) sobre a aplicação das leis de improbidade administrativa e anticorrupção nos processos judiciais do caso.
A abordagem do CLJ pela ótica da comunicação também está presente nesses artigos, como no de Bähre & Gomes (2018) analisando memes produzidos contra o ex (e atual) presidente Lula, a partir do CLJ, e no de Alves (2019), que reflete sobre as relações entre a mídia brasileira e as elites políticas e econômicas do país a partir da cobertura do CLJ no Jornal Nacional e na revista Veja.
A abordagem pelo prisma social marca os trabalhos de Boito Jr. (2016), que submete os operadores jurídicos do CLJ a uma análise de classe; de Cavalcante (2020), que liga o CLJ à adesão da classe média brasileira ao campo liberal-conservador e à base social do bolsonarismo; e de Delgado et al. (2020), para quem o CLJ deixou como legado cultural na sociedade brasileira a rejeição ao patrimonialismo, à corrupção e ao nepotismo.
Finalmente, o CLJ é abordado pela lente das artes. Nesta linha, Silva & Nasato (2017) partem de obras do artista plástico Vik Muniz, apreendidas nas casas de réus do caso e postas em exibição no museu Oscar Niemeyer (Curitiba) para traçar um paralelo entre o lixo (de verdade, usado nas obras do artista, e metafórico, representado pelo escândalo de corrupção) e o luxo em que viviam aqueles réus, acusados de lavar dinheiro mediante a compra de obras de artistas valorizados. Pereira (2019), por sua vez, debate questões levantadas pelo filme “Polícia Federal: a lei é para todos”, que retrata a atuação da PF no CLJ.
Na parte inferior central do grafo encontram-se dois clusters, próximos um do outro, que reúnem os termos mais utilizados pelos artigos de periódicos de duas áreas: em rosa, comunicação e informação, e em vinho, linguística e literatura.
Dentre os 10 artigos de comunicação e informação, predominam estudos sobre a estratégia de tratamento do CLJ por órgãos noticiosos nacionais como revistas (por exemplo: Veja), jornais (por exemplo: Folha de S. Paulo) e redes de televisão (por exemplo: telejornais da Rede Globo) (Cioccari, 2015; Ladeira-Mota & Soares-de-Almeida, 2017; Segurado, 2018; Dias, 2018). Esses estudos exploram criticamente o enquadramento do CLJ como escândalo político-midiático, a espetacularização do combate à corrupção e a exposição midiática concedida aos agentes públicos envolvidos na investigação ou no julgamento do caso (Polícia Federal, Ministério Público Federal e poder judiciário).
Nesta área também há trabalhos sobre a cobertura da mídia nacional aos acordos de colaboração premiada celebrados com réus do CLJ (Silva et al., 2018), sobre a estratégia discursiva da mídia e do Ministério Público Federal na divulgação das gravações feitas pelo empresário Joesley Batista contra o então presidente Michel Temer e o então senador Aécio Neves (Pozobon & Müller, 2018) e sobre o discurso da mídia acerca das manifestações sociais contra as reformas trabalhista e previdenciária do presidente Michel Temer, que assumiu o governo após o impeachment de Dilma Rousseff, impulsionado pelo CLJ (Castro et al., 2018).
O trabalho da mídia internacional também foi escrutinado por artigos da área, como o de Prior (2018), comparando a narrativa da imprensa portuguesa sobre o escândalo Face Oculta à narrativa da imprensa brasileira sobre o CLJ, e o de Hoffmann & Martino (2018), abordando a cobertura do envolvimento de Lula no CLJ pela imprensa francesa.
Por fim, o estudo de Bueno (2018) mira a estratégia do grupo Odebrecht para limpar a imagem de sua marca, fortemente atingida pelo CLJ, mediante vídeos institucionais, marketing na grande imprensa, mudança de nome e logotipo de empresas do grupo, dentre outras medidas.
Quanto aos nove artigos da área de linguística e literatura, o tratamento da mídia nacional sobre o CLJ também recebeu destaque. A cobertura do caso pela mídia escrita (respectivamente, o jornal Folha de S. Paulo e o portal de notícias G1) foi o tema dos artigos de Lucena et al. (2018) e Rabelo et al. (2019). Outros trabalhos optaram por abordar a cobertura da mídia à condução coercitiva de Lula para depoimento na Polícia Federal em março de 2016 (Brum, 2017), por destacar a apropriação pela mídia do discurso dos operadores jurídicos do CLJ (Andrade, 2018), por comparar o discurso da mídia, antes e depois das eleições presidenciais de 2014, sobre os acordos de colaboração premiada celebrados com réus do caso (Kuwahara, 2018), e por analisar neologismos criados pela mídia com referência ao CLJ e ao governo Bolsonaro (Valente, 2019).
A figura de Lula reaparece com centralidade em mais dois textos da área. Costa (2018) trata dos gestos e da fala do petista em sua declaração final no depoimento realizado diante do então juiz Sérgio Moro em maio de 2017; Santos (2020) avalia as manifestações de cortesia e polidez no depoimento de Lula à PF em março de 2016. Já o artigo de Goldstein (2018) focaliza a acusação de envolvimento do vice-almirante Othon Silva em atos de corrupção durante a construção da usina nuclear de Angra 3. A autora enfatiza a tentativa dos apoiadores do oficial da Marinha, dispersos por todo o espectro político, de enquadrar a acusação contra ele como provocada por interesses externos, que estariam dispostos a impedir o Brasil de desenvolver seu potencial energético nuclear. Conforme essa visão, tal impedimento representaria um risco para a segurança nacional.
O último cluster da Figura 4, também situado na parte central e inferior, engloba as palavras do resumo de um único artigo da área de filosofia. Como nenhuma palavra foi citada 5 ou mais vezes neste resumo, nenhuma aparece associada ao cluster na referida figura. O artigo de Clemente Jr. (2016) baseia-se na teoria do filósofo Michel Foucault para argumentar que a mídia, ao proporcionar o espetáculo público da punição de poderosos acusados no CLJ, ajuda a mantê-los na defensiva, favorecendo a aplicação da lei penal.
V.3. Análise de cocitação
A cocitação ocorre quando dois ou mais produtos acadêmicos citam um mesmo autor. A análise de cocitação serve para identificar os autores que podem ser considerados cânones de um tema/objeto de estudo (Santos et al., 2017). Nesse sentido, esta seção procura detectar comunidades/clusters de autores e áreas a partir dos artigos sobre o CLJ. A análise foi precedida pela desambiguação de termos, operada com as ferramentas do Open Refine e do Fuzzy Lookup, necessária para uniformizar a grafia dos nomes dos autores (por exemplo, Ferrajoli apareceu citado tanto com esta grafia, quanto como FERRAJOLI, isto é, com todas as letras maiúsculas).
A Figura 5 mostra os autores referenciados em, pelo menos, dois artigos, e suas conexões com as áreas destes. Os autores mais citados e seus graus de entrada ponderados, ou seja, o número de artigos que os citam em suas referências bibliográficas, são os seguintes: Sérgio Moro (17), John B. Thompson (11), Luigi Ferrajoli (11), Aury Lopes Jr (10), Armando Boito Jr (9), Rogério Arantes (8), Sérgio Praça (8), Jessé Souza (8), Leonardo Avritzer (7), Pierre Bourdieu (7), Deltan Dallagnol (7) e Fernando Filgueiras (7). Após a aplicação do algoritmo de modularidade (resolução 1.0), o grafo resultante mostra seis clusters visivelmente demarcados.
Os nós que representam autores estão dimensionados pelo grau de entrada ponderado. Cada par de autor e área forma uma aresta, cuja espessura varia conforme o número de artigos de determinada área que citam aquele autor. Rótulos correspondentes às áreas estão grafados com letras minúsculas e os correspondentes aos autores, com maiúsculas. O Quadro 3 descreve os clusters de autores detectados.
Na parte central e inferior da Figura 6, encontra-se um cluster formado pelas áreas de Ciência Política e Relações Internacionais e de Saúde Coletiva. Neste cluster destacam-se, respectivamente, os cientistas políticos Rogério Arantes, com oito citações, Leonardo Avritzer, com sete citações, e cinco politólogos com seis citações cada: Frederico de Almeida, Fernando Limongi, Scott Mainwaring, Luís Felipe Miguel e Timothy Power.
Outro cluster encontra-se na parte superior direita e agrega as áreas de antropologia, de economia, de linguística e literatura e interdisciplinar. Aqui, os autores mais referenciados são o cientista político Armando Boito Jr, com nove citações, o sociólogo Jessé Souza, com oito citações, e, com seis citações, o ministro do STF Luís Roberto Barroso e o cientista político André Singer.
O cluster que engloba as áreas do direito e da filosofia está à esquerda e tem principais referências o ex-juiz do CLJ, Sérgio Moro, com 17 citações, o jurista garantista italiano Luigi Ferrajoli, com 11 citações, e o doutor em direito processual penal Aury Lopes Jr., com dez citações.
No cluster que abrange as áreas de sociologia e de comunicação, localizado na parte central e direita da Figura 6, destacam-se os cientistas sociais John B. Thompson, mencionado 11 vezes, Pierre Bourdieu, citado sete vezes, Erving Goffmann e Vera Chaia, ambos referenciados em seis oportunidades.
Administração nucleia o cluster situado na parte central e superior. Os autores mais citados, nesse caso, são o cientista político Fernando Filgueiras, com sete menções; a expoente da análise de conteúdo Laurence Bardin, e a especialista em estudos de corrupção, Susan Rose-Ackerman, ambas com cinco citações; e, com quatro referências, o jurista Raymundo Faoro e o economista Johann Graf Lambsdorff, criador do índice de Percepção da Corrupção.
Por fim, a área de engenharia compõe o cluster localizado na parte central e inferior da figura acima, e o autor mais citado deste cluster é o economista Pranab Bardhan, com duas referências.
é interessante perceber que, embora haja alguma correspondência entre os clusters identificados nas duas análises realizadas, ela não é exata. Por exemplo, na coocorrência de palavras, a Ciência Política e a Sociologia estão no mesmo cluster. Já na cocitação de autores, essas áreas estão em clusters distintos. Ou seja, ao analisarem o CLJ, as duas áreas compartilham termos, temas e abordagens, porém os interpelam a partir de bases intelectuais nitidamente diferentes.
VI. Considerações finais
A produção acadêmica sobre o CLJ caracteriza-se por ser essencialmente nacional e concentrada na Região Sudeste do Brasil e no estado do Paraná. Além disso, converge para algumas áreas do conhecimento (direito, administração, interdisciplinar e ciência política), porém é bastante dispersa entre instituições e revistas, não havendo nítidos núcleos centrais de produção e publicação.
Seguindo tendência geral da produção do conhecimento nas últimas décadas, a maioria da produção é em coautoria. A autoria é predominantemente masculina, sendo que a maior preponderância relativa dos homens vis-à-vis as mulheres está nas áreas da administração e do direito, enquanto a dominância relativa das mulheres é maior em comunicação e informação e em linguística e literatura.
O aumento dos artigos até 2018 e a queda a partir de 2019 suscita algumas hipóteses a serem testadas, tais como a falta de novidades no caso, a irrupção do escândalo da Vaza Jato ou mesmo a ida de Sérgio Moro, fulcral na investigação, para atuar no governo Bolsonaro como Ministro da Justiça, transmutando-se em ator político-partidário.
A análise relacional dos artigos revela uma distribuição em agrupamentos disciplinarmente orientados. Em outros termos, embora se trate de um mesmo objeto - o Caso Lava-Jato - sua interpelação varia em função da área de conhecimento, não havendo uma unidade disciplinar ou teórico-conceitual.
A rede de coocorrência de palavras dos resumos apresenta clusters que nucleiam termos mais próximos, formando nítidas comunidades temáticas. Focalizando as áreas de maior destaque dentre estas, depreende-se que, malgrado todas compartilharem o mesmo objeto, elas oferecem abordagens bastante distintas do fenômeno. Cada uma dessas áreas discute diferentes aspectos, mas comumente algum se destaca.
Em síntese, a área do Direito enfatiza a delação premiada em uma perspectiva crítica de eventuais equívocos e abusos. As áreas de Ciência Política e Relações Internacionais, Sociologia, Economia e Saúde Coletiva abordam principalmente os efeitos políticos e econômicos do CLJ na eclosão da recente crise institucional brasileira e na ascensão da extrema direita no país. O foco das áreas de Administração e Engenharia são os efeitos sobre as organizações, especialmente grandes players, como a Petrobras e a Odebrecht. As áreas de Comunicação e Informação e de Linguística e Literatura buscam, entre outras coisas, jogar luzes sobre o enquadramento midiático do CLJ, especialmente na grande imprensa. Aqui também vale mencionar a centralidade obtida pelos estudos de corrupção, seja em perspectiva jurídica, seja nas perspectivas sócio-político-econômica e organizacional-administrativa.
Os resultados revelam o caráter multidisciplinar e relativamente fragmentário da produção acadêmica sobre o caso. Tal tendência se confirma na rede de cocitação de autores, em que os autores compartilhados pelos artigos se aproximam em função das disciplinas que mais os mobilizam e dos quais são cânones, ao menos para a análise do CLJ.
Há caminhos promissores para novos trabalhos que tratem da produção acadêmica sobre o CLJ. Em primeiro lugar, o presente texto aborda apenas artigos publicados até agosto de 2020. Um desafio que se coloca é incluir na análise a literatura produzida desde então e também em outros formatos, principalmente livros, cujas dimensões mais alargadas muitas vezes permitem uma análise mais abrangente do objeto estudado. Em segundo lugar, novos estudos podem concentrar-se sobre a produção acadêmica de áreas específicas, sobretudo as mais pujantes (Direito, Administração e Ciência Política), pois o recorte disciplinar favorece a análise mais detalhada do conteúdo das publicações. Em terceiro lugar, há espaço para trabalhos que avaliem de forma mais aprofundada se e como a produção acadêmica sobre o CLJ foi impactada por fatos marcantes na linha do tempo do caso (escândalo Vaza Jato, encerramento das Forças-Tarefas, revisão de decisões de instâncias judiciais inferiores pelo STF etc.) e na trajetória de seus principais personagens (juízes, procuradores e principais réus).
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1
Os autores agradecem o apoio recebido da FAPESP, por meio do projeto “Crime corporativo e corrupção sistêmica no Brasil” (Processo n° 17/24464-7). Agradecem também as sugestões dos pareceristas anônimos da Revista de Sociologia e Política, que possibilitaram melhorias significativas ao texto original.
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2
As informações apresentadas nesta seção foram obtidas na página mantida pelo Ministério Público Federal sobre o Caso Lava Jato (MPF, s.d.). Focalizamos apenas as denúncias apresentadas entre março de 2014 e agosto de 2020.
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3
Sobre o desenvolvimento da Ciência da Informação, em geral, e as “metrias”, em particular, ver Salini (2016).
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4
Atributos relacionais resultam das interações entre indivíduos, sendo cruciais para a Análise de Redes Sociais (ARS). Tomem-se, por exemplo, duas pessoas iguais em gênero, renda, idade e raça, porém uma com poucas conexões em sua rede social, enquanto a outra tem múltiplas relações. As diferenças entre as duas só podem ser capturadas por uma abordagem relacional de suas distintas interações.
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5
Para esta classificação, consideram-se as áreas da Avaliação da Capes, a partir das quais se realizaram pesquisas nos sites dos periódicos e no Diadorim (Diretório de Políticas Editoriais das Revistas Científicas Brasileiras), do IBICT.
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6
A semelhança entre acordos de colaboração premiada e de leniência é que ambos envolvem a contribuição do acusado para o avanço das investigações. A diferença é que a colaboração premiada se dá na esfera criminal, enquanto a leniência se dá na esfera administrativa.
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7
Performance bond é um seguro exigido pelo contratante e pago pelo contratado para garantir a execução do contrato.
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8
O artigo de Couto (2018) não possui resumo e, portanto, não contribui para a clusterização na figura 4 nem aparece nesta discussão do conteúdo dos artigos.
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Nota: *a soma dos percentuais de cada gênero nas diferentes áreas totaliza 100%.Fonte: elaborado pelos autores com dados da pesquisa nas bases bibliográficas, 2021.
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